A nossa Gente

Part 10

Chapter 103,719 wordsPublic domain

Scintillavam as estrellas no firmamento, n'essa immensa aboboda negra como o veludo, em que grandes e bellos diamantes estivessem collados desde infinitos tempos, e tremelusissem por um movimento ondulatorio do proprio céu. Fendiam as lumieiras, com alegres chammas, a sombra compacta da noite. O estrepito da cavalgada, perturbava o silencio, tal um caminhar de tropas. As sombras iam a grandes passos parecendo espectros. A amplitude da treva absorvente tornava mesquinha a existencia do homem. Os que se dirigiam na tortuosa estrada sentiam-se oprimidos no peito, mas a vista alegrou-se-lhes quando, vencida uma corcunda de caminho, descobriram a egreja rural, lá no fundo, com as vidraças a jorrarem luz, como se fôra noite faustosa de romaria. Quadro ao mesmo tempo phantastico e jubiloso, este apparecimento subito do modesto templo, assim illuminado, surgindo do infinito ventre da escuridade infinita. Era como um facho espetado n'uma grande caldeira de breu. Em todos os corações houve sobresalto de gozo, até mesmo no de Maria. D. Bento d'Osma descobrira o sacrario da sua felicidade; o velho do Corcovado o remate das suas aspirações de grandeza; seus filhos, julgaram afastados os receios de mau encontro dos da Maceira, que mesmo que fossem vencidos lhe aguariam o prazer da festa. E Maria o que descobrira para sorrir?...—Alguma esperança?... era aquelle luzeiro, alegria na tristeza das suas amarguras?...

De todos os corações se levantara um peso; amplificara-se o sentir e o desejo de cada um; etherisara-se-lhes a imaginação em hymnos triumphaes. Os formosos olhos de Maria sorriram á profunda escuridade, talvez por á sua mente ter chegado em recordação, qualquer promessa do seu amado. Desciam para o valle onde brilhava a egreja, lentamente, no meio do fogo das lumieiras. Ao chegarem á borda do adro, o leve corpo da noiva, para ser tirado de cima da mula, ricamente ajaesada á hespanhola com teliz de veludo encarnado lampejando oiros, cahiu nos braços de Manoel, seu irmão mais velho. Repicaram faustosamente os sinos n'este instante, annunciando o momentoso acontecimento, ás estrellas que luziam, aos montes silenciosos, aos animaes bravios escondidos nas suas tocas. As aves occultas na espessura das mattas e no interior dos silvedos, quando ao romper da manhã viessem gorgear as suas impressões, decerto relatariam o acontecimento singular que lhes fizera abrir os olhos para a egreja illuminada, e os ouvidos para o jocundo repicar dos sinos. Que necessidade de perturbar a escuridão infinita e solemne, o silencio augusto e magestoso com signaes de festa humana?—perguntariam ao recomeçarem os seus amores, ebrios de rosea alvorada.

Pela porta do templo, amplamente aberta, entraram os convidados. No interior, grande perfusão de lumes em todos os altares, para se celebrar a sumptuosa festa. Sorriam os santos, o rosto da Virgem era expressivo e carinhoso, os anjos, os seraphins e cherubins, que nas columnas do altar mór se suspendiam entre nuvens, brincavam alegremente.

A luz espancara a tetrica escuridade; o cheiro do incenso e da cera do qual as paredes estavam impregnadas espiritualisara-se com o calor das velas. Os numerosos convidados sentiam-se satisfeitos e communicativos, tinham abundancia de palavras para encher a conversação. A modesta egreja rural, mais uma vez era perturbada na sua tranquillidade: assim cheia de movimento e sussurro de festa, deixava de escutar a musica do ribeiro, agora crescido d'aguas, e de ligar o seu viver obscuro ao das arvores amigas que lhe cresciam em volta, enfolhando-se todos os annos na primavera para a festejar...

Maria subiu o corpo do templo, até ao altar mór, ao lado de seu pae, um velho robusto, de barba em volta da cara sadia, altos collarinhos em camisa de bofes, a casaca das suas bodas (quarenta annos antes) tapando-lhe a nuca com a alta golla. Ao passar em frente da imagem de Nossa Senhora, da qual era solicita devota, ajoelhou orando com fervor, o que fez com que muitos assistentes entrassem em piedoso recolhimento espiritual, imitando-a na mystica submissão. Pediria coragem para o difficil transe?... confessar-se-hia humilde peccadora por ter tido idéa de resistencia á vontade de seu pae?!... No alto da egreja, onde de novo se curvou reverente para fazer as suas supplicas ao Altissimo, cercavam-na as senhoras mais gradas da visinhança, amigas e parentas, as de Refuinho, da Torre Velha, do Ramisco... que todas como ella resavam com recolhimento e fervor. Davam assim tempo a que o padre Pitança se revestisse na sacristia acompanhado d'outros padres. O cura Clemente Carvalhosa, já velho, alquebrado e doente, não podia vir a estas festas de noite, por causa do seu rheumatismo: substituia-o o corpolento Pitança. Quando este reappareceu juncto do arco cruzeiro, coberto com a longa capa d'asperges, a batina occulta sob a alva de celebrante, a estola cahindo-lhe serenamente sobre o amplo peito de caçador e occulta pelo solemne pluvial, o grande vulto do sacerdote assim paramentado, tinha a magestade do d'um bispo da edade-média, guerreiro, soberbo e forte. Um absoluto silencio se estabeleceu rapidamente, em respeito ao acto momentoso que se ia celebrar. D. Bento d'Osma, radiante dentro d'uma farda de fidalgo em que se não encontrava muito á vontade, sorria d'um modo incaracteristico, trabalhado interiormente por grande confusão de idéas e sentimentos. Maria estava pallida, mas o seu rosto mostrava serenidade e o seu olhar firmeza. Quando os nubentes davam o primeiro passo para o celebrante, no meio do silencio de tanta gente, attenta e commovida, no meio da gloria de luzes que transformavam o ambito da modesta egreja n'um templo de apotheose... é que um avejão, phantasma ou demonio, ou muitos demonios juntos se lembraram de lançar pela egreja fóra os seus gritos lamentosos, terriveis, amedrontadores, e tão lamentosos, terriveis e amedrontadores, que rebentaram simultaneamente no tecto e nas campas, por traz do altar mór e no côro! Não eram vozes com semelhança de humanas, era um como fremito horrendo que se sentisse ao mesmo tempo no céu e no cimo da terra, que surgisse da profundeza dos abysmos infernaes e tivesse a mesma natureza e raiva das imprecações dos condemnados. Todos ficaram transidos de mêdo, e se sentiram faltos do sentimento da realidade: deante dos olhos desvairados dos assistentes, assim colhidos de surpreza, e n'este primeiro momento, parecera-lhes que os mortos haviam rompido o lagedo das sepulturas ao clangor da trombeta final, ou que eram os santos que desciam espavoridos dos altares para recolherem ao logar seguro da celeste morada. Viam o tecto do templo vergar sob o peso da vontade divina, que procuraria assim castigar algum grande peccado, ou impedir tremenda iniquidade. A confusão de todos os cerebros foi completa quando no pulpito, no côro, e no recanto da pia baptismal appareceram tres grandes fogueiras com fumo de polvora e reboar de estoiros, como n'um incendio de magica. Da primeira perturbação logo se passou ao terror fundado na evidencia de um fogo no sanctuario. As vozes em grita, supplicantes e desvairadas, junctavam-se ás das aventesmas e ao rebate dos sinos. A maioria procurou fugir pela porta principal que estava aberta de par em par; os mais serenos, os que poderiam formular raciocinio no meio d'esta grande confusão foram levados na onda. Os rapazes do Corcovado, paraliticos na vontade, tiveram um vislumbre da possibilidade d'um acto de vingança dos da Maceira, mas não se poderam concertar para a defeza. Muitas senhoras fugiram para a sacristia, e no meio d'ellas foi Maria. A sacristia estava ás escuras e a porta para o adro viam-n'a aberta... Por ali entrara um vulto humano que rapidamente tomou nos braços a noiva, decerto para a salvar do pavoroso castigo que a todos ameaçava. O seu corpo gentil, dentro do vestido de casamento, a cabeça enfeitada de flores, os olhos bellos que tantas lagrimas amargas tinham chorado, o peito ancioso que em silencio suspirara sentidas endeixas d'amor... tudo levou esse salvador providencial e ambos se sumiram no negrume d'essa noite fria de Março. Festejavam-na do céu as estrellas, acompanhava-a o murmurio das fontes, cantava-lhe aos ouvidos a ligeira brisa, e a escuridade amiga e silenciosa encobria estes amores deleitosos. João da Cunha, celere como um gamo, saltou primeiro o muro do adro levando comsigo a penna leve do corpo da sua amada, atravessou veloz um campo, saltou outro muro e no caminho d'além, atirou Maria para sobre uma egua valente, montando depois n'um cavallo fiel. E como se isto fôra um vôo de lendas scandinavas, lá foram os dois vencendo encostas, galgando ribeiros, entranhando-se de cada vez mais no seio protector e cumplice da noite calada e escura. Escutavam de vez em quando para ver se outro tropel de cavallos os seguiria; mas João confiava sereno na promessa de seus irmãos, que lhe haviam offerecido as vidas para o livrar de perseguidores.

IV

A perturbação de todos os que assistiam á ceremonia matrimonial foi maior do que podiam esperar os inventores do estratagema. Alarmados pelo subitaneo alarido de vozes de duendes, almas-penadas, diabos ou o que quer que era, em furia e delirio; accrescentado o primeiro barulho com o reboliço que se sentira no telhado da egreja, que parecia derruir-se; levado ao auge o desconcerto com o rapido apparecimento da chama azulada do incendio, com o cheiro da polvora e estrondo de bombas, acompanhados do toque desesperado de sinos a rebate... produziu-se em todos os cerebros um movimento de terror e assombro facil de comprehender. O povo casual e os creados das lumieiras, que tinham deixado as cavalgaduras no caminho para assistirem á festa, foram os primeiros a fugir e encontraram-se desvairados no adro, cegos no meio da escuridade pelo brilho que nos olhos traziam da farta illuminação das tochas. A sua grita e clamor acabou de apavorar os proprios animaes, que, n'um tropel desvairado, correram pelos caminhos e atravez dos campos, como fugidos d'uma casa em chamas. Os convidados, apesar de numerosos, não eram bastantes para acudir ás supplicas das senhoras, presas d'um extraordinario medo e algumas desmaiadas. Os minutos que durou a intensidade do perigo, pareceram annos de castigo e tormentos, a todos que se encontraram no meio do horrivel drama. Os homens mais resolutos, serenos, e affeitos a perigos julgaram que este era o seu ultimo instante de vida terrena e já sob os proprios pés sentiam abrirem-se-lhes escancaradas as verdadeiras gargantas do inferno. Ás vozes rogativas das senhoras, acudiram alguns: o padre Pitança, caçador e temerario, encontrou-se entre ellas de capa d'asperges, falando alto, dizendo palavras incoherentes, mas que davam sentimento de realidade; os do Corcovado correram em busca de Maria... D. Bento d'Osma, esse cahira de joelhos no sitio em que estava na capella mór—tinha as mãos erguidas, os olhos espantados, no semblante o esgar dos epilepticos, e murmurava palavras de prece batendo os dentes. Estava inerte, não procurava evitar a condemnação que o abatera, não pensava em resistir á divina vontade, que o punia sem misericordia.

Porém os do Corcovado procurando sua irmã gritavam por ella na egreja, no adro, na sacristia... por toda a parte. Não a encontrando vieram á fala para cerzirem as suas idéas, e facil lhes foi concordarem no que poderia ter sido aquella emboscada. Sentiram-se realmente apavorados e grotescos.

—Nada! é lá possivel!—ainda teimou o mais velho—procuremol-a melhor, que estará por ahi cahida sem sentidos...

Procuraram com vellas e tochas acesas, que arrancaram dos proprios altares, e de momento a momento a suspeita d'uma cilada dos da Maceira tomava maior vulto e lhes enchia o espirito d'uma colera crescente. A elles se juntaram o velho pae e o D. Bento d'Osma, que os creados haviam arrancado á sua paralisia, e todos chamavam por Maria e pronunciavam o seu doce nome, com ancia e carinho, atirando-o para o ventre mysterioso d'aquella negra e hostil noite de Março. Nem acordada, nem desmaiada, nem viva, nem morta a encontravam, por mais que empregassem vozes supplices ou de desespero. Agruparam-se com os parentes e o noivo de Maria, os convidados e os proprios creados. Assim todos reunidos, de tochas na mão, em volta da modesta egreja rural semelhavam multidão imprecativa de povo e não gente na ancia d'um interesse terreno. A noiva não respondera, nem ás primeiras vozes carinhosas do pae e do noivo, nem ás palavras já cheias de ira de seus irmãos. Na egreja, na sachristia, no adro não a descobriam... logo, Maria, ou voava para celesteaes alturas com as suas azas de pomba virgem, ou fugira nos braços do seu amado, o João da Cunha da Maceira.

—Com dez mil demonios, que sou capaz de trincar o coração a esse malvado, como Pedro, o Crú, fez aos carrascos de sua mulher—rugiu o velho do Corcovado, com a face incendiada em desespero.

—Rapazes!—berrou D. Bento d'Osma á multidão dos seus creados—mil cruzados novos aquelle que os pilhar.

E os irmãos de Maria, concertados em identico pensamento de vindicta e com a imagem sarcastica e victoriosa dos da Maceira deante dos olhos, clamaram:

—Os nossos cavallos depressa que não os deixaremos descançar, nem nas profundezas do inferno!

Não era muito facil encontrar os cavallos, pois quasi todos tinham fugido espavoridos. Como se poderia ir ter com elles atravez da vaga escuridão da noite, por caminhos e veredas incertas? Correram os creados, que os conheciam e a cujo chamamento e vozes os animaes estavam habituados. Partiram do adro, cada um com a sua lumieira erguida como um tropheu, chamando e assobiando, em direcções diversas. Que coisa esta de homens com vozes bradantes, armados de fogachos furando a espessa treva, a saltarem muros, e a correr pelos campos, estradas e atalhos! Seria ás arvores hirtas e silenciosas, ás estrellas sorridentes e alegres, aos espaços mudos e infinitos que elles supplicavam? Lá iam com assobios e palavras semeando a negrura torva. Ao fim d'algum tempo alguns voltaram com os animaes que buscavam e lhes haviam obedecido, reconhecendo-lhes o imperio a que estavam sujeitos. Já se tinha passado talvez mais de uma hora, quando os parceaes de D. Bento e os rapazes do Corcovado poderam montar os seus fieis cavallos, para irem no alcance dos fugitivos—duração infinita para os apaixonados corações se distancearem no goso d'uma felicidade tão rudemente conquistada.

Mas para que lado correriam os perseguidores, se os terrenos eram tão vastos, as montanhas tão silvestres e asperas? Como nortear a marcha em noite escura de breu, por veredas multiplas e perigosas? Reuniram conselho para deliberar.

—Para a Maceira?—lembraram os rapazes do Corcovado.

—Não seriam tão asnos que em tal ratoeira cahissem—observou o prudente José Pereira.

—Para o Cerdal, pois são amigos de Cesario.—opinou uma voz.

—Meu primo não me faria o aggravo de lá os receber—inteirou D. Bento d'Osma.

—Sigam para os montes—ordenou o padre José Pitança, de estola sobre o amplo peito, mas já sem pluvial, que largara para se desembaraçar em qualquer lucta de braço a braço, se necessidade houvesse de a sustentar.

—E se elle a fosse depositar respeitosamente e intacta no Ramisco, para depois seguir o processo judicial!?—aventou com a sua voz meliflua o desembargador João Xavier.

Esta lembrança esdruxula, deixou perplexos e irritadas todas as vontades e corações que desejavam uma acção violenta e immediata de assignalada desforra. O sangue dos do Corcovado borbulhava em fremente cachoeira e Thomaz, que era dos quatro o de animo mais ardente e vingativo, disse:

—Qual asneira! Vamos lá para cima que até me parece que já os estou sentindo correr adeante.

E esporeou energicamente o seu cavallo, que lhe respondeu com um salto, vencendo á desfillada a ladeira, onde as ferraduras feriam lume nas lages. Manoel o mais velho ainda teve tempo para ordenar, gritando:

—Cada um pelo seu caminho e por edades. Eu á direita.

Abalaram encosta acima, acicatando com violencia os animaes. Alguns dos amigos e convidados de D. Bento d'Osma seguiram-nos animados d'um generoso espirito de desforra. No pavor da noite, este galope de combate, amplificou-se primeiro, foi esmorecendo gradualmente, restando por fim nos ouvidos dos que tinham ficado, uma ressonancia como de sons repercutidos no fundo d'um poço. O padre José Pitança, de alva e estola, no meio do adro, estendeu com vigor os braços, increpando no vago com os punhos apontados ao céu:

—Grandissimo patife! Que o esborrachava...

—Uma costa d'Africa é que precisa—ameaçou o velho José Pereira.

—Uma costa d'Africa!—rugiu D. Bento d'Osma. Uma forca! mil forcas é que merecia.

Porem quasi todos entenderam que deviam ir para o Corcovado, onde estava a mesa preparada para o começo do festim da boda. Ali aguardariam os acontecimentos. Muitos porfiavam em acreditar que os fugitivos seriam alcançados. Porem a maioria das senhoras, cujos nervos tinham sido desorientados com a commoção causada por tão estranho, quanto inesperado, successo, preferiram as suas proprias casas, onde melhor se aquietariam com rezas e com descanço ao seu conchego habitual.

V

Noite escura e triste; noite, cheia de negruras no céu e no coração! Pouco depois de João da Cunha e Maria partirem a gallope para o seu louco destino, entraram com elles pavorosos receios, tremendo um por causa do outro. Durante muito tempo os acompanhou o alarme de vozes em grita, que se produzira na egreja e no adro, e que se fôra estendendo pela aldeia, tal onda de revolta popular. Como fossem subindo a céu amplo sobre o valle, onde a agitação se alastrava, ouviram, até muito longe, esse rumor sinistro, perseguidor e amaldiçoante; mas depois que venceram o primeiro cabeço de monte, era antes um sussurro de mar a bater em rochas escarpadas, isso que lhes chegava aos ouvidos. Mais além, só conheciam a impressão arquejante que lhes ficara vibrando no cerebro perturbado. De vez em quando sonhavam tropel de cavallos que lhes viessem no encalce e paravam attonitos com o ouvido á escuta; conhecido o erro continuavam animados pela doce esperança de viverem no seu amor absoluto, reciproco e vehemente. Maria, apesar de animosa e a tudo resolvida, não deixava de temer a vindicta de seus irmãos, e no escuro da noite mysteriosa murmurou como n'uma prece: «Deus nos proteja! Se nos apanham está tudo acabado!» Ao que o intrepido amante oppoz, com voz decisiva: «Nada receies. O meu corpo será mais difficil de trespassar, que um duro penedo!» Continuavam a rasgar a treva densa, por caminhos perigosos e pouco calcados de gente. João conhecia todos aquelles montes como os campos da sua aldeia; palmilhara-os, durante annos, acompanhado do seu perdigueiro, em todos os carreiros e veredas. Cego que elle se houvera tornado, determinaria a posição dos ribeiros e rochedos e as nodoas das bouças. Por tanto, para se dirigir na selva escura d'esta noite espessa, bastava-lhe o sorrir das estrellas do céu e a ditosa ventura de ter a seu lado aquella a quem amava. Eram favoraveis as circumstancias para não serem encontrados e para chegarem ao ponto ditoso, onde descançariam longe da furia e perversidade humana. Trazia esse quadro na menina dos olhos; era uma casinha alpestre, armada entre fragoas. Porém, como estivesse ainda muito distante e os montes fossem largos, só quando se annunciasse a luz solar poderia definitivamente nortear-se, para chegar em direitura, ao paraiso onde podiam florir os seus amores. Por agora só pensava em distanciar-se de onde estavam os seus temiveis inimigos; queria apenas retirar-se do perigo, livrar a sua felicidade da furia dos irmãos de Maria, que seria cruenta se se viessem a encontrar, n'essa noite, face a face. Armara-se para chegar a todos os extremos d'um combate sanguinoso: preso no arção trazeiro levava duas clavinas carregadas com zagalotes, nos coldres duas magnificas pistolas de cavallaria com balas, no bolso interior um acerado punhal de lamina triangular. Preparara-se para uma rude empresa de morte e amor, venderia muito cara a vida e a fortuna de viver. Mas distancear a hypothese horrenda e desgraçada d'um encontro funesto com qualquer dos que o perseguiriam, era o seu anhelo, o seu unico desejo. Por isso procurava com ancia ganhar distancias, mettia por atalhos perigosos, evitava quanto podia a proximidade de casas e povoados, onde se podesse dar indicio da sua passagem. Nem sempre o pudéra conseguir e n'um logar que atravessaram, o ruido dos cavallos devia ter sido percebido por um grupo de mulheres, que enfornavam a broa da semana. Cresceram os pavores e receios que enegreciam a imaginação de Maria; porém João aquietou-a dizendo-lhe que, aquelle caminho era forçado para muitos logares distantes, uns dos outros. Continuaram silenciosos e cheios d'esperança na negrura cumplice da noite, porém o sussurro dos ribeiros que iam grossos d'aguas, o acordar repentino d'algum animal bravio que fugisse por entre carrascos e tojos, a propria voz do vento que passava nos codeçaes e bouças se transformavam na mente de Maria em signaes de gente amotinada que os perseguia, em prenuncios de embuscadas que seus crueis irmãos tivessem armado contra o seu unico, verdadeiro e sentido amor. A aldeia ficava-lhes de cada vez mais distante, lá em baixo, em fundo valle. Demonstrava-o o passo mais lento das cavalgaduras que era já de fadiga. Tambem agora tinham de caminhar com maior prudencia, pois João confessava-se no limite dos montes seus conhecidos e familiares. Podiam esbarrar com algum ribeiro que os obrigasse a retroceder, por isso procurava sempre os pontos mais altos, onde essa contraria probabilidade diminuia. Ás montanhas succediam outras montanhas, sempre n'um levantamento gigante que parecia ter limite no céu, onde talvez fossem cravar seus dentes de penedias asperas. Só as estrellas os acompanhavam com riso carinhoso e só estas é que davam a luz tenue, que lhes deixava distinguir os asperos carreiros, brancos sobre a terra negra. O ar tambem era mais leve e mais cortante, a modo que a sombra da noite se ia adelgaçando. Ao nascente, para onde levavam voltados os rostos, já viam com antecedencia a promettedora chegada do sol, essa alegria sumptuosa do mundo!... Eram menos inquietas e vibrateis as pestanas argenteas dos astros, que se sentiam cançados da continuada vigilancia durante a longa noite. Visto não terem podido combater victoriosamente a treva densa, deixavam essa encantadora tarefa ao seu glorioso avô, que traria a brilhante poeira de oiro fino, para enfeitar as cristas das montanhas, enchendo de luz a profundeza dos valles e os recessos das penedias. Maria anciosa por encontrar o limite no seu caminhar perguntou:

—Estamos ainda muito longe?

—Andaremos, com dia, talvez uma hora.

—E a gente que nos encontrar?...

—Só pastores e ovelhas poderemos encontrar.

—Santo Deus! Esses pastores não nos denunciarão?

—Os teus irmãos não nos fazem, decerto, para este lado, e daremos informações erradas a quem falarmos.

—Em todo o caso fujamos sempre...—rematou inquieta.