A Morte Vence

Chapter 7

Chapter 73,722 wordsPublic domain

Insensívelmente, o diálogo entre os dois tinha resvalado para um plano perigoso, e Frederico empregava esforços violentos para subtrair-se às tentações, porque começava a ter receio de dizer tudo a Júlia, de lhe confessar o seu supremo segrêdo, de lhe denunciar, com lágrimas, o seu inferno, o seu tormento de tôdas as horas. Ia-lhe fugindo a faculdade de pensar, de reflectir antecipadamente na significação das suas palavras e de calcular-lhes as conseqùências, porque erradamente supunha que o interrogatório de Júlia, tam natural, tinha qualquer cousa duma provocação.

--Mas ainda me não disse francamente se conhece alguma dessas almas--exclamou ela, de novo.

--Não conheço, mas tenho a certeza de que existem...

--Nos romances?

--Ah! nos romances, há lenda daquele príncipe que se sabia perto da mulher que amava, que lhe sentia as palpitações do coração, mas que não podia tocar-lhe nem vê-la, porque uma cortina de névoa opaca o separava dela!...

Júlia, esquecendo as mãos no regaço, olhou-o então longamente, como se quisesse compreender alguma obscuridade psicológica que pressentia: e Frederico, comprometido, levantou-se logo, rindo um riso nervoso e atalhando:

--Mas, é claro! O que os romances dizem não tem veracidade. E estas nuvens só aparecem aos príncipes e às princesas...

Dirigiu-se para a porta, resolutamente, depois de tirar um livro da estante.

--Sai?--perguntou Júlia.

--Sempre vou um pouco até ao jardim, tomar ar...

E desceu rápidamente sem se voltar, desgostoso consigo próprio, excitado, ainda no pavor da leviandade irremediável que ia cometendo. Ah! não! Aquilo não podia continuar! Era muito duro, muito cruel para êle. Agora, compreendia que o temido conflito do seu espírito com o seu instinto se daria fatalmente, se prolongasse por mais um dia, uma semana, a sua estada perto de Júlia. Chegaria uma hora de fraqueza em que a energia lhe faltasse para dominar-se. Antes de isso acontecer, fugiria para longe, tentaria esquecer. Queria ser digno de amizade de Nuno e do afecto da mulher de quem um amor infeliz o aproximara. Estava ainda a tempo! E firmemente, nesse mesmo dia, ao jantar, anunciou a sua partida inevitável, pretextando a solução urgente de negócios que não deviam ser adiados...

V

Foi num inquietante estado de alma que Frederico deixou a vivenda pacífica onde o seu sentimento fizera, inesperadamente, uma tam alarmante descoberta, regressando ao Pôrto sem um fim determinado, sem mesmo pensar na maneira de evadir-se duma intensa e amarga tortura. A certeza de que amava a mulher de Nuno com um amor que poderia levá-lo, violentamente, a todos os crimes e a tôdas as degradações da alma, obcecava-o e obrigava-o a reflectir na impureza da argila de que é formado o coração humano. Fugia de Júlia, do amigo, do repousado lar em que vivera tam plácidos dias--antes da fatalidade duma adoração que quisera evitar, a que tentou, em vão, resistir e que lentamente se lhe apoderou de todo o sêr consciente--em condições trágicas para a sua emoção. Sentia-se enfeitiçado por uma espécie de malefício ao mesmo tempo cruel e doce, que lhe causava sofrimento e saùdade e que nêle abolia o senso moral sem, no entanto, lhe conturbar a lucidez da inteligência a ponto de não discriminar entre o bem e o mal...

Durante a jornada para o Pôrto foi sobressaltado, várias vezes, por uma singular diversidade de sensações. Ia fugindo como um bandido, trémulo, aterrado, com mêdo de tudo--e porquê? Ninguêm conhecia o seu drama, bem oculto, bem recalcado dentro de si próprio--a não ser que Júlia o tivesse adivinhado, porque as mulheres; em coisas de sentimento, são subtis. Aquela deserção representava a cobardia dum homem incapaz de afrontar altivamente o primeiro perigo que diante de si imprevistamente se levantava, com a segurança de que venceria; mesmo incapaz de dominar as instigações da outra personalidade em que se desdobrava e que o concitava ao êrro, à deslealdade, à vileza, solicitando a imediata satisfação dum desejo gerado no seu egoísmo e na sua sensualidade; que se mostrava impotente para conter a expansão vertiginosa do instinto. Alucinava-o a quáse eliminação da vontade--de que o último lampejo se exaurira com a resolução de sair apressadamente da casa de Nuno, inventando um pretexto fútil em que se traíria, se o amigo não depositasse nêle a maior confiança. Raciocinando nesta leviandade, Frederico monologava, encolhido a um canto do combóio, sem mesmo espreitar rápidamente a maravilhosa paisagem, que atravessava:

--Como fui imprudente, na realidade!

E agora, que estava mais sereno, aquela imprudência atemorizava-o. Reconstituía na imaginação sobreexcitada a surprêsa de Nuno, quando lhe comunicou a resolução firme de voltar à cidade. Fixando-o com uns olhos penetrantes que o devassavam até às recônditas intimidades da consciência, êle exclamara:

--O que? Vais-te embora?

--Sim, vou!--atalhara bruscamente, com uma perturbação que o denunciava. Assuntos complicados a liquidar, um inferno...

--Homem, sê sincero. Tu o que estás é aborrecidíssimo, odiando êste cárcere, abominando esta solidão, morto por te veres de novo no ruído, no tumulto urbano...

--Mas não, mas não! Que ideia!...

Júlia expiava-o tambêm interrogadoramente, com um olhar em que à vivacidade se mesclava uma pontinha de ironia amável.

--Para que hás de negar?--insistia Nuno.

--Oh! filho, mas que impertinência tamanha, a tua!... Frederico é um homem do mundo e julga ter cumprido já os deveres da amizade para connosco, dando-nos algumas semanas da sua companhia. Se quiséssemos retê-lo aqui por mais tempo, entre estas árvores, nesta solidão, no meio dêste deserto, seria tirânico da nossa parte!--afirmara Júlia benévolamente.

--É claro--acrescentou Nuno --eu não te imponho o sacrifício de nos aturares até à consumação dos séculos... O meu despotismo não chega a tanto...

--Sacrifício?... Mas que sacrifício?... Se eu te estou a dizer...

--Bem, acabou-se!--concluiu Nuno. Parte...

--Quem sabe, de resto, se haverá na cidade algum motivo superior que o reclame a tôda a pressa?--insinuara ainda Júlia com aquele riso que era de graça, de bondade, de malícia e de doçura e que tanto encantava Frederico.

--Certamente, minha senhora... Há um motivo!--respondeu êle.

--Sentimental?--inquirira Nuno, rindo tambêm.

--Crê que estou a falar a sério!--replicara Frederico.

Propositadamente, para desviar o rumo da conversa, que o fazia sofrer e o forçava a simular para esconder uma verdade que não podia ser conhecida sem vergonha para êle, sem dor para Nuno e sem cólera amargurada para Júlia, Frederico procurou ser alegre, mas inutilmente. A intensidade da comoção experimentada crestou-lhe a floração do humorismo, tornou-o fúnebre; e as horas que se seguiram à sua decisão foram monótonas, tristes, cheias de fadiga. A cada instante, Nuno murmurava, fumando um charuto e quebrando a cinza na beira do cinzeiro de porcelana:

--Vais, então, para o Pôrto, scelerado, reentras nos teus hábitos.

Frederico notava nestas palavras de afecto, que lhe doíam como um queixume, a vaga sombra dum desconsôlo, e dizia:

--Vou, de-certo... Deveres... As obrigações primeiro e as devoções depois. O método é tudo... E tu? Ficas por aqui ainda?

--Fico. Há uma infinita multidão de factos que exigem a minha presença... Alêm disso, esta é que é a minha casa... Júlia dá-se bem. Eu passo óptimamente. Retirar-me, para quê?

--Pois olha que sou muito capaz de voltar ao calor das vossas afeições, em concluindo os meus negócios!

--Que lisonjeira mentira!--acudiu Júlia, aconchegada na sua cadeira, ainda à mesa do jantar, seguindo o diálogo com a face inclinada na mão.

--Oh! minha senhora, eu nunca minto, por princípio. Seria um pecado.

--Não! Muitas vezes, mentir por amabilidade é uma virtude que denuncia puros dons de alma.

Tornou-se impossivel animar a palestra em tôda a noite. Frederico pensava que o desalento se comunicara, como um fluido subtil e dissolvente, a Júlia e a Nuno, destruindo o gôzo espiritual daquele momento: e foi para ele um grande alívio o instante em que pôde recolher-se ao seu quarto, isolar-se, concentrar-se nas suas meditações. Deitando-se e apagando a luz, reencetou a análise da sua própria psicologia. A impressão que Júlia lhe produzia na sensibilidade era cada vez mais forte. Por enquanto, a imagem da mulher amada iluminava-se ainda de esplendor, movia-se num círculo de claridade e de pureza que o coagia a uma adoração casta. Não atravessaria a zona luminosa que o separava dela, para tocar-lhe com mãos profanas. Chegaria, porêm, uma hora de alucinação em que a generosidade e a grandeza moral que prevaleciam na sua organização desaparecessem, fundindo-se a um fogo de voluptuosidade impetuosa, e em que a sua áspera ânsia carnal, numa súbita e espontânea erupção de luxúria, o impelisse às piores injustiças, às violentas rebeliões, às brutalidades, às loucuras em que nada se respeita. Frederico temia essa hora e libertava-se, pela fuga, da sua terrível influência. Por enquanto, conservava tôda a sua energia, tôda a sua lucidez mental, podia calar-se a tempo, encerrar o seu amor secreto num silêncio impenetrável; mas não viria a perder essas faculdades redentoras se prolongasse a sua estada junto da mulher que inocentemente excitara a sua paixão? Era preciso cortar como flor venenosa o sentimento vil que lhe germinara na alma, exilar-se para longe, esquecer... Tam ardente era nêle a imaginação que lhe parecia que a voz de Júlia tremera ao ouvir-lhe anunciar a partida e que os seus imensos olhos, negros e húmidos, fazendo-se mais lânguidos e acariciadores sob as pestanas, cravando-se nos dêle, lhe pediam que ficasse, o aliciavam com promessas de tôda a sorte. Resistir aos avisos da dignidade, que o mandavam retirar sem demora, seria uma abjecção, um acto inqualificável. Êsse amor, apenas nascente, tinha para êle a sordidez, a vilania, a crápula dum incesto--porque Nuno era o seu irmão. Não reagir contra a voz secreta e criminosa do instinto puramente animal que o tentava a não sair do lado de Júlia representaria a queda num abismo insondável, a submissão que o desonraria para sempre, o remorso, uma dor futura que nem sossegaria sequer, mesmo que fôsse possível satisfazer a ignomínia da paixão que o exasperava.

--Não! Não!--murmurava Frederico, revolvendo-se no leito. Partindo, serei ainda nobre e bom.

E a bondade, para êle, era a mais pura, a mais alta manifestação da vida consciente. Alucinado por um sentimento que agitava tudo o que no seu ser de homem havia de imperfeito, de inferior, de grosseiro, sofrendo tôdas as torturas que um amor impossível e sem esperança pode fazer experimentar a um temperamento ardentemente apaixonado, Frederico sentia, como uma carícia de inexprimível enlêvo, essa bondade à sua volta, naquele calmo lar tam digno. Ela irradiava da candura dum berço onde dormia a inocência sem culpas; denunciava-se numa adoração conjugal que se perpetuava indefinidamente com o mesmo encanto do dia maravilhoso em que principiara; emanava-se de Júlia como uma espécie de imaterialidade visível e penetrava-o a êle mesmo fazendo-lhe transbordar de ternura o coração, purificando-o de pensamentos maus. Por mais duma vez--absorvido na sua meditação e louvando-se pela coragem, pela energia que revelava, afastando-se dum enlêvo que para êle condensava, nesse momento, a felicidade suprema--Frederico descobria uma desconhecida frescura de emoções novas e apaziguadoras, passava-lhe na alma um sôpro vital que o rejuvenescia. Mas êste entusiasmo era fugaz: e uma saùdade muito funda--a saùdade de tudo o que perdia--continuava a exaltá-lo.

Murmurava, na sua viagem para o Pôrto:

--Fiz, talvez, uma asneira. Desertando, demonstrei a mim próprio que sou cobarde, que tenho mêdo, que sou incapaz de resistir...

Então, arrependido, levantava-se do banco em que ia sentado, dava alguns passos nervosos no compartimento em que viajava só e assaltavam-no tentações de descer da carruagem na primeira estação e de voltar para trás, regressando a casa de Nuno e de Júlia. Logo, porém, caía em si, exclamando:

--Mas estou doido, doido! Êsse regresso seria uma revelação, uma confissão completa pelo menos para Júlia, porque nada escapa à sagacidade das mulheres, em amor.

Para se distrair, dissipar os sentimentos contraditórios que o desvairavam, curvou-se à janela da carruagem, observando o panorama que se desdobrava ao sol no esplendor das suas tintas. A manhã resplandecia como um cristal translúcido; tôdas as côres se aviventavam na radiação da luz. As forfas elegantes das árvores, que donde aonde davam sombra e manchavam de verdura os descampados, desenhavam-se com nitidez de linhas e de contornos no azul claro, e a serenidade deliciosa do céu cumunicava-se à natureza inteira. A largura infinita do espaço, mais branco para as bandas do nascente, mais anilado no alto, parecia decorada, vestida como para uma festa voluptuosa e delicada. A profundidade alvacenta e luminosa do ar que envolvia e vivificava tôdas as coisas tinha para Frederico uma novidade nunca surpreendida. Parecia-lhe que Júlia, despertando-lhe a faculdade de amar, lhe despertara tambêm a faculdade de compreender.

Lentamente foi-se-lhe atenuando nos olhos a imagem feminina que sem repouso acariciava. O fenómeno fisiológico intenso que imprimira uma completa modificação à sua consciência em horas tam ardente e dolorosamente vividas, dava agora um rumo diferente aos seus pensamentos--e isto desanuviava-o um pouco. Caía numa dessas cogitações sem objecto definido que constituem verdadeiros e inefáveis desfalecimentos de espírito...

Desejava chegar depressa ao Pôrto, reentrar na serenidade da sua vida de solteirão, mergulhar no tumulto citadino, entregar-se todo à satisfação dos seus caprichos, à sua fantasia, à multiplicidade dos seus prazeres, com a secreta esperança de esquecer completamente, de depurar-se, para ser outra vez digno do afecto de Nuno e da confiança de Júlia. Enquanto dentro de si vivesse aquele amor criminoso, julgava-se impuro:--e como impuro, não deveria pensar no regresso à vivenda do amigo, que era um templo e que a sua impureza profanaria. Foi nesta excitação que entrou no Pôrto, num sábado à tarde.

* * * * *

Começou, então, para Frederico um sombrio período do miséria moral e de sofrimento. Jàmais a sua existência lhe aparecera tam solitária, tam inútil, tam recuada das verdades construtivas e dos sentimentos renovadores. Um inexplicável desalento enchia-o de desgôsto, humilhava-o. Nunca, como nesses dias alucinantes em que, em vão, procurava aturdir-se, afundar-se na embriaguez de tôdas as excitações, Júlia lhe parcera tam desejável. Um fogo sensual muito violento ia secando nêle tôdas as fontes da virtude e da honestidade: e a sua ausência infligia-lhe fulgurantes torturas. Recordava, com uma vivacidade que lhe aumentava o padecimento, a sua graça de mulher, as perfeições do seu corpo, a doçura que a sua posse lhe transmitiria. O ciúme, que já por mais duma vez sentira por Nuno, intensificava-se. Como se na evocação das coisas amargas houvesse para a sua alma um gôzo especial, Frederico imaginava a cada momento Júlia nos braços do marido, fundindo-se ambos no mesmo beijo abrasador, dando-lhe tôda a sua carne latejante, todo o sangue das suas veias, murmurando-lhe ao ouvido tôda a sorte de meiguices em palavras entrecortadas e ternas. E via-a rolando a cabeça desfalecida no ombro de Nuno, cerrando as pálpebras num delíquio, mais côrada, com os lábios pálidos, o peito arfando apressadamente. Insurgia-se contra êste amor conjugal como se êle representasse um crime, como se exprimisse um pecado e como se fosse êle o traído... Um acesso de impaciência e de cólera interrompia este delírio dos seus sentidos. Reentrando novamente nos domínios luminosos da inteligência, Frederico exclamava:

--Preciso de reagir contra esta doença que me devasta, senão enlouqueço!

Esperava que a crise lhe concedesse tréguas, e para apressar êsse instante que seria venturoso e afável para êle, ia aos teatros, aos concertos, freqùentava as reùniões das pessoas do seu conhecimento, nunca faltava nos logares onde o mundanismo se dá _rendez-vous_: mas, nas salas de espectáculos, nos salões de baile, nas _soirées_ familiares, surpreendia-se a aguardar a entrada súbita de Júlia, radiante no esplendor duma beleza a que a vida campestre tivesse insuflado mais graça e maior poder de sedução, sem reparar em nada do que à sua volta ocorria. As senhoras achavam-no muito mudado e diziam-lho, entre ironias. Não tinha a alegria antiga, a vivacidade doutrora, era um outro Frederico sem a jovialidade que o caracterizava e o impunha às admirações.

Uma noite, em casa de D. Francisca de Medeiros, que às terças-feiras reùnia algumas famílias íntimas, a sua tristeza foi notada pelas damas com quem se entregara, em outras épocas, às suavidades do _flirt_. Uma delas, D. Felismina Trigoso, que nutrira a esperança de ser por êle amada em tempos findos de que ainda conservava a lembrança doce, surpreendendo-o a um canto a folhear uma revista ilustrada, não se conteve.

--Sabe?--exclamou ela--tôdas nós o estranhamos.

--E porquê, minha senhora?--inquiriu Frederico, fechando a revista e erguendo-se.

--Estranhamo-lo por essa melancolia, pelo desinterêsse de tudo o que o cérca, pelo isolamento em que voluntáriamente se encerra.

--É que ando a fazer um severo exame de consciência. Fui um grande pecador, e para ganhar a glória celeste, decidi fechar-me num convento, ser monge, penitenciar-me--disse êle.

--Não disfarce, não finja!

--Mas sou sincero!

--O que pretende é ocultar qualquer coisa--insistia ela.

--Ocultar o quê?

--Que sei eu? Talvez alguma paixão infeliz, algum desgôsto muito profundo.

--Ah! como é errado o seu juízo! V. Ex.^a não sabe, então, que as criaturas que se recolhem, que se isolam, que se concentram, são precisamente as felizes?

--As felizes?

--Certamente! Só a felicidade é egoísta, concentrada, e não gosta de revelar o seu gôzo interior. O sofrimento, pelo contrário, precisa das multidões, das testemunhas, para dilatar-se.

--Paradoxos...

--Não, minha senhora. V. Ex.^a não conhece, de-certo, Heraclito, um filósofo da antiguidade clássica, que, quando sofria, procurava as praças públicas, as ruas das cidades, para chorar... Se eu fôsse desgraçado...

D. Felismina ria saborosamente daquela abundante verbosidade que incitava ao humorismo pelos efeitos do contraste.

--Se fôsse desgraçado?...--interrogava ela.

--Se fôsse desgraçado, rompia aqui num chôro de tal ordem, que a policia teria de acudir!...

--Venham cá, venham cá!--chamou D. Felismina--está hoje brilhante!...

As outras senhoras acudiram, num grande rumor de riso e de sêdas amarrotadas: e D. Felismina, voltando-se para a dona da casa, murmurou:

--Tem estado a dizer-me coisas monstruosas, não calcula!...

--Sim?--atalhou D. Francisca, com um sorriso afável iluminando-lhe o rosto simpático. Então, de que falavam?

--De grandes verdades, minha senhora--respondeu Frederico. Afirmava eu que as paixões amorosas mais sérias, porque decidem de todo um destino, são as que alvorecem nos corações de cincoenta anos de idade. A snr.^a D. Felismina, porêm, é de opinião contrária e assevera que essas paixões só podem ser sentidas aos vinte anos...

--Não era de nada disso!--protestou D. Felismina. É um mistificador...

--E ainda não experimentou nenhuma, Frederico?

--Não, D. Francisca. Encontro-me na infância. Tenho apenas trinta e cinco anos, estou muito longe da minha primavera!...

O riso animou-se mais nas bôcas femininas, que louvavam tôda aquela alegria, tôda aquela mocidade de espírito, e, por momentos, Frederico atraíu as atenções; mas foi um fogo-fátuo êsse instante de jubiloso alvorôço, que se dessipou totalmente, quando D. Felismina, muito solicitada, se sentou ao piano, tocando uma página de Mendelssohn, que ela interpretava maravilhosamente.

De novo isolado e absorvido nos seus pensamentos dolorosos, folheando outra vez a revista que o fatigava de tédio e que tinha aberta sôbre uma mesa de pau preto onde, em jarras de faiança antiga, brilhantes de esmaltes e de coloridos, morriam e se desfolhavam lentamente ramos de azáleas brancas, Frederico observava aquele mundo fútil de exterioridades encantadoras e recordava-se de Júlia. O ambiente era, na verdade, elegante. O salão estava decorado com gôsto. Um tapête de tons suaves, rosa e verde-malva, amortecia o som dos passos e tornava mais confortável o compartimento; os móveis, leves e bem lançados, destacavam-so pela forma e pelos estofos que os recobriam. Sôbre um fogão de mármore, que resplandecia de brancura na crueza da luz eléctrica, um relógio de bronze, estilo Luis XIV, marcava as horas que longos ponteiros dourados indicavam num mostrador esmaltado em que corria, no esplendor das tintas, uma scena idílica, evocando as telas de António Watteau, com pares de namorados enlaçando-se sob as árvores. Ao fundo, um piano Bechstein com velas ardendo em serpentinas de prata e acendendo fulgores de chama no verniz negro da madeira, tinha uma graça ornamental pesada e imóvel. Sòbre a alcatifa, encostados dum lado e doutro às paredes, que um papel côr de ouro fosco forrava, havia enormes vasos do Japão, com figurinhas de mulheres abrigando-se do calor sob largas umbelas de sêda, penteados altos seguros por pregos de feitios bizarros e cegonhas de bico vermelho adormecendo à beira de lagos, junto de cerejeiras em flor. _Etagères_ de ricas talhas sustentavam graciosamente cristais cheios duma água que scintilava na claridade e em que esplendia a graça duma rosa ou a beleza do ramos de violetas, exalando-se em arôma. O que mais seduzia Frederico era a harmonia, a disposição bem achada de cada peça de mobiliário, contribuindo para o equilíbrio do conjunto, a correcção das linhas plásticas e decorativas. Por êste arranjo impecável, reconstituía êle a individualidade psicológica de D. Francisca, que se fanava na sua viuvez de longos anos, que devia ser inteligente, ter um sentimento acessível às emoções produzidas pela arte, possuir uma alma feita de tôdas as delicadezas e de tôdas as bondades. Para ela subiam o culto puro do seu afecto, a sua ternura de homem. Sem saber porquê, D. Francisca fazia-o lembrar com mais doçura de Júlia, que havia de ter, mais tarde, uma velhice assim, encantadora, um porte que inspirasse admiração e respeito, uns olhos em que vivessem milagrosamente as imagens dos sonhos mortos...

Num gabinete ao lado, servindo de _fumoir_ e de sala de jôgo, os homens entregavam-se com interêsse ao seu _bridge_, enquanto esperavam pela hora da debandada, discutindo, em voz baixa, escândalos sentimentais ou casos frustes de política. A atmosfera pesava, aquecida pela luz, carregada de perfumes. E a música de Mendelssohn ia dizendo, numa voz de sortilégio, a aspiração das almas pelos finos amores idealizados, tudo o que murmura nas florestas pelos crepúsculos religiosos, tudo o que suspira nas aragens, tudo o que sussurra nas fontes e nas folhagens. Conturbado, Frederico fechou a ilustração, levantou-se, deu algumas voltas, sacudido por uma emoção muito viva e muito forte...

Aquela música segeria-lhe uma outra que ouvira em casa de Nuno, por uma noite inspiradora e silenciosa, pouco depois de chegar à aldeia e de conhecer Júlia mais de perto. Nem um só pormenor lhe havia esquecido, tam violenta fôra a comoção experimentada. A sua inteligência tinha uma extraordinária argúcia. Relembrava o enlêvo daquela hora reveladora; a graça ideal do busto de Júlia, sentada ao piano; o banho luminoso que descia do candeeiro suspenso no alto e batendo em cheio na sua cabeça, aureolando-a; a ligeireza, dos seus dedos longos e brancos pousando ágilmente sôbre as teclas de marfim; o seu olhar animado e brilhante; o viço dos seus lábios vermelhos e húmidos; o jardim florindo ao luar; a massa confusa de sombra formada pelo parque, ao longe...