Agulha em Palheiro Quinta edição
Chapter 5
--Penso que sim... E de que serve?!... Este amor que o pae nos tem, é uma prisão! Todas as meninas da nossa idade tão felizes!... e a gente n'esta melancholia, a dominar as inclinações... para o não desgostar! Os outros paes não se importam. A gente vê tanta gente alegre com seus maridos! pois não vê?
--Pois sim; mas tu que queres, Paulina? O pae não nos deixa casar...
--É porque a gente não se tem importado...
--Estás enganada... O pae soube que eu gostava do conde de Rohan, e fingiu que não o sabia. Lembras-te? Uma vez disse-me que se eu amasse alguem em Florença, ia immediatamente comnosco para a Azia! Quando tu em Paris gostaste d'aquelle emigrado portuguez, não viste como elle sahiu logo para Londres?
--Depois, o Albuquerque foi ter a Londres--atalhou Paulina--e o pae foi logo para a Escossia.
--É verdade; e depois, diz a toda a gente que as grandes cidades são desertos para nós! Tu verás, Paulina... Se elle desconfiar que amas Fernando, leva-nos para a Russia...
--Isso leva!
--Então, vê lá se te sabes esconder; e, se fallares com o Fernando, diz-lhe que seja acautelado, senão...
--Como hei de eu falar-lhe?! Não vês que o papá já hoje me perguntou o que hontem estivemos a falar com elle na _soirée_ do principe?... Já me lembrou escrever-lhe duas palavras...
--Ai! escrever-lhe!--atalhou Eugenia assustada.
--Pois então? isso que tem? é crime?
--E se o papá vem a saber que lhe escreveste?
--Quem lh'o ha de dizer?...
--Agora é que eu vejo que o amas seriamente, Paulina.
--Amo: de ti não me escondo, Eugenia.
--Pois então, se queres, escreve-lhe.
--E que hei eu dizer-lhe? Eu nunca escrevi... Tu é que já sabes, minha Geni.
--Diz-lhe que não denuncie que te ama: senão que o papá nos tira logo de Florença.
--Só isso?!
--Pois que mais? Quando elle te escrever, então responderás...
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Este dialogo, que parece estirado, correu em menos de quatro minutos. As meninas pediram ao pae licença para subirem do jardim a casa.
Ora aqui tem o leitor como conversam os anjos.
Quem, com ouvidos corporaes, ouvisse aquellas meninas, havia de suppor que estavam alli duas creaturas vulgares, como todas as que procedem de Eva, que dialogava com serpentes, e comia fructas da sciencia do mal! Cumpre saber que os anjos, em quanto perigrinam cá por estes pantanos do globo, fallam segundo ouvem fallar. Parece que ao descerem do céo, trazem, como regra, o anexim: _cada terra com seu uso_. A gente não acaba de capacitar-se d'isto!
VIII
Demoremos em Portugal algum espaço. A imaginação, que tem andado acorrentada aos apontamentos lá por essas terras lindas, mas alheias, já tem saudades das suas.
Cá estamos em Lisboa na calçada do Sacramento, em casa do artista Francisco Lourenço.
Estão os dois velhos á meza, onde o almoço lhes arrefece. Nenhum põe mão na comida. Encaram-se, e choram. Gracinda e Genoveva sahiram hontem para casa de seus maridos. Alli estão as cadeiras d'ellas, e sobre a meza as chavenas do almoço, e os guardanapos que lhes serviram dois dias antes.
--E sahiram sem lagrimas!--disse o artista, com a voz golpeada de soluços.
--Como eu saí de casa de meus paes para a tua...--respondeu a mulher.
--Mas que tristeza... que solidão esta, Maria!... Nem as filhas! Nem agora, Fernando... de mais a mais enfermo, tão longe de nós! Que fins de vida os nossos, mulher! Como eu de longe via isto tão differente! Falava-te no prazer de acabarmos entre filhos e netos! vê tu! ninguem, ninguem comnosco!
--Tem paciencia, homem, tem paciencia! Fernando ha de vir logo que esteja bom. As pequenas prometteram passar o domingo comnosco. Para a primavera, vamos todos para o Cartaxo. Não te afflijas, Francisco. Isto, assim triste e sósinho, é hoje. A gente afaz-se a tudo.
--Afaz-se á ingratidão dos filhos? interrompeu o artista.
--Ingratidão! Não é ingratidão! As meninas casaram com o teu consentimento: não foram ingratas.
--Sairam sem verter uma lagrima.
--Pois que queres tu? O Evangelho não diz: «deixarás pae e mãe»? Deixaram pae e mãe por seus maridos. É lei da natureza. Que havemos nós fazer-lhe? Almoça, Francisquinho, almoça.
--E tu que fazes? porque não almoças?
--Que queres tu! Não posso. Tenho um nó na garganta... Tambem eu... E Fernando longe de nós, Maria!... Que te diz o coração?
--Que não tarda ahi. Talvez já venha a caminho. Se vier, não temos carta para a semana. Se estiver ainda doente, escreve-nos. Depois nos lastimaremos homem... Não tentemos a Deus.
A carta, não desejada, chegou. Fernando dizia estar ainda doente, e não poder assignalar o tempo da sua volta. A linguagem era triste: dir-se-ia que a mentira lhe custava lagrimas. Os paes inferiram da tristeza a gravidade da doença. Francisco pensou em ir á Italia; porém, doia-lhe deixar sua mulher sósinha, doente de saudades, e mais lastimosa que elle. Esperou nova carta, contando os minutos por ancias, que o avelhentavam rapidamente. Ia, com sua mulher, buscar allivios a casa das filhas: encontrava uma e outra contentes, cuidando das suas occupações domesticas, cariciosas para os maridos, e levemente commovidas com as afflicções dos paes. A linguagem d'uma era a da outra:
--Não se inquietem, que o Fernando ha de vir. Póde ser que nem esteja doente. Anda por lá a divertir-se, e vem quando estiver farto.
Os velhos sahiam mais acabrunhados das frivolas consolações das filhas e genros.
Passadas semanas, chegou nova carta. Fernando, aconselhado pelos medicos, ia convalescer para Napoles; e, logo que estivesse restaurado, voltava para Portugal, immediatamente. Era o resumo da carta; mas o dizer era mais escuro; a espaços lhe tinham fugido uns desmentidos á falsidade. Taes como: _Tenho desejado a morte: o futuro é negro, mais negro que a sepultura_. E n'outro relanço: _Eu nunca devia ter saido da nossa casa de campo. A má estrella não me acharia n'aquella obscuridade._ E, finalmente, rematando a carta, dizia: _Quem sabe se eu tornarei a ve-los, meu querido pae, e minha santa mãe?... Tenho presagios terriveis...._ Era para muita pena vêr os dois velhos, cada um a seu lado, com o rosto entre as mãos, arrancando soluços e exclamações, que ninguem consolava!
--Que mal fizemos nós a Deus!--clamava Francisco. Não fui eu sempre bom filho, bom marido, e bom pae? A quem fiz eu mal voluntario d'este mundo? Quem se queixa de mim do céo para me ver assim, e te ver ahi, pobre mulher, sem consolação de tuas filhas? Que desgraças são estas de Fernando!--proseguia o artista, relendo a carta.--Na doença pouco falla: nunca me disse que doença tinha... _Tenho desejado a morte; o futuro é negro, mais negro que a sepultura!_... Vê tu estas palavras, Maria! Eu não lhe tenho faltado com as ordens do dinheiro muito a tempo. Já lhe escrevi, admirando e louvando que elle gastasse muito menos do que esperava. Tem tudo o que quer de mim, e ha de ter, se Deus me não transtornar a vida, meios abundantes para viver com decencia... Então por que se chora elle? que _má estrella o persegue_? porque _não ha de tornar a ver-nos_?
--A mim...--atalhou Maria--certo é que não... Pouco tenho de vida, Francisco...; mas olha, meu filho, sabes tu o que me lembrou agora de repente?...
--Dize, Maria...
--Estará Fernando por lá apaixonado? Queres tu vêr que elle olhou para alguma senhora, que o traz em torturas, e o pobre rapaz não tem coração que o tire de lá para fóra?
--A fallar a verdade--disse Francisco--a idade das paixões é a d'elle... Póde ser que adivinhasses mulher, e oxalá que sim... Se a paixão fôr bôa, o resultado bom ha de ser; se fôr má ou impropria d'elle, o tempo ha de cura-la... Mas isto não allivia a nossa dôr, Maria! Eu preciso de vêr Fernando; quero com a minha presença reduzi-lo aos seus deveres; não tenho meio de saber o que isto é, se não fôr em pessoa procura-lo. Deixas-me tu ir, mulher?
Maria deteve a resposta alguns segundos, expediu um gemido do fundo da alma, e murmurou:
--Vae, Francisco, vae, eu irei para casa de uma das filhas, se tu quizeres. Não te peço que me leves comtigo para te não dar que soffrer na viagem. Sinto-me muito doente. Vieram as afflicções juntas, e acabaram-me... Pois vae, e não te demores. Dize a Fernando que venha dar-me um abraço, que eu quero despedir-me d'elle; e, depois, que torne para onde estiver melhor.
Francisco Lourenço, sem mais preparativos que um passaporte e dinheiro, sahiu de Lisboa no primeiro navio que lhe deu passagem para porto de Italia.
IX
_A gente não acaba de capacitar-se d'isto_, diz o final do capitulo VII, a proposito dos anjos, que em pousando pé no mundo, perdem memoria do céo, e aclimam-se logo n'estes pantanos, cujas exhalações pestilenciaes teimam poetas em dizer que sobem a glorificar o Creador!
Vamos ao essencial.
Paulina escreveu um bilhete assim:
«O papá é muito desconfiado. Tenha muita cautella, se a separação lhe é tão dolorosa como a mim. Não passeie na praça do Dome áquellas horas. O papá dorme sempre desde as quatro ás sete. Eu tenho uma creada de confiança a quem póde entregar as suas cartas. Adeus. Guarde com amor estas florinhas».
Dobrou em tira estreita o bilhete, e cingiu-o em volta das astes do ramo.
Veja agora a leitora, mais superciliosa em pontos de dignidade e pudor senhoril, como os extremos se tocam! O que o despejo e desenvoltura teria feito, é a innocencia e candura que o faz n'este caso, n'estes amores começados com tal qual originalidade! Aposto que nenhuma dama, amestrada em galanterias, escriptora de resmas sobre resmas de cartas amorosas, se affoitaria a escrever aquellas linhas sem previamente ter recebido irrefragaveis provas escriptas e oraes de uma paixão homicida! Escrever a um homem sem ter sido a isso mil vezes solicitada! ennodoar assim o amiculo virginal! dar uma menina a saber que é capaz de compôr um periodo com sujeito, verbo e caso!
Eu não louvo meninas que escrevem bilhetes, e se sujeitam a uma analyse de regencia; porém, não sei sobre que argumentos hei de fundar a censura. Não censuro, nem louvo. A moral é uma questão de felicidade, segundo as regras do dever n'este mundo. Ora, a meu juizo, a moral tanto se lhe dá que Paulina escrevesse primeiro a Fernando, como Fernando a Paulina. Além de que, a desmoralisação é o escandalo. Escandalo n'este facto, se alguem o dá, sou eu, que conto a historia; todavia, provando eu a final que o acto em si era innocente e as consequencias não desfitaram do mais honesto scopo, é justo que me descoimem do escandalo, e agradeçam a historia.
Em quanto á felicidade, segundo as regras do dever, sou a dizer-lhes que não ha nada mais incerto que as regras do dever em materia de felicidade n'este mundo. Muita gente vae direito á rasão pela estrada do paradoxo. Outra muita gente, a fugir da absurdidade, quebra as pernas no barranco da rasão. Uma menina escreve um bilhete a um homem: o mundo sabe-o, e vitupera-a. Outra menina faz-se vermelha de lacre ao receber a primeira carta de um homem: o mundo tem noticia d'um pudor tamanho, e cita o exemplo d'esta santa a quantas meninas o demonio tentador negaceia. Vae, depois, á primeira abre-se o coração de anjo, uns braços de esposo, e um horisonte de summa felicidade; e á segunda, que em solteira não ousara escrever duas linhas a furto de olhos maternos, depara-se-lhe um marido, que só viu n'ella o merecimento boçal de não saber calligraphicamente dizer que o amava! O primeiro pergunta á sua «Porque me escreveste» e ella responde-lhe:--Amava-te.--O segundo faz a mesma pergunta á sua; e ella, a pudica, a santa do pejo, ha de, por mais que tergiverse, responder-lhe: «Não te escrevi, porque me não merecias confiança». Uma exalta; a outra rebaixa; uma faz-se amar pelo duplo prestigio de sua innocencia; a outra deve entediar mais cedo que o costume, porque embaiu a gente, encampando como innocencia uma boa dóse de velhacaria. Ha muito d'isto; mas não é assim tudo. Já disse que regras fixas nenhumas ha. As meninas n'este ponto, consultem as damas virtuosas e illustradas. A mim não me chamem para coisa de tamanha responsabilidade. N'estes combates das paixões, os romancistas são como os escrevedores que os antigos cabos de guerra levavam comsigo para historiarem as carnificinas: ficam-se cá de longe alapados a verem o fogo, e relatam ao universo os varios successos. Tornemos ao essencial.
Fernando Gomes viu entrar as meninas na sala em que Bartholo de Briteiros lhe andava mostrando alguns bustos de Bartholini, famigerado esculptor de Florença, que cinzelara tambem os bustos de Paulina e Eugenia. Estava o magistrado encarecendo com voluptuoso enthusiasmo a Bacchante de Bartholini, que elle vira na galeria do duque de Devonshire, e contava d'um francez que chegara a Florença, e pedira venia ao esculptor para dar um beijo na sua Bacchante, beijo ardente que parecera filtrar fogo nos beiços marmoreos da lasciva tentadora.
Bartholo mudou de tom, quando ouviu o ciciar de sedas. Entraram as meninas, e approximaram-se do piano. Eugenia tocou: Paulina cantou uma aria da _Norma_; e, durante o alegro, como o chapeu de Fernando estivesse sobre a cadeira contigua ao piano, e os olhos de Fernando n'ella, e os de Bartholo em uma estatua da Sabina de João de Bolonha, a menina lançou no chapeu o ramo.
Fernando viu, e sentou-se, sentou-se violentado por umas caimbras de pernas. Parece que devia ser unicamente abalado o coração; mas estou em crer que homem amante é todo e em tudo coração.
D'ahi a pouco, eram horas de jantar.
Fernando ouviu o chamamento d'um escudeiro agaloado. Tomou o chapeu: não lhe podiam as mãos convulsas com o thesouro. Aterrava-o a magnitude da sua felicidade. O quer que era de idiota lhe desmanchava as feições. Bartholo convidou-o a jantar ceremoniosamente. Fernando balbuciou expressões confusas de reconhecimento, ajustando bem cerradas com o peito as abas do chapeu e saíu.
Não lhe cabia o coração no quarto da hospedaria. Queria o sol, o azul do céo, os pinhaes, os vinhedos, e as flôres das margens do Arno como testemunhas da sua alegria.
Áquella mesma hora é que os dois velhos, na calçada do Sacramento, se abraçavam, debulhados em lagrimas, e diziam:
--Que mal fizemos a Deus!
Que faces a vida tem!
Fernando leu um poema em cada lettra d'aquelle insignificante escripto. _Insignificante_, digo! Injustiça de critico litterario, que só vê a magestade do entendimento humano nas ramagens floridas do estylo! Como _insignificante_! Cada palavra d'aquelle singelo bilhete salvaria Leopoldo Roberto, Chatterton, e quantos por amor se tem lançado nos braços da morte! Dae a cada desventurado, em transes de suicidio, um bilhete assim, de mulher como aquella, e eu vos restituirei um homem com vida exhuberante, com alma recaldeada para todas as adversidades, com amor a Deus e aos homens, retemperado de juizo para se predispor aos gosos da velhice, e d'uma numerosa posteridade--destino humanal mais efficazmente averiguado e demonstrado.
Ao escurecer, Fernando voltou a Florença, e velou a noite inteira, escrevendo. Quando os primeiros raios do sol lhe douraram a ultima pagina da carta a Paulina, a cabeça do moço, calcinada pela febre da felicidade, pendeu sobre a mesa, e immergiu em não melhores delicias de sonhos.
Despertaram-n'o para lhe entregarem uma das succesivas cartas que seu pae lhe estava sempre mandando, quer por navios que saíam de Lisboa para França, quer pelo correio de Hespanha.
Que melancholica transição a da leitura das suas paginas arrebatadas para este chão e monotono escrever do artista:
«Lemos a tua carta com muita magua. Bem me dizia o coração que tu não vinhas! A tua carta entristece mais esta separação de tuas irmãs. Se ao menos tivesses saude, Fernando! Mas doente, sem me dizeres que molestia soffres, isto augmenta a afflicção de teus velhos paes. Muito enfermo deves estar para, ainda com sacrificio, não accudires á nossa saudade! Deus te allivie, e encaminhe para nós.
«Vejo que essa cidade te prende mais que as outras; mas foi-te ingrata, filho. Tiveste saude em toda a parte, e só ahi adoeceste, dizendo-me tu que era um clima celestial o de Florença.
«Talvez te prendessem as memorias d'aquelle poeta que tu me lias, ha annos. Era Dante, se bem me lembro; mas eu queria que o teu coração de filho vencesse os prazeres do espirito; queria que os não esquecesses por amor da sciencia.
«Isto não são queixumes, Fernando, não são. É rabugice estar eu a ralhar comtigo porque a doença te impede de vir. O que eu te rogo, e mando, filho é que, assim que as forças t'o permittirem, venhas dar contentamento á tua boa mãe, que está muito acabadinha, e mais depressa irá ao seu fim, se desconfiar que nos esqueceste...»
A carta continuava assim por longo espaço de papel, manchado de lagrimas.
Fernando não tinha a força de alma que caracterisa os homens grandes. Estamos vezados a dar carta de grandeza a uns vermes que não teem lagrimas, nem se deixam alquebrar de vulgares contingencias da vida. O filho do artista depôz a carta, e murmurou:
--Meus queridos paes! como eu vos sacrifico sem saber a que!... Pude enganar-vos para me gosar das primicias de alguma desgraça!
E, respondendo a esta carta, escreveu aquella em que transluzia a muita acerba previdencia do seu futuro, com phrases incongruentes, e por virtude da qual Francisco Lourenço se fizera no caminho de Napoles.
X
O marquez de Tavira...
--Temos gente nova na historia?
--É verdade, leitor. Chegou agora mesmo de Roma e Florença o marquez de Tavira, aulico da côrte do proscripto, emigrado desde a convenção, do primeiro sangue de Portugal, sujeito de quarenta annos bem conservados, que parecem trinta, arruinado desde o seu setimo avô, mas ainda rico de umas riquezas inexauriveis de fidalgos portuguezes velhos--a gente de mais industria e artimanhas que eu conheço--não desfazendo nos fidalgos portuguezes novos, que estes, para se esquivarem á arguição de terem avós, avós arruinados, começam por não terem avós, e renegam os paes como logicos que são. Este periodo é de abafar!
O marquez de Tavira hospedou-se em casa de Bartholo de Briteiros. Não se viam desde 1832. Conheciam-se do paço, tratavam-se de _tu_, e tinham rapaziadas communs, posto que Bartholo se lhe avantajasse em onze annos.
Mania fôra sempre de Briteiros aparentar-se com Cogominhos de Tavira. O marquez dizia que seu avô falava no parentesco dos Briteiros da casa de Robordochão; e, dito isto, regularmente pedia a Bartholo dinheiro, e Bartholo dava dinheiro ao primo marquez, que era expansivo, quando embriagado; e embriagado nas orgias de Queluz, Salvaterra e Alfeite, costumava rir de Bartholo de Robordochão, que dava metal amarello a troco de sangue azul.
O marquez, desde a convenção em que largara a espada de coronel de artilheria, vagueara por França e Belgica, destroçando o restante do patrimonio vendido pelo terço do valor. Depois fôra a Allemanha em cata do senhor D. Miguel de Bragança; e, como encontrasse pobre o real exilado, invocou o seu inquebrantavel espirito e aproou para Florença, onde o chamava a pascacice do primo Bartholo de Briteiros.
O acolhimento frizou com as melhores esperanças.
O marquez teve logo, e muito rogado a possui-los, bellos aposentos, dinheiro a granel, optima convivencia de duas meninas, que o festejavam com franqueza de primas, e as melhores relações de Florença.
Este incídente coincidiu com aquellas tristezas e alegrias de Fernando Gomes, na manhã em que fechava uma carta para Paulina, e abria outra de seu pae.
Bartholo, sedento de noticias, enguliu quantas mirificas pêtas o marquez inventou, concernentes a restaurar D. Miguel no throno. No dizer do industrioso hospede, a Russia estava a disciplinar-se para talar a Europa, e passar o rôdo sobre as corôas usurpadas. O ex-ministro da Alçada, como bebesse mais alguns calices de champagne, no auge de sua alegria gosou-se de visões deliciosas, entre as quaes, se a conjectura me é fiel, avultavam uns triangulos do caes do Sodré, e umas lavaredas do Campo de Sant'Anna. Bartholo quiz pôr luminarias; mas o marquez dissuadiu-o d'uma virtude, que pareceria ridicula a olhos extranhos: a virtude das luminarias!
Passeava, ás seis horas da tarde d'aquelle dia, Fernando na praça do Dome. Paulina estava na janella. Passados momentos recolheu-se, e reappareceu com uma creada. Fernando comprehendeu, e avisinhou-se. Paulina apontou para o muro do jardim, e sahiu da janella.
Caminhou o moço, rente com a parede, e viu a creada debruçada no peitoril d'um caramanchão angular do jardim. Atirou-lhe a carta, e apanhou um bilhete que ella ao mesmo tempo deixara cahir, com uma _saudade_, flôr que, em parte alguma, tem o nome suave que portuguezes lhe dão.
Dizia o bilhete:
«Ámanhã vamos para Piza, onde temos de passar alguns dias. Vae comnosco o primo marquez de Tavira, que chegou hoje de Roma. Se não fosse o medo e os conselhos da mana Eugenia, pedia-lhe que se fizesse encontrado comnosco. Seria temeridade? Eu lerei muitas vezes a sua carta, sempre que puder fugir á vigilancia de meu pae. São tres dias: paciencia! Mando-lhe uma flôr, que me faz lembrar as da nossa patria... Ainda nos veremos lá, Fernando?...»
_Seria temeridade?_ Este modo de perguntar, esta duvida em que Paulina ficava, teve Fernando na perplexidade de minutos em que o coração usa demorar as suas decisões. A ida do marquez com ella para Piza, o primo marquez, tres dias de ausencia com o primo marquez... Este primo marquez foi quem deu um empurrão em Fernando, pela porta fóra de Florença, caminho de Piza. _Seria temeridade_? seria; mas o contrario, o ficar, o estar tres dias sem ve-la ainda mesmo que o primo marquez não fosse, isso é que seria pusillanimidade, juizo de mais, excesso que mulheres amantes consideram coração de menos.
Fernando viu Bartholo e o marquez, com as duas meninas, entrarem na caleche. O de Tavira sentou-se em frente de Paulina. O filho do artista esperou que a locomotiva passasse rente por elle, e fitou o fidalgo, emquanto Paulina ia de rosto voltado para ve-lo. Seria já o ciume que lhe afuzilava nos olhos? O primo convencional dos Briteiros era, como já disse, um rapaz de quarenta annos, um gentil rapaz, quanto se póde se-lo, com um fardo de quasi meio seculo no espinhaço. As barbas intensas, nitidas, e negras, os longos cabellos á _Saint-Simon_, o porte soberbo, as fórmas fidalgas e significativas de destreza e força, as faces ainda rosadas, eram predicados de assustarem um amante de compleição doentia, poucas carnes, estatura mediana, ar e olhar timorato, e outros attributos de que os authores de novellas nunca revestem os personagens fataes, ditos _leões_.
Assim que a serpe do ciume o mordeu, não havia já consideração que lhe estorvasse o passo. Fernando partiu para Piza, curta jornada de algumas horas. Passou na _piazza del Calvalieri_, para esperar, n'aquelle centro da celebrada cidade, a passagem da familia. Em que monumentos iria elle procurar Paulina? Áquella hora, a illustre familia de Portugal estava em casa da opulenta ingleza Smith, cujo palacio nas margens do Arno abria seus salões na noite d'aquelle dia. A que parte iria o triste moço, mais triste na soledade da terra estranha, onde elle, como de si dizia Méry, se julgava, ao meio dia, o locatario unico de uma grande cidade? Foi ao _Campo santo_, vasto jazigo dos que morreram lidando na conquista do sepulcro de Jesus Christo. Seria aquelle o local mais ajustado á sua dôr? Os tristes sem consolação, como que refugiados da vida, se travam em mysticas confidencias com as cinzas dos que passaram seu dia chorando e, alli enxugaram as ultimas lagrimas no lençol humido da leiva.
Ao entrar no cemiterio, Fernando recordou as palavras d'um illustre viajante, que tambem lá fôra a recobrar-se de alentos para arcar com a desventura do seu curto dia: