A nossa Gente

Part 12

Chapter 12933 wordsPublic domain

A grita dos batedores avultava em intensidade. A matilha em busca accesa estava perto, subia e descia as penedias, entrava nas covas e na negrura dos mattos. Os dois amantes, ouviam perto os latidos; sentiam o ganir e o choro proprio da canzoada na ancia da procura. João da Cunha, paralytico na sua vontade e remettido á impotencia do seu aspero desespero, não falava: fechou os olhos para não ver, tapou os ouvidos para não ouvir. Maria, com a sua alma candida cheia ainda de fé e esperança, estava de joelhos, as mãos erguidas, orando fervorosa e supplicante, o pallido rosto innundado de lagrimas. Deu um grito e interrompeu a prece, ao ver por entre a espessura da velha urze que tapava a bocca do antro onde se tinham escondido, o negro focinho d'um valente cão do Crasto, que rosnava. João ergueu-se de repente, apurando todos os seus sentidos, e ficou ameaçador com o punhal na mão. O animal recuou, subindo para um penedo d'onde principiou a ladrar e a arremetter com ferocidade. Era um animal medeano, mas de cabeça poderosa: tinha o focinho agudo, a bocca rasgada como a dos lobos, as orelhas cortadas, em volta do pescoço uma colleira de pregos. O corpo zebrado de negro, em fundo pardacento, lembrava a pelle da hyena. O pello do dorso, mais cerdoso, estava erriçado pela colera; os olhos sanguineos, em circulo negro, olhavam com ferocidade; os dentes brancos, fortes, eguaes, arreganhavam-se deixando ver a lingua comprida, como uma chamma. Ladrava com desespero, resfolgando-lhe as narinas, pois via João da Cunha, com o punhal na mão, em attitude aggressiva. Outros cães da matilha vieram junctar as suas vozes ás do denunciante; os batedores, suppondo peça de caça renitente, algum javalli encurralado entre penedos, animavam com gritos os animaes, em quanto se iam approximando.

O lance era de extremos perigos. João da Cunha, palido como a morte, estreitava ao seu valente corpo, o leve corpo de Maria, cujos irmãos, ao suspeitarem do valor do signal dado pelos cães se tinham já reunido juncto da ermida para conferenciarem.

—São elles—disse Thomaz, o de coração mais duro. Examinei aquella casa, tem coisas que lhes pertencem. Ha um cavallo da Maceira.

—Não nos fugirão agora—disse rancorosamente Vicente.

N'estas palavras havia alegria e impiedade. Concertaram o seu plano, que consistia em descerem, ao mesmo tempo, de quatro pontos differentes, convergindo para o sitio onde o ladrido se accentuava mais vivo e feroz. Porfiavam por chegar primeiro que os batedores, para só por si liquidarem este pleito. Tinham calma no aspecto, mas levavam no coração, muito mais goso e ferocidade, do que teriam para desalojar a mais temivel das féras.

Tamanha era a perseguição que os mastins lhes faziam que João e Maria tiveram de sahir do seu esconderijo, para ficarem em terreno aberto, onde se pudessem defender. Os cães do Corcovado, ouvindo a voz carinhosa da sua ama, tinham-se afastado da contenda; mas os restantes, especialmente o que primeiro os descobrira, mostravam-se de cada vez mais inimigos. Houve um instante em que o assedio se tornou tão violento que João da Cunha pronunciou alto:

—Maus raios! Eu sem lhes poder chegar!...

N'este apertado lance é que Maria descobriu, n'uma clareira, cercada de urzes e medronheiros, passar seu irmão mais velho, o Manuel, com a espingarda ao hombro, dirigindo-se para o sitio onde os cães ladravam.

—Estamos descobertos!—disse apontando.

—Inferno!—bramou João da Cunha. Não ter comigo as clavinas!

Este apparecimento levou Maria para as visões da loucura. Pelo ramalhar das arvores, em cujos braços as espingardas se prendiam, pelo ondear dos mattos, percebia-se claramente que tambem os outros do Corcovado para o mesmo ponto convergiam.

Maria pensou em encontrar sitio, ainda mais inaccessivel, lá para o fundo do precipicio. João desvairado, acompanhava-a, amparando-a, para a não deixar cahir. Nenhum d'elles sabia para onde era levado pelo destino, pela força interior que os impellia, mas ambos comprehendiam que mais para baixo era mais cavernoso o marulho da corrente, mais denso o arvoredo. Havia ahi uma queda de muitos metros, onde a agua levantava alegres nuvens de espuma, e depois se expraiava em larguesa de bahia tranquilla. Sem conhecerem o risco, para ahi se dirigiram, attrahidos pela escuridade e para se livrarem da perseguição crescente da matilha. Entraram n'uma passagem estreita, onde o ribeiro corria precipitado. O negrume do logar e o fragor da corrente cegava-os e ensurdecia-os. Chegaram á fraga d'onde a catadupa se precipita no fundo barathro. Ahi apareceram abraçados um ao outro, tão meigos e sorridentes, como no primeiro momento d'amor, e n'esse supremo instante é que uma voz de vingança se lhes levantou fronteira, ameaçando-os:

—Nem mais um passo, que os varo!...

Era o Thomaz, que os apontava com a arma aperrada.

Maria deu um grito de pavor desprendendo-se dos braços do seu amado. Tapou os olhos para não ver e correndo pela lage fóra, precipitou-se na cachoeira fremente. João com os dentes cerrados de desespero, os olhos em chammas de loucura, ainda tentou agarral-a; porém acompanhou-a na queda, sem poder tocar-lhe no vestido de noiva.

* * * * *

O cadaver de João da Cunha, foi encontrado, depois, entre as penedias, com o craneo esmigalhado. Já os corvos crocitavam em volta da sua misera podridão. O de Maria, colhido amorosamente pela massa das aguas ao cahir appareceu boiando no remanso limpido, como o de Ophelia, retido por um innocente ramo d'urze. Foi d'esta humilde planta, que o seu corpo gentil recebeu o ultimo beijo de carinho.

FIM

INDICE

Santa Margarida 1

Pastoral 63

Fogo do Céu 95

Voltou 113

Cresce o Mar 155

O Gamarrão 171

O Calvario do Amor 187