A mudança que é possivel na vida

Part 2

Chapter 23,849 wordsPublic domain

E na realidade viver com Cristo produziu êsse efeito. Produziu-o no caso de S. Paulo; e durante a vida de Cristo foi esta experiência demonstrada duma fórma ainda mais evidente. Alguns homens rudes, sem amenidade alguma de espírito, foram admitidos no circulo íntimo dos Seus amigos. A mudança principiou imediatamente, quasi que podemos ver como os primeiros discípulos progridem dia a dia. Primeiramente alastra-se por sobre êles uma sombra tenuissima do caráter de Cristo. Depois, começam de longe em longe, a dizerem ou a fazerem coisas que não teriam dito nem feito, se ali não vivessem. Vai-se tornando nêles cada vez mais profundo o encanto da vida de Cristo. Toda a sua indole vai pouco a pouco sendo submetida, dulcificada, santificada: as suas maneiras embrandecem, as suas palavras adóçam-se, o seu proceder torna-se mais generoso. Como andorinhas que encontram o verão, como botões de flôr enregelados que a primavera vivifica, expande-se em vida mais ampla a sua humanidade sequiosa! Sem saberem como, tornam-se diferentes e acabam por se achar, nos gestos e nas acções, semelhantes ao seu Mestre. Não pódem compreender como isso foi; ninguem lhes disse para o fazerem, fizeram-no êles instinctivamente. Mas aquêles que os observam, sabem donde isso lhes veio, e murmuram em segrêdo—«estiveram com Jesus». Já se nota nêles o cunho e o aspecto do caráter do seu Mestre—«estiveram com Jesus». Fenómeno sem igual que êstes pobres pescadores fizessem lembrar Jesus Cristo! Estupenda vitória e mistério da regeneração que homens mortais façam lembrar ao mundo—_Deus!_

Quasi que nos enternece a maneira como os Seus contemporâneos e especialmente S. João falam da influência de Cristo. S. João vivia numa perpétua admiração: estava subjugado, assombrado, extasiado, transfigurado! Segundo o seu espírito era impossivel que alguem que estivesse debaixo desta influência voltasse a ser o que era. «_Todo aquelle que permanecer junto d’Elle, não pecca_.» Era-lhe inconcebível o pecar, tão inconcebível como manter-se o gelo debaixo do sol ardente, ou coexistir a escuridão com a luz do meio-dia. Se alguem pecasse, era para S. João a prova de que nunca havia encontrado a Cristo. «_Todo aquelle que peccar não o vio nem O conheceo_.» Na presença de Cristo o pecado intimidáva-se, secávam-se-lhe as raizes, desapareciam para sempre o seu domínio e vitória.

Mas êstes eram contemporâneos de Cristo; era-lhes facil serem influenciados por Ele, pois estavam todos os dias e todo o dia juntos. Porem nós, como é que havemos de reflectir aquilo que nunca vimos? Como póde todo este assombroso resultado ser produzido por uma Memória, pela mais mesquinha das Biografias, por alguem que viveu e deixou êste mundo ha dezenove séculos? Como poderão os homens modernos fazer hoje de Cristo, de Cristo ausente, o seu mais constante companheiro? Responderêmos que a amizade é uma coisa espiritual, independente da Matéria, do Espaço e do Tempo. O que eu amo no meu amigo não é aquilo que vejo; o que do meu amigo tem influência em mim, não é o seu corpo, mas o seu espírito. Teria sido verdadeiramente inefável ter vivido naquêle tempo!

Rompe suave e rósea a madrugada ... Tinge-se o Céu de tons turqueza e oiro ... E já o bom Jesus Níveo, radiante e loiro, Como um halo de luz, Resurge ao longe na florída estrada ...

Ségue-O festiva e imensa multidão ... Por onde passa, ajoelham, lançam flôres; E em todos os caminhos Se lhe juntam mulheres, velhos, pastores ... Até crianças vão, Quais tenros cordeirinhos, Tocar-Lhe a túnica, beijar-Lhe a mão ... Mas os apóstolos, com gesto rude, Zelosos correm sobre os meninos Para afastà-los e livrar Jesus ... Porêm Ele implora-lhes numa atitude Que ao mais cioso e pertinaz seduz: «Deixai, oh! filhos meus, Que até Mim venham os pequeninos! Pois só dos inocentes Como êstes doces entes É o Reino dos Céus! Para quê afastà-los ... Se para obtermos a mansão de Deus Só temos que imità-los?»

Teria sido inefável ter vivido naquêle tempo! E todavia se Cristo tivesse de voltar ao mundo, poucos seriam os que teriam a probabilidade de O verem. Ha milhões de vassalos nêste pequeno país, que nunca viram o seu rei; e haveria milhões de vassalos de Cristo que se Ele aqui estivesse, nunca chegariam a poder falar-Lhe. A nossa intimidade com Ele é, como toda a verdadeira intimidade, uma comunhão espiritual. Toda a amizade, todo o amor, humano e divino, é puramente espiritual. Foi depois da sua Ressurreição que Ele teve maior influência, mesmo nos Seus discípulos; por isso não obsta verdadeiramente a reflectirmos o caráter de Cristo o não termos jámais estado com Ele em contacto visível.

Havia uma vez uma donzela, dotada de um caráter tão bondoso e perfeito, que era o enlevo de todos que a conheciam. Pendia-lhe do colo uma medalha de oiro, que ninguem tivera jámais a permissão de abrir. Um dia porêm, num momento de insólita confiança, deixou que uma amiga sua tocasse na mola da medalha e viesse a conhecer o segrêdo que ela encerrava. Estavam lá escritas estas palavras—«a quem eu amo, não o tendo visto.» Era êste o segrêdo da sua bela vida. Tinha sido transformada na mesma Imagem!

Ora isto não é imitação, mas uma coisa muito mais profunda. A diferença no processo, bem como no resultado, pode ser tão grande, como a que existe entre a fotografia obtida pelo infalível lapis do sol e os cortornos rudes traçados pelo giz dum rapaz da escola! A imitação é mecânica, o reflexo orgânico; uma é ocasional, o outro habitual. Num caso, o homem aproxima-se de Deus e imita-O; no outro, aproxima-se Deus do homem e imprime-se nêle!

«Fazei de Cristo o vosso companheiro mais constante»—é o que isto para nós significa na prática. Permanecei mais sob a Sua influência do que sob outra qualquer influência! Dez minutos passados todos os dias na Sua companhia, dois mesmo, se forem face a face e com o coração aberto, tornar-vos hão diferente o dia inteiro. Cada caráter tem a sua mola íntima; que seja Cristo essa mola! Cada acção tem uma nota tónica; que seja Cristo essa nota! Recebestes hoje uma certa carta, e immediatamente vos puzestes a escrever a resposta, que quasi incendiou o papel. Amontoastes nela os adjectivos mais crueis que sabieis, e enviastes essa carta, sem receio da obra desoladora que ela ia executar. Fizéste-lo, porque a vossa vida estava pósta em clave errada. Tinheis começado o dia com o espelho colocado em má posição. Amanhã, quando surgir o dia, voltai para Ele o vosso espelho, e todo o vosso aspecto mudará, até mesmo para o vosso inimigo. Seja o que fôr que fizerdes, haverá uma coisa que não poderieis ter feito—escrever aquela carta. Pode o vosso primeiro impulso ser o mesmo, pode a vossa opinião ser identica, mas se tentardes escrevê-la, a tinta secar-se-vos ha na penna e ficareis sem vos vingardes; mas ficareis tambem maior, mais Cristão! Durante todo o dia prestarão as vossas acções, mesmo nas suas mais ínfimas minudências, homenagem àquela visão da manhã. Ontem, pensastes principalmente em vós; hoje, se encontrardes pobres, darlhes heis de comer. Os que forem desamparados, os que estiverem tristes, os que íam sucumbir á tentação, reunir-se hão em volta de vós, e a todos acarinhareis. Onde estava toda esta gente ontem? Onde estão hoje, mas não os vieis; é á luz reflexa que se veem os desgraçados. A vossa alma não está hoje no logar habitual: «_estão visiveis as coisas que se não veem_.» Ha algumas horas que estais vivendo a Vida Eterna; pois a vida eterna, a vida da fé, é simplesmente a vida considerada mais elevadamente. A fé não é mais do que uma atitude, um espelho pôsto no logar devido.

Quando o dia terminar, e á noite vos puzerdes a examinà-lo, admirar-vos heis do que fizestes. Não dareis por terdes procurado, imitado ou sacrificado qualquer coisa, dareis por Cristo, dareis por Ele ter estado convôsco, por sem coacção terdes sido coagido, por a revolução se ter efectuado sem emprêgo de fôrça, sem ostentações, sem alarido. Não vos felicitareis de terdes feito alguma grande proeza, conseguido grande êxito pessoal, ou acumulado um fundo de «experiência Cristã» para tornardes a obter o mesmo resultado; o que sabeis é que existe a «glória» do Senhor. E o mundo fica-o tambem sabendo, se o resultado fôr verdadeiro; porque a olharmos para um espelho, não é o espelho que vêmos, nem é nêle que pensamos, mas naquilo que êle reflecte. O espelho só chama a atenção sobre si, quando ha nêle algumas manchas.

Que isto é real, e não imaginário, que esta vida é possivel aos homens, e que ha presentemente alguem que a viva, é simplesmente um facto biográfico. Dentre mil testemunhos não posso deixar de citar um. As palavras seguintes são duma das mais altas inteligências do século dezenove, dum homem que como poucos suportou o pêso dos encargos do seu país, e que, não no crepusculo da velhice, mas em todo o esplendor da sua glória, fez ao mundo a confissão que passo a citar com pouquissimas omissões.

«_Desejo esta noite falar um pouco, mas êsse pouco que desejo falar, é do sagrado nome de Cristo, que é a minha vida, a minha inspiração, a minha esperança e o meu apoio. Não posso deixar de me deter a olhar para o passado. E desejo dar testemunho, como se nunca o houvera feito, de que é, não só pela graça de Deus, mas pela graça de Deus manifestada em Jesus Cristo, que eu sou o que sou. Reconheço a sublimidade e a grandeza da revelação de Deus, como Eterno Pai de nós todos, como Aquêle que fez os Céus, que fundou a terra, e que olha por todas as tribus da terra, abrangendo-as na Sua universal misericordia, mas é o Deus que Se manifesta em Jesus Cristo, que Se revela pela Sua vida, que Se dá a conhecer pelos Seus sentimentos, pelas Suas palavras, e pelos Seus actos, é êsse Deus que eu desejo confessar esta noite, e de quem desejo dizer:_ =“pelo amor de Deus em Jesus Cristo, eu sou o que sou.„=

«_Se me perguntardes precisamente o que quero dizer com isto, direi francamente, que mais do que a para mim valiosa influência de meu pai ou de minha mãe, mais do que a influência social de todos os membros da casa de meu pai, e, tanto quanto o posso dizer e sentir, mais do que todas as influências sociaes de todos os géneros, foi Cristo que formou e modelou o meu espírito. Os meus ideais ocultos do que é belo provieram-me de Cristo, bem como quasi todos os meus pensamentos do que é viril, nobre e puro. Ha muitos homens que se teem educado a si próprios lendo as Vidas de Plutarco, e pondo na sua frente um ou outro daqueles varões ilustres que em diversas épocas adquiriram celebridade; e reconheceram que êsses homens célebres tiveram nêles verdadeiro poder. Eu por mim não tenho a consciência de qualquer poeta, filósofo, reformador, general, ou outro qualquer grande homem ter permanecido na minha imaginação e no meu pensamento como o puro e singelo Jesus Cristo. Ha mais de vinte e cinco anos que instintivamente recorri a Cristo afim de obter a medida e a regra para todas as minhas acções. Todas as vezes que me tem sido necessário, tenho procurado—e por ultimo quasi espontâneamente—refugiar-me na Sua intimidade, e nos primeiros tempos via-O pela fôrça da imaginação, em frente de mim, a fixar-me, meigo e sereno. Parecia quasi deslisar da Sua face a influência que me indicava o verdadeiro meio de dominar a ira, de submeter o orgulho e de vencer o egoïsmo; e foi de Jesus Cristo manifestado á minha concepção íntima, que eu hauri mais ideais, mais modêlos e mais influências, do que doutro qualquer caráter humano._»

«_E ainda ha mais. Sinto que é de Jesus Cristo que tem emanado cada pensamento que me torna o Ceu em realidade e que me suavisa a estrada que ha entre mim e o Ceu. Todas as minhas concepções dos progressos da graça na alma, todos os passos pelos quais a vida divina se desenvolve, todos os ideais que pairam por sobre a esfera bemaventurada que nos aguarda alêm da campa—tudo isto me tem sido transmitido do Salvador. A vida que agora vivo na carne, vivo-a tambem pela fé do Filho de Deus._»

«_E ainda não é tudo. A pesar do meu futuro incluir todos êstes elementos que me vão fazer da vida terrena um conjunto deleitoso, o que o verão é, comparado com todos os seus produtos terrenos—flores, folhas e ervas—é Cristo, comparado com todos os Seus produtos no meu espírito e na minha alma. Todas as virentes flores e folhas da símpatia, todas as alegrias exuberantes que do meu coração de Cristão brotam presentemente e hão de ainda vicejar no futuro, são para mim o que as flores e as folhas do verão são comparadas com o sol que vivifica o verão. Cristo é o Alfa e o Omega, o princípio e o fim da minha vida mais elevada!_»

«_Quando leio a Bíblia, aproveito muito do Velho Testamento e das passagens do Novo Testamento devidas a S. Paulo, mas a pesar de tudo, sinto que para mim o fruto da Bíblia é Cristo. É por isso que a leio, por isso que a acho digna de ser lida. Tenho sentido verdadeira sêde de ser amado de Cristo. Todos vós sabeis o que é ter sêde de amor; o nosso coração não fica satisfeito emquanto não obtêm mais do ente estremecido. Tem havido ocasiões em que tenho tido uma sêde inexprimível do amor de Cristo. Nunca é forte a minha percepção do pecado, quando penso na lei, mas é forte, quando penso no amor—se é que ha diferença entre lei e amor. Quando me aproximo de Jesus Cristo e desejo ardentemente ser amado, é que sinto mais vivamente a minha asimetria, a minha imperfeição e a minha carência absoluta de merecimentos e de virtudes. O caráter e o proceder nunca se me representam tão claramente, como quando em silencio me curvo na presença de Cristo, revelada não em cólera, mas em amor, e nunca ambiciono tanto ser amável, para poder ser amado, como quando tenho presente esta revelação de Cristo._»

«_Ao examinar aquilo que tenho experimentado, a parte da minha vida que mais me salienta, e de que me lembro com maior vivacidade, é exactamente aquela que de alguma fórma tem andado ligada a Cristo. Tudo o mais é palido e frouxo, como que nuvens a encobrirem o horizonte! Doutrinas, sistemas, medidas, métodos, como quer que se chame a necessária parte mecânica e externa da adoração;—a parte que os sentidos reconhecem—tudo parece ter emurchecido e caído, como cáiem as folhas quando o verão findou; mas a parte que me ligou poderosamente a Cristo, essa permanecerá._»

Pode alguem ouvir esta música, com a impressionante repetição do nome de Cristo, e ficar insensível á emulação, ou ao desejo de o imitar? E antes de vivermos assim, ainda não tinhamos vivido.

A primeira experiência

Reduzis então a religião a uma amizade vulgar? Amizade vulgar? Quem fala em amizade _vulgar_? É coisa que não existe. Não ha no mundo palavra mais sublime. A amizade é a coisa mais próxima da religião que nós conhecemos. Deus é amor. E pôr a religião a par da amizade é simplesmente dar-lhe a mais alta expressão que o homem pode conceber. Mas se pôr dúvidas a uma «amizade vulgar» representa um protesto contra o falar-se em termos ininteligíveis da coisa maior e mais santa que ha em religião, então receio que a objecção seja bem real. Os homens estão sempre á procura de mistério quando se fala em santificação, dalgum mistério diferente daquêle que será sempre misterioso em toda a parte em que o Espírito opére. Imaginam que ha de haver algum segrêdo, alguma experiência oculta que só os iniciados conhecem, e milhares de pessoas vão todos os Domingos á Egreja, na esperança de resolverem êsse mistério. Em reuniões de fieis e em conferências religiosas julgaram muitas vezes estarem prestes a atingí-lo, mas depois nada mais lhes foi revelado. Ao meditarem sobre livros religiosos, quantas vezes não teriam estado á beira dêsse mistério, se acaso tivessem lido mais um parágrafo! Talvez que a pagina seguinte, que a frase seguinte lhes descobrisse tudo, e seriam dali por diante levados por uma alta e poderosa corrente! Mas nada disso sucedeu. Foram lidas a frase seguinte e a página seguinte, e nada lhes foi revelado; e muito embora alimentassem sempre a esperança de verem realizado êsse seu anceio, encontrou-os o capítulo final na mesma expectativa. Porque é que nada sucedeu? Porque nada havia para suceder, nada que fosse do género daquilo que êles estavam esperando. Quando é que havemos de saber, que o nosso desejo de santidade é simplesmente o desejo de sermos semelhantes a Cristo? Quando haverêmos de substituir o aspirar fictício pelo aproximarmo-nos do Amigo Vivo? A santidade está no caráter e não na mais ou menos caprichosa disposição do espírito; e a divindade, no nosso próprio calmo temperamento humano, e não em arroubos místicos da alma!

E contudo ha pessoas que por uma razão absolutamente opósta encontram nisto pouca satisfação. Não se queixam de simplificarmos a religião demasiadamente, pondo-a ao nivel da amizade, mas queixam-se ainda de ela ser excesivamente mística. «Permanecer» em Cristo para «fazer de Cristo o nosso mais constante companheiro», é para êles o mais puro misticismo; precisam de alguma coisa absolutamente tangível e absolutamente directa. Não são as almas poéticas que procuram um sinal, um misticismo exagerado, mas as naturezas prosaicas, cuja necessidade de compreensão tem de ser satisfeita por minuciosas e matemáticas definições. Talvez porêm que não seja possivel reduzir êste problema a elementos muito mais positivos. A beleza da amizade está no seu infinito, e nunca se poderá libertar a vida inteiramente de misticismo: o nosso lar, o amor, a religião tudo está dêle impregnado. Porque é que nas relações do homem para com Jesus Cristo havemos de tropeçar no que é natural nas relações de homem para homem?

Se houver alguem que não possa conceber ou realizar o laço místico que nos prende a Cristo, o melhor que terêmos a fazer, será ajudà-lo por meio de analogias ainda mais evidentes tiradas da vida ordinária, a obter essa concepção. Como conhecemos nós Shakspeare ou Dante? Comunicando com as suas palavras e com os seus pensamentos. Ha muitas pessoas que conhecem Dante melhor do que conhecem os seus próprios pais; tem nêles maior influência, por o sentirem mais próximo como presença espiritual, e por como fôrça espiritual o realizarem melhor. Haverá alguma razão porque alguem, maior do que Shakspeare e do que Dante, que passou por êste mundo, que nos deixou grandes doutrinas e que por toda a parte tem hoje grandes obras, não haja de instruir, de inspirar e de formar os caráteres dos homens? E não limito a isto a Sua influência; é isto, e ainda mais. Jesus Cristo, longe de repudiar ou mesmo de entibiar estas relações de Amizade, foi O Próprio que no-las propoz. «_Permanecei em Mim_» quasi que foram as Suas derradeiras palavras ao mundo. E querendo dalgum modo aplanar a dificuldade dos que sentiam quanto isso era intangível, acrescentou a essas Suas palavras uma conclusão que as elucidasse: «_se permanecerdes em Mim, as Minhas palavras permanecerão em vós_.»

Começai pelas Suas palavras. As palavras não podem por muito tempo conservar-se impessoais. O próprio Jesus Cristo foi uma palavra, «_um Verbo feito Carne_.» Tornai as suas palavras Carne, fazei-as, vivei-as, e vivereis em Cristo. «Aquelle _que guardar os Meus mandamentos é que Me ama_.» Obedecei-Lhe e haveis de O amar. Permanecei junto de Ele e haveis de Lhe obedecer. _Cultivai_ a Sua amizade. Vivei segundo Cristo, no Seu Espírito, assim como na sua Presença, e será dificil pensar que mais havereis de fazer! Tomai isto pelo menos como iniciamento e introdução; e se não puderdes sentir a influência da Sua vida sobre a vossa, procurai-a tambem indirectamente. «_Toda a terra está cheia do caráter do Senhor_.» Cristo é a Luz do mundo e grande parte dessa Luz é reflectida das coisas do mundo, até das nuvens. A luz do sol fica depositada em cada folha e da folha transmite-se ao carvão, que, quando os dias são frígidos, e o sol se não enxerga, nos vem reconfortar. Cristo brilha atravez dos homens, atravez dos livros, atravez da historia, atravez da natureza, da música e da arte! Procurai-o aí. Todos os dias deveriamos ver um belo quadro, ouvir bela música, ou ler um belo poema. O verdadeiro perigo do misticismo é não o alargarmos bastante.

Não imagineis que nada sucede por vos não verdes progredir, ou por não ouvirdes o ruído do maquinismo a trabalhar. Todas as grandes coisas se desenvolvem silenciosamente! Poderêmos ver crescer um caracol, mas nunca uma criança. Darwin diz que a Evolução procede por «numerosas, succesivas e ligeiras modificações.» S. Paulo sabia isso e pô-lo na sua fórmula; o que empregou foram palavras mais belas. Disse, para consolação de todas as almas que lentamente se aperfeiçoam, que elas se transformavam «_de claridade em claridade_» isto é, de caráter em caráter. «_O homem interno_,» diz êle noutra parte, «_é renovado de dia para dia_.» Todo o trabalho perfeito é vagaroso; todo o verdadeiro desenvolvimento se efectua por meio de pequenissimas e insensiveis metamorfoses. Quanto mais elevada fôr a estructura, tanto mais demorado será o progresso! Quando o biologista percorre com o olhar a longa Escala dos Sêres vê as fórmas rudimentares dos animaes desenvolverem-se numa hora; os que se seguem a êstes alcançam pleno desenvolvimento num dia; os que lhes ficam acima levam semanas e mêses a aperfeiçoarem-se; mas os poucos que se elevam acima de todos êstes, exigem o labor de longos anos. Se uma criança e um símio nascerem no mesmo dia, o segundo estará em plena posse das suas faculdades e fazendo o trabalho activo da vida antes de a criança ter deixado o berço. A vida é o berço da eternidade! Assim como está o homem para com o animal no lento progredir da sua evolução, assim está o homem ideal para com o homem espiritualmente inculto. Teem de ser feitos com segurança os alicerces que hão de sustentar o pêso da vida eterna. O caráter tem de ser para todo o sempre; como nos havemos de admirar se êle se não pudér desenvolver num dia?

Esperar que uma alma cresça e se desenvolva, é um acto quasi divino de fé. Quão perdoável será a impaciência da própria imperfeição, a impaciência do caráter, que na presença de Cristo, se vê repelente, se vê desprezivel, a admirar, a desejar, a cubiçar ardentemente ser assim! Contudo devemos confiar no processo sem receios e sem dúvidas: «o Espírito do Senhor» fará aquilo que lhe estiver incumbido. O expediente que em busca do progresso repentino ou visível mais nos seduz, é tentarmos algum meio menos espiritual, ou impedirmos o resultado, pondo-nos á espera dos efeitos, em vez de conservarmos o olhar fito na Causa. O fotógrafo imprime da negativa só durante o tempo em que ela está exposta ao sol. Mas quando êle se põe a ver como o trabalho se faz, impede simplesmente o trabalho de se fazer. Seja qual fôr a prudente vigilancia de que a alma necessite, nunca ela poderá estar exposta demais, e estando exposta, não haverá nada no mundo que possa melhorar ou abreviar o resultado que ela tem de obter. A criação dum coração novo, a renovação dum espírito íntegro, é uma obra omnipotente de Deus; deixai-a ao Criador. «_Aquelle que começou em vós uma boa obra aperfeiçoá-la-ha até esse dia._»