A nossa Gente

Part 9

Chapter 93,836 wordsPublic domain

Todo o mundo julgava o dr. Gama contente e sazonado. Foi, porém, justamente depois d'esta solemne demonstração que elle começou a mostrar-se sibyllino e rijo. Não dava occasião a largas conversas, e as que não podia evitar, guiava-as para um campo generico, pronunciando sonoramente as palavras do alto do seu magnifico busto. Uma vez que manhosamente o levaram, n'uma especie de visita, ao predio a demolir para o alargamento da rua, elle deixou-se conduzir, achou magnifica a idéa, mas evitou fazer qualquer promessa compromettedora.

Quereria este Gama faltar áquillo em que já concordara? Não podia ser... julgavam-n'o incapaz... era talvez feitio... No emtanto tornava-se urgente uma aclaração e para a obterem concertaram-se o Menezes, o Provedor e o Presidente, fazendo-se acompanhar do Mendonça, que era desembaraçado e não tinha papas na lingua. Vestiram se apparatosamente de sobrecasaca, chapéu alto, luva... tudo como o caso requeria. Entraram n'aquella sala humida e fria da casa de Serpins. As janellas davam sobre um laranjal, cujo verde escuro entenebrecia o ambiente. O tecto abahulava-se n'uma intenção de amplitude, concentrando a claridade. As cadeiras dormitavam aos lados, quasi em abandono!

Palraram sobre todas as cousas—lavoura, demandas, politica, melhoramentos... e n'um a proposito bem aproveitado, o presidente pôz timidamente a questão:

—V. s.ª bem sabe... Temos os nossos orçamentos a mandar para cima... Quereriamos alguma cousa de certo. As suas promessas...

—Promessas, promessas... Eu por mim ainda não tive tempo de pensar a sério nos objectos das nossas ponderações...

—Mas os nossos compromissos... a festa da Senhora do Regaço á porta...—insufflou o Menezes.

O provedor accrescentou:

—Os doentes necessitados não pódem esperar. V. s.ª comprehende...

—Comprehendo, porém são cousas difficeis. Immenso que fazer! Uma casa grande e muito embrulhada na administração. Caseiros, rendas, generos, gados, o diabo! Ainda não pude... realmente ainda não pude...

O Mendonça, que era azedo, esperto e embirrava com o morto, aproveitou o momento para desbravar o terreno e ao mesmo tempo lançar grossa mancha em todos os Gamarrões, pois fôra sempre seu parecer que este sobrinho equivalia á besta do tio. N'um tom que, á primeira vista, se poderia julgar inconveniente disse:

—Meu caro senhor, cartas na mesa. Estes cavalheiros tiveram de v. s.ª solemnes promettimentos. Fundados n'elles fizeram declarações lá fóra e com todo o direito vêem exigir que v. s.ª cumpra a sua palavra. Ora eis ahi está o que é, sem mais refolhos.

—A memoria de seu tio tudo merece—insinuou o presidente, para avelludar a dura arremetida do Mendonça.

O sobrinho do Gamarrão atirando solemnemente com o busto para diante, ergueu a cabeça, e de palpebras meio cerradas, affirmou:

—Se meu nobre tio, cuja memoria eu venero e acato no mais alto grau, costumasse fazer todas essas dadivas, que os senhores dizem, de tal teria deixado apontamento ou lembrança que ainda não encontrei. Porém que encontrasse ou que encontre, eu desde este momento solemne declaro que acho abominavel, (abominavel é o termo!) este procedimento de quererem influir no tribunal da minha consciencia! É cousa que se faça, o perturbar uma consciencia, seja ella de quem fôr, de um rei ou de um mendigo?! A um homem delicado e quasi timido, como eu, impôr-lhe um tal onus e n'esses termos! Não se poderá taxar de indelicadeza, de violencia e até de coacção!? Eu recuso e recuso terminantemente.

Foi terrivel o assombro!

Os quatro olharam-se sem comprehender! Depois das exequias, do sermão, da poesia, das correspondencias, sahir-se com esta! O Mendonça, azedo e ironico, atirando com a ponta do cigarro para o sophá, retorquiu em voz levantada:

—Lérias, cantigas!... O que você não quer é dar nada, eis ahi está. Por força havia de ser um avarento como o jumento de seu tio. Pela cara se lhe tiram as obras. É um Gamarrão segundo.

E retirando-se após os outros, que já se dirigiam para a porta, accrescentou:

—Um alarve d'estes só se ensinava com meia duzia de lambadas. É o que elle merecia. Grandissimo pulha!

O dr. Gama ficou estarrecido e apopletico. Que procedimento inaudito! Que formidavel canalha! Correu á varanda trasbordando de impetuosa raiva e vendo-os ainda no quinteiro gritou lhes:

—Comedores! Nem vintem! Ouviram seus comedores!?

O Mendonça voltou-se e n'um gesto de punhos cerrados aggrediu-o:

—N'essas ventas, n'essa cara de cabaça é que devia ser! Grandissima cavalgadura!

E todas as bellas esperanças e promessas foram poeira levada pelo vento d'esta discordia, derivada d'uma velhacaria dupla.

O CALVARIO DO AMOR

I

Seriam duas horas d'uma fria noite de março, quando a cavalgada sahia o largo portal do Corcovado, em direitura á egreja da freguezia, que ficava a uma boa hora de distancia.

A noiva, joven e formosa, com vestido de seda clara semeado de florinhas azues, montava soberba mula, ajaezada á hespanhola e coberta de valioso teliz de veludo encarnado com brilhos d'oiro, peça antiga na casa de D. Bento d'Osma, o ditoso noivo, que aos sessenta annos ia receber como esposa a encantadora Maria. Pelo caminho aspero e pedregoso, ladeado de pinheiraes sombrios, de penedias soberbas, de campos ferteis, de precipicios fundos onde grasnavam aguas tumultuosas, sentia-se a animação da extensa cavalgada. As lumieiras, que os creados sustentavam altas, erguendo os braços para aclararem maior area do caminho, produziam sombras phantasticas que se espalmavam nos muros e deitavam nos campos, dando a este quadro de vida commum, aspecto tão singular que ao longe pareceria festa de demonios em delirio. As aves silvestres e os animaes bravios que tal presenceassem, acordados do seu repouso, assim o deviam pensar, pois fugiam uns voando, outros correndo e sumindo-se todos no denso negrume da noite. Ia na frente a noiva, delgada e airosa, dentro do seu vestido claro, os cabellos negros e fartos ornados de flores naturaes, as mais bellas flores dos jardins d'Osma, onde as havia raras e viçosas todo o anno. Ao lado de Maria, D. Bento, ainda vigoroso, montava magnifico cavallo baio adrede comprado para este acto solemne. E logo a seguir o pae da airosa menina, o José Pereira do Corcovado, da conhecida casa do Corcovado e seus quatro filhos, Manuel, Thomaz, Vicente e José, rapazes valentes e destemidos, pimpões de varrer tudo em romarias e feiras, quando se junctassem os quatro. Cercava-os o maior numero das lumieiras, para acautelarem a noiva contra qualquer estorvo do caminho turtuoso e difficil, e assim assegurarem tambem aos que vinham atraz, transito livre. Estes eram pessoas de differentes edades e feitios; senhoras velhas de vestidos serios de seda preta e meninas novas todas de claro, desde a cor de rosa virginal até ao verde-prado que é esperança. Os homens antigos estadeavam as suas casacas de gollas altas e bofes nos peitilhos das camisas; os rapazes d'agora vestuario delambido e collarinhos pegados á pelle do pescoço. Havia alguns padres na extensa cavalgada, de sobrecasaca grave, bota eclesiastica de borla no joelho, ou bute simples nos mais pobres que não tinham para abastanças, volta no pescoço, e deitando a sua sentença latina do alto das suas eguas de farta cauda e largo ventre prolifero. Os da rectaguarda mofavam do velho D. Bento, pela desproporção na edade com Maria, e alludindo á violenta e conhecida paixão, que por ella tinha, o João da Cunha, da casa da Maceira, disse um conceituosamente:

—Póde muito bem ser um segundo tomo do velho D. Thomaz que se casou com a D. Paulina, morgada da Cerdosa[2].

—Que lhe preste—accrescentou Frei Ignacio pitadeando-se.

* * * * *

Era realmente coisa sabida que João da Cunha amava perdidamente Maria; e tão perdidamente a amava e tão de receiar era uma vingança dos rapazes da Maceira (que tambem eram quatro e não inferiores em valentia aos do Corcovado), que os irmãos da noiva iam adeante a guardal-a e promptos para tudo. Arrebatando-a ao amado preferido, levavam-na juncto do altar para a entregarem ao morgado d'Osma, senhor de Osma e de muitas propriedades de Minho e Douro. João só podia alardear boa linhagem e muito amor, quanto a haveres a casa era pequena e filhos muitos. Quando n'isto falaram ao velho do Corcovado desatou n'um berreiro de espantar lobos: «que amor sem riqueza era bonito, mas julgava-o destempero; que se lhe queria a filha viesse pedil-a trazendo titulos de propriedade para a merecer. Elle por sua parte, tinha boa casa; mas herdeiros cinco».

—Portanto, que tire d'ahi o sentido—rematou para o enviado.

O da Maceira que era ousado e temerario approximou-se um dia do velho e perguntou-lhe de cabeça alta:

—Como quer o senhor José Pereira que eu arranje assim de repente dinheiro?

—Isso é comtigo e não commigo.

—E com quanto se contenta?—disse sarcastico.

—Com muito; dinheiro quanto mais melhor—respondeu o velho no mesmo tom.

—E quanto tempo me dá para arranjar isso com que lhe possa comprar Maria?

—Ella não é negra. Não te me faças birbante que se os meus rapazes ouvem...

—Bem me importo com ameaças! Peço um anno, para ir ao Brazil entender-me com meu tio Antonio, que lá tenho. Acceita?

—Vae ao Brazil, vae onde quizeres, eu já falei.

E voltou-lhe as costas sem mais ceremonias.

O rapaz sahiu o portal do Corcovado com uma batalha no cerebro. A sua idéa n'aquelle instante, foi roubar violentamente Maria, fugir com ella para sitio alpestre e ignorado, e lá viverem vida selvatica d'amor, sustentando-se de leite e fructos da terra. Chamava-o, a grandes vozes, o coração, para essa existencia poetica, altiva e nomada, querida da imaginação de todos os independentes, como apropriada á vida feliz. Alimentarem-se de caça, do mel das abelhas, de medronhos e hervas; beberem o leite, a limpida agua das fontes por escudellas de madeiras ou de cortiça; vaguearem no silencio magestoso das mattas escuras, pouco conhecidas dos homens; suspirarem juncto das estrellas na amplidão das serras altas, absorverem a largos pulmões o ar fresco e aromatico das brizas que vem dos codeçaes floridos e das urzes sempre verdes... era o que lhes deleitaria a sensibilidade, irmanando-os com os pastores, com os anjos e com os poetas. Nos primeiros colloquios d'amor, que tivera com Maria, quando ainda eram creanças e simples, já detalhavam a vida dos ermos, baseando-a no aspecto ditoso e feliz dos pegureiros, que na primavera subiam ás montanhas com os seus rebanhos, e no que sabiam de contos de fadas e moiras encantadas. Era essa existencia que lhes convinha: uma cabana e dormir entre a lã das ovelhas, imaginar ao som gemente dos regatos e deleitar os olhos no azul infinito que não tem fim—um viver só pelo goso de existir e nada mais.

Então ninguem sabia ainda que elles se amavam, a flor doente de sensibilidade que lhes estava rebentando no coração era apenas presentida pelas ingenuas creanças. A modo que iam crescendo tomava esse sentimento vago uma fórma mais definida e concreta, os olhos do corpo, ensinados pela experiencia, iam corrigindo as incertas aspirações da alma contemplativa e um dia disse João a Maria: «Quando nos casaremos nós?»; ficando absortos n'um spasmo de mente a voarem pelos espaços sidereos.

Casar! palavra magica e dolente em que tudo se comprehende e pouco se diz. Seria só a união dos corpos? Seria a harmonia dos corações? Seria a orchestração das palavras melodicas que sentiam nos ouvidos, quando de noite pensavam um no outro? Que seria?!... O contacto das suas pelles, quando se abraçavam e beijavam nos brinquedos infantis, dispertava-lhes, por vezes, fulgurações no cerebro, chispas nos nervos, deleites celestiaes. Casar seria a absorpção de dois entes n'um ente novo e mais complexo; mas o casar ideal, a completação ambiccionada era fugir, não ver homens, nem casas, nem mares turbulentos, e só conhecer serras tranquillas, arvoredos mysteriosos, e animaes amigos. Poderiam realisar estas sublimes aspirações?...

Foram crescendo os corpos; adelgaçava-se a nuvem em que divinamente viviam occultos; era mais palpavel a realidade, João e Maria para casarem precisavam merecer-se. Por isso elle foi principiar os estudos, com idéa de seguir uma carreira, que lhe desse no mundo uma situação. Maria ficou na aldeia, entre as mesmas arvores, contemplando os mesmos penhascos e o mesmo céu, e, quando não teve comsigo João, cruciante foi a sua dôr. Porém logo nas primeiras férias todas as saudades se diluiram e a alegria d'esse primeiro encontro e dos seguintes compensara-os da magua da primeira separação.

O velho da casa do Corcovado, mais experiente e sagaz do que os filhos, foi quem primeiro deu pelo caso. Não lhe convinha: determinou acabar aquillo d'uma vez. Formou uma assembléa com os seus rapazes: fechando-se n'um quarto com elles, expoz o caso e pediu-lhes alvitre no modo de proceder.

—Isso dá-se cabo d'elle, é o melhor—disse Thomaz, o de genio mais violento.

E o Vicente secundou-o:

—Sahe-se-lhe ao caminho longe d'aqui, quando vier a férias; arruma-se-lhe um estalo na cabeça e enterra-se bem fundo n'um campo, onde ninguem o encontrará.

—Não é preciso tanto—disse o velho concentrado e tenaz. O D. Bento d'Osma gosta da pequena; porque já m'o disse. Maria fez desoito; arranjam-se os papeis em segredo, chama-se aqui sem ella o esperar, fala-se-lhe tezo, e casam-se sem dar tempo a que o marmanjo consulte os irmãos.

—Que nós não tememos—disse o Manuel, o mais velho, applaudido pelos mais novos.

Maria por um acaso feliz estava no quarto contiguo e como falassem alto ouviu a conversa. Foi grande a sua perturbação, mas simulou o contrario para a defesa. Descobriu meio de tudo communicar ao mais velho da Maceira, o Gonsalo, para o tornar conhecido do irmão, asseverando-lhe que, por sua parte, estava prompta para quanto João entendesse necessario fazer-se com o fim de defenderem o seu amor. Foi n'essa occasião, que o namorado desejando levar as coisas a bem anunciou ao velho José Pereira, primeiro por um enviado, depois directamente, os projectos em que estava de conquistar no mundo posição que lhe desse direito á mão de Maria, terminando pela affirmativa de ir ao Brazil. Tal viagem, porém, nunca pensou em realisal-a e a promessa era apenas um estratagema de ganhar tempo, para concertar um plano de fugir com a sua amada.

[2] Amores, amores...

II

Simulou-se na Maceira o caso da partida de João para a companhia do tio que tinha no Brazil, tudo com o apparato do estylo: enxoval, despedidas, choros, a sahida do rapaz acompanhado de seus irmãos, e até um telegramma do Porto, que participava o embarque. Fez-se a representação com a maior verosimilhança. O namorado desappareceu da aldeia e falava-se d'elle com saudade e sympathia. Os do Corcovado, acreditando só metade do que viam, principiaram logo a dispor as coisas para o enlace de Maria com D. Bento.

O Manoel, que era o de mais tino, sahiu uma noite a cavallo levando comsigo dois creados só até ao limite da aldeia: ia tractar com o morgado d'Osma de coisas de escriptura e dote; informal-o do que havia e do que seu pae com todos elles tinha accordado. Assentes as bases do contracto com o noivo, que não offereceu difficuldades, pois toda a sua ambição era obter a mocidade de Maria para caldear com a sua velhice, logo se despacharam os dois mais novos, Vicente e José, para irem a Braga tractar secretamente dos papeis do casamento. No entretanto, dentro do Corcovado não se dormia descançado: havia armas promptas, e esculcas de noite no velho casarão. Conheciam bem os da Maceira: sabiam-nos ousados, valentes e até loucos d'audacia. Ainda que João houvesse partido (do que não tinham absoluta certeza), ficavam os outros que eram capazes de armarem uma batalha campal, para garantirem ao irmão ausente, uma desaffronta e uma vingança estrondosa. Dispunham os seus meios de resistencia para se defenderem, ainda que preferiam que tudo se passasse com normalidade e socego. Esconderam, pois, entre si e D. Bento o plano urdido, simularam vida tranquilla e ordinaria, simularam mesmo a crença no descuido dos da Maceira, na partida de João, e já em Braga corria velozmente o processo ecclesiastico com todas as licenças necessarias para em vinte e quatro horas, logo que taes licenças chegassem, se realisarem as nupcias.

Em Braga era tambem onde estava João da Cunha, á espera de aviso dos irmãos, para regressar á aldeia na opportunidade conveniente, e aqui foi avisado por um amigo, de que os papeis andavam em segredo, nas mãos do senhor Arcebispo. Logo comprehendeu tudo e na manhã seguinte, depois de andar duas noites a cavallo, chegou á Maceira, onde entrou tanto a occultas, que só os irmãos e o pae d'isto tiveram conhecimento, pois elle tomara a precaução de despedir o arreeiro com a cavalgadura fora do logar, que atravessou a pé, não seguindo veredas nem caminhos, mas atravessando campos e saltando muros. O que logo ficou assente entre todos foi que Maria não casaria com D. Bento d'Osma, ainda que fosse necessario matarem e morrerem.

A pobre menina, vigiada e guardada, como se sentia, não pôde, durante esses dias crueis, mandar nenhum enviado ao Corcovado. Vivia em grande amargura e afflicção por suspeitar coisas tenebrosas do que em volta d'ella se tramava. O seu amor e a exaltação do seu espirito eram tamanhos, que pensou em suicidar-se, antes que ceder a quaesquer conselhos ou pressão de pae e irmãos, para preferir outro homem a João. Porém era alma juvenil e crente, não podia comprehender que a Providencia divina, e Maria Santissima, de quem sempre fôra tão devota, podessem concordar em tal iniquidade. Ora não querendo Deus e não o consentindo a Virgem, nada podiam os homens—pensava ella.

Os papeis chegaram de Braga ao mesmo tempo que vestidos e enfeites para o dia solemne das bodas, que podiam realisar-se d'um para o outro momento. D'isto foi avisado D. Bento d'Osma, por uma carta, emquanto Maria era chamada á presença de seu pae e irmãos, que sisudos e graves como juizes a sentencear, lhe disseram a resolução em que tinham assente. O pae rematou o longo arrazoado dizendo:

—De modo que tu vaes ser senhora d'uma das maiores casas da provincia e mulher d'um dos maiores fidalgos conhecidos.

—Mas se eu não gosto d'elle, que é um velho e antes quero João da Cunha, apezar de pobre!...

—Tolices dos desoito annos—commentou sarcasticamente o velho. Com esse não te dava eu consentimento, nem com um bacamarte cheio de zagalotes assente no meu peito.

—Pois com outro não caso—disse resoluta e sem lagrimas.

—Isso veremos—disse Manoel, o mais velho dos irmãos. Ainda que tenhamos de te levar para a egreja atada de pés e mãos, has de ir.

—Não será preciso...—acrescentou o Thomaz, pronunciando as palavras com ironia feroz. Irá muito bem a cavallo e nós veremos.

—Carrascos!—pronunciou Maria, cahindo redondamente no chão, rigida como um cadaver.

* * * * *

A este tempo os da Maceira já estavam conhecedores do resolvido matrimonio de Maria com D. Bento d'Osma. Essa informação trouxera-a de Braga o proprio namorado. Mostravam-se, porém, naturaes no trato e despreoccupados do que se passava; mas entre si assentaram o raptar Maria antes do casamento, no proprio acto nupcial, ou até dos braços de D. Bento, se não pudesse ser d'outro modo. Quem os conhecesse bem, sabia que tentariam o supremo golpe, atravez de difficuldades, que outros pudessem julgar invenciveis. Entregar Maria intacta ao irmão era o supremo desejo de Gonçalo, Antonio e Thomé. Porém, vencer, á valentona, todos os obstaculos que os do Corcovado teriam accumulado em volta da desejada rapariga, para que não fosse tocada por mãos impuras, é que não poderiam... Necessario era, pois, servirem se do engenho, primeiro que da força; e tiveram artes de fazer chegar ás mãos da fraca creatura, as palavras animadoras d'uma carta que João lhe escreveu, em que explicava o proposito em que estava. Esse papel foi levado á casa do Corcovado por um pedinte de classica barba longa, curvado e de voz lamentosa quando pedia. Abeirou-se da porta da cosinha, e como fosse desconhecido e significasse vir de longe (talvez de romagem a S. Thiago de Compostella, pois trazia conchas cosidas nos andrajos) as creadas interessaram-se por elle e attenderam-n'o. Vinha esfomeado e friorento; pedia o caldo da esmola e o agasalho do palheiro; como soubesse contar historias e ler a signa, entreteve os creados e ficou por ali coisa de tres dias. Os proprios irmãos de Maria gostaram do pobre e escutaram-lhe os casos; o velho José Pereira, ouvindo-lhe dizer que fôra soldado no tempo dos francezes, que acompanhara o general inglez pela Hespanha dentro, conversou com elle e mandou dar-lhe uma tigella de vinho. Maria, a quem o misero, lendo nas linhas da mão aberta predestinou alegre e risonho futuro, sorriu-lhe no meio das suas amarguras. Foi n'este acto que o pedinte lhe introduziu na manga do vestido a carta de João da Cunha, o que tanto alvoroçou a pobre menina, que só por um milagre de energia não cahiu com um desmaio. Assim ficou ella instruida do plano concertado pelo seu namorado.

III

Ia a cavalgada pelo tortuoso caminho que do Corcovado segue para a egreja, onde a festa nupcial de Maria com D. Bento d'Osma se ia realisar. Apesar das lumieiras (que só adeante, junto da noiva, faziam grande illuminação) aquelle acompanhamento de tão longa enfiada de gente de cavallo, atravez da noite escura, semelhava uma forte corrente de ferro de muitos e grossos elos, obrigada a repetidas curvas n'um subterraneo; ou, então, qualquer monstro de cobra-crotal curveteando em numerosos accidentes de terreno, para escapar a um perigo que receasse, ou attingir a presa que lhe fugisse. Os que cercavam a noiva tinham entre si poucas falas, como se fôra avançada de numerosas forças que temessem qualquer cilada. Intrigava-os o aspecto sereno e a alma resignada de Maria, que sabiam coagida para aquelle acto. Jactanciosos, como eram os do Corcovado, passou-lhes pela mente que o animo da irmã se tivesse submettido á dura necessidade, logo que reconhecera o inane de qualquer resistencia. Essa mudança no espirito da namorada poderia ter desenganado os da Maceira, não sendo até impossivel que realmente João estivesse já além dos mares. Maria apenas mostrara furtivas lagrimas ao paramentar-se para a festa com o seu ultimo vestido de virgem, e antes de sahir de casa esteve no oratorio resando ferverosamente a Nossa Senhora dos Desamparados, de quem era devota. Conservara-se bastante tempo estranha, absorvida, quasi extatica, com os olhos sofregos na imagem querida, talvez pedindo-lhe fortaleza ou confessando-lhe os ultimos peccados de pensamento. Tudo parecia natural e simples e indicava que estivesse resignada. Porem, seus irmãos, por um resto de precaução, aperceberam-se para o caminho até á egreja, pois era longo, máu e iam de noite; ainda que este estado d'alma lhes parecesse logico, pois sabiam o espirito de piedade religiosa, com que sua santa mãe fallecida, a tinha educado. Em tão supremo lance da vida d'uma rapariga de desoito annos, era natural profunda commoção, pelo quanto apresentaria de desconhecido e nevoento o novo dia que se lhe ia abrir na existencia. O seu silencio era o fructo de todos os sentimentos desencontrados, que lhe moravam no peito, o fructo da curta e variada historia da sua vida, com um amor precoce e violento, que vira desfolhado no cumprimento do sagrado dever da obediencia ao pae, severo mas bom. Assim o presumiam todos; por isso a desconfiança não era absoluta e os meios de defesa eram incompletos.