Agulha em Palheiro Quinta edição
Chapter 4
Tinha expirado o prazo da viagem, estipulado por Fernando, e aceite por seu pae. No penultimo mez dos dois annos, recebeu o moço carta de Francisco Lourenço, instando por sua ida antes de concluido os dois annos, se possivel fosse. O artista dizia assim em sua carta:
«Está pactuado o casamento de tuas irmãs.
«Gracinda casa com um official de secretaria, rapaz de bom proceder, e familia honrada. Genoveva, não menos feliz, vae unir-se a um capitão de mar e guerra, homem já entrado na edade, mas muito estimavel, e muito do agrado d'ella. O prazer de nós todos seria que assistisses a esta festa, e enxugasses as lagrimas de teus velhos paes, quando as duas meninas, na mesma hora, se apartarem de nós! A estas dôres chama o mundo _festas_. O apartar-me de meus filhos quer o mundo que eu o festeje, como se approximasse mais de minha alma! Que tristeza será a d'esta casa se tu aqui não estiveres, filho! Que direi eu ás lagrimas de tua mãe, e ella ás minhas!... É preciso que nos ampares a ambos: aos teus braços é que ambos pediremos força para acceitar com resignação esta dôr obrigatoria, pela qual alguns paes recebem parabens! Não me detenho a pedir-te que venhas. Surda estaria a tua alma se não ouvisses os dois velhos que te estremecem...»
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Eu podia escrever muitas paginas soberbas de hyperboles, umas minhas, e outras copiadas, para dizer quanto Fernando amava Paulina; porém, n'essas muitas paginas, seria tudo pouco para dizer tanto como n'esta linha: _Fernando leu a carta de seu pae, e não sahiu de Florença_. Isto vai sem ponto de admiração, porque eu, em materia d'amor, estou como Horacio a respeito de tudo mais: _nihil mirari_. Maiores desatinos que o de Fernando Gomes reclamam indulgencia das almas bem formadas, almas que não sejam raio de luz sem calor n'uma pouca de lama, ou humano barro, que dispara no mesmo.
Fernando mentiu a seu pae: disse que estava enfermo de febres, apanhadas em Roma nas lagôas pontinas. E mentiu sem vergonha de si mesmo! A celebrada honra de Epaminondas é a fabula mais paradoxal da antiguidade. Amasse elle uma Paulina, e estivesse em Florença, em Florença que, no dizer do author de _André Chénier_, «é como a Circe que maneata os forasteiros de invisiveis liames, e lhes dá continuada festa de musica, paisagens, perfumes, pompas e mulheres, a fim de incutir-lhes o esquecimento do seu paiz!...»
Fernando fugiu ás musicas e aos perfumes da magica cidade. O seu amor era taciturno e solitario, como um luto de saudade inconsolavel. Nascera em rebentações de fogo como as lavaredas da Sicilia. Estava debaixo do céo italiano; incubou-se d'aquelle fogo, bebeu a peçonha da immensa mansenilha, que braceja serpentes de mortal amor por todos aquelles remansos fataes de Genova, Piza, Veneza e Napoles. O céo esperara-o n'aquelle ponto para lhe emborcar d'um jorro todo o amor, que lá em cima é glorificação, e cá em baixo inferno. As flôres de sua alma desabrolharam das mil côres da esperança, e no viço de primeiras; mas logo amarelleceram. O formidavel «impossivel!» bateu-lhe na cabeça e peito, para que a razão e o coração morressem a um tempo. A razão morreu para não reagir. O coração vivia com centenares de cabeças como a hydra. O coração é a salamandra de seus proprios incendios; lacera-se, como o pelicano; de cada golpeada tira golfos de sangue, e n'este sangue medram esperanças, cada dia mais infernadas. Este é o amor maldito dos que amam, como amava Fernando a creatura divinisada por todos, isempta de todos, vigiada pelos olhos coruscantes do velho, que tinha coração de pae, com ferocidades de rei das selvas, velador dos seus leonculos.
Seria este imaginar impossiveis uma hallucinação do nosso homem? A gente mais sisuda e mais desbaratada em lidar com o mundo não lhe acontece tantas vezes fazer pé atraz, diante de travancos que uma borboleta transmonta a brincar por entre arbustos floridos? N'este artigo de mulheres, quantas vezes se nos figuram castellos roqueiros umas sobrancerias que lá ao pé se alhanam como relvados macios, planos, chãos, e todos desentranhados em boninas, que se estão como offerecendo ás solicitas abelhas, e até a zangãos damninhos!
Ora vamos ver se Fernando cae das alturas por onde se anda após do cherubim, e vem cá baixo á estrada coimbran, ao amor rameraneiro, de theor e modo que o estylo possa assingelar-se o necessario para ser bem entendido e estimado. Fuja todo o romancista de entender com personagens que trazem a cabeça de telhas acima: a nossa linguagem lusitana é pouco para exorbitancias taes. Os francezes dizem tudo o que querem, e até o que não ha, nem tem ideia correspondente. Os allemães tambem. Cá entre nós, boa gente do velho Portugal, gente que é toda vulgo nas paixões quotidianas, quem quizer remedar extrangeiros nublando os ares com fumaças de idealismo, despega em tolice tamanha, que não será assombroso fecharem-se-lhe as portas da academia real das sciencias, ou negar-se-lhe venera da ordem de S. Thiago da Espada! Não póde ir mais longe o menos preço dos parvos.
Paulina via todos os dias Fernando na _piazza di Dome_, sobre a qual se abriam as janellas dos seus aposentos. Chamava logo a irmã, clamando pressurosa:
--Vem vêr o nosso patricio, Eugenia!
Assentavam os cotovellos no peitoril do balcão de marmore, e alli se quedavam como duas rolas, a contemplar o portuguez, que as cortejara, e parecia te-las logo esquecido. Não ousava elle fita-las segunda vez! Remirava-as por entre os grupos: e o espaço aereo d'entre quatro cabeças era a suprema ambição do moço, a entre-aberta do céo nas visões de um santo anachoreta.
Algumas noites as filhas de Bartholo de Briteiros viram Fernando no palacio Orlandini.
--Que terá elle que nos não procura?!--dizia Paulina a sua irmã--Mas repara que não dá preferencia a ninguem!
--É tão triste aquelle homem! Serão assim todos em Portugal?--dizia Eugenia.
--Faz-me pena aquella tristeza! acudiu Paulina.
N'outra noite a compassiva filha do fidalgo disse á irmã:
--Chamemo-lo, sim? não parecerá mal?
--Não; pois que mal é chamarmos o nosso patricio?
Eugenia fez signal a um francez, que não era principe, nem duque, nem se quer especieiro rico: era um pintor, um amigo querido de Bonaparte.
--Senhor Leopoldo Roberto--disse ella--conhece aquelle portuguez que está falando com a princeza Carlota?
--Fernando?... Conheço-o desde que elle chegou a Florença--respondeu o palido mancebo.--Achei-o um desgraçado.
--Desgraçado?!--atalhou Paulina.--Que infortunios são os d'elle?
--Os extremos: os do amor sem esperança--respondeu o pintor.
Paulina encontrou os olhos de sua irmã, que pareciam dizer-lhe: «ouves?»
Leopoldo Roberto esperou novas perguntas das meninas. Passados minutos, aventurou-se o artista a perguntar:
--Pois não conheciam o seu patricio?
--Foi-nos apresentado pelo principe de Monfort--disse Eugenia--mas dos seus infortunios não sabiamos.
--É de Florença a senhora que elle ama?--perguntou Paulina.
--É de Portugal.
--E elle está em Italia?!--accrescentou Eugenia--porque não vae então para Portugal?
--Andará a viajar para conhecer se ella o ama, e sente a ausencia--disse Paulina.
--A dama está em Florença. A formosa Paulina conhece-a.
--Eu!...
--Sim, minha senhora. Digo-lhe o grande amor de Fernando, e peço-lhe que o salve.
O pintor ia retirar: Paulina exclamou:
--Venha cá... explique-me esse mysterio... Eu conheço a senhora portugueza que Fernando ama?!
--Os anjos de innocencia nem mesmo tem o coração que adivinha?--replicou Leopoldo--Hei de eu por força dizer-lhe que Fernando queria morrer sem que a imprevista Paulina soubesse que o matava?!
As meninas não proferiram um monosyllabo. Leopoldo, o ascetico amante de Carlota Napoleão, approximou-se de Fernando, que falava com a princeza. Levava nos olhos uma alegria desusada. Carlota mudou de local, e o pintor disse a Fernando:
--Quebrei o encanto. Paulina sabe que a amas. É bom que estas mulheres se glorifiquem com saberem os nomes das victimas. Morrer obscuramente!... morrer ignorado da mulher por quem diluimos a vida em lagrimas de sangue! Isso não! é preciso abrir larga fenda no peito, arrancar fóra o coração, e mostrar-lh'o. Então sim! ao menos servimos á gloria da mulher que se amou. Ella, se não póde dizer «amei-o,» diz «matei-o!» e póde ser que o diga com piedade; venha, pois, essa piedade posthuma, que deve ser regalo do cadaver! Que maior serviço posso eu fazer-te, amigo?
Fernando apertou convulsamente a mão de Leopoldo, saiu aos jardins a dilatar o peito, a desdobrar da alegria que vos commove como os assaltos do medo. O pintor não o seguiu, dizendo:
--Vae só, que eu não tenho alegria nem lagrimas que esconder. Recorda-te sempre de mim: propiciei-te o idolo em cujas aras era desconhecido holocausto. Agora pódes acabar, que cumpristes a tua missão. A minha ainda está imperfeita.
Para que o leitor me não tome como cousa de destemperada imaginativa este Leopoldo Roberto, pintor francez, amante de Carlota Napoleão, peço-lhe que abra um livro de Eugenio Pelletan, o qual livro se chama _Horas de Trabalho_. Ahi, por algures, achará em resumo, n'aquella linguagem diamantina do illustre professor de philosophia, a historia dos amores; e, logo na pagina seguinte, a historia do suicidio do pintor.
Hão de ver como elle atirou com o peito ás puas do despedaçador IMPOSSIVEL, e arquejou voluptuariamente n'aquellas agonias, sem esperança de sentir a mão da princeza enxugar-lhe o suor glacial. Reparem no quadro que elle aperfeiçoou na vespera do seu dia final. São scenas campezinas: obreiros que vão ás ceifas e voltam dos campos coroados de espigas. Oh! que formosissimas visões antecedem os paroxismos do talento! Que lucido agonisar o dos genios? Quem ha de crêr na mortalidade da alma, quando ella assim se rejubila ao pé do golfão em que o corpo se despenha como pedaço de materia postulosa e tábida?
E não te salvou o anjo da arte, ó poeta das primaveras, dos arreboes, e dos crepusculos? Não tinhas uma Galathea em cada uma das tuas camponezas? Não te palpitavam aquelles corações debaixo da palheta? Já sabias que a tua immortalidade estava á porta do seu templo, para abrir-t'o logo que a lousa te batesse em cheio sobre o craneo estalado pela bala?
Que princeza te valia uma inspiração das tuas noites desveladas!
Quantas rainhas de virtudes deixaste lá em baixo escondidas nas florestas que perpetuaste em teus quadros!
E não as amaste, como prodigo, e as déstes ao mundo, que t'as ama e as adora nas galerias, nos museus, nos empórios das summas maravilhas do bello!
Olha ahi por esses palacios de principes, na Florença, em que premeditaste morrer, olha ahi como as turbas se enlevam no teu genero immorredoiro!
E vê tu quantas princezas, como a tua Carlota Napoleão, desceram do solio ao exilio, do exilio á tumba, da tumba ao esquecimento; e os teus poemas ficam; e o teu espirito revive em céo e terra, e o homem pára diante da tua sombra, e deplora que uma princeza não subisse a ti para tu não desceres a procura-la no bojo negro do teu inferno, ou nas explendorosas serpes da chamma em que te abrasaste, ó crysalida d'um anjo!
VII
Queremos agora vêr como procede o portuguez.
A poesia do mysterio está aguada. Descerraram-se d'entre as nevoas as duas estrellas que devem approximar-se ou repellir-se. A constellação é mais de esperar, quando os prenuncios são d'esta ordem.
Tenha-se em seus brios, Fernando Gomes! Portuguezes são pouco dados a beberem trago a trago uma prosaica morte em ideaes mysterios! Costumâmos abrir o coração e despejar á flux quanto lá ha. Se nos desdenham, a dignidade propria nos rehabilita. Se nos acolhem, damos pelo commum excellentes maridos, carinhosos paes, e preciosos jarretas na velhice.
Romances d'amor, que desandam em morte de tuberculos moraes, não pegam cá. Isto é terra de Hespanha e o céo de Italia, como diz o mais poeta dos portuguezes, o dulcissimo Castilho. Ama-se como na Italia, e entendia-se como em Hespanha. Quem quer saber o que é amar em Italia, leia Byron em Veneza, e Henry Beile em todos os seus romances, e peculiarmente na _Physiologia do amor_. Eu gosto de indicar as fontes limpas, para que me não attribuam aguas sujas, nem acoimem o romance de hoje em dia de pêco e ôco de conhecimentos uteis.
Ora vamos lá ao conto, que está a meada a desencadilhar-se.
Fernando Gomes venceu o seu pejo, e voltou dos jardins ao salão. Um francez, desconhecido d'elle, perguntou-lhe se era o portuguez Fernando.
--Sou o portuguez Fernando--disse o moço.
--As suas patricias encarregaram-me de perguntar a Leopoldo Roberto se o senhor sahira; Leopoldo Roberto não sei onde está: porém, como encontro o senhor, creio que lhe dou prazer communicando-lhe directamente os cuidados das senhoras de Briteiros.
Fernando agradeceu affectuosamente a urbanidade do francez, e convisinhou das meninas, a tempo que chegava Bartholo.
--Patricio e amigo--disse este a Fernando--não fuja da gente. Amigos, amigos, politica á parte.
--Eu não fujo de vossa excellencia--disse o moço côr de rosa, quanto rosas se alastram em rosto de homem trigueiro.
--Pois o senhor sabe--tornou Bartholo--que está um portuguez em Florença, portuguez dos bons tempos, e não o procura?!
--Vossa excellencia até hoje não me deu bastante afouteza para solicitar tamanha honra.
--Vá quando quizer. As minhas portas estão francas a quantos portuguezes, realistas ou não realistas, quizerem visitar um portuguez que honrou sua patria!--Ora o senhor, que saíu ha dois annos de Lisboa, ha de dizer-me se lá viu meninas mais galantes do que as minhas filhas!
Fernando córou outra vez, e tartamudeou; as meninas sorriram; e o pae insistiu na pergunta com certo desplante que não vae mal em velhos folgasãos, e até faz gosto ouvi-los n'estas liberdades, quando se fundam em muito amor ás filhas.
Fernando respondeu:
--Posto que eu conhecesse pouquissimo a sociedade de Lisboa, digo, sem receio de baixa lisonja, que as filhas de vossa excellencia seriam em Lisboa, como em toda a parte, bellezas distinctas.
--São a pintura da mãe--atalhou Bartholo.--Minha mulher foi a dama mais linda de Portugal. Deixou-me estes anjos para me ampararem. Se não fossem ellas, eu tinha-me atirado á cova que m'a roubou!
Assomaram subitamente lagrimas aos olhos do quinquagenario. Fernando hauriu prazer d'aquellas lagrimas. Porque? O moço queria presuppôr coração, sensibilidade e affectos brandos n'aquelle homem que lhe avultava de bronze á phantasia.
Passou Bartholo o lenço pelos olhos, e continuou:
--E ha por ahi quem se tenha lembrado de me privar das filhas!... Veem com a palavra «casamento» propôr afoitamente a um pae que rompa os laços de dezoito annos, que lance de si as suas joias, a luz dos seus olhos, o ar do seu peito, e as deixe ir nos braços de uns libertinos fatigados, que as viram hontem pela primeira vez, e ámanhã lhes voltarão a face com sobranceria de maridos! É horrivel este systema de organisação social! A sociedade não se sustenta senão á custa d'estes roubos legaes feitos ao coração de um pae. E isto se chama manutenção da moral!... Deixa-la ser! As minhas filhas são a minha vida. Em quanto eu respirar, quero ve-las, quero te-las ao lado do meu leito de agonia. Custaram-me muito. Ficaram sem mãe muito tenrinhas. Criei-as eu nos meus braços: passava as noites com o ouvido collado á fechadura das alcovas onde dormiam as amas, para, assim que os anjinhos chorassem, acordar as mercenarias creadas. Isto fazia eu, senhor Fernando, quando negocios importantissimos de estado dependiam das minhas vigilias. Cresceram aquecidas pelo meu bafejo. Trouxe-as desde os seis annos na minha carruagem, quando ia aos tribunaes; não as confiava de ninguem. E queriam roubar-m'as agora que estão feitas, lindas, e ricas de felicidade e alegria para me retribuirem o muito que soffri por ellas!... Ainda bem que nenhuma me tem sido ingrata. Quando rejeito os pretendentes, adivinho-lhes a vontade d'ellas. O maximo prazer que me dão é serem dignas de illimitada confiança. Dizem que as vigio; tem-n'o dito o principe de Monfort; é falso, é calumnia; ellas ahi estão que o digam. São senhoras das suas acções: vão onde querem: ordenam seus passeios e visitas; e eu sigo-as com a docilidade e contentamento de uma creança. Ambas ellas sabem que me matam no momento em que me deixarem; e por isso Florença, Londres, Paris tem sido para minhas filhas como desertos... Coitadinhas! querem ir para Portugal; teem saudades de não sei que ninharias pueris!... Deixae estar, filhas, lá iremos, lá iremos em dias mais ditosos. A justiça ha de vencer, porque sois dois anjos, e estaes da parte da justiça. Tendes muita vida para largas esperanças. Voltaremos a Portugal talvez mais cedo do que vós mesmas ambicionaes. O rei... Agora reparo que estou falando com um soldado _mindeleiro_...
--Não, senhor--atalhou Fernando--não posso gloriar-me da façanha do Mindello...
--Façanha!... Ora essa! que façanha?!
--Coragem, atrevimento, se vossa excellencia antes quer...
--Qual coragem!... O senhor então não sabe a historia contemporanea... Fale-me de traições, se quer que eu lhe explique a façanha do Mindello, que, espremida na mão imparcial d'um critico, dá de si um heroismo negativo, uma pagina de historia que, d'aqui a cincoenta annos, quando os taes sete mil e quinhentos tiverem morrido, será reduzida á data do desembarque d'um principe foragido do Brazil, e mais nada...
Fernando Gomes estava escarlate, e reteve-se a ponto de murmurar apenas:
--A historia não se faz assim. Vossa excellencia está brincando!...
--Brincando!... interrompeu o membro da Alçada.--Creia o que eu lhe digo, que tenho o segredo da rebelião desde mil oitocentos e dez. O senhor nasceu hontem: não sabe nada. Pegou d'uma arma, quando naturalmente largou a espada de folha de flandres, e a pistola de matar moscas...
Paulina fitou os olhos em Fernando, e fez com elles e com os labios a mais ameigadora supplica de silencio e tolerancia. O condecorado das linhas do Porto sorriu-se, já perdida a côr, e fez um gesto mezureiro ás galhofas algum tanto colericas do fidalgo.
Bartholo cahiu de seus azedumes, quasi furioso, na razão e arrependimento do excesso. Com brandos termos e rosto prasenteiro se desculpou, promettendo nunca mais fallar em rei nem roque; e ajuntou:
--Sabe o que faz isto? É eu não ter portuguez com quem fale nas desgraças de Portugal, que tanto o são para gregos como para troianos. Estes emigrados francezes e polacos todos me falam dos negocios da sua terra, e ninguem sabe nada dos negocios da minha. Chamam-me hespanhol, e não querem acreditar que Portugal é uma nação que faz reis e desordens por sua conta e risco. Um francez a quem eu descrevi os tumultos de Portugal, desde que Napoleão lhe quiz lançar as garras, teve a petulancia de me dizer que qualquer poça d'agua suja, examinada com um microscopio, offerecia um rebuliço de vermes admiravel! Confesso-lhe, que se não tivesse duas filhas, havia de pôr a cara ao francez em apuros de ser examinada com o microscopio!
Fernando Gomes soffreando a indignação, sorriu-se. O seu primeiro assomo fôra pedir o nome do francez; reflectindo, porém, um momento, desculpou o atrevido com as objurgatorias ridiculas e talvez sanguinarias de Bartholo de Briteiros contra Napoleão, na propria casa de Jeronymo Bonaparte, o irmão predilecto do imperador.
O dialogo terminou assim, sem que as meninas proferissem palavra. Fernando afastou se com tristeza, recordando as vehementes expressões de Bartholo, com referencia ao casamento impossivel das filhas. Quem, d'animo frio, ouvisse o cioso pae de Paulina, daria pouco peso aos termos acres e despoticos do velho: o mais racional seria preparar a rebellião no espirito da filha, e vingar assim a sociedade ultrajada pelo egoismo d'um tyranno de dois corações, sedentos de mais amoraveis affectos, e mirando a elles por providencial influxo. Fernando, porém, com o seu verdadeiro, e, por isso mesmo, timorato amor, ponderou como invencivel a vontade do pae, e inconquistavel a vontade de Paulina.
Estava elle engolfado n'estes pensares, a distancia visivel das meninas. Eugenia chamou-o, e disse-lhe:
--O papá affligiu-o com as suas rabugices?
--Não, minha senhora: eu respeito a paixão do senhor Bartholo de Briteiros.
--Olhe que elle diz assim as coisas; mas não odeia ninguem--disse Paulina.--Quando vae a nossa casa? Estimavamos muito vel-o, para conversarmos muito da nossa terra... Vá ámanhã, sim?
--Com o maior prazer...--balbuciou Fernando.
--Demora-se em Florença? tornou Paulina.
--Não sei dizer a vossa excellencia...
--Depende o demorar-se da vontade de sua familia?--perguntou Eugenia.
--Já desobedeci á vontade de meus paes. Eu devia estar em Lisboa a esta hora... Estou em Florença, e Deus sabe onde o meu destino me chama...
Se Leopoldo Roberto houvesse sido menos explicito com a filha de Bartholo de Briteiros, o tom em que Fernando respondeu á pergunta de Eugenia bastaria a manifestal-o. O silencio de ambas, e a meiga expressão de Paulina foi tambem para elle sobeja prova de que o tinham comprehendido. Os dois corações, n'aquelle instante, esposaram-se em mysteriosas delicias. Tinham-se revelado tudo no magnetico relance d'olhos que se trocaram. Aquellas almas ou se haviam mentido, ou identificado para sempre. Nenhum d'elles assim o pensava. Nós, os que estamos de fóra, é que sabemos decidir d'estes vinculos eternos, e raro nos illudimos. Pena é que cada amante não traga á sua beira um observador, bastante martellado n'estas psycologias, para desde logo caminhar em terreno seguro, com a sibylla ao lado.
[A]Fernando visitou o fidalgo. O acolhimento foi excellente. As meninas reviveram quantas recordações ainda tinham de Lisboa. O antigo desembargador, com insolita moderação, relatou ao hospede a chronica mysteriosa de Portugal desde 1810, a revolução de Gomes Freire de Andrade, a de 1820, e as alternativas sequentes das duas parcialidades. Teve momentos lucidos de consciencia politica, e de admiravel modestia. Pelos modos, se em vez do conde da Barca, ou do conde de Basto, elle fosse o ministro valído de D. João VI, ou de D. Miguel, Portugal voltaria á sua idade de ouro. Para se exaltar era justo que desluzisse a reputação dos privados de D. Carlota Joaquina, e então foi verdadeiro. Deu como decidido ter sido envenenado D. João VI. Contou minudenciosamente a morte do marquez de Loulé em Salvaterra: chamou-lhe _golpe de estado_: mas a historia ha de chamar-lhe golpe de cajado, porque o palaciano foi morto a pauladas. Deteve-se por descuido a fallar dos supplicios de Lisboa, Porto e Extremoz. Eram tudo, no seu modo de ver, sacrificios necessarios á manutenção da ordem. E argumentava com a historia. O protestantismo, dizia elle, não entrou em Portugal: graças ás fogueiras da inquisição. Em quanto a Europa ardia em guerras religiosas, Portugal gosava pacificamente da sua prosperidade, e da pureza do seu catholicismo. D'estas sublimes paragens da historia portugueza, descia o apologista do fogo depurativo da fé a provar a necessidade da pena de morte como cauterio ás chagas sociaes, antes que ellas contaminem os membros sãos. _Etc._
Fernando ouvia-o silencioso. No entanto as meninas, entretidas com os taboleiros floridos dos seus jardins, diziam entre si:
--E tu és capaz de lhe dar o ramo, Paulina?
--Era... mas... que hei de eu dizer-lhe? Ensina-me Eugenia.
--Eu sei cá!... não lhe digas nada... Quando o pae não vir, offerece-lhe as flores.
--O melhor era deitar o ramo no chapéo.
--Mas se elle o deixa ver ao papá?--redarguiu Eugenia.
--Deus nos livre! E que pensas tu?...
--De que, Paulina?
--Será verdade o que disse o Leopoldo Roberto?[B]
--Se elle te ama?
--Sim...
--Pois não vês?! Eu ia jurar que sim... E tu? tu é que devéras gostas d'elle...