A Mãe

Part 12

Chapter 123,779 wordsPublic domain

--Hereticos! Revoltarem-se contra Sua Majestade o Imperador! contra o tzar!

Mas o hymno continuava, firme, altivo.

Pélagué, que no meio dos encontrões, fôra sendo empurrada para distante do centro do grande ajuntamento, ouvia então frases soltas:

--Perto da escola está uma companhia de soldados, e outra na fabrica...

--O governador já chegou...

--O quê? é verdade?

--Vi-o com os meus olhos!

--Ainda bem! Começam a ter medo de nós! Já nos mandam soldados, e o governador.

As vozes do côro foram enfraquecendo; dir-se-ia um movimento de recúo. Alguns iam-se calando. Aqui e ali havia quem tentasse animar de novo o hymno moribundo.

Ergue-te, ergue-te, ó povo opprimido! Ao inimigo, ó gente esfaimada!

Pélagué não podia ver o que se passava no centro; abrindo á força caminho, notou que a multidão tendia a dispersar, de cabeça baixa, sobrolhos franzidos, com as narinas contrafeitas. Ouviam-se já alguns assobios trocistas.

--Companheiros! gritava Pavel. Os soldados são homens como nós. Não nos farão mal. Porque haviam de fazel-o? Porque levamos a liberdade a todos? Mas precisam tambem da nossa verdade. Não compreendem ainda, mas tempo virá, e muito em breve, em que entrarão nas nossas fileiras, em que já não marcharão sob o estandarte dos gatunos e dos assassinos, mas sim á sombra da nossa bandeira da liberdade e do bem! E para que elles compreendam mais depressa a nossa liberdade, caminhemos para a frente! Ávante! companheiros! ávante!

A sua voz era firme, mas o rebanho dispersava.

XXIX

Pélagué distinguiu á entrada da rua um como pequeno muro, cinzento baixo, composto de seres humanos sem fisionomia e que tapavam a saída da praça.

Era este muro que infundia o receio em toda aquella gente.

--Companheiros! continuava Pavel. A vida inteira está na nossa frente! Não temos outro caminho! Cantemos! P’rá frente!

Respondeu-lhe um silencio esmagador. A bandeira ergueu-se, balouçou, e agitando-se por sobre as cabeças, apontou para o muro cinzento dos soldados. Pélagué estremeceu, fechou os olhos e suspirou: apenas quatro pessôas se tinham destacado da multidão e avançavam: Pavel, André, Samoílof e Mazine.

Ouviu-se a voz trémula de Fédia, cantando:

--«_Sois as victimas prostradas!..._»

--_Na grande lucta fatal!_ continuaram duas vozes como dois suspiros abafados.

E uma voz de commando chegou aos ouvidos de alguns:

--Cruzar baionetas!

O muro cinzento agitou-se, as baionetas fuzilaram no ar, na direcção da bandeira.

--Marche!

--Ahi veem elles! exclamou um vesgo que estivera proximo de Pélagué; e mettendo as mãos nas algibeiras, afastou-se com grandes pernadas.

Os soldados avançavam em fila, de baioneta calada. Pélagué approximou-se do filho, com as mãos no peito e viu André collocar-se na frente d’elle, como para protegel-o.

--Ao meu lado, companheiro! ordenou Pavel.

Com as mãos nas costas, André cantava, de cabeça erguida, avançando sempre. Pavel deu-lhe um encontrão com o hombro, exclamando:

--Aqui! ao meu lado! Não tens o direito de ir á minha frente! O primeiro deve ser o porta-bandeira!

--Dis... per... sae!... gritava um officialsito com voz aguda, de sabre no ar, marchando sem dobrar os joelhos e batendo com os tacões, raivoso.

A seu lado, um pouco atraz, marchava pesadamente um homem muito alto de farto bigode branco, com uma grande capa cinzenta, debruada de vermelho, e as amplas calças listradas de amarello. Como o russo-menor, caminhava com as mãos nas costas. Tinha os olhos cravados em Pavel.

Os da bandeira e os soldados iam-se approximando; estes, no seu caminho, iam fazendo dispersar a multidão sem lhe tocar.

--Salve-se quem puder!

--Vem, Vlassof!

--Para traz, Pavel!

--Dá cá a bandeira, Pavel! dizia Vessoftchikof. Eu a escondo.

E deitou-lhe a mão.

--Deixa! berrou Pavel.

O bexigoso retirou logo a mão, como se se tivesse queimado. O hymno cessára de todo. Os rapazes pararam, envolvendo Pavel n’um circulo, que elle acabou por transpor.

Sob a bandeira haveria, quando muito, uns vinte homens; mas firmes.

--Tenente, prenda aquelle! ordenou o velho alto apontando para Pavel.

O officialsito accorreu logo, e agarrou no pao da bandeira.

--Dá cá isso!

--Não! Abaixo os oppressores do povo!

A bandeira tremia; inclinava-se ora para a direita, ora para a esquerda, ficando depois erecta. Vessoftchikof passou pela frente de Pélagué, com o braço erguido, de punho cerrado, e com uma rapidez que ella não lhe conheceu.

--Agarrem todos! berrou o velho, batendo com o pé.

Alguns soldados avançaram, um d’elles com a coronha no ar; a bandeira estremeceu, baixou e desappareceu no grupo cinzento.

Pélagué soltou um grito, um rugido que não tinha nada de humano. Aos ouvidos chegou-lhe a voz do filho:

--Até á vista, mãe! até á vista!

«Está vivo! não se esqueceu de mim!» taes foram os seus dois rapidos pensamentos.

Poz-se nos bicos dos pés e conseguiu ver a cara de André.

--Meus filhos, meus queridos filhos! André! Pavel!

E elles iam dizendo:

--Até á vista, companheiros!

Algumas vozes lhes responderam, mas não em unisono; vinham das janellas, dos telhados, não se sabia d’onde.

XXX

Alguem deu um empurrão em Pélagué. Atravez do nevoeiro que lhe toldava os olhos, viu diante d’ella o officialsito, que lhe gritou:

--Vae-te d’aqui, velha!

Mediu-o com o olhar d’alto a baixo, viu-lhe aos pés o pao da bandeira partido em dois; a um dos pedaços estava preso um resto da bandeira. Abaixou-se para apanhal-o. O official arrancou-lho das mãos, lançou-o para distante, e ordenou de novo:

--Vae-te, velha!

Do meio dos soldados partiu o estribilho:

--_Ergue-te, ergue-te, ó povo opprimido!_

O official retrocedeu, rapido, e esganiçou-se, ordenando:

--Façam-os calar! Krainof...

Vacilante, Pélagué apanhou outra vez o destroço da bandeira. A dez passos d’ella formára-se novo ajuntamento. Urravam, grunhiam, assobiavam, recuando lentamente, e dispersando para os pateos visinhos.

--Vae para o diabo! berrou um soldado, empurrando Pélagué para cima do passeio.

Para não caír, porque os joelhos vergavam, ella caminhava apoiada ao destroço da bandeira, ouvindo sempre atraz de si os soldados. Até que estes passaram-lhe á frente.

Parou. Á entrada da rua, um cordão de tropa impedia a passagem para a praça, que ficára deserta. Quiz voltar para traz, mas sem saber o que fazia, continuou para a frente; metteu-se por uma ruasinha estreita. Parou de novo. Ao longe, o povo susurrava.

A ruasita quebrava perto d’ella para a esquerda. N’um grupo compacto discutia-se.

--Não é por insolencia que elles affrontam as baionetas, irmãos!

--Viram, ãn! Os soldados a marcharem sobre elles, e elles impassiveis! sem medo!

--Que valente é o Pavel Vlassof!

--E o russo-menor!

--Meus amigos! boa gente! exclamou ella, avançando.

--Olhem: traz na mão o resto da bandeira!

--Cala-te! ordenou uma voz severa.

Ella estendeu o braço, com um gesto largo.

--Escutem, em nome de Jesus! Sois todos dos nossos, gente sincera. Abride os olhos... olhae sem receio... O que se passou? Os nossos filhos levantam-se, pacificamente... Os nossos filhos, o nosso sangue, levantam-se em nome da verdade, abrem lealmente um caminho novo, largo, direito, destinado a todos... Por todos vós, pelos vossos filhos, empreendem uma cruzada... dirigindo-se para um mundo cheio de encanto. Em nome de todos e pelo nome de Christo, caminham contra todas as coisas por meio das quaes os maos, os mentirosos, os rapinantes, nos prendem, nos estrangulam prisioneiros. Meus amigos! é pelo povo, pelo mundo inteiro, por todos os opprimidos que os nossos filhos se sublevaram. Não os abandoneis, não os renegueis, não deixeis os vossos filhos seguirem sósinhos a sua estrella. Tende piedade de vós mesmos... amae-os... compreendei aquelles corações juvenis... tende confiança n’elles.

Fatigada, avergou. Alguem amparou-a.

--É Deus que a inspira! disse um d’elles. É Deus que a inspira, amigos! Escutem-na!

Outro lamentou-a:

--Ah! está-se matando!

--Não se está matando, não, idiota! A nós é que fére, fica sabendo!

A mesma voz aguda e anciosa tornou a fazer-se ouvir:

--Christãos! O meu Mitia... A sua alma é pura... O que fez elle? Seguiu os seus companheiros muito queridos. Fez bem. Por que abandonaes os nossos filhos? Que mal fizeram elles?

Sizof disse a Pélagué:

--Volta para casa... Vae... Estás arrazada!

Passando depois pelo auditorio o olhar severo:

--O meu filho Matwei foi esmagado, na fabrica, bem sabeis. Mas se vivesse, eu proprio o teria mandado entrar nas fileiras d’aquelles... Ter-lhe-ia dito. «Vae com elles, vae, porque defendem uma causa justa, uma causa santa!» É um velho quem lhes está falando. Conhecem-me todos. Ha trinta e nove annos que trabalho aqui... ha cincoenta e sete que vivo n’este mundo. O meu sobrinho, um bello rapaz, intelligente e honrado, foi preso hoje outra vez. Ia tambem á frente de todos com o Vlassof, ao lado da bandeira.

E pegando na mão de Pélagué:

--Esta mulher disse a verdade. Os nossos querem viver com honra, segundo o que manda a razão; e nós... nós abandonamol-os! Vae para casa, minha velha, vae!

--Meus amigos, a vida é para os nossos filhos! é para elles a terra! disse ella passando pela multidão o olhar toldado de lagrimas.

--Vae, Pélagué, vae... Toma o teu arrimo!

E deu-lhe o destroço da bandeira.

Olhavam para a velha com respeitosa tristeza; seguiu-a um murmurio de compaixão. Sem falar, Sizof abria-lhe caminho; e o povo afastava-se sem protesto, obedecendo a uma força inexplicavel, trocando em voz baixa breves palavras de lamento.

Ao chegar á porta de casa, Pélagué voltou-se para elles, e disse com muito reconhecimento:

--Obrigada a todos!

E accrescentou:

--Nosso Senhor Jesus Christo não teria vindo ao mundo, se os homens não morressem pela sua gloria!

A multidão olhou para ella em silencio.

Quando Pélagué entrou em casa acompanhada por Sizof, houve ainda na rua algumas frases em que a reflexão dominava... Depois todos dispersaram, vagarosos.

SEGUNDA PARTE

I

...O resto do dia passou n’um nevoeiro entrecortado de recordações, n’uma fadiga extrema que opprimia corpo e alma. Como uma sombra pardacenta, o officialsito saltitava sob os olhares da velha, e em negro redemoinho movediço luziam o rosto bronzeado de Pavel e os olhos risonhos de André...

A velha ia e vinha pelo quarto, sentava-se junto da janella, olhava para a rua, tornava a levantar-se e franzia o sobrolho; sentia-se estremecer, relanceava os olhares em torno; e com a cabeça esvaída, procurava o que quer que fôsse, sem mesmo saber o que queria... Bebeu agua sem acalmar a sêde, sem extinguir no coração o ardente brazeiro de angustia e de humilhação que toda a consumia. Aquelle dia apresentava-se-lhe dividido em duas partes. A primeira tinha uma significação, um conteúdo, mas a segunda era como se se evaporasse, era um vacuo absoluto. Pélagué não encontrava resposta á pergunta tremente de perplexidade que a si propria apresentava:

--Que havia de fazer... agora?...

Maria Korsounova appareceu então. Poz-se a gesticular com força, gritou, chorou, bateu o pé, alvitrou e prometteu qualquer coisa, ameaçou quem quer que fôsse. Mas tudo aquillo não conseguiu impressionar sequer a outra.

--Ah! dizia a voz destemperada de Maria, assim como assim, o povo mexeu-se d’esta vez... Ahi a teem em revolta, toda a fabrica!

--É verdade, é, respondeu baixinho Pélagué, meneando a cabeça. E com o olhar fito, considerava quão longe ficára o passado e tudo o que d’ella se afastára com André e com Pavel. Não podia chorar. Tinha o coração confrangido mas arido; os labios seccos tambem, como a garganta. Tremiam-lhe as mãos e tinha arrepios gélidos pelas costas. Mas subsistia n’ella uma scentelha de colera, fixa, cravada no coração qual agulha. E a tal intimo instigamento respondia ella com uma promessa de fria reflexão:

--Esperem um pouco!...

E então, tossindo ruidosamente, franzia as sobrancelhas.

Pela noite, veio a policia. Recebeu-os sem admiração nem temor. Entraram pela casa dentro fazendo muita bulha, com ares satisfeitos. O official de pelle amarellada disse, mostrando os dentes:

--Então como vae isso? É esta a terceira vez que nos encontramos, an?

Ella ficou-se em silencio e passou a lingua pelos beiços para humedecel-os. Entrou então o official a falar muito, em tom de pessoa fina. E Pélagué percebia que elle falava pela satisfação de se ouvir a si proprio. Mas as palavras nem lhe chegavam aos ouvidos nem a impressionavam. No entretanto, quando o official lhe disse:

--Tu propria tens culpas, porque não soubeste inspirar a teu filho o respeito a Deus e ao Imperador...

Respondeu sem o fitar:

--Os nossos filhos é que são os nossos juizes... Elles hão de condemnar-nos, e com toda a razão, visto que os deixámos seguir tal caminho...

--O quê? gritou o official, fala mais alto!

--Digo que os nossos juizes são os nossos filhos! repetiu com um suspiro.

O outro poz-se então a discorrer em voz rapida e irritada, mas as frases precipitavam-se e não commoviam a velha.

Citada como testemunha, Maria Korsounova ficára de pé ao lado de Pélagué, para quem nem olhava. Quando o official lhe fazia qualquer pergunta, inclinava-se logo muito baixo e respondia em voz monotona:

--Não sei, Excellencia! Sou uma pobre mulher ignorante, só trato do meu negocio... Graças á minha estupidez, nada sei...

--Cala-te d’ahi! ordenou o official retorcendo os bigodes com violencia.

--A mulher inclinou-se, e logo, fazendo-lhe um gesto de provocação que elle não viu, murmurou:

--Toma, guarda lá este!

Mandaram-lhe que revistasse a velha. Pestanejou primeiro; depois fitou o official, com os olhos muito abertos. E declarou com voz submissa:

--Mas eu não sei fazer isso, Excellencia!

O official bateu o pé, zangado.

--Está bem... Desabotoa-te, Pélagué, disse Maria. E muito córada, passou a revolver e a apalpar o fato da outra, commentando baixinho:

--Ein? que corja!

--O que é? gritou o official desabridamente, e insinuou o olhar, desconfiado, pela abertura por onde Maria se desempenhava da tarefa.

--Nada, Excellencia, não é nada; coisas que só nós usamos... murmurou Korsounova timidamente.

Ao ordenar-lhe o official que assignasse o auto de investigação, Pélagué traçou estas palavras n’uma calligrafia desconforme, em grandes letras garrafaes:

«Pélagué Nilovna Vlassof, viuva d’um operario».

--Que escreveste tu ali? Porque escreveste aquillo? prorompeu o official, de sobrecenho carregado e em tom de desdem; e accrescentou com um riso de mofa: Que selvagens!

Retiraram-se os guardas. A mãe foi pôr-se deante da janella. Com os braços cruzados no peito; para ali ficou muito tempo, olhando sem vêr.

Desfranzira as sobrancelhas, e comprimia os labios. Ao mesmo tempo, apertava as maxillas de encontro uma á outra, com tal força, que dentro em pouco ficou com dôr de dentes. Acabára-se o petroleo do candieiro, a luz ia a sumir-se, crepitando. Soprou-a de vez e ficou ás escuras. A colera e a humilhação de havia pouco desappareciam n’ella; agora era uma nuvem negra e fria de angustia e de louco terror, que toda a penetrava, que lhe enchia o peito, difficultando-lhe o pulsar do coração. E immovel permaneceu, até sentir cansados os olhos e as pernas. Ouviu então sob a janella, Maria parar e gritar-lhe com voz avinhada:

--Pélagué! Estás a dormir? Minha pobre Pélagué!... Dorme, dorme! Todos estão soffrendo os mesmos enxovalhos,--ouves?--todos!

Deitou-se sobre a cama, sem se despir, e caíu em somno profundo, como quem rola para um precipicio.

Em sonhos, viu-se junto do montículo de saibro amarello que ficava para lá do pantano, no caminho que conduzia á cidade. Ali, no cume da encosta, que dava accesso ás pedreiras d’onde se extraía a areia, Pavel cantava em voz doce, mas com uma voz que era a mesma de André:

Ergue-te, ergue-te, ó povo opprimido...

Pélagué passou por diante do monticulo e contemplou seu filho, ao mesmo tempo que levava a mão á fronte. Destacava-se nitidamente o perfil do rapaz no fundo azul do ceu. Mas a mãe sentia vergonha em approximar-se d’elle, pois que estava gravida. E levava ao colo, outra criança. Proseguiu no seu caminho. Pelos campos, havia outras creanças a brincar com uma bolla; eram muitas, as creanças, e a bolla era vermelha. O pequenito que tinha nos braços queria ir brincar com os outros e entrou a fazer grande berreiro. Deu-lhe de mammar e voltou pelo mesmo caminho. O monticulo estava já então occupado por muitos soldados que lhe apontavam as baionetas. Deitou a fugir em direcção a uma egreja edificada em meio dos campos, uma egreja muito branca, altissima e de levissima construcção, como se fôsse formada de nuvens. Lá dentro, cantavam-se responsos; o caixão era grande, preto, hermeticamente fechado. Padre e acolyto, vestiam alvas d’immaculada brancura, e entoavam: «Christo ressuscitou d’entre os mortos...»

O acolyto agitou o turíbulo e, ao avistar Pélagué, sorriu-lhe. Tinha os cabellos ruivos e uns modos prazenteiros, assim como Samoílof. Da cupula caía raios de sol em verdadeiras toalhas. E, no côro, crianças repetiam a meia-voz:

«Christo ressuscitou d’entre os mortos»...

--Prendam-nos! gritou subitamente o padre, estacando a meio da egreja. A alva que vestia tinha desapparecido e no rosto surgia-lhe um bigode grisalho e espesso. Todos se puzeram em fuga, até mesmo o acolyto, que atirára para longe o turíbulo e apertava a cabeça entre as mãos, como o russo-menor costumava fazer. A mãe deixou caír a criança sob os pés dos fieis que se afastavam evitando-a, com olhares de temor para o pequenino corpo nu. Ella caíra de joelhos e gritava:

--Não abandonem a criança! Salvem-na...

E, de mãos atraz nas costas, com um sorriso nos labios, o russo-menor proseguia cantando:

--«Christo ressuscitou d’entre os mortos!...»

Pélagué abaixou-se, agarrou na criança, pôl-a n’um carrinho ao lado do qual Vessoftchikof ia caminhando vagarosamente. Este ria, dizendo:

--Sempre me deram um trabalhão!...

Percorriam uma rua muito suja. Pelas janellas, havia gente que assobiava, gritava, gesticulava.

--O dia estava claro, brilhava o sol com ardor; não havia uma nesga de sombra, em parte alguma.

--Cante, cante, tiasinha! disia o russo-menor. É a vida, isto!

--E ia cantando sempre, dominando tudo com a sua boa voz sonora e jovial. A mãe seguia-o, lamentando-se.

--Porque está elle a mangar comigo?

N’isto, recuou; mas logo se sentiu despenhar para um grande abysmo sem fim, que escachoava com estrondo...

Accordou em sobresalto, toda a tremer, banhada de suores; apurou o ouvido, perscrutando-se. Estupefacta, sentiu vasio o proprio peito. Parecia-lhe que mão desconhecida, ferrenha, lhe esquadrinhára o seio e, tendo-se-lhe apoderado do coração, lho estava a apertar brandamente, como em cruel brinquedo. O silvo da fabrica uivava teimosamente. Pelo som, calculou que fôsse já a segunda chamada.

Reinava a desordem no quarto; livros e fatos jaziam de mistura, no sobrado emporcalhado; tudo em confusão.

Levantou-se, cuidou dos arranjos, sem se lavar, sem mesmo rezar. Na cosinha, encontrou um pao que ainda conservava amarrado um farrapo encarnado; pegou n’elle e, irritada, esteve para atiral-o para debaixo do fogão; mas, suspirando, tirou e dobrou cuidadosamente o pedaço de panno vermelho e meteu-o na algibeira. Em seguida, procedeu a uma grande lavagem ao sobrado e á janella. Acabou de vestir-se, arranjou o samovar e depois foi sentar-se ao pé da janella da cosinha, a repetir a si mesma a pergunta da vespera:

--Que se ha de fazer?

Mas lembrou-se que ainda não tinha orado; postou-se por alguns momentos diante das imagens santas, e depois tornou a sentar-se. No logar do coração tinha um vacuo. O proprio pendulo do relogio, ordinariamente tão agil, dir-se-ia ter afroixado o seu tic-tac precipitado. As moscas zumbiam hesitantes e debatiam-se estonteadas de encontro ás vidraças...

Reinava em todo o bairro um silencio singular; parecia que toda aquella gente, que na vespera tanto gritára pelas ruas, se tivesse escondido em suas casas para reflectir em silencio n’aquelle extraordinario dia.

De subito, Pélagué recordou-se de uma scena que presenciára uma vez, quando era rapariga: no velho parque dos senhores Zoussailof havia um vasto tanque todo esmaltado de nenufares. Por ali passára em um dia d’outono nevoento e triste; a meio da laguna, um barco jazia, como que estatico na agua tranquilla e sombria, salpicada de folhas amarellecidas. E d’esta embarcação sem remos nem remadores, solitaria e immovel na agua opaca, entre folhas mortas, provinha funda melancolia, um pezar mysterioso. Pélagué permanecera ali muito tempo, procurando adivinhar quem impellira a canoa para longe da margem e porquê... Afigurava-se-lhe agora ser ella mesma igual á barquinha que outr’ora a levára a pensar n’algum esquife á espera do cadaver. N’esse mesmo dia, á noite, viera a saber-se que a esposa do intendente se havia afogado,--uma mulhersinha de modos saccudidos, os cabellos pretos sempre em desalinho...

Passou a mão pelos olhos, como para expulsar taes recordações, mas logo o pensamento indeciso e horrorisado lhe deslisou brandamente para as impressões da vespera, dominadoras. Com os olhos apegados á chavena de chá, que lhe arrefecia na frente, conservou-se longamente immovel, sentindo nascer-lhe na alma o desejo de falar com quem quer que fôsse, sincero e intelligente, para lhe perguntar innumeras coisas.

E, como de proposito para realisar o seu desejo Nicolao Ivanovitch appareceu pela volta da tarde. Ao vêl-o, apoderou-se d’ella brusca inquietação. Com voz sumida, disse sem responder aos cumprimentos de Nicolao:

--Ah! tiosinho; fez mal em vir até aqui! É uma imprudencia; se o vêem, prendem-no!

Depois de lhe ter apertado a mão com energia, Nicolao Ivanovitch segurou melhor os oculos no nariz, e ao ouvido d’ella, explicou-lhe rapidamente, em voz baixa:

--É que nós tinhamos combinado, o André, o Pavel e eu, que se os prendessem, eu havia de vir buscal-a logo no dia seguinte, para a levar para a cidade. Vieram cá fazer alguma busca?

--Vieram; revolveram tudo; até me apalparam. Essa gente não tem consciencia nem pudor!

--E porque o haviam de ter? retorquiu Nicolao com um encolher d’hombros; e logo lhe expoz as razões por que era conveniente que ella passasse a residir na cidade.

A outra escutava aquella voz amiga, cheia de sollicitude, fitava aquelle rosto de resignado sorriso e sentia-se admirada da confiança que tal homem lhe inspirava.

--Uma vez que o Pavel assim decidiu, e se não o incommodo... disse.

--Não pense n’isso, interrompeu elle logo. Vivo sósinho, minha irmã só raramente apparece...

--Mas é que eu quero trabalhar, quero ganhar o meu sustento!

--Pois se quer trabalhar, ha de se lhe encontrar trabalho, descanse!

Para ella, a idéa do trabalho relacionava-se indissoluvelmente com a especie de actividade a que se entregavam seu filho, André e os mais companheiros. Approximou-se de Nicolao e perguntou-lhe fitando-o muito:

--Parece-lhe?...

--Pois está claro! A casa não é grande, e quando a gente vive só...

--Não lhe falo d’isso, falo-lhe da nossa grande empreza... explicou em voz baixa.

--E soltou um suspiro triste, melindrada por não ter sido compreendida. Nicolao ergueu-se e, franzindo os olhos myopes n’um sorriso, declarou em tom de gravidade:

--Pois para a grande causa, tambem ha-de ter que fazer, se quizer...

Uma idéa simples e clara formára-se subitamente no espirito d’ella. Já uma vez conseguira auxiliar Pavel; talvez o conseguisse de novo. Quanto mais gente houvesse a trabalhar por tal causa, tanto mais clara se tornaria aos olhos de toda a gente a razão que a Pavel assistia em defendel-a. E ao mesmo tempo que analisava a fisionomia bondosa de Nicolao Ivanovitch, esperava ella que este lhe falasse compassivamente de Pavel, de André e d’ella propria. Mas o outro limitou-se a acrescentar, acariciando a barba, como que absorto:

--Veja se póde saber pelo Pavel, quando lhe falar, as moradas d’esses camponezes que pediram jornaes...