A nossa Gente

Part 7

Chapter 73,891 wordsPublic domain

Nos primeiros tempos d'ausencia, receberam frequentes cartas repassadas de affecto e saudade, ás vezes com signaes de lagrimas que ennodoavam o papel a ponto de se tornarem inintelligiveis algumas palavras. Porém, passados tres annos, a correspondencia cessou quasi de repente e espalhou-se o boato de que Luiz morrera, sendo depois isto desmentido por outros dizeres, egualmente sem base. N'estas alternativas, de luto e contentamento, passaram-se os dias longos e as noites infinitas, limitando-se os dois paes a reverem-se no seu passado, modesto e feliz, acreditando Miguel na eterna formosura de Luiza e esta no garbo e valentia perpetua de Miguel. Até que um dia chegou esse bom mensageiro, que lhes trouxe os meios para reformarem a moradia e comprarem as terras, e com este facto lhes voltou a esperança, sempre risonha e carinhosa, de que seu filho havia de chegar em breve. Além das palavras de bom agouro, que o desconhecido deante d'elles pronunciara, receberam, logo após, carta de Luiz, em que lhes falava com ternura do possivel regresso e insistia especialmente na velhice tranquilla e abastada que procurava garantir-lhes. Porém, depois d'este promettedor acontecimento, que lhes deu annos de prazer emquanto reedificaram a casa, levantando-lhe um andar, emquanto plantaram videiras e enfeitaram a quinta, com arvores novas e um bello muro em volta; Luiz nunca mais escreveu, estabelecendo-se completo silencio, similhante ao primeiro que parecera de morte definitiva. Fartou-se o padre Clemente Carvalhosa de lhe escrever sentidas cartas, falando de tudo quanto podia haver de mais amoravel e terno no coração: a velhice dos paes, que não poderiam aguentar-se por muitos annos; a commodidade da habitação, que elles tinham arranjado ostentosamente para o receberem; a belleza e transformação dos campos em que elle labutara e brincara quando creança. Até lembrava a recommendação, que Luiz fizera no dia da partida, para não vender a cria da Russa: a esse proposito notificava-lhe que, tanto esse animal como a mãe, haviam morrido de velhos, em grande tranquillidade e ventura; mas que na mesma côrte da residencia havia outra egua descendente da segunda, que era a estampa viva das saudosas extinctas. Nenhuma d'estas amoraveis e longas dissertações teve resposta, o coração de Luiz tinha-se de certo ressequido, pois já não vivia para tão commoventes memorias. Receberia elle as cartas? Não lhe seriam entregues por ter mudado de terra?!... É no que assentavam, afastando sempre a hypothese da morte, como castigo cruel e immerecido. Mas ao fim d'um crescido periodo de annos, sem noticias de nenhuma especie, experimentados por muitos e successivos desenganos, atormentados pelos pensamentos negros que traz a velhice, Miguel disse, um dia, em voz sumida, para não assustar a companheira:

—Talvez elle morresse... talvez....

Quem sabe?! Ha diversas maneiras de morrer. O corpo póde andar, no mundo, aos solavancos e encontrões, e ter desapparecido a vida com a alegria da alma. N'este domingo de março soalheiro, os dois velhos estavam á porta de sua casa, serenos e meditativos, mas conformados; foi o bom cura que lhes veiu incautamente turvar o coração, recordando-lhes o filho morto, ou eternamente desapparecido, o que para elles valia o mesmo. E quando ambos retomavam a tranquillidade em que estavam antes da chegada do sacerdote, ficando mudos, com os pés extendidos ao sol e a cabeça resguardada para que o calor os não adoecesse, sentiram passos no caminho que bordeja a quinta e viram que um estrangeiro se encaminhava para elles. Quem seria? Era um homem andrajoso, qualquer viajante pobre em caminhada para longe. O seu aspecto de miseria commovia... Trazia as botas cambadas, a camisa suja, as calças roidas; n'um saquito enfiado n'um pau, levava ás costas, toda a sua riqueza. Que ar esmorecido e doente! que longa barba mal tratada! como vinha dorido dos pés! Ao approximar-se da cancella, que dava ingresso no quinteiro, parou saudando com o chapeu esburacado. Miguel, com vista mais fraca do que Luiza, perguntou a esta:

—O que é?

O recemchegado é que respondeu em voz de cançado:

—Um pobre viandante que pede uma sede de agua. Dão-m'a senhores?

A velha disse com expressão de carinho:

—Entre, faz favor?... Quanta agua quizer!...

Não mostrou medo, nem repellencia, nem suspeitas d'aquelle homem roto, que podia ser um ladrão assassino. Foi ella mesma que veiu levantar a caravelha da cancella, para que elle entrasse, pois que o via sem forças para tão pouco... Conhecia-se que estava enfraquecido pela fome e pela longa jornada. Quem seria este misero de aspecto tão soffredor? Algum d'esses infelizes que vivem afastados durante muitos annos de todas as affeições e carinhos, e voltam ao seu lar depois de longa e dolorosa penitencia. O recem-vindo sentou-se n'uma tosca pedra que estava perto de Miguel, pousando ao lado o pobre saquito, que era a sua riqueza. O penoso suspiro que do peito lhe sahiu ao descançar, condensava, de certo, uma vida aspera de soffrimento e exprimia talvez o desejo d'um periodo de socego, ainda que fosse na sepultura. Quando Luiza veiu de dentro de casa, com a malga, branca de jaspe, cheia d'agua limpida e fresca, elle tomou-a nas duas mãos, emborcou-a com satisfação, tendo no fim de beber um respirar de saciedade. Os seus olhos amortecidos pela desgraça, tiveram brilho carinhoso e contente ao restituir a malga. Agradeceu este favor com um sentimento que lhe veiu do fundo d'alma:

—Deus-lh'o pague!—disse.

Conservou-se silencioso durante muito tempo, a cabeça curvada para o peito, como um vagabundo que na alma procurasse o seu destino. Os dois velhos contemplavam-no compadecidos: nos seus corações amoraveis e bons apparecera um sentimento de infinda piedade. Não tinham elles tambem um filho, que assim andava perdido no mundo, vagueando por longes terras? O bem que elles, a este desconhecido, podessem fazer, outrem, no ponto distante onde estivesse Luiz, o retribuiria, soccorrendo-o se elle necessitasse. Com o instincto dos que são captivos do infortunio alheio, advinhavam que junto d'elles estava um infeliz precocemente avelhentado. Não procuravam, com perguntas desnecessarias, perturbar-lhe a paz que elle parecia ter encontrado sentando-se n'aquella pedra, a olhar meditativamente o chão do quinteiro. Adivinhavam-lhe, pelo aspecto, soffrimento que na sua vida obscura e modesta, elles nunca tinham sentido. Por esse mundo fóra, as desgraças engrossam, ás vezes, tão rapidamente, como o ribeiro que passa no fundo da aldeia, quando recebe as torrentes pluviaes, vindas a roncar pelas encostas e pelos caminhos. Que significaria o silencio dolorido d'este desgraçado, que nos restos do seu vestuario deixava perceber signaes de que no mundo tinha sido alguma coisa mais do que aquillo que ora apparentava?!...

O viandante levantou lentamente a cabeça. Primeiro fixou a vista agradecida, amoravel e sem reservas nos que lhe tinham morto a sêde. Apesar da estranheza d'aquelle semblante, não causou aos dois velhos impressão, de que fosse o de algum doido que andasse desgarrado pelos caminhos da aldeia. O seu olhar era absorto, mas tranquillo e bondoso. Ainda que estranho ali, não lhes causava receio, nem pavor. Ao contrario: do imo da sua sensibilidade subia-lhes, a favor do misero, um formoso grito de benevolencia e compaixão. Aquella testa sulcada pela desventura, o rosto macerado pela desgraça, dizia alguma coisa de pacifico e sublime, como a luz sahindo de entre nuvens caliginosas no meio de rude tempestade. Os dois septuagenarios reconheciam que a apparição de tal infortunio estava tomando sympathico logar na sua pacifica existencia... «Este desconhecido —pensavam—ainda que em qualquer tempo de sua vida, tenha sido mau e perverso, agora só parece ser desventurado!» Isto originara-lhes no seio a mesma piedade que sentiriam se áquella casa se viesse recolher um lobo ferido, ou mesmo, se um abutre lhes cahisse exanime junto da capoeira de que fôra o flagello. Esses animaes, tantas vezes escorraçados com alaridos de colera, teriam elles animo de os acabar, quando os reconhecessem indefezos e supplicantes nas vascas da morte?! Não: o findar da vida merece sempre compaixão; a desgraça redime de todas as culpas perante os corações bons e sensiveis.

V

Mas este pobresinho não era perigoso e não poderia nunca ter sido perverso: tamanha era a uncção maguada e soffredora que exprimia o seu rosto retalhado pelas rugas, o seu olhar extincto pela longa miseria! Havia n'elle tanta meiguice e affecto que só lhes provocava misericordia e caridade. Se o pedisse não lhe recusariam agasalho em sua casa. Que valia um logar junto da lareira, uma manta para cobrir os lassos membros sobre um pouco de colmo, uma tigella de caldo para aconchegar e fortalecer o estomago? De mais tinham elles, sem pessoa a quem o legassem. Uma obra de misericordia, offerecida por intenção d'aquelle que lhes dera o bem-estar de que gosavam, era acto meritorio que lhes consolaria o espirito e teria certo apreço perante Deus. Uma voz interior affirmava-lhes que ali estava um infeliz digno de piedade: e sem muito saberem porque, ia-lhes dispertando sympathia o sorriso lento que na sua expressão se abria, á maneira que contemplava os dois velhos, que examinava a casa toda caiada de fresco, a latada que cobria o quinteiro, e o saudavel aspecto dos campos da propriedade em redor. A horta, ali mesmo ao lado, estava opulenta de couves e grellos; as borbulhas das videiras principiavam a engrossar; a temperatura era tepida e carinhosa; o misero parecia respirar, n'este ar, felicidade nova e paradisiaca. Similhava um cego, desde muito privado do goso da vista, que readquirindo-a de surpreza, entrasse gradualmente n'um periodo de enthusiasmo lento; ou então, o homem que recolhido, por longos annos, em lugubre masmorra, fosse restituido á liberdade e á luz durante um somno, achando-se incredulo pela ventura reconquistada.

Este silencio demorado, e o demorado exame que o estranho estava fazendo de tudo quanto em volta se via, principiava a enredar em pensamentos vagos Luiza e Miguel. Primeiro passeara em volta com os olhos do corpo; mas depois, uma alegria crescente, lhe fôra desabrochando no rosto escalavrado, a custo, como rebenta a bonina em terreno duro. Os velhos, apesar de suggestionados por aquelle todo de bondade e infortunio, houve um instante em que na mente lhes passaram receios, julgando-se agora na presença d'um louco. Pois que podia significar esta mudez, quasi familiar, da parte de quem ali era estranho e entrara sob pretexto de pedir uma sêde d'agua? Não se atreviam a interrogal-o, pois grande é a timidez da decrepitude. Annos antes já tudo estaria aclarado: pois que Miguel sempre fôra homem de grande desembaraço e não teria papas na lingua para perguntar quem era e o que queria do mais. Agora, porem, a edade e o corpo paralytico influiam no acanhamento do animo. Os septuagenarios entreolharam-se, volvendo ambos, depois, a vista para o peregrino ao qual Luiza disse:

—Parece gostar muito d'este sitio...

—Oh! muito!—exclamou. Tudo isto lhes pertence?

Circumdou de novo o olhar pelo eido e pelos campos, extendendo-o até ao pinhal que se erguia n'uma ligeira collina.

—Em quanto Deus quizer—respondeu Miguel. E vocemecê d'onde é? para onde vae?

O desconhecido teve no rosto uma expressão de infinita paz e tranquilidade, que não deu idéa clara do seu pensar e destino. Sorria ligeiramente, com a incomparavel doçura d'uma creança a sonhar. Olhou os dois como se olham amigos e, Miguel, animado por esta expressão confortativa, ponderou:

—Sim; porque vocemecê ha de ter por força uma terra...

—Tenho, tenho uma terra...

E ficou attento para o chão inculto do quinteiro, como se sentisse difficuldade em designar o ponto do globo, onde essa terra se talhava.

Recahiu no silencio carinhoso que até ali conservara, mas com rosto tão aberto em bondade que, de todo, deixou de causar receios. Examinou a limpeza da casa em que os velhos moravam, e pensou na conformidade de existencia que dentro d'ella se passaria. Reinava, decerto, n'aquelles entes, a feliz paz da consciencia; desconheciam as perturbações agitadas da vida das cidades. Não pensavam em alardes, nem tinham ambições: talvez durante todos os seus annos, nem uma só noite tivessem abandonado aquella ditosa morada. Quem sabe o que o estrangeiro estaria calculando na sua mente, que pensamentos de felicidade o estariam a encantar!?... Talvez, depois de vida desventurosa, viesse encontrar n'aquelle quadro simples o primeiro refrigerio para as suas dores, a primeira idéa clara do que é a ventura. Os pacificos septuagenarios, pareciam comprehender, que o seu viver ditoso estava reconfortando a alma do misero que tinham na sua presença. Além de não ser rasoavel negarem-lhe um tal balsamo, encantava-os que assim fosse. Por isso, orgulhosos da sua modestia, deixavam que o homem andrajoso tudo apreciasse, sorridente e sem inveja. A casa juncto da qual se encontravam tinha aspecto de nova, as janellas com vidraças viam sobre a latada do quinteiro, o alpendre, debaixo da varanda deitava para o lado do caminho, uma escada exterior mostrava ingresso ao andar de cima—accrescente feito para a chegada de Luiz, se a Deus prouvera, guial-o um dia para ali. Como fossem inimigos de grandezas, apesar da casa assim reformada, nunca abandonaram a parte terrea conservando ahi a sua moradia. A cosinha, á porta da qual estavam, era a mesma em que viveram com os filhos; ao lado havia o quarto soalhado em que dormiam agora, como sempre. As transformações n'este pavimento consistiam em que o que d'antes fôra côrte de gado servia agora para adega, salgadeira e casa de recolher a lenha no inverno. Ao fundo d'um telheiro, armado cá fóra, é que guardavam as duas juntas de nedios bois, os mais bellos do logar. O chiqueiro do porco e a capoeira das gallinhas ficavam encostados ao muro, rente com a casa. Tudo designava certo bem estar, conforto, e até opulencia, dentro da modestia de camponezes.

Para onde iria o infeliz, que tinham deante dos olhos não o sabiam, visto que elle o não quizera dizer; mas o que sentiam, com a intuição das almas simples, pouco habituadas a luctas, é que sendo a sua figura, quando o viram entrar a cancella, a d'um infeliz retorcido pela miseria, agora, ao fim de pouco tempo, e depois de reconfortado na contemplação de todas aquellas coisas bem arranjadas, parecia mais alliviado do soffrimento que lhe alquebrava o corpo e a alma. Era outro, tinha-lhe feito bem o repouso sobre a tosca pedra, refrigerara-o a malga de agua limpida, consolara-o o aspecto feliz dos velhos que estavam ao sol, esperando, n'este santo domingo, a hora do jantar parcimonioso, apesar de na panella haver carne e salpicão que elles ambos comeriam regalados, agradecendo a Deus tamanho beneficio na velhice. Ao quinteiro chegava o suave odor do caldo gordo e fumegante, e não tardaria que Luiza se levantasse para ir á adega buscar o excellente vinho, para o beber de parceria com o seu homem e pela mesma infusa. Como elles seriam felizes, se n'esse bello e glorioso dia podessem compartilhar com o seu Luiz, que uma voz intima lhes dizia ainda viver, este bom jantar! Se tal felicidade lhes fosse dado poderem gozar morreriam contentes, não duvidando de que iriam direitinhos para o céu!

VI

O descanço sobre a pedra tosca; o sabor da agua com que o tinham alliviado da sede do caminho; o banho de luz e tranquilidade em que todo o seu ser se mergulhara durante longos minutos; e principalmente a ventura que adivinhava na existencia sempre egual d'aquelles casados de tantos annos, haviam transformado em pouco tempo o aspecto do infeliz. Sorvia deleitado o ar que aqui se respirava, sorriam-lhe os olhos na contemplação d'esta paizagem carinhosa e melancolica, desfaziam-se-lhe as rugas da face ao renascer-lhe na alma a alegria que, por certo, n'elle se finara havia muito. Como Miguel o visse mais tractavel e familiar no aspecto, ponderou:

—Vocemecê estava tão moido, que decerto vem de muitissimo longe.

—Oh! de muitissimo longe!...—repetiu o forasteiro com accento de grande amargura.

—Talvez d'essa Lisboa!...—entendeu o paralytico.

—Muito mais para lá!...

E fez um gesto largo, d'uma amplidão infinita, acompanhando-o com um olhar que fôra até aos confins do mundo.

—Do Brazil?—indagou Luiza com ancia e soffreguidão no rosto inquieto.

Um simples aceno affirmativo de cabeça, deu resposta á pergunta. E logo os rostos dos dois septuagenarios se alegraram, como se em crepusculo matinal vissem surgir d'entre as penedias o sol nascente. Ao mesmo tempo tiveram a mesma lembrança. «Quem sabe se este desconhecido nos poderá dar noticias do nosso Luiz?!...»—pensaram. Porém, antes de o inquirirem, sustiveram-se n'este pensamento triste: «Como se pode voltar do paiz do oiro, da opulencia e da ventura, assim pobre, mal trajado e n'um aspecto tão miseravel e desvalido!» E Luiza, compadecida, considerou com as lagrimas a rebentarem-lhe:

—Então é que não foi feliz, por lá... Nem todos o podem ser...

—Nem todos... nem todos...—disse o estrangeiro, apparecendo-lhe no rosto um fulgor de alegria velada por amargura.

—E conheceria por lá o nosso filho?...—perguntou a velha.

—O seu filho! Tem um filho no Brazil?—indagou, o mal trajado, n'uma voz que se esforçava por ser corajosa e serena.

—Temos—esclareceu Miguel inclinando-se para o interlocutor. Chama-se Luiz da Silva; mas lá puzeram-lhe o nome de Luiz da Tóca, por ser o nome d'este logar em que nasceu. Foi e nunca mais voltou—concluiu o velho, por sua vez, com os olhos rasos d'agua.

Um rubor de incendio subiu á face do desconhecido, que com fingido esforço, como de quem se recorda disse:

—Luiz da Tóca... Luiz da Tóca... Lembro-me muito bem; vivi muito com elle, e somos amigos.

No primeiro momento, os velhos quasi se julgaram ludibriados com esta resposta: tão grande era a inverosimilhança do que escutavam! Pois não haviam dado resultado as instantes e repetidas diligencias do cura Carvalhosa, para descobrir o paradeiro de Luiz, e o acaso trazia-lhes ao pé da porta uma testemunha, que em tudo os podia esclarecer! Porém, a crença de seus corações n'uma Suprema Vontade, providencial e divina, era forte, e não duvidaram de que Deus e os santos com quem se tinham apegado, pudessem mais do que o virtuoso sacerdote. O accento de sinceridade com que aquellas palavras foram ditas, a expressão de bondade e espontanea satisfação do rosto do homem que tinham deante d'elles, excluiam a possibilidade de qualquer ignobil mentira. O velho Miguel, apesar de meio paralytico, logo se abordoou ao seu pau, para erguer o corpo doente, com a energia dos antigos tempos; mas a commoção tornava-lhe insufficiente o esforço. Mesmo sentado ainda poude dizer:

—Pois, o senhor, é que já não sae d'esta casa. Se conhece o Luiz, se é seu amigo, fica aqui comnosco para nos ajudar a saber d'elle e a encontral-o.

Luiza, apesar de a lingua se lhe recusar a exprimir tudo quanto lhe ia na alma, attonita como estava, perguntou em voz tremula:

—E em que terra encontrou vocemecê o nosso filho? Sabe onde estará agora?

O estranho não respondeu logo. A sua phisionomia denunciava excepcional perturbação de contentamento, que os velhos não podiam apreciar por causa da nevoa de lagrimas que tinham nos olhos. Approximando-se, porem, dos dois, que uniu no mesmo abraço, disse soluçante:

—Seu filho está aqui, meus queridos paes!...

E passada que foi a primeira onda de alegria accrescentou:

—Mas venho muito pobre! Só possuo estes farrapos que me cobrem. Se soubessem quanto tenho soffrido!

—Pobre!—bradou Miguel com a sua antiga energia, sahindo-lhe a voz do peito, como o ronco d'um trovão do interior d'uma nuvem. Então de quem é tudo quanto aqui temos? Não fostes tu que o ganhastes, homem!?

E n'um gesto do seu braço revigorado pelo acontecimento, mostrava a riqueza que havia: a casa afidalgada, a horta abundante, os campos relvados que se extendiam para além, as videiras em promessas de rebentação, e o bello muro que circumdava a quinta todo caiado de novo.

Luiza, voltando os olhos ao céu, pronunciou com as lagrimas a correrem-lhe em fio:

—Nossa Senhora do Amparo ouviu as minhas rezas. Já podemos morrer em paz.

CRESCE O MAR!...

(a Antonio Candido).

Tarde calma e deleitosa! bella tarde de outono! Azul amortecido no ceu e a briza leve como o pensamento a perpassar na superficie da areia e a arripiar-se nas penedias que debruam a praia. Baixamar socegado! Balançam-se nos ares as brancas azas das gaivotas, que vão para o norte; e as velas dos barcos dos pescadores parecem ao longe outras gaivotas a emergir das aguas. Está deserto o areal; principia a nascer o marulho do vago infinito, que vem rolando á superficie como voz cariciosa e meiga. Avoluma-se de momento para momento, uiva, no começo como um leão pequeno, principia a dar côr ao silencio, que desce com a tarde lá do infinito céu. O magestoso sol fulgura, inclinando o facho de luz sobre as aguas; a poeira d'oiro que o cerca, forma-lhe a fofa cama, onde repousará durante a noite.

Tarde calma e deleitosa! bella tarde de outono, que, gerando sensações amoraveis em toda a natureza, attrahiu duas tenras creanças á admiração do mar argentado, e do mysterio formado de tranquillidade e luz, que no ar pairava. Eram dois irmãos, filhos de uma viuva, cujo marido o mar escondera para não mais lh'o restituir, e que morava em frente das ondas, na esperança de ainda ouvir a voz que a enamorara. O rapasito teria sete annos, e a pequena talvez cinco... não mais de certo. Enlevados na serena paz do universo, os leves corações palpitando de satisfação intima, viviam juntos nas sublimes regiões do absoluto, os innocentes, olhos pregados no reverbero prateado das aguas, os ouvidos attentos ao marulho cantante que os chamava como se fôra a voz de seu pae. Não era a primeira vez que na praia se encontravam escutando aquella voz suave, d'um rythmo dominante pela dolencia; e até já em muitas occasiões, a carinhosa mãe os prevenira contra as incontestaveis maldades, que as ondas encerram. Porem todo esse pavor artificial se tinha apagado na convivencia do mar, essas ondas que de longe vinham crescendo em ameaças, desfaziam-se impotentes contra as penedias dentadas da praia e a espuma branca e leve, como uma illusão, vinha-lhes lamber a elles, humildemente, os pequeninos pés enterrados na areia.

N'essa tarde calma e deleitosa, emquanto a mãe se demorava na sua labuta de camponeza, Tone e a Zefa, contemplavam o mar, o pavoroso mar que lhes prendera o pae, e reconheciam n'aquella tranquillidade bondosa um amigo que lhes sorria para os namorar. Mostrava-se carinhoso e terno, as aguas claras deixavam vêr no fundo branco as mais bellas das suas joias: seixos semelhantes a ovos de pomba; pequeninas conchas vazias e cavas, como petalas de rosas; algas multicores e rendilhadas; molluscos boiando agarrados ao musgo das penedias uns, outros presos á pedra formando com ella um só corpo inabalavel e insensivel. O anteparo dos rochedos negros, que elles costumavam respeitar nos dias de nevoeiro como phantasmas que se erguessem do abysmo, e que nas noites tempestuosas ali permaneciam afrontando impavidamente o perigo, n'este dia e n'esta tarde calma e deleitosa, eram serenos e fortes arrimos que os defenderiam contra as ciladas das ondas. As repetidas provas que tinham da sua estabilidade e solidez afoutavam-nos a consideral-os como protectores devotados. Pois não era instavel a luz que desapparecia, o céu que desmaiava, as aguas que se remechiam, a movediça areia que cedia ao peso dos seus pequeninos pés? Era. Só a rocha, a rocha escura e aspera, lhes merecia confiança; só ella reconheciam como bastante forte para resistir ao mar e á furia das tempestades. Para aquellas consciencias nascentes e timidas as pedras feias eram arrimo unico e protecção contra os receios escondidos nas palavras de sua mãe, que sempre procurara inimisal-os contra o mar.