Chapter 5
--Exactamente!... Com o Vaz de Sousa. Está aqui a coisa com todos os pormenores, nesta carta que me escreve o Alfredo de Oliveira.
E, para dar às suas revelações um ar mais solene e verídico, Frederico leu alguns trechos menos escabrosos.
--Ouçam, que tem graça:--«O grande escândalo da semana forneceu-o a mulher do Fernando Tôrres, a scismadora dos olhos ideais, que se safou, com tôda a semcerimónia e todo o descaramento, com o Vaz de Sousa, visita permanente dêste curioso ninho conjugal. Simpatia romântica? Admiração pelo ôlho lúbrico e pela melena do amante? Não sei! Mas o palerma do marido--que nunca percebeu que os dois há muito conjugavam o verbo inglês _To flirt_--está como uma bicha. Há miopias fatais e a de Fernando foi uma delas... Aqui tens tu!...»
Nuno, muito sério e sombrio, cofiava o bigode, enquanto Frederico lia. Júlia, emmudecida, curvada mais sôbre o piano, batia nervosamente com a ponta da unha sôbre um caderno de músicas. O silêncio tornava-se angustiado e embaraçoso para os três.
--Que fará agora Fernando?--perguntou, finalmente, Frederico, levantando-se da cadeira em que estava sentado e dando alguns passos sôbre o tapête.
--Não faz nada!--replicou Nuno. É um imbecil e, alèm disso, é um grotesco. Ainda havemos de vê-lo, outra vez, muito amigo da mulher, depois de perdoar à Madalena arrependida. Coitado, tem bom coração, é inultrapassavelmente cómico e a sua dignidade é uma hipótese...
--Crédo, Nuno!--interveio Júlia. Pois, é lá possivel?
--Com êste idiota, tôdas as vergonhas são possíveis--afirmou sêcamente.
Ergueu-se tambêm, torceu o bigode com fúria e depois, de mãos nos bolsos, parando diante de Frederico:
--Se êle fôsse, na realidade, um homem, sabes o que fazia?
--Procurava uma solução violenta...
--Tu o disseste... Porque esta traição carecia dum castigo tremendo, exemplar, moralizador. Portanto, partia atrás dos fugitivos, com um bom punhal ou uma bôa pistola, corria até os encontrar, e, seguidamente, frio, implacável como a vingança, abatia-os a tiro como dois animais malfazejos e imundos, retalhava-lhes as carnes sórdidas à punhalada, molhando bem as mãos no sangue culpado, que escorresse das feridas, para se lavar...
Nuno falava apressadamente, com uma raiva concentrada nos olhos, que fulguravam. Júlia desconhecia-lhe aquela cólera que de súbito irrompera, costumada como estava a vê-lo sempre afável, sempre terno, cheio de delicadezas e de tolerâncias para tôdas as fraquezas humanas.
--Não há nada que mais me transtorne, que me perturbe até à loucura, do que uma deslealdade--explicou êle. E neste caso, Frederico, há deslealdade e há vileza. O coração humano tem abismos de infâmia insondáveis...
Júlia levantou-se, pensativa e atribulada. Pensava na doida que um engano de amor fazia desertar do lar, para perseguir aventuras ilusórias, obrigando-a a romper com o respeito e a consideração da gente honesta, com as convenções sociais, a cobrir-se de lama, a preparar por suas próprias mãos um destino que seria doloroso e cruel. Tinha-a conhecido no colégio, outrora, na mocidade, fôra mesmo amiga dela até ao momento em que a vida as separara. E compadecida com aquele desvairamento, encontrava na sua bondade e na sua pureza um sentimento para atenuar a sua culpa.
--Vais-te?--inquiriu Nuno.
--Tenho tanto que fazer, filho!--respondeu ela.
Nuno e Frederico ficaram sós, no salão que a luz, entrando pelas vidraças descidas, alegrava. Sentaram-se em frente um do outro, reatando a conversa momentâneamente interrompida.
--Ela era uma cabeça no ar--dizia Frederico. E o ludibriado não valia mais do que a mulher.
--Todos os maridos--retorquiu Nuno com rancor--teem as mulheres que merecem; e êsse Fernandete, já depois de casado, continuava uma existência de devassidões. Ora, o casamento é um acto de responsabilidade que deve confinar-se na fidelidade mútua dos cônjuges. Fóra dêstes limites de dignidade e de nobreza, transforma-se numa miséria. Mas o que me indigna não é a fuga da adúltera. Caso banal... Ocorre constantemente... E muitas vezes, mesmo, pode até justificar-se.
--Então que é?
--Mais desprezível do que Alice e do que Fernando é êsse Vaz de Sousa, abusando duma estreita amizade e da entrada num lar que o recebia confiadamente, para praticar as suas odiosas façanhas...
--Sim, com efeito!...--aprovou Frederico.
--É reles, é dissolvente de tôda a moral.
E puxando mais a sua cadeira para junto do amigo, para que só êle o ouvisse nas confidências que ia fazer-lhe, Nuno continuou:
--O primeiro dever do homem justo é saber defender integralmente a sinceridade dos seus afectos--porque para isso pensa--e saber dominar o impulso das suas paixões bestiais--porque para isso difere dos brutos e tem uma consciência. Posso falar assim, porque já tive de repelir ásperamente dos braços a espôsa dum conhecido--um simples conhecido, nota!--que por fôrça queria enxovalhar o marido comigo.
--E quem era essa interessante dama?
--Perdoa-me. Não to digo--afirmou Nuno com energia.
--Desculpa-me... A minha curiosidade é, na verdade, irreflectida...
--Foi no último ano do nosso curso... Nunca te falei nisto, por dignidade, porque me rebaixaria. Há coisas que sujam... Mas, o mais pitoresco é que êsse marido e essa dama se transformaram, mais tarde, em meus inimigos irreconciliáveis!... Não é encantador?... Embora! Ainda hoje me louvo por esta acção, que é uma das mais belas da minha vida, Frederico!...
--Efectivamente, há beleza, há coragem, há heroísmo nela. Só conheço um acontecimento semelhante na História Sagrada--riu Frederico.
--Tu, que és justo e que és leal, vê isto:--Mete a gente, ingénuamente, na sua casa um homem que nos merece a maior confiança, para quem vai a nossa dedicação, tôda a nossa afectividade. E desde o primeiro dia em que lá entra, êsse homem, êsse amigo certo, começa a observar que a nossa espôsa é bonita e apetitosa, que deve ser tentador o sabor dos seus beijos e doce a palpitação da sua ternura. Como goza de favores que só se concedem às pessoas que verdadeiramente se estimam, há para êle as maiores deferências. Surgem as ocasiões propícias à traição, veem as intimidades, as fraquezas da mulher confiante. Diz-se-lhe uma palavra mais ousada, que lhe melindra a candura, mas que a não faz protestar. A sua passividade dá coragem ao sedutor para levar mais longe a audácia. Depois, ambos cúmplices no crime premeditado, encontram nêle solicitações cada vez mais fortes. São os sustos perto do marido que se engana abominávelmente, a suspeita de que êle venha a descobrir tudo e se vingue, os olhares medrosos que se trocam. Por fim, chega-se à quéda irremediável, a maior injúria com que se pode humilhar uma criatura. E de quem parte essa injúria? Duma pessoa indiferente ao nosso sentimento, alheia aos nossos interêsses morais, à nossa alma? De modo algum! Parte dum amigo!...
--É horrivel, na verdade!--asseverou Frederico.
--É pavoroso!
--Mas, sabes o que eu ainda não consegui entender bem, Nuno? Pois, é isto. Nos casos de adultério em que a mulher prevarica, as ironias insultantes da multidão vão para o marido. Para a prevaricadora existem a piedade e a absolvição!...
--Iniquidades sociais. A turba-multa é sempre impulsiva, injusta, não raciocina, não procura ser equitativa nos seus juízos... Mas, por isso mesmo, os traídos teem de desafrontar-se com a maior ferocidade. Eu, no logar de Fernando, matava-os! Matava-os, trucidava-os, despedaçava-os como bêstas feras!...--concluiu Nuno, rilhando os dentes de furor.
Júlia, surgindo imprevistamente, veio surpreendê-los ainda no comentário fatigante daquele escândalo clamoroso, que punha uma sombra mais negra na fisionomia de Nuno e que não deixava expandir livremente a jovialidade de Frederico.
--Então, aqui fechados, com um dia que é uma delícia, um verdadeiro dia de rosas?--exclamou ela, com uma extraordinária animação no rosto.
--Tens razão! Êsse animal do Tôrres, com as suas infelicidades caseiras, veio estragar a nossa paz de espírito--murmurou Nuno. Queres ir até lá abaixo, ao fundo da quinta, onde trago obras importantes na habitação do caseiro, Frederico? É uma diversão que nos há de fazer bem!...
--Não! Se mo permites, aproveito o tempo para pôr em ordem uma correspondência atrasada e desordenada. Olha que estou aqui, na tua hospitaleira vivenda, há duas semanas e ainda não respondi a ninguêm! Quem sabe se me julgarão morto ou exilado?
--Bem! Então vou eu. Cumpre os teus deveres de bisbilhotice.
--E eu acompanho-te, Nuno--acudiu Júlia.
--Tu? Mas é admirável a companhia. O príncipe e a princesa passarão as horas fazendo _le tour du proprietaire_ e oferecendo-se à veneração dos seus súbditos, dos seus vassalos, dos seus escravos... Então, de-pressa! Vem daí.
--Ando há tanto tempo para ir ver essa pobre gente, essa entrevada de quem me falaste, essas crianças desgraçadas...--disse Júlia, comovida.
--_Au revoir_, Frederico. E sê prolixo, homem... Olha...
Curvou-se ao ouvido do amigo, murmurou qualquer coisa que Júlia não pôde perceber, e riram ambos com alacridade. Descendo a escada, atrás da espôsa, Nuno ainda ria, jovialmente, enquanto Frederico se encerrava no escritório, diante dum tinteiro, de cadernos de papel de cartas e duma jarra com rosas frescas que Júlia tôdas as manhãs renovava para que ali houvesse continuamente graça, côr e perfume.
Sôbre a escrivaninha de pau preto com ferragens amarelas e polidas que refulgiam, brilhavam no banho fluido da claridade envolvente, havia um soberbo retrato de Júlia, representando-a vestida de baile, em corpo inteiro. A sua beleza, a-pesar-de morta na fotografia, tinira uma pureza de linhas, uma opulência de contornos, um relêvo, um esplendor indizíveis. O decote deixava a descoberto o princípio do seio, que era redondo e farto; o pescoço, desafogado da espuma das rendas, exibia uma elegância e uma nitidez impecável de modelação, tendo a gracilidade e o movimento de certos caules de flores, ondulando à aragem. Uma expressão de felicidade sem nuvens animava todo o seu rosto; e uma grande rosa prendia-se à _corsage_. Frederico esteve contemplando o retrato um instante, perdido em vagas meditações. Como ela era graciosa e divina, efectivamente! Os seus olhos tinham um encanto virginal ainda--um encanto que as lágrimas não haviam queimado. De tôda ela se exalavam, imperceptivelmente, a castidade, a sedução, a ternura. A casa estava impregnada da sua personalidade, da sua virtude, do seu enlêvo. Júlia era a bôa deusa familiar que enchia, com a sua alma, com a sua dedicação de mulher, com a sua abnegação, com o reflexo da sua formosura, aquela habitação em que um amor tam nobre vivia e se esquecia dos males da existência. E Frederico via-a sorrir ao lado de Nuno, mais presa do que nunca à sua paixão, suavizando-lhe os dias, acalmando-lhe as inquietações, assistindo à formação das suas vontades, dos seus desejos, das suas ideias, para imediatamente obedecer-lhe, oferecendo-lhe a bôca num beijo. Experimentava uma inexprimível consolação interior, pensando nela...
Ao mesmo tempo, e sem saber porquê, acudia-lhe à memória a cólera tempestuosa de Nuno, quando soube da fuga da mulher de Fernando Tôrres com o outro--uma cólera que se adensava no olhar, que ardia, que coriscava, que chamejava... Os dois amantes iriam agora, entregues ao ardor da sua volúpia pecaminosa, impura, talvez para as cidades estrangeiras onde melhor pudessem ocultar-se, na embriaguez dum gôzo que dura apenas um fugaz minuto e com que a desgraça fabrica a dor, que é eterna. Mas ao menos, considerava Frederico, seriam felizes. A si mesmo perguntava se êsse minuto, de que restaria uma perdurável recordação, não constituirá a felicidade duma vida, de duas vidas inteiras...
Para fugir ao curso mórbido das suas lucubrações, Frederico levantou-se, aproximou-se da janela, na ponta dos pés, como se temesse que o sentissem. Na radiação loura da manhã, uma alegria esparsa flutuava sôbre as coisas. De baixo, do jardim, subia um arôma adocicado. Nuno e a espôsa, de braço dado como dois namorados, afastavam-se ao longe, através dos arvoredos do parque. Por entre os troncos musgosos alvejava a brancura do vestido de Júlia--brancura que ficava pairando no ar macio... Frederico voltou a sentar-se. Uma grande, confusa tristeza abatia-se sôbre o seu coração...
IV
As primeiras manhãs de setembro tinham chegado. Emigravam as andorinhas e as rôlas bravas e no ar luminoso errava a melancolia vaga dum outono próximo. Grandes nortadas sopravam rijamente, levando através do espaço densas nuvens de poeira. Pelos arvoredos do parque, na meia tinta de luz, amareleciam as folhagens: e os crepúsculos, tendo ainda, no horizonte, reverbarações imensas, eram já um pouco húmidos. Havia, por vezes, céus brumosos que davam indeterminados longes á paisagem, tocando-a de lentos nevoeiros.
Durante todo o tempo que Frederico passara na quinta afastado da variedade e dos tumultos da vida citadina, estabelecera-se entre êle e Júlia uma estreita intimidade afectiva que mais gratas tornava as horas doces que de contínuo fugiam. Nuno andava inteiramente ocupado com as alterações a que mandara proceder nas dependências habitadas pelo caseiro, para que nelas houvesse mais confôrto e mais higiene. Interessava-o, afinal, o pobre cavador que envelhecera precocemente, nas dolorosas labutas da terra, vendo crescer à sua volta outras vidas louras, frescas e inocentes, tambêm condenadas â escravidão da gleba, e enchera-o de piedade a miséria da entrevada que no seu leito, escasso de roupas, tinha um riso de resignação, absolutamente conformada com o destino. Mesmo enfêrma, enquanto o homem, o bom Mateus, se extenuava de sol a sol, segurando entre as mãos calejadas e firmes a rabiça do arado que rasgava o seio da leiva, para fertilizá-la, ou espalhando no húmus revolvido as fecundas sementes que germinariam nas abundantes searas, remendava as roupas e dirigia o _ménage_.
--A-pesar-de doentinha--dizia uma vez o caseiro a Nuno--ainda é uma ajuda. Deus ma conserve mesmo assim, porque se morresse fazia-me grande falta...
De quando em quando Nuno, comovido, abria vagarosamente a porta cerrada, para a ver, para lhe falar. Júlia, com a sua bondade, melhorara muito a sorte da paralítica, rodeando-a de bem-estar, mandando-lhe todos os dias um alimento mais apetitoso e nutritivo: e ela, grata a estas delicadezas, não se cansava de louvar, nas suas orações ardentes, os bons senhores que ao seu lar desditoso haviam levado uma clara luz de alegria.
--Então, como vai hoje, snr.^a Teresa? Melhorsinha, não é assim?--perguntava-lhe Nuno.
--Para aqui estou à espera da minha hora! Pois, como hei de estar, se é esta a vontade de Deus?... E curtidinha de padecimentos!--respondia ela, com um fundo suspiro.
Mas logo, no seu rosto macerado e pálido se iluminava a claridade dum sorriso.
--E a senhora e o menino?--interrogava a doente.
--Estão esplèndidos. Não há mal que lhes chegue, neste paraíso. Êles qualquer dia por aí voltam a aparecer.
--Ai! Deus os guie, que bem o merecem!...
Nuno, que não queria que à roda da sua felicidade existisse gente desgraçada, ordenou a construção duma casa nova ao lado da primitiva--que se esboroava de vetustez e que vinha dos tempos longínquos em que os seus antepassados tinham adquirido aquela propriedade que constituía a parte mais vasta dos seus domínios territoriais. Alargara os estábulos para o gado, dera maior amplitude ao alpendre e à eira e procurara longe, na encosta dos montes que ficavam ao fundo da quinta, um mais farto veio de água de rega, canalizando-o, com argamassa e pedra, para as terras alugadas ao tio Mateus, que resplandecia de contentamento e que murmurava, com a face jubilosa e enrugada em que as barbas crespas encaneciam:
--Isto é o poder do mundo! As colheitas futuras hão de encher-me celeiros e tulhas!...
--Está contente?--inquiria Nuno.
--Ora! se estou contente!... Pois, o patrão faz um milagre destes e ainda me baixa a renda! Que hei de querer mais?
O caseiro, na sua gratidão, comparava a generosidade do amo com a secura do procurador, um unhas de fome que nunca lhe atendia as mínimas reclamações, que nem sequer lhe mandava concertar o telhado por onde, nos invernos agrestes, entrava a água das chuvas, e que, nos anos hostis, não lhe perdoava um ceitil.
--Se quereis conhecer o vilão metei-lhe a vara na mão--dizia o tio Mateus, lembrando-se dêsse homem de expressão dura e coração empedernido que um mês antes do pagamento do aluguer, o procurava, exclamando:
--Olhe que é daqui a trinta dias. Previno-o, para que não venha depois com desculpas.
Agora, mercê da magnanimidade de Nuno, a esperança renascia na alma do lutador destroçado que, durante uma longa existência, em vão se afadigara para que nas suas arcas o pão fôsse mais farto e que a vida amarga vencera, acabrunhando-o de tristeza. E êsse renascimento palpitava por tôda a parte, nos vergeis, nas hortas, que eram mais viçosas, nos espíritos humildes, que adquiriam maior confiança!
Entregue ao entusiasmo das suas ocupações de proprietário rural, Nuno, em certas manhãs, abalava logo depois de almôço, de charuto aceso e uma côr de saúde na face máscula, para vigiar os trabalhos. Esta actividade nova tinha para êle um grato sabor. A princípio, Frederico acompanhava-o, interessando-se tambêm por uma lide que desconhecia. Depois, porém, enfadou-se: e, sempre que o amigo o convidava para ir até ao fim da quinta, êsse enfado acentuava-se, reflectindo-se-lhe no rosto desconsolado. Acabou por desculpar-se, dizendo-lhe:
--Não! Eu fico, se a minha companhia te não é indispensável.
--Pois fica, homem. Fica e dorme!
--Eis um ideal que me encanta, Nuno. Sempre tive as melhores disposições para o sono.
Então, Frederico, penetrado pela quebreira que amolecia o ar, descia ao parque, escolhia um recanto de sombra e lá se demorava lendo um romance ou evocando as suas recordações e pensando no caso passional que o trazia inquieto. O calor, a irradiação crua do sol, faziam pesar mais o silêncio. A atmosfera resplandecia, tinha uma vibração especial no esplendor matutino da claridade. Até ao seu isolamento chegavam o chiar dos carros de bois, vergando sob a carga e atravessando os caminhos desertos, a cantiga idílica dum pastor distante, o sussurro das folhagens estremecendo ao vento, sôbre a sua cabeça. Em certos instantes, repousando das fadigas caseiras, Júlia, ao piano, tocava uma página musical que embalava suavemente a solitude. O sol saía em ondas pelas janelas abertas aos eflúvios do jardim--e a música, nesta solidão inspiradora, adquiria maior sedução e beleza. Frederico, pousando o romance, analisava o estado particular dos seus nervos. Uma grande, inexplicável lassidão prostrava-o. Sentia-se incapaz dum mais vivo esfôrço de reflexão, dum metódico exame da sua sensibilidade. Parecia-lhe que estava fóra da sua personalidade psíquica: a realidade exterior produzia-lhe uma bizarra alucinação que o transtornava; mas, neste sobressalto intimo havia, alternadamente, certos fulgores de pensamento, relâmpagos de inteligência, que lhe aumentavam a angústia e a opressão interior. Um elemento estranho, tendo qualquer coisa de violento, de obscuro e de nítido, conjuntamente, invadia-o e perturbava-o. A imagem de Júlia acudia-lhe, sem repouso, à imaginação--e notava que essa imagem era muito diferente da mulher que êle conhecia, da espôsa encantadora e virtuosa de Nuno, Atribuía êste fenómeno desconcertante a uma singularidade do seu organismo enfêrmo. Monologava, atribulado:
--Eu estarei doente, na verdade? Doente de espírito e de corpo?
Como os dias que ia vivendo, no meio duma confusão e duma agitação que lhe não davam tréguas, eram diversos dos que, dois meses antes, tinha passado naquele refúgio em que Nuno se abrigara com a sua ventura conjugal imensa! Então, tudo era paz, enlêvo, serenidade no seu coração, lucidez no seu cérebro. Compreendia mais fácilmente o espectáculo que o cercava; era mais acessível à bondade e à beleza; convalescia, sarava, uma esperança floria no seu scepticismo, e o calor dos afectos experimentados fundia dentro de si tôda a frieza e todo o egoísmo. E agora, não! A tranquilidade emotiva dos primeiros dias perdera-se completamente. Um agente mórbido, qualquer provocava nêle, de-certo, alterações profundas, transformava-o num sêr humano que o seu próprio sentido ignorava. Que doença seria essa? Física ou espiritual? E se fôsse espiritual, proviria da influência duma luz súbita, revelando aos seus olhos uma felicidade possível, ou da suspeita duma dor inevitavel? Frederico fazia estas interrogações a si próprio, sem encontrar uma resposta que o esclarecesse. No entanto, observando-se minuciosamente, era ditoso pensando em Júlia--e êste sentimento, ao mesmo tempo que o iluminava interiormente, gelava-o de terror, como se representasse um perigo imediato, uma catástrofe de que não pudesse já desviar-se. Ela era a companheira purificada e terna de Nuno, via-a ao lado do marido imersa na ventura que êle lhe oferecia, como uma flor imersa em aroma, surpreendia-os a cada passo beijando-se com transporte, apertando-se no mesmo abraço, peito contra peito, face contra face, para mais intensamente sentirem a pulsação dos corações. Frederico, absorvendo-se em ideias de que não conseguia emancipar-se e que eram a sua permanente obsessão, em sensações que o não abandonavam, ao estudar a sua psicologia com pavor de chegar a alguma conclusão que o aterrasse, murmurava, para se iludir:
--Verdadeiramente, não a amo com um amor físico. Sou-lhe apenas grato pelo encanto que me transmite e devo-lhe um reconhecimento moral a que não quero fugir.
Concentrando-se, calculava as consequências que uma adoração menos pura por Júlia provocaria fatalmente. Via-se perto de Nuno, escondendo, como um remorso ou como um crime, essa adoração que nunca revelaria e que lhe roeria a alma como os vermes roem os frutos podres, quando êle, com uma lealdade que se lhe espelhasse nos olhos e com uma amizade consolidada por longos anos de dedicação, lhe confessasse o reconhecimento que consagrava a Júlia, a claridade, o perfume, a graça que lhe trouxera a vida, a bôa fortuna que nela--na sua pureza, na sua beleza, na sua devoção--encontrara; e, raciocinando assim, como se admitisse a duplicidade do seu afecto por Nuno e do seu amor por Júlia, considerava que seria infinitamente desgraçado. Tinha mêdo dum tal desfecho: e, para se libertar de cogitações dolorosas, tentava esquecer, espairecer, distrair-se. Levantava-se, corria o parque a largos passos, sacudia com as mãos nervosas os arbustos floridos, fazendo cair nos musgos do chão um luminoso e colorido orvalho de pétalas, monologando:
--Ah! não, que horror! Não sinto ainda por Júlia uma paixão sensual, não a desejo pela carne, não me impele para ela um fogo impuro, uma fôrça abominável. Quando essa paixão chegar--se é que ela tem de vir--saberei ser enérgico, hei de dominar-me, fugir, esquecer...