A mudança que é possivel na vida
Part 3
Mas não ha ente algum, que sentindo o valor e a sublimidade daquilo que para êle é da maior magnitude, fique inerte e descure o seu próprio progresso. Tornar-mo-nos como Cristo é a única coisa no mundo digna dos nossos desvélos; a única coisa diante da qual toda a ambição humana é loucura, e vão, todo o esfôrço menos digno! Só aquêles que fazem desta aspiração o suprêmo desejo e paixão das suas vidas, é que podem começar a esperar alcançà-la. Se por isso tem até agora parecido tudo depender da passividade, permiti-me que assevere com mais ardente convicção que tudo depende da actividade. A religião da adoração sem esfôrço pode ser religião para anjos, mas não para homens. Não é a contemplar mas a agir, que ha a verdadeira esperança; não é em extases, mas na realidade, que existe a verdadeira vida; não é no reino dos ideais, mas entre as coisas tangíveis, que está a santificação do homem! A resolução, o esfôrço, a luta, a mortificação e a agonia—tudo coisas já póstas de parte, como futeis em si, teem que voltar ao seu campo de acção e que arcar com responsabilidade dez vezes maior. De que estão elas encarregadas? Nem mais nem menos do que de fazer mover a grande inércia da alma, que elas teem de colocar e manter onde as fôrças espirituais hão de vir influencià-la! Teem que reunir as fôrças da vontade; que conservar brilhante a superficie do espelho, e sustentá-lo sempre firme; e teem que descobrir a face que ha de olhar para o Senhor, repuxando-lhe para baixo o véu, quando se aproximar o que fôr profano. Talvez que já fosseis com um astrónomo vê-lo fotografar o espectro duma estrêla? Ao penetrardes na obscura quadra do Observatório víste-lo começar por acender uma vela. Para vêr a estrêla? Não; para ver o instrumento que vai dispôr, para por êle ver a estrêla. Era a estrêla que ia tirar a fotografia, mas era tambem o astrónomo, que por muito tempo levou a trabalhar na escuridão, aparafusando tubos, lustrando lentes, e dispondo reflectores, e que só depois de grande trabalho conseguiu que o instrumento perfeitamente focado começasse a funcionar. Então apagou a luz, e deixou a estrêla a fazer na chapa o seu trabalho, sósinha. A tarefa diaria do Cristão é fazer com que tambem o seu instrumento funcione; conseguido isso, pode apagar a sua vela. Todas as evidências do Cristianismo que o levaram até ali, todo o auxílio da Fé, todos os actos da Adoração, todas as fôrças poderosas da Egreja, toda a Oração e Meditação, toda a cooperação da Vontade, tudo processos de menor valor, actividades da fôrça da vela, podem nessa hora suprêma ser póstas de parte; mas lembrai-vos de que é só por uma hora! Bem avisado andará aquêle, que mais depressa acender a sua vela, ou aquêle, que nem mesmo a deixar apagar. Amanhã, daqui a um instante, pode êle, pobre alma obscurecida, maculada, precisar dela outra vez para melhor focar a Imagem, para tirar qualquer argueiro que haja na lente, para lustrar o espelho que o hálito do mundo possa ter embaciado!
Não é por causa da estrêla que carecemos de fazer qualquer modificação, pois ela é sempre um grande ponto fixo nêste universo incerto, mas _o mundo move-se_: cada dia, cada hora exige outro movimento, outra adaptação para a alma. O telescópio no Observatório vai pelo cronómetro seguindo a estrêla; o cronómetro da nossa alma é _a Vontade_. Por isso, emquanto a alma em passividade reflecte a Imagem de Cristo, a Vontade em intensa actividade mantêm o espelho firme para que qualquer movimento do mundo o não arraste para alêm da linha da visão. «Seguir Cristo» é manter a alma tão firme que já se dê o desconto ao movimento da terra; e esta propositada contra acção dos movimentos dum mundo, êste conservar o espelho bem em frente daquilo que êle reflecte, êste segurar todas as faculdades atravez de tempestades, terremotos, fogo e espada, é a estupenda colaboração da Vontade! É tudo obra de Cristo. É tudo obra do homem. Em prática são ambas; e em teoria tambem. Mas o homem sensato dirá na prática: «_de mim é que depende_.»
Ha num museu de Belas Artes em Paris uma estátua célebre. Foi a última obra dum grande génio, que como muitos outros génios era pobríssimo e vivia numa humilde mansarda, que lhe servia de casa de trabalho e de quarto de dormir. Quando a estátua estava concluida, caiu uma noite sobre Paris uma grande geada. No quarto mísero e frio jazia acordado no seu leito o pobre escultor, a pensar na argila ainda húmida da sua estátua, a pensar que a agua iria gelar-lhe nos póros, e destruir numa hora o sonho de toda a sua vida! Então o ancião ergueu-se, e tirando as roupas do próprio leito foi com elas devotamente envolver a sua obra. De manhã, quando os visinhos lhe entraram no quarto,—o escultor estava morto. Mas a estátua vivia!
A Imagem de Cristo que se está formando dentro de nós—é o suprêmo encargo da nossa vida; que êsse encargo se anteponha a todos os outros projectos nossos! Emquanto essa Imagem não estiver perfeita, não haverá obra humana que esteja terminada, religião que esteja glorificada, fim da vida que esteja preenchido! Já começou essa tarefa infinita? Quando, como, havemos de ser diferentes? O tempo não muda os homens. A morte tambem não. Mas Cristo muda-os.
Tornai-vos então _semelhantes_ a Cristo!
FIM
INDICE
PAG.
Prefácio 7
A mudança que é possivel na vida 9
A formula da Santificação 17
A alquimía da Influência 30
A primeira experiência 51
End of Project Gutenberg's A mudança que é possivel na vida, by Henry Drummond