A nossa Gente

Part 11

Chapter 113,754 wordsPublic domain

Seguiam, já n'uma penumbra fofa, o carreiro aberto, ao longo da espinha d'um monte amplo, pelos pés senhoris das ovelhas e cabras que ali passavam diariamente. Um bufo, que levantou o seu vôo pesado, de entre um massiço de penedos, gerou subito alarme no peito de Maria, denunciado n'um grito de susto, que o seu amado acalmou com a explicação prompta do facto. A luz do sol, ainda distante, provocava este e ainda outros signaes de renascimento da vida terrestre. Já a massa espessa das montanhas se definia em formas comprehensiveis á vista: agigantavam-se os penedos com aspecto de homens associados em conversa; as arvores, dispersas nos terrenos aridos, recortavam-se no céu que se ia acinzentando; as aguas da chuva que se tinham accumulado em covas naturaes, eram espelhentas. Com taes prenuncios de dia entrava nos corações amantes, a fé e a esperança na felicidade do amor. Tão de breu fôra essa noite, que só agora sentiam a posse completa das proprias individualidades, até então amalgamadas com a espessura da treva.

A proxima chegada do sol aclarando o firmamento, que parecia de vidro fosco, apagava gradualmente todos os luzeiros pendurados pelo ar. Formara-se um nimbo lacteo sobre o horisonte. Pipillavam as timidas calhandras erguendo-se do seu leito, entre carquejas, com as pennas irriçadas pelo frio, o que lhes avultava o tamanho. Das bouças já sahiam gaios, grasnando como patos selvagens; levantavam-se melros cortando o crepusculo com o seu vôo rectilineo e silvo agudo; surgiam pêgas a palrar como velhas dementes. Era a gloria da luz e da vida que renascia e animava a solemne mudez das montanhas crespas. Um ligeiro sorrir dos labios de Maria denunciou que o coração se lhe descomprimia, que a sua alma ingenua e pura, aceitava de boamente os perigos do dia, em troca da escuridade protectora da noite. Não assim João da Cunha, receioso dos males que podiam agora nascer. Se os do Corcovado houvessem acertado na perseguição, se os visse apparecer na volta d'um monte ou do meio d'um matagal, seria tamanha a desgraça, que só a morte a podia definir. Correria o seu sangue e o sangue dos de Maria. Todo o que se vertesse havia de ser em desproveito da sua ventura, que não mais poderia brotar. Mas com um movimento energico de cabeça afastou para longe ideias tetricas; de novo no amplo e corajoso peito entrou a esperança risonha e cariciosa. As montanhas eram largas, os caminhos muitos e intrincados, só um grande infortunio o levaria ao encontro dos seus algozes. Consumidos os dias de gozo, doces como o mel, que viessem as perseguições e os flagellos crueis, pois o encontrariam resoluto e altivo, como era natural do seu animo levantado e temerario.

Subiam, subiam ainda na encosta d'um monte, que tinha outros mais altos para os lados do céu. Os já andados escorriam lá para o fundo, em successão de valles, n'um dos quaes assentava a risonha aldeia d'onde haviam partido. Ao vencerem um alto cabeço deram de frente com o olho redondo do sol, que os fitava impavido e dominador.

—Ainda é muito longe?—perguntou Maria.

—Mais uma legua para andar.

Desciam na vertente d'além: n'esse alvorecer encontraram a primeira pastagem de boa relva, mosqueada de malmequeres, goivos e junquilhos nascidos no sopé d'uma penedia d'onde brotava agua, e o primeiro rebanho guardado por um pequeno pastor. Era um rapaz franzino e sujo: ao ver aquella formosa senhora, vestida de claro e com flores na cabeça como qualquer santa, acompanhada por tão garboso cavalleiro, logo se levantou da lage onde estava sentado, conservando-se com o grosso barrete na mão, até que elles chegassem.

—Bom dia rapaz—saudou João da Cunha.

—Bô dia—respondeu em voz rouquenha. Agora não ha romaria: eh! voncês p'ra onde vão?

—Levar uma promessa á Senhora Apparecida—respondeu João.

—Tão linda como a Senhora Apparecida é essa senhora. É sua?

—É minha, é Joaquim. Chamas-te Joaquim?

—Não senhor, sou Zé.

—Pois toma lá este dinheiro e dá-o á tua mãe para te mercar uma camisa. Se por aqui vierem uns senhores a cavallo diz-lhes que não viste passar ninguem.

—Se voncê quer, digo. Hei de rezar por vós, que não ides bem p'ra Senhora Apparecida, mas p'ro Senhor Bô-Home.

—É que vamos primeiro ao Senhor Bom-Homem e depois á Senhora Apparecida—explicou.

—Antão, havendes de tornar para traz.

—Pois tornamos.

—Isso é falar. Deus os acompanhe.

Ficaram receiosos d'este encontro, como já o vinham das mulheres que enfornavam o pão. O convivio humano era-lhes n'este momento antipathico. Da intelligencia alheia, só perigos lhes poderiam advir. Maria levava o rosto palido e fatigado; desejava chegar breve ao ponto da terra, onde pudesse repousar e esconder-se. O seu amado comprehendeu-lhe este secreto pensamento tão legitimo e natural. Chegados a um sitio d'onde se lhes desdobrava aos olhos um largo ondeado de montanhas, João apontou a brancura d'uma ermida, que se destacava sobre a mancha negra d'uma matta e disse:

—Acolá, vês?

—É uma capella!

—Para além da capella está a casa.

—Quanto tempo?

—Pouco tempo.

Metteram por uma esplanada coberta de penedias em cujas anfractuosidades podiam esconder a sua marcha. A luz do sol já enchia os montes e até os valles cobertos pelo nevoeiro matinal. O ar rescendia a aromas, que se levantavam da terra, das flores e hervas alpestres. Passavam no céu, azul palido, aves de grande corpulencia, abutres e aguias, que pousavam nos pincaros mais levantados. Os negros corvos crocitavam perto, subindo do chão para os penhascos. Apparecia aqui um coelho que rebolava pela terra arenosa; rompia adeante um par de perdizes, já acasaladas no começo d'amores; erguia-se uma lebre, veloz na carreira, corveteando de orelha guicha. Maria, certa do limite da sua jornada, mostrava rosto mais desanuveado; todo o seu desejo e ambição era, n'este momento, esconder-se como timida corsa no denso matagal, que fazia mysteriosa negrura, juncto da alva capella que João lhe apontara. Não tardou muito que aportassem ao carinhoso abrigo. Bem mereciam este repouso, depois de tão longas horas atormentadas pelo esforço corporeo e pelas preocupações do espirito. As horas, muitas ou poucas, que ali permanecessem, ignorados e tranquillos, enchel-os-hiam de amor ardente, para entorpecerem a sensibilidade, emquanto não vinha o desenlace da arrojada aventura.

—Ninguem nos supporá aqui, meu amor—suspirou João ao saltar do seu cavallo.

—E de quem é esta casa?—perguntou Maria ao cahir-lhe nos braços, para descer da egua.

—D'um amigo de longe, que só vem aqui, de anno a anno, fazer as suas caçadas.

Depois de recolher as cavalgaduras, entraram na modesta cabana, coberta de colmo. Logo fecharam a porta sobre os seus corpos cançados. João ao apertar Maria nos braços nervosos exclamou desvairado.

—Até que emfim! Podem agora vir todos os tormentos da terra!...

VI

Dia venturoso, primeiro dia d'amor, em casa modesta e simples, cercados do silencio dos ermos, bafejados pela brisa balsamica e leve, aquecidos pela chama copiosa do bello sol de primavera. Da terra humilde dos montes nasciam flores, abrindo no vasto azul o sorriso, que de noite cubiçara o brilho das estrellas. As aves simples, que a floresta enchiam de seus encantos, ignoravam a apotheose que estavam fazendo d'aquella felicidade. Tudo que havia de rescendente nas duas almas, ditosas e bellas como os lyrios brancos, subia em anhelos para as celestiaes alturas, enchendo os espaços infinitos de sua fragancia.

O dedicado amigo de João da Cunha, que lhe cedera este sagrado abrigo, havia-lh'o provisionado de modo que não fosse necessario, logo de entrada, qualquer contacto com gente do povoado. Por isso n'este primeiro dia, nem as janellas descerraram, vivendo os dois na escuridade que mais os unia no seu amor immenso. Os serranos, que por acaso passavam, não presumiriam viv'alma dentro d'aquella casa simples, construida entre penhascos approveitados como tractos de paredes. As duas unicas janellas eram aberturas naturais das fragas: por ali entravam outr'ora as aves de presa, que nos reconcavos faziam seus ninhos. As duas portas collocadas no afastamento mais largo dos penedos aglomerados, davam entrada uma para a cosinha, outra para a casa de jantar e dormitorio. As cavalgaduras arrumavam-se n'uma loja aberta na espessura da terra no ponto inferior do fraguedo. O telhado de colmo era preso, para resistir ás ventanias invernaes, com pedras e paus atravessados. As aberturas desnecessarias tinham sido tapadas grosseiramente com pedra avulsa, sem o esmero de rebouco de argamassa exterior. Esta rustica morada assentava a mais de meia encosta, por cima da afamada matta do Medronhal. As duas janellas abriam para o declive dos montes e via-se, em corrida extensão, a severa e funda garganta, por onde sussurravam as grandes aguas, que vinham de longe, formando o ribeiro da Marnoca, celebre pelas suas trutas. O inverno tinha sido aspero e copioso, o desgelo das neves altas, ainda em principio, engrossava a corrente que n'um fragor de trovão se despenhava de rochedo em rochedo, por entre togeiras virgens, onde não pousaria o pé rustico do pegureiro, se para ali se lhe extraviasse a rez. Havia até sitios perigosos, aos quaes é duvidoso que pudesse chegar, lobo esfomeado em procura de presa. Eram brenhas selvaticas e dantescas onde, só no torrido estio, entrava o sol para calcinar as pedras. O contemplal-a apenas, enchia a alma de pavores e mysterio. Os dois amados, na escuridade da sua cabana e cercados do silencio do ermo, que este aspero ruido tornava mais completo, sentiam-se tão fóra do mundo e dos homens, que os seus corações já palpitavam unisonos e sem receio. Era sua aspiração e desejo, viverem, assim infinitamente, n'esta paz tranquilla de sepultura, formando um ser de dois seres, com um unico sentir e uma só vontade—louca aspiração de juvenil egoismo, de que só pode dar razão a immensa felicidade que fruiam. Eram como essas aves que outr'ora ali tinham formado seus ninhos toscos, na ignorancia de tudo que não fossem montes e estrellas. Independencia absoluta da vida esquecida dos que se persuadem que no amplo universo, nada mais existe do que o amor. Veio-lhes a fadiga e o somno, que mais dilatada lhes tornou a ventura, continuando-a pelo sonho em céus deslumbrantes. Quando acordaram já o sol declinava no horisonte, arrastando a resplendente juba loira pelo cume das montanhas. Abriram então uma das janellas para se despedirem do astro que, fulgurando, deixava o mundo e levava comsigo a alegria da terra.

N'uma d'essas toscas aberturas a poente, appareceram amarellecidos pela ultima luz d'esse venturoso dia, as duas cabeças unidas, os dois corpos enlaçados. Demorando-se na contemplação do formoso espectaculo, Maria, tinha ainda o seu vestido de noiva e na cabeça as flores com que lh'a haviam enfeitado. O crepusculo cobriu-a lentamente com o seu veu de gaze fino, como a uma creança que dormisse, sombreando-lhe o rosto com tintas de melancolia.

E para orchestrar este quadro de simplicidade antiga e paradisiaca, subia do fundo da garganta escura da floresta o som magnifico e potente das aguas, como um hymno religioso, que se amplificasse solemne nas abobadas d'uma cathedral. Fechava-se assim este primeiro dia enebriante e ditoso: viera a noite alargar o vasio de todas as existencias, afofar com sombras os meandros da vida universal.

Accenderam lume, para se aquecerem.

Em frente um do outro, sentados em toscos escabellos de carvalho annoso, estavam em silencio, enredando os seus pensamentos. Presas as suas linguas nas circumstancias d'esta existencia anomala e feliz, communicavam-se por meio de sorrisos e beijos. Maria, porém, rompeu o encanto da sua mudez, considerando:

—Até quando durará isto?!

—Hade durar sempre—affirmou João.

—Talvez bem pouco dure...

—Teu pae perdoa-nos...

—Nunca nos perdoará—disse repassada d'angustia. Não o conheces.

—Seremos do mesmo modo felizes.

—Porém como!?...

João fez um gesto amplo e vago de quem acredita no céu clemente e mysterioso, dentro do qual se conservam em amalgama todas as soluções felizes da existencia humana. Apesar d'isto, continuaram tristes e absorvidos na sua tristeza, deante do lume alegre e crepitante, com chamas que se levantavam e diluiam como as esperanças. É assim toda a ventura: ergue-se com impeto, flameja triumphal, desaparece como a chama, como ella deixando a treva e o frio. Porém estes amores apenas começados estariam, por certo, bem distantes do seu fim: no querido ermo, protegidos pela treva densa, principiava a primeira noite fecunda e bella. Fecunda e bella foi, mas tinha de acabar como o dia. E acabou: já no ambiente se sentia o acordar de existencias chamadas pelo reapparecimento do sol, o qual, os ditosos amantes, tambem de novo vieram saudar.

Abriram a porta que dava para nascente, e abraçados como duas estatuas em grupo, appareceram risonhos deante do sol:—Maria com o seu vestido de noiva machucado, as flores da cabeça emmurchecidas; João o rosto mais severo e palido do que ao findar o precedente dia.

Rompeu o grande astro por entre penedias: primeiro como uma gema d'ovo, amarella e redonda; depois com a irradiação d'uma enorme fornalha que estivesse no infinito. A todos a luz patentearia a realidade da Terra: a Maria e a João mostrava-lhes a extensão aspera e vaga da montanha, um chão arenoso e safaro, cheio de granitos e pobres plantas, sempre açoitadas de ventanias e chuvas, crestadas pelas neves duradoras, roidas do dente damninho das cabras. Contemplavam essa aridez impressionante e forte das serranias, que educa as vontades para a victoria e para o sacrificio, que prepara o cerebro para extremos de abnegação até á morte. Sentiam essa grave austeridade contrastando com a terna ventura dos seus corações, jovens e amantes, com o sentir mais delicado das suas organisações creadas na tranquilidade e maciesa das veigas floridas, de culturas abundantes que agudam a sensibilidade. O bello sol reunia-lhes os dois corpos n'um feixe de luz, atando-os com os seus raios d'oiro; o seu magnificente beijo matinal sellava a incomparavel ventura d'este amor incomparavel. Tão descuidados e seguros se encontravam em momento tão ditoso, que João não teve duvida em propor á sua amada o sahirem á procura d'um rebanho, que lhes désse leite para o almoço.

Foram enlaçados, como dois ramos nascidos do mesmo tronco. Rostos alegres e corações abertos á aventura iam pelo monte além, descendo para sitios onde presumiam pastos. Amplificavam-se-lhes os pulmões para n'elles entrar o ar fresco; dilatavam-se as narinas excitadas pelos aromas da brisa silvestre. Andaram bastante para encontrar o primeiro rebanho: quando voltavam, ao ninho d'amor, com a caneca a transbordar de grosso leite, é que ouviram latidos d'uma matilha, que de longe vinha batendo a serra para o Medronhal. Continuava a subir aparatosamente o sol, no céu tranquillo e mudo, desdobrando pelas corcovas das montanhas, pelo apertado das gargantas, e pelos ferteis valles o seu lençol de luz. Os cães ladravam ainda longe, porém a revoada dos seus ganidos, misturados a tiros de espingarda e a gritos de batedores, subia pela encosta acima, como o fumo d'uma nevoa, que o vento sul levantasse. O rosto de Maria alterou-se, parou com o ouvido á escuta e perguntou:

—Que será?

—Alguma batida ao bicho bravo. O fogo é lá p'ra baixo—explicou João.

—Vamos depressa para casa!...—pediu receiosa.

—Pois vamos—concordou abraçando-a pela cintura, para andarem mais depressa.

Caminhavam diligentes e celeres, não reparando que se lhes vertia o leite da infusa. Dominava-os apenas a idéa de não serem vistos de viv'alma, de se esconderem na modesta choupana, com portas e janellas fechadas, n'uma escuridade completa. Porém, os seus passos deseguaes e nervosos foram sustidos n'um momento, pela apparição d'uma sombra... d'um phantasma... d'um homem a cavallo, que apparecendo ao norte se dirigia como elles, para o lado da ermida branca.

—Olha gente!—exclamou Maria. Se nos vê, santo Deus!...

Esconderam-se por traz d'um macisso do urzal virgem, que pegava com o Medronhal. D'ali queriam observar o destino do cavalleiro. O silencio de João, as linhas do seu rosto contrahido e pallido, o peito tão quieto que nem respirava, denunciavam a negrura do seu coração. Comprehendeu o perigo: ainda que aquelle homem fosse um estranho, que os não conhecesse, havia de causar-lhe surpresa o encontral-os n'aquellas rudes paragens, sósinhos, tão jovens, tão namorados e tão dignos um do outro. Levaria a noticia do singular encontro e estariam logo descobertos. Pelo menos seriam obrigados a mudar d'abrigo e a esgotar depressa o primeiro calix da sua ventura.

—Talvez passe para deante—ciciou-lhe, quasi ao ouvido, o namorado de Maria.

Mas o cavalleiro, caminhando devagar e cautelloso, como avançada na observação de campo inimigo, estava ainda bastante longe para só se distinguir o seu vulto com o chapeu desabado, a espingarda atravessada nos joelhos, o grosso tronco, firme sobre a sella.

—Peor é—considerou João—se ha por aqui alguma porta de espera; porque então fica.

—O que é uma porta de espera?—perguntou anciosa Maria.

—O ponto onde pode romper a caça—esclareceu.

Do lado esquerdo surgiu outro cavalleiro com o egual aspecto de descanço, da mesma forma vestido e armado, convergindo tambem para o sitio da ermida. Viam-no mais perto, sem que pudessem ainda definir particularidades. Porém, quando chegou a um altinho, onde o recorte do seu corpo e da cavalgadura se fez com maior precisão e nitidez, Maria deu um grito, que pela intensidade da dôr que exprimia, seria capaz de acordar lastimas nos reconcavos d'aquellas montanhas.

—É meu irmão Thomaz!

A João da Cunha cahiu-lhe da mão o tarro de leite, que se verteu pela terra. Affirmando-se com acuidade de vista, levou a mão ao punhal que tinha no bolso rugindo:

—Pois matto-o.

Em casa é que tinha as armas, com que poderia fazer frente aos seus inimigos; mas a casa estava distante, e tinham de subir um pedaço de encosta aspera. Chegariam a tempo se corressem; porém, as pernas de Maria, recusavam-se a andar. Era mortal a pallidez do seu bello rosto, tremula de commoção a sua voz melodica, pavorosa a angustia da sua alma; o seu corpo sem energia, deixava-se desfallecer sobre o chão. João da Cunha, o valente rapaz, principiou a tremer como um vidoeiro, açoitado por ventos furiosos. Maria agarrando-se fortemente ao seu corpo supplicava-lhe:

—Esconde-me, esconde-me. Que me não vejam!

Subia, magestoso e grave do fundo da matta, o sussurro do ribeiro da Marnoca, cujas grandes aguas se despenhavam, avolumando-se-lhes o som, com as ressonancias da montanha. Essa voz rouca e solemne attrahia os dois corações amantes, que só poderiam encontrar refugio nas covas fundas, onde a corrente uivava e onde o javali se escondia. N'essa tetrica escuridade de noite haveria por ventura, abrigo e defesa contra a furia e colera dos irmãos de Maria?

—Vamos, vamos para baixo e se lá ainda nos encontrarem, jura-me que me has de mattar com esse punhal, antes que elles me toquem!—clamava a amada, enleando-se ao tronco do seu amado.

VII

Conservava-se silencioso João da Cunha, porem tinha o semblante terrivelmente tetrico. Já se ouviam mais perto os tiros de espingarda e os gritos d'alarme dos batedores, e com este novo perigo mais se estreitavam os corpos dos dois namorados. Obedecendo ao chamamento da voz em supplica e reconhecendo a inutilidade de quaesquer esforços para se deffender, João deixava-se arrastar por Maria para o fundo abysmo da garganta escura da montanha, onde se despenhavam as aguas em precipicios. No ultimo relance em que viu, por entre o urzal virgem que os occultava, os dois cavalleiros, reconheceu serem Thomaz e Vicente, os dois mais temiveis dos do Corcovado. Aproximava-se portanto, o fim do seu tragico amor. Com a robustez do seu corpo agil, ia amparando o corpo delicioso de Maria, que já se entregava sem animo. A cada paragem indispensavel para refazer forças ella solicitava de João, com verdadeiras lagrimas, que a deixasse esconder-se mais na escuridade. Já tinha os pés e os braços ensanguentados de roçarem nos silvedos e nas arestas vivas do granito; o vestido rasgado pelos espinhos dos abrolhos e das tojeiras! João, apesar de toda a solicitude, não conseguia afastar com as suas mãos piedosas todos esses duros obstaculos. Tambem elle tinha a carne dilacerada e dos olhos vermelhos e vehementes sahiam-lhe expressões alternadas de colera e de pavor. Mas iam descendo sempre, amparando-se para não rebolarem pelo ingreme declive, do fundo do qual vinha o bravio ronco das aguas, que se precipitavam de penedo em penedo, por entre nuvens de espuma branca. O espirito de Maria sentia consolação em embrenhar-se n'esta sombra de noite, cada vez mais espessa; mas o barulho dos batedores e dos cães chegava-lhe de muito perto. E quando se encontrou á borda do ribeiro gemebundo, com a pelle rasgada em feridas, o vestido de noiva em farrapos, os cabellos desgrenhados e sem flores, disse com expressão de alivio e desafogo:

—Podemos morrer. Aqui não nos verão!

O seu amado estava silencioso e rigido no meio da desventura, que por todos os lados o cercava. Em breve ali chegaria a sofrega matilha, que podia denunciar a estada d'elles n'aquelle mattagal aspero, escondidos no reconcavo d'um penedo, abraçados n'um ultimo alento d'amor. João que já uma vez batera aquellas brenhas, em alegre e bulhenta companhia, via-se agora como o timido veado, occulto por medronheiros, altas giestas e urzes seculares, com o fim de se furtar á impertinencia de miseros rafeiros!... Do peito sahiam-lhe impetos de coragem, tinha subitaneos repellões de musculos que o animavam a mostrar-se aos seus inimigos, tal como era, indomito e sem temôr. Poderia subir n'um arranco, qual outro cabrito montez, aquellas rochas escarpadas; poderia haver ás mãos as clavinas e as pistolas: depois em campo claro, peito a peito, combater com denodo, matando e morrendo. O seu coração ousado era uma cachoeira de sangue n'estes momentos; exaltava-se-lhe a mente n'uma febre de lucta. Erguendo-se, alto como um gigante, exclamou com os braços para o céu:

—Sem ao menos ter aqui as minhas armas com que te possa defender!...

Maria dedusindo d'estas palavras do seu amado, que elle tivesse o pensamento de se ir aperceber para a lucta supplicou:

—Não me deixes só! Ninguem nos imaginará n'esta cova.

—Depois de darem busca á casa e encontrarem cavallos e mais coisas que nos pertencem, como não adivinharão?...

—Falta-lhes ainda descobrir-nos.

—Bastam os cães para nos denunciarem, como se fossemos bicho medroso...

Humilhou-se, abatendo de novo o seu corpo sobre a terra humosa. Havia gemer de raiva n'aquelle peito ancioso. Com aspecto torvo e fronte livida, olhava com vista negra para a espessura da matta, onde o vivo sol da manhã, apenas gerava uma penumbra. Zumbiam abelhas colhendo o alimento do rosmaninho, da flôr do tojo e dos sargaços; os innocentes piscos de peito vermelho volitavam de galho em galho; passara uma cobra entre o folhedo, que tapetava o chão. A espessura do medronhal já se enfeitava com rebentos novos; a vida universal, independente e descuidosa, crescia, remoçava-se á vista d'aquelles corações desfallecidos e sem esperança.