Agulha em Palheiro Quinta edição

Chapter 7

Chapter 73,982 wordsPublic domain

--Doente a deixei... Deus sabe como ella está... Acho-te bom, meu Fernando... Ainda bem!... Não cuides que eu antes queria achar-te doente... Perdôo-te a mentira, porque... antes assim... E agora?... Agora vens ver tua mãe?...

--Descance, meu pae--atalhou o enleiado moço.--Descance, e depois...

--Não póde ser depois, Fernando... Que faço eu aqui?! Não vim vêr Londres; vim procurar-te, vim chamar-te. Se me não seguires, que faço eu longe de tua mãe, que a esta hora mal sabe que voltas tenho dado... Era melhor que me não dissesses que ias para Napoles: poupavas-me tanto desgosto e fadiga!... Bem vês que estou muito velho... Não me deixaste assim... Em tres annos ninguem envelhece tanto...

--Perdão, meu pae!--exclamou Fernando, apertando contra o seio as cans do velho lagrimoso.

--Tanto chorar, na minha edade, é sorte de poucos... Vejo tantos paes, com os meus annos, em socego, á espera da morte, rodeados de seus filhos, fartos e ricos do fructo dos trabalhos d'elles...

--Tem razão...--atalhou Fernando--mas esses são os paes que teem filhos menos desgraçados que eu! Eu queria contar-lhe a minha vida... uma só palavra a explica... é uma paixão, meu pae, que me deshonrou aos seus olhos; por amor d'uma mulher lhe menti, e me envileci em minha propria consciencia...

--Não estás deshonrado aos meus olhos, Fernando... Desgraçado é que me pareces, filho... Não me contes a tua vida, que a sei. Lá deixaste em Florença as tuas memorias... Isso mesmo por que m'o não disseste? Antes isso que o engano. Eu não me espantaria que deixasses pae e mãe por uma mulher. Tuas irmãs tinham sido criadas no regaço de tua mãe, e fizeram o mesmo... Deixaram-nos sósinhos. Mas poderás tu dizer-me que futuro é o teu? que tencionas fazer? Bartholo de Briteiros, esse mau homem, que tem uma historia escripta com sangue, foge-te com a filha para Londres. Que vens tu aqui fazer? Queres tirar-lh'a?

--Não, meu pae; quero vel-a, unicamente vel-a; porque no dia em que perder a esperança de a tornar a vêr, hei de matar-me para esquecel-a...

Fernando escondeu o rosto no seio do pae, e exclamou:

--Deixe-me chorar, que são as primeiras lagrimas. Não houve coração algum que m'as recebesse...

E soluçava convulsivamente nos braços do velho, que o apertava ao peito com tremuras de compaixão e amor.

--Diz-me tu, filho...--tornou com muita brandura Francisco Lourenço--essa senhora despreza-te?

--Oh! não!... O desprezo seria a minha salvação--respondeu Fernando com vehemencia.--A desgraça é ella amar-me, e ser uma santa em dedicação e sacrificios. Por amor de mim foi tirada de Florença para Londres; e ha quinze dias que a cada instante a espero aqui... fugindo á crueza do pae, que quer casal-a...

--E tu has de acceitar uma filha fugida a seu pae?...--interrompeu o velho.--Vê se podes, á custa mesmo da vida, ser honrado, filho! Seja o pae um malvado, seja a filha uma santa, embora...; mas não te absolvas em tua consciencia, se consentires que essa menina fuja para ti.

--Mas o pae faz-me a injustiça de suppôr que eu não irei logo recebel-a como esposa? Não sabe que ella é...

--Sei que é rica... os Briteiros são muito ricos... Isso é que me queres dizer, Fernando?...

--Não, senhor; queria dizer-lhe que Paulina Briteiros não é mulher que algum homem possa victimar, por mais infame que ser possa; ora eu, meu pae, amo-a com esta paixão que vê. O mundo não nos perdoaria a culpa de nos unirmos contra a vontade de seu pae?

--O mundo não vos deixaria unir sem grande perseguição, filho. Antes de alcançares o descanço de uma honrada lucta com a sociedade, serias muitas vezes infamado, esmagado e talvez vencido.

--Espere, meu pae!... cale-se!--exclamou de subito Fernando.--Estes passos são de mulher...

--Será ella, meu Deus!--disse Francisco Lourenço.

Fernando foi á porta, viu a criada confidente de Paulina. A moça assim que o viu debulhou-se em lagrimas, e balbuciou:

--A menina não pôde escrever-lhe... Está-se preparando para sair com o pae... Recebeu ordem de repente. Vai para um convento da Irlanda: foi o que elle lhe disse, a não querer ella casar com o maldito marquez. A senhora D. Paulina não verteu nem uma lagrima, e respondeu: «Irei para onde o pae quizer; não caso com o marquez, que é um villão». Que coragem a d'aquella menina! Depois fez-me um signal; e eu corri a participar-lhe isto. A senhora D. Eugenia manda-lhe pedir que, para salvar a irmã de morrer no convento, indo o senhor para fóra de Londres, talvez se conseguisse que o pae a deixasse ficar em casa, e manda-lhe dizer que o faça se tem amor á pobre menina.

--E porque não hade elle fazel-o?--atalhou Francisco Lourenço.--Diga vocemecê a sua ama que ao lado de Fernando está seu pae, e que meu filho, por amor da senhora que soffre tanto, nos ha de obedecer a ambos.

--É impossivel!--exclamou Fernando allucinado por sua enorme angustia.--É impossivel desamparal-a no maior aperto da perseguição! Para que me quer meu pae em Portugal, se eu vou lá morrer?!... Que vil eu seria no conceito de Paulina, affastando-me na occasião em que ella mais precisa do meu conforto?... Diga á sr.ª D. Eugenia--proseguiu elle voltando-se para a criada--que eu não posso obedecer lhe, salvo se ella entende que a minha morte remedeia os desgostos de sua irmã. É de crer que sim; mas eu é que estou convencido que Paulina quer que eu viva.

Francisco Lourenço fitava o filho com os olhos embaciados de lagrimas, e não o contradisse.

A creada saíu com um bilhete d'oito linhas escriptas por Fernando.

Após breves instantes de silencio d'ambos, o filho disse serenamente:

--Meu bom pae, eu agradeço á Providencia poder n'esta hora falar com um homem a quem devo as primeiras luzes da minha intelligencia. Maior desgraça seria a minha, se meu pae não podesse comprender-me, indultar-me, e compadecer-se. Accuso-me de o ter enganado; era mais honroso dizer-lhe que tinha coração, mas eu cuidei que mentindo, sem medo de ser descoberto, salvava a irreverencia inseparavel de confidencias taes a um pae. O meu engano duplica o merecimento de ser perdoado. Conhece a minha situação, meu pae. Com a alma despedaçada lhe digo que não sei como remedial-a. Quer que eu o siga? Seguirei: já vejo de todo e para sempre negra a minha vida... Seguirei; mas uma hora virá em que meu pae se lastime por ter imposto ao meu coração a sua respeitavel vontade. Se quer que eu viva e procure alguma saída d'este circulo de ferro, deixe-me seguir Paulina á Irlanda...

--Bem, filho--atalhou o velho contrafazendo placidez e seguridade de animo--Concedo o que desejas e precisas; mas escuta: os meus haveres são poucos; tuas irmãs casaram dotadas; tu pouco tens gastado comparativamente ao que eu antevia; mas assim mesmo excede o que devia ser teu dote. A officina dá pouco, porque a tenho desamparada. Desde que em Lisboa se estabeleceram sapateiros francezes, muita freguezia me deixou. Não me affligiu este desprezo do que é nosso, porque, bemdito seja Deus, contava com o pouco para muita felicidade. Eu estou reduzido a tres contos de réis, e os bens do Cartaxo, que outro tanto poderão valer. Acabado isto, irei pedir agasalho a uma tua irmã, e tua mãe a outra; e tu, que és formado, a todo o tempo conseguirás algum emprego que te alimente. O fim da nossa vida póde assim talhar-se, e Deus permittirá que não seja peor. Digo-te isto para que saibas com que pódes contar, Fernando. Lança as tuas contas; e, quando vires que tens consumido o que possuo, tem tu a generosa compaixão de não pedir mais. Eu comigo não posso contar para o trabalho. Estou com pouquissima vista; mais de uma vez n'estes ultimos annos me tem ameaçado a cegueira. Corre tudo na loja por conta dos officiaes: uns roubam, outros desmazelam-se; ninguem tenho em que possa fiar-me. Aqui tens singelamente dito tudo. Agora sê o que poderes ser em favor d'essa senhora; mas não te deshonres por causa do amor. Eu creio que é falso o amor que leva o homem á indignidade.

Fernando, após breve pausa, respondeu:

--Eu sabia quaes eram os haveres de meu pae, quando saí de Lisboa. Viajei dois annos, gastando o menos que podia. Como o meu viver era só, e indifferente ás regalias das cidades em que passei, restringi as minhas despezas á sustentação parca, e ao vestido mais urgente. Assim mesmo gastei muito em proporção do que devia gastar. Pouco tem hoje meu pae para a sua subsistencia: não devo pedir-lhe um quinhão d'essas migalhas. Irei ensinar linguas na Irlanda: sei um pouco de todas as que se falam na Europa. Muitos emigrados portuguezes aqui viveram assim. A fome illude-se com pouco.

Francisco Lourenço abraçou o filho, e murmurou:

--Não quero, filho, não quero isso assim. Quando a necessidade te obrigar ao trabalho e á independencia dos impossiveis recursos de teu pae, eu t'o direi sem pejo, nem pesar de te ver humilhado. Então trabalharás para ti, e verás quão doce é o pão negro que se lavra com o proprio suor...

XIII

Paulina leu o bilhete de Fernando, que dizia assim:

«Ver-me-has em toda a parte; e, quando me não vires, sabe que eu contemplo o céo que te cobre, ou te espero em outro mundo para uma outra vida. Vivo ou morto, a minha alma será sempre comtigo, Paulina! Ámanhã parto para Irlanda. Não sei se é para Dublin que te levam. Eu te encontrarei... Até lá.»

E estava alli, á beira d'elle, o choroso velho, aquelle pae amantissimo, quando Fernando escreveu: _Ámanhã parto_!... A crueldade dos filhos que amam! Que fragil é tudo isto que ahi chamam leis da natureza, quando o amor, aquella creança dos fabulistas, mesmo ás cegas, lhes atira um encontrão!

Em quanto Paulina relia o bilhete e o mostrava á irmã com a douda alegria de mulher amada, Bartholo de Briteiros, encerrado com o marquez de Tavira, dialogavam d'este theor:

--Mas não me saberás tu explicar o contentamento com que Paulina se está preparando?!--dizia Bartholo.

--Aquillo é febre que arrefece depressa, primo Briteiros. As mulheres são assim.

--E era capaz de entrar no convento, e esquecer-se de pae, irmã, e tudo!

--Nos primeiros dias, sim; depois, quando lhe faltasse o animo, e não visse o Fernando, nem tivesse noticias d'elle, modificava o seu parecer a respeito de conventos e de amor. As mulheres são assim, primo Briteiros. Umas ha que são capazes de morrer por orgulho, e outras por soberba são capazes de se envilecerem. Mas a nossa Paulina não ha de morrer nem aviltar-se, visto que o convento é uma fabula, e a fria Irlanda se não ha de gosar de a ter nos seus mosteiros. A creada desempenhou perfeitamente o papel, pelos modos. É o dinheiro mais bem empregado que tu tens consumido para salvar tuas filhas das unhas dos aventureiros...

Corte-se aqui o dialogo para dar um esboço muito pela rama d'esta ladina creada, que tambem tinha a honra de ser portugueza.

O marquez descobrira que ella era a intermediaria de Paulina e Fernando. Aconselhou, por isso, Bartholo que a seduzisse com dinheiro a ir participar a Fernando que a menina se recolhia a um mosteiro da Irlanda; e ao mesmo tempo, da parte de Eugenia, lhe pedisse que se retirasse de Londres, a ver se assim abrandavam os rigores do pae. A creada accedeu á proposta com o mais admiravel desapego de gratificação. Saiu logo a cumprir o mandado, e recebeu o bilhete de Fernando. Na fiel entrega do bilhete a Paulina é que assenta o elogio da creada. Bartholo ficou contente d'ella, e Paulina extremamente grata á expontanea resolução da creada. Mas é pena que tanto a ama, como a creada, como Fernando Gomes fossem enganados por cavillações suggeridas pelo marquez de Tavira, que era o mais refinado velhaco de que ainda tivemos noticia!

Agora ate-se o dialogo.

--Foi bem lembrada a tua ideia, primo!--tornou o ministro da Alçada, como que orgulhando-se de ter na sua parentella um sujeito com ideias.--O homem agora vae dar comsigo em Irlanda. Quem diabo lhe ha de lá dizer que nós vamos para Madrid?

--É verdade!--exclamou o inventor da ideia com radiosa ufania.

--Quando elle o souber--tornou Bartholo--espero eu que tu sejas meu genro, e minha filha feliz... Palavra de cavalheiro! eu não tinha alma de a fechar n'um convento! Quero-lhe muito, e por isso t'a dou com a condição de que nunca sairá da minha companhia, primo.

--Já te disse que a minha maior dôr seria separar-me de ti, primo Briteiros! Se ha pessoa n'este mundo que eu preze tanto como a tua filha, és tu! Ainda mesmo que Paulina me fique odiando para sempre, e não venha a ser minha mulher, crê tu que tamanho golpe não cortará os vinculos de amizade que nos prendem. Serei um teu dedicado irmão, um vigilante mordomo do teu bem estar, capaz de todo me sacrificar ao zêlo com que tu olhas pela ventura de tuas filhas.

--És honrado, primo Tavira!--exclamou Bartholo--Conta com o amor da minha Paulina, quando esse maldito demonio a tiver deixado...

--D'elle estás tu livre, Briteiros! Se outro peor não vier depois... mas eu terei astucia para te salvar de todos.

A creada, que captivara a confiança do amo, como sentisse remorder-lhe o remorso de ter, apesar de tudo, atraiçoado a menina que a tratara sempre como amiga, desde a infancia de ambas, cogitou no modo como foi industriada, e de si para si decidiu que a ida de Paulina para um convento de Irlanda era um logro a Fernando Gomes. Levada d'esta apprehensão, e do desejo de remediar o mal, se era um mal ser ecco da mentira, foi manso e manso colar a orelha á fechadura da porta que separava Bartholo e o marquez das salas mais frequentadas da casa. A parte do dialogo que ella escutou era a mais importante. O amo erguera a voz, quando perguntou ao marquez:

--_Quem diabo lhe ha de dizer que nós vamos para Madrid?_

--A criada respondeu entre si: «Hei de ser eu» e foi de corrida contar a Paulina o que ouvira; e, instantes depois, ia a caminho do hotel de Fernando com a nova, e já em toda a seguridade de sua consciencia. O filho do artista ouviu o contra annuncio com prazer. Estava a seu lado o velho, como a gosar-se em lagrimas das poucas horas de convivencia com seu filho. Esperava dar-lhe na manhã do dia seguinte o adeus de indeterminada, e talvez eterna separação. A nova foi de prazer para ambos. Francisco Lourenço iria com seu filho para Hespanha, e te-lo-hia menos longe de si. O prazer de Fernando, de natureza diversa, consistia em ser Paulina menos sacrificada por amor d'elle. O convento avultava-lhe com mil angustias, que lá não existem. O receio de a ver sossobrar entre ferros, em lucta com os apertos monasticos recommendados por Bartholo, era a mais pungente de suas dôres. Entreluziam-lhe esperanças em Madrid: mais facilidade na fuga, mais protecção nos costumes; amigos que lhe dessem auxilio; e a breve jornada a Portugal.

N'este enlevo de alegrias, forçoso era que viesse logo o desconto. Francisco Lourenço, quasi sem ponderar o valor da pergunta, disse a Fernando:

--Essa senhora sabe de quem és filho?

--Nunca m'o perguntou...

--Nem tu lh'o dirias... mas tens tu reflectido n'este ponto? A senhora D. Paulina de Briteiros amar-te-hia se lhe tu houvesses dito que teu pae é o sapateiro da calçada do Sacramento? E amar-te-ha, quando alguem, bastante curioso, ou encarregado de saber o teu nascimento, a informe de que o viajante portuguez, posto que viva de seus proprios recursos, é filho de um sapateiro?

Fernando odiou-se a si proprio n'este momento, e respondeu com um gesto desabrido.

O artista achegou-se do filho para lhe vêr o rosto, cujas alterações seus olhos não alcançavam. E disse:

--Fizeram-te mal estas reflexões, Fernando?

--Fizeram, meu pae--disse o moço agastado.--Por isso mesmo, para me forrar d'estas agonias horriveis, melhor fôra que me tivesse dado a felicidade do artista. Eu seria a esta hora um homem com a alegria pura de todo o homem que trabalha, e tem suas ambições e coração circumscriptos a muito pouco. Que fatal lembrança a de me arrancar da minha esphera, para que eu hoje não tenha nenhuma! Os pequenos regeitar-me-hão como os grandes me regeitam, quando souberem quem eu sou!...

--Deus se compadeça de ti!--murmurou o velho, limpando as lagrimas--e me perdôe a mim o mal que te fiz, pelo muito que tenho expiado a minha vaidade de te fazer maior do que teu pae. Valha-te o Senhor! Que direitos tens tu a uma felicidade que te custa humilhações? Para que a procuras afincadamente, se vaes de rastros após ella! Por que has de tu querer hombrear com os grandes, se eu apenas te fiz entrar n'uma carreira por onde levarias teus filhos á grandeza! São as tuas cartas de bacharel formado que te arremessam aos despropositos das ambições? Ou é a tua intelligencia que te diz que não nasceste para a mediania? Se é a tua habilitação, faz que ella te sirva, filho. Entra como quem és, e o pouco que és, na estrada da honra: faz realçar o teu merecimento com tua mesma humildade, e lá irás dar ao ponto onde chega o homem honrado, todo o homem, ainda que a muitos pareça que não. A tua intelligencia é impossivel que te aconselhe esse odio ao acaso que te fez nascer de paes mechanicos. Eu, filho, li quanto pude, estudei quanto os meus poucos principios me permittiram; e Deus sabe que nunca tive pejo de ser quem era. A razão esclarecida é o que falta aos homens que se envergonham de não terem nascido já nobres, já respeitados, e idolatrados do mundo. Pensava eu que, allumiando a tua razão, te dava armas para combateres os prejuizos e preconceitos miseraveis das raças. Fiz o contrario, filho; justamente o contrario...

--Não, meu pae...--interrompeu Fernando--perdoe-me, e não se afflija, por amor de minha mãe lh'o rogo! Eu tenho o presentimento de que ainda hei de provar-lhe que me não vexo da baixeza do meu nascimento... esta dôr foi uma irreflexão, meu pae. Tem o coração estes desgraçados caprichos... Caprichos, e mais nada... Se Paulina me perguntar quem sou, dir-lhe-hei quem sou; se quizer saber quem é meu pae, dir-lhe-hei ufanamente quem é meu pae. Por que não?... Aquella candida alma deslustrar-se-hia em me ter pertencido? Então que torpe deve ser o coração humano! Com que prazer e ardor eu iria buscar á derradeira ordem social a mulher pobre, a filha do varredor das ruas, a filha do carrasco, que me desse o seu amor, sem perguntar-me a minha origem?...

Alongou-se o dialogo entre os dois, que terminaram abraçando-se, e chorando.

Era tempo de se aprestarem para a viagem. Fernando, sabendo que a familia Briteiros havia de atravessar o Canal no dia seguinte, de passagem para França, tomou nota da saida de um navio de Plymouth para portos de Hespanha. Resolveram seguir o caminho mais perto, consultando a vontade de seu pae.

Pessoa extranha, que observasse o aspecto de Fernando, veria as nuvens que lhe assombreavam a alma. Embaciára-se-lhe, não sabemos por que maravilhoso influxo, a limpidez da esperança, com a qual até áquella hora conseguira affrontar a adversidade. Era o desalento, um não sei que de contricção intima, que paralysa as faculdades robustas da vontade n'um quasi morrer de toda ella.

As terriveis hypotheses do pae, concernentes ao sapateiro em amores com a illustrissima pretendida do marquez de Tavira, poderiam tanto!

O orgulho do coração do homem do povo será capaz de aniquilar tamanha paixão?

Ha exemplos; mas tão obscuros que nenhum romancista quer fazer obra por elles.

Em novella, criada para as folgas de grandes damas, e galans mancebos, enfastiados d'outros gosos, qual romancista baixa das alturas da sua imaginação a historiar quadros sociaes de sapateiros?

Se em Portugal os sapateiros lessem, tal livro seria comprado por uma classe e pagaria as fadigas do popular escriptor.

É precisa muita abnegação para isto, n'esta terra e com esta gente, que acha mesmo illiteraria a palavra «sapateiro».

_Artista_, recommendam-me que diga _artista_, para não offender o apparelho articular das pessoas afidalgadas de nervos!

Já é! ha poucos mezes contei, romanceei, panegyriquei a vida de um gallego n'um volume de duzentas e tantas paginas! É rastear muito esta arte! Ha tanto principe na historia portugueza a pedir romance! e tanta princeza tambem!

Por que não hei de eu escrever historias de principes e de princezas, e deixar os sapateiros subir algum tanto na escala d'umas qualificações modernas que elles se vão inventando para seu uso, que a isso os obriga o menos-preço d'esta luminosissima e fraternal civilisação?

O nome de sapateiro está a sumir-se. Já muitos do menoscabado officio se denominam _artistas d'artes correlativas_... dos pés. Dos individuos cultos, que os mettem n'estas andanças e chibanças, deviam elles chamar-se não _sapateiros_, mas _ferradores_.

XV

O secretario da embaixada portugueza em Madrid havia sido camarada de Fernando Gomes no cerco do Porto; e seu contemporaneo na universidade. Approximara-os mais em Coimbra o paralelo dos nascimentos: eram ambos filhos de artistas. Separados depois da formatura, um para os cargos publicos, outro para as viagens, continuaram sempre correspondencia de bons amigos. O secretario da legação recebeu a nova da chegada de Fernando a Madrid, e maravilhou-se de encontral-o sumido n'um quarto de obscura estalagem.

Contou o bacharel diffusamente a historia dos seus vagabundos amores, e explicou a obscuridade e recato em que tencionava viver para não causar desgostos á filha de Bartholo de Briteiros. Queria elle existir secretamente em Madrid, de modo que o pae de Paulina o imaginasse na Irlanda, procurando a reclusa nos conventos; entretanto, era seu intento diligenciar casarem-se judicialmente, ou, no extremo d'algum imprevisto accidente, fugir com ella para Portugal. O amigo escusava prometter-lhe todo o auxilio. Era este um dos academicos que frequentavam a universidade em 1828, quando os dois lentes foram assassinados. Fôra elle um dos sorteados para a impolitica vingança; como quer, porém, que estivesse enfermo n'essa occasião, forrou-se assim ao incommodo de ser estrangulado. Ora Bartholo de Briteiros, como sabem, tinha sido o mais impassivel signatario do accordão: o amigo de Fernando vira caminharem á forca os seus condiscipulos; e tal rancor ganhou aos juizes, que só o nome de Briteiros lhe trouxe aos olhos faulas de raiva mal abafada pelo correr de dez annos. Para elle era não só prova de amigo, mas desforra de inimigo coadjuvar o camarada das linhas do Porto a zombar das astucias do ministro da Alçada.

Com tal protecção, Fernando soube a hora em que chegou Bartholo, a rua e hotel onde se aposentou; e Paulina, pouco depois da sua chegada, recebia d'uma creada do seu quarto, na hospedaria, uma carta de Fernando.

Francisco Lourenço, cuidando que assim ficavam bem encaminhados os honestos intentos de seu filho, seguiu para Lisboa. A mãe, anciada de saudades de ambos, quando viu o marido sem o filho, arrancou um ai, e perdeu o sentimento. Volvendo a si, ouviu com pasmo a miuda narrativa dos casos acontecidos ao esposo, e deu graças a Deus sem arguir a dura alma do filho. Á santa mulher, para sua consolação, bastou lhe saber que Fernando vivia. O procurar elle sua felicidade, na idade propria do amor, com tantas adversidades, foi á boa mãe maior motivo de compadecimento que de censura. Como, por momentos, o considerou morto, era natural que tudo lhe perdoasse, estando elle vivo. Assim ficaram os dois velhos, esperando que inesperadamente lhes apparecessem casados o filho e a gentil fidalga. Francisco Lourenço foi ao Cartaxo dar ordens a confortos da casa, mobilação, e mais aprestos, sendo que Fernando mostrara desejos d'ir alli descançar annos, ou talvez a vida toda, qualquer que fosse o incerto desenlace de suas canceiras.

Bartholo e o marquez de Tavira davam-se os embora do feliz exito da sua falcatrua. Viam Paulina alegre, dada a bailes e a theatros, com bom rosto para o proprio marquez, e nem por sombras magoada d'alguma fugitiva saudade! O fidalgo continuava sempre a dizer «que as mulheres eram assim». E o pae de Paulina admirava a esperteza e acume seu futuro genro.