Chapter 16
Mas se não fôsse, o que pensaria Nuno? Que desastrada ideia tivera em deixar Lisboa, em não ter ido para o estrangeiro, para tôda a parte onde a vida lhe oferecesse um pouco de sossêgo! Para que voltara ao Pôrto? Recordava-se de haver lido em Dostoiewsky que os criminosos andam à roda do seu crime--de que não podem afastar-se--como as borboletas à roda da chama em que se queimam. Era êsse fenómeno psíquico que se dava com êle, naturalmente...
Cruzou com um carro que fugia na calçada. De dentro, uma graciosa cabeça de mulher inclinou-se, espreitando e sorrindo irónicamente. Frederico reconheceu Branca. Até aquela o desdenhava. Que vida, que miséria! Encontrava-se numa encruzilhada, completamente desnorteado. Que caminho tomaria? Apressou a marcha, aguilhoado por uma inquietação muito íntima e muito funda. Passavam-lhe na mente tentações tenebrosas. Únicamente de si próprio, duma instantânea fulguração de coragem, dependia a quietação perpétua. A solução pareceu-lhe bôa, por instantes; mas logo, raciocinando mais detidamente, monologou:
--Era a mesma coisa, a mesma denúncia... E, depois, sou um poltrão...
Nesta dúvida permanente, que tornava mais cruel o seu sofrimento, viveu Frederico todo o resto do mês, caído numa misantropia que o assustava, nos raros momentos em que lúcidamente podia reflectir. Tinha-se outra vez encerrado em casa, fechando a porta a tôdas as curiosidades importunas, e levava os dias num desespêro que apenas a imagem serena de Júlia a espaços lúarizava. A sua irresolução era maior, mais tormentosa a sua angústia. Sentia a necessidade duma fé religiosa que lhe iluminasse o espírito árido, que o apaziguasse. Assaltava-o o receio de enlouquecer. Bernardo aterrava-se. com a fixidez do seu olhar em que brilhava alguma coisa de bizarro e de mau...
* * * * *
Um dia de manhã, o correio trouxe-lhe uma carta--a carta a tôdas as horas esperada. As mãos tremiam-lbe, quando lhe pegou. Rasgou o _enveloppe_, abriu-a e leu, com um rubor de vergonha na face, estas linhas sêcas e curtas de Nuno:
«Na verdade há uma razão secreta que te afasta desta casa, da minha amizade, da minha confiança. Desconheço-te e a tua atitude inexplicável preocupa-me. Existe entre nós um equívoco que não deve continuar por mais tempo e de que tu, francamente, me informarás. O teu procedimento, que me intriga, parece mais uma provocação do que outra coisa; e o nosso antigo afecto de tôda uma mocidade dá-me o direito de exigir-te explicações.»
A carta terminava com mais algumas palavras que a humanizavam, lhe atenuavam a rispidez. Então, tôdas as indecisões de Frederico se dissiparam. Efectivamente, reconhecia a sua culpa. Nuno tinha motivos para estar magoado, para o recriminar. Que homem era êle?--pensava Frederico, espreitando, espavorido, a consciência. Queria furtar a sua dignidade de amigo a atracções que a manchariam, e comprometia únicamente as suas afeições mais puras. E tudo isto porquê? Pelo temor absurdo de praticar uma acção vil. Mas, não dispunha êle duma inteligência capaz de compreender os eternos problemas do Bem e do Mal e duma energia capaz de resistir às alucinações criminosas?
Chamou o criado na electrização duma vontade que o vitalizava, mandou encher uma grande mala de madeira, recoberta de couro, com roupa e calçado, ordenou que lhe fôssem buscar um automóvel, e sem pensar, sem calcular as conseqùências da sua carreira cega e vertiginosa para o amor e para a vergonha, ou para a libertação e para a morte, partiu. Ainda confiava numa coisa:--a sua timidez. Nunca teria a audácia de revelar a Júlia o seu segrêdo. Se ela o perscrutasse e o aceitasse sem cóleras fulgurantes, talvez a sua natureza imperfeita sucumbisse; mas, pura, como era, ignorando as torpezas do coração humano, nunca ela o adivinharia. A sua adoração continuaria, portanto, oculta, fazendo-o sofrer apenas a êle...
Volvidas horas duma impaciente correria por estradas que cortavam através de espraiadas veigas, de descampados, de terras de cultivo, de pinheirais rumorosos, Frederico parava diante do portão da quinta, tam seu conhecido, ao latir furioso dos cães de guarda. Já pelas grades pintadas de verde floriam as roseiras de trepar, e tôda a aldeia reverdecia, como numa festa, sob as aragens perfumadas e o ouro dum sol criador e maravilhoso de luz, descendo dum céu de esmalte azul. Nuno que estava à varanda olhando distraídamente as montanhas que ao longe se esfuminhavam, na vaga névoa, vendo deter-se um automóvel, desceu apressadamente ao jardim, sem esperar pelo criado e atirando uma saùdação amigável ao viajante, que sacudia a roupa empoeirada. Abraçaram--se com efusão. Frederico repreendeu-o:
--Que estúpida carta foi aquela, Nuno?
--Não foi estúpida, foi estimulante. Se me não zangasse sériamente, não vinhas. E olha que começava a não saber o que pensar... Mas vieste. Tudo se esclareceu. Esqueçamos êsse desagradável incidente...--explicava êle, dirigindo-se a casa.
Trémulo, transtornado, esforçando-se por conservar a tranqùilidade aparente, tôda superficial, Frederico acompanhava Nuno, que cruzava o jardim a passos largos. Ia tornar a ver Júlia perto de si. Há quanto tempo a não via! Quáse um ano--uma eternidade para quem ama como êle amava--tinha decorrido, desde que se separaram. A sua perturbação aumentava, o coração pulsava-lhe com violência, o sangue circulava-lhe apressadamente nas veias.
--Júlia, Júlia!--bradou Nuno, ao subir, com Frederico, a larga escadaria de pedra, sob as glicínias brancas e rôxas, que conduzia ao primeiro andar.
Ela apareceu logo, à porta de entrada, com o filho ao colo, muito risonha, muito còrada e afàvel.
--Cá está o pródigo!--zombou Nuno.
--Que volta ao calor das vélhas amizades, arrependido da sua prodigalidade--concluiu Frederico, apertando a mão que ela lhe estendia, aberta e leal, e beijando a criança com ternura, quáse com devoção.
--Pensei que nos tinha esquecido...
--Oh! minha senhora... E como pôde supôr...
Ergueu, a cabeça e fitou-a pela primeira vez mais demoradamente, muito perturbado, tentando sorrir. Ela encarou-o tambêm, satisfeita, com uma grande alegria no rosto. Os seus olhares cruzaram-se.
--Se lhe parece! Que devíamos pensar, então?... Mas perdoamos-lhe, pelo muito que o estimamos, não é verdade, Nuno?
Êle fez um gesto de assentimento, muito contente.
--Só por esta vez... Para a outra, não haverá perdões!--ameaçou Júlia.
Enleado, sem saber o que responder, Frederico refugiou-se todo na inocência do pequerrucho, que sorria enlevado, agitando as mãozinhas côr de rosa.
--E cá o figurão? Admirável, não é assim?--perguntou êle, tocando-lhe com a ponta do dedo levemente, afagando-o.
--Está excelente, agora. Mas inspirou-nos um susto!...
--Eu sei, eu sei. Nuno contou-me tudo.
--Oh! menino, deixa as expansões para logo--atalhou Nuno. Teremos muito tempo de tagarelar, durante esta deliciosa primavera. Porque deliberei não te deixar evadir daqui tam cedo. Agora és meu prisioneiro... Vai-te arranjar. O quarto é o mesmo do ano passado... Cá em casa nada mudou. Amamos as tradições.
Frederico aproveitou a ordem providencial do amigo, que vinha libertá-lo duma situação de momento a momento mais penosa para êle, exclamando:
--Então, se V. Ex.^a dá licença, minha senhora...
--Pois não, pois não!...--declarou Júlia.
Entrou no quarto para onde os criados tinham já levado a mala, lavou-se e vestiu-se. O silêncio envolvente apaziguava-o, tranqùilizava a sua perturbação. Aquela casa, que a luz inundava, era feliz: e a felicidade foi sempre recolhida e pacífica. Mas, cheio de desconsôlo, invadido por um desgôsto imenso, Frederico perguntava a si mesmo para que viera, porque não tinha resistido tenazmente às solicitações de Nuno. Que leviandade! E como, por irreflexão, havia concorrido para agravar o seu mal!
* * * * *
Os dias foram passando num desespêro cada vez maior para Frederico. O seu delírio atingia uma violência terrível de instante a instante. Surpreendia-se muitas vezes a contemplar Júlia em êxtase, quando à noite, ela, sentada ao piano, interpretava uma dessas páginas de música que parecem falar da aspiração irrealizada das almas para a beleza e para a ventura. A luz do candeeiro, que lembrava um hálito dourado, derramando-se no ambiente, batia-lhe em cheio na massa dos cabelos enrolados no alto da cabeça gentil, nos ombros, nos lóbulos das orelhas, onde fulguravam as pedrarias dos brincos. Frederico, sentado numa cadeira de braços, absorvia-se na sua graça, no seu encanto, idealizava-a, considerava como devia ser infinitamente doce o seu amor e setinosa a sua pele tam branca, opalizando-se na claridade difusa, enquanto Nuno, fumando um charuto, vagarosamente folheava um livro. No fundo do seu coração havia agora um inexplicável ressentimento, quáse ódio por aquele homem que tirânicamente se interpunha entre êle e a divina mulher da sua ardente paixão, em nome dum afecto a que a sociedade--e talvez a lealdade do seu carácter!--impunham obediência passiva. Como a influência desta adoração infindável se tornasse mais imperiosa e dominadora de hora para hora, Frederico, temendo o irremediável, evitava tôdas as ocasiões de se encontrar só com Júlia. De dia, se Nuno descia à quinta, êle acompanhava-o, procurava interessar-se por coisas que não entendia, demorava por tôdas as formas o regresso à vivenda. O tempo estava esplêndido e a scenografia era, realmente, maravilhosa. Todos os arvoredos do parque agitavam no ar, brandamente, as ramarias cobertas de folhagens novas, que os pássaros vestiam de asas. As acácias douravam-se duma flor que, trespassada pela luz, dava a impressão duma espuma de ouro; altos castanheiros da Índia balouçavam pingentes de florescências brancas e rosadas. As fôlhas densas formavam um docel duma côr verde e tenra. Por vezes, flechas de sol, filtrando-se por entre os ramos, mosaicavam a areia fina do chão de manchas luminosas. Ao lado, o jardim enflorava, exalando-se em perfume. Mais para alêm do muro que circundava a vasta propriedade, ondulavam em galgões as dobras de terreno, espraiavam-se os campos cultivados, os ferregiais, os lameiros em que a erva crescia, branquejavam casais pequeninos donde aonde, verdejavam os pastos, subiam na atmosfera os campanários em que, aos domingos, os sinos, convocando os fiéis, espalhavam por todo o vale a música festiva e mística dos seus claros sons. E ao fundo, subia a mole colossal das serras, mais fecundas na base, mais áridas nos cimos, com a sua decoração de matagais cheirosos, de pinheirais, de rochedos cortados em escarpa.
--Que beleza!--murmurava Frederico, enlevado.
--Não é verdade?--inquiria Nuno. Onde é que tu encontras êstes espectáculos, esta poesia, na cidade, em que tudo é tam pequenino, tam mesquinho, tam banal?
Depois, levava-o até ao fim da quinta, para que êle visse os grandes melhoramentos em que consumira a actividade de todo um estio. Nas terras de pão, as sementeiras eram prometedoras. Vigorosamente, os milhos miúdos «viam-se crescer»--como dizia o velho Mateus, agora mais feliz, bem instalado na sua granja que devia à generosidade do senhor; os centeios e os trigais, impando de seiva, arrepiavam-se à ligeira aragem que sôbre êles corria, ágil como um sôpro, fazendo-os encrespar; ramadas e vinhedos lançavam pâmpanos; todo o vergel se estrelava de floração. E sobre aquela alegria da leiva fértil, caía a luz pura como uma bênção de Deus.
--Isto é uma verdadeira maravilha, Nuno!--exclamava Frederico, diante do caseiro que sorria, agradecido.
--O tio Mateus trata-me a propriedade com amor.
--Faz-se o que se pode... Mas o patrão é um santo!--dizia êle para Frederico.
--Oh, homem, olhe que só o Vaticano é que pode fazer canonizações. Santo, eu? Pecador, pecador...
--O que tem feito por mim e pela pobre doente e pelos filhos é mais do que de santo, pois não é? Ai! devo-lhe muito, devo-lhe muito.
--É verdade, e como está sua mulher?
--Na forma do costume, a infeliz.
--Alguma doença?--perguntava Frederico, condoído.
--Uma paralisia... Coitada!
Muitas vezes, saíam para fóra da quinta, pela porta que servia a parte alugada ao caseiro, davam grandes passeios através dos prados, internavam-se nos caminhos sulcados pelas rodas dos pesados carros de bois, coleando-se entre sebes já floridas, e só recolhiam quando se aproximavam as horas do jantar.
Era êste o momento mais doloroso para Frederico, que tinha de sofrer, diante de Júlia, o seu suplício atroz, ouvindo-lhe a voz de ouro, afagando-lhe com os olhos a beleza a que a maternidade e a certeza dum amor constante imprimiam mais serenidade e mais graça, desejando-a com febre e temendo-a, ao mesmo tempo, por êste desejo impuro que ela, sem querer, comunicava aos seus sentidos, à sua carne, à sua animalidade. Uma noite, durante o serão, a conversa entre os três animara-se. Discutia-se a incapacidade dos homens para saberem procurar a sua felicidade. Os que a encontravam não eram nunca orientados pela inteligência ou pela finura psicológica, mas pelo acaso, observava Frederico.
--Sai-lhes a ventura, como lhes poderia sair a sorte grande, num bilhete de lotaria...
--Essa agora!--atalhou Júlia. É então a inconsciência que preside à vida consciente?
--E porque não?--afirmava Frederico. A humanidade é ainda tam imperfeita!...
--Oh! menino, concede ao menos alguma sagacidade ao instinto, que poucas vezes se engana.
--Engana-se quáse sempre, porque está submetido a influências nefastas.
--É levares muito longe a tua furiosa vontade de negar... Mas, aí tens tu as mulheres, por exemplo. São duma argúcia!... Sobretudo em questões de sentimento.
--Pobres delas!--riu Frederico.
--Pobres porquê?--perguntou Júlia, interessada.
--Porque nunca verão claramente as almas. A sua análise não ultrapassa as exterioridades--insinuou com intenção Frederico, em voz apressada e viva.
Júlia olhou-o demoradamente, enquanto Nuno comentava:
--São opiniões, pontos de vista.
Sob o olhar penetrante de Júlia, Frederico baixou a cabeça, perturbado e arrependido de ter ido tam longe, arrebatado por um impulso que não pudera dominar. A fixidez da vista dessa doce mulher cravada nêle inquietava-o. Que queria ela dizer, comunicar? Ter-se-ia denunciado? Adivinharia Júlia, há muito, por uma dessas intuições que certas criaturas possuem, o segrêdo que êle trazia escondido no coração? Atarantado, acrescentou, como se quisesse desculpar-se, furtar-se àquela espécie de interrogatório mudo:
--É claro, há excepções. Falei dum modo genérico...
E sorrindo lívidamente, com os lábios muito brancos, uma imperceptível tremura nas mãos, disse ainda, voltando-se para Júlia:
--Não pense V. Ex.^a que eu envolvi tôdas as mulheres na minha afirmativa...
--Eu fui uma das exceptuadas?--interrogou ela alegremente. É uma amabilidade de amigo.
O incidente esqueceu, a palestra derivou para outros assuntos que iam surgindo, mas Frederico não pôde recuperar a sua serenidade de espírito. Estava doido, ia perdendo a noção das conveniências e, se permanecesse por mais tempo naquela casa, perto de Júlia, vergado à tirania da sua fascinação, viria a praticar loucuras. Não via, não ouvia, deixava muitas vezes sem resposta perguntas de Nuno, que tinha de o chamar à realidade, exclamando:
--Que diabo de abstracção é essa?
E foi, na verdade, um grande alívio para êle o instante em que Júlia se levantou, sorrindo de fadiga, despedindo-se e dirigindo-se ao seu quarto. Êle e Nuno ficaram ainda no gabinete, à volta da luz. Havia luar e uma claridade branca batia em cheio nos vidros da janela. Fóra, tudo adormecia em sossêgo, na pacificação nocturna. Quebrando a cinza do charuto no cinzeiro, Nuno sorria enlevado, e o amigo, surpreendendo-lhe o sorriso, disse:
--Em que coisas alegres pensas?
--Na minha felicidade. Imagina...
Calou-se, como se se arrependesse, de repente, duma revelação que ia fazer.
--Imagino o quê?
--Não sabes nada? Não vês nada?... Bem dizias tu, há pouco, que os homens são rombos de compreensão, teem embotada a ponta da subtileza.
Frederico observava-o, intrigado, batendo sôbre a mesa com os nós dos dedos.
--Tu és um amigo, um irmão. Não és, nesta casa, uma pessoa estranha. Pertences à família. Pode, portanto, dizer-se-te tudo... Júlia está outra vez grávida! Assim mo revelou esta manhã... Vou ter outro filho... Talvez uma filha, para a felicidade ser completa...
Grávida! Júlia estava grávida! Que horror! E como essa certeza brutal o amachucava, o transtornava. A garganta constrangia-se-lhe. Fazia esforços para falar, e não conseguia articular as palavras.
--Mas não me dizes nada, não me felicitas, não me abraças por esta ternura que me envolve e que eu agradeço ao meu doce destino?...
--Ah! de-certo que és bem feliz!...--exclamou Frederico, por fim.
--Não é verdade?--interrogava Nuno, com a face banhada de riso e de satisfação.
--Um amimado da sorte!...
Retiraram, por fim, da sala. Um criado veio apagar a luz e arrumar os móveis.
A noite tempestuosa que Frederico passou! Que terror e que desalento geravam, para a sua alma pávida de espanto, as sombrias larvas do delírio? E que futuro entrevia, sem um ideal, sem um sentimento mais puro que lhe enchessem a vida e lhe dessem esperança e coragem! Tôda a doçura que sonhara findava repentinamente como uma flor que se desfolhasse ao vento. Compreendia ágora nítidamente que falhara na existência. Na hora de agonia que atravessava, tôdas as dúvidas se esclareciam para a sua inteligência conturbada. Nada ousaria tentar para fugir a uma condenação fatal, para reconquistar uma paz que perdera. A sua consciência era uma abjecção. Estava endemoninhado dum pensamento mau, que não podia arrancar dos sentidos como quem arranca o ferro duma ferida sangrenta e profunda; estava possesso do crime em que se envilecera e o espicaçava como um remorso. Para viver tranqùilo, seria necessário redimir-se da fúria cada vez mais ardente duma diabólica paixão insaciada.
Estendido sôbre o leito, arquejante, Frederico, de vez em quando, insurgia-se contra o curso das suas meditações, contra si próprio; mas a sua revolta era inútil, não vingava desviar a atenção concentrada naquela absurda tortura. E que abismo de torpeza era o homem! Odiava Nuno fulgurantemente, desejava que tôdas as desgraças, todos os infortúnios, se abatessem sôbre a sua cabeça, que a amargura de tôdas as misérias o punisse implacavelmente. Com que vitorioso grito de triunfo êle lhe anunciara a gravidez de Júlia! E com que punhalada varara o seu coração! Essa nova maternidade sagrada da mulher que amava era uma suja mácula na santidade da sua adoração--mácula bestial. Nuno, fecundando-a entre ásperos beijos de luxúria e de fogo, na vibração suprema do seu organismo físico, poluira o sentimento que na sua alma abrira puro como uma flor virginal. O filho que viesse, que já fazia estremecer o ventre de Júlia, enxovalharia a mulher para quem a sua veneração subia como o incenso subia dum turíbulo, na nave dum templo. E fôra para assistir a esta vilania que o amigo o convidara para casa, arrancando-o irónicamente ao seu isolamento. Mas quem o impediria da vingança, procurando Júlia, revelando-lhe aquele doloroso segrêdo que trazia dentro de si e que o sufocava?...
A esta ideia, que por um momento lhe pareceu justa, encolheu-se, espavorido.
--Que canalha! Que canalha eu sou!--murmurava.
Não, que pavor! Júlia devia ignorar tudo. Era em saber guardar o mal que o atormentava, que residia a beleza real do seu sacrifício. E com que direito criminava êle aquela doce união conjugal em que tudo era graça, constância, virtude, pureza? Para que havia de espalhar a lama no caminho de Júlia e de Nuno, tam dignos um do outro e da ventura, pela sua bondade, pela sua abnegação, pela sua lealdade? Confessar-lhe um amor criminoso, que seria repelido sem piedade, era dar a conhecer os aspectos mais torpes da sua alma, que não hesitava em traír o amigo, disputando-lhe a espôsa, o tálamo, em ultrajá-lo, ofendê-lo, humilhá-lo na dignidade do sêr consciente.
De-certo que um dêles era de mais na vida--pensava Frederico. Mas quem? Nuno, que tam dedicado lhe fôra sempre, que lhe queria como a um irmão, na ignorância da serpe do desejo que se lhe enroscara no corpo e o despedaçava, o comprimia até à tortura, que confiadamente lhe abrira as portas do seu lar--que se fechavam para tôda a gente? Seria aquela a vítima que o seu egoísmo, a sua loucura sensual, escolheria? Estas interrogações passavam-lhe no cérebro como a fulguração dum sinistro relâmpago. Depois, recuperando a lucidez, podendo raciocinar com mais clareza, Frederico monologou:
--Eu, eu é que sou de mais!...
Ainda não tinha descido tanto no pântano em que se afogava que não visse, acima da sua perversidade, alguma coisa de sublime, de luminosamente grande. Que Nuno, continuasse a viver para o amor, para a felicidade, para o futuro. Que o seu sonho de ventura nunca se interrompesse! Êle desapareceria, já que lhe era honrosamente impossível amar Júlia sem incorrer no absoluto desprêzo de si próprio e sem traír um afecto mais santificado, e já que tambêm não conseguiria viver sem essa adoração. Morreria!...
Por um instante, na solitude nocturna que o rodeava, pensou em matar-se ali mesmo, dando um tiro na cabeça. A detonação alarmaria tôda a casa, Júlia acudiria, aos gritos, pousaria, talvez, o primeiro e último beijo na sua fronte ainda morna e lívida, levaria para a cova o encanto, a revelação, o perfume dêsse beijo derradeiro que lhe aurorizaria a morte. Fechou, porêm, os olhos horrorizados. Êsse suicídio naquele logar, alêm de ser uma denúncia, depois da scena do serão, macularia com uma nódoa sangrenta a ternura infinita de Nuno e da espôsa--uma nódoa que nenhuma água, nenhum esquecimento, nenhum arôma purificaria, como a das mãos de Macbeth. Não! Viveria mais umas horas, umas horas apenas! Só o tempo de chegar ao Pôrto...
A luz da manhã veio surpreendê-lo ainda vestido, rolando-se no leito desmanchado, pálido, os cabelos revoltos. Abriu a janela vagarosamente. O ar vivo e balsâmico entrou a jorros. Aspirou-o com volúpia. Em baixo, passava o criado. Pediu-lhe que fôsse a Guimarães buscar um automóvel.
--E não te demores. É um caso de urgência.
Banhou o rosto em água fria, tirou da mala a pistola que meteu no bôlso das calças, e quando sentiu Nuno a pé, correu para êle em alvorôço. Ao passar pela porta do quarto de Júlia, fitou-a com um olhar em que ia todo o seu adeus, todo o seu desgraçado amor, todo o seu perdão. Dirigindo-se ao jardim, onde Nuno descera, como fazia sempre, para gozar o encanto idílico das manhãs, bradou de longe:
--Sabes? Tenho de ir já ao Pôrto.
--O quê? Estás doido! Não sais daqui, não te deixo.
--Se eu te digo que tenho de ir! Mandei até o Manuel a Guimarães, buscar um automóvel... Mas volto hoje mesmo. Nem levo a mala... Preciso de ir pagar umas letras que se vencem. É uma coisa séria, como vês!... Só esta noite me lembrei, de repente.
--Oh! Frederico!... Porque não recorreste a mim!... E não tinhas o meu automóvel?...
--Não me ocorreu... Mas é uma questão rápida.
--Nesse caso, vai...
Uma hora depois, o automóvel chegava e Frederico, impaciente, ao portão, despediu-se do Nuno, saltou para dentro, dizendo ao _chauffeur_:
--Larga e com velocidade.
Estava com pressa de pôr fim, por uma vez, àquele tormento que fôra a angústia pavorosa de todo um ano de sofrimento! Fechou os olhos. Não queria ver nada, para que um súbito arrependimento, um desmaio de coragem, o não prendessem à vida. Ia como numa embriaguez, concentrado na sua ideia fixa e fúnebre. O automóvel rolava, fugia no fio do vento. Era uma carreira para a morte, um paroxismo...
Quando mais tarde entrou em sua casa, pagou generosamente ao _chauffeur_, subiu a escada rápidamente. Bernardo acudira, perguntando-lhe se desejava alguma coisa.
--Nada, homem. Podes ir para baixo. Se eu precisar, chamarei.