A Mãe

Part 10

Chapter 103,897 wordsPublic domain

--As minhas galochas estão na mesma, tambem muito doentes; todos os dias molho os pés. Não quero descer ao seio da terra sem ter renegado do velho mundo, d’uma maneira bem publica e visivel. Eis porque, regeitando a moção do companheiro Samílof relativamente a uma demonstração de força armada, proponho que me calcem com um bom par de valentes botas, porque estou convencido de que serão mais uteis ao triumpho da nossa causa do que a maior das sarrafuscas!

Pavel disse uma vez, falando de Iégor:

--Sabes, André, aquelles que mais riem, são aquelles cujo coração mais soffre.

Depois de um curto silencio, o outro respondeu:

--Qual historia! Se assim fosse, toda a Russia morreria de riso!

Natacha appareceu tambem; estivera na cadeia, n’outra cidade, mas não mudara d’aspecto. Pélagué notou que, quando ella estava presente, o russo-menor ficava mais alegre, brincava com todos, com uma malicia sem maldade que provoca as gargalhadas da rapariga, e que, quando ella se ia embora, elle entrava de assobiar tristemente as suas innumeras canções, passeando pela casa, arrastando os pés.

Sachenka vinha a miude, sempre apressada, tornando-se dia a dia mais acre, mais angulosa.

Uma vez que Pavel tinha saído para acompanhal-a, sem fechar a porta apoz si, Pélagué ouviu-lhes estas phrases:

--É o sr. que levará a bandeira?

--Sou.

--É caso resolvido?

--É o meu direito!

--Não seria possivel...?

--O quê?

--...deixar que fosse outro...?

--Não!

--Reflicta. O sr. tem tanta influencia... estimam-no tanto... Aqui os chefes são o André e o sr. Quantas coisas poderão fazer, estando livres!... Reflicta. São capazes de exilal-o... para muito longe e por muitos annos!...

Estas palavras, cujo sentimento Pélagué estava entrevendo, caíam-lhe no coração como pingos d’agua gelada.

--Não! estou decidido. Não renunciarei por coisa alguma n’este mundo!

--Ainda que eu lhe pedisse...?

Pavel interrompeu-a rapidamente, tendo na voz uma severidade especial:

--Não deve falar assim. No que está pensando?

--Sou uma creatura humana!... murmurou, defendendo-se.

--Uma excellente e meiga creatura! disse elle em voz baixa e como se lhe custasse respirar. Uma creatura que me é querida... muito querida! E é por isto mesmo que não deve falar assim!

--Adeus!

E pelo ruido dos seus passos, a velha percebeu que ella ia correndo. Compreendeu que nova desgraça a ameaçava, e no cerebro cravou-se como um prego esta interrogação: «O que será preciso fazer?»

Ao entrar na cosinha, Pavel avançou para André que lhe perguntou:

--E aquelle desgraçado do Isaías?

--Devemos aconselhal-o a que renuncie á espionagem.

--Denunciará aquelles que tal lhe aconselharem.

--Que pensas fazer, Pavel? perguntou-lhe a mãe, desviando o olhar.

--Quando? agora?

--Não: no primeiro de maio.

--Ah! quero levar a nossa bandeira. Pôr-me-ei á frente do cortejo, com a bandeira em punho. Naturalmente mettem-me outra vez na cadeia.

Os olhos de Pélagué tornaram-se como candentes, a bôca foi-lhe invadida por uma secura febril. O filho pegou-lhe na mão e ameigou-a:

--Assim é preciso, mãe. A honra está n’isto mesmo.

--Eu não disse nada... balbuciou.

--Deverias regosijar-te, em vez de entristeceres-te.

--Eu não disse nada... Não me opporei... Se tenho pena de ti, é natural... e fica comigo...

Pavel afastou-se, e ella ouviu-o resmungar palavras acerbas:

--Ha affeições que impedem o homem de viver!

Receando que elle dissesse peor, exclamou vivamente:

--Não fales assim, Pavel! Compreendo. Tens que fazer o que tencionas, por causa dos companheiros.

--Não! Por minha propria causa! Poderia proceder d’outra forma, mas não quero! Hei-de ir!

André parou no limiar; parecia mettido n’uma moldura: era mais alto do que a porta e curvava os joelhos caricatamente, com um dos hombros encostados a um umbral, e com a cabeça e o outro hombro estendido para a frente.

--Seria melhor que o sr. tagarellasse menos!

Parecia um lagarto semi-occulto na fenda d’um rochedo.

A velha tinha vontade de chorar, mas, não querendo que Pavel a surpreendesse, disse de repente:

--Ah!... ia-me esquecendo...

E retirou-se, rapida. Sob o alpendre, encostou a cabeça á parede, e deu livre curso a todo o seu pranto. As palavras dos dois amigos chegavam até lá.

--Divertes-te em atormental-a! dizia André.

--Não tens o direito de falar-me assim!

--Não seria um bom companheiro, se me calasse ao ouvir as tuas estupidas cabriolices! Para que respondeste tão rudemente á tua mãe?

--Deve-se falar sempre com firmeza, seja a quem fôr!

--Á tua propria mãe?

--A todos! Dispenso qualquer amor ou amisade que me detenham no meu caminho.

--Que heroe! Á Sachenka é que devias falar assim.

--Foi o que fiz.

--Com essa rispidez? Não creio! Havias de falar-lhe com uma voz carinhosa, terna... É como se estivesse a ouvir-te! Guardas o teu heroísmo para quando a tua mãe está presente. Pois fica sabendo, animal, que o teu heroísmo não vale nada!

Pélagué receou que a discussão se azedasse; limpou rapidamente as lagrimas e appareceu, dizendo:

--Oh! que frio que faz! E é isto a primavera!...

E, nos arranjos domesticos, deu alguns passos pela casa, voltando de novo á cosinha.

Apóz um silencio, André approximou-se de Pavel.

--Percebeste-a?... Tem mais coração do que tu.

--Querem chá? perguntou a velha.

E sem esperar resposta, accrescentou logo:

--É que estou transida de frio.

Pavel dirigiu-se a ella, com um sorriso a tremer-lhe nos labios.

--Perdôa, mãe... Sou ainda uma creança... um garôto...

Ella estreitou-o a si.

--Não me ralhes mais. Não me digas mais nada. Deus seja comtigo, filho! Segue lá a tua vida, mas não bulas no meu coração. Como não haveria de uma mãe ter piedade do seu filho? Tenho piedade de todos...

--Está bem, mamã. Perdôa. Fiz mal.

E afastando-se, enleado:

--Nunca mais o esquecerei, palavra d’honra!

Passando á cosinha, Pélagué disse a André, que se conservara á porta:

--Não ralhe com elle. Bem sei que o André é mais velho, mas...

Elle não se moveu, e pôz-se a berrar comicamente:

--Ora! ora! ora! Ralho... e até lhe chego, se calhar!

A velha apertou-lhe a mão commovida.

--Meu bom amigo!...

André entrou na cosinha, e, continuando no mesmo tom ironico:

--Desapparece, Pavel, se não queres que eu te torça o pescoço. Por emquanto, não, porque estou arranjando o samovar! Oh! que pessimo carvão! Está molhado, com mil diabos!

Calou-se. Quando a viu perto de si, foi dizendo, baixinho, todo entretido no seu trabalho:

--Não tenha medo, mãesinha, que não lhe tocarei nem com um dedo! Sou simplorio como um nabo cosido. E gosto muito d’elle. Olha tu é que não deves dar ouvidos ao teu heroe! Anda como se tivesse estreado um collete garrido: com o peito espetado, empurrando em toda a gente para que lhe vejam bem o collete... É bonito, lá isso é; mas para que diabo empurra elle o proximo?

Pavel disse de lá:

--Ainda estás resmungando? E approximou-se logo.

André, sempre sentado no chão, tinha posto entre as pernas o samovar e contemplava-o. Pélagué, encostada á porta, fixava o olhar na nuca e no farto pescoço do russo-menor. Elle então deitou o corpo para traz, com as mãos apoiadas no chão, e, depois de ter observado a mãe e o filho:

--Em verdade, olhem que são muito boa gente!

Pavel abaixou-se para lhe pegar n’um braço.

--Não puxes por mim, que me fazes caír!

--Para que se zangam? perguntou ella tristemente. Não seria melhor que se abraçassem?

--Queres?... murmurou Pavel.

--Porque não?

Pavel ajoelhou-se e os dois homens abraçaram-se, unindo-se n’uma só alma, animada da mais quente amisade.

Pélagué chorava; era porem um pranto sem amargor. Enxugando os olhos, balbuciou:

--As mulheres gostam de chorar... de tristeza... e de alegria...

André afastou o amigo, e esfregando os olhos:

--Basta! basta! Que diabo de carvão! Tenho os olhos cheios d’elle!

Pavel sentara-se junto da janella, e murmurou:

--Lagrimas como estas não devem envergonhar.

--Sim! Acabámos de viver uns momentos de uma boa vida, humana, replecta de amor! exclamou André.

Ao que a mãe observou:

--Tudo está mudado! O pezar é outro... outra é a alegria... já nem sei... já não sei o que me faz viver... faltam-me as palavras...

--Tudo está mudado. E assim é que deve ser! acudiu André. E sabe porquê? Porque se desenvolve na vida um coração novo, mãesinha. Os corações estão todos elles despedaçados pela diversidade dos interesses, roídos pela cega avareza, mordidos pela inveja, cobertos de chagas e de feridas purulentas... de mentira, de covardia. Os homens são uns doentes, que teem medo de viver... perdidos como em um nevoeiro... conhecendo apenas a sua propria dor. Mas eis que apparece um homem que illumina a vida com o fogo da razão e que grita: «Eh! pobres insectos perdidos! Chegou o tempo de compreender que tendes todos os mesmos interesses e o mesmo direito á vida e ao desenvolvimento!» O homem que clama está isolado, sente-se triste e tem frio sósinho. E ao seu chamamento, todos os corações se reunem, formando um coração immenso, forte, sensivel como um sino de prata. E este sino diz assim: «Uni-vos, homens de todos os paízes, formae uma unica familia! A mãe da vida é a affeição e não o odio!» Irmãos, eu oiço este sino!

--E eu tambem! disse Pavel.

--Deitado, de pé, vá para onde fôr, oiço-o e sinto-me feliz. Eu sei: a terra está farta de supportar a injustiça e a dôr; éccôa como se quizesse responder, saúdando o novo sol que desponta no peito do homem!

Pavel ergueu um braço, ia falar; mas a mãe deteve-o, e disse baixinho:

--Não o interrompa.

--Sabem? ha ainda muitas dores reservadas aos homens; ainda muito sangue lhes será arrancado por mãos ávidas. Mas tudo isto, toda a minha dor e todo o meu sangue, nada são perante o que já possuo no meu cerebro, na minha medula, nos meus ossos! Já sou rico como uma estrella é rica em scintillações. Supportarei tudo, porque tenho em mim uma alegria, que ninguem nem coisa alguma matará, e que é a minha força!

E até á meia noite, a conversa proseguiu, harmonica e sincera, acerca da vida, dos homens, do futuro.

XXIV

De manhã muito cedo, apenas André e Pavel tinham sido, Maria Korsounova bateu á janella com estrondo.

--O Isaías foi assassinado! Vamos ver!

Pélagué estremeceu: o nome de assassino atravessou-lhe o peito como uma flécha.

--Quem o matou?

--O assassino fugiu!

Tendo posto um chale, á pressa, Pélagué foi ter com ella á rua.

--Naturalmente começam outra vez a fazer buscas. Ainda bem que a tua gente não saíu de casa áquella hora. Posso tesmunhar. Á meia noite passei eu por aqui, olhei pela janella e vi-os a todos trez sentados á meza.

--Mas, Maria, porque haveriam de accusal-os? perguntou aterrorisada.

--O assassino é forçosamente dos vossos! Todos sabem que o Isaías os espionava...

Pélagué parou, offegante, com a mão no peito.

--Que é isso? Não tenhas medo. O Isaías não merecia outra coisa. Vamos depressa, que não chegamos a tempo.

A pobre velha caminhava sem mesmo perguntar a si propria para que ia ver o cadaver; tremia pensando em Vessoftchikof: «Conseguiu o seu fim!»

Não distante da fabrica, sobre o entulho d’uma casa recentemente destruida por um incendio, grande ajuntamento de povo murmurava como uma nuvem de bezouros, e movia-se levantando em poeira a cinza com os seus passos. Já lá estavam muitas mulheres, ainda mais creanças, lojistas, os moços da taverna proxima, agentes de policia, o guarda Pétline, um guarda velho, de barbas brancas como prata, e com o peito coberto de medalhas.

Isaías estava meio deitado no chão; tinha as costas apoiadas a uma trave enegrecida pelo fogo, a cabeça descaída para o ombro direito. Conservava a mão direita na algibeira das calças; os dedos da esquerda desappareciam contraídos sob a terra fôfa.

Pélagué olhou para o rosto do morto. Um dos olhos tinha-o elle fixado no boné posto entre as pernas estendidas, a boca entreaberta n’uma como expressão d’assombro; a barbicha ruiva pendia. O corpo magro, com a cabeça ponteaguda, e o rosto ossudo coberto de manchas avermelhadas, parecia diminuido, comprimido pela morte.

Ella então benzeu-se suspirando. Em vida, aquelle homem fôra-lhe antipatico; morto, fazia-lhe dó.

--Não tem sangue! disse alguem. Talvez o prostrassem aos murros.

--Talvez ainda esteja vivo.

--Vão-se d’aqui! berrou o guarda.

--O medico já veio, e disse que elle estava morto!

--Fecharam a boca a um denunciador... Foi bem feito!

O guarda afastou as mulheres que o cercavam e perguntou ameaçadoramente:

--Quem é que falou?

Muitos recuaram; outros deitaram a fugir. Ouviram-se risos escarninhos.

Pélagué voltou para casa.

--Ninguem tem dó d’elle!... ia pensando.

--E o perfil macisso do bexigoso erguia-se na sua frente; os seus olhos tinham um brilho frio e rude; a sua mão direita balouçava, como se estivesse ferida.

Quando André e Pavel entraram para o jantar, perguntou-lhes logo:

--E então? Não está ninguem preso por causa do Isaías?

--Não ouvi nada... respondeu o russo-menor.

Ella notou que os dois vinham sombrios e reservados.

--Não falam do Vessoftchikof?... avançou.

O filho encarou-a com severidade e respondeu, accentuando muito as palavras:

--Não! Ninguem pensa n’elle. Está ausente. Hontem ao meio dia, partiu a caminho da ribeira e ainda não voltou... Tirei informações...

--Deus seja louvado! exclamou ella com um suspiro d’alivio.

Ao jantar, Pavel deixou caír de repente a colher no prato e disse:

--Não entendo isto!

--O quê? perguntou André, até ali triste e silencioso.

--Admitto que matem um animal feroz, uma ave de rapina... Julgo-me capaz de matar um homem que se tornasse uma fera para os seus semelhantes. Mas como ha quem possa levantar a mão para assassinar uma creatura miseravel e repugnante?

André encolheu os hombros, e depois:

--Elle era tão nocivo com uma fera.

--Sei...

--Nós tambem esborrachamos o mosquito que nos suga um pouco de sangue...

--Sim, é verdade. Não é esse o meu ponto de vista. Digo que é repugnante!

--Que se ha de fazer? e encolheu outra vez os hombros.

--Poderias matar uma creatura d’aquellas? perguntou Pavel depois de curta pausa.

--O russo-menor fitou-o, lançou um rapido olhar a Pélagué, e respondeu tristemente mas com firmeza:

--Se se tratasse de mim só, não tocaria em ninguem. Pelos companheiros, pela nossa causa, faria tudo. Mataria até meu proprio filho, se preciso fosse!

--Oh!... suspirou Pélagué.

Elle sorriu, concluindo:

--Impossivel proceder d’outra maneira! É a vida que assim o quer!

Como se obedecesse a um impulso intimo, André ergueu-se de repente.

--Que se ha de fazer? É-se obrigado a odiar o homem, para que venha mais cedo o tempo de admiral-o sem reservas. Temos que destruir aquelle que obsta ao curso da existencia, que vende os outros para adquirir honrarias ou o descanso. Se encontramos no caminho dos justos um Judas que nos espera para nos traír, eu proprio seria um traidor, se não o anniquilasse. É crime? É contra o direito? E os outros, os nossos senhores, com que direito se servem de soldados e carrascos, de casas publicas e de prisões, do degredo e de tanta coisa infame para protegerem a sua segurança e o seu bem-estar? Os nossos senhores assassinam-nos ás centenas, aos milhares; isto dá-me o direito de levantar a mão e de deixal-a caír na cabeça d’um inimigo, d’aquelle que mais se approximou de mim e que mais me prejudica na vida. Sei que o sangue dos meus inimigos não cria, que é esteril... Desapparece sem deixar vestigios, porque está podre; ao passo que quando o nosso rega a terra como uma chuva compacta, a verdade desenvolve-se exhuberante! Tambem o sei! Mas se vir que é indispensavel matar, matarei e revindicarei a responsabilidade do meu crime. Não falo senão de mim. O meu peccado morrerá comigo, não maculará o futuro com uma unica nódoa, não manchará ninguem, ninguem senão eu!

Cheia de tristeza e de inquietação, Pélagué sentia que elle tinha como que uma mola partida no seu espirito, e que soffria. Não a inquietava já o caso do assassinio: não tendo sido Vessoftchikof, nenhum outro companheiro de Pavel o seria, por certo.

André proseguia:

--Tempo virá em que os homens se admirarão uns aos outros, em que cada qual brilhará como uma estrella, em que escutará a voz do seu semelhante, como se fosse uma musica. Haverá na terra homens ricos, grandes pela sua liberdade, tendo todos o coração aberto, purificado de qualquer ambição ou interesse. A vida será então um culto prestado ao homem; a sua imagem será exhaltada porque para os homens livres todas as alturas são accessiveis. Viver-se-á então na liberdade e na egualdade, pela belleza; os melhores serão os que mais souberem abarcar o mundo no seu coração, os que mais o amarem! E por esta vida assim, estou prompto a tudo. Arrancaria o coração a mim proprio, e pizal-o-ia, com os meus pés!

O seu rosto tremia; as suas feições tinham uma excitação luminosa; uma a uma, as lagrimas deslisavam-lhe pelas faces.

Pavel levantou a cabeça e contemplou-o. Pélagué sentia-se inquieta, com um vago e terrivel presentimento.

--O que tens, André? perguntou Pavel, a meia-voz.

Elle esticou o corpo, e fitando a velha:

--Eu vi... eu sei...

Pélagué levantou-se, correu a elle, pegou-lhe nas mãos.

--Socega, André! meu filho!... socega!... murmurava.

--Esperem!... Quero dizer-lhes como a coisa foi...

--Não! não! accudiu ella, com os olhos razos d’agua.

Pavel approximou-se d’elle, com as mãos trémulas e muito pálido, e segredou-lhe:

--A minha mãe receia que tivesses sido tu...

Ella porem ouviu, e disse:

--Não receio, não. Sei que não foi elle. Ainda que tivesse sido, não acreditaria.

--Oiçam... pediu André, sem os fitar e buscando libertar as mãos que Pélagué não abandonava. Não fui eu... mas poderia ter evitado o crime.

--Cala-te, André! exclamou Pavel, pondo-lhe a mão no hombro, como para fazer cessar a tremura que lhe abalava todo o corpo.

O russo-menor explicou então:

--A coisa foi assim: quando nos deixaste, ficamos á esquina, eu e o Dragounof. O Isaías appareceu de repente... e conservou-se afastado... Troçava de nós, observando-nos... Dragounof disse-me: «Não vês! Anda-me a espiar todas as noites. Ainda venho a dar-lhe uma lição!» E afastou-se para entrar em casa, ao que julguei... Então o Isaías chegou-se a mim...

Suspirou:

--Ninguem me insultou mais rélesmente do que aquelle cão!

Sem falar, Pélegué fôra conseguindo puxal-o para junto da meza até obrigal-o a sentar-se.

--Disse-me que todos nós eramos conhecidos da policia, que tinha os olhos em nós, e que antes do primeiro de maio estariamos servidos!... Não respondi, limitei-me a rir-me, mas cá por dentro começava a ferver. Disse-me depois que eu era um rapaz intelligente, que não deveria metter-me a taes caminhos...

--Percebo!... murmurou Pavel.

--Isso! Acabou por dizer-me que seria melhor eu entrar ao serviço da policia...

E de punho cerrado erguido:

--Que alma infame a d’aquelle homem! Mais valia que me houvesse esbofeteado! ter-me-ia custado menos! e talvez fosse melhor para elle. Perdi a paciencia quando assim me cuspiu no coração a sua saliva infecta! Dei-lhe um muro em pleno rosto, e retirei-me. Ouvi uma voz atraz de mim: «Fizeste muito bem!» Era Dragounof, que por certo tinha ficado occulto na esquina. Não olhei para traz, apezar de sentir, de compreender a possibilidade... Ouvi depois um ruido, mas não fiz caso. Eu ia tão tranquillo como se tivesse acabado de esmagar um sapo. Quando cheguei á fabrica, dizia toda a gente: «Mataram o Isaías! Não quiz acreditar. A minha mão é que teve a culpa... Não sou senhor d’ella... Não me faz soffrer, não... mas dir-se-ia que a sinto retraída agora...

Lançou á mão um olhar rapido e exclamou:

--Não conseguirei nunca laval-a d’esta mancha!

--Tenhas tu bem puro o teu coração!... disse Pélagué chorando.

--Não me accuso, não! declarou elle com energia. Mas é repugnante... Não é agradavel ter esta lama cá dentro no peito!

--Que pensas fazer?

--O que quero fazer?

E depois de reflectir, de cabeça baixa, ergueu-a e respondeu com amargo sorriso:

--Não tenho medo de dizer que fui eu... mas tenho vergonha do que fiz! Não! não posso dizel-o! Tenho vergonha!

--Não te percebo bem! exclamou Pavel, encolhendo os hombros. Não foste tu quem matou; e ainda que...

--Irmão, apezar de tudo, era um homem. O assassinio é coisa repugnante. Saber que alguem assassina, e não o impedir... é talvez uma covardia infame!

--Continúo sem perceber!

Ouviu-se o apito da fabrica. André deixou tombar a cabeça para o hombro, escutando aquelle auctoritario chamamento e disse:

--Não quero ir trabalhar.

--Nem eu!

--Quero ir tomar um banho!

Vestiu-se á pressa e saíu.

Pélagué seguiu-o com um olhar de compaixão; depois abriu-se com o filho.

Podes dizer o que quizer, Pavel. Sei que é peccado matar um homem, mas n’este caso não encontro culpa em ninguem. Lembro-me de que o Isaías me ameaçou uma vez com a forca para ti... Eu não lhe queria mal, nem me alegro por elle ter morrido... Tinha apenas dó d’elle... E agora... nem mesmo isso já sinto...

--Ahi tens o que é a vida, mãe!

XXV

Alguem acabava de chegar sob o alpendre. Mãe e filho entreolharam-se, estremecendo.

A porta abriu-se e deu entrada a Rybine. Trazia vestida uma capa curta, de pelles, toda manchada de alcatrão, e nos pés sapatos de canhamo; do cinto pendiam-lhe grosseiras luvas de lã preta; na cabeça um boné de pelles.

--Como vão de saúde? Puzeram-te na rua, Pavel? E tu, Pélagué, como vaes?

--Ah! és tu? muito estimo ver-te!

--Olha que vens mesmo lindo! disse Pavel.

Rybine respondeu, tirando vagarosamente a capa:

--Sim. Fiz-me camponez. Tu e os teus vão-se transformando pouco a pouco em senhores; eu ando para traz.

E passando ao quarto, lançou o olhar em roda.

--Não teem mais mobilia do que d’antes. Os livros é que augmentaram. São o melhor bem que se pode possuir hoje. Como vão as coisas por cá? Conta-me.

Sentou-se abrindo muito as pernas, apoiou as palmas das mãos nos joelhos, parecendo satisfeito na espectativa da resposta de Pavel.

--Vão bem.

--Muito me alegro! muito me alegro!

--Queres chá? perguntou a dona da casa.

--Pudera! e um copinho de aguardente... e se me offerecessem de comer, tambem não recusaria. Estou contente por tornar a vêl-os!

--E como vae?

--Bem. Parei em Eguildiévo. Conhecem? É uma bella villa, com duas feiras por anno e mais de dois mil habitantes. Má gente. Não ha terras para cultivar; arrendam-nas, mas são de má qualidade. Entrei como assalariado ao serviço de um explorador do povo; não faltam d’estas sanguesugas; são como as moscas á roda de um cadaver. Fazemos carvão, extraímos alcatrão das bétulas. Trabalho duas vezes mais do que trabalhava aqui, e ganho quatro vezes menos. Ao serviço d’esta sanguesuga somos sete, todos lá da terra, menos eu. Sabem ler e escrever. Um delles, chamado Jéfim, é muito bulhento...

--E fala muito com elles?

--Está claro. Levei comigo todos os meus folhetos. Tenho trinta e quatro. Mas prefiro servir-me da Bíblia: encontra-se lá tudo o que se quer, e é um livro permittido, publicado pelo Santo-Synodo, e no qual se pode crer.

Piscou o olho, malicioso, e continuou:

--O peor é que não basta. Vim cá buscar leitura. Como vamos fazer uma entrega d’alcatrão, o tal Jéfim e eu, combinámos a patuscada de passar por tua casa... Dá cá livros antes que elle appareça... É inutil que elle fique sabendo...

Pélagué observava-o; parecia-lhe que ao largar a capa, largara tambem qualquer coisa da sua pessôa: estava menos grave do que d’antes, e havia no seu olhar mais astucia.

--Mamã, vae buscar os livros. Dize que vão para o campo, que logo sabem o que te hão de dar.

--Irei apenas o samovar esteja pronto.

--Quero livros proíbidos e bem incisivos. Distribuil-os-ei ás escondidas. E se o padre ou alguem da policia os descobrir, imaginarão que os mestres-escolas é que fazem a propaganda. De mim ninguem suspeitará.

Satisfeito por este achado, desatou a rir.

--Olha sabes? disse Pélagué. Tens assim o aspecto de um urso, e afinal és uma raposa!

Pavel ergueu-se, em tom de censura: