A Mãe

Part 5

Chapter 53,834 wordsPublic domain

Pélagué viu os assistentes assignarem o documento, a sua excitação desapparecera, faltava-lhe a coragem; affluiam-lhe aos olhos amargas lagrimas de humilhação e de consciencia da sua fraqueza. Durante os vinte annos da sua vida de casada, tinha chorado lagrimas como aquellas; mas esquecera-lhe o ardor quasi por completo desde que enviuvára. O official olhou para ella e commentou com uma expansão desdenhosa:

--Foi cedo para tanto alarde, minha prenda! Creia que é capaz de ficar sem lagrimas... para o futuro.

Respondeu-lhe, outra vez irritada:

--Ás mães nunca faltam as lagrimas!... Se tem mãe, ella deve saber isto, com certeza!

O official metteu rapidamente os seus papeis na carteira, que era nova e de feixos brilhantes; e dirigindo-se ao commissario de policia:

--Todos elles denotam uma independencia revoltante!

--Que insolencia! murmurou o commissario.

--A caminho! ordenou o official.

--Até á vista, André! até á vista, Nicolao! disse Pavel apertando calorosamente a mão dos companheiros.

--Está claro... até á vista! repetiu o official com ironia.

Sem dizer palavra, Vessoftchikof apertava a mão de Pélagué entre os seus dedos curtos. Respirava a custo; o pescoço robusto estava congestionado, os olhos brilhavam-lhe de raiva. André sorria e meneava a cabeça; disse algumas palavras a Pélagué, que fez o signal da cruz sobre elle, respondendo-lhe:

--Deus conhece os justos!

Emfim o bando de homens de capotes cinzentos desappareceu dobrando a esquina da casa, com um tintilar de esporas. Rybine foi o ultimo a saír; com o seu negro olhar prescrutou Pavel; em tom meio abstracto disse:

--Adeus, an...?

E foi-se, sem pressas, tossindo, de cabeça baixa.

Com as mãos cruzadas nas costas, Pavel entrou de passear de um para outro lado, por entre as trouxas de roupa e os livros espalhados no chão, até que perguntou em tom sombrio:

--Viste como é?

Sem deixar de olhar para a desordem em que ficára o quarto, ella disse baixinho, afflicta:

--Prender-te-ão tambem... tambem, a ti! Para que foi tão grosseiro o Vessoftchikof?

--Teve medo, provavelmente!... respondeu Pavel tambem em voz baixa. Não se deve falar áquella gente... nada se consegue d’elles! são incapazes de compreender...

--Vieram! prenderam-no! levaram-no! murmurou, com os braços erguidos.

Só lhe restava o filho. O coração de Pélagué começou a pulsar mais vagaroso; o seu pensamento immobilisava-se perante um facto que ella não podia admittir como real.

--Faz pouco de nós, aquelle homem amarello: ameaça-nos... e...

--Basta, mãe! disse de repente Pavel com decisão. Anda cá, arrumemos tudo isto.

Tinha dito aquelle «mãe» e tratara-a por tu como era seu costume quando se tornava mais communicativo. Ella approximou-se, encarou-o e perguntou em voz baixa:

--Humilharam-te?

--Sim! Custou-me muito! Preferia ir com elles.

Pareceu a Pélagué que elle tinha os olhos lacrimosos; e para o consolar d’aquelle desgosto que ella vagamente adivinhava, disse, suspirando:

--Tem paciencia... um dia virá em que tambem sejas preso!

--Bem sei... respondeu.

Decorridos uns instantes, ella accrescentou com tristeza:

--Como és cruel, meu filho! Se ao menos me tranquillisasses... Mas não! se eu digo coisas terriveis, o que tu me respondes é peor ainda!

Elle olhou de relance, approximou-se, e baixando a voz:

--Não sei que responder-lhe, mamã. Não posso mentir. Tem que acostumar-se...

Pélagué suspirou e calou-se; depois, estremecendo:

--Será verdade? Dizem que elles torturam os presos, que lhes retalham o corpo em tiras, e lhes quebram os ossos... Quando penso n’isto, tenho medo, Pavel, meu querido filho!

--Torturam a alma e não o corpo. É ainda mais doloroso do que a tortura tocarem-nos na alma com as mãos emporcalhadas!

XI

Soube-se na manhã seguinte que Boukine, Samoílof, Somof e mais cinco pessoas tambem tinham sido presos. Á noite, Fédia Mazine veio de corrida: haviam feito uma busca em sua casa; estava radiante por isso, e considerava-se como um heroe.

--Tiveste medo, Fédia? perguntou Pélagué.

Empallideceu, encovou-se-lhe o rosto, as narinas estremeceram-lhe.

--Tive medo de que o official me batesse! Tinha barba negra e era forte; os dedos cabelludos; usava lunetas de vidros pretos; parecia que lhe faltavam os olhos. Gritou, batendo com o pé: «Faço-te apodrecer na cadeia!» Em mim nunca ninguem bateu, nem o meu pae, nem a minha mãe, porque eu era filho unico, e elles queriam-me muito. Toda a gente tem levado pancada; eu, nunca.

Fechou por um instante os olhos avermelhados e apertou os beiços; com um gesto rapido, atirou para traz com os cabellos e disse, encarando em Pavel:

--Se alguem me bater, enterro-me n’elle como uma navalha, retalho-o com os dentes. É preferivel que me estendam de vez!

--Tão magrito e fraco!... exclamou Pélagué. Como poderias luctar?

--Pois luctarei! respondeu em voz baixa.

Quando elle saiu, ella disse para o filho:

--Será esmagado primeiro do que os outros.

Pavel não respondeu.

Minutos depois, a porta da cosinha abriu-se devagar, e Rybine entrou.

--Bôa noite! disse, sorrindo. Sou eu outra vez. Hontem á noite, obrigaram-me a cá vir; hoje venho por minha conta.

Apertou com vigor a mão de Pavel, e pondo a mão no hombro de Pélagué:

--Dás-me chá?

Pavel observou em silencio o amplo rosto atrigueirado do seu visitante, a sua espessa barba negra e os seus olhos intelligentes. Havia um tanto de gravidade no seu olhar tranquillo; todo o aspecto do recemchegado, de athletica corpolencia, inspirava simpathia pela sua decidida firmeza.

A mãe foi á cosinha preparar o samovar.

Rybine sentou-se, afagou o bigode, e, encostando-se á meza, envolveu Pavel n’um olhar.

--Com que então... Assim começou, como se reatasse o fio de uma conversa. Devo falar-te abertamente. Observei-te por muito tempo antes de vir á tua casa. Somos quasi visinhos, via que recebias muita gente e que ninguem se embriagava nem fazia escandalos. Isto dava nas vistas. Quando alguem se porta bem, é logo notado, vê-se logo quem é. Eu proprio chamo as attenções para a minha pessoa porque vivo á parte, sem praticar porcarias.

Falava vagarosamente, com ripanso; tinha inflexões que inspiravam confiança.

--Com que então, toda a gente fala de ti. O meu senhorio chama-te «herético» porque não vaes á egreja. Eu tambem lá não vou. Depois appareceram essas fôlhas, esses papeis... A idéa foi tua?

--Foi! respondeu Pavel sem desviar o olhar da fisionomia de Rybine, que tambem o fitava.

--Ora vamos! exclamou Pélagué, sobresaltada, e saíndo da cosinha. Não foste só tu...

Pavel sorriu. Rybine tambem.

--Ah!... murmurou este.

A velha fungou e saíu, um tanto irritada por não terem prestado attenção ás suas palavras.

--Era uma bôa idéa. Perturbam o povo. Quantas foram ao todo? Umas dezenove, não?

--Isso mesmo.

--Então li-as todas! Bem... bem... Ha por lá coisas incompreensiveis, superfluas. Quando o homem fala muito, acontece-lhe falar para nada.

Sorriu; tinha os dentes brancos e sãos.

--Depois, a busca que fizeram em tua casa... Foi o que me dispoz a teu favor. Tu, o russo-menor e Vessofchikof mostraram-se muito... muito...

Como não encontrava a palavra, calou-se, olhou pela janella, e bateu com um dedo na mesa:

--Mostraram-se decididos. Foi como se dissessem: «Faça a sua obra, Excellencia, que nós faremos a nossa!» O russo-menor tambem é um rapaz como se quer. Ás vezes, na fabrica, quando o ouvia falar, pensava: «Este não é para se deixar esborrachar, não! Só a morte poderá vencel-o. Tem um bigode, o typo!» Não acha, Pavel?

--Acho! respondeu, movendo a cabeça affirmativamente.

--Ora bem... Tenho quarenta annos, o dobro da tua edade; tenho visto vinte vezes mais do que tu. Fui soldado durante mais de trez annos; fui casado duas vezes; morreu-me a primeira mulher; deixei a segunda. Estive no Caucaso, vi os Doukhobors... Não souberam vencer a vida, irmão! oh! não souberam!

Pélagué escutava avidamente estas palavras; era-lhe agradavel vêr um homem de edade respeitavel procurar o filho como para confessar-se. Achava, porém, que Pavel o tratava com demasiada seccura, e para destruir esta impressão, perguntou a Rybine:

--Talvez tenhas vontade de comer alguma coisa, Mikhaíl Ivanovitch?

--Não, obrigado. Já ceei. Com que então, Pavel, pensas que a vida não vae por bom caminho?

O rapaz levantou-se e passeando, com as mãos atraz nas costas:

--Qual! Por magnifico caminho! E tanto assim que elle o trouxe até mim, agora que tem a sua alma francamente aberta. N’este caminho, a vida une-nos, pouco a pouco, a todos nós que trabalhamos incessantemente; e tempo virá em que ha de unir-nos a todos! As coisas acham-se dispostas de uma maneira injusta e penosa para nós; mas é a propria vida que nos abre os olhos, descobrindo-nos o que encerra amargo; é ella propria que mostra ao homem como lhe deve dirigir a norma.

--É verdade! Mas espera! É preciso renovar o homem. N’isto creio eu! Quando se apanha sarna, a gente toma banhos, lava-se, veste-se com asseio e fica bom, não é assim? Mas se a sarna ataca o coração, podemos por acaso arrancar-lhe a pelle, ainda que ficasse sangrando? podemos laval-o, vestil-o de novo? an? Então, como purificar o homem por dentro? O quê?

Pavel falou calorosamente de Deus, do imperador, das auctoridades, da fabrica, da resistencia que os trabalhadores do estrangeiro oppunham áquelles que queriam limitar os seus direitos. Rybine sorria por vezes; depois batia com o dedo na meza, como para pontuar o discurso de Pavel, sem comtudo deixar de dizer de quando em quando:

--É isso mesmo!

Todavia, commentou a meia voz com um sorrisinho:

--Ah! és ainda novo. Não conheces o proximo!

Pavel, de pé diante d’elle, explicou gravemente:

--Não falemos de novos nem de velhos! Vejamos antes qual é a melhor opinião.

--Portanto, em tua opinião até se teem servido de Deus para nos enganarem? Concordo. Tambem creio em que a nossa religião é nociva e erronea.

Pélagué interveiu. Quando o filho falava de Deus, das coisas sagradas e queridas que se ligavam á fé que ella tinha no seu Creador, tentava sempre encontrar o olhar de Pavel para pedir-lhe tacitamente que não lhe despedaçasse o coração com palavras de incredulidade, cortantes e aceradas. Ella porém sentia que, apezar de mostrar-se sceptico, o seu filho era crente; e isto tranquilisava-a.

--Como poderia eu compreender os seus pensamentos? dizia a si mesma.

Pensava que devia ser desagradavel e ultrajante para Rybine, um homem d’idade, ouvir taes palavras de Pavel. Mas quando Rybine dirigira aquella pergunta perdeu, de todo a paciencia.

--Sêde mais prudentes falando de Deus! disse resumidamente, mas com obstinação. Façam o que quizerem, mas...

E tendo tomado a respiração, continuou com mais vigor:

--Mas em que me hei de apoiar, no meio dos meus desgostos, eu que estou velha, se me tirarem o meu Deus?

Os olhos encheram se-lhe de lagrimas. Com as mãos trémulas, continuou lavando a loiça.

--Não nos compreendeu, mamã! disse Pavel com suavidade.

--Desculpe-nos! accrescentou Rybine em tom vagaroso, lançando um olhar risonho a Pavel. Esquecia-me de que estás muito velha para ser ainda tempo de te cortarem as verrugas!...

--Eu não falava, de maneira alguma, do Deus bom e misericordioso no qual a mãe acredita, mas sim d’aquelle com que os padres nos ameaçam como se fosse um flagello, e em nome do qual exigem que a grande maioria dos homens se submetta á vontade malevola d’alguns.

--Exactamente! Isso é que é! exclamou Rybine, batendo com o dedo na meza. Transformaram-nos até Deus. Os nossos inimigos lançam mão de tudo quanto lhes sirva para abater-nos. Recordo-te, Pélagué, que Deus creou o homem á sua imagem e semelhança e portanto parece-se com o homem, visto que o homem se parece com Elle. Nós, porém, não nos assemelhamos a Deus, mas sim aos animaes selvagens... Na egreja, o que nos mostram, em logar de Deus, é um espantalho. É mister transformar Deus, purifical-o! Revestiram-no de mentira e de calumnia, mutilaram o seu rosto para matarem a nossa alma...

Falava baixo, mas com espantosa nitidez; cada uma das suas palavras era para Pélagué um golpe doloroso. Sentiu-se assustada por aquella grande cara taciturna enquadrada n’uma barba negra, e o brilho sombrio dos seus olhos tornava-se-lhe insupportavel.

--Ah! Prefiro ir-me embora! disse, sacudindo a cabeça. Não tenho coragem de ouvir taes coisas... Não posso!

E fugiu para a cosinha, emquanto Rybine dizia:

--Vês, Pavel? Não é pela cabeça, mas sim pelo coração que se deve começar. O coração é um logar da alma humana no qual não brota mais do que...

--Do que a razão! acabou Pavel com firmeza. Será só a razão que libertará o homem!

--A razão não dá o poder! replicou Rybine, vibrante e obstinado. É o coração que dá a força e não o cerebro!

Pélagué despira-se e deitara-se sem haver resado. Tinha frio e sentia-se pouco bem. Rybine, que lhe parecera tão sensato, tão correcto, ao principio, excitava-lhe uma reservada hostilidade.

--Herético! agitador! pensava, prestando o ouvido á voz sonora que saía com facilidade d’aquelle peito amplo e forte. Para que veio elle cá?!...

E Rybine ia dizendo, tranquillo e firme:

--Um logar santo não póde ficar vasio. O logar onde Deus vive dentro de nós é atacado; se Elle caír da alma, ficará uma chaga! Ora ahi está! É preciso inventar uma fé nova, Pavel. É preciso crear um Deus justo para todos, um Deus que não seja nem juiz, nem guerreiro, mas sim o amigo dos homens.

--E que outra coisa foi Jesus?! exclamou Pavel.

--Espera!... Jesus não era firme d’espirito... «Affastem de mim este calice...» disse elle. E reconhecia o poder do Cezar. Deus não pode reconhecer uma auctoridade humana reinando sobre os homens, porque elle é que é a omnipotencia! Elle não dividiu a sua alma n’uma parte divina e em outra humana, e visto que confirmou a sua divindade, não carece de coisa alguma humana. Jesus reconheceu tambem como legitimos o commercio e o casamento. Foi injustamente que condemnou a figueira. Que culpa tinha ella da sua esterilidade? Não é por sua culpa que a alma não dá bons frutos. Fui eu que semeei n’ella o mal?

As duas vozes vibravam sem interrupção no quarto, como se se arrojassem uma á outra, combatendo-se em lucta animada e apaixonada. Pavel ia e vinha, a passos largos, e o sobrado rangia sob os seus pés. Quando falava, todos os sons se fundiam no ruido da sua voz; quando Rybine replicava, calmo, tranquilo, ouvia-se o tic-tac da pendula do relogio e o sêcco estalido da neve que roçava com as suas garras agudas nas paredes da casa.

--Vou falar-te como authentico fogueiro que sou: Deus parece-se com o fogo. É isto, sim! Não consolida coisa alguma, não o pode. Queima e funde, illuminando. Illumina as egrejas, mas não as constroe. Vive no coração. Disse se: «Deus é o Verbo»; e o Verbo é o espirito.

--A razão! emendou Pavel, obstinado.

--Isso! Portanto, Deus está no coração, e na razão, e não na egreja. E eis d’onde vem as desgraças, as dores, os infortunios do homem: é que todos nós somos arrancados de nós mesmos! O coração é repellido pela razão, e a razão foi-se! O homem não é uno. Deus une o homem em um todo, em um globo. Deus creou sempre coisas redondas: a terra, as estrellas; tudo o que é visivel, o que é agudo, foi o homem quem o fez. Quanto á egreja, é o tumulo de Deus e do homem.

Pélagué adormeceu, não tendo ouvido saír Rybine.

Elle voltou a apparecer muitas vezes. Quando qualquer companheiro de Pavel estava em casa d’este, o fogueiro sentava-se a um canto e continha-se em silencio; de tempos a tempos, dizia:

--Isso! Exactamente!

Uma vez, espraiou o seu negro olhar pelos assistentes, e disse, nada satisfeito:

--Deve-se falar do que é; o que será não sabemos nós. Quando o povo fôr livre, elle proprio verá o que tiver de melhor a fazer. Já lhe metteram na cabeça muitas coisas que elle não queria! Basta! Elle que se examine! Talvez elle repilla tudo, toda a vida e todas as sciencias; talvez veja que tudo lhe é hostil, como por exemplo: Deus e a egreja. Dêem-lhe para a mão todos os livros, e elle responderá. Mas para isto, seria necessario que elle compreendesse que quanto mais apertada é a colleira, mais penoso é o trabalho.

Quando Pavel e Rybine estavam a sós, punham-se logo a discutir, tranquillamente, por muito tempo. A velha escutava-os inquieta, seguia-os com o olhar silencioso, deligenciando compreender. Por vezes, parecia-lhe que ambos tinham cegado. Nas trevas, entre as paredes do pequeno quarto, os dois vagueavam d’um para outro lado, como em busca d’uma saída ou d’uma luz; agarravam-se a tudo com as suas mãos vigorosas, mas inhabeis; agitavam, revolviam tudo, deixando caír por terra coisas que depois espezinhavam. Esbarravam em tudo, tateavam e repelliam tudo, sem pressas, sem perderem a esperança nem a fé. Tinham-na acostumado a ouvir uma palavras terriveis pela sua simplicidade e audacia; estas palavras já não a opprimiam com a mesma violencia. Rybine não era simpático á velha, mas a repulsão, que a principio lhe inspirára, tinha desapparecido.

Uma vez por semana, Pélagué ia á cadeia levar roupa e livros a André; um dia obteve licença de vêl-o; e ao voltar para casa, contou enternecidamente:

--Continúa sendo o mesmo. Amavel para com todos. Todos brincam com elle. Parece que tem sempre o coração em festa. Custa-lhe a vida, soffre, mas não quer dal-o a perceber.

--E é assim que devem fazer todos! replicou Rybine. Todos nós estamos envolvidos em desgostos como n’uma segunda pelle... Respiramos desgostos... vestimo-nos de desgostos... Não temos de que nos gabar. Nem toda a gente tem os olhos furados, e muitos ha que os fecham de motu-proprio... Quando se é parvo, então sim, não ha remedio senão esperar o soffrimento...

XII

A velha casa parda dos Vlassof attraía de mais em mais as attenções do bairro. Ás vezes um operario apparecia por lá, e depois de ter olhado para todos os lados, cautelosamente, dizia a Pavel:

--Irmão, tu que lês nos livros, deves conhecer as leis. Portanto, explica-me.

E contava qualquer arbitrariedade da polícia ou da administração da fabrica. Nos casos complicados, Pavel remettia o consulente, com duas palavras de recommendação, a um advogado dos seus amigos, e, quando podia, elle proprio dava conselhos.

Pouco a pouco, os frequentadores do bairro foram nutrindo um sentimento de respeito por aquelle rapaz tão commedido, que falava de tudo com simplicidade e afoiteza, que raras vezes ria, que encarava e escutava todos os assuntos com attenção, mettendo-se na embrulhada de qualquer negocio particular e descobrindo sempre o fio que ligava as creaturas umas ás outras por milhares de nós tenazes.

Pélagué via ampliar-se a influencia do seu filho, começava a aprender o sentido dos trabalhos de Pavel, e quando o compreendia, invadia-a uma alegria infantil.

Pavel tornou-se maior na opinião publica por occasião da historia do «_kopeck_[1] do pantano».

Um grande pantano com pinheiros e bétulas cercava a fabrica como um fosso infecto. No verão, vinham d’elle exhalações amarellentas, opacas, de mistura com nuvens de mosquitos que se espalhavam no bairro produzindo febres. O pantano pertencia á fabrica; o novo director, querendo tirar partido d’elle, concebeu o projecto de esgotal-o, extraíndo-lhe ao mesmo tempo o nateiro. Esta operação, disse aos operarios, tornaria salobras as circumvisinhanças e melhoraria as condições de vida a todos; portanto ordenou que fosse descontado um kopeck por cada rublo, nas ferias, quantia que seria destinada ao saneamento do pantano.

Nos operarios houve uma agitação; irritava-os principalmente o facto de não reverter para os empregados o imposto.

No sabbado em que foi publicada a decisão do director, Pavel estava doente e não fôra trabalhar; nada sabia. Na manhã seguinte, depois da missa, o fundidor Sizof, um bom velho, o serralheiro Makhotine, homem alto, muito irrascivel, foram a casa d’elle para lhe dizer o que se passava.

--Os mais velhos d’entre nós reuniram-se, disse rudemente Sizof; discutimos; os nossos companheiros mandaram-nos cá para te perguntarmos--visto seres um homem de espirito lucido--se ha alguma lei que permitta ao director extinguir os mosquitos á nossa custa.

--Nota, accrescentou Makhotine, revolvendo os olhos, que ha quatro annos aquelles ladrões nos apanharam dinheiro para construirem um estabelecimento de banhos... Que é d’elle?

Pavel explicou que o imposto era injusto, que a fabrica tiraria uma grande vantagem do projecto. Assim, os dois operarios retiraram-se com ares de poucos amigos. Depois de os haver acompanhado até á porta, Pélagué disse sorrindo:

--Vem então os velhos a tua casa aprender comtigo, Pavel!...

Sem responder, o rapaz sentou-se e começou de escrever, preoccupado. Decorridos instantes:

--Peço-te que vás immediatamente á cidade e entregues este bilhete...

--É coisa arriscada?

--Sim. É para onde imprimem o nosso jornal. Esta historia do kopeck deve apparecer, sem falta, no proximo numero.

--Está bem! está bem! respondeu ella, vestindo-se á pressa. Eu vou.

Era o primeiro recado importante de que o filho a encarregava. Sentia-se feliz por vêr que elle lhe dizia francamente do que se tratava, e por poder ser-lhe util na sua obra.

--Compreendo, Pavel! Vou n’um momento. Como se chama elle? Iégor Ivanovitch, não?...

Regressou de noite, já tarde, fatigada, mas satisfeita.

--Vi a Sachenka. Manda-te recommendações. Como é divertido o Iégor! sempre de brincadeira!...

--Muito folgo com que elle seja do teu agrado.

--Que simpleza de gente! São tão simpaticas as pessoas simples!... E olha que todos elles te estimam muito.

Na segunda-feira, Pavel não poude ir á fabrica, doia-lhe a cabeça. Mas ao meio dia, Fédia Mazine appareceu-lhe, em grande excitação, radiante: participou esbofado:

--Toda a fabrica está em revolta! Mandaram-me vir á tua procura. Sizof e Makhotine dizem que tu explicarás a coisa melhor do que os outros. Se visses o que por lá vae!

Pavel vestiu-se sem dizer palavra.

--As mulheres estão reunidas e fazem uma gralhada!...

--Vou ter com ellas! disse Pélagué. Tu não estás bom, talvez seja perigoso... Os outros para que servem, então? Eu irei falar com elles...

--Vamos! disse Pavel simplesmente.

Saíram rapidamente, em silencio. Pélagué, offegante e commovida, presentia o que quer que fosse grave. Á entrada da fabrica, uma multidão de mulheres berrava e discutia. Pélagué via que todos os rostos estavam voltados para o mesmo lado, para a parede das forjas. Ali, Sizof, Makhotine, Valof e mais cinco operarios influentes e idosos tinham trepado para um montão de velha ferragem.

--Ahi vem o Vlassof! gritou alguem.

--Vlassof! Tragam-no cá!

Levaram Pavel, de roldão. Pélagué ficou só.

--Silencio! ordenaram muitas vozes a um tempo.

Proximo de Pélagué ouviu-se a voz monotona de Rybine:

--Não é pelo kopeck que se deve mostrar resistencia, mas sim pelo principio da justiça. Não é o kopeck o que nos custa, não é mais redondo do que os outros, mas é para nós mais pesado: ha n’elle mais sangue humano do que só em um rublo do director!

Estas palavras caíam sobre a multidão com energia e provocavam ardentes exclamações.

--É verdade! Bravo, Rybine!

--Silencio, seus diabos!

--Tens razão, fogueiro!

--Olhem o Vlassof!

As vozes confundiram-se n’um turbilhão tumultuoso, abafando o ruido surdo das maquinas e os suspiros do vapor. De toda a parte corria gente que começava a discutir, agitando os braços, excitando-se mutuamente com palavras febris e causticas. A irritação que dormia nos peitos fatigados, despertava; escapava dos labios e tomava o vôo, triunfante. Ao de cima da multidão pairava uma nuvem de poeira e ferrugem; os rostos cobertos de suor estavam em fogo, a pelle das faces vertia lagrimas negras. No fundo sombrio das fisionomias, brilhavam os olhos e os dentes.

Afinal, Pavel appareceu ao lado de Sizof e de Makhotine; ouviram-no gritar:

--Companheiros!

Pélagué viu que o filho estava palido e que os seus labios tremiam; involuntariamente, quiz avançar, abrindo caminho, á força; mas disseram-lhe com mao modo:

--Ó velha, deixa-te estar!