A Pata da Gazella: romance brasileiro.

Part 4

Chapter 43,926 wordsPublic domain

Amelia com as faces á arder não sabia que fizesse; sua mão tremula brincava com as flôres de um vaso, que vacillou sobre o consolo e cahiu no chão. O fracasso da porcelana, despedaçando-se, chamou a attenção das pessoas que estavam na salla; assim rompeu-se o enleio de Amelia.

A moça retirou-se confusa para o interior da casa. Momentos depois entrou de novo na sala, já serena e prazenteira. Seus olhos procuráram Horacio, para offerecer-lhe o meigo sorriso que trazia nos labios.

Esse sorriso dizia em sua eloquencia muda o seguinte:

--Si nunca a mulher soube comprehender o verdadeira paixão, serei eu a primeira.

Foi esta pelo menos a traducção de Horacio, perfeito philologo do amor, e habituado a decifrar esses hyeroglyphos dos labios da mulher.

VIII

Não abandonemos o pobre Leopoldo á sua amarga decepção.

O moço chegára á casa mergulhado na tristeza profunda, que sobre elle derramaram os acontecimentos da manhã. Talvez a morte de Amelia não lhe causasse tamanho pezar, como o daquella cruel decepção que estava presentemente curtindo.

O aleijão excita geralmente uma invencivel repugnancia, repassada de terror. A aberração da fórma humana abate o orgulho do bipede implume, fazendo-o descer á baixo do ourangotango. Ao mesmo tempo, é ameaça viva á uma das mais caras aspirações do homem; a esperança de renascer em outra creatura, gerada de seu ser. Si a fatalidade pezar sobre a prole querida?

Imagine-se que dôr era a do mancebo, quando via a deformidade surgir de repente para esmagar em seu coração a imagem da mulher amada, da virgem de seus castos sonhos?

O contraste sobretudo era terrivel. Si Amelia fosse feia, o senão do pé não passára de um defeito; não quebraria a harmonia do todo. Mas Amelia era linda, e não sómente linda; tinha a belleza regular, suave e pura que se póde chamar a melodia da fórma. A desproporção grosseira de um membro tornava-se, pois, nessa estatua perfeita, uma verdadeira monstruosidade. Era um bérro no meio de uma symphonia; era um disparate da natureza; uma superfetação do horrivel no bello. Fazia lembrar os idolos e fetiches do Oriente, onde a imaginação doentia do povo reune em uma só imagem o symbolo dos maiores contrastres.

Nessa angustia passou Leopoldo o resto daquelle dia e os que se lhe seguiram.

--Não amo a sua belleza material, oh, não! pensava o mancebo. O que eu adoro nella é a belleza moral, a alma nobre e pura, a creatura celeste, a luz, o anjo. Qualquer que fosse o envolucro de seu espirito immaculado, creio que havia de adora-la tanto, como a adorei desde o momento em que primeiro a vi.

«Fosse ella feia para os outros, que chamam formosura o que lhes encanta os sentidos; para mim seria sempre bella, porque meus olhos haviam de vê-la através de seu esplendido sorriso. O que é o corpo humano no fim de contas? O que é o contorno suave de um talhe elegante, e a cutis assetinada de um rosto ou de um collo mimoso? Um pouco de materia á que a luz transmitte a côr, o espirito, e a vida. Tirem-lhe esses dois alentos; e verão que lôdo impuro e nauseante ficam sendo aquellas fórmas seductoras.

«Pois luz e espirito não eram a essencia da alma de Amelia? Quando essa alma a vestia com uma tunica resplandecente, que mulher se lhe podia comparar em lindeza? Então não era sómente formosa, fluctuava em um ether de belleza deslumbrante.

«Mas ella não é feia, é aleijada!...»

Um soluço afogou as tristes locubrações do mancebo. Elle repassou outra vez na mente as circumstancias de sua triste descoberta; quiz duvidar, combateu pertinazmente sua propria razão que lhe apresentava a realidade, e afinal succumbiu, curvando-se á implacavel certeza. Tinha visto uma vez, e como essa não bastasse, o acaso lhe offerecera occasião de apalpar a verdade, e saciar-se della.

--Não se admira a Venus de Milo, uma estatua mutilada? dizia o mancebo reluctando contra sua viva repugnancia. Não se admira o primor da arte grega, apezar de não restar della mais do que uma cabeça e um torso de mulher? Essa bellesa truncada não vale a belleza aleijada? A mutilação não repugna tanto ou mais do que a deformidade?

A razão de Leopoldo não o deixava embalar-se muito tempo nesse pensamento consolador. Replicava logo, refutando vigorosamente as argucias do coração:

--A estatua mutilada, que excita a admiração do mundo, não é a copia integral da belleza que lhe servia de typo; mas um fragmento apenas dessa copia. A alma, que se extasia na contemplação desse fragmento, recompõe o ideal do artista. Admira-se a Venus de Milo, como se admira um esboço não acabado de Raphael; como se admira a petala de uma rosa, arrancada da corolla. Mas, fosse embora aquelle primor da estatuaria a reproducção exacta de uma mulher. A mutilação respeita a bellesa; o aleijão a deturpa. Si a mulher que se ama perdesse um pé seria desgraçada; com um pé monstruoso, é mais do que desgraçada, é repulsiva.

Leopoldo deixava-se convencer por estas sugestões:

--Infelizmente assim é. Mas por que ha de ser assim? A mutilação é um facto humano; o aleijão é um facto natural. Essa aberração do principio creador, esse desvio da fórma primitiva, indicam sem duvida um vicio na essencia do organismo. Não se tem verificado que nos corpos mal conformados de nascença habita sempre uma alma enferma? Nos corcundas sobretudo, porque a espinha dorsal é o tronco da intelligencia. A deformidade de um membro, de um ramo apenas, não denota eiva tão profunda do espirito, é certo, mas revela que a alma não é nobre e superior. Não se concebe o anjo dentro de um aleijão.

O resultado destas cogitações era a gotta de fel esprimido, que ia filtrando á pouco e pouco no coração e acabaria por saturar todas as doces reminiscências dos ultimos dias. Leopoldo convenceu-se que não devia amar a desconhecida; mas, ao contrario, arrancar de sua alma os germens da paixão nascente.

Tomando esta resolução, o moço, que vivia muito retirado depois de suas desgraças de familia, esteve a lembrar-se de algumas antigas relações. Veio-lhe o desejo de cultival-as de novo. Um instincto lhe dizia que para gastar as primicias de um coração virgem, não ha como o attrito do mundo.

Entre as casas que outr'ora frequentava escolheu para a primeira noite a de D. Clementina, amiga intima de sua irmã. Era uma senhora já no declinio da idade e da formosura; gostava muito de dansar, e por isso reunia constantemente em sua sala as moças de sua amizade. Logo que se achavam presentes quatro pares, a dona da casa dava o signal, o marido arredava a mesa do centro, o filho, menino de quinze annos, sentava-se ao piano; e...

--_Chassé-croisé_! gritava D. Clementina.

Nesta casa Leopoldo tinha certeza, não só de ser bem recebido, como de encontrar bastante arruido para aturdir-se, e abafar uns gemidos que sentia ás vezes repercutirem no coração. Tinham decorrido cinco dias depois da decepção: ás oito horas da noite entrou o moço na sala de D. Clementina, que o recebeu com sorpreza cheia de amabilidades.

Além de estimado, acontecia que elle era justamente o quarto par. Tirado o dono da casa, o Sr. Campos, o filho Alfredo, e tres velhas, invalidas da dansa, havia na sala cinco senhoras para dois cavalheiros: servindo uma senhora de cavalheiro, ainda faltava metade de um par.

Quando a campainha annunciou mais uma visita, D. Clementina de olhos fitos na porta da sala, dispoz-se a receber o recem-chegado com o seu mais affavel sorriso. Vendo Leopoldo, correu a elle, e desfolhando-lhe um ramalhete de amabilidades, trançou-lhe o braço; antes que o moço tomasse pé na sala, era arrebatado pela quadrilha, a compasso de galope.

Realmente elle não podia escolher melhor. A agitação daquella dansa rapida, sem pausa; a confusão que os pares creavam de proposito para augmentar a animação; os risos e gracejos que provocavam os menores incidentes da quadrilha; todo esse rumor e atropello tinham por tal fórma sacudido o espirito de Leopoldo, que as idéas e recordações tristes lhe cahiram, como as folhas seccas de uma arvore, abalada pelo vento rijo do outono.

Sentiu o coração vazio, porém tranquillo; o prazer vivo e scintillante daquella reunião, apenas roçava-lhe pela superficie; não penetrava, mas tambem ja não transudavam-lhe do intimo as amarguras de que nos ultimos dias se tinha saturado.

De repente operou-se na perspectiva da sala, uma transformação inesperada. Amelia entrára; e sua graça diffundiu-se como um influxo celeste, no meneio de seu talhe elegante, na suavidade de sua voz, na irradiação de seus olhares.

Leopoldo embebeu-se naquella suave apparição, como da primeira vez que a vira; mas para percorrer em um apice, as phases de seu amor, e cahir de novo na esmagadora decepção.

De repente aquella estatua luminosa escureceu á seus olhos deixando apenas um residuo negro; esqueleto calcinado que arrastava uma deformidade. Debalde Amelia se ostentava no fulgor de sua belleza, toucada pelos primeiros arrebóes do amor; debalde as ondulações de seu corpo debuxavam fórmas encantadoras, e o sorriso de seus labios destillava uma fragancia mystica de beijos puros; os olhos de Leopoldo não viam nenhum desses encantos. Através dos folhos do vestido roçagante, sua vista fitava-se implacavel no pé monstruoso que lhe esmagava o coração como a pata grosseira de um animal.

Todos os encantos dessa creatura, elle os despia de seu manto seductor, e dissecava-os com fria rancor. A inflexão voluptuosa do talhe provinha da resistencia que oppunha ao andar o enorme pé; o passo ligeiro era um esforço supremo para disfarçar o aleijão; o sorriso gracioso um enleio para prender os olhos estranhos, não permittindo que elles se abaixassem até á fimbria do vestido.

E por isso mesmo o olhar de Leopoldo, olhar frio, cruel, inexorável, se tinha cravado na orla da saia elegante, d'onde não havia forças para arrancal-o.

Amelia sentiu esse olhar cruciante, e estremeceu, tomada de um vago terror. Immediatamente sentou-se, e arranjando as dobras do vestido, procurou disfarçar. Mas em vão; o olhar do moço continuava fito no mesmo ponto, e produzia nella uma sensação incommoda.

--É D. Amelia, filha de um negociante chamado Salles. Não conhece?

Estas palavras foram dirigidas a Leopoldo por D. Clementina, que sentando-se a seu lado, acompanhou-lhe o olhar fito.

--Não, minha senhora.

--Então vou apresental-o.

--Obrigado, D. Clementina; depois.

--Não acha muito galante?

Leopoldo hesitou:

--Oh! muito!...

Viera-lhe nessa occasião o mesmo impeto que sentem de ordinario os amantes em igual situação: o de criticar e desmerecer nas prendas da mulher que os faz soffrer. É uma reacção natural do coração. Leopoldo, porém, julgou indigno de si tal procedimento; tinha o direito de afastar-se, de fugir com horror dessa mulher, mas não o de offendel-a. A culpa de amal-a era sua; e não della.

Aproveitou um momento de distracção da dona da casa, para tomar o chapéo, e esquivar-se, sem que o percebessem.

Amelia, porém, o viu; seus olhos ficaram por algum tempo presos na porta por onde acabava o moço de sahir. Quando, passado um instante, cahiu em si, ficou sorprendida. Que tinha ella com aquelle desconhecido?

Ao chegar, vendo o rosto pallido e os olhos profundos, que tão desagradavel impressão haviam deixado em seu espirito, a moça havia sentido um máo estar intimo. Vinha com a alma cheia das primeiras delicias de um amor nascente; com as doces emoções da declaração de Horacio. A presença de Leopoldo foi um travo.

Mas tambem para que viera? Por que não ficara em sua casa esperando Horacio?

Vão lá sondar o coração feminino. Agora que sabia-se amada, a moça queria gozar de seu triumpho, e vêr humilde e abatido a seus pés o rei da moda, o soberbo leão. O meio era fazer-se ardentemente desejada, tornar-se difficil e esquiva, embora lhe custasse o sacrificio dos momentos agradaveis que podia passar junto de Horacio.

A presença de Leopoldo em casa de D. Clementina a incommodára, e entretanto seu olhar parecia agora sentir a ausencia do mancebo.

A principio havia ali uma pessoa de mais; agora faltava alguma cousa. Si não era um homem; era uma curiosidade, uma emoção.

--Amelia!

A moça voltou-se para ouvir D. Clementina que a chamava.

--Quero apresentar-lhe um moço, que a acha muito bonita.

Dizendo estas palavras, a dona da casa corria os olhos pela salla á busca de alguem.

--Não o vejo agora.

--Quem é?

--O Castro... Conhece?...

--Não, senhora.

--Querem vêr que já se retirou.

Amelia pôde reter o monosyllabo que ia cahir-lhe do labio, confirmando a supposição da dona da casa. Tinha adivinhado que se tratava do seu desconhecido.

--Então elle me acha bonita?

--O Castro?... Muito. Creio que ficou apaixonado! Se visse os olhos que lhe deitava quando a senhora chegou!

--Então foi de paixão que elle fugiu?

--Quem sabe? A paixão é como o vinho que em uns dá para rir, e em outros para chorar. Ha namorados que perseguem, e outros que fogem!

Amelia julgou prudente desviar a conversa daquelle assumpto escabroso, no qual D. Clementina se comprazia, porque lhe recordava sua mocidade já desvanecida.

IX

Depois d'aquella noite Leopoldo viu Amelia duas ou tres vezes: e de todas sentiu a mesma impressão que lhe causara a presença da moça em casa de D. Clementina.

Era o mesmo desencanto; a mesma insistencia de seu espirito para enxergar a formosura da donzella através de um prisma deforme e caricato. N'essas occasiões elle soffria diante da moça a fascinação do horrivel, como o poeta soffre muitas vezes a fascinação do bello em face de um objecto desgracioso. Era então um poeta pelo avesso; um vate do monstruoso. Tinha na imaginação um gnomo de Victor Hugo: creava Quasimodos e Gwynplaines do sexo feminino com uma fecundidade espantosa.

Quando porém a moça desapparecia de seus olhos, operava-se em seu espirito completa mutação. Esquecia completamente o aleijão, para só lembrar a linda e graciosa figura, que poucos momentos antes sua vista repellia. Amelia ausente vingava Amelia presente. O coração do mancebo detestava tanto esta, quanto adorava ainda a outra.

--Este amor é um inferno; pensava elle; tem um vicio organico. Ha de viver de dôres e lagrimas; ha de alimentar-se de minhas tristezas. E assim irá definhando até morrer de consumpção, depois que me tiver devorado todo o coração. Que importa? Servirei de pasto á este abutre. O que somos nós afinal de contas? Uma presa; emquanto vivos, a presa das molestias e das paixões proprias ou alheias; depois de mortos, a presa dos vermes ou das chammas.

Com tal disposição de espirito voltou elle dias depois á casa de D. Clementina. Nesta noite havia uma pequena partida; Leopoldo contava, pois, encontrar Amelia.

Ali estava com effeito, vestida de escarlate e branco; e adornada com a sua graça arrebatadora. Quando o moço entrou, ella dansava com as costas voltadas para a porta e não o viu; porém, momentos depois virou o rosto como si obedecesse a um impulso extranho, e encontrou o olhar ardente de Leopoldo.

A moça fez insensivelmente um movimento para afastar-se, que entretanto a aproximou da porta. Aquelle olhar que a attrahia ao mesmo tempo que a repellia, causou-lhe um desvanecimento misturado de terror. Felizmente a terceira figura da marca da contradansa começava, e a distrahiu de sua emoção.

Estava ella outra vez parada conversando com o par, quando sentiu um calafrio; sem vêr, conheceu que o mancebo se aproximava, que seus labios se abriam para dirigir-lhe a palavra:

--Minha senhora, terei a honra de dansar com V. Ex. a seguinte quadrilha...

Continham uma pergunta ou uma asseveração estas palavras? Fôra impossivel dizel-o. O tom parecia mais affirmativo do que interrogativo, porem o olhar do mancebo esperava, sinão exigia resposta.

A confusão da dansa permittiu á Amelia esquivar-se, sem responder. Quando, terminada a quadrilha, voltou a seu logar, ficou perplexa. Tinha ella se compromettido ou não a dansar a seguinte quadrilha com Leopoldo? Não respondera, é certo; mas recordava-se vagamente de ter feito uma leve inclinação com a cabeça. Sem duvida o moço vira esse movimento e o tomára por um signal de assentimento.

Quando um de seus innumeros admiradores vinha pedir-lhe a proxima quadrilha, ella respondia hesitando que já tinha par; apenas o cavalheiro se afastava arrependia-se de não o ter acceitado, rompendo assim o compromisso tacito; e ficava anciosa por outro convite. Entretanto novo par se apresentava, que recebia a mesma recusa.

N'esse jôgo, muitas vezes repetido, passou o intervallo. O piano deu o signal da quadrilha; Leopoldo aproximou-se de Amelia, e se inclinando sentiu no seu estremecer o braço tepido de Amelia. A moça não teve consciencia do que se passou até o momento em que o moço a conduziu a seu logar. Recordava-se apenas de que seu par lhe fallara por muito tempo, com a voz baixa, porem palpitante de emoção.

Assim fôra. Passada a primeira confusão da quadrilha, Leopoldo, fitando o olhar no semblante da moça, deu expansão aos sentimentos que lhe tumultuavam dentro d'alma. Com a fronte baixa e as faces cheias de rubôres, Amelia parecia absorvida e reconcentrada emquanto o moço fallava. Dir-se-hia que ella não o ouvia.

--A senhora acredita, D. Amelia, na attracção irresistivel, que impelle duas almas entre si, e as chama fatalmente á se unirem e absorverem uma na outra?... Eu acreditava nessa força mysteriosa, mas ainda não tinha chegado o momento de experimental-a em mim; de sentir em meu ser este elo divino que prende as almas, através do tempo e da materia. Senti-o ha vinte dias, quando a vi pela primeira vez, quando a senhora se revelou ao meu coração.

Leopoldo referiu as emoções que sentira, na occasião de seu primeiro encontro com Amelia; a impressão que ella deixára em seu espirito; e os sonhos em que se embalára sua imaginação nos dias seguintes.

--Tive então, continuou o mancebo com accento profundo e commovido, tive então, e depois, a prova de que esse enlevo de meu ser, essa abstracção de minha existencia para absorver-se n'outra, era a attracção moral e nada mais. Via, admirava, adorava na senhora uma cousa sómente; sua alma. Não sabia, ainda hoje não sei, si a mulher que eu amo é bonita para os outros; sei que para mim é de uma belleza divina. Perdesse ella a graça e a formosura que aos outros seduz; para mim seria a mesma; eu havia de adoral-a com o mesmo ardor. Sua alma é filha de Deus, e como elle de uma magnificencia immortal. É uma estrella que não tem eclipse.

Leopoldo inclinou a fronte para fallar quasi ao ouvido da moça:

--Outr'ora julgava impossivel que se amasse o horrivel. Agora reconheço que tudo é possivel ao amor verdadeiro, ao amor puro e immaterial. Não só reconheço, mas sinto-me capaz de nutrir uma dessas paixões martyres! Oh! sinto-me capaz de amar o anjo ainda mesmo encarnado em um aleijão!...

Leopoldo fallou ainda por muito tempo de seu amor a Amelia, sem que ella se animasse a interrompel-o. Aquella palavra ardente, impetuosa, embora vendada por certo pudor d'alma, a subjugava: ella não tinha coragem, nem mesmo vontade de subtrahir-se á sua influencia.

Quando Amelia, conduzida por Leopoldo, se dirigia á uma cadeira, D. Clementina aproximou-se:

--Ah! Eu queria apresental-o, disse a Leopoldo; mas não teve paciencia para esperar.

Depois reclinando ao ouvido de Amelia, perguntou-lhe:

--Então? Não lhe disse que a achava muito bonita?

--Ao contrario, D. Clementina; deu-me a entender que me acha horrivel.

--Ande lá.

--Deveras!

--É impossivel.

Amelia, sentando-se, evocou a lembrança de Horacio, para fazer no seu espirito o parallelo entre o elegante leão e o estranho mancebo com quem acabava de dansar. Um tinha todas as prendas que seduzem a imaginação; era formoso, trajava com esmero, conversava com muita graça. O outro não possuia nenhum desses attractivos; seu exterior alheiava as sympathias; quando fallava diffundia a tristesa no espirito dos que o escutavam.

A moça não concebia que se preferisse Leopoldo á Horacio; e comtudo não podia esquivar-se completamente á influencia daquella imagem pallida, que lhe apparecia no meio dos sonhos mais brilhantes.

Muitas vezes, depois de algumas horas agradaveis passadas junto do leão, quando a moça, recolhida á sua alcova, repassava na memoria os doces protestos de amor que ainda lhe resoavam ao ouvido, de repente surgia a lembrança de Leopoldo. Parecia-lhe então que da fronte do mancebo se desprendia uma sombra para annuviar seus pensamentos risonhos.

Horacio, sabendo onde Amelia passava as noites em que elle não a via, mostrara desejos de frequentar a casa de D. Clementina; a moça porém oppôz-se. Duas razões actuaram era seu espirito.

Aquella casa servia-lhe de abrigo contra a seducção que exercia em seu espirito a elegancia de Horacio. Quando sentia-se vencida, fugia para ali, onde recobrava forças para resistir, e domar completamente o leão, soberbo de suas conquistas passadas.

Era essa uma das razões; a outra era o receio de achar-se em face dos dois moços, repartida entre a seducção de um e a fascinação do outro. Presentia que desse conflicto, resultaria alguma cousa, que ella não podia definir, mas que a enchia de sustos e inquietações.

Por isso exigiu de Horacio que não fosse á casa de D. Clementina:

--Costumam lá ir algumas dessas pessoas que se occupam em inventar novidades. Sua apresentação, Sr. Horacio, daria pretexto á algum romance.

--Mas, por que ainda frequenta semelhante casa?

--Pedidos... bem sabe; nem sempre uma pessoa se póde recusar. Mas si o senhor apparecer lá, eu deixarei de ir.

--Esteja tranquilla.

Amelia continuou a passar de vez em quando uma noite em casa de D. Clementina. A principio não tinha dia certo, e succedeu por isso que Leopoldo desencontrou-se della duas vezes. Uma noite porém o moço perguntou-lhe:

--Vem sabbado?

--Talvez.

Desde então o dia escolhido era o sabbado, a menos que não precedesse aviso especial da dona da casa, para alguma partida. Nunca mais houve desencontro; Amelia achava sempre o mancebo no seu posto, defronte da porta para vêl-a entrar.

Em uma dessas noites deu-se um incidente, que é preciso referir.

Fallava-se á respeito de uma senhora casada, a quem o marido causava serios desgostos. Pessoa que sabia das particularidades dessa familia, explicava o facto á sua maneira.

--Ella era muito linda, o marido a adorava; casou-se por paixão. Poucos dias depois de casada, teve ella uma grave molestia que a reduziu aquelle estado. Não ha paixão que resista.

--Com effeito sabe ser feia!

--Ninguem acreditará que foi bonita.

--Pois foi uma belleza.

Leopoldo, que ouvia calado, interveio:

--O marido nunca a amou!

--Asseguro-lhe que teve uma paixão louca.

--E eu affirmo-lhe que não; que elle nunca teve paixão pela mulher. O que elle adorava era unicamente a sua belleza, a fórma; isto é, um accidente. O homem que ama a mulher destinada a ser a companheira de sua existencia, o complemento de seu ser imperfeito, não despreza essa mulher, porque a desgraça a feriu no envolucro material de sua alma. Elle póde soffrer com aquella desgraça; mas deve redobrar de amor e adoração, para que nem seus olhos vejam o defeito, nem ella, a mulher amada, se lembre nunca de que o tem para elle, embora o tenha bem claro para os indifferentes.

--É bonito de dizer! acodiu um apreciador das mulheres formosas.

--Todos dizem o mesmo, mas fogem das feias, observou uma senhora idosa, talvez por experiencia propria.

--O que eu digo, minha senhora, já o experimentei em mim mesmo; replicou Leopoldo.

--Ah!

O mancebo cravou em Amelia um olhar eloquente, e disse com a palavra lenta e calma:

--É verdade; já o experimentei em mim. Por que hei de occultal-o? Minha alma já passou por esta dura prova, e sahiu triumphante. Hoje sei que tenho forças para amar até os defeitos da mulher que Deus me destinou.

Amelia perturbou-se com aquellas palavras, e o olhar ardente que parecia graval-as em sua alma. Nessa noite retirou-se pensativa; e por muito tempo a figura pallida de Leopoldo, esvoaçou na penumbra de seu leito de virgem.

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