A Pata da Gazella: romance brasileiro.

Part 6

Chapter 63,814 wordsPublic domain

Na casa de D. Clementina, sabia-se já que Amelia fôra pedida em casamento; embora se ignorasse o nome do pretendente, talvez por não ser conhecido das pessoas presentes. Salles Pereira, a mulher e a filha não tinham dito a menor palavra sobre o objecto da carta de Horacio; mas a impressão produzida por essa carta, a precocupação que deixára nas pessoas da familia, as conversas intimas e recatadas, não escapáram aos escravos.

D'ahi gerou-se o boato, que já tinha passado á casa de D. Clementina.

--Ah! chegou a Amelia Salles. Sabia que vai casar-se? Já foi pedida; disse uma senhora a Leopoldo.

--Não, senhora, não sabia; respondeu o moço com magoa, mas sem perturbar-se.

--Com quem? perguntou outra moça.

--Com um moço bonito e rico. Disseram-me o nome, mas já não me lembro.

Nisso Amelia entrou na sala, onde foi muito festejada pelas amigas e conhecidas.

As allusões e gracejos a respeito do segredo incommodaram a moça, embora por outro lado lhe causassem certo desvanecimento.

Pelo meio da noite, Leopoldo aproximou-se de Amelia para lhe pedir uma contradança. Tinham dansado a primeira marca sem trocar palavra: afinal o mancebo rompeu o silencio:

--É verdade que foi pedida em casamento?

Amelia empallideceu; quiz disfarçar illudindo a pergunta, mas encontrou o olhar de Leopoldo, olhar tão doce e sincero, que não se animou a enganal-o.

--É verdade; murmurou em voz quasi imperceptivel. Mas ainda não respondi.

--Estimo que seja muito feliz.

--Obrigada.

Amelia ficou sorpresa; ella suppunha que Leopoldo tinha-lhe ardente paixão; e que portanto sentiria profundo pezar, sinão desespero, com a noticia de seu casamento. Em vez disso, o mancebo mostrava uma resignação serena.

--Quando comecei a amal-a, D. Amelia, disse Leopoldo depois de alguns instantes, acreditei na felicidade, e esperei alcançal-a neste mundo. Minha alma pressentiu a aproximação da irmã que Deus lhe destinara, e cuidou attrahil-a e embebel-a em seu seio. Mas essa illusão se desvaneceu logo. Soube qual era sua posição, e comprehendi que a senhora não me podia pertencer. Resignei-me, pois, a amar unicamente sua alma; essa ninguem me póde roubar, nem mesmo a senhora, porque Deus a fez para mim. Eu estava desde muito preparado para a noticia de seu casamento; ella não me sorprendeu, embora me entristecesse. Até agora adorei sua alma, como se adora a imagem da Virgem no templo; de agora em diante terei de adorar essa alma querida, como se adora uma santa no sepulchro.

Leopoldo fallou por algum tempo ainda, e a moça, que a principio se acanhara com a expansão viva desse amor tão puro, bebia as palavras ardentes do mancebo, como fluido que derramava em sua alma suave calor.

Nessa noite, ao recolher-se, ia absorvida neste pensamento:

--Por que julgou elle impossivel que eu o amasse? sem duvida não o amo; mas talvez... Si eu não conhecesse Horacio... Quem sabe?

Nisto lembrou-se que já se tinham passado dois dias depois do pedido, e portanto faltavam treze para a decisão.

--Si elle não vier antes disso?... Si não vier... respondo que não. Está decidido.

XII

Corrêram os dias sem que Horacio apparecesse em casa do Salles Pereira. Amelia, apezar de seu esforço, não podia conter a impaciencia. Ella adivinhava que o leão estava despeitado com a resposta, e queria obriga-la á conceder-lhe immediatamente o que pedira; a sua mão, e com a mão o pesinho que elle adorava.

Por vezes a moça foi até á porta do gabinete do pai, na intenção de diser-lhe que escrevesse á Horacio enviando-lhe o consentimento. Mas voltava envergonhada de sua fraqueza: enxugava algumas lagrimas que lhe saltavam dos olhos; e fazia novos protestos de não ceder.

Nestas occaziões ella contemplava a imagem de Horacio com alguma severidade. Lembrava-se da volubilidade com que elle fallava-lhe de seu amor; do sorriso sempre faceiro que tinha nos labios e servia para vestir a palavra alegre ou triste, zombeteira ou commovida; e finalmente da insistencia que mostrava em vêr-lhe o pé.

Então acodia a Amelia uma circumstancia que á principio lhe escapára; fôra sua recusa á impertinencia do leão, que o obrigára á pedi-la em casamento no dia seguinte.

--Será apenas um capricho? Não me terá elle verdadeiro amor?... Si não me engano, o que elle ama em mim, não sou eu, mas uma mulher que imaginou; sirvo-lhe apenas de pretexto, como tantas outras antes de mim.

O resultado destas observações era protestar a moça que daria um não ao pedido de Horacio. Mas quando seu pai lhe perguntava sorrindo:

--Ainda não?

Ella corava, abanava a cabeça, e fugia, disendo comsigo que ainda faltavam alguns dias para o prazo marcado.

Para occupar as noites e distrahir o espirito dessa constante preoccupação amiudou as visitas á casa de D. Clementina. Ali com a influição do olhar profundo e da palavra eloquente de Leopoldo, esquecia as contrariedades e inquietações. Na volta trazia algumas dôces reminiscencias, e sobretudo um certo arroubo do coração, que durava algum tempo, e a preservava de suas anteriores preoccupações.

Ja haviam passado doze dias depois da carta, e Amelia estava mais que nunca resolvida á romper com Horacio, quando se deu entre ambos um encontro.

Foi no theatro.

Amelia que á principio evitou as occasiões de encontrar-se com Horacio, lembrou-se que sua presença podia provocal-o; e obteve do pai que a levasse ao espectaculo. Subindo a escada do Theatro Lyrico, avistou Horacio que vinha do lado opposto.

Apezar de estar prevenida a moça teve um sobresalto; mas pôde recobrar-se antes que o leão se apercebesse de sua presença. Foi com fria altivez e indifferença que ella correspondeu ao comprimento de Horacio, sem demorar o passo em quanto elle trocava um aperto de mão com o Salles Pereira.

Esta indifferença porém, e sobre tudo o gesto que Amelia fez para arregaçar o vestido, quando subia o segundo lanço de escadas, ataram de novo o leão ao jugo.

--Desta vez, pensou elle, si eu estivesse adiante via ao menos a ponta do meu pésinho!

Teria Amelia simulado aquelle gesto de proposito? É natural; ella queria subjugar outra vez o captivo que lhe escapara; usava de todos os seus recursos.

Vencido, o moço acompanhou a familia até á porta do camarote, e demorou-se ahi á conversar com o negociante. Entretanto Amelia, sem dar-lhe a minima attenção, percorria com o binoculo os camarotes trocando com a mãi observações a respeito das moças e seus lindos adereços.

Durante o resto da noite, a moça mostrou a mesma calculada indifferença, á ponto de irritar o mancebo. Apezar de se ter rendido, sentiu elle um impeto de revolta, e deixou sua cadeira junto á orchestra com intenção de visitar um camarote fronteiro ao do Salles Pereira. Lá estava uma linda moça de seu conhecimento; uma das estrellas de sua coroa de rei da moda.

Sentar-se-hia junto della, e estabeleceria um dialogo entretecido de sorrisos, de olhares e meias confidencias como por ahi se dão tantos nos bailes e espectaculos: verdadeira scena mimica de amor representada perante o publico. Com esse entretenimento, Horacio comprometteria seriamente a reputação de uma senhora; mas vingar-se-hia de Amelia, excitando-lhe ciumes.

Chegava já o leão á porta do camarote quando occorreu-lhe este pensamento.

Faltava apenas um acto para terminar o espectaculo; si elle mostrasse afastamento, Amelia irritada persistiria em seu desdem durante o resto da noite; e quem sabe que resolução tomaria sob a influencia desse despeito?

Horacio teve medo e recuou. Já se tinha submettido no começo da noite, o melhor expediente era perseverar. Naturalmente Amelia, no fim do espectaculo, abrandaria o seu rigor.

Começára o acto. Horacio deixou passar algum tempo, e dirigiu-se ao camarote de Amelia. A moça que já tinha reparado na ausencia do leão, cuja cadeira estava desoccupada, adivinhou-lhe a presença, ouvindo abrir-se a porta. Seu primeiro movimento foi voltar o rosto; mas reprimiu-se a tempo, e disfarçou dirigindo o binoculo para o fundo da sala.

Apegar do imperio que tinha sobre si, Amelia estava ao cabo das forças. Si naquelle momento Horacio fingisse uma retirada, ella não resistiria. Felizmente o leão não se lembrava disso; tinha resolvido esperar a sahida para trocar algumas palavras com a moça.

Terminou o espectaculo afinal. Horacio offereceu o braço a Amelia:

--Muito lhe offendi com meu pedido, D. Amelia?

A moça calou-se.

--Não lhe mereço nem uma palavra!

--Parece que o senhor lhe dá bem pouco apreço.

--Que injustiça!

--Quem passou tantos dias sem ella, póde bem esperar ainda os dous que faltam.

--Então sou eu o culpado dessa demora! Quem me condemnou a ella?

--E o senhor nem ao menos procurou abrevial-a: achou mais commodo esperar tranquillamente? Pois continue á esperar.

--Mas, D. Amelia! Depois da resposta de seu pai, si eu me apresentasse em sua casa, tornar-me-hia importuno. Cuida que não soffri, passando tantos dias sem vêl-a? Ingrata! Quantas vezes não podendo resistir fui até á porta de sua casa, e passei, impellido pelo receio de indispol-a contra mim? Si ella me amasse, pensava eu, teria acceitado logo: não o fez; quer refflectir; devo deixal-a tranquilla, e respeitar a sua resolução. Que vou eu lá fazer? Obrigal-a á me aborrecer.

Horacio mentia; elle se ausentara da casa do Salles Pereira, sómente para vencer a resistencia da moça por uma simulada indifferença.

O carro do negociante aproximou-se:

--Vai sem me deixar uma esperança?

--Não é aqui o logar de pedil-a.

--Então amanhã?

--Si quizer!

No dia seguinte á noite o leão estava em casa do negociante. Amelia o recebera com um resto de resentimento, que se desfez com os primeiros galanteios. Succedeu o que era natural; depois de uma abstinencia de tantos dias, esses corações tinham sede de ternura, e beberam um no outro á largos sorvos.

Quando o leão se retirou, elle sabia que dois dias depois receberia officialmente, por uma carta do negociante, o sim que ouvira naquella noite entre um sorriso e um rubor.

Quanto á Amelia, depois que a auzencia do moço rompeu o encanto, e deixou-lhe unicamente a consciencia do compromisso tomado, lembrou-se involuntariamente de Leopoldo, cuja imagem pallida e triste, desenhou-se em sua imaginação.

--Elle ha de soffrer muito! pensou a moça suspirando.

No dia seguinte havia reunião em casa de D. Clementina. Amelia recordou-se disso, e fez tenção de ir. Naquelle momento julgou-se obrigada á communicar sua ultima resolução á Leopoldo. Pareceu-lhe que seria uma deslealdade deixal-o na ignorancia de seu casamento, até que viesse á sabel-o por algum estranho.

Mais tarde surgiram os escrupulos. Tendo acceitado a mão de Horacio, não era bonito animar uma affeição, que deixava de ser innocente. Embora nunca retribuisse a paixão de Leopoldo, podiam suppôr que não a repellia. Demais sendo natural que Horacio fosse passar a noite em sua casa, ella procederia muito mal, trocando sua companhia pela de um rival.

Emquanto as horas do dia se escoavam, estas e outras razões disputavam no espirito da moça a decisão que ella devia tomar. Afinal interveiu o coração!

--Tenho pena delle!

E ás oito horas estava em casa de D. Clementina. Nessa noite a moça, cujo espirito jovial sympathisava com as côres frescas e risonhas, escolheu um vestuario sombrio. Era uma faceirice melancolica. Aquella menina de 18 annos, que na vespera, muito espontaneamente se promettera á um homem elegante de seu gosto e escolha, afigurava-se agora uma victimado dever, sacrificando-se heroicamente ao compromisso contrahido.

Essa convicção dominava Amelia ao entrar na sala, e ressumbrava não só nas fitas pretas de seu trajo, como na languida flexão da fronte, e no olhar cheio de magoas. Ella se julgava sinceramente coagida por uma força irresistivel, que a arrancava á um amor profundo e santo, como a flôr que o vento arrebata ao tronco onde se enlaçara.

Leopoldo comprehendeu a melancolia de Amelia, e adivinhou que essa mulher estava perdida para elle no mundo; mas que sua essencia divina lhe pertencia, para todo o sempre. Sentiu pois a magoa da saudade, que precede a longa ausencia. Quando se tornariam a encontrar as duas metades dessa alma, separadas por uma contingencia da materia?

Pela noite adiante Leopoldo aproximou-se de Amelia, porem só lhe fallou de cousas indifferentes, ao contrario do que ella esperava. Si o moço a interrogasse á respeito do casamento, aproveitaria o momento para confessar-lhe; mas elle nem de leve tocou nesse ponto.

Na occasião de se despedirem a moça fez um esforço.

--Já sabe? perguntou com voz tremula e quasi imperceptivel.

--Adivinhei! disse o mancebo fitando nella os olhos tristes.

Amelia ficou um instante indecisa, em face delle, como si esperasse mais alguma palavra; Leopoldo dissera tudo naquelle olhar, em que diffundira sua alma.

--Adeus! murmurou a moça afinal.

XIII

A casa nobre de Azevedo resplandecia. A melhor sociedade da côrte concorrêra ao sumptuoso baile.

Toda aristocracia, a belleza, o talento, a riqueza, a posição e até a decrepita fidalguia, estavam dignamente representadas nas ricas e vastas salas, adereçadas com luxo e elegancia; duas cousas que nem sempre se encontram reunidas.

Eram nove horas. Ainda o baile não começara; e notava-se na reunião a gravidade solemne, o grande ar de ceremonia, que serve de prologo ás festas esplendidas. Os cavalheiros percorriam lentamente as salas, observando o iris deslumbrante que formavam os lindos vestidos das senhoras; mas admirando especialmente as estrellas que brilhavam nessa via lactea.

Amelia acabava de sentar-se.

Horacio foi logo saudal-a, e comprimentou-a pelo bom gôsto e delicadeza de seu trajo.

Realmente não se podia imaginar um adorno mais gracioso. O vestido era de escomilha rubescente, formando regaços onde brilhavam aljofares de crystal: nos cabellos castanhos trazia uma grinalda de pequenos botões de rosa, borrifados de gôttas de orvalho.

Um poeta diria que a moça tinha cortado seu trajo das finas gazas da manhã; ou que a aurora vestindo as nevoas rosadas, descera do céo para disputar as admirações da noite.

--Dançaremos a primeira: disse Horacio.

A moça corou.

--Sim.

Laura passava. Amelia chamou-a, mostrando-lhe um logar á seu lado. Horacio afastou-se para deixar as duas amigas em liberdade; mas principalmente para poupar a Laura a contrariedade de sua presença. Desde a noite do theatro o leão comprehendêra que a moça lhe votava antipathia.

Conversando com a amiga, Amelia descobriu defronte, no vão de uma janella, o vulto de Leopoldo, absorvido em contemplal-a, com um olhar profundo e intenso, que servia de valvula ás exbuberancias de sua alma. Sentindo-se sob a influencia desse olhar, a moça inclinou a fronte, como um signal de submissão, e abandonou-se á contemplação do mancebo.

De vez em quando procurava ler de relance no rosto de Leopoldo, as impressões de seu espirito, os movimentos de sua alma. Presentiu que o moço desejava aproximar-se della para lhe fallar, mas não se animava; a solemnidade da festa, a grande concurrencia, a proximidade de Laura, tolhiam o mancebo, cujo caracter fóra da intimidade se confrangia, por uma especie de pudor, proprio das almas virgens.

Amelia sentiu um desvanecimento, descobrindo aquella fraqueza no homem cujo olhar a dominava, e lembrando-se que ella podia nesse instante protegel-o. Não ha para a fragilidade da mulher maior orgulho e prazer, do que observar a fragilidade no homem. Vinga-se da tyrannia do sexo forte.

--Vamos sentar-nos do outro lado, Laura?

--Para que? Estamos tão bem aqui.

--D'ali vê-se melhor a sala; e deve estar mais fresco.

--Como quizeres.

As duas moças atravessaram a sala, e foram tomar logar justamente no vão da janella onde Leopoldo se achava. Amelia conservou-se algum tempo de pé, com o pretexto de arranjar a cadeira, mas para dar occasião á Leopoldo de fallar-lhe. O mancebo adiantou-se com effeito e comprimentou.

Amelia estendeu-lhe a mão com interesse, para animal-o.

--Terei a felicidade de dansar uma quadrilha....

--Qual?

--A ultima!

--A ultima? repetiu Amelia rindo-se.

--Sim; depois que tiver dansado com todos; replicou o moço completando seu pensamento com o olhar.

--Então a sexta.

A orchestra abriu o baile com uma brilhante symphonia, depois da qual deram o signal da primeira quadrilha. Rompeu-se então a symetria, e formou-se o turbilhão.

Durante a contradansa, Horacio não se esqueceu do pésinho adorado; e procurou todos os meios de o descobrir n'algum momento de confusão ou descuido. Chegou até á fingir estouvamento em algumas das marcas com o fim de embaraçar o vestido da moça.

--Eu me sento! disse-lhe Amelia irritada.

--_Barbara, non hai cor_! replicou-lhe Horacio com as palavras do romance.

--O seu coração está no botim? perguntou-lhe a moça com despeito.

--O meu a senhora bem o sabe, já não me pertence, pois lh'o dei a muito tempo; e ando-o agora procurando no chão, onde creio que o deixou esmagado um tyranno que eu adoro e me repelle. Mas conto com a senhora para movel-o em meu favor. Sim?

--Não: respondeu a moça agastada.

--Realmente eu não comprehendo. Será possivel que a senhora tenha ciumes delle? perguntou Horacio gracejando.

A moça olhou-o com expressão.

--Tenho sim, tenho ciumes!

Terminada a quadrilha, Horacio, depois de algumas voltas de passeio pela sala, deixou a moca no seu logar, e desceu a escada de marmore que levava ao jardim, illuminado com lampeões de diversas côres. Havia ao lado da casa, e ao longo de uma latada, mesas de ferro para tomar sorvetes e refrescos. Horacio, dirigindo-se para esse logar, avistou Leopoldo sentado á uma das mesas.

--Oh! por cá tambem, Leopoldo?

--É verdade; contra meus habitos.

--Está esplendido! Não achas?

--Sem duvida. Mas parece que não tem grande interesse para ti.

--Porque pensas assim?

--Vens te esconder aqui, quando se dansa. Devias deixar isso para mim, que sou uma especie de misantropo, uma alma errante neste mundo das fadas.

--Para ser franco, devo-te confessar, que neste baile, onde se acham reunidas as mais bonitas mulheres do Rio de Janeiro, onde nada do que póde tornar brilhante uma festa, nem o luxo, nem a riqueza, nem a concurrencia, nem as notabilidades de toda a especie, neste baile só ha uma cousa que me interessa; uma cousa bem pequenina, e por isso mesmo de um encanto inexprimivel.

--Que condão será esse tão poderoso?

--Disseste a palavra. É um condão, um verdadeiro condão de fada, que me transformou de repente, e fez do senhor um escravo humilde e submisso.

--Mas no fim de contas o que é?

--Um pésinho!

Tendo proferido esta palavra, Horacio julgou ter dito tudo quanto era possivel exprimir na linguagem humana. _Um pésinho_, era aquelle ente adorado que elle entrevia nos sonhos dourados de sua imaginação; era o primor, que deixara impressa a sua fórma delicada na mimosa botina. O moço desenhava na fantasia aquelle idolo de suas adorações; e acreditava que Leopoldo devia, como elle, extasiar-se ante a maravilha da natureza.

Longe disso, Leopoldo depreendera das palavras do amigo, que elle estava sob a influencia de uma paixão materialista; que elle amava a fórma, e levava sua idolatria á ponto de adorar não a fórma completa, a imagem viva e palpitante da mulher; mas um fragmento, um trecho apenas dessa fórma.

--Pois para mim tambem, disse Leopoldo, só ha neste baile como neste mundo uma cousa que me illumina a existencia.

--A gloria?... aposto.

--Um sorriso, apenas.

Horacio não pôde reprimir um gesto desdenhoso. O sorriso era para elle uma das cousas mais triviaes: tinha-os colhido tantas vezes, e em labios tão puros e mimosos, que já não lhe excitavam a attenção. Eram como as flôres de um vaso que todos os dias se substituem.

--Vais dansar? perguntou o leão.

--Agora não.

--Pois façamos uma cousa. Conta-me a historia de teu sorriso, que eu te contarei a historia de meu pésinho.

--Começa então. Cabe-te a preferencia; disse Leopoldo.

--Eu a acceito; porque o objecto de meu culto não tem igual no mundo.

Horacio accendeu o charuto. Elle não tinha o menor interesse em saber a historia de Leopoldo; o que desejava era um pretexto para fallar do objecto de sua adoração, e vasar o que tinha n'alma.

--Ha cerca de dous mezes, passando pela rua da Quitanda, achei por acaso sobre a calçada um objecto que tinha cahido de um carro. Era uma botina, mas que botina!... um mimo, um primor, uma cousa divina!

«Não pódes fazer idéa, não, Leopoldo. Sabes si tenho amado mulheres lindas de todos os typos, alvas ou morenas; formozuras de todas as raças, desde a loura escosseza até a brazileira de tranças negras; adorei-as, umas depois de outras, e ás vezes ao mesmo tempo, essas differentes irradiações da belleza. Pois confesso-te que nunca o sorriso ou o beijo da mais seductora d'entre ellas me fez palpitar o coração, como aquella botina.

«Pensem os phisiologistas como quizerem, o pé é a parte mais distincta do corpo humano; sem elle a estatura não teria a nobreza, que Deus só concedeu á creatura racional.

«O pé revela o caracter, a raça e a educação. Cada uma das feições e dos gestos desse orgão de nossa vontade tem uma expressão eloquente. Ha quem não adivinhe em um pé delicado e nervoso a alma de fina tempera? Ao contrario um pé chato e pesado é a prova infallivel de um genio tardo e paxorrento.

«Virgilio, o poeta mais elegante que tem existido, comprehendeu que Venus occultasse aos olhos do filho, na selva lybica, a belleza immortal de seus olhos, de seu sorriso, de suas fórmas seductoras; mas não aquillo que era sua essencia divina, sua graça olympica. Foi pelo andar que ella revelou-se deusa; _et vera incessu patuit dea_.

«Nunca sentiste o doce contacto do pé da mulher amada? É uma sensação deliciosa que penetra nos seios d'alma. Podes apertar-lhe a mão, cingil-a ao seio, beijal-a. Nada vale aquelle toque subtil que abala até a ultima fibra.

«Faze pois idéa do que eu sentia. E a botina não era senão a estatua ou a effigie do pé encantador que a havia calçado. Ali estavam impressos seus graciosos contornos, sua fórma suave.

«Apaixonei-me por esse pésinho, que eu nunca vira, que não conhecia. Sagrei-lhe minha alma como ao _ignoto deo_ de minhas adorações.»

Horacio exagerou então os esforços por elle empregados para descobrir o mysterioso idolo de suas adorações, e referiu os factos que já conhecemos. Teve porém a discrição, rara em um leão, de não revelar os nomes; receiava ainda que lhe arrebatassem a conquista.

--Finalmente, concluiu elle, o acaso me fez descobrir a dona do pésinho que em vão buscava. Has de crer, Leopoldo? Conhecia essa moça, que é realmente encantadora; diversas vezes achei-me com ella em sociedade, e nunca sentira á sua vista a menor commoção. Mas quando soube que á ella pertencia o thesouro, adorei-a. Para vêr o pésinho que sonhei, estou disposto a fazer a maior das loucuras, casar-me!...

--É esta a tua historia?

--Dize antes meu poema. Sinto não ser poeta para escrevel-o.

--Pois si me permittes franqueza, dir-te-hei que realmente o desenlace que lhe pretendes dar será uma loucura. O casamento, quando não une duas almas irmãs creadas uma para a outra, é uma especie de grilheta que prende dois galés; o supplicio de duas existencias condemnadas a se arrastarem mutuamente. Tu não amas essa moça, Horacio...

--Não a amo?

--Não!

--Quando lhe vou fazer o sacrificio que nenhuma outra mulher obteve de mim?

--Não passa de um capricho. Essa moça é para ti um pé e nada mais.

--A mulher que amamos tem sempre um encanto, uma graça especial. As vezes são os cabellos; outras os olhos; tu amas o sorriso; eu o pé.

Leopoldo levantou os hombros.