Agulha em Palheiro Quinta edição
Chapter 6
«O _Campo santo_ exhala poesia de morte, a poesia do nada, a poesia da immortalidade. Este é o verdadeiro cemiterio do christão: não se sente aqui a constricção d'alma que nos causa o tumulo do homem, suave e religiosa melancholia vae comvosco por entre as quatro galerias funebres, e vos inspira pensares de morte sem pavor. Este torrão não se desentranha em ossadas, nem o verme corroe as carnes: é terra milagrosa que preserva os corpos do insulto das herpes. Envolve-se em magnifico lençol de relvados floridos; inquadra-se em puras e graciosas ogivas do marmore alvissimo: é terra de Jerusalem sobre as galerias travadas; os cadaveres dos velhos christãos de Piza estão aqui santificados; é o leito de descanço dos homens fortes, que morreram em Deus, com a espada á ilharga e os rins ciliciados. Quão suave é este ciciar da relva que ressoa ao longo das galerias! Cuidaes ouvir psalmodia entoada por sombras, hymno de sepulcros escripto em linguagem, que, só depois da morte conheceremos.»
Mas não era cemiterio remanso ao soffrimento do moço. Ancias de coração não as suavisa a philosophia da morte. Aquillo serve para os que, n'outro ponto, deixaram fechada a sepultura de suas esperanças.
Passou arrastado o dia, sem que Fernando encontrasse vestigios de Paulina. Na manhã do seguinte dirigiu-se á praça onde se ergue a famosa _torre torta_, que o leitor tem visto pintada, e que o marquez de Tavira queria ver, mais que tudo. De feito, estavam o curioso emigrado e Bartholo e as meninas ao pé da maravilha, quando Fernando assombrou n'um angulo da praça.
Foi Paulina quem primeiro o viu, e trocou olhares de susto com Eugenia. Bartholo de Briteiros, que já muitas vezes admirara a inclinação mysteriosa da torre, estava mais attento nos palacios da praça, e, de relance, viu parado o portuguez.
--Aquelle não é o Fernando Gomes?!--disse elle ás filhas.
--Parece...--balbuciou Paulina.
--Quem?--disse o marquez.
--Aquelle patricio em que eu te falei, primo Tavira.
--Ah! o mindeleiro?--tornou o primo.
--Tal qual.
--Sempre lhe quero ver o bellicoso aspeito! Ainda não vi um dos sete mil e quinhentos roldões do Mindello--tornou o marquez, dando a saber que tinha sua tal qual instrucção do _Carlos Magno_.
Fernando, posto que tarde, simulou que não vira Bartholo, e foi indo lentamente seu caminho.
O fidalgo deixou as meninas com o marquez, e atravessou a praça, estugando o passo, para se avisinhar a distancia que elle o ouvisse chamar.
--Sr. Fernando! clamou Bartholo--patricio! vae tão meditabundo! Parece que receia que a torre venha abaixo?!
Fernando olhou com bem fingida surpreza, e retrocedeu a comprimentar o fidalgo.
--Então por aqui!--disse o pae de Paulina.--Acolá estão as meninas, e meu primo o marquez de Tavira, chegado hontem de Roma. Venha cá, se quer conhecer um dos primeiros fidalgos de Portugal.
--Com muito prazer irei comprimentar um primo de vossa excellencia--disse Fernando.
--Aqui está o senhor Gomes--disse Bartholo ao fidalgo--filho de Lisboa, bacharel em direito, e bom rapaz, posto que mordeu muito cartucho nas linhas do Porto, na qualidade de soldado do batalhão academico, e é, aqui onde o vê, cavalleiro da torre e espada, valor, lealdade e merito!...
O sorriso, que envenenava estas palavras, queimou o sangue do filho do artista. Paulina tinha os olhos fitos n'elle, olhos de dôr e compuncção. Se Fernando os visse, daria graças a Deus pela angustia que lhe era premiada com a maviosa paixão d'elles.
O marquez gesticulou ligeiramente um cortejo de cabeça, e disse:
--Consta-me que em Portugal é toda a gente condecorada por façanhas das linhas do Porto!
--Toda a gente, não, senhor marquez--disse Fernando.--Ás linhas do Porto não foi toda a gente, mas todos quantos lá estiveram mereciam bem a condecoração de valor, lealdade e merito.
O legitimista desfranziu um riso de compassivo escarneo, e disse:
--Em quanto a _valor_, o general Povoas que o diga, se os _valorosos_ o não querem dizer. Em quanto a lealdade, bem se sabe qual foi a lealdade dos bravos que apedrejaram com patacos D. Pedro no theatro, e mataram Agostinho José Freire nas ruas de Lisboa. Em quanto a merito, isso agora é uma questão de barriga: a barriga de cada um é que diz o merito de cada qual...
Fernando olhou de revez o marquez, e disse a Bartholo:
--Vossa excellencia continúa a admirar a torre, e eu vou dar as voltas que preciso, antes de recolher-me a Florença.
O marquez ficou mais que muito corrido d'este ar de desprezo com que Fernando replicou aos seus dizeres, que elle imaginou não só irrespondiveis, mas capazes de atirar a terra com os creditos de uma politica. Bartholo tambem se desgostou do menos preço com que o _quidam_ tratava seu primo, e não teve mão da sua zanga, exclamando:
--Então não tem resposta o que alli disse meu primo?!
--Não, senhor--disse Fernando Gomes.--Dá-me sua excellencia as suas ordens?
--Passe muito bem, senhor Gomes--disse Bartholo, chofrado.
Paulina e Eugenia corresponderam ao comprimento reverencioso de Fernando. Paulina sentia-se contente, soberba da dignidade d'aquelle moço; Eugenia, porém, doía-se da quebra de brios que soffrera o primo, temia que a ira do pae resultasse desgosto á irmã, e anteviu a impossibilidade de nunca mais os dois se approximarem, sem aberta declaração de guerra com o pae.
--Este sujeito--disse, azedado, o de Tavira--quem é lá na sua terra?
--Eu sei cá? É o senhor Fernando Gomes; tal m'o apresentou Jeronymo Bonaparte! Estes Bonapartes, que se fizeram reis mais depressa que os reis do theatro do Salitre e da rua dos Condes, impingem á gente com titulo de _notabilidades_ quantos patavinas os visitam no desterro! Qualquer pintor, esculptor, ou poeta, em casa do principe de Monfort é egual aos duques, e tem uma cadeira ao lado dos principes. Quem lá vae tem de apertar a mão ao pianista Sampieri, ao cantor Tachinardi, á cantora Degli-Antoni, ao poeta Méry, ao pintor Vernet, ao esculptor Bartolini, e ao senhor Fernando Gomes, que, no dizer do ex-rei de Westphalia, é um enorme sabio. Aqui tens tu, primo marquez, como eu conheci o senhor Gomes. Dei-lhe uma vez entrada em minha casa, porque me pareceu humilde o sujeito: agora descobri que elle tem seus fumos de orgulho!...
--Não se me dava de lhe abater a prôa!--atalhou o marquez.--Queria ver se estes valentões do Mindello sustentam a fama cá fóra das linhas...
Bartholo riu-se, e Paulina olhou em rosto o primo com visivel gesto de despeito.
--Porque?!--disse ella, com mal represada ira.
--Paulina!--murmurou-lhe Eugenia ao ouvido.
Bartholo não dera conta d'este incidente, e o marquez, quando ia esclarecer a significação do gesto extranho de sua prima, viu que ella voltava o rosto, e se encobria com as franjas da _sombrinha_.
--Querem ver que ella ama o tal sujeito?!--disse o marquez entre si, e differiu para mais ao diante a elucidação d'esta importante suspeita.
No dia seguinte a familia voltou para Florença.
Fernando já tinha ido.
Ás affrontosas palavras do marquez de sobra respondera o silencioso desprezo do filho do artista: não obstante, o tom injurioso alanceara-lhe muito dentro o coração, por ter sido Paulina testemunha da zombaria.
Pensava elle que a filha do nobre devia ama-lo menos por ve-lo assim desdourado, e sem vingança egual ao affrontamento. É um inferno, na alma de quem ama, pensar assim!
XI
Ao cabo de tres semanas de hospedagem regalada, disse o marquez a Bartholo:
--Ora, primo e amigo, é tempo de continuar a minha missão, que interrompi por tres semanas. Bem sabes que a politica me não deixa ser das minhas vontades. Preciso de ir a Inglaterra em serviço do rei e da nossa causa. Tu, como rico em toda a parte do mundo, não queres participar dos trabalhos lentos da restauração: fazes bem, primo Briteiros: eu é que não posso libertar-me d'esta missão diplomatica. Espera-me o Saraiva em Londres, e o rei em Berlim, no espaço de quarenta dias. Aqui tens a razão da minha saída.
--Pois vae, primo--disse Bartholo--mas logo que te desempenhes d'essa missão, volta a viver comnosco em Florença.
--Não prometto.
--Não promettes, marquez? Pois assim nos pagas a boa vontade com que te convido e o muito affecto das meninas, que te desejam comnosco?!
--Se ellas me desejam--tornou o primo com intencional sorriso--isso é que resta demonstrar, primo Bartholo...
--Pois que! duvidas?
--D'uma, duvido; da outra tenho quasi a evidencia que me deseja vêr pelas costas.
--Ora essa! qual d'ellas?
--Permitte que não vamos adiante n'esta penosa conversação, primo... Evitemos desgostos communs. Tanto soffrerias tu, como eu tenho soffrido...
--Que tens soffrido, marquez? Pois ainda agora m'o dizes!...--tornou Briteiros sinceramente inquieto.
--Devêra ter-t'o dito ha muitos dias, desde o segundo em que vi tua filha Paulina... basta.
--Homem! explica-te, se não eu obrigo-te a faze-lo por tua honra!
--Pois que assim o queres, sabe a verdade inteira, e reprehende-me se eu tiver procedido mais segundo os dictames do coração, que os da honra e parentesco. Eu amei tua filha Paulina com paixão. Se não t'o disse logo, foi porque me julguei superior a mim mesmo, e aos despotismos do amor. Muitas vezes em Portugal, em Paris, em Roma, em todas as capitaes da Europa, me julguei vencido por diversas mulheres que encontrei; e, logo depois de chorar a derrota, de repente me rehabilitava pelo esquecimento instantaneo e quasi prodigioso da mulher que horas antes me acorrentava aos seus mais levianos caprichos. Cuidei que o mesmo me aconteceria com tua filha Paulina: aqui é que o meu orgulho pagou amargamente as suas passadas sobrancerias. Verdadeira e insanavel paixão me inspirou Paulina; e, para cumulo de desgraça e vingança d'outras, tua filha, bem longe de amar-me, convencido me deixou de me aborrecer. Primeiro imaginei que Paulina não podia ou não queria amar alguem: isto podia ser; porque ha mulheres sem coração, e ha outras que parecem ter quatro: com os homens dá-se o mesmo caso. Porém, primo Briteiros, a razão do desamor de tua filha era a mais natural do mundo; é por que tua filha amava e ama outro homem.
--O que?!--interrompeu iracundo o fidalgo.--Minha filha ama outro homem! Calumnia! A minha Paulina não ama ninguem; e hade ser tua mulher, se eu quizer que ella seja tua mulher. Entendes tu, marquez?
--Perfeitamente entendi, primo; mas eu é que sou incapaz de permittir violencias, e acceitar esposa violentada. Outrem me julgue tal; mas tu não, Bartholo, que conheces a nossa familia, e sabes que meus avós deram para casa dos reis suas irmãs, e receberam como esposas as filhas dos reis.
--Bem sei, bem sei que foram esses os costumes da nossa familia; mas por isso mesmo é preciso que eu obrigue a minha filha a manter-se na dignidade de seus avós. Quem é o homem que ella ama?
--Pergunta-lh'o tu, primo. Se ella não t'o disser, consente que eu, por honra mesmo de nosso sangue, o não pronuncie.
--Que? pois ella ama algum mechanico? Responde por quem és, marquez! Depressa, que me sobe o sangue ao cerebro!
--Já te disse que ha grande deshonra em tal inclinação, primo... Não forces a minha repugnancia a revelar-te o que de mim mesmo eu quizera poder esconder.
Bartholo de Briteiros andava na sala, aos empurrões das furias, sacudindo vertiginosamente os braços, emquanto o marquez com a face entre as mãos, e os cotovellos encostados ás almofadas de uma ottomana lhe relanceava os olhos de infame penetração. Quando viu que era tempo, ergueu-se, tomou nos braços o pae de Paulina, e disse-lhe:
--Estou vivamente arrependido. Não devia ter dito nada. Era mais nobre esmagar-me no coração, e poupar o teu de pae, e pae como tu és, meu caro primo. Perdoa-me, e perdoa as fragilidades de tua filha. É um amor de creança que ella tem ao...
--Ao... quem?--exclamou Briteiros com uma grammatica desculpavel á sua angustia.
--Porque não hei de eu dizer-t'o, se o enlace mesmo de sangue me obriga a velar pela honra de tua familia, que tambem é minha! Tu nunca suspeitaste d'este Fernando Gomes?
--Fernando Gomes! pois tu crês que minha filha ama Fernandes Gomes?!
--Creio, sei-o, tenho a maxima certeza. Agora não ha que tergiversar. Cheguei ao ponto de me perder no teu conceito, se não adduzir provas. Paulina vae ao caramanchão que está sobre o caminho, e d'alli fala a Fernando, ás horas em que tu dormes a sesta. Trocam-se cartas todos os dias. Estes factos são presenciados por quem os quer ver. Vi eu mesmo, depois que me avisaram. Reprehendi a prima Paulina, em termos de bom e zeloso parente e amigo. Tua filha respondeu-me com azedume, recommendando-me que me não intromettesse na vida alheia. Repliquei com as mais sagradas razões; dei-lhe como possivel, se não certo, ser Fernando algum miseravel dos que de repente se levantaram da lama de Portugal, e vieram no extrangeiro fazer luzir o ouro, que lhes seria vergonha na patria. Rebateu-me com o mais formal e mais descomposto desdem, que meus olhos nunca viram em menina com tal edade e educação, e de tal linhagem! N'esta altura da questão, entendi que o meu dever era deixal-a ao espirito tentador que a quer perder; todavia, mais sagrado dever me admoestou a que te avisasse, primo, para não tomar sobre mim a cumplicidade de alguma enorme desgraça, e mais enorme deshonra. Agora encarecidamente te rogo que te hajas com a cautela e prudencia que tão melindroso negocio requer.
--Que hei de eu fazer?!--bradou Bartholo.
--Sae com tuas filhas de Florença. Vamos para Londres. Eu irei adiante preparar-te aposentos. Lá, se o biltre a perseguir, eu lhe tornarei impossivel o accesso, e a possibilidade de a ver. Se outro passo deres, receio que seja o peor para te saíres dignamente da difficuldade. O ar com que tua filha me falou revela proposito de ferro, e resolução inabalavel. Póde temer-te; mas obedecer-te não. Fia-te em mim, que eu sei o que são mulheres, primo. Finge que não sabes nada. Prepara com qualquer pretexto a tua viagem, e tu colherás depois os bons fructos da prudencia. Se, como creio, tua filha mudar de idéas em Londres, com o mais sincero coração te digo que serei ditoso fazendo-a marqueza de Tavira; mas, para que este enlace se possa fazer, é necessario que ella nunca desconfie que eu fui o denunciante d'este vergonhoso affecto. Convens n'isto, primo Bartholo?
--Convenho, marquez... Seja assim..
Acabava o pae de Paulina de proferir a ultima palavra, quando as duas meninas, pé ante pé, se afastavam ao longo do corredor que conduzia da sala, em que os dois dialogaram, para o interior da casa.
Paulina lançou-se no braços da irmã, e exclamou:
--Oh! que infame é aquelle homem! que infame!... Que hei de eu fazer, Eugenia? diz-m'o por compaixão da tua pobre Paulina!
--Que has de tu fazer, filha?... Eu sei!... Soffrer como eu soffri, quando o pae nos tirou de Paris...
--Isso é que não!--replicou Paulina--Não me deixo assim esmagar! Fernando ha de ir tambem para Londres. Vou escrever-lhe e contar-lhe tudo... se o não puder ver, terei a coragem de soffrer e esperar, com a certeza de que elle está tambem em Londres... Pois que pensas tu?... Eu não posso esquecel-o, assim como tu esqueceste o francez, Eugenia! É porque tu o não amavas; se o amasses, a desesperação te daria forças! Tenho-as; sinto-me capaz de tudo!... O malvado!... á custa de que infamia elle queria fazer-me marqueza!...
--Eu logo te disse--atalhou Eugenia--que não fazias bem em falar com tanta soberba, quando elle te reprehendeu...
--Fiz muito bem! desenganei-o: está desenganado para sempre... Agora tudo que elle fizer são indignidades, e cada dia, e cada hora, hei de abominal-o mais.
Aqui tem a leitora bem significada Paulina n'este conhecido verso:
_Ás vezes branca nuvem cospe um raio!_
Quem diria que tamanhos vulcões de colera se escondiam no sereno peito da gentil creatura, que parecia talhada de molde para soffrer docilmente o martyrio! Ahi está o que faz o sol de Florença! Devem-se á Italia aquellas conflagrações! Em Portugal me quer parecer que Paulina não fosse aquillo. A minha espionagem de romancista nunca me alviçarou casos identicos de barreiras de Portugal a dentro. Por isso mesmo é que eu tenho de ir em cata dos meus personagens lá fora, para alternar, com lances de estremecer, as frias historias que tenho posto em livros de que ninguem se espanta, e que passam por as mais frias, insipidas, e inertes lucubrações do espirito humano. Esta agora, sim!
Paulina cortou o folego da imprecação para ir escrever a Fernando.
Poz em resumo o dialogo do pae com o marquez, e a resolução de ambos. Pedia-lhe que os seguisse para Londres, e averiguasse onde se alojavam. Asseverava-lhe que, á custa de tudo, se haviam de ver em Londres; e terminava, com a mais candida desenvoltura que póde ter uma menina, dizendo que, extremos de perseguição, ella fugiria para elle, e seria sua esposa.
Na tarde d'este dia Bartholo de Briteiros deitou-se a dormir a sesta: assim lh'o impoz o cauteloso espião. Fernando já tinha em si a carta e a resposta. Appareceu na praça do Dome, e Paulina no caramanchão. Poucas expressões se trocaram depois que Fernando atirou a carta.
A resposta era qual a delicada menina podia mais ambicionar. O amante sentia-se menos desditoso do que ella se imaginava. Para elle a afflicção de Paulina era extrema prova de amor. Antes a queria assim contrariada, e acrisolada ao fogo da oppressão. Incutia-lhe animo e esperanças. Promettia, mediante o auxilio do ministro em Londres, espiar os menores passos do marquez e de Bartholo. Se a não acoroçoava a fugir de seu pae, antevia, como primeira hora de sua felicidade sem nuvem, aquella em que Paulina se confiasse á sua honra. Do marquez dizia apenas que era inferior ao seu nojo, e lamentava que os grandes fidalgos andassem a competir em aviltamento com a mais infima ralé.
O marquez, escondido n'uma loja da praça, presenciava os passos de Fernando. O homem, que tanto preleccionara acerca da prudencia, não teve mão de si. O demonio da pobreza espicaçava-o! Era o demonio da pobreza que prevalecia ás furias do ciume. Saiu da loja, e veio ao meio da praça por onde Fernando caminhava com a altivez que dá a felicidade do coração.
Viu elle o marquez, e, a seu pesar, dardejou-lhe um olhar de desprezo, que parecia provocação. O neto de reis, se havia de ir ávante, e deixar o verme, parou, metteu as mãos nas algibeiras; e fez um tregeito de pernas, e assobiou umas toadas, que fariam as delicias de um faiante em pleno goso de seus tavernaes meneios.
Fernando sorriu-se, e caminhou.
--O senhor ri-se?--exclamou o marquez.
--Ri, sim, senhor--disse placidamente o filho de Francisco Lourenço.
--Que quer dizer o seu riso?!--replicou o fidalgo.
--Que vossa excellencia é uma pessoa irrisoria.
--Mas eu arranco-lhe os figados pela boca, bradou o marquez.
--Operação difficil!... tornou Fernando sorrindo.
--Julga-me da sua bitola, sô villão?
--Eu não sei como hei de julga-lo, senhor marquez, depois que o julguei tolo!
E approximou-se com magestosa serenidade. Fernando parecia crescer, nutrir, illuminar-se, e tornar-se mesmo grande aos olhos do convencionado de Evora-Monte.
--Tem de dar-me uma satisfação com armas! replicou o marquez. Joga alguma que não seja o arcabuz do cerco do Porto?
--Não senhor; não jogo armas.
--Quer dizer que não se bate?
--Bato com todas.
--Tem padrinhos?
--Os dois primeiros homens que se encontrarem. O primeiro já eu vi.
--Quem? diga-o, para lhe enviar os meus.
--É um pintor: chama-se Leopoldo Roberto.
--Lá me quiz parecer! disse o marquez gargalhando uma risada secca.
--Que lhe quiz parecer a vossa excellencia?!
--Que os seus padrinhos haviam de ser pintores ou cousa que o valesse...
--A coarctada é miseravel, senhor marquez! vossa excellencia é um covarde, que não vale o desprezo do pintor.
O marquez de Tavira levou as mãos ás proprias respeitaveis barbas. Puchou as mechas a um lado e outro com tregeitos muito de incutir terror em almas fracas. Deteve-se um pouco n'esta operação minacissima, e tirou do peito alfim estas memorandas coisas:
--Villão seria eu se expozesse a minha vida ao revez de sujar-me com tal competidor! Precisamente o senhor é um aventureiro, que anda a farejar mulher dotada cá por paizes onde lhe não conhecem a suja betesga d'onde saiu. Lá na patria sabem-lhe o nome, ou ninguem lh'o sabe, é mais acertado dizer!... Convinha-lhe a filha de Bartholo de Briteiros? Que atrevimento de ambições o seu! Afinal, que espera colher d'esta aventura?... A correcção dada por um lacaio de meu primo!
--Se o lacaio tiver mais coragem do que vossa excellencia, em cujos hombros assentaria cabalmente a farda.
--Miseravel!...--rugiu o marquez!
--Tolo!--replicou Fernando.
O primeiro voltou as costas; o filho do artista permaneceu no seu posto alguns minutos, encarando as duas meninas, que os viram approximar da praça, e esperavam, atribuladas, a infelicidade do encontro.
XII
Decorridos dez dias, chegou a Napoles Francisco Lourenço. Aqui o trouxera a certeza anciosa de encontrar seu filho em convalescença, se é que Fernando o não enganára com o louvavel intento de o poupar a maiores afflicções. Durante a viagem para França, o artista entendeu que saíra precipitadamente de Lisboa, sem agenciar relações que o dirigissem a Napoles. Quem o guiaria n'uma grande cidade como aquella? Estaria o filho n'um hotel ou nos arrebaldes?
Para remediar semelhante imprevidencia, dirigiu-se, torcendo o seu itenerario, a Paris, e apresentou-se ao ministro portuguez, expondo o seu destino. O ministro deu-lhe carta para Napoles.
Poucas horas depois da chegada, Francisco Lourenço tinha a certeza de que seu filho saira de Napoles dois annos antes, e nunca mais ahi voltára, e a certeza tambem de que o moço estava em Florença, havia quinze dias.
Saiu Francisco para Florença, cuidando que seu filho peorára, ou melhorára a ponto de dispensar a convalescença n'outros ares. Com as recommendações que levára de Napoles, soube em pouco tempo que Fernando embarcára em Genova com destino a Londres.
--A Londres!...--exclamou o velho.--Então é certo que meu filho me vae fugindo.
--É mais natural que o vá procurando--respondeu a pessoa a quem o artista ia de Florença recommendado.--Póde ser que seu filho fosse embarcar para Portugal em algum dos portos de Inglaterra. O certo é que, minutos depois da sua chegada a Londres, o senhor ha de saber onde seu filho está hospedado, se é que elle lá está. Entretanto as minhas informações dão que Fernando Gomes--continuou o chefe da policia de Florença--estava mais ou menos ligado com uma familia portugueza emigrada, cuja cabeça é Bartholo de Briteiros, residente n'esta cidade por espaço de dois annos e tantos mezes. Dizem mais que Fernando Gomes e um tal marquez de Tavira concorreram a amar uma filha do senhor de Briteiros, e por ciume se insultaram na praça do Dome.
--E meu filho--atalhou Francisco Lourenço com amargura--não esteve doente?!
--As minhas informações não me dizem que elle estivesse doente, e penso poder asseverar-lhe que seu filho gosou em Florença a melhor saude. Encontrei-o miudas vezes em casa de Jeronymo Bonaparte, onde elle era muito estimado do principe. Comquanto não estivessemos relacionados, só de o ver devo crer que o senhor Fernando Gomes passasse bem, a julgar pelo seu aspecto não doentio, posto que pallido.
Munido de indicações e uma carta, Francisco foi esperar em Genova a sahida de um barco inglez para Falmouth.
Tão rapidamente quanto em Florença lhe prometteram esclarecimentos, recebeu-os em Londres, na repartição da policia, onde lhe deram um _policeman_ que o guiou á rua, hotel, e numero do quarto em que assistia Fernando. O velho fez mentalmente o elogio da policia britannica.
Bateu Francisco Lourenço na porta indicada. Abriu-lh'a o filho.
--Entro com os braços abertos!--disse o velho convulsivo de jubilo.--Não te venho ralhar, filho!...
Fernando abraçou-o com fervor, e limpou-lhe as lagrimas copiosas.
--Minha mãe como está?--disse Fernando...