Chapter 6
Por nada traíria Nuno, abusando da sua hospitalidade tam carinhosa e tam franca. Não queria imitar Vaz de Sousa; não mancharia, com uma inapagável mácula, a santidade daquele lar; não toldaria a pacificação daquela morada em que se agasalhavam sentimentos perfeitos já abençoados por uma inocência angélica; não conturbaria a limpidez da sua afectividade fraterna com um punhado de lama e de vileza. Era um homem, um consciente, possuía uma dignidade, uma irredutível inteireza de carácter. De resto, Júlia, que aos dons da sua formosura aliava os dons mais nobres e elevados duma dedicação admirável, seria a primeira a repeli-lo com indignação, a execrá-lo, intimando Nuno a pô-lo fóra da porta como um ladrão que ali penetrasse para roubar uma felicidade que só a ela pertencia. E o amigo, sabendo de tudo, iria para êle com uma cólera que a imensidade da traição praticada mais avolumasse, ferozmente, as mãos crispadas, os dentes rilhados, o desvairamento homicida fulgurando nos olhos... Não era, de-certo, o temor que o fazia retroceder. Nunca fôra timorato. O que o assustava mais era a torpeza moral em que se afundaria para sempre.
--Quantos disparates a minha fantasia enfermiça arquitecta!--diria Frederico, zombando forçadamente.
Com efeito, o irremediável não se interpusera, por enquanto, entre êle, Nuno e Júlia. Podia estar absolutamente tranqùilo, sem còrar da perversidade duma acção que nem sequer se esboçava. Mas que infortúnio, o seu! O ardor dos sentidos conduzira-o a uma situação alarmante que já o fazia sofrer com amarga crueldade. Entrando naquela habitação, pela primeira vez, julgou que vinha encontrar o sossêgo de espírito, a calmaria, o repouso da alma: e, afinal, apenas encontrara uma angústia maior, uma tortura mais lancinante! Como se operara no seu ser uma transformação de tal ordem? O convívio de tôdas as horas, a ambição duma ternura igual àquela, o renascimento de ilusões que julgava extintas, deprimiram-no, certamente; o encanto que da formosura e da pureza de Júlia irradiava, penetrava-o subtilmente, contra a sua vontade, contra o seu veemente desejo. Era êle, porventura, culpado desta fatalidade? Podia ser acusado com eqùidade e justiça, pela consciência e pela inteligência que lhe formavam a individualidade psicológica e mental? De-certo que não! Êste subterfúgio apaziguava-o...
Continuava o passeio ou entregava-se, mais calmo, à leitura, olhando a vida por aspectos menos carregados. Se Nuno se demorava, ocupado pelos trabalhos que andava dirigindo, Júlia descia tambêm, um momento, ao parque, graciosa, adorável de beleza e de simplicidade. Frederico via-a avançar, com o coração pulsando desordenadamente, o sangue circulando com mais pressa nas veias e uma grande palidez no rosto. O busto de Júlia modelava-se nítidamente na leveza e na frescura duma blusa de sêda branca, deixando-lhe a descoberto o pescoço redondo, fino e alto, o princípio do colo, em que a pele se dourava à luz, uma parte dos braços que emergiam, admirávelmente contornados, da espuma de rendas das mangas: e isto provocava uma atracção irresistível, tornava mais áspera a sua ânsia. Júlia, avistando-o, ia para êle naturalmente, sem acelerar mais os passos que obedeciam ao ritmo sempre igual dos seus movimentos, falava-lhe:
--Então, para aqui só, aborrecendo-se mortalmente?...
--Oh! minha senhora, que ideia!
--Nuno sempre tem um modo de compreender a hospedagem!...
--Mas, se fui eu que não quis acompanhá-lo!... Hoje, apetece-me o isolamento.
--Tem, talvez, conversas com os espectros das suas saùdades...
--Não. Sou um esquecido do destino, um abandonado da própria saùdade. Ninguêm se interessa, por mim!
--Ninguêm?--interrogava Júlia, risonha e duvidosa.
--Ninguêm...!--afirmava Frederico, fitando-a.
Mas arrependia-se imediatamente da fixídez com que a olhava, no receio de cometer alguma grosseria que a magoasse, no susto de que o seu olhar revelasse coisas que êle nem sequer se atrevia a formular, no confuso turbilhão dos seus sentimentos--e muito perturbado, desviava a vista.
--Creio eu lá nisso!--acrescentava ela.
Numa destas ocasiões, perigosas para a serenidade de Frederico, Júlia sentou-se num outro banco, perto dêle, quis saber que livro lia, quais eram as suas leituras predilectas: e Frederico respondeu com um riso a que pretendia imprimir naturalidade:
--As minhas leituras predilectas são as biografias, a correspondência dos grandes homens, as obras de psicologia.
--Porquê, porquê?
--Porque me interessam as almas superiores...
Júlia pegou no volume que Frederico folheava, viu o título.
--Em todo o caso, lê tambêm romances!...
--Nos romances, há ainda almas, minha senhora...
--De que trata êste?
--Dum amor infeliz, dum amor que nunca se confessou, e que era incomparável de elevação, de fervor, de constância...
--Bem sei! Dum amor absurdo, dum amor que apenas existe na emoção e na ideia dos artistas... Um grande e puro amor confessa-se sempre.
--Sempre?... Eis um belo êrro!
--Ora essa! Êrro?... Não compreendo...
Para se furtar a um diálogo em que, irreflectidamente, podia traír-se, Frederico deu novo rumo à conversação.
--A uma mulher é que nunca se deve perguntar quais são os livros da sua preferência, snr.^a D. Júlia.
--Não sei porque não. Olhe, eu digo-lhe já o que prefiro, em literatura:--são os poetas líricos.
--Não se deve fazer uma tal pergunta indiscreta às senhoras, porque na selecção das leituras os espíritos femininos revelam-se.
--Ah!--atalhava Júlia. Não sabia!...
E os seus olhos negros e imensos, banhados por um claro-escuro húmido e misterioso, pousaram-se vagamente em Frederico, parecendo contemplar aparições inefáveis, longínquas, imprecisas.
--Talvez haja alguma verdade no que diz--exclamou ela.
--Creio que há tôda a verdade...
De repente, levantou-se, pousou o livro, murmurou:
--Nuno demora-se tanto!...
E sorrindo, com um enlêvo maior na voz, uma gracilidade mais animada nos gestos:
--Coitado! Anda todo apaixonado por uma obra de generosidade e de misericórdia. É um santo. A miséria da família do caseiro atormentou-o.
--Um coração de ouro!--concordava Frederico.
--Não é verdade?--atalhou ela, tôda interessada e com o reflexo dum grande contentamento na fisionomia.
--Um coração de ouro!--repetiu Frederico, pondo nas suas palavras a convicção e a sinceridade--uma alma como poucas existem!...
Júlia agradeceu-lhe com um olhar infínitamente meigo aquele justo louvor ao marido e disse afectuosamente:
--Vou até lá acima... Acompanha-me ou ainda fica por aqui, pelas espessuras, como um namorado, com as suas lembranças?
--Ainda fico, minha senhora, mas só, sem recordações, uno e indivisível, em corpo e em alma.
Soltando uma gargalhada, Júlia afastou-se vagarosamente, colhendo uma ou outra flor no caminho, cantando entre dentes, voltando-se ainda para trás e rindo sempre; e Frederico, seguindo-a com a vista, notava que junto dela, respirando o mesmo ar, o envolvia a carícia dum ambiente em que a brisa tépida e odorífera como que emanava a vaporização duma volúpia tôda esperitual em que não havia nenhuma instigação inferior da animalidade, da substância, do sangue, dos nervos. A notação fina desta particularidade tranqùilizava-o. Ah! admirava profundamente a mulher de Nuno, mas apenas porque, entre a fealdade moral da sociedade que conhecia de perto, Júlia era um dêsses raros seres dispondo do condão de reconciliarem com a espécie o homem de temperamento sensível...
Neste devaneio infindável, as horas corriam ligeiras, a tarde baixava, um arrepio friorento passava no parque, entre os troncos, fazia tremer as fôlhas pendentes. O azul, alto e brilhante, empalidecia: e Nuno, voltando das obras, com a roupa em desalinho, despenteado, as mãos cheias de terra, veio encontrá-lo ainda sentado no banco, meditando.
--Cheio de tédio, hein? Mas a culpa é tua, Frederico!--gritou êle, surgindo, de repente, do meio das árvores.
E contou-lhe então, com entusiasmo, como fôra ocupado e fértil em resultados o seu dia, a sua actividade junto dos pedreiros e dos carpinteiros, dando ordens, fornecendo indicações, esboçando projectos de trabalhos mais vastos, pedindo esclarecimentos ao vélho Mateus sôbre a lida agrícola. Até, para se exercitar, para desemperrar as articulações, tirara a enxada ao caseiro e cavara um bom bocado! Mostrava as botas enlameadas, as mãos vermelhas do exercício violento. Frederico, ouvindo-o e como se regressasse das regiões longínquas, irreais, por onde andara com a sua fantasia, atalhou:
--Pretenderás tu fazer-te lavrador tambêm?
--E porque não?--replicou Nuno, muito sério.
--Homem, isso é ainda literatura, poesia rural à maneira das _Geórgicas_...
Mas Nuno protestava, afirmava que ia pensando, realmente, em dedicar à lavoura a sua existência improdutiva, sendo assim útil a si, aos seus, à colectividade, empregando novos processos de cultura que duplicariam a fecundidade da terra, fazendo experiências em que constantemente pensava desde que se instalara na quinta.
--Porque, sabes tu? Os nossos agricultores seguem fielmente o caminho trilhado por uma rotina secular. Não querem afastar-se dêle, desdenhando as inovações que, com menos dispêndio de fôrças, aumentariam a produção e ofereceriam óptimas compensações.
--Santo Deus, como vais de-pressa!--contrariou Frederico. Mas isso é a multiplicação dos pães de que nos fala uma doce página da Bíblia. A multiplicação dos pães? Que digo eu? Trata-se dum milagre, mais considerável. Chegas, da cidade, vestido como um _dandy_, nada sabes de agricultura, ignoras mesmo como se produz a torrada que comes ao almôço, com manteiga, mas isso que importa? Tens audácia para tudo! Pegas num punhado de trigo, ao levantar do leito, tomas o teu café, fumas o teu charuto...
--Não rias, Frederico! Olha que começou, na verdade, para mim, uma vida nova...
--Espera, deixa-me acabar!... Espalhas êsse punhado de trigo ao raiar da manhã. Ao meio-dia, uma enorme messe de louras espigas ondula já à aragem, como um mar de ouro fôsco. Á tarde, chamas os ceifeiros, fazes a colheita e enches um celeiro!... É como nos contos do fadas...
-- Bem! Não há maneira de nos entendermos--concluiu Nuno. Vamos jantar. Isso é debilidade... A fraqueza excita o teu delírio.
Atravessando os arruamentos da floresta, que escureciam, o jardim, que rescendia, Frederico ainda satirizava as intenções de Nuno, afirmando:
--Se, na realidade, pensas em fazer-te lavrador, em te consagrares à terra, então sempre te digo que há tôdas as probabilidades de que venhas a arruìnar-te...
--Arruìnar-me?
--Não tenhas dúvidas! Um simples pão, que podes comprar por um vintèm em qualquer padaria, agricultado por ti, com máquinas para arar a leira, máquinas para ceifar o trigo, máquinas para a debulha, adubos químicos, outras coisas requintadas e modernas, virá a ficar-te por cinto tostões, o que é, na realidade, barato, não te parece?
Entraram em casa, conversando e rindo. Cá fóra, ao ar livre, anoitecia. O ocaso, com sua tristeza elegíaca e o vago das suas sombras, descia apressadamente. As ramagens dos arvoredos imobilizavam-se na atmosfera. Uma névoa ténue subia da terra para o alto. Das coisas inertes parecia elevar-se um confuso múrmurio que fôsse como que a confissão da natureza para Deus. As criadas acendiam as luzes, na vivenda, e as vidraças lampejavam batidas por um súbito, inesperado fulgor de ouro. Nuno e Frederico lavaram-se, vestiram-se para o jantar, aparecendo na sala já quando os esperava Júlia--e a palestra reatou-se:
--Pois, minha senhora, dou-lhe os parabens!--exclamou Frederico, sentando-se.
--Parabens, porquê?--interrogou ela.
--Nuno está decidido a integrar-se na simplicidade e na lavoura. É bem provável que esta habitação mundana venha a transformar-se em herdade, brevemente.
--Está hoje impossível, Júlia!--retorquiu Nuno. Não compreende que um janota como eu venha a ser um agricultor razoável, a fixar-se aqui definitivamente, a despir-se de todo o artifício por amor à naturalidade.
--Ouve-o? É a renovação que começa. Teremos em Nuno, dentro de pouco, o Jorge Brumell das colheitas.
--E porque não? Porque não?--perguntou Júlia, olhando demoradamente o marido.
--Tambêm V. Ex.^a?... Belo! Já está convertida. A coisa é mais importante e profunda do que eu julgava. Assisti, neste lar afável, ao nascimento duma religião nova...
A conversação alegrava-se, sob o reflexo da claridade que fazia relampejar as pratas, scintilar os cristais, alvejar mais puramente os linhos e brilhar com maior nitidez o verniz dos móveis e a coloração das flores que morriam nos solitários. A serenidade em que a vivenda adormecia era tanta que se ouviam os menores ruídos. A criada que servia à mesa, no seu severo vestido preto com punhos e gola de bretanha gomada, ia e vinha sôbre a alcatifa do corredor longo, em passos apressados e miúdos. Da cozinha chegava o rumor das palestras e da louça que se entrechocava. Cães latiam ao longe, pelos casais silenciosos. De vez em quando, o som duma viola passando para os serões ou para as desfolhadas nas eiras, sob a lua branca, poetizava, bucolizava a solidão...
No fim do jantar, Júlia levantou-se, estendendo a face a Nuno para o beijo costumado e apertando a mão de Frederico, para tratar da refeição dos servos. Os dois conservaram-se ainda sentados, fumando e divagando...
Depois, no seu quarto Frederico, sentindo um desalento inexprímivel pesar mais duramente à sua volta, na imensa melancolia dos ideais falhados, no desespêro da ansiedade que o devorava e da incerteza que o consumia, reencetou as suas lucubrações, sentando-se numa poltrona e deixando correr as infindáveis horas de pacificação exterior. O que agora temia era que nêle se viesse a dar o violento conflito do espírito e do instinto, perto de Júlia--o que seria um suplício que mais lhe atribularia a amargura de viver. Observava que já ao lado de Nuno não estava bem, que temia o desconhecido, que experimentava um constrangimento inexplicável. E porquê? De-certo que o amigo tinha para êle as mesmas delicadezas, as mesmas atenções, a mesma inefável simpatia; mas bastava que Nuno o fixasse mais detidamente para que logo julgasse que o seu olhar penetrante pretendia expiá-lo, ler-lhe na alma surpreender os sentimentos impuros que lá se geravam. Suspeitaria dalguma coisa? Teria Frederico deixado adivinhar o seu drama, por uma frase impensada, por uma palavra mais ardente de louvar a Júlia, por um estremecimento de paixão irreprimível que pusesse Nuno de sôbre-aviso? Não! Claramente, não! Tôdas as suas dúvidas nada mais representavam do que uma perversão da sensibilidade nervosa, uma alucinação dos sentidos...
Ainda não sabia se amava Júlia--porque tinha mêdo de interrogar-se; se a desejava carnalmente; se a admiração que lhe dedicava era de essência espiritual ou sensual: mas se, com efeito, era maior a perturbação que o alvoroçava, ninguêm--nem êle mesmo--conheceria êsse amor insensato, que ficaria para sempre secreto, que jàmais seria revelado!...
Enquanto scismava, a casa, sob o afago da sombra nocturna, repousava serena, como a felicidade que a habitava. Apenas do quarto, onde a ama dormia com o filho de Júlia e de Nuno vinha uma claridade dúbia da lamparina acesa, filtrando-se através das bandeiras das portas, que eram de vidro. E Frederico continuava os seus devaneios. Naquele momento, a mulher admirável para quem ascendiam, como um incenso, a sua crença pura e a sua admiração exaltada, adormecia tranqùilamente, junto do marido, tendo ainda na bôca o calor e o perfume dum profundo beijo apaixonado e genesíaco. Êsse calor rosava-lhe a pele da face, acelerava-lhe a circulação do sangue, tornava-a mais linda. Reconstituia-a no sono, a cabeça pousada sôbre a alvura do travesseiro por onde se espalhavam, como uma núvem, os seus cabelos desmanchados, o peito arfando docemente, a carne esplêndida vibrando de desejos... Impaciente, Frederico erguia-se, dava alguns passos irresolutos sôbre o tapête fôfo, e voltava a sentar-se sem poder aquietar. Sentia subir das recônditas intimidades do seu ser um ciúme horrivel pelo amigo, que fruía uma indizível ventura com a posse da mulher esplêndida (que tambêm o aliciava a ele--e com que formidável intensidade! Então, enclavinhando a mão trémula nos cabelos, Frederico revoltava-se contra si próprio.
--Que inferno êste, hein? E que abjecta criatura desperta em mim!...
Na realidade, Nuno era para êle o irmão, a amizade inquebrantável e fidelíssima, a afeição cega. Abrira-lhe confiadamente as portas do seu lar virtuoso, considerava-o como um membro da sua família, devotara-se-lhe inteiramente, mostrara-lhe a alma. E êle, correspondendo a esta confiança, a êste afecto, a esta devoção, estava ali, naquele doloroso momento de tortura, invejando-lhe criminosamente a espôsa legítima, odiando-o pelos beijos que com ela trocava, pela presença de Júlia no seu tálamo--um tálamo que a adoração mútua santificava e em que o ventre da mulher amada recebia o calor que faria germinar as vidas novas e esperançosas.
--Não! Isto é verdadeiramente infame!--exclamava Frederico, acusando-se com rancor.
Deitou-se, mas não podia dormir. A imagem de Júlia perseguia-o; a inquietação permanente irritava-lhe os nervos, exauria-o. Quáse imputava a Júlia a responsabilidade da dor fulgurante que sentia, da agitação que o alucinava; mas logo caía em si, arrependendo-se. Era injusto, inexorávelmente injusto! Ela não fizera nascer, por uma só palavra, por uma atitude suspeita, por uma irreflectida _coquetterie_, o sentimento funesto que o invadira. Frederico é que não pudera dominar-se, ser casto, ser nobre, ser refractário a um desejo vil. O culpado único do seu tormento era êle, certamente. E julgava que, por mais que sofresse, todos os seus sofrimentos não valeriam uma ligeira mágoa que pudesse causar a Júlia, se lhe revelasse o fogo em que ardia; que tôdas as suas lágrimas não valeriam uma única das lágrimas que Júlia choraria, se êle tentasse destruir-lhe uma placidez de que era tam digna, pela alma, pela bondade, pela elevação moral, pela formosura, corpórea.
Em determinados instantes, o seu cérebro tinha uma estranha lucidez. Lembrou-se, repentinamente, de factos, de acontecimentos há muito olvidados. Ocorriam-lhe trechos de leituras feitas. Recordou-se, por exemplo, de ter lido há muito tempo, num livro de que esquecera o título, esta sentença que agora solicitava particularmente a sua atenção:--«Elemento divino e principal, que a natureza produz mas que apenas a vontade aperfeiçoa, a Beleza é uma simples exteriorização da forma. Tudo é susceptível de beleza, do gesto ao acto, do olhar à palavra. Se o primeiro passo perfeito fôr o de concentrar tôdas as aspirações de beleza num sêr único, o segundo será o de preferir a beleza da alma à beleza físicamente afectiva do corpo». No delírio da sua febre, Frederico construía teorias que lhe pareciam encerrar a verdade total e que logo abandonava, como infantis: e só de manhã, quando uma luz ainda indecisa e fresca se coou através das frinchas da janela, êle conseguiu adormecer, cansado, extenuado pela vigília e pelas emoções intensas. Ao levantar-se, estava pálido, mal disposto, cheio de tédio--e pensava então que a vivenda de Nuno se lhe tornava insuportável de dia para dia...
* * * * *
Uma tarde, o amigo abalou para as obras que continuavam activamente. Ao passar no escritório de Nuno, para escolher um livro, Frederico encontrou lá Júlia, que bordava um pano de mesa, sentada à janela abrindo para o jardim e tôda ensombrada por uma trepadeira já sem flor. Frederico sentou-se tambêm, vendo-a trabalhar. Tinha um vestido preto que lhe imprimia maior destaque à brancura das carnações. Na gola da _corsage_, afogada ao pescoço, fulgurava um brilhante, irrizando-se à luz. Os seus dedos magros manejavam ágilmente a agulha. Como sempre, a noite de Frederico fôra tempestuosa, deixara-o doente e mais aborrecido. Resolvera internar-se no parque, à procura do isolamento, do sossêgo, que apaziguavam o seu frenesi: mas, deparando Júlia, experimentou logo a irresistível atracção que ela exercia sobre o seu sentimento e achou um doce sabor na sua companhia. Seguia mudamente o bordado, com a face encostada à palma da mão; e, para interromper um silêncio que lhe fazia, mal, exclamou:
--Só as senhoras teem paciência para tais tarefas...
--Questão de hábito--respondeu Júlia, sem levantar a cabeça.
--Eu era incapaz de chegar ao fim duma coisa dessas, que me parece mais fatigante e difícil do que os dôze trabalhos de Hércules... Estragava tudo, rasgava tudo...
--Jesus! Pois é assim impaciente?...--perguntou ela, fitando-o.
--Sou assim impaciente!
A radiação da luz fluida, que vinha de fóra, batia em cheio na cabeça de Júlia, aureolando-a; sôbre os ombros descaídos havia tambêm manchas luminosas. Frederico, perturbado, voltou-se para a estante, a escolher um volume.
--Que vaí ler?--interrogou Júlia.
--Sei lá! Talvez uma história triste dalguêm que nunca realizasse as suas aspirações. Estou hoje tam nervoso, tam melancólico!...
--Pois por isso mesmo, devia preferir as leituras alegres, para se desanuviar... E diga-me: Crê que haja pessoas correndo continuamente atrás dum ideal que nunca alcançam?
--Oh! de-certo que há!
--Eu julgo que essas pessoas estão fóra da realidade, e eis porque não encontram nunca o seu mundo...
A voz de Júlia tinha, no seu timbre de ouro, uma brandura acariciante. Frederico, enleado, contemplava-lhe o busto, que era admirável de proporções, a linha, a curva ondulante dos seios que se arredondavam sob os tecidos leves, o pescoço esbelto, o lóbulo das orelhas que o penteado deixava a descoberto e que era côr de rosa.
--Mesmo dentro da realidade--exclamou êle--nem sequer se podem atingir certos ideais.
A solitude em que a casa estava mergulhada assustava-o. Desejava o ruido, o barulho, tudo o que o aturdisse.
--Conhece alguns casos dêsses?--perguntou ela, mirando-o com a face tocada pela graça do riso.
Frederico sentiu uma perturbação instantânea, passou-lhe na mente uma névoa, tôda a resolução anterior se deteve no seu sêr, fez-se-lhe uma espécie de vácuo na consciência, a sua timidez aumentou. Sem poder falar claramente, gaguejava. Êste sobressalto inexplicável excitou ao mais alto ponto a curiosidade de Júlia que o envolvia com a luz dos seus olhos tam sinceros.
--Diga!...--insistiu ela.
--Talvez!--respondeu Frederico. Tenho-me entregado a êstes estudos especiais, porque o maior prazer duma alma é reconhecer outras almas belas.
--Oh! mas essas almas escapam-se a tôda a observação--atalhou Júlia.
--Não. Quando muito, constituem um mistério--mas mistério que se sente...
Desvairado, Frederico levantou-se, encaminhando-se para a porta.
--Tem que fazer?--interrogou Júlia.
--Não... Absolutamente nada.
--Então, sente-se, seja a minha companhia, se isso lhe não desagrada.
--Oh! minha senhora!...
As fontes latejavam-lhe, uma vermelhidão febril afogueava-lhe as faces, a sua respiração acelerava-se.
--E como se denunciam, às vistas perspicazes, as almas de que fala?--inquiriu Júlia, baixando o rosto sôbre o bordado.
--Pelo encanto que irradiam, pelo domínio que exercem, pela inspiração que produzem.
--Julgo que está enganado. As almas femininas, por exemplo, furtam-se às mais subtis análises. Se um homem louvar a beleza duma mulher, ela sorrirá, não se defendendo, mas ocultando-se às revelações íntimas...
--Mesmo quando ama? Sendo o amor a obra da alma, ela revela-se totalmente sob a sua influência...