Part 9
--É proíbido falar d’essas coisas! observou o guarda, indolente. Só se pode falar d’assuntos de familia.
--Ora essa! Então isto não é assunto de familia? perguntou ella.
--Sei lá! O que digo é que é proibido. Falem da comida, da bebida, da roupa lavada, e de mais nada! elucidou, continuando como indifferente.
--Está bem! Falemos da nossa casa, mamã? O que é que tu fazes?
--Levo comida aos operarios, comida e outras coisas! respondeu com audacia.
Deteve-se e explicou melhor, depois de resfolegar:
--Sopa, carne assada, tudo o que Maria costuma cosinhar, e... toda a especie de alimento.
Pavel compreendera. O rosto contraíu-se-lhe n’uma gargalhada abafada. Depois, carinhosamente:
--Minha querida mãe... Muito bem! muito bem! Sinto-me feliz, sabendo que tens tão bom emprego, que não te aborreces. Não é verdade que não te aborreces?
--E sabes? Revistaram-me toda quando os taes folhetos tornaram a apparecer! informou um tanto fanfarrona.
--Outra vez?! exclamou o guarda. Já lhes disse que é proíbido. Priva-se um homem da sua liberdade, para que elle não saiba do que vae lá por fóra, e vens tu, mulher, e começas a tagarelar!... Compreendam que o que é proíbido é proíbido!
--Está bem! não se fala mais n’essas coisas, mamã. O Matvé Ivanovitch é um bom homem: não devemos fazel-o zangar. Damo-nos bem um com o outro. É por acaso que elle assiste hoje ás entrevistas dos presos com os visitantes. Quem costuma assistir é o director. E o Matvé Ivanovitch receia que tu digas coisas... superfluas.
--Acabou o tempo da visita! disse o guarda, tendo consultado o seu relogio.
--Obrigado, mamã! muito obrigado, querida mãesinha! Não te dê cuidado, que dentro em pouco serei posto em liberdade.
Abraçou-a com effusão; ella começou a chorar.
--Separem-se! ordenou o guarda; e, reconduzindo Pélagué, ia-lhe dizendo, resmungando:
--Não chore... Está aqui está na rua! Vão dar a liberdade a muitos... os logares são poucos... não cabem todos...
Em casa, ella disse ao russo-menor:
--Falei-lhe... com geito... percebeu-me muito bem.
E acrescentou com um suspiro:
--Percebeu-me, sim, se não, não me abraçava com tanta gana! Foi a primeira vez...
--Ah! todos desejam isto ou aquillo, mas as mães não desejam senão affagos!
XX
Uma noite, estando Pélagué a fazer meia e André lendo em voz-alta a historia da revolta dos escravos romanos, alguem bateu violentamente á porta. O russo-menor foi abrir, e Vessoftchikof entrou, com um embrulho debaixo do braço, o boné descaído para os olhos, e todo elle enlameado até aos joelhos.
--Passando na rua, vi luz cá dentro e bati á porta para a cumprimentar. Saí da cadeia agora mesmo!
E apertando a mão de Pélagué:
--O Pavel recommenda-se muito.
Deixando-se caír n’uma cadeira, hesitantemente olhou em volta, como de costume desconfiado.
A sua cabeça angulosa e rapada e os seus olhitos tornavam no antipatico a Pélagué, o que não impedia que estivesse gostando de vel-o e que lhe dissésse, affectuosa:
--Emagreceste!... Ó André, vamos fazer-lhe o chá!
--Já cá estou preparando o samovar! respondeu da cosinha o russo-menor.
--E então como vae o Pavel? Vieram outros para a rua comtigo?
Vessoftchikof respondeu abaixando a cabeça:
--O Pavel continúa preso... Encheu-se de paciencia... Para a rua vim só eu.
E levantando o olhar, continuou vagaroso e com os dentes cerrados:
--É que eu disse-lhes: «Deixem-me ir embora, que já estou farto! senão mato o primeiro que puder, e suicido-me depois!» Ora!... foi logo! E fizeram bem, porque eu cumpria o que promettera!
--Sim, sim, creio!... balbuciou ella, afastando-se, com as palpebras tremulas, como sempre lhe acontecia quando fitava aquelle rosto bexigoso.
--E como vae o Fédia Mazine? perguntou da cosinha André. Continúa fazendo versos?
--Continúa! Quer dizer... não o percebo bem. Parece um pintasilgo: mettem-no na gaiola, e canta. O que sei é que não tenho nenhuma vontade de ir para casa.
--E tens razão. Vaes encontral-a vasia, o fogão apagado, tudo muito frio...
Vessoftchikof calou-se, cerrou os olhos, depois, tirando da algibeira um masso de cigarros, começou a fumar, muito descansadamente. Com o olhar ia seguindo as nuvens de fumo que se esvaía por cima da sua cabeça; e de subito, rindo esganiçadamente como o uivar d’um cão:
--Sim, muito frio... Naturalmente, o chão está, cheio de baratas geladas, os ratos devem estar tambem mortos de fome... Pélagué Nilovna, dás licença que eu durma cá em casa?
--Está dito! respondeu logo. Sentia-se pouco á vontade; por isto não disse mais.
Foi elle que murmurou em tom abatido:
--Estamos agora no tempo em que os filhos teem vergonha dos paes.
--O quê? perguntou ella, estremecendo.
--Não te apouquentes, que não falo de ti. Tu nunca envergonharás o Pavel. Eu é que me envergonho do meu pae... Não quero voltar para casa d’elle. Já não tenho pae, nem casa. Estou sob a vigilancia da policia, agora, se não ter-me-iam mandado para a Siberia. Creio que um homem, que não se poupasse a trabalhos, teria muito que fazer na Siberia... Daria a liberdade aos exilados, ajudal-os-ia a fugir...
Graças ao seu coração sensivel, a velha percebia que o rapaz estava soffrendo, mas a sua dôr não lhe provocava a compaixão.
--Dizes bem. Sendo assim, seria melhor teres ido... André veio da cosinha.
--Que estás tu para ahi a cantar, homem?
A velha ergueu-se.
--Vou arranjar alguma coisa para comer.
Vessoftchikof olhou fixamente para o russo-menor e respondeu com firmeza:
--Digo que é preciso matar umas pessôas!...
--Ih!... E para quê? perguntou, tranquillo.
--Para que deixem de existir!
--Tens então o direito de transformar os vivos em cadaveres?
--Tenho!
--E onde foste buscal-o?
--Foram os homens que mo deram!
O russo-menor, alto, magro, parou no meio do quarto, bamboleando o corpo; com as mãos nas algibeiras, observava dos pés á cabeça o bexigoso. Este, sentado e envolto n’uma nuvem de fumo, tinha n’aquelle momento o rosto palido salpicado de manchas vermelhas.
--Foram os homens que mo deram! repetiu, de punho cerrado. Desde que me dão pontapés, tenho o direito de responder, atirando-me aos focinhos, aos olhos... Se não me tocarem, eu não toco em ninguem. Deixem-me viver como quero, que eu viverei quieto, sem incommodar os mais. Juro! Supponhamos que quero viver n’uma floresta, construir uma cabana n’uma ravina, na margem d’um regato... e viver ali, sósinho...
--Pois faz isso! respondeu, encolhendo os hombros.
--Agora? Não! É impossivel! Estou ligado estreitamente aos homens até á morte! Ligaram o meu coração com o odio, prenderam-me a elles com o mal. É um laço muito solido. Odeio-os, e vá por onde fôr não os deixarei viver tranquillos. Incommodam-me, e eu incommodal-os-ei. Respondo por mim, só por mim; não posso responder por mais ninguem. E se o meu pae é um ladrão...
--Ah! exclamou repreensivamente André, em voz baixa, approximando-se.
--Ainda acabo por arrancar a cabeça ao Isaías Gorbof, verás!
--E porquê?
--Porque anda a espiar-me. Foi por causa d’elle que o meu pae se perdeu, é com elle que o meu pae conta para entrar para a policia secreta!
--Olhem o grande mal! Mas quem te censura, a ti, pela vida do teu pae? Isso é para os tolos!
--Para os tolos e para os não tolos! Olha: tu és intelligente, o Pavel tambem. Dize lá: teem por mim consideração igual á que teem pelo Fédia Mazine ou pelo Samoílof, ou um pelo outro? Não mintas, que não te acreditaria. Atiram-me para o canto!
--Tens a tua alma doente, amigo! respondeu André, affectuosamente, sentando-se ao lado d’elle.
--A vossa tambem soffre. Mas imaginam que as suas ulceras são mais nobres do que as minhas. Procedemos uns para os outros como canalhas! é o que te digo! O que respondes a isto, an?
Fitou o olhar penetrante em André e esperou, com os dentes á mostra. O seu rosto palido estava impassivel; apenas lhe tremiam os labios grossos como se tivessem sido queimados e contraídos por algum liquido caustico.
--Nada te responderei! disse André acariciando o olhar hostil de Vessoftchikof com o sorriso luminoso e triste dos seus olhos azues. Sei demais que querer discutir com alguem, cujo coração está sangrando, é o mesmo que irrital-o. Sei, irmão.
--Não se pode discutir comigo; não sei discutir! resmungou, abaixando os olhos.
--Estou certo de que todos nós caminhámos como tu agora, com os pés descalços por cima de vidros partidos; que todos nós respirámos essas mesmas evaporações de horas sombrias...
--Não podes dizer coisa alguma que me socegue. Nada! A minha alma uiva como um lobo!
--Nem tenho tal intuito. O que sei é que isso ha de passar. Talvez não muito depressa; mas ha-de passar.
E pôz-se a rir, batendo no hombro do rapaz:
--É uma doença de creanças, no genero da escarlatina, irmão. Todos nós fomos atacados do mesmo mal, com maior ou menor violencia, conforme eramos fortes ou fracos. Ataca a gente da nossa condição, quando nos encontramos sósinhos, quando não compreendemos ainda a vida, quando não vemos o logar que nos foi destinado. Parece-nos que somos o unico homem n’este mundo e que ninguem se importa comnosco, a não ser para nos devorar. Mais tarde, quando vires que ha tambem boas almas n’outros peitos alem do teu, consolar-te-ás... e envergonhar-te-ás de ter acreditado que só tu davas a nota afinada, e de ter querido trepar ao campanario sendo o teu sino tão pequeno, que ninguem o ouve na bimbalhada dos dias de festa. Perceberás então que és uma voz apenas perceptivel, mas necessaria, no côro poderoso e magnifico da verdade. Compreendes o que eu quero dizer?
--Compreendo... compreendo... Mas não te acredito!
--Tambem eu não queria acreditar...
O bexigoso pôz-se então a rir com a bôca aberta até ás orelhas.
--Que é isso?
--Pensava que seria um grande parvo aquelle que te insultasse.
--E porque hão-de insultar-me? perguntou ainda André, encolhendo os hombros.
--Sei lá! O que digo é que o homem que te tiver insultado, ha-de ficar depois com uma linda cara de parvo!
--Era a isso que querias chegar!... commentou, rindo.
Ouviu-se a voz de Pélagué:
--Venha, André! venha buscar o samovar.
A sós, Vessoftchikof olhou em volta; estendeu a perna, observou as botas grossas; acurvou-se, palpando a barriga da perna; depois observou attentamente a palma e as costas da mão pelluda; levantou-a, e ergueu-se.
Quando André trazia o samovar, o bexigoso, diante do espelho, acolheu-o com estas palavras:
--Ha quanto tempo eu não via o meu focinha!... Estou feio como o diabo!
--Que te faz isso?
--A Sachenka diz que o rosto é o espelho da alma...
--Qual historia! Tem o nariz de gancho, as faces agudas como bicos de tezoura, e todavia a sua alma é pura como uma estrella!...
Sentaram-se para tomarem o chá e comerem. Vessoftchikof deitou a mão a uma grande batata, salgou um pedaço de pão e começou a comer tranquillamente, vagarosamente, como um lobo.
--E como vão as coisas por cá? perguntou com a bôca cheia.
E, tendo ouvido as informações d’André:
--Tudo isso vae de vagar! É preciso ir mais de pressa.
--A vida não é um cavallo: não a fazemos andar ás chicotadas.
Mas o bexigoso meneava a cabeça, obstinado.
--Vae devagar... vae... Eu não tenho grande paciencia... Que é preciso que eu faça?
--Devemos aprender a ensinar os outros. É este o nosso dever!
--E quando entraremos em lucta?
--Ignoro. Segundo a minha opinião, antes de pegarmos em armas, deveremos armar o nosso cerebro.
--O rapaz ficou silencioso, voltando a comer. Sem que elle percebesse, a velha observava-lhe o rosto picado das bexigas, tentando descobrir n’elle alguma coisa que a reconciliasse com aquelle caracter aggressivo; mas ao encontrar-lhe o olhar penetrante, ficava na mesma e movia os sobrolhos, desanimada.
No seu intimo, os dois moradores do velho pardieiro sentiam-se como apertados, pouco á vontade, e lançavam de quando em quando olhares furtivos para o hospede.
Até que este ergueu-se.
--Não me saberia mal deitar-me. Estive encarcerado por muito tempo, puzeram-me na rua de repente... vim por ahi adiante... Estou cançado.
Quando elle foi para a cosinha, a velha cochichou a André:
--Tem uns pensamentos terriveis!...
--Não é um rapaz docil, não. Mas ha de passar-lhe. Eu tambem era assim. Quando o coração não aquece a valer, junta-se n’elle muita gordura... Vá deitar-se, mãesinha, que eu ainda vou ler um pouco.
André ouviu-a resar n’um murmurio. Emquanto elle ia lendo, um tanto febrilmente, a pendula do relogio oscilava em cadencia, nas vidraças o vento gemia.
A velha murmurava:
--Ó Senhor! quanta gente por este mundo, queixando-se conforme os seus males! Onde estão os felizes?
--Ha-os, sim; e dentro em breve serão em grande numero! ah! muito grande! respondeu elle.
XXI
A vida ia decorrendo rapida, de dias variados. Cada qual trazia novas a Pélagué, que não se perturbava com ellas. Cada vez eram mais os desconhecidos que vinham á noite conversar com André, e que, sempre desconfiados e cautelosos, se retiravam no meio das trevas, com a gola do casaco levantada, a pala do bonet sobre os olhos.
Para Pélagué todos aquelles rostos, novos ou velhos, fundiam-se em um só rosto magro, calmo e decidido, de olhar profundo, carinhoso e severo ao mesmo tempo, como o de Jesus a caminho de Emmaús.
Contava-os e imaginava-os cercando Pavel, como para tornal-o menos visivel aos seus inimigos.
Uma noite, uma rapariga esperta, de cabello encaracolado, chegou da cidade, com um embrulho para André; e, ao saír, disse para Pélagué com um olhar brilhante e cheio d’alegria:
--Até á vista, companheira!
--Até á vista.
--E foi á janella para vêr a sua «companheira» pela rua abaixo, em passinhos meudos, fresca como uma flôr de primavera, ligeira como uma borboleta.
--«Companheira»!... Ah! minha queridinha! Deus te dê um bom companheiro por toda a vida.
Notava por vezes nos que vinham da cidade aspectos variegados que lhe despertavam a simpatia; mas o que principalmente a impressionava era a sua simplicidade, o seu bello e tão generoso esquecimento de si proprios.
Compreendia já muitas coisas que os visitantes discutiam; sentia, que de facto, elles tinham descoberto a verdadeira origem da desgraça dos homens, e ia-se acostumando a approvar as suas opiniões. Mas não acreditava que elles podessem transformar a existencia á sua maneira, nem que tivessem a sufficiente força de attraír a si todos os operarios.
Regularmente, continuava levando folhetos para a fabrica, com o sentimento do dever cumprido; imaginava toda a especie de astucias; e os guardas, acostumados a vél-a, nem já lhe prestavam attenção. Todavia, revistavam-na por vezes, mas sempre nos dias seguintes a ter havido distribuição de folhetos. Quando não os levava, Pélagué sabia fazer-se notada, excitar a curiosidade dos guardas, que a detinham, ficando afinal com caras de tolos.
Vessoftchikof não tornou a ser acceite na fabrica; metteu-se como operario n’uma estancia de madeira, e de manhã á noite guiava os carretos de traves, lenha, taboas. Os cavallos que puxavam a carroça iam como ás cegas, em risco de atropellarem quem passava, de irem de encontro ás outras carroças; o rapaz era perseguido por uma chuva de doestos e de imprecações. Sem levantar a cabeça, sem responder, assobiava estridentemente, e chicoteava, nos intervallos, resmungando:
--Toma! toma!...
Sempre que havia reuniões em casa de André para a leitura d’um folheto ou do ultimo numero d’um jornal estrangeiro, Vessoftchikof apparecia, sentava-se e escutava sem dizer palavra, durante uma ou duas horas. Concluida a leitura, os novos discutiam; elle porem não entrava na conversa, e era o ultimo a saír.
A sós com André, falava então com o seu modo sórna.
--Quem é o mais culpado de todos?
--Aquelle que foi o primeiro a dizer: «Isto é meu!» Mas como já morreu ha milhares d’annos, não vale a pena zangarmo-nos com elle! respondia André, gracejando.
--Mas os ricos e os poderosos? e os que os defendem? teem razão?
O russo-menor apertava a cabeça entre as mãos, retorcia o bigode e falava durante muito tempo acerca da vida dos homens, com palavras simples e claras.
Elle porém volvia:
--Não! Ha de haver culpados! Existem! Digo-te que é preciso revolvermos a vida toda, sem piedade, como um campo coberto de más hervas!...
--Foi o que o Isaías disse uma vez, falando do sr.... observou Pélagué.
--O Isaías?
--Sim. Que mau homem! Espia toda a gente... Vem até espreitar ás nossas janellas.
--Ás suas janellas?...
Ella estava já deitada e não lhe podia vêr a cara. Mas percebeu que tinha falado de mais, quando André disse, em tom conciliador:
--Pouco importa que elle venha espreitar-nos. Não tem que fazer a essa hora: passeia.
--Qual! exclamou o rapaz! Ora ahi tens o culpado?
--Culpado de quê? de ser parvo?
Mas o bexigoso não respondeu e saíu.
Pélagué não dormia.
--Tenho medo d’elle! exclamou. Parece um fogão levado ao rubro: não dá calor, mas queima.
--Sim... é um garôto irascivel. Nunca lhe fale do Isaías, mãesinha. Esse tal Isaias é em verdade um espião... Pagam-lhe até para isso.
--Que admira? O seu melhor amigo é um agente de policia!
--O Vessoftchikof ainda acaba por torcer-lhe o pescoço! Veja que sentimentos os que mandam na nossa vida fazem nascer nas camadas inferiores. O que succederá quando aquelles que se parecem com este rapaz tiveram a consciencia da sua situação humilhante e perderem a paciencia? O ceu raiar-se-á de sangue, e a terra cobrir-se-á d’espuma, como se a tivesse invadido um musgo vermelho.
--É terrivel, meu André!
--Os nossos inimigos não terão o que merecem. Todavia, mãesinha, cada gottinha do seu sangue terá sido lavado préviamente pelos lagos de lagrimas que o povo chorou.
E accrescentou, rindo:
--É justo, mas não é consolador!
XXII
Um domingo, quando a velha, voltando da mercearia, abriu a porta e appareceu no limiar, foi invadida por subita alegria, pois ouvira lá para o interior da casa, a voz de Pavel.
--Cá está elle! gritou André.
Pélagué notou a rapidez com que o filho se voltou para ella e o brilho que lhe assomou ao rosto.
--Eis-te afinal na nossa casa! murmurou.
Pavel avançou, muito palido, com pequeninas lagrimas bailando-lhe nos olhos, com os labios tremulos. Em silencio, os dois contemplavam-se.
--Obrigado, mamã! exclamou por fim, apertando-lhe a mão que estremecia. Obrigado, minha querida mãe!
Commovida por aquellas palavras, ella acariciava-lhe os cabellos, e reprimindo as pulsações do coração, disse com doçura:
--Deus seja comtigo! O que me agradeces?
--O teu auxilio na nossa grande obra! Obrigado! É uma honra enorme para o homem poder dizer que sua mãe tambem é sua parenta pelo espirito.
Não respondeu, aspirando, soffrega, as palavras do filho, contemplando-o, como em extasi perante aquelle rosto que lhe parecia tão luminoso.
--Eu calava-me, mamã, porque percebia que certas coisas da minha vida te impressionavam; tinha piedade da tua alma, e nada podia fazer que lhe fosse agradavel. Imaginava que nunca te juntarias a nós, que nunca seguirias as nossas opiniões, que continuarias a supportar tudo, em silencio, como o tinhas feito em toda a tua vida. E isto custava-me muito.
--O André deu-me a compreender tantas coisas!... observou, desejando chamar André ao sentimento do filho.
--Contou-me tudo o que tu fazias! disse, rindo.
--O Iégor tambem. Somos da mesma aldeia. Olha o André quiz ensinar-me a ler.
--E tu tiveste vergonha e pozeste-te a estudar sósinha, ás escondidas.
--Espreitou-me, então! notou, contrafeita. Mas que é d’elle? Foi-se d’aqui, para nos deixar á vontade. Chama-o, que elle... não tem mãe.
--André! Onde estás tu?
--Aqui. Vou rachar lenha.
--Tens tempo. Anda cá.
--Lá vou.
Não veio logo; e á porta, observou, dando importancia ao caso:
--É preciso dizer a Vessoftchikof que traga lenha, que já ha pouca. Vê como a cadeia fez bem ao Pavel? Em logar de punir os revoltados, o governo engorda-os.
--Ainda não comeste!... Vamos jantar, Pavel! propoz ella.
--Não. O guarda vigilante informou-me hontem de que tinham resolvido pôr-me em liberdade, e logo perdi a vontade de comer. A primeira pessoa que encontrei por cá foi o velho Sizof. Apenas me viu, atravessou a rua para me falar. Aconselhei-o a ser mais prudente, porque eu estou sob a vigilancia da policia. «Que tem isso?» foi a sua resposta. E sabes o que me perguntou acerca do sobrinho? «O Fédor tem-se portado bem na cadeia?» E eu: O que entende por isso de portar-se bem? «Ora!... não dar com a lingua nos dentes a respeito dos companheiros!» Quando lhe disse que elle era um bom rapaz e intelligente, passou a mão pela barba, e disse com altivez: «Nós, os Sizof, não temos patifes na familia!»
--Não tem nada de tolo, esse velho. E o Fédia vem para a rua por estes dias?
--Provavelmente. Creio mesmo em que virão todos. Não ha provas contra nós. Apenas o depoimento do Isaías... Mas o que pode elle saber?
--Sentemo-nos! disse Pélagué, servindo o jantar.
Comendo, André referiu-se a Rybine. Quando acabou de contar o que se tinha passado, Pavel murmurou, com muito pezar:
--Se eu cá estivesse, não o teria deixado partir assim. O que leva na sua alma? Um sentimento de revolta e umas idéas embrulhadas...
--Ora! disse André, sorrindo. Quando um homem tem quarenta annos e luctou durante muito tempo contra as dúvidas e as hesitações da sua alma, é difficil transformal-o.
Discutiam, empregando termos que a velha não compreendia, até ao fim do jantar, embora por vezes falassem mais a claro.
--Devemos continuar no nosso caminho, sem nos desviarmos d’elle nem uma linha! exclamou Pavel com firmeza.
--E esbarrarmos no caminho com dezenas de milhões de homens que nos consideram seus inimigos.
Pélagué poude concluir que Pavel não gostava dos camponezes, ao passo que André os defendia, entendendo ser preciso ensinar-lhes o bem. Compreendia melhor André. Sempre que elle dizia qualquer coisa a Pavel, prestava muita attenção, deixando mesmo de respirar, esperando com impaciencia a resposta do filho, para ver se o russo-menor o teria offendido. Mas os dois continuavam discutindo sem se zangarem.
De quando em quando, perguntava:
--É assim, Pavel?
E elle respondia, sorrindo:
--É.
--Com que então o senhor, dizia André, em tom de malicia, comeu bem, não mastigou bastante e ficou embatocado?...
--Não digas tolices!
--Eu. Estou mais serio do que n’um enterro!
E a velha ria...
XXIII
Approximara-se a primavera, ia-se derretendo a neve, descobrindo a lama e o suor engordorado das chaminés da fabrica, que ella havia occultado sob a sua camada branca.
Dia a dia, a lama tornava-se mais aggressivamente apparente, todo o bairro parecia immundo e envolto em farrapos. O sol mostrava-se mais a miude, e os regatos ainda indecisos começavam a dirigir-se para o pantano. Ao meio-dia, a canção cariciosa das esperanças primaveris palpitava pairando sobre o bairro.
Andavam em preparação as festas do primeiro de maio.
Pela fabrica e pelo bairro todo tinham sido espalhados muitos folhetos, explicando a significação d’aquellas festas. Até a gente nova, que nada tinha de commum com os socialistas, dizia ao lêl-os:
--É preciso tratar d’isso!
Vessoftchikof resmungava com o seu sorriso sorna:
--E não é cedo. O jogo das escondidas dura ha muito tempo!
Fédia Mazine rejubilava. Tinha emagrecido e o nervosismo dos seus gestos e das suas palavras lembravam uma cotovia que estivesse mettida n’uma gaiola. Acompanhava-o sempre Jacob Somof, rapaz taciturno, muito grave apezar de novo, e que trabalhava então na cidade. Samoílof, cujos cabellos e barba pareciam terem-se avermelhado ainda mais na cadeia, Vassili, Goussef, Boukine, Dragounof e outros julgavam indispensavel munirem-se de armas; mas Pavel, o russo-menor, Somof e os seus amigos não eram da mesma opinião. Iégor chegou então, como sempre fatigado, offegante, e coberto de suor. Disse de brincadeira:
--A transformação da organisação actual é uma grande obra, companheiros, mas para que ella caminhe mais facilmente é necessario... que eu compre um par de sapatos para a minha pessoa!
E mostrou as botas rotas e que mettiam agua.