A Pata da Gazella: romance brasileiro.
Part 5
Pela manhã se dissiparam essas nevoas que no espirito de Amelia deixara a noite antecedente.
Era domingo. A moça, envolta em seu roupão alvo, com os cabellos soltos pelas espaduas, encostou o rosto á vidraça da janella. Afastando a cortina de cassa branca, podia enxergar perfeitamente a rua, sem que de fóra vissem o seu gracioso desalinho.
Não tardou que se ouvisse um tropel de cavallo. Era o leão que ia dar seu passeio matutino. Vendo agitar-se a cortina, e desenhar-se no vidro a ponta de uns dedos côr de rosa, Horacio cortejou, enviando um sorriso á janella.
Á noite o moço dirigiu-se á casa do Salles. Amelia o esperava. A sala estava cheia de visitas. Entrando, o olhar de Horacio encontrou um olhar terno que o saudava de longe.
Mas o sorriso se desfez com a perturbação que de repente sentiu a moça. A vista do leão tinha descido até o tapete, e se fixara com uma insistencia visivel na fimbria do vestido, ligeiramente arregaçada. Horacio julgou que pudesse lobrigar a ponta do pesinho que idolatrava.
A moça concertou as dobras da saia de modo a interceptar o olhar curioso; e disfarçou conversando com uma amiga.
Desde principio notara Amelia aquelle sestro de Horacio. Quando ella o suppunha mais embebido em seus encantos, mais rendido á sua belleza, sorprendia o olhar do moço a rastejar pelo chão, procurando insinuar-se por baixo da orla de seu vestido.
Muitas vezes ella perdia os seus mais ternos sorrisos, porque o moço, em vez de procurar lhe no rosto a esperança de ser amado, esquecia-se, a catar sobre o tapete alguma idéa que não se animava a revelar. Já tinha succedido, durante que ella tocava, distrahir-se o leão, e com a attenção presa no pedal, nem ouvir a peça de musica.
Horacio a amava sem duvida; já lhe tinha dado provas de que sentia por ella uma paixão vehemente. Elle, o rei da moda, o festejado conquistador, para quem todas as portas e todos os corações abriam-se como a gruta encantada de Aladino, a uma só palavra; elle ali estava captivo da vontade della, e atado a seu carro triumphal. Que prova mais eloquente de profundo amor, do que essa submissão espontanea do altivo leão?
A força nunca se revela tanto como na posse de si mesma, no vigor com que se domina. Hercules, fiando aos pés de Omphale, é o ultimo canto, o epilogo sublime da epopéa da força humana. Exterminando a féra, a natureza e até os deuses, Hercules foi grande; abatendo a si mesmo, foi maior, porque venceu o vencedor.
Amelia comprehendia que homenagem eloquente á sua belleza havia naquella adoração do elegante cavalheiro; sentia-se orgulhosa com esse amor, que tantas mulheres lhe invejavam; considerava-se rainha, desde que via a seus pés subjugado e humilde o rei da moda.
Mas lá no intimo alguma cousa lhe remordia, quando notava a pertinacia com que o olhar de Horacio, procurava a fimbria de seu vestido. Nesses momentos sentia n'alma um alvoroço; chegava a suspeitar que Horacio não lhe tinha amor, e estava escarnecendo della com uma paixão fingida.
A verdade, porém, é a que sabemos. Horacio tinha paixão louca pelo pésinho de que só conhecia a botina e o rasto; fazendo a côrte a Amelia, elle prestava culto ao deus ignoto, que adorava sob aquella fórma encantadora. Pelo cuidado que tinha a moça em não desconcertar os babados de seu vestido comprido de mais, conheceu elle o zelo com que a dona recatava o thesouro. Comtudo não desesperou; o cuidado da moça havia de adormecer um momento; podia mesmo sobrevir um accidente inesperado que realizasse a sua mais cara esperança.
Até aquella noite todos os esforços se tinham frustrado: á sua insistencia a moça tinha opposto a pertinacia do capricho feminino. Quanto mais attento elle estava para aproveitar qualquer descuido, mais alerta ella ficava para não commetter a minima falta.
Horacio porem resolveu dar o golpe; e com essa intenção, fora á casa de Salles, no domingo em que estamos.
Quando se offereceu occasião, travou com Amelia, recostada á janella, o seguinte dialogo:
--Como é bonita! disse elle contemplando a moça com enlevo.
--Ainda não tinha percebido? perguntou ella com ironica faceirice.
--Não, D. Amelia, não; porque de cada vez a acho mais bonita: todos os dias a senhora muda a meus olhos; torna-se outra, mais linda, mais formosa, do que era aquella que eu conhecia anteriormente. Como hoje, acredite, nunca a vi.
--Que tenho eu de mais?
--Não sei; tem uma aureola da belleza! Seus olhos desferem raios de luz tão pura; sua boca sorri como a flôr em botão, que abriu com a frescura da noite. Os anneis de seus cabellos castanhos parecem impregnados de um fluido mysterioso, que se derrama em torno. Mas, de toda a sua formosura ha uma cousa sobretudo que eu admiro, que eu adoro. Não é, nem seus olhos brilhantes, nem seus labios mimosos, nem seu talhe elegante, nem suas tranças tão opulentas; não é nada disto!
--O que é então?
--Para que dizel-o? Para que revelar a minha paixão, a quem della escarnece? Si eu o confessasse, cessariam o supplicio que tenho soffrido, as ancias que estou curtindo? Não; haviam de augmentar si isso fosse possivel. A senhora teria prazer em torturar-me ainda mais.
--Explique-se: confesso que não o entendo. Que supplicio tem o senhor soffrido?
--A mulher é caprichosa, muitas vezes faz padecer aquelle que a ama sinceramente, e só por espirito de contradicção. Uma cousa innocente, um favor pequenino... permitte aos estranhos e indifferentes, e entretanto recusa ao homem que morre de paixão por ella. Não é uma crueldade? A senhora pergunta, D. Amelia, que supplicio tenho eu soffrido. Este, de ser consumido á fogo lento por um desejo, que um gesto seu podia tornar em gozo infinito!
A moça com as faces incendidas em rubôr, luctava no alvoroço e confusão, que iam-se apoderando de toda sua pessoa.
--Entende agora, D. Amelia?
--Não! murmurou tremula.
--Pois não percebeu ainda, que ha uma cousa que eu sobretudo amo na senhora? Tanto percebeu, que fez o proposito de escondel-a a meus olhos, cançados de a procurarem a cada instante. Não está contente ainda de vêr-me arrastando assim a alma pelo pó, no vão intento de entrevêr de longe o objecto de minhas adorações?
O leão fitou um olhar fascinador no semblante da moça.
--Para que negar, D. Amelia? A senhora o sabe, e finge ignorar para mais torturar-me.
--Eu não!
--A senhora sabe por quem deliro de paixão, por quem darei a minha vida sem hesitar. Si não soubesse, já eu teria visto e admirado esse pésinho mimoso, que me mata com seu rigor.
Uma visita que entrava na sala, deu a Amelia um pretesto para fugir, disfarçando seu rubôr e perturbação, no afan da recepção das senhoras que chegavam.
Ao retirar-se, Horacio achou ensejo de trocar uma palavra coma moça, emquanto lhe apertava a mão.
--Não seja cruel!
--Oh, cruel não sou eu; replicou a moça com expressão de ressentimento.
Mais tarde em sua alcova, emquanto desfazia o penteado, soltando os lindos anneis do cabello castanho, Amelia recordou-se das palavras apaixonadas que ouvira de Leopoldo na vespera, e comparou-as com as queixas de Horacio. A linguagem do primeiro tinha a eloquencia da paixão; parecia vir do intimo, do mais profundo do coração. A linguagem do segundo, tinha a graça da seducção; era a vibração passageira das cordas d'alma.
Mas a palavra do leão, vinha envolta em um sorriso gracioso, sombreado por um bigode fino e elegante!
Durante uma semana, Amelia não viu Horacio; por uma razão muito simples. O moço de arrufado, não appareceu durante dois dias; quando se resolveu a apparecer, a moça despeitada inventou um incommodo, e não desceu á sala de visita, pelo dobro do tempo. Si Horacio sustentasse a lucta, podia haver serio rompimento.
O leão, porém, estava domado; tinha achado a sua Diana. No quinto dia foi humildemente render preito e homenagem á suzerana de seu coração. Amelia o recebeu, como rainha magnanima; e tratou-o nesse dia com amabilidade extrema. Pela primeira vez, Horacio pôde beijar-lhe a ponta dos dedos.
Animado com esse acolhimento, o leão arriscou de novo a grande questão. Fitando o olhar no rosto da moça, e abaixando-o á orla do vestido, disse em tom supplicante:
--Me deixa vêr?
--Não; respondeu a moça com vivacidade, e demudando-se.
--Quando cessará este capricho?
--Nunca.
Horacio teve um assomo de impaciencia.
--Bem. Não me quer mostrar a mim, Horacio de Almeida, pois ha de mostral-o a uma pessoa.
--A quem? perguntou a moça irritada.
--A seu marido.
Amelia tornou-se pallida, e sentiu passar-lhe nos olhos uma vertigem; mas recobrou-se logo á idéa, de que as palavras de Horacio não passavam de um galanteio.
--Si algum dia me casar, replicou ella sorrindo, ha de ser com a condição de não mostrar.
--Havemos de discutir essa condição.
--Vamos mudar de conversa?
--Como quizer; temos muito tempo para continual-a.
Emquanto Amelia o olhava sorpresa, Horacio voltando-se para o grupo das senhoras, tomou parte na conversação geral.
--Já sabem a novidade, minhas senhoras?
--Qual dellas? Ha tantas.
--A novidade nova, a ultimamente inventada, que eu acabo de receber em primeira mão, de caminho para aqui.
--Algum casamento, aposto.
--E eu sei de quem.
--Não adivinhou. Talvez que a novidade de amanhã seja algum casamento; quem sabe? respondeu Horacio, relanceando um olhar para Amelia. Mas a novidade de hoje, é apenas um baile, um baile de estrondo.
--Aonde?
--No Cassino?
--No Club?
--Em casa do Azevedo.
--É verdade! Eu já tinha ouvido dizer!
--Quer a senhora fazer de velha a minha novidade. O que se dizia era que o Azevedo tinha tenção de dar um baile, mas disso á realisação vai uma grande distancia. Eu desejo muita cousa que não alcanço, e nem ao menos posso vêr. Foi hoje e ao jantar que resolveu-se a grande questão, por occasião de uma saude. Um amigo que vinha de lá, encontrando-me a dois passos daqui, me deu a noticia do grande acontecimento. Portanto, minhas senhoras, preparem-se!
--Quando é o dia?
--No primeiro do mez proximo. Ponham desde já em contribuição as lojas e modistas; eu o que posso é offerecer-me com muito gosto para admiral-as a todas, e achar a cada uma de per si, mais elegante do que as outras juntas. Si Páris me tivesse ouvido, não haveria guerra de Troia.
--Nem Homero por conseguinte: replicou um litterato.
--Homeros sempre os ha. Quando não encontram os heroes já feitos, inventam-n'os, e com tal habilidade, que esses grandes homens postiços, parecem verdadeiros, como os dentes de osana, e os coques das moças. O mesmo succede com os Anacreontes, cuja raça é muito maior; quando não acham nymphas para cantar, qualquer bruxa lhes serve de pretexto ou de cabide para pendurarem a lyra.
Amelia ficara triste e preocupada; escutava a palavra voluvel do moço, com um sentimento indefinivel de angustia; parecia-lhe que era seu amor por ella, que Horacio rasgava aos pedacinhos, como uma pagina querida, abandonando-os ao sopro do vento, ao capricho daquella conversa.
Uma amiga reparando na tristeza da filha de Salles, e no olhar que em certa occasião lhe deitara Horacio; disse ao ouvido da moça sentada á seu lado:
--Amelia ficou lograda!
--Como?
--Creio que Horacio está justo com outra.
--Quem lhe disse?
--A tristeza de Amelia, e o olhar que o sujeito lhe deitou, quando fallava de um casamento que se ha de saber-amanhã.
--É verdade. Com quem será?
--Naturalmente com alguma fazendeira de mil contos. Depois que sahirem da igreja, o marido leva-a para o collegio do Hitchings; e deixa-a lá como pensionista, emquanto elle vai a Pariz aperfeiçoar-se na _escola dos maridos_.
Esta senhora é uma satira viva; sua conversa parece um fogo de artificio; dir-se-hia que o seu gracioso trajo é todo composto de alfinetes, que ella vai deixando em sua passagem envoltos em sorrisos assucarados, como confeitos do carnaval.
Occulto seu nome porque é muito conhecida na boa sociedade do Rio de Janeiro, e não quero compromettel-a com os noivos presentes e futuros das fazendeiras ricas.
Depois de ter durante alguns instantes ainda polvilhado a conversa com sua palavra elegante e chistosa, Horacio tomou o chapéo e retirou-se. Não eram nove horas; esta circumstancia mais entristeceu Amelia, e mais excitou a attenção da moça maliciosa.
Á porta da casa de Salles, encontrou Horacio seu tilbure. Mandou o cocheiro esperal-o no largo do Machado, e elle, tendo acendido o charuto e vestido o sobretudo, seguiu a pé. Queria pensar.
Horacio pertencia á escola daquelles que entendem, que nunca é tarde para arrepender-se o homem de um compromisso. Elle comprehendia o _jacta est alea_ por esta fórma prudente e rasoavel. Cezar, tendo lançado a ponte sobre a Rubicon, via de longe em Roma a dictadura, e mais tarde a purpura imperial; portanto fez elle muito bem em passar, sobretudo desde que o rio já não oppunha obstaculo. Mas se em vez do poder, Cesar encontrasse no caminho a derrota; a ponte lançada lhe serviria para voltar ás Gallias, e elle teria o cuidado de queimal-a depois que tornasse a passar.
Como Cesar, elle tinha lançado a ponte com aquella palavra dita a Amelia, em um momento de despeito. Devia porém passar o Rubicon do casamento?
Era sobre tão importante questão que o leão queria reflectir, fazendo a pé o trajecto entre Larangeiras e largo do Machado.
--O casamento é o supplicio de Prometheu, pensava elle; um homem atado ao rochedo da familia, com o coração devorado pelo tedio; uma creatura dividida em duas metades, que se contrariam á cada instante, porque estão ligadas. Em vez do romance, do idilio, do drama, a prosa monotona de uma historia que se lê todos os dias. Esse prazer incomparavel de sentir-se todo dentro de si, de resumir-se no seu unico eu, de dispôr livremente de sua pessoa e vida, não o tem o marido a menos que seja um biltre. O casamento dilata a superficie da alma; em vez de soffrer-se no seu coração apenas, soffre-se na mulher, no filho, e em cada um dos fios dessa grande teia humana que se chama familia.
Horacio recordou-se de alguns de seus amigos que haviam casado, e achou nessas reminiscencias a prova de sua opinião.
--O casamento é tudo isso, mas que importa, desde que não ha outro meio de realisar o meu desejo e satisfazer esta paixão ardente e impetuosa? Daria a vida inteira, e sem hesitar pela felicidade que eu sonho. Pois si eu a daria de uma vez, por que não a emprestarei sob hypotheca?
Tendo chegado ao largo do Machado, o moço, entrou no tilbure, que o conduziu á casa.
Ahi, contemplando a mimosa botina, guardada como uma reliquia, encheu-se cada vez mais da resolução que havia tomado.
XI
Eram onze horas da manhã.
Amelia estudava ao piano os exercicios de Hertz. As janellas cerradas deixavam entrar frouxa claridade, coada pela cassa transparente das cortinas.
Nesse crepusculo artificial, a belleza da moça tomava uns tons suaves e meigos, que mais seduziam.
Os lindos cabellos ainda humidos do banho, cobriam-lhe as espaduas de uma tunica de veludo castanho. O bajó de cassa que trazia no seu desalinho matutino, conchegado á cutis, coloria-se com os reflexos rosados do collo mimoso.
Tanta graça e formosura, realçadas pela singelleza do trajo e pela naturalidade da posição, ficavam ali occultas na doce penumbra da sala, recatadas á admiração. As duas horas Amelia costumava subir á sua alcova para se pentear; e o gracioso desalinho despparecia, substituido por um trajo mais apurado e elegante. Era a flôr singella que o vento desfolha na mata, e passa ephemera e desconhecida.
Tantas moças despendem um avultado cabedal de sorrisos, de olhares e gestos, e põem em contribuição a sêda, a renda e a moda para realçarem sua formosura! Mal sabem, entretanto, que nunca são ellas tão bonitas e feiticeiras como em certo momento de seductora negligencia, quando parece que a belleza desabrocha de seu gracioso botão.
A porta da sala abriu-se, e deu entrada ao Sr. Salles Pereira.
O aspecto do negociante era grave; mas da gravidade serena que annuncia uma preocupação agradavel. Trazia na mão uma carta aberta.
Amelia assustou-se vendo entrar na sala o pai, que ella suppunha na cidade. Como todos os negociantes, o Sr. Salles Pereira passava a manhã em seu escriptorio; partia logo depois do almoço e só voltava á hora do jantar. A sorpreza da moça era pois natural.
--Ah! papai! exclamara ella, voltando-se ao rumor da porta. Já veiu do escriptorio?
--Ainda não fui; respondeu Salles Pereira sorrindo. Recebi uma carta, que me obrigou a demorar-me até agora para conversar com tua mãi e... comtigo, a quem o objecto mais interessa.
--A mim? O que será, papai? Algum convite de baile?
--Lê; disse o negociante apresentando-lhe a carta.
Amelia correu os olhos pelo papel, e seu rosto cobriu-se de vivos rubôres. O coração palpitava-lhe com tanta força que debuchava no linho o contorno dos lindos seios.
A carta era de Horacio, que pedia ao negociante a mão da filha.
Acabando de a lêr, a moça de olhos baixos e corpo tremulo, parecia vendar-se com sua innocencia para subtrahir-se ao olhar terno e curioso de seu pai. Nesse momento ella desejava, si possivel fosse, esconder-se dentro de si mesma.
--Que devo eu responder, Amelia? perguntou o negociante.
--O que papai quizer! balbuciou a menina.
--Estás bem certa de que meu desejo é o teu? Si eu não acceitar a honra que nos quer fazer o Sr. Horacio de Almeida?
As palpebras da moça ergueram-se, desvendando seus olhos limpidos.
--Papai não acha bom?
--Si elle te for indifferente, eu por mim não tenho grande empenho. É um excellente moço; tem alguma cousa de seu; mas anda em certa roda que não me agrada.
--Que roda papai?
--De moços da moda.
--Porque é solteiro.
--Então o que decides?
--Desde que papai e mamãi desejam, eu....
--Nós não desejamos cousa alguma; queremos saber tua vontade.
Amelia emmudeceu.
--Bem, já vejo que não é de teu gôsto. Vou responder ao homem com um _não_.
Salles Pereira encaminhou-se para a porta:
--Mas, papai!.... murmurou a moça.
--Que temos?... Falla, que já me demorei muito. Quasi meio dia!
--Vai responder já?
--Já.
--Deixe para amanhã.
--Nada; são cousas que se decidem logo.
--O que vai responder então?
--Que não.
--Mas eu não disse isto!
--Tu nada disseste.
--Pois si eu não gostasse diria logo.
--Ah! neste caso gostou?
Amelia sorrindo acenou com a cabeça.
--Não entendo esta linguagem. Vamos a saber. Amas á Horacio?
A moça fez um supremo esforço:
--Amo! disse ella escondendo o rosto no seio do pai.
O negociante beijou-a na fronte com ternura e carinho.
--Ah! minha sonsa, não queria confessar o que tinha aqui dentro deste coraçãozinho! E eu que pensava que elle só queria bem a mim?
--Oh! papai!
--Bem, bem, não tenho ciumes! Vai consolar tua mãi, que eu vou responder ao homem mais feliz deste Rio de Janeiro.
O negociante voltou ao gabinete; e Amelia dirigiu-se ao interior. Sua mãi estava no quarto, com os olhos ainda humidos de lagrimas. Quem não conhece essas lagrimas abençoadas, que a mãi derrama pelos filhos; e que são balsamos para as afflicções, e orvalhos para as flôres da ventura?
D. Leonor beijou a filha e estreitou-a ao seio como receiosa de que lh'a arrancassem dos braços. Seu coração ora alegrava-se com a felicidade proxima da moça, ora se entristecia com a lembrança da separação.
De repente Amelia sobresaltou-se com uma idéa que lhe acudiu; e deixando a mãi, correu ao gabinete do negociante. Achou-o sentado á escrevaninha, passando por cima da carta que terminara um rolete de mata-borrão.
O pai sorriu vendo entrar a filha.
--Curiosa!
--Já acabou? disse a moça recostando-se com gentileza á poltrona.
--Vê si está de teu gosto; disse o Salles cingindo-lhe a cintura com o braço.
Amelia leu a carta rapidamente; ella já sabia de antemão que faltava alguma cousa.
--Então, que tal? perguntou o negociante com certo desvanecimento.
--Está muito boa papai. Só acho uma cousa?
--O que?
O negociante soffreu uma decepção. Pensava ter feito uma obra prima com aquella carta, escripta em seu mais bello estylo commercial, mas recheada de alguns rasgos sentimentaes.
--Não acha, papai, que elle ficará todo cheio de si, obtendo logo, assim com tanta facilidade, o que deseja? A carta é de hoje; responder no mesmo dia.... mostra muita vontade de mais.
--Que mal ha nisso? Para que deixal-o na duvida, quando pódes tornal-o feliz desde já.
--Papai pensa que elle duvida?
--Ah! Já sabe então! Muito bem!
--Eu não lhe disse nada, papai.
--Então como sabe elle? Adivinhou?
--Não adivinhou nada. Papai bem sabe como são esses senhores da moda; cuidam que todas as moças andam morrendo por elles, e que a dificuldade está sómente em escolher. Como eu não quero que o Sr. Horacio me julgue uma de suas conquistas, estou resolvida, papai, á pensar bem durante quinze dias, antes de dar a resposta.
--Portanto esta carta não serve; disse o Salles com um suspiro.
--Ha de servir, mas daqui a quinze dias. Agora papai deve dizer unicamente, que, tendo me consultado, eu pedi algum tempo para dar a resposta.
O negociante escreveu, e Amelia esperou até que partiu a carta, confiada a um creado.
Momentos depois, Salles sahia para a cidade; e Amelia entrava em sua alcova, descantando trechos de arias e romances. Não se podia dizer que estivesse alegre, apezar do tom garrido com que modulava, e do fresco riso que trinava em seus labios.
O que ella sentia era um alvoroço intimo, uma soffrega agitação, estado indefinivel d'alma prurida por mil desejos, e contida por mil receios.
Vejamos si é possivel descobrir o que passava ali, dentro daquelle seio mimoso.
Desvanecida a primeira commoção, produzida pela carta de Horacio, Amelia recordara-se do que tinha occorrido na vespera, e sobretudo das palavras proferidas pelo moço. Sua vaidade revoltou-se como era natural.
--Hei de mostrar-lhe que não basta querer, para ser meu marido; e que não basta ser meu marido para vêr...
Foi então que se dirigiu ao gabinete do pai, e adiou a resposta definitiva. Voltando, sentiu lá n'um cantinho do coração uns receios que estavam nascendo. Não fosse Horacio zangar-se com a demora, e retirar o pedido? Quinze dias talvez fossem de mais.
Eis qual era o estado do animo de Amelia. Orgulho de vêr subjugado á seus pés o rei da moda; prazer de o ter captivo de uma palavra sua durante muitos dias; arrependimento do que fizera; susto do que podia acontecer; goso da ventura que sorria; taes foram os sentimentos desencontrados que vibraram na alma da moça.
Nessa tarde Amelia preparou-se com maior esmero do que si fosse a um baile. Seu adorno simples, um modesto vestido branco com fitas azues, tomou-lhe mais tempo, do que não levaria a compôr um trajo sumptuoso.
Ella esperava Horacio.
Toda a noite passou indo do sofá á janella, e da janella ao consólo, onde estava a pendula de alabastro.
As horas se escoaram, sem que o tilbure do moço parasse á porta do negociante.
No dia seguinte, Amelia perguntou ao criado, si a carta fôra entregue a Horacio:
--Entreguei em mão, quando entrava no tilbure.
--E que disse elle?
--Nada; leu e riu-se.
--Ah! elle riu-se; murmurou Amelia comsigo. Pois eu lhe mostrarei.
Desde então, empenhada sua vaidade, os sustos se desvanecêram. Estava decidida a não ceder. Horacio depois de vencido tentava ainda resistir-lhe? Pois havia de subjugal-o completamente.
Á noite foi á casa de D. Clementina, onde estava reunida a roda do costume. Leopoldo ali se achava tambem, e comprimentou-a com um modo triste e resignado.
Deve existir uma corrente magnetica entre os homens, um fluido que serve de vehiculo ao pensamento recondito e ainda não divulgado. Não se explicam de outro modo certas revelações de um facto sómente conhecido de poucas pessoas e por estas recatado. A emoção, que desperta esse facto n'alma de alguns, repercute n'alma de outros, e produz uma especie de intuição.