A Mãe

Part 13

Chapter 133,840 wordsPublic domain

--Já as sei! exclamou ella alegremente. Sei perfeitamente quem elles são e onde moram. Dê-me o jornal que eu mesma lh’o levo. Eu mesma irei procural-os e farei o que me mandar... Ninguem será capaz de suppôr que levo commigo livros proíbidos. Deus seja louvado, bastantes kilos d’elles metti na fabrica!

Era como um súbito desejo de partir, de ir ao acaso, fôsse para onde fôsse, pelas estradas sem fim, por bosques e aldeias, com o cajado na mão e a alcofa ao hombro.

--Não encarregue mais ninguem d’esse serviço, peço-lh’o, meu amigo, disse ella. Irei a toda a parte onde julgar preciso. Não tenha medo, que não me perderei, seja em que provincia fôr. De verão e de inverno, caminharei sem descanso... até morrer! Tornar-me-ei um apóstolo por amor da verdade. Não será digno de inveja o meu destino? Que bella vida, a do viandante! Vaguear pelo mundo, sem se possuir nada e sem se ter necessidade de coisa alguma, a não ser do pão de todos os dias; não humilhar ninguem; percorrer a terra, tranquillamente e sem que ninguem nos conheça!... Tambem eu quero viver assim!... E hei de encontrar Pavel, hei de encontrar André, hei de chegar até onde elles estiverem...

Mas aqui entristeceu ao ver-se já, em pensamentos, sem lar, errante, a mendigar em nome de Deus pelas portas das cabanas...

Nicolao agarrou-lhe meigamente na mão e affagou-lh’a ao calor das suas.

--Havemos de falar n’isso mais tarde! declarou, olhando para o relogio. É perigosa a tarefa de que quer encarregar-se... pense bem!

--Meu bom amigo! exclamou ella. Para que serve pensar? Pois se os nossos filhos, a parte mais pura do nosso proprio sangue, parcellas dos nossos proprios corações, os que mais do que tudo nos são queridos, sacrificam vida e liberdade e morrem sem contemplação por si mesmos, o que não hei de eu de fazer, eu, que sou mãe?

Nicolao fez-se pallido.

--Sabe que é a primeira vez que oiço falar d’essa maneira?...

--Que sei eu dizer! murmurou ella, sacudindo desconsoladamente a cabeça. E os braços penderam-lhe n’um gesto de desalento. Se eu encontrasse palavras que exprimissem o que sente o meu coração de mãe!...

E ergueu-se, impellida pelo ardor que n’ella se concentrava e lhe excitava no cerebro frases candentes de revolta.

--... Muitos haviam de chorar... até os malvados, os entes sem consciencia...

Nicolao ergueu-se e tornou a ver as horas.

--Pois então, fica combinado, vem para minha casa, para a cidade!

Ella abanou a cabeça, sem uma palavra.

--Quando ha de ser? continuou Nicolao. O mais depressa possivel. E accrescentou com meiguice:

--Vou ficar em cuidado por sua causa, palavra!

Pélagué ergueu para elle um olhar admirado: que interesse podia ella inspirar áquelle homem? O outro permanecia de cabeça baixa, com um sorriso de constrangimento, myope e um tanto corcovado, no seu modesto fato preto.

--Tem dinheiro em casa? perguntou sem a fitar.

--Não.

Com vivacidade, tirou logo da algibeira uma bolsa, abriu-a e apresentou-lh’a.

--Ahi tem, tire, se faz favor...

A pobre mãe esboçou involuntario sorriso e, com um meneio de cabeça, observou:

--Como tudo está mudado! O proprio dinheiro já não tem valor para vocês. Ha por ahi gente capaz de tudo para o possuir, que chega até a perder a propria alma... e para vocês não passa d’uns bocados de papel... d’umas rodelas de cobre... Chega-se a imaginar que se vocês o têm é só por caridade para com os outros!

--O dinheiro é na verdade desagradavel e incommodo, retorquiu Nicolao Ivanovitch, rindo. É por igual coisa enfadonha pedil-o ou dal-o!...

Tomou lhe novamente da mão, apertou-lh’a fortemente.

--Venha o mais depressa que possa, sim? repetiu.

E, como das outras vezes, foi-se sem fazer ruido. Ao despedir-se d’elle, Pélagué pensava:

--É tão bom homem!... Comtudo não teve uma palavra de compaixão...

E não chegou a perceber bem se tal facto lhe era desagradavel ou se lhe causava simples admiração.

II

Quatro dias apóz a visita de Nicolao, punha-se Pélagué a caminho, em direcção a casa d’elle. Quando o carro que a transportava e ás duas malas, atravessou o burgo e rodou em pleno campo, voltou-se para traz ainda uma vez e sentiu n’esse instante que era para sempre que abandonava aquelle logar onde decorrera a quadra mais sombria e penosa da sua vida, onde outra existencia começara, periodo replecto de novos desgostos e de novas alegrias, em que os dias voavam velozes.

Semelhante a immensa aranha d’um vermelho escuro, estendia-se a fabrica ao longo do solo sujo de fuligem, erguendo muito ao alto na atmosphera, as enormes chaminés. Em torno, amontoavam-se os casinhotos do operariado. Pardacentos e mesquinhos, formavam grupo compacto á beira do charco e pareciam entreolhar-se lastimosamente pelas suas janellinhas sem brilho. A meio d’elles erguia-se a igreja, de côr vermelha como a fabrica, com o seu campanario, que parecia menos elevado do que as chaminés da fabrica.

A pobre mulher suspirou, desapertou a gargantilha do vestido, que a incommodava. Ia triste, mas de uma tristeza arida como a poeira d’uma tarde d’estio.

--Para diante! resmungava o carroceiro, puxando pelas redeas. Era manco, de idade imprecisa, com uns olhos sem côr definida e uns raros cabellos de tom sujo. Bamboleando-se todo, caminhava ao lado do vehiculo, demonstrando claramente que o fim da viagem, qualquer que elle fosse, se lhe tornava totalmente indifferente.

--Para diante! repetia com uma voz sem timbre, atirando por maneira caricata com as pernas cambadas, calçadas de grossas botas cheias de lama. A passageira, essa, vagueiava o olhar em torno. A desolação da planicie era tão profunda como a da sua alma...

O cavallo, saccudindo lamentosamente a cabeça, enterrava as patas pela areia profunda, que rangia, froixamente requentada pelo sol. A carroça, em mau estado e com os eixos mal azeitados, chiava a cada volta das rodas. A todos estes ruidos vinha juntar-se a poeira.

Morava Nicolao Ivanovitch no extremo da cidade, n’um pequeno pavilhão pintado de verde, encostado a um sombrio predio de dois andares, a caír de vetustez, em rua solitaria. Á frente do pavilhão, havia um jardim, de fórma que pelas janellas dos trez quartos mettiam-se as frescas ramadas de algumas acacias, lilazes e um ou outro alamosinho prateado. Os quartos eram aceiados e silenciosos; sombras mudas e recortadas, tremiam sem cessar nos sobrados; pelas paredes havia prateleiras carregadas de livros e alguns retratos de pessoas de modos graves e ponderados.

--Parece-lhe que lhe ha de agradar isto? perguntou Nicolao, introduzindo a sua hospede n’um quarto com uma janella para o jardim e outra para o pateo coberta por espessa relva. E, n’este como nos outros quartos, guarneciam as paredes varias estantes carregadas de livros.

--Antes queria ficar na cosinha.

Falava assim porque lhe parecia ver em Nicolao o receio de qualquer coisa. Elle dissuadiu-a de tal proposito, mas com uns modos de constrangimento, e logo que ella renunciou a ir habitar na cosinha, tornou a mostrar-se satisfeito.

Reinava em toda a casa particular atmosfera: era agradavel respirar ali, mas as vozes instinctivamente faziam-se menos ruidosas; não se sentia o desejo de falar alto, nem de perturbar a beatifica meditação das personagens que do alto das suas molduras olhavam concentradamente.

--Estas plantas precisam de ser regadas, disse ella depois de tatear a terra dos vasos.

--Sim, sim, concordou o dono da casa, um tanto confuso. Bem vê, gosto muito de flôres, mas não tenho tempo para tratar d’ellas.

Notava Pélagué que, mesmo em sua casa, bastante confortavel aliás, Nicolao movia-se com prudencia, sem fazer bulha, como que estranho e a mil leguas de tudo o que o cercava. Ia pôr a cara mesmo em cima do que queria vêr; compunha os oculos com os dedos afusados da mão direita, assestando, por assim dizer, uma interrogação muda, a cada objecto que considerava. Dir-se-ia que fizera a viagem com a sua hospede e que tudo n’aquella casa lhe era desconhecido. Então, ao vêl-o assim distraído, Pélagué entrou a sentir-se inteiramente á vontade na sua nova habitação.

Precedida de Nicolao, percorria a casa, notando de memoria o logar de cada objecto e interrogando o seu amigo sobre os seus habitos de vida, ao que este dava respostas embaraçadas, como alguem que tivesse a consciencia de não proceder como deveria, mas que não tivesse outro expediente a tomar.

Regadas as plantas e reunidas em um só monte as musicas esparsas sobre o piano, deu com o samovar.

--Tem de ser limpo, observou.

Nicolao passou um dos dedos pelo metal embaciado pela sujidade e, pondo-o mesmo diante do nariz, observou-o com attenção. Isto fel-a rir com gosto.

Quando se encontrou na cama, e depois de ter recordado as peripecias de tal dia, Pélagué deitou a cabeça fóra da roupa e poz-se a olhar em volta. Era a primeira vez na sua vida que se via em casa de um estranho. Não se sentia perturbada com esta idéa. Sollícitamente, pensou no seu hospedeiro; a si propria prometteu amenisar-lhe a existencia com um pouco de carinhosa affeição. Impressionavam-na a timidez, o feitio desgeitoso e ridiculo de Nicolao, a expressão a um tempo ingenua e séria dos seus olhos claros. E logo o pensamento lhe vôou para o filho; reviveu mentalmente os episodios do dia primeiro de maio. Esta lembrança causava-lhe uma dôr particular, como particular fôra aquelle dia: era um soffrimento que não abatia a cabeça para o solo como a pancada d’um malho, mas que torturava o coração com mil picadas e excitava surda colera, fazendo altear-se o dorso corcovado da velha.

--Como é triste ter filhos para os ver partir por esse mundo fóra!... pensava. E apurava o ouvido, escutando os ruidos, desconhecidos para ella, da vida nocturna da cidade, que lhe chegavam amortecidos e atenuados pela janella aberta, por entre as folhagens do jardim, vindos de longe, a morrerem suavemente dentro do quarto.

Pela manhã, cedo, procedeu á limpeza do samovar e accendeu-lhe o lume; guardou toda a loiça sem fazer barulho; depois, foi sentar-se na cosinha e esperou que o seu hospedeiro accordasse. Houve um ruido de tosse e appareceu Nicolao com os oculos na mão.

Tendo correspondido aos bons dias que este lhe dirigiu, Pélagué levou o samovar para a casa de jantar, emquanto Nicolao se lavava, espalhando a agua pelo sobrado, deixando caír a todo o momento o sabonete, a escova, resmungando de continuo contra si proprio.

Ao almoço, Nicolao participou-lhe:

--É bem triste a minha occupação na administração da provincia: emprego-me em observar como é que a nossa gente do campo se arruina...

E repetiu com um sorriso contrafeito:

--Sim, observo, é o verdadeiro termo. Essa pobre gente morre de fome, ainda novos, lá vão para a cova, roidos pela miseria; as creanças nascem fracas e enfesadas, caem aos centos, como as moscas, quando chega o inverno... Sabemos tudo isso perfeitamente... conhecemos as causas d’essa calamidade e afinal, depois de as termos analisado, recebemos o nosso ordenado... e ficamos por aqui.

--Mas o senhor o que é? perguntou Pélagué. Foi estudante?

--Nada; era mestre-escola rural... Meu pae é director d’uma fabrica em Viatka; e eu fiz-me professor. Mais tarde, por ter distribuido uns livros pelos habitantes do logar, atiraram commigo para uma enxovia. Depois, fui empregado de livraria Ali, parece que tambem commetti qualquer imprudencia, porque fui outra vez preso: então mandaram-me para a provincia d’Arkhangel... Por lá tive tambem os meus desaguisados com o governo local e fui recambiado lá para as margens do mar Branco, para um logarejo onde vivi cinco annos...

E dizendo isto, a voz resoava-lhe calma e suave na tranquilidade d’aquelle quarto claro, inundado de sol.

Frequentes vezes tinha a sua interlocutora ouvido historias do genero d’aquella; mas nunca pudera compreender porque era que quem as contava o fazia com tal placidez, sem que nunca formulasse, por tantos soffrimentos, uma accusação contra ninguem, como se aquillo devesse fatalmente acontecer a todos...

--Sabe que chega hoje minha irmã, annunciou elle.

--É casada?

--Viuva. O marido foi exilado para a Siberia. De lá conseguiu fugir, mas no caminho apanhou um resfriamento e morreu no estrangeiro, ha de haver dois annos.

--Sua irmã é mais nova do que o senhor?

--Não, tem mais seis annos do que eu... Devo-lhe muitos favores... Ha de ouvil-a tocar n’aquelle piano, que é mesmo d’ella... de mais, ha aqui muita coisa que lhe pertence... Os livros, esses, são meus...

--E onde mora?

--Em toda a parte! respondeu elle, sorrindo. Onde quer que seja precisa uma creatura decidida, lá a encontrarão...

--Então tambem trabalha pela nossa causa?

--Está claro!

Dito isto, saíu em direcção á sua repartição e a velha ficou-se a pensar n’aquella causa commum que de dia para dia tornava os homens tão frios e obstinados. Parecia-lhe estar em frente de altissima montanha, em plena escuridão.

Por volta do meio dia veio uma senhora alta e elegante, vestida de preto. Aberta a porta, a recemchegada atirou para o chão uma malinha amarella e tomou com vivacidade uma das mãos de Pélagué, interrogando:

--A senhora é a mãe do Pavel Vlassof, não é?

--Sou eu, sim, senhora! declarou Pélagué, constrangida pela elegancia da dama.

--Pois a senhora é tal qual eu a tinha imaginado! Meu irmão mandou-me dizer que vinha viver para casa d’elle! Somos amigos velhos, seu filho e eu... Falava-me tanto de si!

A voz era baça; exprimia-se com lentidão, mas tinha gestos rapidos e saccudidos. Brilhava-lhe nos grandes olhos cinzentos um franco sorriso de mocidade. Algumas rugasinhas delicadas sulcavam-lhe já as fontes, e por cima das orelhas bem feitas ondeava um ou outro cabello branco, como prata.

--Venho com fome! declarou. Não desgostava de tomar uma chavena de café...

--Vou preparar-lho immediatamente, disse a outra; e, ao tirar uma cafeteira do armário, inquiriu em voz baixa:

--Então sempre é certo que o Pavel lhe falava de mim?

--Com certeza, e até muitas vezes!

E a irmã de Nicolao tirou da algibeira uma carteirinha, tomou de um cigarro e accendeu-o. Percorrendo o quarto a grandes passadas, proseguiu:

--Está em cuidados por causa d’elle?

Pélagué sorria, fitando a chamma azulada da lampada de espirito de vinho, a crepitar sob a cafeteira. O constrangimento de havia pouco desapparecera na sinceridade da sua satisfação.

«Fala então muito em mim, o meu filho!» pensava.

E proseguiu:

--Pergunta-me se estou em cuidado?... Com certeza, é bem triste o que se passa... Mas antigamente era peor ainda... Agora, como sei que elle não está só...

Fixou o olhar no rosto da sua nova conhecida.

--Como se chama, minha senhora? perguntou.

--Sofia.

Passou a examinal-a melhor. Havia n’aquella mulher o que quer que fôsse de audácia, demasiada confiança em si própria e excessiva precipitação. O seu falar era por demais imperioso.

--O que é importante é que os companheiros não vão ficar muito tempo na cadeia, e que sejam julgados depressa. Quando o Pavel estiver na Siberia, nós o faremos fugir... Ninguem póde passar sem elle, aqui...

Sofia procurava com a vista onde deitar a ponta do cigarro; por fim enterrou-a n’um dos vasos de flôres.

--Olhe que assim a planta morre! observou a velha machinalmente.

--Queira perdoar! disse Sofia. É isso o que o Nicolao me está sempre a repetir...

E retirando do vaso a ponta de cigarro, atirou-a pela janella.

--Sou eu que lhe peço desculpa. Falei sem reflectir. Não é a mim que compete repreendel-a.

--E porque não?... Se eu sou uma estouvada! redarguiu Sofia serenamente e com um encolher de hombros. O café está pronto? Muito obrigada! Então, só uma chavena? Não se serve?

E, collocando-lhe as mãos nos hombros, puxou-a para si, fitou-a e perguntou-lhe em tom de admirada:

--Estará por acaso a fazer cerimonia?

A outra respondeu com um sorriso:

--Ainda hontem cheguei aqui, e já hoje me parece que estou em minha casa e que conheço a senhora ha muitos annos... Nada receio; digo o que me vem á cabeça; faço observações...

--E está muito bem! exclamou Sofia com entusiasmo.

--Nem sei onde tenho a cabeça! Nem já me conheço! continuou Pélagué. Antigamente, a gente estudava as pessoas por dentro e por fóra primeiro que lhes falasse com o coração nas mãos; agora, não, parece que nada se receia, dizem-se de repente coisas que d’antes nem mesmo nos atreviamos a pensar... e que de coisas!

Sofia accendeu outro cigarro; pousára o olhar cinzento na sua interlocutora, cariciosamente.

--Disse ha pouco que se ha de arranjar a fuga do Pavel... Mas como vae elle viver depois?

Era esta pergunta que importunava Pélagué e que conseguira emfim formular.

--É coisa facil! respondeu Sofia, servindo-se outra vez de café. Ha de viver como vive grande numero de evadidos... Olhe, agora acabo eu de ir buscar um d’elles, que acompanhei até ao estrangeiro. É tambem um homem valioso; é operario no sul; foi condemnado a cinco annos de degredo, mas só cumpriu trez annos e meio. É por este motivo que me vê tão bem vestida. Julgava que era o meu trajo habitual? Não; detesto os farrapos e os enfeites... A humanidade é de origem humilde; deve trajar com humildade,--vestuario bem feito mas simples...

Pélagué, abanando a cabeça, disse em voz baixa:

--Ah! esse primeiro de maio é que me pôz as idéas em confusão! Não me sinto bem; chega-me a parecer que vou por duas estradas, ao mesmo tempo... tão depressa julgo que compreendo tudo, tão depressa me vejo cercada de nevoeiros... A senhora, por exemplo... Vejo que é uma senhora fina... e a senhora tambem trabalha pela nossa causa... conhece o Pavel... e diz que o tem em grande conta... Não sei como agradecer-lhe...

--Não, os agradecimentos são para si, disse Sofia, rindo.

--Para mim?! Não fui eu que lhe ensinei essas coisas todas! respondeu a mãe com um suspiro. Dizia-lhe eu então, continuou: umas vezes, tudo isto me parece simples, outras, nem essa mesma simplicidade eu posso compreender... Assim, agora, encontro-me com o espirito socegado, d’aqui a instantes, já sinto medo por me vêr tão socegada. Toda a minha vida tenho passado em meio de inquietações... e agora, que ha motivo para receios, já quasi não sinto medo... Porque é isto? Não sei!...

Pensativamente, Sofia respondeu:

--Ha de vir um dia em que tudo compreenderá!... Parece-me tempo de abandonar todos estes esplendores de vestuario...

Collocou a ponta do cigarro no pires, e saccudindo a cabeça, fez rolar sobre os hombros, em madeixas espessas, os doirados cabellos. Depois saíu...

A outra seguiu-a com a vista, suspirou, olhou em torno e começou a arrumar a loiça, com a cabeça vasia de idéas, prostrada por uma somnolencia que a amodorrava.

III

Pelas quatro da tarde, Nicolao estava de volta. Ao jantar, Sofia contou, rindo, o seu encontro com o forçado evadido; falou do terror d’esse homem, sempre a vêr espiões em todos os cantos, e dos modos exquisitos do evadido... No tom de voz em que falava alguma coisa fazia lembrar á velha Pélagué a fanfarronada d’um operario que terminou uma tarefa difficil e que d’ella se gaba.

Vestia agora Sofia um roupão cinzento, leve e adejante que lhe cahia dos hombros até aos pés em pregas harmoniosas, vaporoso e simples.

Este novo trajo fazia-a parecer mais alta, ao passo que o olhar se lhe annuviára e os movimentos se lhe tornavam mais serenos.

--É preciso que trates d’outro negocio, Sofia! disse Nicolao, terminado o jantar. Como sabes, ha idéa de editar um jornal para a gente dos campos... mas, graças ás ultimas prisões effectuadas, os laços que nos uniam a esses camponezes, quebraram-se. Só Pélagué sabe como poderemos rehaver o homem que se encarrega da distribuição do jornal... Parte com ella... o mais cêdo que possas...

--Está bem, disse Sofia, recomeçando a fumar. Está combinado, mãesinha?

--Porque não? Pois, vamos!

--E é longe?

--Oitenta kilometros, pouco mais ou menos.

--Optimamente!... Agora vou tocar um bocado de piano... Está disposta para um pouco de musica?

--Nada me pergunte, faça de conta que não estou aqui, respondeu ella. E foi sentar-se para um canto do canapé coberto de uma capa de linho. Notava ella que os dois irmãos, sem parecerem ligar-lhe importancia, a intromettiam todavia, e a meude, na conversação.

--Ouve isto, Nicolao; é de Grieg. Trouxe hoje a musica. Fecha a janella!

Abriu a partitura e acariciou as teclas de mansinho, com a mão esquerda. As cordas entraram a vibrar em accordes indolentes e pesados.

Houve primeiro um profundo suspiro, depois outra nota veio juntar-se ás primeiras, n’uma forte e tremente amplidão de som. A mão direita entrou então em resonancias claras, em gritos parecidos com os de uma ave assustada; balanceou-se depois, em cadencia, imitando o palpitar das azas no fundo sombrio das notas graves, que cantavam, harmoniosas e compassadas, quaes vagas batidas pela tempestade. Em resposta á canção, vinham logo caudaes de accordes soturnos, chorando com dôr, suffocando queixumes, implorações, gemidos, tudo fundido n’um rythmo de angustia. Por vezes, como n’um impulso de desespero, a melodia soluçava, desfallecida; mas logo recaía, rastejando, hesitante, sob a torrente espessa e cascadeante das notas cavas, e afogava-se, sumia-se, para de novo reaparecer por entre o ribombar igual e monotono; tomava alento, então vibrava e dissolvia-se por fim n’um poderoso martelar de notas humidas que toda a salpicavam, e ficava a suspirar sem cansaço, com a mesma força e a mesma resignação...

Ao principio, a música não impressionou Pélagué; não a compreendia; era para ella como um cáos de sonoridades. O ouvido não lhe permittia distinguir a melodia na palpitação complexa d’aquella alluvião de notas. Meio somnolenta, fitava Nicolao, sentado no outro extremo do canapé, com as pernas dobradas por debaixo do corpo; considerava tambem o severo perfil de Sophia, de cabeça inclinada, sob o velo espesso dos seus cabellos d’oiro. Ia pôr-se o sol. Um raio tremulo nimbou primeiro a cabeça, o hombro da pianista; depois, deslisando para o teclado, brincou-lhe entre os dedos. Toda a sala estava cheia d’aquella melodia, e o coração da mãe despertava emfim, sem que ella mesma o percebesse. Succediam-se, entretanto, trez notas vibrantes como a voz de Fédia Mazine, regularmente e sustentando-se mutuamente á mesma altura, taes trez peixes de prata fluctuando n’um regato, scintillando por entre a torrente dos sons...

De vez em quando, outra nota mais vinha juntar-se ás primeiras, e, todas ao mesmo tempo, entravam a cantar uma canção ingenua, triste e acalentadora. E Pélagué começava a poder seguil-as, esperando que voltassem, não escutando outra coisa, abstraíndo-as do cáos inquietador da harmonia geral, que pouco a pouco ia deixando de ouvir...

E subitamente, das negruras remotas do seu passado, veio-lhe a recordação d’uma humilhação esquecida havia muito, mas que ressuscitava agora com nitidez cruel.

De uma vez, o marido voltára-lhe para casa tardíssimo e completamente embriagado. Puxára-a pelo braço, atirára-a da cama e enchera-a de pontapés, regougando:

--Vae-te d’aqui, canalha, que não te posso aturar!... Vae-te!

Para se esquivar aos maus tratos, tomára precipitadamente nos braços o filho, que então tinha dois annos, e, firmando-se nos joelhos, protegia-se com o corpinho do innocente, como se fôsse um escudo. O pequeno chorava, barafustava, com medo, nu, e quentinho do berço.

--Vae-te d’aqui! rugia Mikhaíl.

Ella saltára da cama, descalça, correra á cosinha; então, atirando uma camisola para os hombros e embrulhando a criança n’um chale, sem uma palavra, sem um queixume nem uma exortação, com os pés no lagedo, saíra para a rua. Era em maio, a noite ia fresca; a frigida terra da calçada collava-se-lhe aos pés, penetrando-a toda, regelando-a.