A mudança que é possivel na vida
Part 1
A MUDANÇA QUE É POSSIVEL NA VIDA
TIPOGRAFIA DA PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA RUA AUGUSTA, 44, 46 E 48 LISBOA
EDITOR: HODDER AND STOUGHTON
A MUDANÇA QUE É POSSIVEL NA VIDA
Alocução do eminente escritor escocês HENRY DRUMMOND
Traduzido da 12.ma edição inglesa
POR M. G.
1916
“_Assim nós todos, reflectindo como um espelho a gloria do Senhor, somos transformados na mesma Imagem, de claridade em claridade, como pelo Espirito do Senhor._”
PREFÁCIO
_No outono passado encontrou o autor numa livraria da California um livrinho com o seu nome no frontispicio—livro que êle não sabia que existia, que não escrevera, nem adornara com o titulo que o encimava. Não repele porêm essa erradía publicação, extraída de apontamentos de uma alocução sua que alguem lhe ouviu e antes lhe parece ter já feito algum bem; mas devido ás imperfeições que lhe encontrou, julgou acertado fazer dela uma edição mais completa. O tema, como os outros que o precedem nesta série de alocuções, representa sómente um aspecto do vasto assunto—aquêle que é aplicável ao homem. O claro-escuro é, naturalmente, adequado a esta concepção. E pedimos á benévola atenção do leitor para se manter dentro dêstes limites, afim de não estranhar o ficarem no escuro alguns pontos que a teologia, sempre, e por direita razão, nos ensinou a fazer sobresaír._
_Uma simples prédica, que um amigo nosso dirigiu a alguns modestos habitantes duma região montanhesa, que costumamos frequentar, foi que primeiramente chamou a nossa atenção para o lado prático desta solução do problema mais importante que existe na tentativa da vida cristã._
_O que se segue, é em grande parte devido á manhã daquêle Domingo._
A mudança que é possivel na vida
«Digo alto e bom som, que se houvesse algum grande Poder, que conseguisse fazer-me pensar sempre o que é verdadeiro, e fazer o que é direito, com a condição de eu me tornar numa espécie de relógio a que se desse corda todas as manhãs, aceitaria imediatamente êsse oferecimento»
São de Huxley estas palavras. A infinita aspiração e a infinita dificuldade de se ser bom é um assunto tão antigo como a própria humanidade. Não ha ninguem de cujo sentir íntimo não tenha brotado esta confissão, e que não estivesse pronto a dar a sua vida, se lhe fosse possivel «aceitar o oferecimento» de se tornar melhor.
Vou eu propôr fazer-vos êsse oferecimento. Muito a sério, sem vos tornardes numa espécie de relógio, podeis vir a consegui-lo; pois debaixo das condições devidas é tão natural ao caráter tornar-se belo, como o é á flôr. E se não houver nêste mundo mecanismo algum que o realize, é porque ficou esquecida a dadiva suprêma, que o mundo poderia receber. Foi para isto simplesmente que o homem foi criado. Browning diz: «o homem foi feito para progredir, e não para parar» Ou nas palavras dum livro mais antigo: «_Aquelle a quem Elle primeiro conheceo, tambem predestinou para ser conformado com a Imagem de Seu Filho._»
Começarei nomeando e em parte regeitando alguns processos que se costumam empregar para obter vida mais elevada.
Estes processos estão longe de serem errados, e aplicados devidamente, podem mesmo ter bastante valor; e se nos aventuramos a deprecià-los, é por não produzirem um resultado absolutamente perfeito.
O primeiro método imperfeito é contar-se com a própria Resolução. Só na fôrça de vontade, e em periodos isolados de recolhimento espiritual, não é que está a salvação. O esfôrço, a luta, mesmo a agonia, teem o seu logar no Cristianismo, mas são aqui descabidos. Aconteceu no outro dia ficar parado no meio do Oceano o «Etruria» a bordo do qual eu viajava: tinha-se desarranjado qualquer coisa nas máquinas. Havia a bordo uns quinhentos homens válidos; julgais que se nos reunissemos todos e nos puzessemos a empurrar o mastro, impeliriamos o navio para diante? Quando qualquer de nós tenta santificar-se pelo próprio esfôrço, é o mesmo que procurar fazer andar o seu navio, empurrando o mastro com toda a fôrça. Seria como se alguem, que estivesse prestes a submergir-se, diligenciasse erguer-se para fóra da agua, agarrando pelos próprios cabelos. Jesus Cristo como que ridicularizou êste meio, dizendo: «_qual de vós pode acrescentar um covado sequer á sua estatura?_» A única redenção que ha no método de confiar no próprio esfôrço é que, os que o tentam, ficam para logo convencidos de que por esse modo nunca chegarão a atingir o seu alvo.
Mas ha quem tente outra experiência e diga: «não é êste o meio de que eu uso. Trabalho debaixo dum princípio, por ver que é loucura combater nas trevas. O meu plano não é desperdiçar a energia em tentativas de acaso, mas tão sómente concentrà-la na destruição dum único pecado. Tomando cada pecado por sua vez, e destruindo-o com tenacidade, espero chegar por fim a extirpà-los a todos.» Contra isto ha infelizmente quatro objecções. A primeira é que a vida é curta, e o número dos pecados infinito. Depois ocuparmo-nos de pecados isolados, é não querermos prescrutar o resto da nossa natureza. Em terceiro logar, o combate com um único pecado não afecta a raiz e a origem do mal; pois se fôr obstruído apenas um dos canais do pecado, aponta-nos a experiência uma inundação quasi certa por outro lado. A conversão parcial é quasi sempre acompanhada dum certo escoamento moral, porque a energia acumulada acaba por rebentar; e êste último estado da alma pode ser pior do que o primeiro. E depois a religião não consiste em fazer deter êste ou aquêle pecado; o caráter perfeito nunca poderá ser obtido por meio de _córtes_.
Ha tambem quem proclame: «Se assim é, não tentarei aniquilar os pecados um por um, praticarei exactamente o contrário: copiarei as virtudes uma por uma.» A dificuldade dêste método consiste em êle poder tornar-se mecânico; distingue-se sempre uma gravura duma pintura, uma flôr artificial duma flôr natural. Copiar as virtudes uma por uma é aproximadamente o mesmo que arrancar os vícios um por um; e o resultado é quasi sempre um caráter agitado e incongruente. Definiu alguem a pessoa vaidosa e ensoberbecida por «uma criatura que está nutrida demais para o seu tamanho». Encontram-se ás vezes Cristãos desta ordem—por um lado nutridos demais, e por o outro, miseravelmente definhados e enfraquecidos. Por exemplo, o resultado de se copiar Humildade e associà-la a uma vida de teor acentuadamente mundano, é simplesmente ridículo. Um exaltado advogado da Temperança é muitas vezes a mais ínfima das criaturas, brilhando unicamente por essa virtude e esquecendo-se totalmente de que a sua Temperança o torna pior e não melhor do que os outros. Isto são exemplos de belas virtudes, deturpadas por as associarem a vis companheiros. O caráter é uma unidade, e todas as virtudes teem de caminhar juntas para poderem formar o homem perfeito. E não obstante é êste método de santificação verdadeiro no fim a que aspira, no que é deficiente é na maneira de o executar.
Ha ainda um quarto método, que nem mesmo seria preciso nomear, pois é uma variante dos outros já mencionados. É aquêle de que se serve o adolescente, e a sua pureza de intenção faz-nos considerar quasi como uma profanação o ir tocar-lhe. É manter um livro de apontamentos para todos os dias da semana, com uma lista de virtudes, deixando entre elas espaço para se fazerem quaisquer observações. Provido de muitas regras austéras, em guisa de prefácio, conserva-se o livrinho em logar secreto, e de tempos a tempos, ao declinar do dia, vem a alma comparecer perante êle, como perante um tribunal secreto. Este viver por um código foi o método de Franklin; e creio que milhares de pessoas nos poderiam confessar que conservam penduradas no seu quarto, ou guardadas em gavetas bem seguras as regras que num dia memorável traçaram, para por elas modelarem a sua vida. Este método não é erróneo, o seu êxito é que é muito deficiente; falha geralmente por uma razão bem material—por um belo dia nos esquecermos das regras.
Todos êstes métodos de que fiz menção, o de confiar no próprio esfôrço, o de mortificar o próprio ser, o método de imitação e o do livro de apontamentos, são absolutamente humanos, absolutamente naturais, mas tambem absolutamente ignorantes e por isso mesmo absolutamente inadequados. Mas não quero dizer com isto que se devam abandonar. O mal que êles causam é antes desviar a atenção do verdadeiro método eficaz, e procurar obter um bom resultado á custa daquêle que é realmente perfeito e de passamos a tratar.
A fórmula da Santificação
Fórmula, receita, para a Santificação—poder-se ha falar a sério desta mudança formidável, como se o processo fosse tão claro e preciso como o de produzir uma certa e determinada corrente de electricidade? É impossivel duvidà-lo. Ou ha de uma experiência mecânica ter infalivelmente bom êxito, e ser de êxito duvidoso uma experiência vital da humanidade? Ha de o trigo crescer debaixo de método, e o caráter ao acaso? Se não pudermos calcular com segurança que as fôrças da religião hão de fazer a sua obra, é que a religião é um capricho; e se não pudermos exprimir por meio de palavras a lei destas fôrças, então não é o Cristianismo a religião do mundo, mas sim o seu enigma.
Mas onde se ha de ir buscar essa fórmula? Onde se vai buscar qualquer fórmula—aos tratados. Se nos voltarmos para os tratados do Cristianismo, acharêmos para êste problema uma fórmula tão clara e precisa, como as que se aplicam ás sciências mecânicas; e podemos ter a certeza de que, se esta regra fôr seguida corajosamente, dará o resultado dum caráter perfeito, exactamente como qualquer resultado, que fôr garantido pelas leis da natureza. A mais bella expressão desta regra na Escritura, ou ainda em qualquer literatura, é a que S. Paulo nos dá, condensada num único verso. Encontrà-la heis numa epístola sua—a segunda aos Coríntios, escrita por êle a alguns Cristãos que, numa cidade, que era considerada como o cúmulo da depravação e licenciosidade, procuravam vida mais elevada. É esta: «_Nós todos, com a face descoberta, reflectindo como um espelho a gloria do Senhor, somos transformados na mesma Imagem, de claridade em claridade, como pelo Espírito do Senhor._»
Observai logo no começo o desmoronamento de todos os nossos esfórços prévios pelo emprêgo do simples passivo _somos transformados_. Somos transformados, não somos nós que nos transformamos, nem ha ninguem que se possa transformar a si mesmo. Por todo o Novo Testamento achareis que sempre que são descritas estas transformações morais e espirituais estão os verbos na passiva. Devemos observar que ha nisto um alcance profundo; mas a pesar disso não punhamos violentamente de parte estas palavras, como se a passividade negasse todo o esfôrço humano, ou não quizesse admitir leis que são compreensíveis. O que aqui diz respeito á alma, não é mais do que aquilo que em toda a parte se exige para o corpo. Em fisiologia estão na passiva os verbos que descrevem os processos do crescimento; porque o crescimento não é voluntário: tem logar, sucede, está fixo á matéria. Dá-se o mesmo aqui. «_Tendes de ser gerados de novo,_» não podemos gerar-nos a nós mesmos. «_Não sejais conformados com este mundo, mas sede transformados_,»—somos sujeitos a uma influência que nos transforma, não somos nós que nos transformamos. É tão certo haver uma coisa fóra do termómetro, que produz a mudança no termómetro, como haver alguma coisa fóra da alma do homem que produz a mudança que nêle se opéra. É fóra de duvida que êle tem de ser suscetível a essa mudança e que tem de a acompanhar, mas é igualmente certo, que nem as suas faculdades, nem a sua vontade, a podem produzir. Evidente como isto deveria parecer, talvez que para muitos seja uma revelação inesperada! A mudança, que nos temos esforçado por alcançar, não a podemos produzir continuando a procurà-la; tem de nos ser imposta por mãos superiores ás nossas. Assim como o ramo se ergue, como o botão se entreabre, como o fruto se avermelha sob as influências do ar que de fóra os bafeja, assim o homem se ergue a mais elevada estatura pelas pressões invisíveis que lhe veem do exterior. O defeito radical de todos os nossos anteriores métodos de santificação foi o tentarmos gerar da parte de dentro aquilo que só nos pode ser impôsto por influências vindas de fóra. Segundo a primeira lei do movimento: cada corpo continúa no seu estado de repoiso ou de movimento em linha recta, excepto quando é compelido por «fôrças determinantes» a mudar êsse estado. Esta é tambem a primeira lei do Cristianismo: cada caráter humano fica como é, ou continúa na direcção em que está indo, até que é compelido por «fôrças determinantes» a mudar êsse estado. O nosso êrro tem sido colocarmo-nos no logar dessas fôrças. Ha o barro, e ha o Oleiro; o que nós temos procurado é que o barro seja moldado pelo próprio barro.
Donde veem então essas pressões, e onde está êsse Oleiro? A resposta da fórmula é: «_somos mudados reflectindo como um espelho a gloria do Senhor._» Mas não é muito claro. O que é a «glória» do Senhor? E como póde o homem mortal reflecti-la; como pode êsse acto como uma «fôrça determinante» amoldà-lo a uma fórma mais elevada? A palavra «glória»—a palavra que tem de suportar o pêso de manter essas «fôrças determinantes»—é estranha em linguagem comum, e o nosso primeiro dever será procurar em linguagem figurada uma que lhe seja equivalente. Traz-nos primeiro á lembrança um resplandecer, um irradiar, um deslumbrar, uma como que auréola que os antigos mestres gostavam de pintar em volta das cabeças dos seus _Ecce-Homos_! Mas isso é pintura, simbolo visível duma coisa invisível. Qual é a coisa invisível? É de todas as coisas invisíveis, a mais radiante, a mais formosa, a mais divina—é o caráter. Na terra, no Céu, não ha nada tão grande, tão glorioso! Tem muitas significações; em ética porêm só pode ter uma: a «glória» é nem mais nem menos do que o caráter. A terra está «_cheia da gloria do Senhor_» porque está cheia do seu caráter. A «_Belleza_» do Senhor é o caráter. A «_Effulgência da Sua Gloria_» é o caráter. A «_Gloria do Unigenito_» é o caráter, o caráter «_cheio de graça e de verdade_». E quando Deus disse ao Seu povo o Seu Nome, deu-lhe simplesmente o Seu caráter, que era Ele Próprio: «_E o Senhor proclamou o Nome do Senhor ... o Senhor, o Senhor Deus, cheio de misericordia e de graça, pacientissimo e abundantissimo em bondade e verdade._» Não é pois a Glória uma coisa intangível, espectral, transcendente! Se o fosse, como poderia S. Paulo pedir aos homens que a reflectissem? Despojada do seu enfaixamento fisico, é Beleza, Beleza moral e espiritual, Beleza infinitamente real, infinitamente exaltada, infinitamente próxima, e infinitamente comunicável!
Depois desta explicação lêde de novo em parafrase as palavras de S. Paulo: «Nós todos, reflectindo como um espelho o caráter de Cristo, somos transformados na mesma Imagem, de caráter em caráter»—isto é, dum pobre caráter, para outro melhor; desse melhor, para outro melhor ainda; e desse outro, para outro ainda mais completo; até que lentamente acabamos por atingir a Imagem Perfeita. Aqui a solução do problema da santificação fica concentrada numa única frase: reflecti o caráter de Cristo, e tornar-vos heis semelhantes a Cristo.
Todos os homens são como espelhos—é esta a primeira lei sobre que se baseia esta fórmula. Uma das mais apropriadas descrições do ser humano é, que êle é como um espelho. Ao sentarmo-nos á noite á nossa mesa, o mundo em que cada um de nós viveu e se moveu durante o dia, foi focado para o nosso aposento. O que nós vimos a olharmos uns para os outros, não foi êsses outros, mas o mundo dêles. Houve uma combinação de espelhos. As scenas que vimos, foram todas reproduzidas: as pessoas que encontrámos iam e vinham, falavam, saudávam-nos, passavam para diante, faziam tudo como na vida real. Quando falávamos, estavamos a olhar para o nosso próprio espelho, e a descrever o que por êle ia passando; quando escutávamos, não estavamos a ouvir, mas a vêr—a olhar para o espelho do nosso semelhante. Toda a convivência humana é uma série de coisas reflectidas. Por exemplo, encontro um estranho numa carruagem de caminho de ferro. A acentuação da sua primeira palavra diz-me logo que é inglês e que vem de Yorkshire; sem o saber, reflectiu o logar em que nasceu, quem foram os seus pais, e a longa história da sua raça. Mesmo fisiológicamente é um espelho. Depois de trocarmos algumas palavras, fico sabendo que é politico; e a ligeira inflexão com que pronuncía o nome do jornal _The Times_ revéla-me o seu partido. Nalgumas observações que faz logo a seguir, vejo reflectirem-se um sem número de coisas por que êle tem passado. Os livros que tem lido, as pessoas com quem tem convivido, as influências que o teem dominado e feito dêle o homem que é, tudo isso foi registrado por uma penna que nada deixa passar, e cuja escrita não póde ser apagada. O que eu leio nêle, está êle entretanto a ler em mim; e antes de terminada a nossa viagem poderiamos reciprocamente escrever metade da história de cada um de nós. Ou que nos agrade ou não, a verdade é que vivemos em casas de vidro, o espírito, a memória e a alma, são simplesmente vastas câmaras forradas de espelhos; e desta milagrosa combinação e faculdade é que depende a capacidade de as almas mortais «_reflectirem o caráter do Senhor_.»
Mas ainda não fica por aqui. Se todos êstes variados reflexos da nossa chamada vida interna se patenteiam assim ao mundo, quão íntima será a escrita, quão completa a anotação a dentro da própria alma! Porque as influências que encontrámos, não são apenas por um momento mantidas na superfície polida do espelho e arremessadas de novo para o espaço; não; cada uma délas é retida onde primeiro caíu, e guardada na alma para sempre.
Esta lei da Assimilação é a segunda e de todas a mais solene verdade que serve de base á fórmula da santificação—a verdade que os homens não são apenas espelhos, mas que, longe de serem simples reflectores das coisas fugitivas que veem, transferem para a sua própria substância íntima e _manteem permanentemente_ as coisas que reflectem. Ninguem sabe como a alma as póde manter, ninguem sabe como o milagre é feito, nem ha fenómeno da natureza, processo de química, ou capitulo de necromancia que nos possam sequer ajudar a compreender esta assombrosa operação. Porque, atentai bem, o passado não está sómente focado na alma do homem, _ficou_ lá. E como poderia ser dali reflectido se lá não estivesse? Todas as coisas que êle viu, soube, sentiu, creu, do mundo que o cercava, estão agora dentro dêle, tornaram-se parte dêle, e em parte são êle—que foi transformado nessa mesma imagem. Embora o queira negar, embora isso o penalize, tem de admitir que todas essas coisas lá ficaram; não, aderindo a êle, mas transfundindo-se nêle, que por si, não póde nem alterà-las, nem repelì-las, pois não estão na sua memória,—estão nêle. A sua alma é como elas a encheram, a fizeram e a deixaram. São essas coisas, êsses livros, êsses acontecimentos e essas influências que o fazem a êle; e delas dependem a vida e a morte, a beleza e a deformidade. Quando a imagem duma delas se apresenta á alma, não ha nada no mundo que possa impedir duas coisas—uma, o ela ser absorvida pela alma; a outra, o ficar para sempre reflectida no caráter, que perpétuamente reenviará êsse reflexo.
Sobre êstes assombrosos e não obstante perfeitamente claros factos psicológicos, é que S. Paulo baseia a sua doutrina da santificação. Reconhece que o caráter é uma coisa que se construe lentamente, e que, de hora para hora, póde mudar ou para melhor, ou para pior, conforme as imagens que nêle se reflectirem. Mais um passo, e a aplicação destas ideias ao problema capital da religião surgirá diante de nós em toda a sua plenitude.
A alquimía da Influência
Se os acontecimentos mudam os homens, muito mais o farão os seus próprios semelhantes. Não ha pessoa alguma que encontrando outra na rua, lhe não cause alguma impressão. Dizemos que trocamos palavras quando nos encontramos; o que nós trocamos são almas. E quando a convivência é muito íntima e frequente, tão completa é esta troca, que traços bem reconheciveis duma alma começam a aparecer na outra, que do seu lado tambem sente, que outro tanto deve á sua congénere. Quem não tem presenciado a misteriosa aproximação de duas almas? Quem não tem observado um velho par, que, de mãos dadas, veio pela vida abaixo fazendo a sua peregrinação, tão satisfeitos, tão mutuamente confiantes, que os seus próprios rôstos se assemelhavam? Não eram duas almas, mas uma alma compósita. A qualquer dos dois que se falasse, ter-se ia empregado as mesmas palavras; qualquer dos dois que respondesse, diria aproximadamente o mesmo. O reflectir constante de meio século tinha-os tornado assim: ficaram uma e a mesma imagem. É pela lei da Influência que nos _tornamos semelhantes àquêles que admiramos_; os dois velhos conjuges assemelharam-se por se terem admirado constantemente. Esta lei mantêm-se na literatura, na história e na biografia. Havia em Jonathan traços de David, e em David traços de Jonathan. Jean Valjean, na obra prima de Victor Hugo, é o Bispo Bienvenu resurgindo dos mortos. A metempsicose é um facto. O que Jorge Eliot quiz dizer ao mundo foi que os homens e as mulheres produzem outros homens e outras mulheres. Nem significa outra coisa a familia, que é o berço da humanidade. A própria sociedade não é mais do que um ponto onde convergem estas fôrças omnipotentes para realizarem a sua obra. É, em resumo, sobre a doutrina da Influência, que é construida toda a vasta pirâmide da humanidade.
Mas estava reservado a S. Paulo fazer a aplicação suprêma desta lei. Foi arrojada a ilação que êle teve que fazer, mas não era espírito que hesitasse; êle próprio era um ente transformado, e sabia perfeitamente o que nêle tinha operado essa transformação—Jesus Cristo. Encontráram-se um dia na estrada de Damasco, e desde aquela hora foi a sua vida absorvida pela de Cristo. O efeito não podia deixar de dar-se—nas palavras, nas acções, na carreira e na crença. As «fôrças determinantes» fizeram a sua obra vital: tornaram-no como Aquêle que êle tinha amado constantemente. «_Assim nós todos_, escreve êle, _reflectindo como um espelho a gloria de Cristo, somos transformados na mesma Imagem_.»
Não podia haver nada mais simples, mais inteligível, mais natural, e ao mesmo tempo mais sobrenatural. É uma analogia dum facto de todos os dias. Visto sermos o que somos pelo contacto daquêles que nos rodeiam, quem se rodeiar dos entes mais elevados, tornar-se ha mais elevado tambem. Ha homens e mulheres em cuja companhia nos sentimos melhor do que noutra qualquer; e emquanto estamos junto dêsses entes, nem temos pensamentos baixos, nem dizemos coisas mesquinhas: só a sua presença nos eleva, nos purifica, nos santifica. Todos os melhores registros da nossa natureza são pela sua convivência postos em acção, e resôa-nos dentro da alma uma música que nunca lá haviamos ouvido. Suponde que _essa_ influência se prolongaria um mês, um ano, a vida inteira, o que se não tornaria a vida então? Ha aqui sobre a comum superfície da vida, falando a nossa lingua, andando pelas nossas ruas, trabalhando ao nosso lado, verdadeiros santificadores de almas; ha aqui o Céu a penetrar pelo mísero barro terreno; e ha energias, que embora usando de simples meios temporais, estão repletas da virtude da regeneração! Se o viver com criaturas humanas, que só possuem diluída no milionéssimo grau a virtude do Altissimo nos póde elevar e purificar, que limites poderão ser postos á influência de Cristo? Viver com Sócrates—com a face descoberta—havia de nos fazer sábios; com Aristides, havia de nos fazer justos; com S. Francisco de Assis, mansos; e com Savonarola, fortes; mas ter vivido com Cristo, havia de nos ter feito como Cristo—isto é—Cristãos.