A nossa Gente

Part 8

Chapter 83,830 wordsPublic domain

No areal extenso, branco como uma longa teia de linho, Tone levava Zefa pela mão. Principiava o sol a avermelhar no horisonte. Mais uma vez os seus inexperientes olhos soffreram o singular deslumbramento de vêrem no meio da gloriosa chama, os anjos do paraiso com toda a sua bella legenda; era para lá d'aquella entrada em fogo que existia o céu, o logar escolhido para o Maravilhoso e Innarravel. Assim o indicou Tone com a magnificencia do seu saber:

—Olha Zefa: é o céu onde estão os anjos de Nosso Senhor.

A pequenita ficou mais uma vez presa na contemplação da patria celestial. O seu olhar azul prolongou-se para o infinito, n'uma visão sublime de candura. O seu imaginar via todas as maravilhas na athmosphera subtil e impalpavel, no doirado da luz, na angelical brancura de figuras meigas como a sua alma innocente.

—Como é lindo!—exclamou Zefa.

Foram caminhando, pela branca areia, as mãos reciprocamente apertadas, sentindo n'este contacto amoravel realidade de existencia e protecção mutua. Dirigiram-se a um rochedo que se lhes offerecia em suave e branda subida e d'onde podiam intemeratamente gozar tudo que os maravilhava.

No mais alto d'essa pedra escura, roida pelas ondas, a grata aragem agitava as leves camisinhas de pobre linho com que cobriam a sua nudez. Como o dia estivera calido, sentiam agradavelmente a benefica sensação de frescura passar-lhe nos cabellos, a amaciar-lhes a pelle. Do alto da enorme penedia, que lhes era pedestal, lançavam olhos ao largo e aspiravam o cheiro acre e forte que vinha das aguas que sussurravam. Impavidos e cheios de toda aquella grandeza que se lhes impunha, reconheciam-se enlevados nas maravilhas, que os sentidos percebiam nas ondas e no céu. E Tone disse com effusão:

—Olha o mar Zefa! É ali que está o pae!

Apontou vagamente para esse infinito d'Além, que o olhar azul da pequenita abraçou n'uma sombra de tristeza e saudade. Havia na sua expressão de limpidez seraphica, alguma coisa de dôr ou meiga ternura, que se espalhou pelo ar fóra escurecendo-o. Era ali que estava o pae! E o que seria _ali_?!...

O sol semelhava fogo voraz que incendiasse o céu. Parecia um instante de perigo, tremendo para o universo, esse em que a immensa chamma irradiava do horisonte. Só o grande poder de Deus, com um gesto formidavel e omnipotente, poderia extinguir o brazido ameaçador! Se assim não fosse, o que poderia acontecer á terra, ao mar e ás estrellas se essa cólera de lume se estendesse a toda a amplidão infinita? Seria uma grande desgraça reduzir a Nada tudo quanto era bello e grande e os maravilhava enchendo-lhes a alma de grandiosas aspirações. A briza agitava-lhes as camisinhas de grosso linho, os cabellos incultos fluctuavam e as duas creancinhas viveram um momento em grande terror!

Porem a intervenção providencial manifestou-se: o que era incendio foi-se apagando, a luz tornara-se d'um deslumbrante alaranjado primeiro, depois d'um roxo terno que franjava o azul. Uma nuvem que ao longe estava suspensa sorria-lhes do alto com o seu roseo carinho. Parecia um resto de tunica d'anjo, que andasse perdida no ar.

Tamanho encanto sentiam as duas creanças, que nem davam pelo marulho das ondas, que já se agitavam perto. E quando os seus bellos olhos sobre as aguas desceram, entertiveram-se a contemplar o redomoinho variado que ellas faziam, subindo lentamente até ao sopé do rochedo, para depois se retirarem com humildade. Havia n'isto carinho e não cólera; a espuma, tão bella e tão branca, vinha tremendo sobre o dorso da vaga até se desfazer; as algas vermelhas, verdes e azuladas fluctuavam dormentes como n'um berço; os lindos seixos que formavam mosaico no fundo encrespavam-se, como se fossem de cera molle. Muito unidos, encontrando no corpo um do outro mutuo apoio, observavam interessados aquelle crescer do mar, posto que muitas vezes tivessem visto um tal phenomeno que sempre os encantava. A onda é constantemente nova: nunca tem a mesma força em dois momentos successivos, nem o seu enrolar é de forma egual, em duas d'estas irmãs gemeas nascidas par a par; o facto de se fazer e refazer perpetuamente dá a sensação d'um inicio de vida que surge. Por isso Tone e Zefa, mudos e risonhos, vendo uma vaga avolumar-se sobre outra vaga, consideravam quanto havia de carinhoso e amigo n'estes beijos da espuma á penedia onde estavam. O marulho grosso que vinha lá de longe inchando sempre, até rebentar na praia, entorpecia-os deliciosamente, deixando-lhes nos ouvidos uma ressonancia plangente. Era musica suave e rara, cuja melancolia se casava de modo admiravel com esse gradual escurecimento do céu, da terra e do mar, que os envolvia como n'um mysterio.

A tenue sombra que vinha do horisonte em redor, diluida em tenue orvalho, cercava-os d'uma atmosphera de goso triste que lhes desmaiava a expressão por sentirem muito.

Crescia o mar, a luz do sol apagava-se, já o pestanejar das estrellas no céu apparecia. Perto, mui perto, conheciam o bater das ondas na base do rochedo e o galgar das aguas pelo areal acima. Aquellas pequeninas almas voavam na amplidão, como serenas e doiradas nuvens, que levassem todas as celestiaes chimeras que haviam sonhado. O que os seus olhos ainda viam, e o que os seus ouvidos percebiam eram coisas que lhes embalavam o entendimento levando-o para mundos sidereos e encantadores. Esse gemer da sombra que escurecia o mar immenso, o rebrilhar da abobada celeste na grande festa da noite outomnal, faziam-lhes caricias no cerebro, sem lhes causar pavor. Esquecidas as existencias terrenas, só viviam na amplidão infinita, as pobres almas ingenuas!...

Os seus corpos sem peso, vagueavam suspensos no mundo ethereo; a imaginação alargava-se-lhes como o fumo do incenso ao evolar-se dos thuribulos sagrados na festa paschal. Iam intemeratamente por essa amplidão do mar, fortalecidos pelas idéas de mysterio com que a noite estrellada seduz as mentes infantis.

A sombra espessa cahira pesada e egual sobre a rugosa superficie das aguas, dissolvendo os rochedos da praia, esfumando, em tenue esbatido, o terreno onde estava a casa de moradia. Encantava-os a phosphorescencia das ondas, enfeitiçava-os o lacrimar argenteo do ceu, sentiam os corações subir em extasis... De todas as realidades só a brancura da areia percebiam estendida como um lençol e o ruido do mar que regougava a seus pés. Os ouvidos, porém, já de muito habituados a este som tantas vezes ameaçador, quantas muitas carinhoso e meigo, não presentiram que elle lhes rugia de todos os lados. Estavam cercados pelas aguas em revolta e só d'isto tiveram a primeira suspeita, quando pelo rochedo subiu uma onda, cuja espuma em flocos lhes voou para os cabellos incultos que fluctuavam ao sabor da brisa. A pequenina Zefa soffreu um rebate de susto, e agarrando-se mais fortemente a seu pequeno irmão, gemeu receiosa:

—Tenho medo!...

Tone despertou do sonho de poeta em que vivera! Como tivesse mais dois annos, sentiu o peso das suas responsabilidades. Era escuro e o bramido erguia-se energico e temeroso. Lembrou se então de descer da rocha e fugir ao perigo; mas, circumvagando o olhar inquieto, logo reconheceu o bloqueio que o mar lhes estabelecera. Titubeante, mas querendo fingir coragem, disse:

—Não tens medo Zefa. A gente vae-se já embora...

Que especie de soccorro esperaria Tone, sabendo que todos os dias aquelles rochedos da praia se escondiam nas aguas, amedrontados pela furia do protentoso mar?! Talvez o não soubesse dizer; porém o coração esperançado, sempre ouvira que, para lá da abobada celeste, existia o omnipotente Deus que valia aos desgraçados nas horas dos grandes infortunios. Um acto simples do seu querer, manifestado sobre o mundo n'um gesto formidavel, seria logo obedecido pelos mares e pelos montes, pelas estrellas e pelo sol! Era só apegarem-se com elle, levantarem o pensamento até junto do seu throno celestial, todo oiro e luz, e ali supplicarem cheios de vehemencia e fé!

Precisavam fazer um grande esforço, pois tinham de ir para além de tudo quanto se via no espaço infinito. E logo que o Pae-do-céu os ouvisse, aquelle mar enfurecido se tornaria bonançoso, a sua voz horrenda seria apenas um cantico, as aguas recuariam mansas até os confins do mundo, e elles veriam desenrollar-se diante dos seus pequeninos pés uma estrada singella e vulgar, que os conduziria ao seu casal. E o coração amargurado e inquieto de Tone, tumefeito de consoladora esperança, voou pelos espaços, em quanto cahia supplice sobre a rocha erguendo as mãos e aconselhando:

—Resa muito, ao Senhor, Zefa!

A pequenita ajoelhou como elle ajoelhara; pôz as mãosinhas, fitou nas estrellas os olhos cheios de lagrimas. Não sabia ainda resar, mas os seus labios delgadinhos imitavam n'um anceio as palavras fervorosas que seu irmão dizia alto: «Padre nosso, que estaes no ceu...»

O mar não se apiedava. Os seus bramidos eram violentos e colericos. De onda a onda as aguas subiam mais. A todos os momentos os corpos lhes eram salpicados de espuma e as pobres camisinhas de linho grosso já estavam encharcadas. Zefa, d'um primeiro lamento timido e perigoso, foi subindo a um pranto sentido. Chorava copiosamente em gritos, mas a vontade energica de Tone ainda procurava sustental-a contra esta fraqueza. Sem uma lagrima, sem uma ruga de pavor no rosto e com voz clara animou-a:

—Cala Zefa, não chores. O pae está ali—(apontou o vasto oceano)—e vem buscar a gente para irmos todos para a nossa mãe.

Acreditaria Tone, n'este providencial soccorro?! A furia do mar augmentava de instante a instante, as vagas ameaçavam-no de mais perto, elle continuava com a irmãsinha estreitada contra o seu corpo valoroso. Ambos esperavam, com os cabellos empastados e as camisas colladas á pelle, que da infinita bondade do céu viesse o soccorro que os restituisse aos braços de sua mãe. Do mysterio insondavel da noite é que viria a voz salvadora, ou fosse na vontade protentosa de Deus abrandando a inclemencia do mar, ou na força amorosa de seu pae cuja sombra tantas vezes conheceram a vaguear sobre os rochedos e sobre as aguas!...

E sua mãe? aquella boa alma consoladora que os aconchegava ao seio nas crises das doenças?! Zefa entregava-se á protecção de Tone; este, de animo varonil, alguma coisa via surgir ou do ceu omnipotente, ou do mar mysterioso, ou da terra sempre querida.

Da terra querida chegou-lhes realmente o primeiro som d'uma voz fortalecedora e meiga, quando estavam no maior desespero. «Tone!»...«Zefa!»...—dizia um grito sahido do medonho seio da noite. Havia n'esse grito mais desespero e mais lagrimas do que furia no bramido do mar, e gottas d'agua nos seus abysmos insondaveis. Era a voz da Mãe que procurava seus filhos na praia e que no meio d'angustias os pedia á immensa escuridão. Aquelle som carinhoso e desesperado chegou aos ouvidos dos apavorados innocentes, quando os seus pequeninos pés já se mergulhavam na agua, que recuando mais uma vez pareceria arrependida da propria crueldade.

«Mãe!... Mãe!»...—clamaram tranzidos de medo, com o ultimo vislumbre de esperança posto na voz imprecativa e meiga, que atravessara o medonho falar das ondas. Ouvil-os-hia a desventurada? Parece que sim, por certo guiada pelo coração, pois que n'um fugaz momento de calmaria clamou com mais força ainda:

—Onde estaes filhos!...

Elles responderam em desfalecido choro, mas vehementes com a energia do desespero:

—Aqui mãe!...

Sem duvida aquelles olhos d'amor adivinharam o lugar; e o perigo, que era eminente. Para os filhos se dirigiu, como uma loba, como uma leôa, energica, impetuosa, inconsiderada, guiando-se apenas pelo instincto que vinha do fundo das suas entranhas. Do rochedo onde os filhos estavam estreitados n'um supremo abraço, separava-a o mar que se balouçava dolentemente, crescendo a cada nova onda, ameaçando-a com dentes e garras sanhozas de tigre. Na limpidez do céu estrellado via os dois pequeninos corpos muito unidos, fortalecendo-se cada um na fraqueza do outro.

A mãe, impellida pela energia da sua amoravel loucura, entrou resolutamente na agua animando as creanças com a palavra clara, encorajando-as com o denodado exemplo.

—Esperae, esperae! Não vos atireis por ora, filhos!

Suppunha ter ainda tempo de se approximar do rochedo e recebel-os nos braços para com elles fugir para o humilde tegurio. A frialdade da agua não lhe diminuia o calor do sangue em fervura, o impeto das ondas não lhe quebrava a força dos musculos, o terror do abysmo não a cançava.

Ia avançando com prudencia, já immerso o corpo até aos hombros, os braços levantados para animar os filhos, com a sua approximação. Fazia todos os esforços de valor moral, para que elles acreditassem na efficacia d'aquelle auxilio. As criancinhas, silenciosas, com o terror vago nos olhos, percebiam o lento chegar d'aquella mulher fragil, sublimada por uma coragem indomita. Mas a valentia do mar augmentava de instante para instante. Quando a mãe sentiu que se ia afundar, atirou-se n'um arranco sublime contra as encapelladas ondas. Os filhos, por instincto, logo a imitaram para serem recolhidos n'aquelles braços de caricias. Estreitaram-se fortemente, uniram-se n'um supremo esforço; porem, a furia impiedosa do mar separou-os logo. Os corpos fluctuaram até que uma vaga soberba e altaneira os cobriu, envolvendo-os n'um sudario de espuma, levando-os para o negro abysmo, onde iam encontrar a sombra querida do pae que por lá vagueava.

O GAMARRÃO

Dia de finados, dia lugubre, dia triste!... Pelas oito horas da noute, dos lados de Serpins, sentiu-se grande reboliço. Muita gente a correr. Francisca, a criada do morgado, pedindo soccorro n'uma voz esganiçada. Seriam ladrões? pegaria algum fogo? armar-se-hia qualquer desordem? Ninguem o sabia. Para lá se dirigiam em tropel homens armados de roçadoiras, espingardas velhas e varapaus—todos n'uma attitude combatente, falando alto! O sacristão direito á torre para tocar a rebate, mulheres e creanças alarmando a villa correndo e gritando, os prudentes a fecharem as janellas para se não metterem em barulhos, nem servirem de testemunhas... era o que se via.

Averiguou-se, por fim, que o morgado Gamarrão se encontrara repentinamente mal com uma colica, resultado de uma copiosa ceia de castanhas com geropiga. Homem sanguineo, rebolava-se pelo chão da cosinha como uma pipa, dava urros que nem um touro, os olhos esbogalhados rebentavam-lhe das orbitas. Dous valentes creados sopesaram o moribundo como um sacco de trigo e atiraram-n'o sobre a cama. O cirurgião Mendonça, seu velho inimigo, veio quando elle já nem respirava e dirigindo-lhe a ponteira da bengala, desprezou-o:

—Resem-lhe por alma, se é que a tinha. Está prompto, não torna a dizer asneiras.

O mulherio, em volta da Francisca, acompanhava-a na sua grande dôr, chorando com ella, consolando-a com delicadeza. Não se comprehendia o sentimento da rapariga por este mastodonte avaro e gordo, o mais embirrento homem das redondezas; porém ella, recusando consolações, explicou:

—Não que era muito meu amigo. Tinha-me promettido umas arrecadas para o Natal. Ai! meu rico amo!

Porém todos estavam certos que o morgado lh'as não daria. Era uma alma de presunto, como dizia o Mendonça, não tinha amor a vivente. Durante um longo periodo, talvez de trinta annos, ninguem soube que o Gamarrão escrevesse ou recebesse uma carta. Orphãos, viuvas e necessitados que á sua riqueza fossem buscar amparo, em vez de beneficio, tinham como certo o abraço selvagem d'este urso indomavel.

O seu unico herdeiro vinha a ser um sobrinho residente em Trancoso. O administrador do concelho, o Menezes, promptificou-se a escrever ao collega de lá, participando-lhe o occorrido. Não se fez esperar a resposta telegraphica, dizendo que em breve chegaria a Serpins o dr. João Gama, sobrinho do morgado.

Gente credula em demasia! Sem nenhuma especie de informações, logo se deitaram a imaginar este homem differente do fallecido. Que seria risonho e condescendente, esmoler e affavel.

Prepararam-se para o receber, affectuosamente nos braços, logo que elle chegasse e resolveram consideral-o como o bemvindo.

A tarde em que elle appareceu era lamacenta e chuvosa; as pessoas, as arvores e o ar mostravam-se fuscos e encebados. Quando viram o dr. Gama, julgaram assistir á ressurreição do tio—anafado, soberbão e de tal volume que lhe custou a sahir da diligencia. O cocheiro commentou:

—Devia pagar dous lugares. Já em Braga foi a mesma chalaça, para o metter dentro.

Porém, elle, ao encontrar-se fóra d'aquella velha arca de Noé, sentiu a ampla sensação da liberdade conquistada e mostrou-se sorridente, benevolo e acariciador. A primeira impressão foi boa e não desmanchou o que tinham presumido.

O administrador, ao voltar de Serpins, affirmou na botica:

—Temos homem. Talvez se faça alguma cousa.

Ao que o Mendonça retorquiu, chupando o cigarro:

—Elles são parentes, meu amigo!...

Increparam-n'o pela duvida.

—Então você não admitte...

—Admitto tudo... mas não me cheira.

Que deixassem a cousa por sua conta, pediu o Menezes, premeditando um golpe de grande politico. A questão era de geito. Todos comem palha, o caso é saber-lh'a dar. Má impressão não lhe fizera, e uma carta que recebera do collega de Trancoso, avivara-lhe as esperanças. E logo no dia seguinte de manhã apresentou-se em casa do _novo conterraneo_, palavras estas que pronunciou de modo a imprimir-lhes a ideia de naturalisação official, de uma especie de carta de cidadão, passada ali mesmo por elle.

De tudo se fallou. O Menezes gostava de ostentar importancia—que tinha relações, que recebia muitas cartas, que em Lisboa falava com ministros. Sendo ferrenho regenerador, affirmava que o Lopo, o Barjona e o proprio Fontes o tratavam affavelmente e o recebiam em cavaqueiras intimas. Fazia gestos largos, conquistando, dirigindo, aconselhando.

—Seu tio—disse depois de conveniente preparação—era muito estimado entre nós. Esmoler, chão no tracto, bondoso, o que se chama um coração aberto. A sua piedade e religião eram proverbiaes.

O dr. Gama limpou duas lagrimas que lhe humedeceram as palpebras. Conservou-se silencioso por momentos e em tom compungido respondeu:

—Agradeço-lhe as suas palavras, que sei verdadeiras. Conheci esse coração magnanimo, esse homem antigo, esse tio admiravel! Era tal como diz, um santo, um bom.

—Julguei que nunca vira seu tio...—balbuciou timidamente.

—Durante estes ultimos vinte annos carteamo-nos sobejamente. Os nossos corações uniram-se em bellas paginas, como só elle as sabia escrever.

—Não o apreciei debaixo d'esse ponto de vista, mas sim na convivencia. Era um homem altamente religioso e não d'esses modernos que chasqueiam dos bons principios. Uma festa, aqui popularissima, á Senhora do Regaço, e que elle todos os annos fazia á sua custa, com pompa e luzimento, dera-lhe entre a nossa gente verdadeira nomeada de bom catholico. N'este ponto julgo adivinhar que v. s.ª não quebrará a tradicção...

O dr. Gama concentrou-se. Tomou aspecto reflexivo, enguliu em sêcco duas vezes.

—Se meu religioso tio—respondeu—a cuja memoria tanto devo, costumava fazer a festa da Senhora do Regaço, com pompa e luzimento, não serei eu que venha interromper essa piedosa pratica. Preciso, porém, consultar os seus livros e papeis secretos, para conhecer os precisos termos em que elle procedia, e da mesmissima fórma eu proceder tambem.

—Deixaria elle apontamento a tal respeito?— —observou o duvidoso Menezes—Isso não offenderia a sua modestia?...

—Não, de certo não. Conheço a fundo a alma de meu tio, pela nossa activissima correspondencia. Esses documentos e livros devem existir; estou certo que existem.

Causou estranheza tal revelação. Teve, porém, o valor de alegrar e alimpar a embirrenta e sordida memoria do avaro Gamarrão. Quantas virtudes n'este mundo se mascaram de vicio, para não as offender a luz crúa da publicidade!—consideravam philosophicamente alguns homens meditativos d'aquella terra.

Affluiu muita gente a visitar o novo morgado de Serpins.

De aldeias proximas vieram, por caminhos pedregosos, varios ecclesiasticos e proprietarios montados nas suas eguas lanzudas.

Falaram n'elle para deputado do circulo e d'ahi cada um tirava esperanças de engrandecimento pessoal. O provedor da Misericordia, animado pelo bom acolhimento que tivera o Menezes, procurou estar só com o homem, para lhe recommendar á generosidade o hospital, cuja vigilancia a seu cargo tinha.

—Seu caridoso tio, meu velho amigo, era o melhor protector da Santa Casa. Nas festas do anno e no anniversario da morte da senhora morgada, tinhamos sempre presentes de roupas, gallinhas e dinheiro. Sem um tal auxilio não poderiamos viver, e ouso pensar que o seu continuador, o seu herdeiro, não nos faltará igualmente com a sua protecção.

—Se meu caridoso tio—retorquiu solemne—cuja memoria tanto respeito, auxiliava o hospital d'esta terra com roupas, gallinhas e dinheiro, não serei eu que lhe desmereça a santa memoria, deixando de o fazer. Preciso, porém, de consultar os seus livros e papeis secretos, para conhecer os precisos termos em que essas dadivas eram feitas, para as continuar.

—E haverá, porventura, esses documentos?

—Decerto! Oh! quasi que o posso jurar! Eu conhecia-lhe profundamente os habitos.

Depois d'isto os cavalheiros mais grados reuniram-se na idéa grandiosa de solemnes exequias por alma do morgado de Serpins. O presidente da camara, homem circumspecto e idoso, foi encarregado de levar este projecto ao regozijo funebre do dr. Gama, que se mostrou sensivel a taes provas de affecto, confessando:

—É bem certo que a virtude sempre terá o condigno premio, digam o que disserem scepticos e maldizentes!

O presidente ponderou:

—Muito esperavamos d'este querido conterraneo. Ainda ha bem pouco tinha promettido auxiliar-me n'uma empreza difficil. Ha aqui uma rua que é a grande arteria da nossa circulação. Estreita n'um ponto, para se alargar é necessario demolir um pequeno predio, que pertencia ao senhor seu tio e presentemente a v. s.ª pertence. Promettera me elle que essa expropriação seria gratuita e a camara da minha presidencia, para perpetuar tão valioso feito, tinha resolvido dar á arteria em questão, que será no futuro uma especie de avenida, o nome do doador. A Providencia mandou outra coisa e agora é o nome de v. s.ª que está na nossa ideia...

—Isso não! o nome d'elle é que será perpetuado! Se meu generoso tio, a cuja memoria tanto devo, havia decidido concorrer para essa obra pela fórma que me diz, não serei eu que deixe de completar o seu pensamento. Preciso, porém, lêr os seus livros e papeis secretos, para conhecer os precisos termos em que esse tio patriota desejava fazer a cedencia. Todo o meu empenho é cumprir á risca a sua vontade... para mim sagrada e para todos saudosa!

—Modo de pensar e proceder verdadeiramente fidalgo! Receio, porém, que o senhor morgado não tenha deixado escripto... que...

—Tudo escrevia. Durante mais de vinte annos eu conhecio-o no intimo. Era um verdadeiro litterato, para a familia. Eu tenho quasi a certeza, ia-o mesmo jurar sobre umas Horas, se necessario fosse, que meu chorado tio deixou alguma cousa a esse respeito... Escrevia tudo, mesmo tudo, não imagina! Ando em busca das suas memorias e vontades e hei de encontral-as. Já mesmo alguma coisa encontrei—o rol das suas rendas em divida. Escrevia tudo, creia...

* * * * *

O dr. Gama agradecera individualmente as homenagens prestadas ao nome do seu antecessor. Exequias magnificas; concorrencia de todo o clero do concelho; missa a tres padres; no côro rabecas, clarinetes e flauta; um sermão do afamado padre Carapeta, exalçando por ahi além as virtudes do fallecido!...

Um poeta de veia funebre escreveu uma elegia que foi impressa e divulgada. Um tabellião e o escrevente da fazenda organisaram correspondencias para os jornaes do Porto, avultando os factos. N'uma terra pequena não se podia fazer mais e o juiz de direito, homem entendido, affirmou que nas grandes se não faria melhor.