Part 11
--Dar-lhe-emos os livros que deseja, mas o que pensa fazer não lhe fica bem.
--E porquê?
--Porque se deve responder sempre pelo que se faz.
--Não percebo o que dizes!
--Acha bem que os mestres-escolas sejam mettidos na cadeia como suspeitos de fazerem propaganda?
--Então? que tem isso? Essa é boa! Os livros são coisa que lhes dizem respeito, a elles; portanto elles que tenham a responsabilidade!
Pélagué interveio, mostrando-se da opinião de Rybine, ao que Pavel objectou:
--Se qualquer de nós, o André por exemplo, praticasse uma infracção da lei e me mettessem na cadeia, a mim, o que diria a minha mãe?
--Ah! ah! É um caso melindroso!... exclamou Rybine. Mas assumindo uns ares doutoraes:
--Ainda és muito ingenuo, irmão! Não nos devemos preoccupar com casos de honra, quando trabalhamos por uma causa secreta. Reflecte: quem primeiro caírá na cadeia será a pessoa a quem forem encontrados os livros, e não o mestre. Depois, o texto dos livros auctorisados que os mestres distribuem é o mesmo dos livros proíbidos, com simples differenças de palavras e com menos coisas verdadeiras do que os nossos. Portanto os mestres teem o mesmo fim que eu, mas servem-se de rodeios, ao passo que eu vou por caminho direito; e assim, aos olhos das auctoridades, somos igualmente culpados; não achas? Em terceiro logar, que tenho eu a ver com os mestres-escolas? Não procederia da mesma maneira com um camponez. O mestre-escola é um filho de padre; a mestra uma filha de proprietario; não sei porque se põem a querer levantar o povo. Eu, camponez, não posso conhecer os seus pensamentos de pessôas instruidas. Sei o que faço, mas ignoro o que elles querem. Durante milhares d’annos, os grandes eram verdadeiros senhores e tiravam a pelle do povo; de repente accordam e começam a abrir os olhos ás suas victimas. Nunca tive predilecção por contos de fadas, e este é um d’elles. Para mim, a gente rica e instruida, seja qual fôr, fica afastada de nós. No inverno, quando atravessamos os campos e vemos ao longe alguma coisa a mexer, perguntamos a nós mesmos: será uma raposa, um lobo, um cão? Sabe-se lá o que é!
E, passando a mão pela barba:
--Não tenho tempo para delicadezas. O momento é grave. Trabalhe cada qual, segundo a sua consciencia... Todas as aves teem o seu canto especial.
--Mas ha ricos que se sacrificam pelo povo, que passam toda a vida na cadeia... observou a velha, recordando-se de pessoas amigas.
--Com esses o caso é outro. Quando o homem do povo enriquece, acotovella-se com os senhores. Estes, quando empobrecem, tornam-se amigo do povo. Quando a algibeira está vasia, a alma torna-se pura, á força.
Ergueu-se e continuou, sombriamente:
--Durante cinco annos, desacostumei-me do campo, andando errante de fabrica em fabrica. Quando para lá voltei e vi o que se passava, disse comigo que não podia viver como vivem os camponezes. Percebes? Parecia-me impossivel. Por cá não se conhece a fome, nem a muita humilhação. Mas na aldeia a fome segue o homem como uma sombra durante toda a vida, sem nunca lhe dar a esperança de obter pão que chegue. A fome devorou as almas, apagou as feições humanas; não se vive: apodrece-se irremediavelmente na miseria. E as auctoridades vigiam, cuidadosas; como os corvos, espreitam, não se dê o caso de que o camponez tenha um bocado de pão a mais. Quando o descobrem, arrancam-lho da mão, e ainda lhe dão com elle na cara!
Encostado á mesa, de pé, falando muito perto de Pavel, proseguiu:
--Julguei que não poderia supportar semelhante vida. Todavia, dominei-me. Disse com os meus botões: «Não devo consentir que a minha alma me faça partidas! Ficarei aqui, e, não podendo dar pão aos camponezes, farei a zaragata!»
Com a fronte coberta de suor, exclamou:
--Dá-me livros que não deixem mais em descanso aquelles que os lerem. Ajuda-me! É preciso metter ouriços dentro da cabeça d’aquella gente. Dize aos que escrevem folhetos para os da cidade, que os escrevam tambem para os do campo. Que os escrevam de maneira a regar o campo de agua a ferver, para que os cultivadores, depois de lel-os, caminhem para a morte sem protestarem!
As frases vigorosas de Rybine impressionavam Pélagué. Havia n’aquelle homem o que quer que fosse que lhe recordava o marido: um e outro mostravam os dentes e arregaçavam as mangas, com a mesma irritação impaciente. Ao menos, Rybine falava.
--Sim! é indispensavel! disse Pavel. É indispensavel organisar um jornal para o campo. Dê-nos o assumpto, narre-nos os factos, e nós lhe daremos um jornal.
Ao que Rybine respondeu.
--Está dito! Mas escrevam com simplicidade, para que até os vitellos os entendam!
XXVI
Pélagué tinha saído. Pouco depois alguem entrava.
--É o Jéfim! informou Rybine. Entra! Anda cá. Este homem, que vês aqui, chama-se Pavel. Foi d’elle que eu te falei.
Jéfim era um rapagão de cara ampla, cabellos ruivos, olhos pardos, robusto e bem talhado, trajando uma capa curta. Avançou até Pavel, de boné na mão e olhar baixo.
--Ora viva! resmungou, apertando a mão de Pavel, e tendo percorrido o quarto com o olhar, demorando-o na estante dos livros, poz-se a alisar com a mão os cabellos asperos.
--Já os viu! exclamou Rybine.
Jéfim foi ver os livros mais de perto.
--Ih! quantos ha por cá! E naturalmente lê-os muito. No campo, não temos tempo...
--E pouca vontade, não? perguntou Pavel.
--Ao contrario! Hoje somos obrigados a pensar, se não, não nos resta mais do que deitarmo-nos e esperarmos a morte. Como o povo não quer morrer, poz-se a trabalhar com o cerebro. «Geologia?...» O que é isto?
Pavel explicou.
--Não precisamos d’isso! concluiu Jéfim pondo o livro no seu logar.
Rybine commentou:
--O camponez não tem curiosidade de saber d’onde veio a terra, mas sim como foi distribuida, como os proprietarios a arrancaram de sob o dominio do povo. Que ella se mova ou não, que importa! comtanto que dê de comer!
--«Historia da escravatura!» Isto é com a gente?
--Aqui tem um acerca da servidão.
--É já muito velho.
--Possue algumas terras?
--Somos trez irmãos, e temos quatro hectares... terreno de areia fina. Coisa fresca, para limpar metaes! mas para cultivar o trigo... Eu cá libertei-me da terra. Não sustenta o homem, antes o traz manietado. Ha quatro annos que me alugo como manufactor... Para o outomno vou para a tropa.
O Mikhaíl diz-me que não vá, porque obrigam os soldados a baterem no povo. Mas vou, por força! É tempo de acabar com isto. Que lhe parece?
--É tempo, é... respondeu Pavel, sorrindo. Mas o difficil está em saber falar aos soldados.
--Aprende-se!
--Mas se o apanham em flagrante, podem fuzilal-o.
--Sim... não me perdoarão... respondeu tranquillamente, voltando a vêr os livros.
--Vamos ao chásinho, companheiro, que temos que abalar! disse Rybine.
André entrou muito vermelho, encalorado e taciturno. Apertou a mão de Jéfim, sem falar, assentou-se ao lado de Rybine, e, depois d’olhar para elle, sorriu.
--Pareces triste, homem! Porquê? perguntou aquelle dando-lhe uma palmada no joelho.
--Porque sim!
Jéfim, observava attentamente André, até que disse:
--Os trabalhadores das cidades e villas são magrizellas, teem os ossos a romper a pelle. Nós cá, os do campo, somos mais roliços...
Rybine completou:
--O camponez tem mais firmeza nas pernas. Sente a terra debaixo dos pés, ainda que não lhe pertença. Mas o operario é como um passaro: não tem patria, nem lar; um dia aqui, outro dia ali.
Pélagué entrou. Jéfim tinha-se approximado de Pavel a quem pediu:
--Poderia dar-me um livro?
--Da melhor vontade.
O jubilo brilhou-lhe no olhar.
--Eu restituo depois. Obrigado! Hoje, os livros são tão precisos como á noite uma candeia.
Rybine tinha posto a capa.
--Vamos, que são horas.
--Olha: já tenho que ler! exclamou Jéfim, mostrando-lhe o livro, com um sorriso muito aberto.
Quando elles saíram, Pavel dirigiu-se a André.
--Que me dizes áquelles diabos?
--Parecem nuvens á hora do crepusculo: grossos, sombrios, arrastando-se lentamente...
--Tenho pena de que não chegasses mais cedo. Terias observado um coração, tu, que estás sempre a falar de coração. Rybine disse das suas... Não soube que responder-lhe. A minha mãe tem razão: aquelle homem traz em si uma força terrivel!
--Conheço isso! Essa gente do campo anda envenenada! Quando se revoltarem, derrubarão tudo, sem distincção. Querem a terra absolutamente sua, e arrancarão tudo o que a cobre.
Falava de vagar; percebia-se que pensava n’outra coisa. Pélagué disse-lhe com blandicia:
--Deves espairecer, André!
--Deixe, mãesinha, deixe... Embora eu não quizesse tel-o feito, a acção foi abominavel!
E voltando ao assumpto da conversa:
--O nosso camponez queimará tudo, como se tivesse havido uma peste, para que todos os vestigios das suas humilhações vôem com as cinzas.
--E levantar-se-á depois contra nós... continuou Pavel.
--O nosso dever é não lho consentir, reprimindo-o! Somos nós quem se encontra mais perto d’elle. Acreditar-nos-á... seguir-nos-á!
--Sabes? O Rybine pediu-me que fizessemos um jornal para os camponezes.
--Apoiado! É tratar d’isso.
E depois de commentar as ultimas palavras de Rybine, ergueu-se, dizendo:
--Vou dar um passeio ao campo.
--Depois do banho? Olha que faz muito vento... Vaes arranjar uma irritação na pelle! accudiu Pélagué.
--Deixal-o! Quero saír.
Vestiu-se e foi-se sem dizer palavra.
--Soffre! suspirou a velha.
--Tens um bello coração, mamã!
--Oxalá assim seja! Se ao menos podesse ajudal-os!... se eu soubesse!...
--Não te dê cuidado: has-de saber.
O russo-menor voltou tarde; estava fatigado; deitou-se logo, dizendo:
--Parece-me que andei uns dez kilometros...
--Isso vae melhor?
--Não sei... Não faças barulho... Deixa-me dormir.
Pouco depois, Vessoftchikof appareceu, sujo, esfarrapado e de mao-humor como sempre.
--Não sabes quem matou o Isaías?
--Não! respondeu Pavel.
--Até que houve um homem que não achou antipatico esse feito! E eu que me preparava para torcer-lhe o pescoço!...
--Não digas essas coisas, companheiro!
Pélagué interveio:
--És bom e tens sempre palavras tão crueis!... Para quê?
Era-lhe então agradavel tornar a vêl-o; o seu rosto bexigoso chegava até a parecer-lhe bonito; sentia mais piedade por elle.
--Eu não sirvo para nada, senão para taes emprezas! Pergunto constantemente qual é o meu logar. Não o encontro. Se é preciso falar... não sei... Vejo tudo, sinto todas as humilhações dos homens, e não posso exprimil-as. Tenho uma alma muda. Irmãos, dêem-me um trabalho penoso, seja qual fôr. Não posso viver assim, sem fazer nada em favor da nossa causa.
Pavel pegou-lhe n’uma das mãos.
--Havemos de pensar em ti, descansa.
--André disse lá da cama:
--Ensinar-te-ei a conhecer as letras d’imprensa, e serás um dos nossos compositores; queres?
--Se me ensinares, dar-te-ei de presente uma navalha.
--Vae para o diabo mais a tua navalha!
--Uma navalha bôa! insistia.
André e Pavel riram á larga. Elle parou no meio do quarto, perguntando:
--Estão a rir-se de mim?
--Então de quem?
E o russo-menor saltou da cama.
--Se fossemos dar um passeio pelo campo? A noite está bôa, ha luar. Vamos?
--Pois vamos! apoiou Pavel.
--E eu tambem vou. Gosto de ouvir rir o André!
--E eu gosto que me promettas presentes!
XXVII
...Os dias decorriam com tal rapidez que não deixavam que Pélagué pensasse no primeiro de maio. Só á noite quando se deitava, fatigada dos trabalhos e preoccupações, é que o seu coração se confrangia, e o seu cerebro a fazia monologar:
--Se ao menos já tivesse passado!...
Todas as noites as folhas impressas convidando os operarios a festejarem o primeiro de maio eram colladas até á porta das estações policiaes; todas as manhãs appareciam tambem na fabrica. Os policias percorriam o bairro logo de manhãsinha e arrancavam das paredes os pequenos cartazes côr de violeta; mas pelo meio dia elles tornavam a apparecer espalhados pelo chão. Da cidade vieram policias da secreta que ás esquinas espiavam os menores movimentos dos operarios que iam e vinham, animados, alegres, pelas ruas.
Era um prazer disfructar a impotencia da policia; até a gente de idade dizia, sorrindo:
--Tem graça isto!
Pavel e André quasi não dormiam. Regressavam a casa, palidos, fatigados, pouco antes do apito da fabrica soltar a sua estridula chamada. Pélagué sabia que elles organisavam reuniões na floresta, no pantano; não ignorava que a policia trabalhava para abafar o movimento, chegando até a prender alguns operarios; compreendia que todas as noites o filho e André se arriscavam a serem presos, e chegava a pensar que talvez isto fosse melhor.
Em volta do assassinio de Isaías tinha-se feito um silencio extraordinario. A policia interrogou a principio umas dez pessoas; depois desinteressou-se do assunto.
Um dia, Maria Korsounova, que vivia em paz com a policia como com toda a gente, dizia:
--É lá possivel encontrar o criminoso!... N’aquella manhã mais de cem pessoas viram o Isaías, e pelo menos noventa tel-o-iam esganado de bôa vontade.
...André transformava-se a olhos visto. As faces tinham-se-lhe encovado; as palpebras descaíam-lhe cerrando-lhe os olhos; sorria menos; das narinas descia-lhe uma ruga até ao canto dos labios. Todavia entusiasmava-se mais, falando do futuro, da festa luminosa e deslumbrante do triunfo da liberdade e da razão.
Falando de Isaías, declarou:
--Quanto mais penso n’elle, mais dó me causa. Não queria que o matassem, não! não queria!
--Acaba com isso! disse Pavel.
Pélagué acrescentou:
--Houve quem topasse n’um tronco pôdre, que se desfez em pó.
...Chegou emfim o dia tão impacientemente desejado: o primeiro de maio.
Como de costume, o apito da fabrica fez-se ouvir auctoritario, implacavel. Pélagué levantou-se d’um salto e foi accender o samovar, que ficára preparado de vespera.
--Ouves, Pavel? Chamam por nós... disse André.
--E nós levantamo-nos! respondeu Pavel alegremente.
--Já faz sol... e as nuvens vão-se embora. Seriam de mais, hoje!
Ao vêl-o perto de si, a velha supplicou-lhe:
--Meu André, não te afastes d’elle!
--Está dito! Andaremos sempre juntos. Descanse.
--Que estão a dizer? perguntou Pavel.
--Nada. É a mãe que quer que eu me lave mais que de costume, porque as raparigas hoje vão olhar muito para mim!
Pélagué pensava: «Elles agora estão de brincadeira; mas o que acontecerá ao meio dia?»
Á meza, tomando o chá, André contou:
--Quando eu era um garoto de dez annos, tive um dia a ambição de apanhar um raio de sol com o meu copo. Parti o copo, cortei a mão, e levei pancada. Saí depois para o pateo, e como o sol se reflectisse n’uma poça d’agua, saltei n’ella aos pulos. Levei mais pancada porque fiquei coberto de lama. Berrei para o sol: «Isto não faz mal! seu diabo ruivo! isto não faz mal!» E deitei-lhe a lingua de fóra, por vingança.
--Porque lhe chamavas diabo ruivo?
--Defronte de nós morava um ferreiro de cara vermelhaça e barba ruiva; era um rapagão sempre alegre; e eu achava que o sol se parecia com elle.
Pélagué exclamou:
--Ora esta! Pois não seria melhor que falassem do que vão fazer?
--Está tudo organisado! replicou o filho.
--No caso de sermos presos, mãesinha, o Nicolao Ivanovitch virá dizer-lhe o que tem a fazer, auxiliando-a em tudo.
O apito da fabrica tinha tocado de novo, mas dir-se-ia já menos firme, como receoso.
Pavel aventou:
--Se fossemos para a rua?...
--Não. Deixa-te estar em casa até á hora... aconselhou André. Para que has de atrahír a attenção da policia, que te conhece perfeitamente?
...Fédia Mazine entrou radiante.
--O povo já se mexe... Pelas ruas, as caras andam severas como machados. Vessoftchikof, Vassili Goussef e Samoílof estão á porta da fabrica e falam aos operarios... Muitos já voltam para casa. Vamos! são dez horas.
--Vamos! disse Pavel, resoluto.
Pélagué exclamou:
--Arde de impaciencia, como uma vela ao vento!
Levantou-se e passou logo á cosinha para vestir-se.
--Que vae fazer, mãe?
--Arranjar-me para ir tambem!
André lançou um olhar a Pavel, puxando pelo bigode. Rapidamente, elle foi ter com a mãe.
--Não falarei comtigo, nem tu comigo. Está combinado?
--Está combinado! Deus os acompanhe!
XXVIII
Quando na rua ella ia ouvindo o murmurio das vozes, quando via por toda a parte, nas janellas, ás portas das casas, grupos que seguiam com o olhar André e Pavel, o coração ora parecia brilhar-lhe, ora toldar-se de uma nuvem opaca.
Ouviam-se frases soltas:
--Ali vem os commandantes do exercito!
--Sabemos lá quem são os commandantes?!...
--Isto não foi por mal.
--Se a policia os agarra, estão perdidos!
--Isso agarra ella!
Um grito agudo, de mulher, partiu d’uma janella.
--Estás doido? És pae de familia!... Elles são solteiros!
Ao passarem defronte da casa de um tal Zossimof, operario inhabilitado que vivia d’uma pensão da fabrica, elle chegou á janella e berrou:
--Ó Pavel, olha que te cortam a cabeça, como a um salteador!
André e Pavel pareciam não ver, não ouvir nada. Caminhavam, calmos, sem pressa, falando em voz alta de varios assuntos.
Encontrando Mironof, homem d’idade, modesto, respeitado pela vida exemplar que levava:
--Tambem não trabalha hoje, Danilo Mironof? perguntou Pavel.
--A minha mulher está com as dôres do parto... e depois... anda uma coisa no ar... Dizem que os srs. querem fazer escandalo, partir os vidros da fabrica...
--Não somos uns bebados! exclamou Pavel.
André explicou:
--Atravessaremos apenas as ruas, levando bandeiras e cantando o hymno da liberdade. Oiça o nosso hymno, que elle lhe ensinará as nossas crenças.
--Já as conheço...
E vendo Pélagué:
--Tambem tu?
--Devemos caminhar com a verdade, mesmo á beira da cova.
--É isso! Aqui está porque dizem que tu levas folhetos proíbidos para a fabrica.
--E quem o diz? perguntou Pavel.
--Toda a gente. Adeus... adeus... Não façam algum disparate.
Pélagué poz-se a rir baixinho: envaidecia-a que assim falassem d’ella. O filho disse-lhe:
--Mettem-te na cadeia, mamã.
--Quem me dera!
Á esquina d’uma pequena praça, á entrada de uma rua estreita, umas cem pessoas cercavam Vessoftchikof, que discursava.
--Espremem-nos para nos tirarem o sangue, como espremeriam um limão para lhe tirarem o succo.
--É verdade! responderam algumas vozes que se confundiram depois no confuso ruido.
--Faz o que pode, o pobre rapaz! disse André. Vou ajudal-o.
Approximou-se do grupo, abaixou-se, penetrou n’elle como um sacca-rôlhas e começou:
--Companheiros! Dizem que ha na terra toda a especie de povos: judeus e allemães, francezes, inglezes, tartaros. Mas não creio que assim seja. Ha só duas raças, dois povos irreconciliaveis: os ricos e os pobres. Os vestuarios são differentes, as linguas tambem; mas quando se vê como os senhores tratam o povo, compreende-se que elles são verdadeiros carrascos para os miseraveis, uma especie de espinha atravessada na garganta.
Rebentou uma gargalhada.
O ajuntamento augmentou; os ouvintes estendiam o pescoço, punham-se nos bicos dos pés.
--No estrangeiro, os operarios já compreenderam esta simples verdade. E hoje todos confraternisam n’este luminoso dia primeiro de maio. Deixam o trabalho, e saem para a rua, para se verem, para medirem a sua grande força. Hoje formam um coração unico, porque todos os corações têem a consciencia da força do povo operario, porque a amisade os une, estando cada qual disposto a sacrificar a vida luctando pela felicidade de todos, pela liberdade, pela justiça a todos!
--A policia! gritou alguem.
Dez guardas a cavallo voltaram a esquina proxima e dirigiram-se para o ajuntamento, de chicote no ar, e intimando:
--Nada de ajuntamentos!
--Girem!
--Que conversas eram essas?
--Quem falava?
As fisionomias annuviaram-se: todos davam passagem aos cavallos; alguns treparam a uns tapumes.
Depois veio a troça.
--Olhem: montaram uns porcos a cavallo, e elles grunhem: «Nós tambem damos ordens!»
André ficou sósinho no meio da rua. Dois cavallos avançaram para elle, ao mesmo tempo que Pélagué o agarrava, dizendo-lhe:
--Prometteste não abandonar o Pavel, e vens expôr-te assim!...
...Chegaram afinal á grande praça, ao centro da qual se erguia a egreja. No largo havia umas quinhentas pessoas, movendo-se impacientes.
--Mitia! supplicava uma voz feminina. Tem cuidado em ti!
--Deixa-me em paz!
A voz amiga e grave de Sizof dizia, calma e persuasiva:
--Não! não devemos abandonar os rapazes. Teem mais juizo do que nós, e mais audacia. Quem foi que se metteu no caso do kopeck para o pantano? Foram elles. Não nos esqueçamos. Estiveram na cadeia por causa d’isso, mas todos nós aproveitámos da sua coragem!
O rugido do apito da fabrica supplantou o ruido das conversas. A multidão estremeceu; muitos empallideceram.
--Companheiros! gritou Pavel.
A seu lado, a mãe tremia. Decorridos instantes, quando tudo caíra em silencio:
--Irmãos! Chegou a hora de renegarmos d’esta vida cheia d’aridez, de trevas e de odio, esta vida de oppressão em que não ha um logar para nós, em que não somos homens! Companheiros! resolvemos declarar hoje, abertamente, quem somos, desfraldando a nossa bandeira, a bandeira da razão, da verdade, da liberdade!
Um pao de bandeira comprido e branco for levantado ao ar, tremulando n’elle, como uma ave vermelha, a bandeira do povo operario.
Pavel estendeu o braço, gritando:
--Viva o povo operario!
Centenares de vozes lhe responderam em unisono.
--Viva o nosso partido, companheiros! Viva a liberdade do povo russo!
Mazine, Samoílof, os dois Goussef tinham-se postado junto de Pavel; Vessoftchikof ia empurrando quem lhe impedia o caminho até elle. Pélagué, trémula, com os olhos cheios de lagrimas, agarrou-lhe novamente n’uma das mãos, balbuciando:
--Sim!... é a verdade!... meus amigos!
Elle contemplava a bandeira, rugindo palavras vagas, e com a outra mão estendida para o símbolo da liberdade. Depois abraçou-se a Pélagué, rindo.
--Companheiros! começou então André, dominando o sussurro com a sua voz meiga, potente e cantante. Erguemo-nos em honra d’um novo Deus, do Deus da luz e da verdade, da razão e da bondade! Partimos para a cruzada, companheiros, e o caminho será comprido e difficil. O fim está distante, e os espinhos estão proximo. Queremos ao nosso lado os que vejam o fim e creiam no bom exito; os outros não, porque só os esperam o pezar e o soffrimento. Entrae nas fileiras, companheiros! Viva o primeiro de maio, a festa da humanidade livre!
Pavel ergueu a bandeira.
--_Reneguemos do velho mundo!_ cantou Fédia Mazine com voz sonora.
A resposta veio logo como uma enorme vaga potente:
--_Saccudamos a poeira dos pés!_
Pélagué, com um sorriso ardente, via por cima da cabeça de Fédia, o filho e a bandeira. No meio das vozes mais proximas que entoavam o hymno, chegava-lhe aos ouvidos a de André:
Ergue-te, ergue-te, ó povo operario! Revoltae-vos, esfomeados!...
E o povo corria, apertava-se, avançando para a bandeira, proseguindo no hymno, que em voz baixa tinha sido aprendido em casa.
Corramos para aquelles que soffrem...
Um rosto de mulher, meio jubiloso e meio assustado, surgiu ao lado de Pélagué.
--Mitia, onde vaes?
E a velha respondeu:
--Deixe-o lá! Não lhe dê cuidado! Eu tambem tinha mêdo, d’antes. O meu está á frente de todos. Aquelle que tem na mão a bandeira é o meu filho!
A outra porem continuava:
--Ó desgraçado! que fazes? Os soldados estão ali adiante!
--Não se assuste! Isto é uma missão sagrada! Até Jesus não teria existido, se não houvesse homens que morreram por sua causa!
Sizof appareceu perto d’ella, agitando no ar o boné, ao compasso do hymno:
--Isto é que é bem ás claras! ãn? Inventaram um hymno que é mesmo lindo! ãn?
O tzar quer soldados na tropa: Vossos filhos lhes daes...
--Não teem medo de nada! exclamou Sizof. O meu filho está na cova... Foi a fabrica que o matou!
Ergue-te, ergue-te, ó povo opprimido!
A multidão, allucinada, nem olhava para traz de si, com os olhos fitos na bandeira vermelha, que balouçava ao vento.
--Bello côro! bravo, rapaz! berrava um entusiasta; e invadido por um sentimento, que não sabia exprimir, desatou a rogar pragas.
D’uma janella partiu uma voz de canna rachada: