A nossa Gente

Part 4

Chapter 43,809 wordsPublic domain

Por isso ao presumir proximo o seu ultimo dia, sentindo por adivinhação que a alma se ia desprender do corpo em que reinara, que a materia resignava a força que a enobrecera, é que pedia mais flores, muitas flôres para embebedar com aromas a imaginação. Tinha a cama de virgem sempre coberta de rosas, de açucenas e de todas as flores campestres de belleza tão captiva e simples, de perfume tão casto e enebriante. Quando adormecesse no ultimo somno terreno, queria que fosse entre fragancias e côres, para nas azas d'essas coisas intangiveis subir ás alturas, onde habitam os anjos. Foi assim que veio para Margarida a feia morte, risonha amiga, como um carinhoso dom. N'esse dia assignalado cercavam-lhe o leito todos os queridos affectos que no mundo tivera. O bom cura Carvalhosa, de estola branca e oiro sobre a alva sobrepelliz, dizia-lhe em voz de uncção, palavras solemnes de esperança e ventura. O rosto sereno e quasi risonho do sacerdote espalhava no quarto, que era um sanctuario, coragem e tranquillidade, em todos os espiritos. Os paes de Margarida e Antonia ajoelhados aos pés da cama, voltados para a Virgem glorificada entre flores e luzes, no oratorio, tinham as faces innundadas de lagrimas silenciosas e votivas. Outras pessoas intimas, amigos e parentes, seguiam este ditoso despedir d'alma ao despegar-se do mundo. A illuminação astral do rosto da moribunda, com os olhos gelados a procurarem claridade n'uma risonha ancia de sublime, a todos animava. Parecia-lhes este morrer, antes uma transfiguração da vida: não era o afastamento para sempre, pois acreditavam que esse espirito, que de muito pertencia ao ceu, continuaria a velar pelos que muito amara, para os proteger contra as miserias terrenas. Margarida entre elles, escutaria as suas supplicas, fortalecel-os-hia nos desalentos e como branca pomba espiritual, havia de pairar sobre o tecto que lhe abrigara o nascimento e a morte. Aqui se lhe dispertara a alma para as coisas sublimes, para as visões eternas; ao cahir gradual do corpo todos lhe viram corresponder uma crescente sublimação do espirito; as suas palavras que se adelgaçavam na fortaleza, eram de cada vez mais cristalinas no som e tinham de cada vez maior sublimidade no sentido. É que já as pronunciava do limiar da Bemaventurança, cujas portas se lhe abriam de par em par. Tudo concorrera de longe, para que as lagrimas choradas em volta d'este pequenino leito de moribunda, coberto de flores rescendentes, fossem lagrimas mais de goso, do que de amargura, de conformidade e não de desespero.

* * * * *

Rompia a tranquilla luz da alvorada d'um dia d'Abril, que promettia ser alegre e soalheiro. Estava-se na mesma semana de Paschoela na qual, annos antes, começara o glorioso martyrio de Margarida. Havia cá fóra as pompas da natureza, a reviviscencia da terra subia ao azul em hymnos de aromas e cores. A doentinha chamara para juncto de si seus paes, Antonia, e os parentes mais chegados, as de Refuinho e as do Ramisco. Com uma voz que era um cicio de resa, de todos se despediu com palavras confortativas, de tanta elevação e carinho e santidade, que bem se comprehendia que não fosse um espirito da Terra, que n'ella vivesse. Com os dedos magros de santa deixava a cada um a lembrança d'uma flor, beijava, amorosa e humilde, as mãos de seus paes e do cura, sorrindo-lhes com os olhos cegos.—E rematando a vida disse:

—Pedirei ao Senhor, por todos. Perdoem a quem os fez soffrer!...

Rebentaram torrentes de lagrimas e córos de soluços, quando viram que não mais pudera falar, e que reclinara de vez a resignada cabeça no largo travesseiro... Começara um longo e infinito somno: o rosto d'uma serenidade angelica parecia formoso e expressivo como nunca fôra! Ainda respirava o balsamo das plantas odoriferas, os brancos dedos ainda procuravam o setim das petalas de rosas e cecens; mas aquella imaginação, aquella alma diluia-se na amplidão infinita, subindo ao espaço como um subtil perfume. Margarida repousava na paz eterna do seu Deus! Terminara o ultimo anhelo do coração.

—Está morta—disse com sentimento grave o medico pousando-lhe a mão na testa.

—Está viva—pronunciou como em sonho, o padre Carvalhosa...

Lisboa, Abril de 1899.

PASTORAL

I

As cabras e as ovelhas, iam a meia encosta, todas n'um carreiro, como formigas. Tinha sido longa a noite d'abstinencia no curral e pelo caminho, ás furtadellas, aboccavam as hervagens avulsas, ruminando-as sofregamente. O Rabicho, sempre adiante, como explorador. Vivo e esperto, n'um relance conheceu a impaciencia da Tonia, por não andar mais depressa. «Lá p'ra riba, cão!»—gritára-lhe a pastora, e logo elle subiu a um penedo, deixando passar todo o rebanho, que depois impelliu para a frente, com duas boas torquezadas de seus dentes. Os animaes correram á porfia, vencendo-se uns aos outros. A rapariga ficou distanciada, a fiar a sua lã, cuja tarefa, para um dia, levava na abada junta com o presigo. E para não auctorisar novas investidas do rafeiro berregou-lhe de novo: «Tó, dianho! tens muito dente!...»

N'esse dia, encaminhava-se ella para o Guidon. Perto de lá, na bouça de João-Paz, deixára escondida a tigela das sopas de leite. No caminho encontraria o Chico, pastor seu amado, e ambos juntos e unidos iriam espreguiçar-se por baixo das fragas ou no interior dos frescos giestaes. O Guidon, quando o maio é soalheiro e formoso, tem as melhores pastagens dos arredores. O tojo, nos sitios onde se fez queimada, borbulha, tenro e verde, como herva nos lameiros. Os gomos d'urze parecem microscopicos pampanos. O rosmaninho, o trevo, o rico e nutriente feno desabrocham em aromas e enfeitam a serra. Leite filho d'estas plantas silvestres, delicadas e cheirosas, é o mais gostoso e substancial. Por isso, ao pasto das terras baixas e frias, que não sobeja da boiada, n'esta épocha de lavradas, é preferido o dos pincaros, alegres e soberbos. Coisas da bruta experiencia, que os seculos teem garantido.

Chegado o rabanho ao sitio onde na vespera o lobo roubára um timido cordeiro, a ovelha-mãe, na expressão de saudade, balou dolorosamente. Ao longe respondeu-lhe a voz tremula d'outra ovelha, como se fôra um echo. A pastora logo correu ao alto para alcançar mais com a vista. Imaginára estar p'r'áli aquelle a quem se votara. Ia ser um dia festival, ao encontrarem-se na suprema mudez da serra, protegidos do calor á sombra dos piornos, contemplando-se n'um vago absoluto. Em taes momentos accelera-se a imaginação; os ouvidos inattentos ensurdecem; a mente fica-se n'um pasmo; o mundo figura-se um lago tranquillo e morto; o azul do céo, onde se perde a vista, é d'um ferrete insondavel; o coração bate forte e rapido, como um bom potro, galopando solto na campina!...

Porém, o que veria a Tonia de suspeito e desagradavel?! A expressão do seu rosto suave e louco, carregou-se de sombras; o gesto foi de arremesso e contrariedade; os olhos faiscaram de subita colera!...

Ah!... Em vez do Chico, appareceu-lhe o outro, o Russo, um grande e forte, de cabellos vermelhos e physionomia diabolica. Coruscava-lhe a vista inquieta, pequeninas sardas picavam-lhe a pelle, a cabeça era uma tormenta de fogo!

Quão differente o seu namorado, rapaz franzino, d'aspecto juvenil, rosto comprido á Nazareno, cabellos negros e mal cuidados, formando sobre a fronte um tufo revolto d'anneis. D'aquelle todo sahia a expressão que a enlevava; da expressão desdenhosa ou indifferente a superioridade com que a submettera; das palavras simples, a musica dos seus ouvidos e da sua alma inteira. Como era bello e encantador de costas sobre os penedos, a contemplar o céo n'um sonho de poeta! Como era amoroso e vago, quando tocava na flauta, coisas que não aprendera com viv'alma!

O Russo decerto lhe queria com mais gana, com mais aquella, bem lá do fundo. Ao enxergal-a, desabrochando com a aurora no alto do monte, como subita e incomparavel flôr, todo se alvoroçou. Nos olhos e em todo o rosto mostrou um pasmo tonto, um riso sem valor, como aconteceria ao cego, cuja retina morta sentisse inesperadamente a gloriosa illuminação do sol. Correu para a abraçar no primeiro impulso; mas logo estacou contemplou-a a distancia. Ella, no alto onde se quedara, de roca á cinta, o lenço claro apanhando-lhe os cabellos, o recorte da sua figura desenhando-se no ar, era a pastora das lendas, calma e prophetica. O Russo percebendo o animo hostil com que a Tonia o recebia, accendeu-se-lhe n'alma a raiva e o ciume:

—Querias ir só com o outro? Não, que não!...

—Bem se me dá...—retorquiu desdenhosa. Tempo perdido, meu rico!

—Que lh'achas tu? Um lesma, um gomitado. Cá, sou um home. Elle...

A Tonia espertou-se:

—Mal comparado! Tu és um diabo, um porco bravo. Estafermo! Elle é lindo como um anjo do céo!

A furia do Russo cresceu:

—Sou capaz de o esborrachar na unha, como um piolho, demonios me nunca levem!

Tinha lagrimas de raiva, ao pronunciar a jura. Era paixão antiga e abrazadora. Desde os quinze annos, ainda aquelle corpo de rapariga era como um castanheiro novo, já elle a via constantemente na transparencia dos luares outonaes. As moles graniticas, penduradas eternamente dos pincaros, e resequidas pelo sol d'um infindavel agosto, não teriam mais firmeza, nem mais calor do que elle. O ciume era no seu corpo um moer lento e occulto, tal o fogo que mina a urze escondida na terra para a transformar em carvão. Condemnado por aquella repulsa constante, sentia-se desprezivel e desejava morte, em que soffresse muito. Comtudo não podia despegar a propria vida d'aquelle sonho malaventurado. Em presença da Tonia, a natureza ruiva e colerica aloirava-se-lhe n'uns cambiantes meigos e suaves. O mais tenro anho das suas ovelhas, não tinha para quem o aleitava tanto carinho e agradecimento, como elle mostrava áquella rapariga, n'uma submissão de coisa bruta. Comtanto que o amasse, se a sua vontade d'ella fôra vêl-o apodrecer no fundo d'uma córga, para ser alimento das aguias e corvos, ir-se-hia lá deitar voluntariamente e nunca mais comeria! A preferencia pelo outro é que o humilhava na sua consciencia de homem forte e magnifico. Quedava-se a scismar de noite no que teria de superior, esse engelhado, tão magro e pequeno como uma lavandisca. O corpo não, que o seu era grande como uma torre e devia inspirar sentimento de força. A paixão que lhe refervia lá dentro, longe de ser mollanqueirona, mostrava-se vehemente e feroz, tal a das lobas a defenderem os filhos. Aquella rapariga airosa, divina imagem de qualquer santa, voz musical como a dos passaros, tranquillo olhar como o da lua, aniquilava-o com a sua nervosa malquerença. Até ahi, nada a pudera abrandar: nem lagrimas soluçadas de bruços sobre os penedos; nem supplicas mais ferventes do que orações; nem juras e promessas inabalaveis como o céo. Diante das vontades e caprichos da pastora, era humilde e cego. Quantas vezes lhe ficára com a rez, para a deixar correr monte, talvez á procura do outro?! Quantas vezes lh'a fôra buscar ao curral e lh'a apascentara durante dias, para que ella fosse ás romarias, com os ranchos que passavam?! Até sacrificava o seu rebanho, pois dirigia o da Tonia para as melhores pastagens. Se tinha leite novo, logo lh'o offerecia como um presente; se encontrava tortulhos assava-lh'os e ella comia-os: para que não bebesse agua dos ribeiros, onde ha porcarias e animaes mortos, ia-lh'a buscar longe, trazendo-a na sua tigela, escrupulosamente lavada, como para uma rainha. Quando a Tonia acceitava de boa cara estes serviços, já o Russo se entendia muito bem pago. As recusas ou o mau modo, é que eram fundos golpes no seu torvo coração.

Vivia uma vida negra e de sobresaltos continuos. Passavam-lhe incendios diante dos olhos e a sua imaginação ficava a trabalhar em desassocego. A fatidica _Pedra-suspensa_ (essa antiga ameaça!) parecia-lhe, ás vezes, que se ia desprender lá do alto, rolar pelos montes e destruir o mundo inteiro! Oh! visão amedrontadora de todas as existencias!... Só para a afastar, quantas vezes elle consentira o Chico deitado ao lado da Tonia! A moça fiava a lã da tarefa, cantava ou escutava-o enlevada. O magricellas, o ninguem, de papo para o ar, não tratava da rez. E o desprezado é que fazia o serviço de todos, guiando caridosamente as cabras e as ovelhas para a sombra das ramadas nos grandes calores, e á bebida antes de as recolher. Viviam assim pelos montes, perdidos entre tojaes e piornos, dormindo no verão debaixo das lapas e dos azevinhos. Havendo satisfação reciproca, tambem gostava de ouvir o tocador de flauta, que sabia muitas modas tiradas da sua cabeça. Era feliz nos momentos em que morava longe o ciume, isso a que não sabendo dar o nome, lhe queimava o peito, como tição ardente. Esquecia o desamor da Tonia n'essas horas gastas em somno tranquillo. A vida era visão suspensa dos ramos dos carvalhos, ou fluctuava brandamente como as folhas outonaes ao sabor d'um murmuro vento. Não havia quisilias, só desejo de felicidade, socego e gozo, em ventura calypsiaca. Raramente, porém, se passavam dias assim completos de ventura!...

II

Já tinham caminhado meia hora, n'um silencio inconvivente, quando chegaram ao ponto d'onde se descobria a Pedra-suspensa. Era o objecto da lenda mais famosa e conhecida nas povoações em redor. Visto de certo lado, aquelle granito, não se lhe encontrava o ponto de repouso, na lage subjacente; parecia um destaque de nuvem, no céo azul. Contavam, sempre em voz de medo, que logo no principio dos seculos, um mau genio e feio gigante, ali a depositara, como eterna ameaça a peccadores; porque a sua queda assignalaria o começo do fim do mundo. A instabilidade da Pedra-suspensa, tão reconhecida era, que ninguem duvidava de que uma creança de cinco annos a pudesse derrubar. Grande milagre, não a terem o vento e os trovões arremessado pelos espaços fóra!... O respeito que esse granito infundia, era o de um idolo vingador, ameaçando, dia e noite, as aldeias e o mundo!... Todos os dez annos se formava grande procissão de penitencia, com gente que partia de sitios mui distantes e ali se reunia afim de implorar misericordia. Recebida da tradição essa pratica, executavam-n'a com fervor d'alma religiosa e temente. Os homens ciliciavam as carnes, as mulheres erguiam clamores, as creanças berravam de amedrontadas, os bacamartes de bocca de sino troavam pelos caminhos e por entre os penedos... tudo para distanciar o pavoroso castigo!...

Depois das preces, ficariam acalmadas as justas cóleras divinas? Ninguem o assegurava. A intangivel crença em que a famosa pedra cahiria, para assignalar enormes desgraças, conservava-se viva e forte. Poucos tinham animo para a encarar tranquillos e serenos. Ninguem ousava approximar-se-lhe, muito menos tocar-lhe, com medo da responsabilidade n'um cataclysmo. Seria provocar inconsideradamente as cóleras do céo. Uma penha que bastaria o roçar d'uma corça para a fazer cahir! Pairava assim no ar, suspensa como uma aguia, por determinação da vontade divina. A não ser isto já as bategas da chuva, o impulso dos vendavaes, o degelo das neves a teriam arrastado. Pois não era um verdadeiro milagre a sua estabilidade?!...

A idéa de a escorar, diminuindo-se as probabilidades da catastrophe, fôra sempre repellida. Significaria desconfiança no alto poder que ali a conservava. Melhor é deixar o destino trabalhar por si. Está lá em cima quem tudo regula. O que tem de ser faz muita força... Pensavam d'este modo em palavras; mas no fundo, n'esse intimo sentir que até parece esconder-se á Providencia, se elles pudessem calçar a pedra para não cahir!... Contra as imprudencias brutas dos gados já se tinham prevenido, as gentes supersticiosas, sebando-a em volta com ramos e tojos. Porém as aguias, que vinham de longe, no seu vôo arqueado e solemne ali poisar? E os lobos famintos, que preferiam aquelle sitio para comer as suas prêsas? Só milagre e grande milagre é que a sustinha n'aquella direitura. Acreditavam-n'o camponezes e serranos, todos os que se desbarretavam e persignavam murmurando qualquer reza, mal a viam. Foi assim que procederam a Tonia e o Russo. Ambos quedos, ella com o fuso parado, elle com o barrete na mão, ciciaram orações. Mas o pastor, logo depois ameaçou a rapariga apontando:

—Vêl-a? Ha de cahir. O mundo acaba-se e tu não serás p'ra mim, nem p'r'ó outro.

—A Senhora da Peneda não ha de deixar—disse confiada.

—Sou eu que a empurro. Verás.

—Cala-te, hereje, que t'abro a cabeça.

Irada, com os olhos em chamma, arremetteu-lhe com um pedregulho. Havia ancia de raiva dentro do seu peito soberbo. O Russo não lhe pôde supportar a vista de cólera e desprezo; curvou a fronte, os olhos marejaram-se-lhe. O seu destino era peor que o dos condemnados do Inferno.

—Perdôa, não olhes assim! Tu é que me fazes dizer todos estes peccados.

—Tenho culpa de não teres temor de Deus? Estás na caldeira de Pedro-Botelho, vestido e calçado! E é bem feito!—accrescentou vingativa.

O cabreiro queria humildar-se até ao rasteiro das cobras e lagartos, só para lhe merecer uma sombra de perdão. Affligia-o mortalmente a idéa de que mais uma vez desagradara á Tonia. Como, logo adiante a rapariga vendo umas cabras se principiou a affirmar, para descobrir o Chico, foi elle que, no intento de se reconciliar com a pastora apontou:

—Está acolá, em cima do penedo...

—Assobia-lhe para vir p'r'áqui.

—Bem nos vê, se quizer...

Mas obedeceu, assobiou com os dedos na bocca. O outro não se importava, apenas mexeu a cabeça conservando-se na mesma posição.

—Vae lá, que vamos p'r'ó Guidon,—disse-lhe a moça.

Foi, humildemente, como um perdigueiro. Sentiu gozo em ser mandado; mas de raiva torcia nas mãos a grossa carapuça. Distante, a occultas para esconder a sua fraqueza, limpou duas lagrimas ao canhão da vestia. O outro não queria ir para o Guidon, estava ali muito bem. O Russo pediu-lhe que obedecesse, para a Tonia se não zangar mais.

—Ora... se 'stou regalado!—respondeu o pastor. Vai tu mais ella.

—Vem, moço—exorou o cabreiro. Olha que ella hoje, sempre te está! Anda, levo-te a rez.

Consentiu o Chico em deixar ir o rebanho; mas elle ficou. A Tonia não se teve. Foi pressurosa tiral-o d'aquelle adormecimento. Com ligeiro sorriso de meiguice, pediu ao Russo:

—Ó aquelle. Junta-me tamem as minhas, que eu vou trazel-o.

III

E lá foi, doida, feliz, correndo de fraga em fraga. O Russo assobiou ao Rabicho, reuniu todo o gado e partiu... Chorava lagrimas como punhos, e voltava-se para vêr de relance a Tonia, que chamava o Chico, com acenos e gritos. Bem se importava o preguiçoso com aquelle louco amor da rapariga!...

—Eh! moço! vem-te d'ahi p'r'ó Guidon.

Elle respondeu-lhe:

—Eh! que 'stou' qui mui bem.

Tirou do seio a flauta e sentando-se no penedo, principiou a tocar. O sol illuminava-o de frente, prateando-lhe os cabellos negros. O destaque da sua figura magra e enfezada sobre o escuro penedo, fazia-se como o d'uma miniatura em fundo esmaltado. A Tonia chamou-o:

—Já lá vão as tuas cabras, maluco.

Não se importava, encolheu os hombros. A musica absorvia-o completamente, era o seu destino. A pastora, dominada por esse respeito instinctivo e sagrado, que se deve ás coisas elevadas, parou a distancia, para o não interromper. O Russo, que já ia longe, tambem subiu a uma rocha com o fim de ouvir melhor. Escutava triste e absorvido. O seu grande corpo, esbatendo-se no verde escuro do monte, ainda ensombrado n'aquella parte, percebia-se mal, como as figuras dos baixo-relevos, e tinha a mesma immobilidade captiva. Era moda triste a que o rapaz tocava. Finda ella, a Tonia approximou-se quasi respeitosa. Para subir ao penedo onde estava o tocador e arrancal-o d'ali, teve difficuldades. A pedra era lisa e as tacholas dos sócos estavam gastas. Mas agarrou-se a um ramo de carvalho, inclinou-se para diante... Os magnificos e potentes quadris arquearam-se n'uma curva de mulher completa e fecunda, creada nos caminhos pedregosos. O Chico, vendo-a no empenho de subir, largou a flauta, tomou-a pelos braços roliços, attrahiu-a para o seu corpo e por momentos ambos ficaram unidos!... O Russo presenceava de longe tudo isto. Sahiu-lhe do peito um rugido de cólera e ciume que fez estremecer as montanhas. Os seus olhos, vermelhos de desespero, viram uma successão de calamidades sem fim, como as descrevem os missionarios para o dia de juizo. A Pedra-suspensa oscillara, já cahia pelos fortes declives d'um mundo em ruinas. Ennegrecera subitamente o céo azul, reuniram-se n'um instante nuvens prenhes de tempestades, os trovões abriram medonhas gargantas no céo de fogo, as pupillas dos raios rutilavam, as trombetas apocalypticas enchiam de pavor os reconcavos da terra, onde se escondiam desgraçados!... Tudo se ia acabar para todos!... O seu corpo miseravel, junto ao de outros reprobos, rolava pelos abysmos. A grita dos homens era pavorosa, formando um unisono infernal.

Isto o que viu e ouviu n'um instante aquella imaginação turbulenta. Mas o Chico e a Tonia já tinham descido do penedo. Elles lá vinham a caminhar, amorosamente unidos, ella apoiando-se-lhe no hombro. Riam e folgavam, como um casal de pintasilgos em março, resumindo em si todas as venturas pelos homens sonhadas. Ella offereceu-lhe do seu presigo uma racha de bacalhau, que o rapaz acceitou para offerecer ao outro, que era muito pobre, não tendo mesmo, ás vezes, a brôa sufficiente. Logo que se juntaram deu-lh'a.

—Toma—disse.

—Não tenho fome—rejeitou.

—É a Tonia que t'a dá.

Arrancou-lh'a da mão. Estracinhou-a raivosamente com os dentes, como faria á carne d'aquelles corpos felizes, se os pudesse trincar. Excandecido seguiu com os rebanhos, separado dos dois. O semblante sombrio e transtornado, impressionaria quem lh'o encarasse. Os olhos gazeos expelliam chispas metallicas e tinham escurecido de cólera. Os beiços tremiam-lhe como signal da sua loucura. A pastora no momento em que se juntaram escarneceu-o:

—Que feia carranca... Santo Nome!...

O cabreiro voltou-se rapidamente para a aniquilar, com todo o poder da sua força herculea. Porém ao vêr aquelle rosto sereno e risonho, só disse:

—Hoje ha de ser falado!...

N'um relance pensou na famosa Pedra, symbolo de desventuras. Sahia-lhe do semblante uma expressão feroz: no craneo aninhou-se-lhe a idéa d'um aniquilamento geral de todas as felicidades terrenas.

Mas a rapariga é que não estava de geito para o aturar. Conhecia-lhe a maluqueira de bode raivoso e ciumento. Tinha meio de o curar, sem pau nem pedra: era deixal-o ir só. Um porco bravo assim, um bruto cujo aspecto causava medo, não servia para viver entre christãos. Fosse lá p'r'ós lobos, que eram seus iguaes.

Quão differente o outro, o seu querido! Timido e meigo como o cabrito d'um mez, assobiava e cantava modas mais bonitas que as dos melros e rouxinoes das mattas. Viver a vida com elle pelos montes, era o mesmo que passar os dias n'um céo. Ensinava tantas coisas, que não aprendera!... As cantigas da sua invenção produziam sempre tristeza branda e carinhosa. Descobria nas estrellas sitios de felicidade e apontava-os, convidando-a a voarem para lá. Podiam-se comparar os dois?... O Russo era escambroeiro aspero que rasgava as carnes; o Chico, ramo de giesta, bello, cheiroso, e flexivel. Por isso ella despediu o rude cabreiro, retorquindo-lhe á ameaça:

—Elle é isso?! Pois vae-te sósinho com Deus. Nós levamos hoje o gado p'r'á Ralada.