Part 8
--Meu querido André, quando penso na minha vida!... Ai! Meu Deus! Para que tenho eu vivido? Para trabalhar e levar pancada! Não via mais ninguem senão o meu marido; não conhecia mais nada do que o medo. Não vi como o Pavel cresceu... nem mesmo sei se o amava emquanto o meu marido era d’este mundo. Todos os meus pensamentos, todos os meus cuidados, pertenciam a uma coisa unica: alimentar aquelle animal selvagem, para que andasse satisfeito e cheio, para que não se zangasse e me poupasse á pancada, uma vez ao menos. Mas não me recordo de que elle compreendesse isto. Batia-me com tal violencia, que parecia estar castigando não a sua mulher, mas sim aquella contra quem andava irritado. Assim vivi vinte annos. Do que fui antes de casar nem já me lembro. Quando tento recordar-me, nada vejo: é como se estivesse cega. Com o Iégor Ivanovitch--somos da mesma aldeia--conversei ultimamente e a respeito d’estes e d’aquelles... recordava-me das casas, revia as pessoas, mas não me lembrava da maneira como viviam, o que diziam, o que lhes acontecera. Lembro-me dos incendios, de dois incendios... O meu marido tanto me bateu, que de mim saccudiu todas as recordações. A minha alma era hermeticamente fechada; tornou-se depois cega e muda.
Resfolegou demoradamente, como um peixe fora d’agua; curvou-se para a frente, e continuou:
--Quando elle morreu, agarrei-me ao meu filho, que começou a preoccupar-se com essas coisas... Foi então que tive compaixão d’elle. «Como hei-de viver sósinha, se elle morrer?» perguntava a mim mesma. Quantos receios! quantas angustias! O meu coração despedaçava-se, quando eu pensava na sorte do Pavel!
Calou-se por instantes, meneou a cabeça, e continuou:
--É impuro o nosso amor, o das mulheres! Amamos aquillo de que precisamos... Quando o vejo pensar em sua mãe... Que falta lhe faz ella? E aquelles que soffrem pelo povo, que são mettidos na cadeia ou mandados para a Siberia, que morrem ou são enforcados por lá... essas raparigas que andam sósinhas de noite por cima da neve, da lama, e á chuva, que andam sete kilometros para virem ver-nos... o que é que as leva a isto? É o amor, mas um amor puro! Teem a fé... a fé...! Eu não sei amar assim; amo o que me diz respeito, o que me é próximo!...
--Tem razão! Todos amam o que lhes fica ao alcance, mas, para uma grande alma como a sua, do longe faz-se perto. Pode amar muito, porque tem um grande amor materno.
--Deus queira! Sinto que ha-de ser bom viver assim. Por exemplo, estimo-o, André, talvez mais do que o Pavel... Elle é tão reservado! Olhe: quer casar com a Sachenka e nunca me disse uma palavra, a mim, sua mãe!
--Não é verdade! Sei que não é verdade! Ama-a, e ella tambem o ama. Quanto a casarem, não. Ella quereria, mas o Pavel...
--Ah!... exclamou ficando a olhar tristemente para André. É isso! Deve-se renunciar a si mesmo.
--O Pavel é um homem extraordinario! Um caracter de ferro.
--E agora... preso! Mas a minha alma transformou-se, abriu os olhos, vê. Emquanto houver ricos, poderosos, o povo não obterá justiça, nem alegria, nada! Não é isto, André?
Elle levantara-se pensativo.
--É isso mesmo! Havia em Kertch um rapaz judeu que fazia versos, e que uma vez disse assim:
Podem assassinar os innocentes, Que a força da verdade os resuscita!
Elle mesmo foi assassinado pela policia, em Kertch, mas isso que importancia teve? Conhecia a verdade e semeára-a no coração dos homens. Ah! Pélagué! A sr.ᵃ é tambem uma creatura condemnada á morte... Resuscitou. O poeta sabia o que dizia.
--Falo, falo, e sinto-me, e não creio nos meus ouvidos. Hoje penso em todos. Não compreendo talvez muito bem isso em que andam mettidos... mas todos sinto proximo de mim, e desejo a felicidade de todos, a sua principalmente, meu André!
Elle approximou-se dizendo:
--Obrigado. Não falemos mais de mim.
E pegando-lhe na mão, apertou-a com força e voltou o rosto para o lado.
Fatigada pela commoção, Pélagué começou de lavar a loiça vagarosamente, emquanto o russo-menor, passeando pelo quarto, ia falando.
--Mãesinha, deve tratar de amansar o Vessoftchikof! o pae está com elle na mesma cadeia; é um velhote repellente. Quando o filho o vê, pela janella, insulta-o. Não é bonito! O rapaz é bom, gosta dos cães, dos ratos, de todos os seres, menos dos homens! Ora veja até que ponto pode ser corrompida uma alma humana!
--A mãe desappareceu, sem dar novas nem mandados. O pae é um bêbedo... disse Pélagué, pensativa.
Quando André foi deitar-se, fez-lhe no peito o signal da cruz, sem que elle désse por isso. Meia hora depois, perguntava, baixinho:
--Já dorme, André?
--Não. Porque?
--Nada. Boa noite.
--Obrigado, obrigado! respondeu, reconhecido.
XVII
Quando no dia seguinte ella chegou á porta da fabrica, carregada com o seu fardo, os guardas detiveram-na rudemente, mandaram-na pôr no chão tudo o que trazia e examinaram-na attentamente.
--Olhem que a sôpa arrefece! disse, tranquilla, emquanto a apalpavam sem ceremonia.
--Cala-te!
O outro disse, dando levemente com o hombro no camarada.
--Se eu te affirmo que os atiram cá para dentro por cima do muro!...
O velho Sizof foi o primeiro a approximar-se d’ella, perguntando-lhe em voz baixa:
--Ouviste?
--O quê?
--Os folhetos tornaram a apparecer. As prisões e as buscas não serviram para nada. O meu sobrinho Mazine está preso, o teu filho tambem, e afinal os folhetos continuam a ser distribuidos.
E concluiu, passando a mão pela barba:
--O caso não está nas prisões, mas sim nos pensamentos. E os pensamentos não são coisa que se agarre como quem apanha pulgas. Porque não vens tu á nossa casa? É aborrecido tomar o chá sósinha.
Agradeceu. Apregoando sempre, ia activando o movimento cheio de animação que havia na fabrica. Os operarios pareciam contentes; formavam-se grupos, as vozes eram excitadas; pairava no ar um como sopro d’audacia. Ora d’um canto, ora d’outro, partiam exclamações approvativas, gracejos pesados e até ameaças. A figura avantajada do Goussef apparecia aqui e ali; o irmão seguia-o, rindo. Um mestre marceneiro chamado Vavilof e o apontador Isaías passaram diante de Pélagué sem se apressarem. Este ultimo disse vivamente:
--Olha, Ivan Ivanovitch: riem, andam satisfeitos, embora o caso possa trazer a destruição do imperio, como disse o sr. director. O necessario não é mondar, mas sim semear.
Vavilof, com os braços cruzados nas costas, apertava fortemente os dedos.
--Imprimam tudo o que quizerem, cães do diabo! mas não se mettam em falar da minha pessoa!
Vassili Goussef approximou-se de Pélagué.
--Dá cá de comer. O que tu vendes é bom.
Depois, baixaram a voz:
-- Vê, mãesinha, que o nosso fim está conseguido!
Ella disse que sim com a cabeça. Sentia-se feliz por lhe falar em segredo aquella creatura que tinha tão má fama no bairro; e ao notar a efervescencia que ia pela fabrica, dizia a si mesma, satisfeita:
--E pensar que se não fosse eu!...
Trez operarios pararam perto d’ella; um disse, a meia voz:
--Não encontrei...
--Se conseguissemos lêl-o!... Eu nem mesmo sei soletrar; mas percebo que elle é util.
O terceiro, olhou em volta, e depois propôz:
--Vamos para o pé dos fornos de fundição; eu mesmo o leio.
--Os folhetos vão fazendo o seu effeito!... cochichou Goussef a Pélagué.
Ella voltou para casa, satisfeitissima, pois tinha visto com os seus olhos que as proclamações attingiam o fim desejado.
--Os operarios lamentavam-se de serem ignorantes. Quando eu era rapariga, sabia ler, mas depois esqueci tudo.
--É tornar a aprender! disse André.
--Na minha idade! Isso até dava vontade de rir!
Mas André pegou n’um livro e perguntou, apontando para uma lettra.:
--Que é isto?
--Um R! respondeu, rindo.
--E isto?
--Um A.
E depois de compreender que o sorriso d’elle nada tinha humilhante nem ironico:
--Pensa, na verdade, eu instruir-me, André?
--E porque não? Tentemos. Já que uma vez aprendeu, ser-lhe-á agora facil. Se o conseguirmos, tanto melhor; se não, paciencia.
E a lição continuou.
Dedicando-se com toda a boa vontade; mexendo os sobrolhos, procurava recordar-se das letras esquecidas; tanto se mergulhára no estudo, que não se lembrava de nada mais; os seus olhos fatigaram-se dentro em pouco, e n’elles se accumularam as lagrimas que o cansaço provocava.
--Aprendo a ler! exclamou, soluçando... na hora em que só devia pensar na morte.
--Não chore! Ha milhares de creaturas que podiam instruir-se ainda mais, e todavia vegetam como brutos, embora se gabem de que vivem bem... E o que ha na sua existencia que seja bom? Sempre a mesma vida: trabalhar e comer. De vez em quando, fazem filhos: a principio acham-lhes graça, mas quando elles começam tambem a comer, entram de embirrar com elles, e dizem-lhes: «Vejam lá se crescem depressa, seus comilões, e se começam a trabalhar!» Nunca a sua alma é animada por uma alegria, por um pensamento que dê jubilo ao coração. Uns mendigam sempre, como os pobres, os outros fazem-se ladrões. Inventaram-se leis infames, entregaram a guarda do povo a umas creaturas a quem disseram: «Obriguem a que respeitem as nossas leis, que nos permittem sugar o sangue humano.» Se o homem não cede quando o comprimem, mettem-lhe á força, nos miolos, preceitos que brigam com a razão.
Encostado á meza, fitava o olhar em Pélagué, continuando:
--Mas os outros, como o seu filho, são homens que libertam o corpo e o cerebro. E a mãesinha tambem se consagrou a esse trabalho, dentro das suas forças.
--Eu?!
--Sim. É como a chuva. Cada gotinha vae alimentar um grão de trigo. E quando souber lêr...
Levantou-se; e a rir:
--O Pavel é que ha de ficar espantado, quando voltar!...
--Ah! meu André! Tudo é facil emquanto se é novo; mas quando se é velha...
Á noite, o russo-menor saíu. Pélagué foi fazer meia, mas, de subito, fechando-se bem por dentro, tirou da estante um livro, encostou-se á meza, acurvou-se sobre elle, e os seus labios começaram a mover-se... Quando vinha da rua algum ruido, fechava o livro, a tremer, e punha o ouvido á escuta. E ficava-se a soletrar, mentalmente:
--L... A... V... I... A...
XVIII
Bateram á porta. Foi pôr o livro na estante.
--Quem é?
--Eu.
Rybine entrou. Tendo trocado os cumprimentos, alizou a barba demoradamente, olhou para o quarto, e disse:
--D’antes deixavas entrar toda a gente, sem perguntares quem era... Estás sosinha?
--Estou.
--Julguei que estivesses com o André. Vi-o hoje. A cadeia não corrompe o homem. O que corrompe mais do que tudo é a estupidez.
Passou ao quarto e sentou-se.
--Venho dizer-te alguma coisa. Tive uma idéa...
A sua gravidade e o seu ar misterioso sobresaltaram Pélagué, que se sentara diante d’elle.
--Tudo custa dinheiro! começou. Ninguem nasce nem morre gratuitamente. Ora os folhetos tambem custam dinheiro. Sabes d’onde elle vem para pagar os folhetos?
--Não sei.
--Nem eu. Em segundo logar: quem os compõe?
--Sabios...
--Gente que está acima de nós. Portanto são os grandes que compõem os folhetos. Ora se os folhetos são contra elles, que interesse teem elles em publical-os, gastando para isso o seu dinheiro?
Pélagué fechou os olhos; e ao reabril-os:
--O que pensas? Dize!
--Ah! exclamou, movendo-se na cadeira como um urso. Senti tambem um calafrio quando me veio este pensamento!...
--O que ha então? Soubeste alguma coisa?
--É tudo um embuste! Entendo que é um embuste! Eu compreendo a verdade, e não quero entender-me com os ricos. Quando precisam de nós, atiram-nos para a frente, para que os nossos corpos lhes sirvam de ponte.
Estas palavras acerbas confrangiam o coração da pobre velha.
--Ó Senhor! exclamava angustiada. E o Pavel que não compreendeu nada d’isso? Pois dar-se-á o caso de que todos aquelles, que vinham da cidade, fossem...?
As fisionomias graves de Nicolao Ivanovitch, de Iégor, de Sachenka, appareceram-lhe na frente.
--Não! não!... Não posso acreditar. São creaturas animadas só pela sua consciencia, sem más intensões...
--Não é para esses que devemos olhar, mas para mais alto. Os que mais se nos approximam sabem naturalmente tanto como nós. Crêem que procedem bem... amam a verdade. Mas talvez que por de traz d’elles haja outros que não pensem da mesma maneira. O homem não trabalha contra si proprio, não tendo para isso fortes razões.
E accrescentou, com a tacanha certeza do camponio, eivado de uma incredulidade secular:
--Das mãos dos grandes e dos illustrados nunca nos virá coisa bôa!
--O que resolves, então?
--Que não devemos alliar-nos aos que estão acima de nós! Ora aqui está!
Tornou a calar-se, como se se dobrasse sobre si mesmo.
--Vou pôr-me a caminho. Desejava ter-me reunido aos companheiros e trabalhar com elles. Sirvo para isso; sou teimoso, e não muito parvo; sei lêr e escrever. E principalmente percebo o que se deve dizer a essa gente... Vou pôr-me a caminho; é o que devo fazer, já que não posso acreditar. Vou sósinho por essas cidades e aldeias a sublevar o povo, a quem cumpre correr á conquista da sua liberdade. Se souber compreender, encontrará para isso uma saída. Tentarei fazel-o compreender que em ninguem deve ter esperança senão n’elle proprio.
Ella teve piedade de Rybine, a sua sorte assustava-a; parecera-lhe sempre antipathico; e n’aquelle momento sentia-o mais perto d’ella, mais familiar.
--O Pavel vae por um caminho... e elle vae por outro. O Pavel terá menos trabalho... murmurou involuntariamente, accrescentando: Serás preso!
Rybine olhou para ella e replicou:
--Mas soltar-me-ão!
--A gente do campo será a primeira a entregar-te... e poderás ficar preso por muito tempo...
--Acabarei por vir para a rua, e voltarei á mesma. Quanto aos camponios, entregar-me-ão duas ou trez vezes, mas hão de acabar por compreender que farão melhor escutando-me. Dir-lhes-ei: «Não acreditem em mim: oiçam-me apenas!» E se me ouvirem, acabarão por acreditar-me.
--Vaes morrer!... disse tristemente a velha, meneando a cabeça.
Elle fitou-a com um olhar cheio de interrogação. O seu corpo vigoroso estava inclinado para a frente; as mãos apoiavam-se na cadeira; o seu rosto moreno empallidecera, enquadrado na barba negra.
--Sabe o que Jesus disse do grão de trigo? «Não morrerá, mas resuscitará em uma nova espiga!» O homem é um grão de verdade... E eu ainda não estou ás portas da morte...
Levantou-se, vagaroso.
--Vou ate á taverna. Quando o André voltar, repete-lhe o que eu te disse?
--Sim.
Passaram á cosinha e trocaram algumas frases curtas, sem olharem um para o outro.
--Adeus...
--Adeus... Quando recebes a tua feria?
--Já a recebi.
--E quando partes?
--Amanhã de manhãsinha. Adeus!
Curvou-se, e saíu um pouco assustado, como contra vontade. Durante uns momentos, a velha ficou á porta prestando o ouvido ao andar que se afastava... Depois foi até ao quarto e pôz-se a olhar pela janella. Densas trevas se apegavam ás vidraças, parecendo esperar o que quer que fosse que podesse tragar as suas fauces insondaveis.
--Vivo de noite! pensou. Sempre de noite!
André chegou d’ali a pouco, animado, alegre. Quando a velha lhe falou de Rybine, exclamou:
--Parte?! Pois que vá! que vá espalhar pelas aldeias a verdade, e accordar o povo. Era-lhe difficil ficar comnosco. Tem na cabeça umas idéas especiaes, que não lhe deixam adoptar as nossas.
--Falou dos ricos, dos nobres, dos illustrados. Parece haver no caso alguma coisa torta!... disse ella prudentemente. Oxalá não sejamos enganados!...
--Isso dá-lhe cuidado, mãesinha? Ah! o dinheiro! não é? Vamos vivendo por conta d’outrem. O Nicolao Ivanovitch ganha setenta e cinco rublos por mez, e entrega-me cincoenta. Os outros fazem o mesmo. Os estudantes, que passam privações, cotisam-se tambem, e conseguem mandar-nos pequenas quantias, accumuladas kopeck a kopeck. É isto! Ha homens para tudo: uns enganam-nos, outros não nos deixam avançar; mas ha os melhores, os que nos acompanham no caminho da victoria!
E esfregando as mãos:
--Mas o triunfo ainda vem longe, ainda! Emquanto não chega, vamos organisar um primeiro de maiosinho! Ha de ser divertido!
As suas palavras e a sua animação tranquillisaram Pélagué. Elle, passeando a passos largos continuava:
--Se soubesse que extraordinaria sensação eu tenho ás vezes!... Parece-me que por toda a parte por onde vou, os homens são companheiros, incendidos na mesma fé, que todos são bons. Todos se compreendem sem precisarem de falar, ninguem offende o proximo. Vive-se em bôa harmonia, cada alma canta a sua canção, e, como regatos, todas as canções se reunem em um unico rio, que vae avançando, majestoso e grave, para o mar onde brilham os clarões da vida livre. E digo com os meus botões que isto ha de realisar se, que isto não póde deixar de ser, se nós quizermos que seja! E então o meu coração transborda de alegria; tenho vontade de chorar, tal é a minha felicidade!
A velha nem se movia, para não o interromper. Escutara-o sempre mais attentamente do que aos seus companheiros porque elle falava com mais simplicidade, e as suas palavras iam mais fundo á alma. O Pavel tambem era para a frente que olhava, mas mantinha-se solitario e nunca dizia o que via. Parecia a Pélagué que André olhava sempre para o futuro com o coração: a lenda do triunfo de todas as creaturas surgia sempre nos seus discursos. E aos olhos de Pélagué aquella brilhante lenda illuminava lhe a compreensão da vida e do trabalho a que o filho e os seus companheiros se tinham entregado.
--É humilhante isto! exclamou elle de subito. Não se póde acreditar no homem. Precisamos até de temel-o e de odial-o. O homem desdobra se, a vida parte-o em dois. Como seria possivel amar somente? Como perdoar áquelle que se arroja sobre vós, como um animal selvagem? Impossivel! Não falo por mim. Supportaria todos os ultrages; mas não quero ter connivencia com os oppressores; não quero que se sirvam dos meus costados para aprenderem a bater nos outros.
Uma expressão de frieza accudiu ao seu olhar, a voz tornou-se-lhe mais firme.
--Não devo perdoar o que seja mao, ainda quando não me prejudique. Não sou só eu na terra. Admittamos que hoje me deixo insultar sem responder ao insulto; hei de rir talvez, porque não me senti ferido; mas ámanhã o insultador, que experimentou em mim a sua força, vae tirar a pelle a outro. Por isto não devemos considerar toda a gente da mesma maneira; convem reprimir o coração, vêr quem são os inimigos e quem são os amigos. É justo, embora não seja divertido!
Sem saber porquê, Pélagué pensou em Sachenka e no official. Disse com um suspiro:
--Como se ha de fazer pão com trigo que não foi semeado?
--Esse é o mal!
No espirito da velha desenhava-se a figura de seu marido, semelhante a uma grande pedra coberta de musgo. Fantasiou André casado com Natacha, e o seu filho casado com Sachenka.
O russo-menor e Pélagué tiveram muitas conversas d’este genero. Elle conseguira metter-se outra vez na fabrica, e entregava todo o seu dinheiro a Pélagué, que o acceitava naturalmente, como se fosse de Pavel.
Ás vezes, com um sorriso no olhar, André propunha-lhe:
--Se nós aprendessemos a contar?...
Ella recusava; o sorriso d’André acanhava-a. Pensava, um tanto vexada: «Se tu ris, para que havemos de falar n’isso?»
Elle notou que a velha era mais frequente em pedir-lhe a significação de certas palavras; percebia que ella ia-se instruindo ás escondidas, e por isto deixou de insistir em ensinal-a.
--Vae-me faltando a vista, meu André; sinto-a cançada... disse-lhe, um dia. Gostava muito de usar uns oculos.
--Está dito! No domingo vamos ambos á cidade consultar um doutor que eu conheço, e compraremos depois os oculos.
XIX
Já por trez vezes ella sollicitara licença para ver o filho, recebendo sempre a negativa benevola do chefe dos guardas, um velho de cabellos brancos, faces escarlates e nariz comprido.
--D’aqui a uma semana, mulhersinha. Antes, não! Para a semana veremos. Hoje é impossivel.
--É muito delicado! contava ella a André. Sempre a sorrir!... Não me parece bem. Quando se é chefe, não se deve levar assim as coisas de brincadeira.
--Sim, sim... São amaveis, sorriem muito... Se lhes dizem: «Vê aquelle homem intelligente e honrado? É perigoso para nós: enforque-o!» Elles sorriem, enforcam-no, e depois continuam a sorrir.
--Aquelle que veio cá fazer a busca era mais simples, valia mais: via-se logo que era um canalha!
--Dir-se-ia que não são homens mas sim martellos, ferramentas, para nos talharem por forma a ficarmos ao gosto do governo. Elles proprios foram accomodados á mão que nos dirige...
...A final, Pélagué obteve a ambicionada licença. No domingo, entrou na secretaria da cadeia e sentou-se modestamente a um canto. Havia mais visitas n’aquella casa acanhada e suja, de tecto baixo. Não era a primeira vez que se encontravam ali: conheciam-se uns aos outros. A conversa ia-se arrastando lentamente, a meia voz.
--Sabe? dizia uma mulherona já de alguma idade, e que tinha uma malêta nos joelhos. Esta manhã, á primeira missa, o mestre-capella da catedral, esteve outra vez quasi a arrancar uma orelha a um menino de côro.
Um homem de meia idade, com o uniforme de soldado reformado, tossiu ruidosamente e replicou:
--Os taes meninos de côro são uns garotos!...
Um homemsinho calvo, de pernas curtas, braços compridos, a maxilla proeminente, passeava d’um lado para o outro, com ares de preocupado. Sem parar dizia:
--A vida está cada vez mais cara; e é por isto que os homens nunca foram tão maos! A carne de vacca de primeira qualidade custa a quatorze kopecks o arratel, o pão dois kopecks e meio...
De quando em quando, entravam prisioneiros, vestidos de cinzento, com grossos sapatos de coiro. Um d’elles trazia uma corrente no pé. Parecia que os visitantes estavam acostumados havia muito áquelle espectaculo. O coração de Pélagué tremia d’impaciencia; olhava perplexa para tudo o que a cercava.
A seu lado estava uma velhinha com as faces enrugadas e com os olhos amortecidos. Prestava attenção á conversa, estendia o pescoço delgado e fugia a olhar para os assistentes, com uma expressão de irascibilidade.
--Quem tem a sr.ᵃ aqui? perguntou-lhe Pélagué com doçura.
--O meu filho, que é estudante! E a sr.ᵃ?
--Tambem o meu filho, operario.
--Como se chama elle?
--Vlassof.
--Não conheço. Está cá ha muito tempo?
--Ha sete semanas.
--E o meu ha dez mezes!
E Pélagué, julgou perceber-lhe no tom da voz, o que quer que fosse parecido com o orgulho.
Uma senhora alta, vestida de preto, de rosto comprido e pallido, disse vagarosamente:
--D’aqui a pouco mettem na cadeia todas as pessoas de bem. Já não as podem aturar.
--Sim, sim! replicou o velho calvo. A paciencia vae faltando. Toda a gente se zanga e clama, e tudo vae augmentando de preço. É por isto que as pessoas vão diminuindo de valor. E não apparece nenhuma voz conciliadora...
A conversa generalisou-se e animou se. Cada qual formulava a sua opinião acerca da vida, mas todos falavam a meia voz; e Pélagué sentia n’aquellas palavras o que quer que fosse estranho. Em sua casa, falava-se d’outra maneira, d’uma maneira mais compreensivel, mais natural, mais aberta.
Um guarda, de grande barba grisalha, gritou:
--A Vlassof!
Mediu-a com o olhar e disse:
--Vem!
E foi andando, arrastando os pés. A vontade de Pélagué era empurral-o para que elle andasse mais depressa. Afinal, n’um pequenito quarto, encontrou-se com Pavel, que lhe estendeu a mão, sorrindo.
Ella agarrou-a, rindo muito, e dizendo:
--Bons dias! bons dias!
--Olá, mulher! exclamou o guarda. Afastem-se um pouco um do outro. É do regulamento.
E bocejou.
Pavel pediu á mãe noticias da sua saude, da sua casa. Ella esperava outras perguntas, procurava-as até, no olhar do filho, mas não as encontrou. Como sempre, elle apresentava-se tranquillo; apenas um pouco mais pallido; os seus olhos pareciam maiores.
--A Sachenka manda-te recommendações.
As palpebras de Pavel estremeceram e abaixaram. O seu rosto dulcificou-se e brilhou com um sorriso.
--Pôr-te-ão em breve na rua? perguntou, irritada de subito. Por que foi que te prenderam? Sim porque afinal os taes folhetos voltaram a apparecer.
Os olhos de Pavel tiveram um lampejo d’alegria.
--Serio?!