A nossa Gente

Part 5

Chapter 53,753 wordsPublic domain

Chamaram o Rabicho e trataram de separar as suas cabras e ovelhas. O Russo, sob o castigo tremendo, mostrava-se submisso em todo o seu corpo. Pedia perdão, não dissera nada mau!... Se alguma palavra feia, se alguma ameaça ou jura a sua bocca cuspira, estava arrependido. Fossem com elle que tomaria conta dos rebanhos todo o dia. A comida para ali era a melhor dos sitios. Encontrava-se tojo tenro, como bicas de manteiga. A herva, apenas nascida, era a unica do appetite do gado. Havia agua corrente para os animaes e até uma fonte para a gente... Aquelle grande corpo, espadaúdo e alto, fazia-se pequeno com a humildade. Uma criança mostraria mais imponencia. As lagrimas cahiam-lhe em cachos e todo elle era uma supplica, de curvado e abatido.

A Tonia foi cruel e inflexivel. Abandonou-o, desprezou-o como um trapo. Disse que os não acompanhasse para a Ralada, que isso os obrigaria a mudar. Fez-se imperiosa. O seu corpo d'ave, esbelto e franzino, teve coleamentos de panthera. O rosto de santa transformou-se pela cólera. A chamma do olhar e os cabellos mal juntos davam-lhe o aspecto d'uma leôa. O cabreiro tremia de medo, a cabeça sobre o peito, os braços pendentes. Separaram-se. Os dois lá foram, acintosamente abraçados. O Russo, desmoronada toda a sua existencia, dirigiu-se em passo tropego, adiante do gado, para o destino da sua má sorte!...

IV

Chorou longamente o seu infortunio, p'r'áli, a cara junto á terra. Do fundo mysterioso vinham-lhe palavras infernaes, que o aconselhavam a ser feroz e deshumano. Ergueu-se tendo o coração empedernido. Os seus olhos enxutos, viram nitidamente ao longe a Tonia e o Chico enlaçados, patenteando ás aves o seu amor. Era uma visão graciosa que sahia de entre as lavaredas da colina em fogo! Á sombra da fraga, sobre a qual estava a Pedra-suspensa, os loucos tinham-se ido deitar. Elle tocava flauta, ella contemplava-o, com o fio da roca parado. Justiceira a mão, que para lá os guiou!—pensou na sua rude mente o Russo.

Desencadearam-se-lhe diante da phantasia sanguinea todas as tempestades dos seculos sem fim. Só a grande Dôr poderia burilar n'aquelle rude cerebro taes florescencias tenebrosas. O seu corpo levantou-se n'um desespero formidavel. Um violento fremito rugia no interior da montanha, chegando até ás nuvens. Era a voz torva do seu peito, a soluçar pelos reconcavos da Terra e do Céo!

Ia tombar a Pedra-suspensa—resolveu.

Os seus cabellos ruivos, atravessados pelo sol, faiscavam. Idéas de impiedade e vingança, como lh'as ensinára a religião e o ciume, fixaram-se-lhe na fronte d'um modo definitivo. A ventura e a bondade não cabiam na sua alma desgraçada, pois em volta tudo era escuridão e rancor. Nem a saudade da serra que estava a florir, nem a convivencia amoravel do gado, nem o abandono da mãe cega e pobrissima o detiveram. Não via os _outros_ abraçados n'um gozo sem limites? Palpitando d'amor á face do sol, pensavam acaso nas ovelhas? Que viesse o lobo e elles não seriam capazes de o perceber!... Aquelle embevecimento reciproco, era um peccado mortal, e nem o temor do inferno os separava! O aniquilamento, a morte rapida era o que mereciam! Clamava do céo vingança, uma tal falta de vergonha.

Por isso ia elle empurrar a Pedra-suspensa!

Doido, perdido, correu como um cabrão, de penedo em penedo. N'aquelle peito arquejante escondiam-se sentimentos de tigre. Era um demonio bruto; porém o instincto e o desespero tornaram-n'o sagaz. Para ser mais ligeiro e imperceptivel, abandonou os tamancos no caminho. Uma força de vendaval levava-o pelo ar. Podiam merecer-lhe piedade a desgraça do mundo e a eterna condemnação de todos os homens?! Algum vivente lhe mostrara sympathia, ou pensara em lhe prodigalisar carinhos?! O seu odio absoluto não distinguia a justiça da perversidade.

Já em cima dos penhascos, ao lado do rude instrumento de vingança, olhou em volta. Um leve impulso de sua vontade bastaria para se produzir o formidavel castigo. Conheceu a verdade da lenda:—simples sopro de gente moveria aquelle penedo tamanho como elle! Um resto d'esperança, porém, obrigou-o a reflectir. Deitou-se de bruços, arrastou-se para diante... A cabelleira fulva e farta como uma juba, excedendo o rebordo da lage, appareceu no espaço. Desvairaram-se-lhe subitamente os olhos:—viu com todas as minudencias irrefutaveis, aquelle terno idyllio, que resumia toda a sua desventura. O Chico tinha a cabeça no regaço da pastora. Ella dava-lhe de beber agua fresca pela sua tigela de barro vermelho. Era o quadro da Samaritana, dessedentando o tranquillo Nazareno, junto do poço biblico, na velha Palestina. O rosto pallido do rapaz, emmoldurado em cabellos pretos, tinha a sonhadora expressão de Jesus. Embebidos um no outro, prolongavam a existencia, na intensidade do sentir!...

Porém elle tambem era homem, tinha direito á felicidade como todo o sêr vivente. Se a Tonia lhe não havia de pertencer, melhor era acabar com a propria vida, que lhe não prestava! Havia de elle aniquillar-se, e os outros haviam de ficar n'aquellas serras queridas? Não lh'o acceitava a mente perturbada!

* * * * *

Os miseros estavam mesmo por baixo da Pedra-suspensa! A vingança n'aquelle cerebro, tomou fórma exacta o real, sem poeira de lendas. Podia esmagal-os, como dois sapos nojentos!... D'esta maneira, acabariam n'um instante duas vidas incompativeis com a sua felicidade. A morte para todos tres era uma solução de suprema justiça. A fé supersticiosa das montanhas tinha-o abandonado; o pobre ficara só, recolhido na sua dôr infinita!

Mesmo de bruços, principiou a recuar. O seu olho calculador e vingativo vira, que impellido o penedo, os dois morreriam, estreitamente unidos, sem tempo para um ai! Havia de ser fulminante esse acabamento como o causado por um raio de cólera divina! Poz-se em pé, sobre a lapa, a parallelo do instrumento fatidico. Veiu de novo a visão sanguinea! O panorama em frente appareceu-lhe envolvido em linguas de chammas! Era o primeiro signal do tremendo castigo, ha seculos esperado! Um impulso de cyclone dominava-lhe a vontade. Decerto era Deus que assim o mandava castigar dois peccadores.

Com a força nervosa e a serenidade d'um illuminado, applicou ao granito o largo e potente dorso. Demorou-se ainda alguns instantes!... Seria indecisão?... Era o gozo de ouvir estranhas vozes de coragem e applauso, bramindo-lhe dentro do craneo! Em volta, já começava claramente o desmoronamento do universo! E o impavido cabreiro, soltando um ronco selvagem—medonho grito de féra!—tombou a Pedra-maldita!

V

Não se descollaram do ultimo beijo os dois ternos amantes. A altura era enorme. No espaço produziu-se um som abafado e largo, que foi de quebrada em quebrada, pulsando até ao coração da Terra! O Russo conservou-se em cima da lage, firme, contemplativo, como o Stylita. Parecia tomado d'assombro! Os seus olhos de louco, viram pedaços de carne e o sangue atirados para o céo! Aquillo teria sido malvadez?!... Arrependeu-se de subito, ou quiz envolver-se no aniquilamento geral?!... Não poderia sobreviver a tamanho crime, ou eram os demonios que o reclamavam, como sua prêsa?!...

Approximou-se resoluto da borda da fraga! Em baixo o mundo cambaleante e confuso, era um grande incendio, surgindo de trevas absolutas. Diabolicas figuras cruzavam os abysmos, á procura de victimas e sinistros. Gritos infernaes sahiam das boccas escancaradas dos pincaros, como jactos de lava! Olhos vermelhos de demonios fixavam-no ironicos e cubiçosos! Abriu os braços n'um gesto de supplica e perdão, atirou-se ao espaço como um abutre de amplas azas e o seu grande vulto, rolando pelo ar, parecia vir da eternidade, na primitiva condemnação! Sobre a mole granitica impellida pelo seu desespero, esmagaram-se-lhe as carnes e os ossos! O sangue espirrou, tingindo de vermelho a relva circumdante. Era tudo quanto restava, d'uma paixão desesperada e selvagem!...

* * * * *

A manhã de primavera, tranquilla e sumptuosa de luz, alegrava montes e campinas. Enfeitavam as encostas, o codeço e o tojo, rebentados d'entre as penhas, cuja negrura avivavam d'amarello. As myriades de flôres dos urzaes, formavam tufos d'aljofares e d'amethystas nas aridas córgas. O feto novo era como uma extensão de relva, pelo verde claro. O modesto trevo e o alegre malmequer, salpicavam a terra. Gottas d'orvalho como lagrimas, rebrilhavam penduradas das flôres da giesta. As mattas silenciosas iam acordando com o gorgeio dos passaros. Nos fundos abysmos das montanhas, formavam lagos os pardacentos nevoeiros. Passado o primeiro momento de susto, os rebanhos continuaram a retouçar nas hervas, diante da gloria do sol deslumbrante. As aguias pairavam magestosas, ao longe, sobre os mais altos cumes. Toda a natureza palpitava e se engrandecia, sob a acção impulsiva do calor. Nas serras, nas brandas, nos ribeiros, nos cabeços, nos valles... uma tranquillidade pathetica de vida natural. Sobre os telhados das aldeias levantavam-se os fumos domesticos, brandamente, como fumos de incenso sobre os altares. Em volta a muda altivez da soberba e impassivel montanha!...

Só uma voz lamentosa se ouvia na socegada amplidão: era a do rafeiro, o amoravel Rabicho, que em redor da Pedra, chorava a pobre Tonia.

E chorava a cortar a alma, como se fôra um christão, ganindo, uivando, aos saltos em volta dos cadaveres!... Amoravel rafeiro, pobre Tonia, desgraçados amantes!... Ah!...

Lisboa—Novembro de 1888.

FOGO DO CÉU

(_a Sousa Martins._)

I

A meia encosta da montanha subia a estrada de macadam, qual longa facha branca collada em fundo escuro. Tarde nevoenta, atmosphera pesada e electrica! As pessoas nervosas sentiam-se impacientes, com desejos fulgurantes e insaciaveis de imaginações inquietas. A necessidade de movimento, a agitação do corpo tornava-se imperiosa. Cada um procurava o esgoto rapido da sensibilidade que o affligia, o aniquilamento do proprio ser, com o fim de se encontrar no remanso bonançoso de uma vida serena e repousada, como as aguas de uma lagoa. Mary logo de manhã se levantara mal disposta, a carne em sobresaltos, uma intensa vontade de chorar. Pediu de tarde a seu pae que a acompanhasse n'um largo passeio a cavallo, galopando para longe, á descoberta de novas sensações, em horisontes infinitos, onde a vista se perdesse.

O velho cedeu apesar da ameaça de chuva. Mary precisava do rosto açoitado pelo ar fresco, sentir o arripio do vento nos cabellos, escutar o ribombo da trovoada desenvolvendo-se a distancia.

Lá iam os dous, pela estrada de macadam, a par como namorados: elle com a sua barba branca collada ao peito, Mary olho febril, o rosto em desafogo, o véu azul fluctuando como flammula. Os cavallos ás upas, garbosos, correndo ao desafio: _Joe_, o de D. Francisco, calmo e magestoso; _Luck_, o de Mary, franzino, mais audaz, resfolegando impaciente.

—Mary. Quando vier a chuva?!...—disse o receioso velho.

Que importava! Não lhes tinha succedido isso d'outras vezes? Era um episodio, uma diversão da monotonia ordinaria da vetusta casa, entre carvalheiras, com o som plangente do orgão espraiando-se sobre os campos desertos. Os nervos imperiosos exigiam-lhe commoções, fortes balanços de galope, sacudidellas nos musculos entorpecidos, uma boa molhadela emfim...

Continuavam intrepidamente para o cimo da montanha, distanciando-se do povoado. O horisonte de cada vez mais largo, a paisagem variando em cambiantes de luz; na ribeira os terrenos, ermos de cearas, ás arvores tristonhas e outomnaes, os fumos domesticos erguendo-se lentamente no ar, como louvor religioso.

Era no mez de novembro: as folhas sêccas accumulavam-se nos recantos dos caminhos—despresadas depois de ephemera vida, e de terem com o seu viço de rebentos novos alegrado a encosta. Á maneira que os cavalleiros subiam para o alto, as montanhas desenrolavam-se-lhes n'um aspecto mais uniforme e esbatido, pela distancia de muitas leguas, como se fôra ondulado de mar subitamente solidificado n'um instante mais calmo. Os bosquesinhos de carvalhos, nascidos das aguas a rebentar nas quebradas, eram nodoas attestando a sensibilidade da vida, a circulação da seiva n'aquella aridez arrogante de terrenos ingratos, cobertos de tojo e de alcantiladas penedias. Os campanarios destacavam-se pela brancura da cal, tristes e solitarios, os sinos mudos. De cada vez se encastellavam mais nuvens no horisonte, tomando aspecto torvo de ameaça. O ribombo do trovão ennovelava por cima das cristas dos grandes outeiros. Havia no ar um sentimento de anciedade, uma como paralysação de vida, um spasmo em toda a natureza! Respirava-se mal, a accumulação electrica opprimia o peito:

—Mary; seria melhor voltar!...

—Só até lá cima, meu pae!...

Os cavallos excitados pela corrida, de cada vez consumiam maiores distancias. Luck, delgado e nervoso, parecia o hippogriffo lendario, voando por sobre geleiras, levando a vaporosa fada n'um sonho scandinavo. Sentia a febre da mão que sustinha a redea; ao seu dorso arqueado communicavam-se as correntes nervosas do gracil corpo de Mary. Joe, o do fidalgo, apesar de mais pausado era valente, e acompanhava-o garboso.

Caminhavam subindo sempre, no parecer ao desafio com as nuvens grossas e plumbeas, gravidas de trovões e raios, que passavam no espaço, n'uma jornada apocalyptica.

Para onde iriam essas nuvens de tempestade? Onde pararia Mary, loira, o rosto animado, impetuosa, franzina, a imaginação ardente a pedir largas paisagens, o coração oppresso a desejar atmosphera mais leve, que os pulmões respirassem desafogadamente?!...

Chegaram ao vertice da estrada. Para a esquerda havia montanhas sombrias e estereis; porém era completa a solidão e o desamparo!

Descobriam aldeias e casas, a muita distancia, n'um ajuntamento de defeza contra os perigos dos ermos. Haviam caminhado em largo galope além de uma hora, distanciando-se sempre do povoado. A antiga morada d'onde tinham partido, só pelo tino acertariam onde ficava! Mary quedára-se a olhar com ousadia, para o céu e para a terra, o corpo mais livre, o querer amplo, a imaginação em maior tranquilidade. Esta uniforme paisagem de serranias que se pegavam umas nas outras, com um tom azulado e vesperal era de immensa pacificação. Porém as nuvens caliginosas condensavam-se já perto, o regougar do trovão aproximava-se a olhos vistos, a propria natureza parecia preoccupada, emquanto Mary sorria deliciosamente ao céu plumbeo, ás montanhas ondeantes, ao valle cheio de arvores amarellentas, que levantavam para o ar braços em supplica.

Dous pequenos pastores, de certo irmãos, desciam apressados dos pincaros, trazendo o seu rebanho. Receiavam chuva grossa e trovoada, eram muito pequenos e supersticiosos, vinham com ancia de se recolherem á protecção de Santa Barbara bemdita, e de lhe resarem junto da lareira, onde arderia o canhoto do natal, amuleto contra as iras do céu. Irmão e irmã, teriam dez a doze annos, rotos e pobrissimos, aspecto triste e desconfiado. Os cabellos em desalinho, descalços, as pernas arroixadas do vento cortante dos montes! Desciam espavoridos, correndo pela encosta abaixo, acompanhados do cão e do rebanho, tudo juncto em grande confusão. A sua pobre choupana coberta de colmo estava no sopé da montanha. Conheciam o tempo, não havia que esperar, a trovoada aproximava-se, não tinham valor para a aguentar sósinhos lá em cima. Mary, com os olhos pregados n'elles, vendo-os a rebolar aos saltos pelo monte, encarecia, na sua boa alma, a conformidade, que adivinhava n'aquella vida humilde:

—Meu pae, aquelles pastores, aqui sósinhos!...

Já saltara do cavallo, esperava-os para lhes fallar, interrogal-os ácerca da sua pobreza que devia ser incommensuravel, dar-lhes alguma cousa para o agasalho do corpo.

Cahiam ruidosamente as primeiras gottas de chuva. Grossas como landes varejadas de carvalheiras por ventania aspera, espapavam-se no pó da estrada. Havia forte ruido no ar; ao parecer, mão herculea impellia de grande distancia punhados de areia: era o bater secco do granizo sobre os terrenos, sobre as penedias e nas folhas amarellentas dos raros carvalhos. A turbação atmospherica augmentara subitamente, escurecera tudo em redor. Os trovões roncavam perto, semelhando o unissono cavo e amedrontador de milhares de carroças rodando juntas.

—Onde nos havemos de recolher, Mary?—disse D. Francisco.

Em qualquer parte. Sob aquelle frondoso castanheiro, que ali perto nascera isolado n'um tenue veio de agua que resumbrava na base de um penedo. Os cavallos tinham na pelle tremuras de susto; levavam-nos pela redea para o designado abrigo. Os miseros pastores chegavam n'esse momento á estrada, inquietos, receiosos de que as ovelhas se lhes trasmalhassem e como a chuva engrossasse rapida e subitamente, recolheram-se com o gado n'uma grande cova, de proposito aberta no flanco do monte, para estes casos, ali frequentes. Mary e seu pae, protegidos pelo velho castanheiro olhavam silenciosos e contristados para aquelles rotinhos e humildes, em monte com as ovelhas, cheios de inquietação com medo que o trovão apavorasse os animaes. E do interior da cova consideravam cheios de admiração aquelles senhores de aspecto tão rico e maravilhoso, mais bello do que o dos santos da igreja.

As bategas de agua cresciam em força, o ribombo troava com arrogancia por cima dos pincaros eminentes. O fidalgo observava o ar com serenidade receiosa, a solemne barba branca de patriarcha biblico cobrindo-lhe o largo peito. O vento soprava com violencia, os movimentos ondulatorios da atmosphera formavam vagas, como n'um mar aereo. Tinham desapparecido as povoações, os campanarios, os cimos das montanhas por traz da densidade da chuva. Restringira-se-lhes a muito pouco a área visual, tudo estava coalhado n'uma densa nevoa, o aspecto das cousas era indefinido e vago.

—Durará muito?—disse Mary apprehensiva.

Estava a vêr que sim.

Fizera mal em não ter cedido ao aviso de seu pae. N'aquella vasta solidão principiava a sentir-se n'um desamparo tenebroso. Ennegrecia-lhe o espirito com a apparencia lugubre das penedias suprajacentes. D. Francisco vendo-a pallida e contrariada, apparentava agora conformidade e riso, para a fortalecer. Tinha medo de algum desanimo, de qualquer crise de nervos. Era esta a querida filha da sua alma, o seu unico enlevo, a alegria, o conforto no despovoado da viuvez e da velhice. Mary sentia na alma a amargura de ter contrariado a previdencia do bom velho, de quem era a luz dos olhos. O aspecto do céu de cada vez mais orgulhoso e ameaçador.

Os sons medonhos reforçados nas quebradas dos montes, rolavam como grandes e implacaveis penedias, que viessem lá do alto para tudo aniquilar. Já os trovões concorriam de todos os lados, arrogantes e magestosos, rebentando perto em estalidos breves e seccos, como milhões de taboas a baterem umas contra as outras. Laminas de fogo de coriscos rasgavam o ventre das nuvens e esta luz luarenga cobria a paisagem de um tom funereo. Havia no ar uma escuridão de caverna sem que a noite já começasse a abraçar o mundo no seu amplexo triste. A natureza em combate tinha olhar terrificante. Nem o conjunto de toda a artilheria do mundo, cem vezes augmentada, vomitando ao mesmo tempo granadas e materias inflamaveis pela bocca redonda dos seus canhões, daria ideia d'esta formidavel batalha, ferida nos paramos sombrios do ar.

—Meu pae!... tenho medo!...—confessou a corajosa Mary.

As ovelhas conservaram-se junto dos pastores mettidos na sua cova, como timidas creanças perto de sua mãe. Os pequenos de joelhos, as mãos erguidas, em lagrimas de receio pediam misericordia em altos gritos dirigidos a Deus clemente. Desejava D. Francisco animal-os, soccorrel-os, trazendo-os para juncto de si; porém não lh'o consentiam as catadupas de agua, que já vinham pelas gargantas dos montes sahir ali perto, em formidaveis ribeiros. Elle ainda conservava Joe pela redea; porém Mary já havia abandonado Luck, que de olho allucinado, e tremendo em todo o corpo, resfolegava com estrondo pelas narinas largas. O pavor crescia, o formidavel estalido do trovão rebentava quasi sobre o castanheiro, innumeros relampagos fuzilavam ao mesmo tempo pondo-lhes o espirito em confusão.

—Tenho muito medo, meu pae!—confessou Mary, tremula e agitada.

Como poderiam sahir d'ali? Impossivel!—ponderou o coração amargurado do velho. Esperava que a furia da tempestade diminuisse, que o horror do trovão abrandasse, que o fogo dos relampagos lhes não tirasse a vista, que a chuva fosse menos copiosa... A pobre Mary já o não ouvia, pallida e assustada, sentiam-se-lhe ranger os dentes, a ella que sempre fôra a ousadia, o denodo, o vigor moral de seu pae.

Os dous corações batiam n'um ambiente de terrores, os ares incendiados por chammas infernaes, os ouvidos surdos por causa dos pavorosos sons que desciam do céu, ou resurgiam das corcovas da montanha. De toda a parte o mundo parecia ameaçado por castigos e invectivas de morte. No bojo largo e mysterioso das nuvens parecia esconder-se, ainda silenciosa, a suprema voz da infinita maldição! Vencendo espaços com o desespero dos demonios escorraçados do céu na noite biblica, essas nuvens pareciam que accarretavam do começo dos tempos a punição de crimes accumulados por seculos de perversidade!...

Os aterrados pastores continuavam de joelhos, as mãos supplicantes, pedindo misericordia em agudos gritos. A convulsão do franzino e esbelto corpo de Mary communicava-se ao tronco do castanheiro frondoso e para ella todo o mundo se sentia abalado e tremente. D. Francisco abandonou-a, por um momento, emquanto procurava colher as redeas de Luck, que se ia separando encolhido e agitado.

A confusão de todas as cousas attingira n'este instante imponencia d'assombrar! Um forte e vibrante estampido, acompanhado de illuminação subita de raio, rebentou sobre a arvore protectora. Luck então fugiu espavorido; Joe repuchou fortemente o braço do fidalgo, que se sentiu cahir, as pernas sem vigor. Instinctivamente, D. Francisco, lança os olhos para o castanheiro, e vê no rosto funereo de Mary extinguir-se a vista, o tronco flexivel como um vime inclinar-se, todo o corpo, qual estatua de alabastro, cahir sobre a terra n'uma compostura sepulchral!!...

II

Fora fulminada? estava morta?!... O rosto de seu pae era de um pavor dantesco!... Luck despenhara-se pelo monte, em saltos infernaes! Joe, menos nervoso, tremia humilde junto de seu dono.

O desditoso velho atirou-se com desespero sobre o corpo livido de Mary, que vira pender como uma açucena, impellida por vento maldito. Encontrava-a sem energia corporea, o aspecto de completa ausencia de sensibilidade, os olhos meio cerrados. Queria aquecel-a com os seus carinhos, dar-lhe o movimento do proprio sangue! Estreitava-a nos braços, agitava-lhe o corpo, sacudia-a para lhe dar vida. De apavorado emmudecera, não tinha lagrimas para exprimir tamanha dôr; mas por fim a sua voz rugiu formidavel como a do leão, como a do mar, como a da tempestade:

—Mary!... Mary!... Accorda, Mary!...

As creanças tinham corrido n'um instincto de soccorro. Augmentavam a dôr do quadro com o chôro desesperado, que acresciam ao do inconsolavel pae, que chamava sua filha em altos brados dirigidos ao céu crudelissimo.

D. Francisco erguera-se, com o corpo de Mary intimamente unido ao seu. Que loucura esta! Pensar em reanimal-a communicando-lhe o seu calor, dar-lhe sensibilidade com o vigor do affecto, fazel-a soffrer com a grande e immensa dôr que o suffocava! O corpo estava exanime; pendiam-lhe os braços, cahia-lhe a cabeça, as pernas sem energia, o tronco vergando-se como um junco. O ribombo do trovão continuava atroz: os relampagos successivos illuminavam as serras lugubres, as altas penedias de uma grandeza cyclopica, as humildes aldeias e campanarios, as veigas de uma passividade mortal.

—Chamae gente!... Chamae gente!...—gritava D. Francisco aos pastores, que d'elle se tinham acercado n'um intento piedoso.