A Morte Vence

Chapter 15

Chapter 153,730 wordsPublic domain

Dois, três vagarosos meses decorreram com uma lentidão cruel para Frederico, que sentia por vezes a impressão do tempo se ter imobilizado, de tudo cair à sua volta numa inêrcia que o apavorava, inspirando-lhe um terror mais forte pela vida, exaurindo-o totalmente de vontade. Saíra do Pôrto na intenção de partir para o estrangeiro, de se demorar por lá, em cidades ruidosas ou sossegados logarejos onde encontrasse algum repouso, até que o seu amor impuro se lhe apagasse no coração como se apaga uma luz que muito tempo espalhou claridade; mas, desde que chegara a Lisboa, encontrou-se mais só, mais desalentado e mais inquieto, arrependendo-se amargamente de haver deixado a rua em que vivia, a casa em que nascera, perseguido por um mêdo absurdo e quáse infantil, por uma cobardia deplorável, e por uma fraqueza de alma que o envergonhava...

As sensações sucediam-se-lhe com rapidez assombrosa no sentimento. Na capital, parecia-lhe que entrara numa região de imensa solitude--uma solitude que o oprimia, que lhe constrangia, apertava o coração. Como se tinha enganado! Imaginava que a distracção das viagens lhe curaria ou, pelo menos, atenuaria o extraordinário mal que tanto o fazia sofrer:--e agora nítidamente via que, quanto mais se afastasse de Júlia, mais êsse mal se agravaria. A doença estava inteiramente dentro de si:--na sua imaginação, nos seus nervos, na sua sensibilidade, no seu sangue! A dor que o atormentava nada mais era do que um dos variados aspectos do padecimento humano, a eterna miséria dos sêres conscientes. Provinha das tiranias implacáveis da carne, da animalidade, da tristeza infinita dos destinos, das fatalidades a que ninguêm pode eximir-se! Fugir para onde? Esconder-se em que sítio? A sua tortura permanente havia de acompanhá-lo para tôda a parte, como certas enfermidades que não perdoam e que sem descanso, noite e dia, devoram o organismo de que se apoderam...

Pensando constantemente em Júlia, formara no espírito uma imagem dessa doce mulher muito mais viva do que a personalidade real. Dêste fenómeno derivava a sua excitação, o seu frenesi. Era essa imagem, precisamente, que nêle activava a luta entre a dignidade, a elevação moral e o desejo lúbrico, entre a noção do dever e o cego instinto. Considerando como absolutamente inútil para a sua paz--a paz de que tanto carecia--a vagabundagem pela Europa em que durante dias pensara, decidiu ficar em Portugal, conservar-se em Lisboa, envelhecer a um canto do seu país, respirando o mesmo ar que vivificava Júlia, alumiar-se com a luz do sol que tambêm a iluminava a ela. Para a infinita melancolia do seu amor, havia um grande encanto nestas pequeninas coisas. Aquela adoração sem esperança comunícava, em todo o caso, a radiação da sua beleza intangível a tudo o que o cercava, penetrava-o de suavidade, tinha o condão misterioso de lhe ressuscitar na memória figuras queridas em que lhe era grato meditar. O vulto de Júlia andava íntimamente ligado, na sua recordação, às paìsagens rústicas que ambos tinham contemplado num mudo êxtase, a certas páginas de música que Frederico lhe ouvira tocar ao piano, aos plácidos serões na casa de campo onde vivera dias inefáveis, antes da tempestade emotiva em que agora se debatia. Lembrar-se dela era lembrar-se tambêm dos episódios ocorridos durante as horas iniciais duma paixão que começara, insidiosamente, por admirações comovidas de virtudes e de bondades que a ennobreciam e que, depois, sem saber por que secretas elaborações de sentimento, se transformara em delírio, em loucura. Fôsse para onde fôsse, havia de aguilhoá-lo a agitação que lhe não dava um minuto de tréguas, continuaria a queimá-lo a febre em que se gastava, se consumia, como os troncos secos se consomem numa fogueira. Afastar-se ainda mais para quê? Separava-o já de Júlia uma grande distância e nem por isso a sua angústia afrouxava. Não dispunha de coragem para atravessar a fronteira, correr nacionalidades estranhas, observar outros povos, outros costumes, outras civilizações. No seu presente estado de alma, nada veria, nada compreenderia. Em Lisboa, estava entre a sua gente, tinha relações, poderia conviver, procurando o esquecimento. Foi-se deixando ficar, num dissolvente abatimento, sem formar projectos de vida futura, incapaz de resoluções, de actos enérgicos em que a sua vaga individualidade se afirmasse. Fechava-se dias inteiros no quarto do hotel em que se instalara, ruminando o seu tédio, folheando livros que se arrastavam indefinidamente por cima das mesas e das cadeiras, fumando. À noite, ia aos teatros, encontrando uma vez por outra algum conhecido com quem se entretinha em palestras sem interêsse. O seu gôsto era estar só, para relembrar, no silêncio, coisas que lhe eram inefáveis. Reentrar na sua paz antiga, sentir de novo a alegria de viver, seria a libertação: mas, para isso tinha de esquecer, e o esquecimento era-lhe impossível. Bastava o facto mais insignificante para lhe despertar na emotividade as sensações da sua primitiva ternura, para lhe dilatar amorosamente o coração. A depressão constante e progressiva da vontade que em si desfalecia levava-o a acusar-se duma fraqueza que o aviltava: mas não empregava esforços para reagir. Deixava-se governar dócilmente por uma atracção misteriosa.

Em certos momentos, julgava-se pueril. Com efeito, porque sofria êle tanto? Que crime havia praticado? Que falta grave era a sua, para que assim se entregasse passivamente a um desespêro que o devastava? Não poderia êle amar Júlia, a espôsa do seu maior amigo, sem se manchar de ignomínia, sem se envilecer? Talvez. Mas, se o corpo, a grosseira matéria de que era constituido, o empurravam para êsse amor, a sua alma, que era a essência, que representava a porção de divindade que cada homem digno traz dentro de si, opunha-se tenazmente. Êste antagonismo entre a carne e o espírito que dentro dêle se fazia não era uma nítida prova da sua nobreza moral? Pecava pelos sentidos mas purificava-se pela razão. E o seu pecado todos o absolveriam. Experimentava alguma doçura em relembrar Júlia, porque não podia viver sem a recordação saùdosa dum amor de que só êle sabia e que representava o facto dominante da sua existência. Ninguêm conseguirá, fácilmente, desabituar-se da felicidade--e amando Júlia em segredo, considerava-se relativamente feliz. Na desolação duma existência sem outro ideal, essa adoração tinha a graça duma flor e mergulhava-o na beatitude dum quimérico sonho que lhe dava a ilusão da ventura. Mas não iria mais alêm, não ultrapassaria os limites estreitos em que a sua desgraçada paixão se confinara. Para que havia de atormentar-se com tam sombrio ardor?

* * * * *

A primavera veio, outra vez, cobrir os arvoredos de folhagens tenras e verdes, reflorir os jardins, tocar as paìsagens de maravilhosas tintas. A luz era já mais límpida e vibrante; o sol trespassava o azul da atmosfera como uma enorme flecha de ouro. Uma vida mais jovial renascia. Nuno, que contínuamente escrevia a Frederico, na ignorância das mentiras por êle inventadas para se afastar e do conflito moral e sentimental em que se debatia, anunciou-lhe, numa longa carta, o propósito em que estava de regressar à quinta novamente, ficando por lá a fortalecer e a renovar-se, entre a beleza rural e as coisas simples, até que o filho crescesse e o obrigasse a residir na cidade, para lhe vigiar de perto a educação. Preparava tudo para uma longa ausência do Pôrto, onde só voltaria, em rápidas visitas, de fugida, quando negócios urgentes a isso o forçassem. E pedia-lhe que se não demorasse mais, que não prolongasse um afastamento inexplicável que justificava com pretextos sempre fúteis e que o intrigava.

--«Com efeito--acrescentava Nuno--eu e Júlia temos pensado muitas vezes que existe na tua vida um segrêdo. Qual? Não o sei nem quero sabê-lo, pois se na verdade me não iludo e tu o escondes, é porque me não julgas digno de o conhecer. Mas, seja como fôr, vem daí assistir, na aldeia, à ressurreição das flores e à aleluia da graça!...»

Esta carta despertou violentamente tôdas as ideias e reminiscências que existiam no seu cérebro. Outra vez viu iluminar-se-lhe diante dos olhos deslumbrados aquela tarde em que a beleza de Júlia pela primeira vez o impressionou vivamente, quando ela, debaixo da mosqueteira que vergava de corolas, se cobria das florações que caíam de alto como uma chuva loura e lhe evocavam docemente a lenda pagã de Júpiter, descendo num orvalho dourado sôbre o corpo branco de Danae. Outra vez recordava a angústia--que nunca mais deixou de pungi-lo--com que fizera a descoberta dum amor que devia morrer, porque era impuro; a noite de perturbação e de terror que se seguiu a esta revelação singular; a ansiedade com que, logo ao raiar da alvorada, fugiu para o Pôrto à procura duma serenidade, duma pacificação que nunca mais encontrou--recriminando-se pelo facto de haver-se abrigado sob um teto, que afectuosamente o acolhera, para manchar uma honra, para trair uma amizade, para roubar uma ventura que a outro legítimamente pertencia, para violar no seu próprio santuário emoções castas, para cometer, na alucinação da sua luxúria, um sacrilégio. A intensidade da veneração consagrada a Júlia tornava-o excessivo na fúria com que se acusava: e as evocações eram por tal forma nítidas que o seu padecimento agravava-se, excitando-lhe a cobardia, aumentando-lhe o temor de voltar a aproximar-se duma mulher que, por muito respeitar, não queria tornar a ver. Sofria duplamente pela certeza evidente da sua paixão e pelo enfraquecimento duma dignidade que sentia escapar-se-lhe, deixando-o à mercê de impulsivos desatinos. A própria alma se lhe dissipava a esta recordação. Perdia a confiança em si mesmo. A sua situação surgia-lhe perante a consciência como um abismo--cheio de idêntica sombra, de idêntico mistério, de igual silêncio enigmático. Outrora, pensava que todos os homens podiam dominar-se, mesmo no confuso turbilhão das emoções desencadeadas, porque para isso dispunham da fôrça que deriva do raciocínio e da sua superioridade de conscientes; e agora, pretendendo exercer sobre si próprio êsse domínio, não o conseguia, por mais que o tentasse. E porquê? Porque a sua vontade não era íntegra e suficientemente enérgica? Porque as paixões eram mais fortes do que o carácter, tendo o poder de comunicar à razão, à inteligência, aos sentimento elevados, o seu fogo criminoso? Parecia-lhe que sim. E tambêm lhe parecia que apenas os homens que saíssem vencedores das lutas em que êle impotentemente sucumbia, deviam ser considerados os verdadeiros heróis...

Sucedesse, porêm, o que sucedesse, estava decidido -----File: 245.png---\\\\\\------------a nunca mais entrar em casa de Nuno. Ao cabo de pacientes e dolorosas análises, pressentia que, em face de Júlia, não se conteria, deixaria transparecer o seu drama oculto, se denunciaria. A fuga era a salvação! Mas regressaria ao Pôrto, certamente, agora que Nuno o informava da sua mudança para a aldeia onde ia instalar-se durante anos. Lisboa enfastiava-o já até à fadiga. Julgava-se estrangeiro dentro dessa cidade, entre uma população tam diversa da do norte, pela índole, pela origem, por diferenciações de casta. Tinha-se libertado definitivamente das complicações que a episódica e transitória ligação com Branca trouxera à sua atribulada existência. Rompera para sempre com ela, embora se separassem como amigos que, juntos, correram atrás duma ilusão irrealizável e de cujo encontro ficaria alguma coisa de doce. Como era um fraco de temperamento, um indeciso, pensou em prolongar com ela uma triste mentira que seria cómoda para o seu egoísmo e para a sua indecisão. Temeu, porêm, as futuras consequências dessa mentira e sentiu a necessidade do mostrar-se sincero. O mais leal, o mais concordante com uma bondade que o nobilitava era desenganá-la com uma franqueza resoluta:--e assim procedeu, penalizado com a lembrança das lágrimas que a sua deliberação provocaria. Mas era preciso! Branca aparecia-lhe como uma atroz mancha na sagrada brancura do seu único e verdadeiro amor. Não podia mais aceitar-lhe os beijos sem repugnância instintiva, sorrir às suas carícias sem um desejo muito fundo de repeli-la com rancor, com ódio. Perguntava mesmo como esta incompatibilidade carnal entre êle e a sua amante dalguns meses só agora se definia claramente, sem encontrar uma explicação para êsse fenómeno...

Escreveu-lhe, de Lisboa, anunciando-lhe o fim duma aventura que tinha de acabar, pedindo-lhe que lhe não quisesse mal, que dêle conservasse uma lembrança afável:--e quando, perturbado, inquieto, imaginava que Branca não aceitaria a ruptura sem clamorosos escândalos, soube que ela se resignara inteiramente, procurando e encontrando logo outras ligações. Esta certeza desanuviou-o.

Um domingo, por acaso, passeando tristemente na Avenida da Liberdade, onde já floriam as olaias sob a doçura e o afago da luz primaveril, deparou, inesperadamente, o jovial Paiva, que descia o passeio em sentido oposto, fitando com enternecimento as belezas femininas que passavam na festa esplêndida do sol. Foi para êle cheio de contentamento, apertando-lhe efusivamente a mão, interrogando-o com afabilidade:

--Oh! scelerado!... Tu por aqui?

--Oh! admirável Frederico! Que feliz encontro!... É verdade, por aqui, nesta doce e morena Lisboa.

--E êsse Pôrto, êsse namôro?...

--O Pôrto, creio que está no mesmo sítio, com a sua monotonia, a sua tristeza de burgo histórico inamovível. Quanto ao idílio, findou como tudo finda:--Roma, Bizâncio, Cartago!...

E pousando a mão magra, em que fulgia a pedra fina dum anel, no ombro de Frederico, acrescentou, sorrindo:

--_Tout casse, tout lasse et tout passe!_ Os franceses teem razão.

Deram uma larga volta, conversando, recordando episódios esquecidos, espairecendo. Paiva achava que as mulheres de Lisboa eram lindas e perturbantes, com uma graça, uma distinção, um ar encantador:

--Vê a elegância com que elas pisam, menino! E que corpos, que harmonia de formas, que ritmo! Sobretudo, que ritmo!...

--Tu vens obsceno do Pôrto, homem--comentou Frederico.

--Pois como diabo querias tu que eu viesse? Sim! Como querias?!...

Voltaram ao Rocio, entraram no Martinho, sentaram-se a uma mesa, pedindo cerveja; e então, Paiva informou Frederico do desfêcho grotesco do seu curto romance com Branca. Estava agora com um capitalista--o Luís Tavares--que há muito cobiçava a sua formusora, o seu encanto decadente.

--Um capitalista, hein?--perguntava Frederico, bebendo o seu _bock_.

--De-certo. Um capitalista... O Tavares... Tu conheces. Ora! Não conheces tu outra coisa.

--Com franqueza, não me ocorre... Mas estimo! Coitada da pequena. Tam bôa rapariga!... Um anjo.

--É gentil, da tua parte, esse desejo de fazê-la entrar nos córos celestes. Mas não vás mais longe, não a metas entre as Onze Mil Virgens...

Paiva, acendendo um charuto, deu mais esclarecimentos:

--É babadinho por Branca, o Tavares. Oferece-lhe quanto ela quere.

--Estás óptimamente informado!

--Foi Luísa que me contou tudo.

--É verdade:--ainda dura essa paixoneta?

--Não, caramba! Eu gosto da variedade. A igualdade assusta-me... Luísa tambêm se colocou--e entre a magistratura. Está por conta dum desembargador que, no seu doce regaço, esquece as leis, os códigos, pousa a severa espada da justiça e humaniza-se. Mas, é claro, encontrâmo-nos de vez em quando. Às vezes, por fantasia, por capricho--ela é caprichosa--sobe à minha trapeira romântica de boémio, como uma Musa... E narra-me, entre beijos, a crónica mundana dos amores envergonhados.

--Que progresso, o dessas damas! Uma com o capital, outra com a jurisprudência, ambas influindo, talvez, na vida nacional, governando-a como Aspásia governava Atenas!

--Meu rico! Ambas nos devem muito. Fomos nós que as ensinamos a ter linha. Praticamos uma acção meritória--acrescentava Paiva, cínicamente.

Frederico bateu as palmas, pagou a despesa. Levantaram-se, saíram.

--Queres tu hoje jantar comigo, ó Paiva magnífico? Ando tam só, tam desalentado!...

--Não posso. Muito que lidar, uma tia rica e vélha de quem sou o melhor dos sobrinhos e o mais necessitado dos herdeiros, outros casos de consciência. Jantar contigo era uma bela ideia. Mas não posso... Não sei mesmo quando poderei. Acho que tenho de seguir com minha adorável tia para o Alentejo, onde vamos visitar uns domínios territoriais que virão talvez a pertencer-me!...

Separaram-se. Paiva enfiou pela rua do Ouro, soberbo de petulância, fitando insistentemente as mulheres que passavam, e Frederico, mais aborrecido e mais triste, reentrou no hotel, fechando-se no seu quarto e estirando-se num sofá, farto até à saciedade de Lisboa, onde nada o prendia, e ansioso pelo regresso ao Pôrto, donde tantas recordações o chamavam. O seu terror, a sua inquietação moral desvaneciam-se, pois que Nuno e Júlia iam partir--talvez mesmo já tivessem partido--para a aldeia. Fumando uns cigarros atrás dos outros, entregava-se com mais subtileza crítica à observação do caso singular que o trazia em alvorôço permanente, que de-certo derivava da exaltação nervosa, duma violenta paixão--mais lasciva do que espiritual--insatisfeita, das ásperas solicitações da carne bruta, da infinita miséria física do amor, de tudo o que faz do homem um animal vivendo pelo instinto grosseiro e não pelas finuras, pelas delicadezas da alma. A sua análise escolhia de preferência os sentimentos da intimidade moral, porque as imagens da vida exterior exasperavam-no. Começava a achar ridícula aquela desvairada fuga diante da mulher para quem um ardente desejo e uma invencível simpatia o impeliam e de quem a razão e a dignidade o afastavam, intimidando-o como se êle fosse uma criança, um irresponsável, e não dispusesse duma inteligência. Reconheceu, no entanto, que perdera a confiança em si mesmo, que era mais um autómato, dirigido por fôrças ocultas, do que um ser moral, governado por ideias e emoções próprias...

Levantou-se, caminhou para uma janela aberta, curvando-se um momento sôbre o peitoril. A população atulhava as ruas que o sol dourava; os carros eléctricos desfilavam uns atrás dos outros, abarrotados de gente; pelos passeios erravam janotas ociosos, e oficiais do exército arrastavam espadas nas pedras. Era a scenografia de todos os dias, que já o fatigava; surpreendeu-se a apetecer, mais do que nunca, o isolamento da sua casa do Pôrto, longe de tôdas as curiosidades, como um cenobita, entre livros e entre recordações suaves. Com que prazer começou a fazer as malas, para abalar no dia seguinte, sem mesmo prevenir os criados da sua volta! E como foi consoladora para a sua saùdade a hora em que reentrou na vivenda pacífica e cheia de lembranças familiares que o enterneciam! Tinha a ilusão de que em tudo o que o rodeava havia uma parte da sua personalidade, alguma coisa do seu coração, uma beleza indecifrável que para êle se iluminava. Bernardo, que o recebeu com um riso satisfeito e que o achava mais magro, mais mirrado, pareceu-lhe um amigo venerável. As árvores do jardim, cobertas de fôlhas que o sol tocava de luz, ramalhavam alegremente à aragem, saùdando-o.

--Venho arrasado, Bernardo, arrasado!--disse êle para o criado.

--Pois assim, sempre nessas idas e vindas, nem pode medrar, meu senhor.

--Tens razão. Tu é que tens razão. Não posso medrar, dizes bem. Oh! mas agora, vais ver. Vou repousar, recuperar o perdido. Engordarei, não saírei de casa, como os gatos.

--Santo nome de Maria, com que o patrão se compara!...

--E então? Haverá porventura nada mais caseiro, mais apegado ao borralho, do que um gato?

Nos primeiros tempos, com efeito, Frederico, todo ocupado no arrumo das suas coisas, passava os dias encerrado na habitação, saíndo apenas de noite, depois do jantar, quando a cidade começava a ficar deserta e êle não corria o perigo de encontros importunos. Dava longos passeios, como se pretendesse extenuar-se, acalmar a agitação permanente do seu espírito. Foi precisamente numa destas caminhadas nocturnas que uma vez, insensivelmente, se surpreendeu defronte da morada de Nuno, mergulhada em sombra e mudez. Parou a olhá-la como se quisesse lobrigar nas vidraças reflexos de luz interior que denunciasse a presença de sêres vivos. Não viu nada e êste facto comunicou-lhe alegria e tranqùilidade. Depois, como uma polícia se aproximasse a passos lentos, mirando-o com desconfiança, reencetou a marcha, murmurando:

--Bem! Já cá não está!

E sentia contentamento pela sua descoberta--um contentamento quáse infantil. A ausência de Júlia e de Nuno garantia-lhe uma quietude relativa. Isto animou-o. Absolutamente certo de que o amigo estava agora longe, começou a aparecer de dia, a freqùentar os centros de conversa, a mostrar-se. Reatou convivências durante muito tempo interrompidas, para se distrair, para atenuar a violência do seu mal, que, no entanto, ia crescendo com o desalento que o minava. Mas, uma tarde, ao descer os Clérigos, vago, alheado, viu-se inesperadamente diante dalguêm que gritava o seu nome, que para êle avançava, de braços estendidos, berrando:

--Ora ainda bem que te encontro. Que diabo tens tu feito? Por onde tens andado? Que mal te fiz eu? Dize!...

Era Nuno! Frederico estacou, empalidecendo um pouco, muito comprometido, gaguejando desculpas, interrogando-o:

--Pois, estás no Pôrto?

--Justamente! Estou no Pôrto. Tive de vir aqui a tôda a pressa, buscar coisas que nos eram essenciais, a mim e a Júlia, ao nosso brando retiro.

--E ela como está, tua espôsa? E êsse querido herdeiro?--perguntou Frederico, já mais sereno.

--Magníficos. Gozam duma saúde de ferro.

--Como já te disse em carta, só em Lisboa tive conhecimento da doença de teu filho e tu tranqùilizavas-me...

Nuno contemplava-o com interêsse. Estava mais abatido, mais gasto, havia fundos vincos na sua face, cabelos brancos na sua cabeça, tristeza no seu rosto e era cansado o riso da sua bôca.

--Demoras-te por cá?--inquiriu Frederico.

--Não. Sigo daqui a horas, em automóvel. Ah! Já me esquecia dizer-te... Tenho agora automóvel na quinta, introduzi no meu viver pacato esta comodidade. E era preciso. Não estamos livres duma súbita doença, do imprevisto... E é verdade:--essa visita? Quando te resolves? A não ser que a nossa companhia te desgoste...

--Oh! Nuno! Pois acreditas?...

--Não afirmei nada. Exprimi apenas uma dúvida. E olha que, na realidade, tanto eu como Júlia te temos estranhado... Para que hei de esconder-te a nossa surprêsa?

--Tolices... E podes crer que não falto... Mas mais tarde. Ainda tenho prisões. Hei de ver...

--Não hás de ver nada. Quero saber o dia, a semana, ou então o motivo dessas hesitações...

--Bem! Por todo êste mês, contem comigo... Para onde vais?

--A Carlos Alberto, fazer umas encomendas. O meu automóvel deve lá estar. Acompanhas-me?

--Não posso. Desculpa. Coisas urgentes a resolver... Mas, espera-me em breves dias.

--Esperarei.

--E recomenda-me lá em casa... Beijos ao morgado.

Despediram-se, seguindo em direcções opostas. Nuno, ágilmente, Frederico, mais acabrunhado. Santo Deus! O facto que tanto temera sempre, dera-se, afinal. E agora? Como poderia fugir mais uma vez, libertar-se, sem levantar suspeições? Como julgaria Nuno uma nova fuga, que já não poderia justificar honestamente? Era-lhe impossível prolongar por mais tempo uma tam cómoda mentira, continuar iludindo. A fatalidade empurrava-o, definitivamente, para o desconhecido e com uma fôrça a que não conseguiria resistir. O que iria acontecer? Que rudes formas de tortura adquiriria o seu desespêro? Vacilava, sem encontrar uma evasiva tam profundamente desejada.

Tudo o que no seu ser existia de tímido, de cobarde, de dúbio, despertava, exacerbando-lho o terror. Deambulando na rua, a largos passos, falava sòzinho, em voz alta e numa tal excitação que parava gente intrigada a observá-lo.

--Com certeza que não vou!--afirmava.