A Morte Vence

Chapter 8

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Entrou na sala do jôgo, parando durante minutos. A conversa banal dos homems enfastiava, sufocava-o o cheiro do fumo. Veio novamente para junto das damas que sonhavam ainda sob a influência perturbante e emotiva da música. D. Felismina tinha acabado de tocar e sorria, cansada, encostando ao piano um braço nú, emergindo da alvura das rendas, redondo, gordo e puramente medelado. Frederico, gentilmente, cumprimentou-a.

--Sabe que é um nobre temperamento de artista?

--Ora! Gentilezas...

--Mas não, mas não! É perfeita. Não lhe parece, D. Francisca?

--De-certo! Eu acho-a admirável.

--E fica-lhe bem a modéstia--acudiu uma outra senhora, D. Maria do Céu, espôsa dum magistrado, muito nutrida, entre duas filhas magras e pálidas.

--Não é modéstia, D. Maria. É sinceridade.

--A música desperta em mim singulares comoções, fazendo aflorar tudo o que na minha organização há de mais elevado moral e mentalmente--disse ainda Frederico. É por isso que eu a considero a arte superior, pelos sentimentos e pelas ideias que inspira, quando os seus executantes lhe transmitem uma alma. E é êste, justamente, o seu caso, minha senhora.

--Para que há de zombar duma _dilettante_ sem pretenções?--exclamou D. Felismina.

--Mas então, ninguêm me acredita, mesmo se digo a verdade! Arranja fama de _blagueur_ e deita-te a dormir--comentou Frederico, risonhamente.

Demorou-se mais alguns momentos numa palestra que o aborrecia, pelo seu ar de cortesia convencional; e, por fim, despedindo-se, saíu, seguido pelo olhar de D. Felismina, que outrora galanteara, fazendo nascer na sua ternura feminina uma fina flor de ilusão. A caminho de casa, pela rua mergulhada numa meia obscuridade que mais o entristecia, Frederico meditava na sua condenação atroz e monologava:

--Como custa ser honesto!

Efectivamente, a saùdade de Júlia acompanhava-o para tôda a parte, no passeio, no teatro, nas ceias ruidosas com amigos, nas reùniões familiares, velava-lhe os sonos inquietos, seguia-o sem repouso, vigiava-lhe a formação das emoções e dos pensamentos. Não podia separar-se dela um só minuto. Sentia-a tirânicamente no coração como um remorso conjuntamente aflitivo e suave, no sangue, como um fluido que o incendiava, nos nervos. Em vão procurava libertar-se. Para a apagar no cérebro e na alma, torturava-se inutilmente. Julgava-se abandonado de tôdas as afeições, mesmo de Nuno, que nunca mais dera sinal de si, desde que Frederico deixara a quinta, no terror de praticar uma vilania. Escrevera-lhe para lá uma longa carta, narrando-lhe o repouso inolvidável das horas que perto dêle e de Júlia passara durante duas semanas, pusera nas palavras mais vibração e calor, por imaginar que também ela leria essas linhas em que o seu sentimento transbordava de gratidão, dissera-lhe a solitude e a angústia dos dias que ia vivendo na cidade, longe dum lar que lhe mostrára nítidamente a realização da felicidade terrestre--e nenhuma resposta recebera. Porquê? Traíria êle, nessa confissão ardente, um segrêdo que ninguêm devia conhecer? Suspeitaria Nuno dalguma coisa? Não teria a carta chegado ao seu destino? Estas dúvidas pungiam-no.

Enquanto caminhava, pelas ruas ermas que se esgueiravam como cobras na sombra que as fileiras irregulares de prédios projectavam nas calçadas, Frederico sentia um grande desalento subir e invadi-lo todo. Como a sua existência era estéril! Nem alegrias morais presentes nem confiança no futuro. Evocava, por uma especial associação de ideias e de sentimentos, a melancolia da sua vida desde os dias já remotos da infância, e, por instantes, todo o passado se iluminava aos seus olhos.

Aos oito anos, quando as outras crianças ricas brincavam e eram amimadas pelas mãos puras das mães, fôra êle metido num colégio como interno, depois de lhe vestirem um fardamento. No internato onde a sua meninice se enclausurara, deitava-se, levantava-se, ia para as aulas, para as refeições, para a banca de estudo, para os ócios do recreio, sempre ao toque duma sineta. A sua individualidade passiva resumia-se em obedecer; os deveres da disciplina vergavam-no, a êle que era então tam tímido, sem vontade, incapaz de rebeldias. Com que lucidez maravilhosa se lembrava duma época para êle desoladora! Não lhe escapavam os mínimos detalhes. Recordava, por exemplo, a ansiedade com que, tanto êle como os condiscípulos, esperavam a hora da folga, durante as lições enfadonhas que um homem imensamente calvo e de bigodes brancos--o snr. Justino--lhes professava. O snr. Justino tinha uma voz que soava falso, uma face engelhada, vestia um vélho _frac_ muito coçado na gola e nos cotovelos. Os seus olhos, que eram vivos e pequeninos, faíscavam por detrás dos vidros das lunetas. Nunca se irritava, era fleugmático, pachorrento, as suas palavras arrastavam-se no silêncio da sala--um silêncio tam profundo que, em junho, se ouvia o lento zumbido das moscas descrevendo, no vôo, movimentos giratórios incoerentes. Os rapazes chamavam a êste pobre professor, que era a imagem dos lutadores destroçados, o _D. Ana_. Escondendo-se com os livros abertos e postos ao alto nas carteiras, curvando o busto, deitavam a língua de fóra, faziam momices, trejeitos humorísticos, protestando assim contra a prisão nas idades em que as infâncias, como as flores, amam os grandes espaços livres, o tumulto, as indisciplinas. Por vezes, das bancadas elevava-se um murmúrio confuso, estalavam risos abafados, as solas das botas raspavam, impacientemente, o soalho frio e encardido. _D. Ana_, interrompendo a sua vagarosa exposição, erguia a cabeça, fitava um minuto os colegiais, que logo emmudeciam, atemorizados, dizia, na sua voz de falsete:

--Então, meninos! Que é isso? Mais respeito e mais atenção!...

A tranqùilidade restabelecia-se imediatamente, mas por pouco tempo. Perto de Frederico, um estudante com raras aptidões para o desenho fazia a lápis a caricatura do snr. Justino, com as lunetas dependuradas tristemente do nariz que sugeria o agudo e longo bico dum pássaro. A semelhança dos traços era flagrante e já com uma notável noção do grotesco. O caricaturista dava a sua obra humorística a Frederico, dobrada em quatro. Êle abria-a e lia por baixo da figura ridícula do mestre:--«Veja e passe adiante». Frederico via e passava, sufocando o riso na palma da mão com que comprimia a bôca. A caricatura corria assim tôdas as bancadas dum extremo ao outro, despertando as hilaridades que não podiam expandir-se e que espalhavam a inquietação, o nervosismo, a impaciência, na aula. Por vezes, o prefeito, que era muito severo e a quem os rapazes denominavam de _Mata e esfola_, surgia de repente à porta. Na sua bochecha còrada e gorda, tôda rapada, barbeada de fresco, como a dum padre, espelhava-se a indignação. Lançava um _schiu!_ muito sibilado que fazia entre os escolares o efeito duma ameaça...

Os rapazes odiavam-no, imputavam-lhe a responsabilidade de todos os castigos sofridos, a supressão da sobremesa e das liberdades do recreio, as longas e fastidiosas páginas de escrita em que se repete um verbo cem vezes--e prometiam vingar--se... Depois, _D. Ana_ terminava a lição, os livros fechavam-se de estalo, com alarido formidável, uma sineta badalava na solidão e os colegiais saltavam as carteiras, com o _bonet_ agarrado nas mãos, corriam para o jardim que floria ao sol, no esplendor das formas e das colorações, pulavam por entre os arvoredos que projectavam na areia branca do chão largas máculas de sombra oscilante.

Era a hora melhor e mais doce para os internos do Colégio. Formavam-se grupos, organizavam-se jogos, a gritaria tornava-se ensurdecedora. Dum céu muito nítido vinha uma luz muito loura que dormia pacíficamente nas clareiras. As mimosas enchiam-se de florações de ouro. Os adolescentes que pertenciam a classes mais adiantadas não se associavam aos divertimentos dos mais novos--passeavam dois a dois, liam versos rimados na solitude dos seus quartos, sonhavam com possíveis glórias literárias e tinham escondidos, entre o colchão e o enxergão das camas de ferro, que recordavam tarimbas de caserna, romances de enrêdo complicado e sensacional, que devoravam às escondidas, no refúgio dos momentos de descanso. Alguns, mesmo, ocultavam-se com as ramarias das árvores, para fumarem cigarros...

Frederico reconstituía com verdade surpreendente todos os episódios dos seus longínquos anos de colegial, sem deixar esquecido o menor detalhe. Relembrava que já nessa era remota era infeliz. Nunca pôde criar amigos entre os camaradas, que o miravam desconfiados, que se afastavam dêle, que o satirizavam. Uma vez, insurgindo-se contra estas inexplicáveis antipatias, que não provocava, teve uma grave questão com um estudante, Pedro de Menezes, contundindo-lhe a face com um forte murro. Os guardas acudiram, foi repreendido severamente pelo director do Colégio, que nem sequer escutou as suas desculpas e privado dos folguedos do recreio por tôda uma semana. O conflito, que o tornou temido, mais o incompatibilizou com os condiscípulos. Passou a ser designado pelo nome irónico de _Ferrabrás_ e repelido amargamente pelos escolares, que o detestavam...

Feitos os exames, vinham as férias, os descuidados meses de liberdade por praias, termas, quintas rurais, sem a tirania dos livros, sem os abomináveis toques da sineta, que tinham para êle o horror dum dobre a finados, sem as reprimendas dos mestres, quando as lições se não sabiam. A população do Colégio debandava alegremente. As casas ricas mandavam carros e automóveis para levar os seus; os mais modestos mandavam simplesmente um criado. Frederico ia, então, para junto da mãe, já viúva, que andava sempre vestida de preto, rezando pelos corredores ou ralhando, em voz baixa, com os servos. Chamava-se D. Isabel de Noronha e havia casado, aos trinta anos, com o capitalista Simão de Noronha, muito mais vélho do que ela e que fôra fulminado por uma congestão cerebral poucos meses depois do nascimento de Frederico, único herdeiro da sua abundante fortuna porque uma sua irmãzinha morrera aos dois anos de idade.

Dentro da casa, Frederico sentia-se mais só do que no Colégio. A mamã, absorvida nos fervores da devoção religiosa, nos ardores do seu misticismo, mal reparava nêle, e não ser para o admoestar pelo barulho que fazia na vivenda, sempre de janelas cerradas à luz exterior, como se lá dentro se chorasse uma desdita permanente, como se a morte a povoasse. De manhã e à noite, ao levantar do leito e ao deitar-se, Frederico aproximava, com indiferença, o rosto da bôca materna e recebia um beijo frio e rápido. No fim do almôço, do jantar e depois do chá, ela obrigava-o a rezar, de pé, junto da mesa e de mãos postas, pela glória de todos os santos mencionados na _Legenda Dourada_, de Voragine, que tinha sempre sôbre a mesinha de cabeceira, perto dum castiçal de prata.

De vez em quando, vinham visitas, quáse sempre senhoras idosas tambêm severamente vestidas de preto, com quem D. Isabel se fechava, no oratório da casa, durante horas seguidas. Nestas ocasiões, Frederico fruía uma liberdade mais larga. Descia à cozinha, palrava com as criadas que se riam muito das suas diabruras, jogava o arco nos arruamentos do jardim... Depois, as férias acabavam, a mamã reforçava o enxoval, puxava-o para junto do peito sêco em que nenhum desejo profano arfava--rosando-lhe as carnes duma ponta de sangue mais vivo--despedia-se dêle com o mesmo beijo frio que lhe causava arrepios, murmurava em voz sumida:

--Vê se tens juízo... Porta-te bem.

Frederico regressava jovialmente ao Colégio, de que já tinha saùdades, e ouvia os seus condiscípulos, com inveja e tristeza, narrarem uns aos outros o encanto das vilegiaturas por estâncias de águas e estâncias marítimas, das pequenas viagens recreativas com a família, das reùniões e das danças nos Casinos, onde alguns tinham arranjado namoros.

--E tu, _Ferrabrás_, onde passaste o verão?--perguntavam-lhe.

Frederico, por vergonha, para não ser humilhado, tinha vontade de mentir, inventando digressões maravilhosas; mas a mentira repugnava-lhe. Calava-se, ruborizado, afastando-se dos camaradas...

Mais tarde, concluiu os preparatórios, a mamã morreu duma doença do coração, foi nomeado um tutor para administrar os seus bens, aumentados considerávelmente pela viúva que vivia parcimoniosamente, que abominava o luxo como se êle representasse ou um pecado ou um escândalo.

Na Academia Politécnica travou conhecimento com Nuno, que como êle tirava o curso de engenharia, que era igualmente rico e órfão. As suas relações estreitaram-se mais de dia para dia, talvez por esta coincidência que os identificava. Aproximava-os uma singular semelhança de infortúnios, de temperamento e de carácter e foram, durante seis anos, como dois bons irmãos. Nunca no afecto de ambos se levantou uma discórdia que os separasse um instante... E era êste o tempo mais doce e mais feliz da sua existència de homem, pelo menos aquele de que se recordava com maior ternura. Mas Nuno, uma vez, anunciou-lhe o seu casamento. Estavam, então, em Vizela, tôdas as noites se dançava no salão do hotel, e todos os dias se passeava no parque, se organizavam merendas no alto das serras, gericadas, barcarolas, no rio, ao som de guitarras românticas. Frederico assistiu à lenta formação do amor que encheu o coração de Nuno, que o levou para a felicidade conjugal, para as bemditas alegrias da paternidade, para os deveres e para as sérias responsabilidades da vida familiar. A princípio, tomou a inclinação do amigo por Júlia como um banal _flirt_, como um capricho de que nada restaria quando cada um fôsse para o seu lado. Depois, vendo-o desinteressado de tudo quanto não fôsse Júlia--que fielmente acompanhava para tôda a parte, com quem tôda a noite valsava ou conversava, em quem falava contínuamente como se ela representasse o símbolo das suas mais belas aspirações--sentiu que Nuno estava bem preso e bem apaixonado e que o desfêcho lógico daquele namôro seria o casamento. A partir de então, a sua vida fez-se mais solitária e mais despegada, os seus entusiasmos arrefeceram, perdeu tôdas as suas galvanizadoras confianças. Nesta solitude, porêm, era ainda relativamente feliz, até ao momento em que Nuno teve a má ideia de aproximá-lo de Júlia, já mãe.

--E aqui está--murmurou êle com infinita desolação--o que um amor sem esperança pode fazer dum homem!... Que sorte!...

No ermo da sua casa desabitada, Frederico, no enorme silêncio que invadia os longos corredores, as salas sombrias com um desagradável cheiro e bafio, sentia tôda a imensidade da sua derrota. Era um vencido. Para êle, o futuro não tinha horizontes luminosos, desde que uma adoração impura, penetrando-lhe insidiosamente na alma e incitando-o a trair uma amizade fraternal, lhe cortara toda a possibilidade de vir a amar com paixão e pureza uma outra mulher que não fôsse Júlia. Revoltava-se contra aquela adoração, acusava-se a si próprio por não ter sabido manter uma absoluta impassibilidade de sentimento diante da espôsa de Nuno. A fatalidade pesava sôbre o seu destino, sôbre o seu coração, que empolgava com mão de ferro.

--Mas serei eu o único responsavel?-- monologava.

E, na sua dor, alucinado por uma perturbação que lhe toldava o cérebro e a noção da equidade, quáse que responsabilizava Júlia pela sua beleza aliciante, pela sua superioridade de mulher e pelas suas admiráveis virtudes.

VI

Não podendo viver tranqùilamente perto de Júlia, com o seu segrêdo sempre oculto, nem longe dela, com a angústia interior que o devorava, Frederico procurou aturdir-se na febre duma vida em que se esquecesse, que o consumisse lentamente e em que corrompesse a parte pura do espírito, excitando a sua avidez de prazer nos delírios das paixões voluptuosas. Queria libertar-se dum suplício que tanto lhe atribulava a existência. A fatalidade retinha-o entre o amor e os deveres da lealdade para com um homem que era, mais do que o seu amigo, a única pessoa a quem consagrava um afecto profundo. Se, numa alucinação, obedecesse aos impulsos desordenados e abomináveis do instinto carnal, mancharia a limpidez do seu sentimento afectivo: e, só de pensar na possibilidade dum arrebatamento que o levasse a confessar a Júlia a sua adoração pecaminosa--que ela, de-certo, repeliria indignadamente, porque era pura, honesta e refractária às tentações criminosas--uma dor muito funda agravava a sua exaltação física e o seu desequilíbrio emocional...

Notava, em todo o caso, que se tivesse a coragem, a audácia e o cinismo de praticar uma acção vil, não seria o padecimento de Júlia que mais vivamente o pungiria, causando-lhe mágoa e comiseração. A sua piedade ia tôda para Nuno, tam leal, tam comovido de bondade, dotado dum carácter do melhor ouro. Na sua perturbação, imaginava, por vezes, que todo o mal estava feito, que a situação criada pela sua loucura amorosa era já irremediável:--e concentrava-se, transido, para melhor reconstituir a figura de Nuno, no instante em que conhecesse o duplo ultraje à sua dignidade de marido e à sua honra de homem, errando alucinado pela casa erma, barafustando cheio de cóleras vingadoras, ferido na sua alma e na sua confiança, devastado, com a morte no coração e o calor da vergonha nas faces, acusando-o a êle com mais fulgurante raiva do que à espôsa, procurando-o por tôda a parte para lavar com sangue a afronta e a humilhação que o tinham maculado e coberto de escárnio. Então, diante dêste sofrimento, Frederico, espavorido, passava a mão trémula pelos cabelos, agitava-se violentamente para entrar na realidade das coisas, murmurava:

--É horrível, horrível!...

Readquirindo a serenidade e a lucidez, considerava como o seu crime seria monstruoso e sem perdão se êle não soubesse reagir vitoriosamente contra a fraqueza dos sentidos. Mas reagiria a todo o transe, muito emhora a reacção o fizesse sofrer, afirmava Frederico a si próprio:--e parecia-lhe que a sinceridade com que se defendia de desfalecimentos de energia atenuava a imensidade da sua falta.

Foi numa destas crises fulgurantes, repetidas vezes provocadas pela desordem da sua conduta, que Frederico decidiu fugir da inquietação e do remorso, mergulhando na embriaguez dos gozos que a fonte impura dos vícios lhe oferecia como consolação lógica e única da sua singular doença. Ainda a princípio pensou que entregando-se, com delírio, à deliqùescència de todos os abusos, se tornaria indigno da amizade de Nuno e do afecto de Júlia: mas, no seu romantismo, sentia um júbilo íntimo em degradar-se por ela, em descer aos pântanos das misérias morais, erguendo sempre os olhos em èxtase para a mulher intensamente amada através de tudo, como os ergueria para uma claridade purificadora e divina.

Orgulhoso e curioso dos seus actos, havia de ir até ao fim, embora o caminho fosse errado e nêle se transviasse--porque era incapaz de conceber abnegações por si próprio.

Perturbado e cheio de confusão por esta ideia fixa, Frederico, que durante muitas semanas viveu completamente isolado, começou a aparecer de repente em tôda a parte, a freqùentar os cafés e os Clubes. Era novo, era rico, sabia insinuar-se, aliciar. Na roda dos seus conhecimentos houve espanto.

A ressurreição foi saùdada com ruidosa alegria, e logo alguns rapazes resolveram solenizar o acontecimento extraordinário com uma ceia em que o _champagne_ festivamente estalasse e a _verve_ corresse com uma scintilação dourada sob a brancura da luz eléctrica. Alberto de Sequeira, que trazia no dedo um grande anel brazonado e se vangloriava de pertencer às raças finas, desejava um banquete sério e decente, em que os convivas fôssem de casaca, correctos e irrepreensíveis, como para uma mesa em que estivessem duquesas.

--Vejam que devemos isto a Frederico e a nós, à nossa classe social, à nobreza das nossas estirpes--comentou êle.

O Paiva, toureiro amador e guitarrista, insurgiu-se, porêm, muito desdenhoso de fidalguias e pragmáticas, bradando:

--Não, senhor! Nada disso. Trata-se duma festa pagã, para comemorar a volta à estúrdia e à pândega dum companheiro. Temos, portanto, de meter-lhe paganismo:--a rabona igualitária, a ninfa de gordos braços, lânguidos olhos e saborosos beijos. Olha agora a casaca! Não querem ver? Palavra de honra, é escandaloso!...

--Sim, é claro! Devemos meter-lhe a ninfa ! A casaca é fúnebre, e nós vamos para uma calorosa manifestação de regosijo!--concordou o Taveira, filho dum capitalista enriquecido na Argentina.

--Pois não é assim?--interrogou o Paiva.

--Mas...--atalhou Alberto.

--Não, filho! Não há mas nem meio mas. Venha o belo pagode, a bela bacante agitando no ar o seu tirso e saracoteando um _maxixe_ desbragado...

--Muito bem!--acrescentou ainda o Paiva. A bacante e o _maxixe_, primeiro... O resto, é silêncio, como Hamlet dizia a Horácio.

Com efeito, a ceia realizou-se numa noite memorável, depois do teatro, durou até à madrugada do dia seguinte e ficou marcando uma hora triste de desvio moral na existência de Frederico. Aí conheceu êle a mulher, a intrusa, que havia de exercer uma influência nefasta na sua vida e no seu sentimento. Chamava-se Branca, tinha vinte anos, resplandecia duma beleza capitosa que o fogo dos ósculos impuros ia queimando lentamente, era alta, loura, notava-se-lhe no rosto uma candura, uma espécie de virgindade que certas criaturas femininas nunca perdem por mais baixo que desçam nos charcos da miséria. Foi Paiva quem lha apresentou, exclamando irónicamente:

--Aqui tens tu um regaço de sêda onde os príncipes gostariam de dormir as suas séstas de amor. Infelizmente, pertence a um desgraçado país que nem amar sabe e onde não há príncipes... Tem de contentar-se com os filhos da nossa virtuosa burguesia! Mal empregada! Como o poeta célebre, esta Musa da orgia chegou muito tarde a um mundo muito vélho, caro amigo!...

Frederico apertou-lhe a mão friamente, rindo da apresentação.

--Na Grécia antiga--continuou Paiva--os filósofos da linhagem nobre e genial de Platão repousariam e meditariam sob a luz doce dos seus olhos com o respeito com que repousavam à sombra do Partenon. Branca seria a inspiradora, a deusa. Até talvez se lhe levantasse um templo, como à vaca Ísis, no Egito!...

--Ora! O cavalheiro está a chuchar comigo!...--exclamou ela, amuada.

--Agora, o que Branca desconhece, meu filho, é a linguagem sonora e harmoniosa em que falavam os Imortais... «O cavalheiro está a chuchar comigo!» Vê tu que abominação. Se Péricles ouvisse esta Xantipa, morreria com uma síncope cardíaca ou correria a embriagar-se com o vinho das doces colinas de Atenas. Perdoa-lhe tu, que és generoso...

--E que não sou Péricles!--atalhou Frederico.

A ceia correu tumultuosamente alegre, e os convivas do «festim pagão», como havia anunciado Paiva, beberam mais do que os deuses de Homero. Frederico tinha ficado junto de Branca, que constantemente o acariciava com a suavidade do seu olhar cheio de promessas, que lhe floriu a botoeira com uma rosa e que, durante tôda a noite, revelou uma melancolia que mais vivo destaque imprimia à sua graça dorida. Alberto de Sequeira, toldado pelo alcool, com as faces escarlates, agarrado a uma companheira de Branca, a Eugénia, tam conhecida nas _garçonnières_ da mocidade elegante, dava-lhe beijos e oferecia-lhe os seus pergaminhos com a mão de marido. Ela, rindo à gargalhada, recusava, dizia-lhe que não tinha vocação para espôsa.

--Vai para um convento, vai para um convento!--intimou Paiva, de pé, ao lado da mesa, erguendo o braço e apontando com o dedo.

--Sim! Talvez para um convento!--concordava Eugénia, enroscando os braços à volta do pescoço de Alberto. E então?...

A tristeza de Branca no meio da jovial estúrdia impressionou Frederico. Perguntou-lhe:

--Que tem?

--Nada! Estou hoje assim!... São dias.

--Tem «telha», é o que tem--afirmou uma outra, Luísa, a quem Paiva fazia ardentes confissões, prometendo-lhe um scetro, uma realeza.