A nossa Gente

Part 6

Chapter 63,947 wordsPublic domain

As creanças identificadas com aquelle soffrer incomparavel, gritavam inutilmente! Quem as ouviria? O logar ficava longe, a sua casa distante, a magestosa garganta da tempestade engulia-lhes a voz.

Talvez o velho cabreiro esperasse a primeira aberta para lhes vir em auxilio!... Unica e misera esperança!...

Os enxurros desciam ovantes em catadupas pelas gargantas dos montes: os caminhos eram ribeiros, nas fundas corgas sussurravam as aguas como grandes rios, a ira do céu parecia crescer a todos os momentos.

—Chamae gente!... Chamae gente!...—repetia o fidalgo com o corpo de Mary estreitamente abraçado, exprimindo no semblante a maior dôr que no mundo possa existir.

Clamavam as creanças com maior desespero e força; porem as suas vozes perdiam-se no infinito espaço. Um instante houve em que esses gritos foram triumphaes, como se um soccorro afortunado viesse espavorir a desgraça.

—Pae!... Pae!...—exclamaram com alvoroço.

Era o robusto montanhez que despresando perigos, subia em corrida a encosta, para proteger os filhos, e livrar o rebanho das correntes impetuosas.

Ao deparar com a scena horrivel que os pequenos lhe apontavam, como produzida pelo fogo sinistro do raio, a sua mudez e espanto eram formidaveis. Obedeceu como automato aos monossylabos de D. Francisco, ageitando-lhe o cavallo para elle montar.

E emquanto montava, as suas rudes mãos e os braços negros de rachador, sustentaram por instantes o franzino e gracioso corpo de Mary, para o entregar ao velho, que o recebeu com sofreguidão e ainda com esperança!...

* * * * *

D. Francisco voltou n'um galope desesperado, a filha amantissima achegada ao seio caloroso. A sua ideia era alcançar em minutos o portal da querida habitação, mandar uma legião de criados á procura de soccorros que lhe restituissem Mary. Joe parecia identificado com a grandiosa tragedia que se passava na alma de seu dono! Era uma corrida de phantasma, atravez dos espaços do primitivo cahos! Um homem robusto, ainda que velho, cabello e barba sujeitos ao vento, despresando chuva, trovões e relampagos, galopando furiosamente com o corpo de uma donzella estreitado nos braços, era o que viam passar attonitos os raros viandantes. Paravam tranzidos de espanto, ninguem se oppunha a esta marcha do desespero, e só exclamações se ouviam:

—É o fidalgo!... É o fidalgo!...

Joe sentindo a força da alma lugubre que o guiava, vencia caminhos, voltava com lucidez, transpunha ribeiros aos saltos. O inconsolavel pae, ainda na crença de que d'aquelle deliquio Mary poderia acordar, animava-lhe com monossylabos energicos a vertiginosa carreira, na direcção da antiga morada de seus maiores. Ali chegou finalmente com o espolio querido. Portal largamente aberto, porque de longe os criados já tinham notado a infernal corrida. O corpo exanime de Mary foi estendido sobre a sua cama de donzella, e logo veio o medico que a olhou com aspecto dolorido de desanimo!...

Ali estava como n'um leito de morta: a face pallida; os braços molles; o corpo exhausto, acceitando passivamente todos os impulsos. Não respirava, não lhe batia o coração, não lhe foi encontrado o pulso. Era desgraça irreparavel, todas as tentativas seriam infructiferas! Para que haviam de enfermeiras conspurcar aquelle corpo gracil, se Mary estava morta, definitivamente morta?! Um raio do céu fulminára a formosa donzella, flexivel como um vidoeiro novo, candida como o lyrio, risonha como um cravo! O medico que a vira nascer, e lhe queria como a propria filha, agarrou-se a D. Francisco, chorando, chorando, sem poder falar!

É que Mary já não existia, o pavoroso raio consumira no seu fogo aquella rosea existencia! Nunca mais aquelle coração palpitaria de amor, nunca mais os seus dedos sublimes acordariam sons de musica religiosa no orgão antigo, nunca mais aquella voz clara como um veio d'agua pura, se levantaria em preces fervorosas.

D. Francisco não lhe tornaria a ouvir dizer: «Meu pae! meu pae!» Mary estava morta, definitivamente morta, fulminara-a a colera das nuvens!...

VOLTOU...

I

Bons velhinhos os que moram n'aquella casa! N'este domingo sereno de março, lá se veem sentados á porta, com o sorriso dos modestos e felizes a florir-lhes no rosto; tem as cabeças protegidas contra o mal da soalheira e os pés, fóra dos tamancos, para os aquecerem. A veiga, onde pastam bois, é tranquilla; a subida da encosta, onde rebentam urzes e codeçaes, está vistosa. Aquelles bons companheiros, casados ha cerca de cincoenta annos, tem um para o outro o mesmo olhar confortativo e amoroso do tempo de moços. Miguel conserva impressa na retina a imagem de quando Luiza era nova: não lhe percebera o nascer das rugas; nem o desmaiar da pelle; nem a queda dos dentes, que no riso ainda lhe appareciam como uma fiada branca e egual de rosario de pinhões. Os cabellos (talvez pela vista enfraquecida) eram as mesmas longas tranças, negras e colleantes, como lampreias no fundo de rio arenoso. O corpo de sua mulher mantivera para elle, sempre, a mesma puresa de linhas—consolidara-se na graça e gentilesa da juventude, não o tinham abandonado os elementos de frescura e mocidade.

De egual modo, Luiza, via seu marido. Quem estava ali, a seu lado, com os joelhos ao sol e o lenço de Alcobaça na cabeça, era o mesmo rapaz valente, trabalhador e sadio, ligeiro como um lobo, que a namorara quando ella tinha vinte annos. Nem as molhadellas lhe tinham engrossado as articulações com o rheumatismo, nem as barbas e cabellos eram da brancura de linho sedoso, mas acastanhados e lustrosos como outr'ora. Não tivera a edade poder para lhe diminuir a vista: logo que o emperramento das pernas passasse, vel-o-hiam como o primeiro malho nas eiras, a primeira enxada no morder da terra, a melhor roçadoura para derrubar silvedos. Ella que o amparava da cama até a lareira e da lareira até ao sol, vivia na fé de que o seu Miguel tornaria a ser o mais celere e desembaraçado homem de todas as redondesas para atracar um touro que fugisse em descampado, para vencer, d'um pulo, o ribeiro da freguezia, para pôr em debandada uma feira de troquilhas bulhentos. Não o vira ella ludibriar magotes de adversarios, ora afastando-os para longe com um talho de varrer, ora safando-se-lhes com um salto, para fóra da muralha da gente com que o cercavam? Assim mesmo, meio entrevado, ainda se não poderiam chegar a elle, nem tres, nem quatro pimpões, se Miguel tivesse nas unhas o seu pau de carvalho e estivesse bem encostado a uma parede para só poderem atacal-o de frente. Experimentassem, querendo, e ver-se-hia se ella não dizia a verdade.

* * * * *

Á porta da casa estavam ambos silenciosos, n'esse secreto e intimo goso d'uma perpetua conformidade moral, imaginando-se na força do sentir e sem recearem a morte que podia separal-os, levando um e deixando o outro a vaguear no mundo, n'uma existencia de lamentos e saudades. Não pensavam n'este horror, visto que no céu havia um Deus, justo e bom, que não permittiria tal iniquidade. D'aquella somnolencia feliz, despertou-os o padre Clemente Carvalhosa, que ora vinha pelo estreito caminho rente á casa de Miguel.

—É o senhor cura—disse Luiza, falando como se só comsigo falasse.

—Ah! hoje demorou-se mais. É que os rapazes não sabiam a doutrina. Calaceiros!...—pronunciou o velho, sem levantar os olhos dos joelhos.

O sacerdote adeantava-se com o seu habitual ar benevolente. A batina ecclesiastica dava-lhe solemnidade ao parecer, e só o passo energico era signal de que não vinha em boa disposição de espirito. Luiza, logo que o viu á voz, levantou-se para o saudar; Miguel que tinha, ao lado o pau a que se amparava, ia a fazer o primeiro esforço para se erguer, quando o cura, já com a mão na cancella para entrar, disse alto:

—Eh! lá! Para doentes não ha ceremonias!...

—Muito bom dia, senhor. Hoje mais tardinho. Os rapazes não a sabiam, está de vêr...

—É verdade—informou o Carvalhosa com voz irritada. Talvez peior que no domingo passado e estamos no fim da quaresma.

—Uma palmatoria senhor! Olhe que isso não vae sem lhes doer.

—E é que o faço!—asseverou com energia o ecclesiastico. Se me obrigarem a sahir de mim, irá o diabo n'aquella sachristia.

—Vossa Senhoria não é capaz d'isso...—opinou ironicamente Luiza.

—Não sou capaz!? Estás enganadissima! É que vocês nunca me viram pelo lado do forro. Se me volto do avêsso, vae ahi o dia de juizo.

Miguel offerecendo-lhe o bordão de paralytico aconselhou:

—Com este é que elles se ensinavam. Já lá andam taludos, dos que não vão a palmatoria.

—É o que elles mereciam, é—applaudiu Luiza.

—Isso tambem não, mulher!—entendeu o cura. Um pau molesta de mais, pode fazer sangue ou quebrar algum osso. É bastante uma palmatoria puchada com valentia, como eu o sei fazer. Mando logo chamar o Corcunda para lh'a encommendar. Deixa que se elles virem, pendurada na sachristia, a santa Luzia de cinco olhos, não tornam a apparecer sem trazerem o recado na ponta da lingua.

—Vossa Senhoria—commentou o Miguel—para essas coisas de bater... O senhor abbade, quando por ahi vinha, sabia-os tosar melhor, se os garotaços faltavam á obrigação...

O Carvalhosa retomou a sua energia:

—Estás parvo, homem! A questão é fazerem-me chegar a mostarda ao nariz. Mas vamos ao que serve—disse mudando de tom.—Do vosso Luiz, não tem havido noticia nenhuma... nenhuma?...

—Nenhuma... nenhuma...—responderam os dois n'um unisono triste.

—E tendes perguntado?

—Se temos!—disse Miguel. Sempre que sei de alguem que chega do Brazil, se as dores das juntas me dão licença, lá vou ter com essa pessoa... Mas até agora nada, nada!...

Luiza commentou chorosa:

—São terras onde ha animaes que comem gente!... Quem sabe se alguma serpente me deu cabo d'elle...

—É celebre!—entendeu o cura. Eu tambem tenho feito esforços para saber noticias, mas tudo em vão!... É celebre! Pois ainda ha dez annos vos mandou o dinheiro com que arranjastes esta casa e comprastes os bens por ahi abaixo e não torna a dar accordo de si! É celebre! muito celebre! Quem será o ladrão que disfruta, a esta hora, o que elle tanto lhe custaria a ganhar! Sim, porque elle fortuna havia de ter ganho!

—Isso é o que menos importa—interferiu Luiza. Aqui ha que farte para elle e para nós. O que queriamos era vel-o vivo e são.

—Pois apega-te com Nossa Senhora da Boa Viagem, que ella t'o trará. Eu vou-me até casa que são horas de minha irmã ter o caldo na tigella. Adeus e devoção, Luiza.

—Ah! isso tenho eu, senhor! Promessas e resas olhe que as faço todos os dias.

II

Havia muitas pessoas na freguezia que se lembravam da partida do filho do Miguel. Era um rapasinho carinhoso, serviçal e bem comportado. Delgado de corpo, tez morena, sorriso sempre conformado, fazia gosto vel-o ajudar á missa; porque procedia com grande promptidão e esmero. No caracter era a mãe, sempre boa e humilde; no desembaraço o pae, sempre agil e resolvido. De quatorze annos não havia, por ali, outro para mandar á villa n'uma pressa de chamar o medico ou buscar um remedio. Quer fosse de dia ou de noite, quer os caminhos estivessem cheios de neve ou de lama, o Luiz nunca se escusava, nunca procurou uma desculpa. Nem o medo do lobo, nem o das trovoadas o impedia de ser prestimoso. Miguel todo se ufanava com este brio do rapaz, e com a atmosphera de sympathia de que o via cercado. E quanto a estudo? Isso dizia o mestre que nenhum lhe levava a melhor nos desafios á taboada, e na doutrina. Até era uma pena não ser possivel ordenal-o em Braga, para um dia vir ali dizer uma missa nova, e verem-no do pulpito lançar a voz da religião. Porém, o Luiz, ainda que o podesse conseguir com esmolas, lá para essa vida de padre não o chamava a inclinação e toda a sua idéa era embarcar, para tirar seus paes da pobreza em que viviam e da labuta constante em que se amofinavam. Apesar do Brazil ser a commum ambição da gente d'aquella provincia, isto não tinha prognostico favoravel das pessoas que lhe conheciam o genio perdulario, o gosto que fazia, já em creança, em dar tudo que possuisse. Um pedaço de pão e presigo com que lhe pagassem qualquer serviço prestado, logo o repartia com os rapazes da sua egualha, ou com algum pobre que encontrasse, ou mesmo com qualquer cão esfomeado que estivesse a olhar para elle quando comia. E não era porque em casa lhe sobrasse, pois Miguel, n'esse tempo, tinha mais tres filhos vivos e era elle só a trabalhar, moirejando nas terras que são ingratas para compensar o esforço rude do homem, que só tem a sua enxada para as servir. Estava na indole de Luiz dar tudo, repartir com quem quer que fosse. O coração não lhe soffria o possuir coisa de que os outros não compartilhassem. Os unicos motivos de zanga de sua mãe para com elle, vinham de conhecer que lhe roubava pão para os pobres que passavam, quando ella não tinha bastante para si.

—Tu és tolo, rapaz!—reprehendia-o. Vês que esta fornada me não chega até á outra, e tiras-me a brôa da masseira! Olha que ainda podes andar como esses mandriões de pedintes, que só tem por seu mal, não se quererem achegar ao trabalho.

Luiz ficava triste, por, a santa creatura que era sua mãe, não comprehender o intimo goso que elle sentia em fazer bem. Amargurava-o esta idéa, pois não admittia maior consolação do que a de dar, mesmo aos que não tivessem necessidade. O rosto de agradecimento que os beneficiados faziam ao receber, era o premio unico a que aspirava. Mas havia mais alguma coisa n'este animo dadivoso: era o pouco geito de possuir em proprio, o que quer que fosse. Angustiava-o a preoccupação de guardar. Viver sempre na abstracção, na inconsciencia do que valem as coisas materiaes, era a caracteristica do seu coração. O prestar serviços sem idéa de interesse ou recompensa completava-lhe a indole bondosa. Sua mãe estava sempre a prégar-lhe:

—Nunca hasde juntar coisa que se veja. Como é que tu queres ir para o negocio com esse genio?

E porque assim o entendiam todos na freguezia e os proprios paes, é que muito os maravilhou o receberem, na pobre casita onde os dois velhos moravam e viviam sós, a visita d'um amigo de Luiz, que lhes trazia uma ordem para receberem no Porto uma grande somma de dinheiro—uma somma, para elles tamanha, que os lançava repentinamente na opulencia. Porém, Luiza, ao apparecimento d'esse senhor todo aceiado, já homem grisalho e enegrecido na pelle da face pelas soalheiras dos sertões brazilicos, não se importou nada com a riqueza que elle annunciava e tomando-o como o precursor de seu filho, logo inquiriu:

—E o senhor conhece-o, o meu Luiz? Está um homem assim alto como é o pae? E quando é que o temos a consoar com a gente?

A todas as perguntas o mensageiro respondeu de maneira a arrancar-lhe lagrimas de contentamento. Miguel que, chamado, viera offegante da labuta dos campos, perguntou, primeiro que tudo, em voz meia reprehensiva, mas cheia de coração:

—E elle não tem idéa de vêr a gente antes que nos levem para a cova? A riqueza estimamol-a muito; mas antes queremos a companhia.

O amigo de Luiz enterneceu-se com esta insistencia e consolou os paes fazendo-lhes graciosamente promessas para que não estava auctorisado. O dinheiro enviado era o melhor signal de que o filho os visitaria em breve—disse. Trazia tambem recommendação de lhes lembrar que transformassem a casa de moradia para o receberem condignamente, e de que empregassem o restante na compra de algumas terras, que lhes garantissem uma mediania repousada e sem cuidados.

—Isso—confessou Miguel—até vem a calhar, porque andam em bocca de venda estes bens aqui em redor.

Para designar a grandeza das terras estendeu pela encosta que descia brandamente até ao ribeiro, um olhar commovido, acompanhado d'um gesto de opulencia. Fôra esta a ambição de toda a sua vida. Muitas vezes, só com Luiza, quando junto da lareira comiam o magro caldo da ceia, elle reprimia o prazer que o filho lhes daria se enviasse dinheiro para comprarem aquelles campos, que toda a vida haviam cultivado como caseiros. Era o seu suor d'elles accumulado sobre a terra, que os fazia fructificar e lh'os tornava queridos, como uma parte viva e nobre da propria existencia. Possuir a bella quinta que em volta do seu pequeno eido se estendia, abrir a agua das poças com a arrogancia de proprietario, levantar as videiras com a certeza de que eram seus aquelles braços flexiveis, e ao enterrar a enxada na terra negra e humosa sentir a convicção de que remexia no que ninguem lhe podia disputar, de que preparava o solo para resultados que não partilharia com outrem, era o maior goso que a boa fortuna podia trazer a Miguel. E tamanha commoção os dois manifestaram, na sua mudez, deante do hospede, quando designaram com o olhar essas terras, que o recemchegado perguntou:

—São estes os bens que vocemecês trazem de casa?

—Sim, senhor, aquelles mesmos em que Luiz trabalhou comnosco, indo á soga dos bois, quando lavravamos. Elle falou-lhe n'isto?

A um signal affirmativo, os consortes, choraram copiosamente. Até parecia mal ver um homem sadio e forte, como era então Miguel, limpar os olhos á grosseira estopa das mangas da sua camisa e soluçar com a cara escondida. Porém aquelle contentamento era mais forte do que elle; em coração humano não presumia outro egual. Para se desculpar, perante o amigo de Luiz, ia dizendo por entre lagrimas:

—O senhor não pode comprehender o que isto é. Se soubesse o que me vae cá por dentro... Estou capaz de estoirar de alegria.

O feliz mensageiro sentia-se transitoriamente envolvido na mesma atmosphera de felicidade que respiravam os dois casados. Ligando-os a si n'um só abraço disse:

—O que desejo é que por muitos e largos annos gosem o que tanto amam, e que isto seja na companhia de seu filho, que estou certo se não demorará muito.

Depois combinou com elles a maneira de receberem o dinheiro que estava no Porto, á ordem de Miguel. Para lhes facilitar a empresa já tinha tractado da transferencia da quantia para a villa proxima, onde da mão de negociante honrado podiam recebel-a toda d'uma vez, ou parcelada, conforme melhor conviesse. N'esse mesmo dia, Miguel acompanhou o amigo de seu filho para pessoalmente ajustarem com o tal negociante o recebimento em questão.

III

Este notavel successo trouxe á memoria dos do logar o bom rapasinho que Luiz sempre fôra; como era geitoso no ajudar á missa, como, com desinteresse sympathico, se prestava a servir toda a gente. Não podia deixar de ser feliz, quem logo no começo da vida se mostrara tão diligente e bondoso. Deus, que é justo, ajuda de preferencia aquelles que o merecem, os que desde o principio se mostram attentos e respeitosos pelas coisas da religião. Entendiam-no assim e mostravam como exemplo d'isto a fortuna que acompanhara Luiz para poder alegrar a existencia de seus paes, garantindo-lhes um magnifico bem-estar, e proporcionando-lhes o goso de possuirem as terras que sempre haviam trabalhado.

A proposito recordavam o bello dia de maio em que elle partira. Muitos faziam o apparato de mencionarem meudas circumstancias, que agora representavam como se as tivessem deante dos olhos. Repetiam palavras, apontavam pessoas, e reproduziam detalhes. Que formoso sol o d'esse tempo! como elle aquecia o corpo e alegrava o espirito! O padre Clemente Carvalhosa, já então curava a freguezia e, por assim dizer, era o parocho, pois que o verdadeiro estava frequentemente em Braga, junto do senhor arcebispo de quem era amigo, e havia annos que por ali não apparecia. Como Luiz não tivesse vocação para o estado ecclesiastico, fôra o Carvalhosa quem influira para o mandarem para o Brazil, ver mundo, fazer-se homem, ganhar a riqueza com que voltasse a engrandecer a sua familia e a sua terra. Se o bom velho fosse egoista, forcejaria por conserval-o para o ajudar á missa, tratar das coisas da egreja e auxiliar o mestre escola. Mais tarde poderia mesmo conseguir-se que ficasse substituindo José Fortunato, o que era alguma coisa de representativo. Porém, reconhecendo que aquella intelligencia naturalmente viva se acanharia na estreiteza d'uma aldeia, o bom cura é que promoveu, entre a melhor gente da freguezia, uma colheita de donativos para vestirem o Luiz do Miguel e pagarem-lhe a passagem para esse Brazil, terra prodigiosa, onde o oiro rebenta das arvores com a bondade dos fructos que alimentam o homem. Sentia no fundo do seu generoso coração, que era uma boa obra a que emprehendia. Quem sabia se não estava trabalhando para o esplendor das festas da sua egreja, para reformar e accrescentar materialmente a riqueza do templo, attenta a vocação que Luiz mostrava para as coisas santas? Não seria amesquinhar as bellas promessas de caracter de rapaz tão bom, tão docil, tão intelligente, o prendel-o entre aquellas montanhas de limitado horisonte?

—Mas, senhor,—entendia a mãe—olhe que elle para conservar dinheiro não lhe serve. Quanto ganhar, quanto dá!

—Cala-te, mulher,—contestou Miguel—deixa ir o rapaz que no mundo é que elles se armam gente. Tenho-lhe amor, pois é meu filho, mas o senhor cura é que diz bem.

Aquelle que assim falara com desapego, é a quem mais custou o desprender-se de Luiz, no assignalado dia da partida, n'esse bello maio em que o sol aquecia o corpo e alegrava o espirito d'um modo differente do actual. Luiz com o seu caracter submisso ia de vontade; mas não tinha n'essa occasião, propriamente idéa de ambição ou opulencia, nenhum proposito de no futuro deslumbrar os simples da sua aldeia. Commovido e sem fala, as lagrimas rebentavam-lhe dos olhos, como pingos de seiva d'uma arvore quando chora. Se seu pae se não podia desagarrar d'elle, tambem elle se não podia desagarrar de seu pae, nem de sua mãe, nem dos rapazes que ficavam. No fundo da sua retina estampara-se indelevelmente e para sempre, toda aquella paizagem da sua alma—a modesta egreja, com o campanario exterior d'um só sino; o musgo das paredes dos caminhos estreitos; a largura dos campos onde rebentava a herva; a sobranceria dos montes altos, artilhados de penedias temerosas! Sentira que a alma, n'esse dia de sol encantador, se lhe dividira em duas partes: uma ali ficava pendurada dos galhos das arvores que se enfolhavam, dentro da pobrissima casa onde nascera, e nas encostas a escutar o gemer das fontes e dos regos d'agua; a outra, a mais dura e resistente levava-a comsigo. O cura Clemente Carvalhosa, ainda no vigor da vida e saude, abençoara-o no limitte da freguezia, até onde o acompanhara, e n'esse momento, Luiz, supplicante e com as mãos erguidas pediu-lhe:

—Quando a Russa tiver a cria, senhor, peço-lhe que a deixe crescer e que a não venda, que eu mando dinheiro para a pagar.

A Russa era a egua do cura. O rapasito tinha-lhe grande affecto, adquirido no habito de a levar a beber, e de a acompanhar quando o sacerdote ia para algum officio, no que substituira o creado Simão.

Na villa é que se apartou de sua mãe e de seu pae, pois d'ali em deante seguia na companhia d'outros emigrantes que levavam identico destino. Na volta, a excellente Luiza, veio considerando se aquella dôr que soffrera no apartamento incluiria a redempção da sua pobresa. Valeria a pena tental-a, para quem desde o nascimento fôra destinada á vida do trabalho e das privações? Quando ella o dera á luz, bem como aos outros que lhe tinham morrido de bexigas, já fôra na perspectiva de os prender á terra negra, cavando-a com a enxada, para d'ella tirarem o pão duro de que se alimentariam. Isto era a vida assente na pobreza e conformidade: o que Luiz ia buscar longe, o que seria? Com os olhos razos d'agua, a pobre mulher, só percebia o esbatido d'um mar ennevoado e sem fim, a negrura d'um mysterio lugubre que formava esse porvir incerto...

IV