Chapter 17
Encerrou-se no seu escritório, sentou-se á escrivaninha e durante algum tempo esteve escrevendo. Admirava a sua serenidade em face daquele acto terrível e necessário que preparava. Seguidamente, fechou a carta e tocou a campaínha. O criado veio, ligeiro:
--Leva já esta carta ao correio. Mas não te demores.
E, quando ficou só, serenamente, como quem cumpre com honra um dever contraído, tirou a pistola do bôlso, encostou o cano à cabeça sem que um músculo da face se lhe enrugasse e desfechou. Um jacto de sangue brotou, salpicando o papel das paredes; um pedaço de massa encefálica fôra projectado violentamente contra a porta. Frederico caíu de bôrco no chão, sem um estremecimento, esvaziando-se de tôda a seiva da vida sobre o tapête...
* * * * *
Na manhã seguinte, Nuno, que passara a noite inquieto por aquela súbita fuga do amigo, não sabendo a que atribuí-la, recebia uma carta.
Reconhecendo no _enveloppe_ a letra do Frederico, abriu-a nervosamente. Que teria acontecido, para êle escrever em vez de voltar, como prometera? Leu, apavorado, estas palavras sombrias, gravadas numa letra firme:
--«Nuno:--Vou matar-me, em plena consciência, e foi justamente para isso que deixei a tua companhia, a tua afeição, a tua nobre e grande alma. Nem a paz, a consolação imensa do teu lar tam belo, puderam reter-me por mais tempo num mundo em que sou um intruso. Não posso viver mais. A vida para mim é um suplício e por isso me liberto dela. O homem dispõe da força augusta que lhe permite aniquilar a obra de Deus.
Porque me mato? Porque há, realmente, na minha existência um segrêdo terrível, o segrêdo de que um dia suspeitaste e que te não posso dizer, porque me não pertence inteiramente. Oh! não faças suposições inconsideradas! Julga-me com equidade. Não penses por um momento só que deixei, por um crime atroz e sem perdão, de ser digno do teu afecto. Morro em beleza espiritual... Mas o meu segredo tortura-me sem repouso e é-me impossível sofrer mais. Para que prolongar uma dôr incurável? Sou só, o meu acto, longamente meditado, não terá conseqùências e apenas fará padecer as poucas criaturas devotadas que me estimaram e que hão de curvar-se, em lágrimas, sôbre o meu túmulo.
Sê tu feliz, entre os teus, bom amigo! Que sempre à volta da tua vida tam pura e da tua bondade tam comovida, pousem a graça, o encanto e a doçura! Pensa em mim com um pouco de carinho e de mágoa. Afinal, amei-te e desapareço inteiramente merecedor da tua afeição--inteiramente merecedor dela, ouve bem! Um beijo para teu filho e outro para tua mulher--um beijo de irmão, o beijo dum cadáver. Adeus!--Frederico!».
Ao concluir a leitura, Nuno ficou petrificado, no jardim, alheado de tudo, como se a inteligência inesperadamente lhe fugisse e êle se encontrasse num logar desconhecido. Estava branco, os dedos tremiam-lhe. Tinha a carta entre as mãos, e os seus olhos, por uma alucinação dos sentidos, viam nela manchas sangrentas... Depois, fundos soluços abalaram-no, chorou com desespêro, correndo para casa. Abriu nervosamente a porta do quarto. Júlia ainda estava no leito, com o filho que ria e galrava.
--Tu queres saber?--exclamou êle. Uma desgraça horrível, um pavor!
--Que foi, santo nome de Jesus?--exclamou Júlia, sentando-se na cama.
--Pois, foi uma fatalidade, filha! Frederico matou-se, ontem, no Pôrto.
--Matou-se?...--perguntou, num grito.
--Sim, matou! Aqui está a carta dêle, anunciando-me a sua resolução, a sua loucura. Pobre amigo! Antes de morrer, pensou em mim, pensou em nós!
--Oh! meu Deus!--murmurou ela, levando as mãos fechadas á cabeça. E porque foi, porque foi?...
--Não o diz... Olha! Lê tu! Eu nem serenidade tenho para nada.
Júlia leu, com os olhos vidrados de pranto, aquela carta para ela reveladora--só para ela!... Uma dúvida que por muito tempo a sobressaltou, esclareceu-se-lhe de repente no espírito. Admirou a grandeza de alma de Frederico--uma grandeza que se denunciava ainda no beijo supremo e sublimado que o seu cadáver lhe mandava da beira da sepultura. Mudamente entregou a carta a Nuno, e as lágrimas correram-lhe em fio dos olhos.
--E então? Que te parece? Que julgas?...
--Era um nobre coração!--exclamou ela, chorando sempre.
Nesse mesmo dia, Nuno partiu para o Pôrto, a assistir ao entêrro do homem que, diante da traição, optou pela morte, para não deixar de ser leal aos outros e a si próprio.
Miramar, 9 de novembro de 1916.
Lista de erros corrigidos
Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+---------+-------------------------+-------------------------+ | | Original | Correcção | +---------+-------------------------+-------------------------+ |#pág. 53| pefil | perfil | |#pág. 56| Fredrico | Frederico | |#pág. 63| docorreu | decorreu | |#pág. 67| diza | dizia | |#pág. 67| fertiliade | fertilidade | |#pág. 76| apressadamnte | apressadamente | |#pág. 79| mulidão | multidão | |#pág. 81| ferragns | ferragens | |#pág. 81| pincípio | princípio | |#pág. 104| refractário e um desejo | refractário a um desejo | |#pág. 107| se se isso | se isso | |#pág. 112| miaginação | imaginação | |#pág. 141| vingindade | virgindade | |#pág. 143| picacado | picado | |#pág. 145| Nes e momento | Nesse momento | |#pág. 153| iutermináveis | intermináveis | |#pág. 155| Fredico | Frederico | |#pág. 156| stuação | situação | |#pág. 157| bejou-a | beijou-a | |#pág. 158| subtituía | substituía | |#pág. 159| tran formam | transformam | |#pág. 170| borrocais | barrocais | |#pág. 171| Beetheven | Beethoven | |#pág. 171| capazas | capazes | |#pág. 181| e de medicina | o de medicina | |#pág. 232| Bernado | Bernardo | |#pág. 232| uam | uma | |#pág. 232| irrmediáveis | irremediáveis | |#pág. 236| rapares | repares | |#pág. 238| úni- pessoa | única pessoa | |#pág. 241| rua a | a rua | |#pág. 244| No poderia | Não poderia | |#pág. 257| Banca | Branca | |#pág. 272| compaínha | campaínha | +---------+-------------------------+-------------------------+
A acentuação foi mantida de acordo com o original.