A Mãe

Part 4

Chapter 43,788 wordsPublic domain

--Para que ha de ir arranjar mais esse trabalho? perguntou Pavel, encolhendo os hombros.

--Ora! Durante toda a minha vida tenho sido atormentada com trabalho sem saber para quê; posso perfeitamente fazer isto hoje em favor de tão bom homem.

--Faça o que quizer! Se elle acceitar, dar-me-á satisfação.

E o russo-menor passou a viver com elles.

VIII

A pequena casa na extrema do bairro despertava a attenção: as suas paredes já tinham sido como que atravessadas por olhares suspeitosos. As azas do rumor publico agitavam-se por cima della; tentava-se descobrir o misterio que ali se occultava. Á noite, havia quem fosse espreitar pela janella; por vezes, alguem havia que batesse na vidraça, fugindo logo.

Certo dia, na rua, o taverneiro Bégountzef fez parar a mãe de Pavel. Era um bonito velhote que tinha sempre um lenço de seda preta á roda do pescoço vermelho e enrugado. O nariz brilhante e agudo era adornado por lunetas de aro d’escama de peixe, o que lhe tinha grangeado a alcunha de «Olhos d’osso».

Sem tomar a respiração nem esperar resposta, surpreendera Pélagué com uma torrente de palavras sêccas e vivissimas:

--Como vae, Pélagué Nilovna? E o seu filho? Ainda não acha tempo de o casar? O rapaz já está afinal na devida idade para ter uma mulher. Quando os paes casam cedo os filhos ficam mais tranquillos. O homem que vive em familia tem mais saude, tanto de corpo como de espirito, conserva-se como um cogumello em vinagre. No seu logar, eu já o tinha casado. Os tempos que vão correndo exigem que abramos os olhos no que respeita ao ente humano; ha quem se entregue a uma vida a seu modo, deixando-se arrastar a toda a casta d’acções censuraveis. Já se não vêem os rapazes no templo de Deus; afastam-se dos logares publicos, mas reunem-se ás escondidas pelos cantos, a cochichar. Porque andam elles a cochichar? se me permitte a pergunta. Porque se occultam? O que é que um homem não póde dizer em publico, na taverna, por exemplo? Misterios! Mas o logar dos misterios é a nossa santa egreja apostolica! Todos os outros misterios, realisados a occultas, vem da desorientação do espirito. Muitos bons dias lhe desejo.

E tirou o boné com um gesto pretencioso, agitou-o no ar, e foi-se, deixando Pélagué immersa na perplexidade.

D’outra vez, Maria Korsounova, visinha dos Vlassof, viuva d’um ferreiro, e que vendia comestiveis na fabrica, disse a Pélagué ao encontral-a no mercado:

--Não percas de vista o teu filho, Pélagué!

--Porquê?

--Correm uns boatos a seu respeito... segredou com ares misteriosos. Coisas feias! Diz-se que está organisando uma especie de corporação, no genero dos flagelantes. Chama-se a isto uma seita. Fustigar-se-ão uns aos outros como os flagelantes.

--Não digas mais tolices, Maria!

--Vae ralhar com elle que é quem as faz, e não comigo, que te dou parte do caso! replicou a vendedeira.

Pélagué contou a conversa ao filho, que encolheu os hombros sem responder. Quanto ao russo-menor, desatou a rir, com as suas gargalhadas benevolas.

--As raparigas tambem estão zangadas! Sois todos aptos para vos tornardes bons maridos, trabalhaes bem, não bebeis... e nem olhaes para ellas! Diz-se que da cidade vem visitar-vos pessoas de má reputação...

--Já cá faltava! exclamou Pavel, fazendo uma cara de nojo.

--N’um pantano tudo cheira a pôdre! disse André suspirando. Seria melhor, mãesinha, que explicasse a essas patetinhas o que é o casamento. Talvez não ficassem com a mesma pressa de caír na asneira!

--Ah! exclamou Pélagué. Ellas bem sabem, mas como hão de passar sem casarem?

--Falta-lhes a compreensão, aliás achariam outra coisa em que se occuparem! disse Pavel.

Ella dirigiu o olhar para o rosto irritado do filho, balbuciando:

--É a vós que cabe ensinal-as! Convidem para isso as mais intelligentes.

--Impossivel! respondeu Pavel, seccamente.

--Se tu experimentasses!... arriscou André.

Depois de um silencio, Pavel respondeu:

--Começariam a passear aos pares, alguns acabariam por casar, e prompto!

Pélagué caíu em meditações. A austeridade monacal do filho atordoava-a. Via que elle era obedecido pelos companheiros, até pelos mais velhos, como o russo-menor, mas parecia-lhe que todos o temiam e que não gostavam da frieza dos seus modos.

Uma vez que ella estava na cama e Pavel e André ainda liam, apurou o ouvido ás suas palavras que lhe chegavam atravez do tabique.

--Gosto da Natacha, sabes? disse de repente o russo-menor, a meia voz.

--Sim, sei.

Pavel não respondera logo.

Pélagué ouviu o russo-menor levantar-se, vagaroso, e começar a passear pelo quarto, com os pés descalsos. Assobiou uma triste canção; depois tornou a falar:

--Ella terá notado?...

Pavel ficou silencioso.

--Que te parece? perguntou de novo o companheiro, baixando a voz.

--Tem notado! respondeu Pavel. E é por isso que já não vem.

André voltou a passear, assobiando; até que:

--E se eu lho dissesse?...

--O quê?

--Que...

--Para quê?

Pélagué ouviu André rir.

--Eu cá, sim, parece-me que quando se ama uma rapariga, devemos dizer-lho, se não é o mesmo que nada!...

Pavel fechou o livro com ruido e perguntou:

--E que resultado esperas?

Estiveram calados durante alguns minutos.

--E então? perguntou André.

--É preciso ver claramente o que se quer... disse emfim Pavel com vagar. Supponhamos que ella tambem te ama. Não creio. Mas supponhamos. Casam. É uma união interessante, na verdade, a d’uma rapariga com um operario!... Vem os filhos... serás obrigado a trabalhar sósinho... e muito. A vossa vida será a de toda a gente, luctareis para ter com que vos sustentardes, para terdes casa onde viver com os filhos. E afinal ambos ficareis perdidos para a obra.

Houve um silencio, até que Pavel concluiu:

--Deixa-te d’isso, André! Cala-te. Não a perturbes.

--Mas Nicolao Ivanovitch prégava a necessidade de viver a vida integral, com todas as forças da alma e do corpo... Lembras-te?

--Prégava, mas não para nós. Como atingirias tu a integridade? Não existe para ti. Quando se ama o futuro, temos que renunciar a tudo no presente, a tudo, irmão!

--É custoso! replicou André em voz abafada.

--E como poderia não ser assim? reflecte!

Houve novo silencio. Ouvia-se apenas a pendula do relogio, compassadamente, dividindo o tempo em segundos.

O russo-menor disse:

--Metade do coração ama; a outra odeia... E é isto coração, an?

--E como poderia não ser assim?

Seguiu-se o folhear d’um livro: por certo Pavel voltava á leitura. Pélagué permanecia deitada com os olhos fechados, sem se atrever a fazer nem um movimento. Sentia-se profundamente apiedada de André, mas ainda mais do seu filho. Dizia comsigo: «Meu querido filho... meu martyr! meu sacrificado!»

De subito, André perguntou:

--Devo então calar-me, não é isso?

--É o mais honesto, André...

--Bem! entrarei n’esse caminho! decidiu o outro.

Mas accrescentou tristemente, decorrido um instante:

--Has de soffrer, Pavel, quando chegar a tua vez.

--Chegou. Já soffro... e cruelmente.

--Tu tambem?

Lá fóra o vento soprava em torno da casa.

--Não tem nenhuma graça isto!... disse André lentamente.

Pélagué metteu a cabeça debaixo da roupa para poder chorar.

Na manhã seguinte, André pareceu-lhe como fisicamente amesquinhado, e sentiu-o mais proximo do seu coração. Como sempre, o filho tinha o porte secco, silencioso, rigido. Até então ella tratava o russo-menor por André Onissimovitch; d’aquelle dia em diante, sem querer, sem dar por tal, disse-lhe:

--Deve concertar as suas botas, meu André, senão tem frio nos pés.

--Hei de comprar outras, quando receber a féria.

Depois desatou a rir e perguntou-lhe de chofre, pondo-lhe no hombro a sua pesada mão:

--Talvez a senhora seja a minha verdadeira mãe, mas que não queira confessal-o, porque me ache muito feio! Será assim?

Sem falar, ella deu-lhe uma pancadinha na mão. Desejaria dizer-lhe palavras carinhosas, mas o coração confrangia-se apiedado, e a sua lingua recusava-se a obedecer-lhe...

IX

No bairro começavam a occupar-se dos socialistas que espalhavam por toda a parte folhas de papel escriptas a tinta azul. Eram papeis que falavam malevolamente dos regulamentos impostos aos operarios, das gréves de Petersburgo e da Russia meridional; exhortavam os trabalhadores a formarem uma liga e a luctarem na defeza dos seus interesses.

As pessoas de certa idade que occupavam bons logares na fabrica, irritavam-se e diziam:

--Seria conveniente dar uma sova mestra n’estes agitadores!

E levavam os papeis aos seus chefes.

Os rapazes, enthusiasmados com taes escriptos, exclamavam ardentemente:

--O que elles dizem é a verdade!

A maioria dos operarios, alquebrados pelo trabalho, indifferentes a tudo, pensavam indolentemente:

--Aquillo não dá nada.

No entanto as folhas volantes interessavam a todos e, quando não appareciam, diziam uns para os outros:

--Hoje não ha; deixaram de publical-as...

Mas quando, á segunda-feira, reappareciam, os operarios de novo se agitavam ruidosamente.

Na fabrica e na taverna eram vistas umas pessoas que ninguem conhecia. Interrogavam, examinavam, farejavam, e impressionavam a todos com a sua prudencia suspeita.

Pélagué sabia que toda aquella agitação era obra do seu filho. Via-os cercarem-no, elle porém não era só, o que tornava o caso menos perigoso. E o orgulho de ter tal filho juntava-se n’ella á anciedade que o futuro lhe inspirava: eram os trabalhos misteriosos do rapaz a misturarem-se como um limpido ribeiro á torrente lamacenta da vida...

Uma tarde, Maria Korsounova bateu á vidraça e, quando Pélagué a entreabriu, a visinha cochichou:

--Que te dizia eu, Pélagué? Prepara-te! Os teus passarinhos acabaram de rir! Esta noite hão de vir fazer uma busca em tua casa, na de Mazine e na de Vessoftchikof.

Não ouviu mais do que as primeiras palavras; as ultimas fundiram-se n’um rumor vago e melancolico.

Os labios espessos de Maria vibravam com rapidez, o seu nariz carnudo dilatava-se, os olhos tornavam-se piscos, e moviam-se vagamente para um e outro lado, como em procura de alguem na rua.

--E olha que eu não sei nada, nada te disse, minha querida, nem mesmo te vi ainda hoje... Percebes?

Desappareceu.

Pélagué fechou a janella e deixou-se caír n’uma cadeira, com a cabeça como vasia, sem forças. Mas a consciencia do perigo que ameaçava o seu filho fêl-a erguer de subito; vestiu-se á pressa, envolveu a cabeça n’um chale e correu a casa de Fédia Mazine, que estava doente. Quando entrou, viu-o sentado junto da janella, a lêr, e como que acalentando com a mão esquerda a direita, cujo pollegar se mantinha afastado dos outros dedos. Ao ouvir a má nova, elle pôz-se logo de pé, empallidecendo.

--Que historia esta!... E eu com um abcesso n’este dedo! resmungou.

--Que devemos fazer? perguntou Pélagué alimpando tremulamente o suor do rosto.

--Espere... não tenha medo! respondeu passando pelos cabellos encaracolados a mão válida.

--Mas se o senhor é o primeiro a ter medo!...

--Eu?

Córou de repente, e disse a sorrir, com embaraço:

--Sim, é verdade, c’os demonios! Precisamos de prevenir o Pavel. Vou mandar-lhe alguem... Volte para casa... Isto não ha de ser nada. Então! ninguem ha de bater-nos!

Apenas chegou a casa, Pélagué reuniu em monte os livros, metteu-os debaixo do braço e pôz-se á busca de um canto onde occultal-os. Olhou para o fogão, para o forno, para o canudo do samovar e até para o barril cheio d’agua. Dizia comsigo que Pavel largaria d’ali a pouco o trabalho e voltaria para casa; elle porem demorava-se. Por fim, vencida de cansaço, sentou-se n’um banco da cosinha, escondeu os livros debaixo da saia e ficou immovel até que apparecessem o filho e André.

--Já sabem?! disse sem se levantar, apenas os viu.

--Já sabemos! respondeu Pavel com sorriso calmo. Tens medo?

--Tenho, muito!

--Não deves ter medo. Não serviria de nada. Nem sequer preparaste o samovar?!

Ella ergueu-se, e, mostrando os livros, explicou, embaraçadamente:

--Era por causa delles...

O russo-menor e Pavel desataram a rir, o que a tranquillisou em parte. Depois, o filho pegou em alguns dos volumes e saíu para ir escondel-os no pateo; André dispoz-se a accender o samovar, e foi dizendo:

--Nada ha terrivel n’isto; o que faz envergonhar uma pessoa é pensar que haja quem se occupe d’estas coisas. Hão de vir por ahi uns homens vestidos de cinzento, com um sabre á cinta, esporas nos calcanhares, e rebuscarão por toda a parte. Espreitam para debaixo das camas, e do fogão; se ha adega, descem á adega; se ha sotão, sobem ao sotão. As teias d’aranha caem-lhes nos focinhos, e elles espinoteiam. Enfadam-se, envergonham-se, e por isto fingem-se muito maos e mostram-se furiosos contra a gente. O seu emprego é porco, e elles bem o sabem. Uma vez, foram dar busca á minha casa, não encontraram coisa alguma e... elles ahi vão! D’outra vez, levaram-me comsigo. Metteram-me depois na cadeia, onde estive quatro mezes. De tempos a tempos, iam buscar-me e faziam-me atravessar as ruas no meio de uma escolta de soldados. Perguntavam-me toda a casta de coisas. Não são creaturas intelligentes, não sabem falar com criterio. Depois diziam aos soldados que me levassem outra vez para a cadeia. E aqui está como fazem de nós gato sapato. Emfim, teem que ganhar os seus ordenados!... Acabaram por pôr-me na rua. E prompto!

--Que maneira de falar, meu André! exclamou Pélagué mal-disposta.

Ajoelhado em frente do samovar, o russo-menor soprava com toda a força pelo canudo; levantou a cabeça, mostrando a cara avermelhada pelo esforço e perguntou alisando com as duas mãos o bigode:

--Como é então que eu falo?

--Como se nunca o tivessem offendido.

Elle ergueu-se, approximou-se de Pélagué, e, tendo abanado a cabeça, disse, sorrindo:

--Ha por acaso alguem n’este mundo que não tenha sido offendido? É que tanto me ultrajaram já, que me cansei de encolerisar-me. Que fazer, se os mais não podem proceder d’outra maneira? Os ultrages incommodam-me muito, impedem-me de realisar a minha obra... mas não os podemos evitar, e, se pensamos n’isso, perdemos o nosso tempo. A vida é assim! D’antes zangava-me contra essa gente; depois, quando me veio a reflexão, vi que todos elles tinham o coração despedaçado. Cada qual tem medo de ser o primeiro a atacar. A vida é assim, mãesinha!

As palavras soltavam-se-lhe tranquillamente e faziam extinguir-se a anciedade de Pélagué. Os olhos polpudos d’elle sorriam, luminosos e tristes; todo o seu corpo era flexivel, elastico, embora como desengonçado.

Ella suspirou e disse com calor:

--Deus o faça feliz, meu André!

O russo-menor voltou para o samovar, ajoelhou-se outra vez e murmurou:

--Se me derem a felicidade, não a recusarei; mas não a peço e nunca irei buscal-a.

E pôz-se a assobiar.

Pavel voltou do pateo.

--Não encontrarão coisa alguma! affirmou, convencido.

Começou a lavar-se. Depois accrescentou, limpando cuidadosamente as mãos:

--Se lhes mostrar que tem medo, mamã, dirão que alguma coisa ha para despertar desconfiança. E nós nada fizemos ainda... nada! Bem o sabe, nada queremos que seja mao; a verdade e a justiça estão do nosso lado, trabalharemos por ellas toda a vida: eis o nosso crime! Porque havemos de tremer?

--Terei coragem, Pavel! prometteu.

Mas logo disse, angustiada:

--Se ao menos «elles» viessem depressa!

«Elles» porem não vieram n’aquella noite.

No dia seguinte, prevendo que Pavel e André iriam chasquear dos seus terrores, foi a primeira a rir-se de si mesma.

X

«Elles» chegaram quando menos os esperavam, quasi um mez depois. Vessoftchikof, André e Pavel estavam reunidos e falavam do seu jornal. Era tarde, perto da meia noite. Pélagué já estava deitada, ia adormecendo e ouvia-lhes vagamente as vozes receosas e em tom baixo. André levantou-se de chofre, atravessou a cosinha nos bicos dos pés e fechou de mansinho a porta apoz elle. No corredor ouviu-se o ruido d’uma celha que tombára. André disse em voz alta:

--Oiçam: é o ruido de esporas, na rua!

Pélagué levantou-se de salto, pegou n’uma saia, tremula; mas Pavel appareceu no limiar e disse-lhe tranquillamente:

--Fique deitada... Não está bôa...

Ouviu-se depois um deslisar furtivo sob o telheiro.

Pavel approximou-se da porta, e batendo nella com a mão, perguntou:

--Quem está ahi?

Rapido como um relampago, um corpo d’homem alto surgiu entre os umbraes; e outro ainda. Os dois guardas repelliram o rapaz, puxando-o depois para entre elles. Uma voz grave e irritada disse:

--Não é quem esperavas, un?

Quem falava era um official ainda novo, alto e magro, de bigode preto. Fédiakine, agente da policia do bairro, dirigiu-se para a cama de Pélagué; levando a mão ao boné, em continencia, indicou com a outra a mulher, dizendo com um olhar terrivel:

--A mãe é esta, meu Senhor!

Depois, apontando para Pavel:

--E o filho é aquelle!

--Pavel Vlassof? perguntou o official, franzindo os olhos.

O rapaz respondeu affirmativamente com a cabeça.

Passando a mão pelo bigode, o official informou:

--Venho fazer uma busca em tua casa... A velha que se levante! Quem está ali?

E, tendo olhado para o quarto, entrou n’elle a passos largos.

Ouviram-no perguntar:

--O seu nome?

Outros dois personagens appareceram ainda: o velho fundidor Tvériakof e o seu inquilino, o fogueiro Rybine, um homem de cabelleira negra e de bom porte. Tinham sido trazidos pela policia como testemunhas:

Rybine disse com voz grossa e possante:

--Boa noite, Pélagué!

Ella vestia-se, e, para se dar coragem, murmurava:

--Esta agora! Virem de noite!... quando uma pessôa está na cama!...

O quarto parecia pequeno e por elle se espalhara um cheiro activo a graxa. Os dois guardas e o commissario de policia do bairro, Riskine, tiravam da estante os livros com ruido, e empilhavam-nos diante do official. Os outros davam pancadas nas paredes, olhavam para debaixo das cadeiras; um trepou com custo ao cano do fogão. O russo-menor e Vessoftchikof, unidos um ao outro, conservavam-se a um canto; o rosto bexigoso do segundo estava coberto de manchas vermelhas, e os seus olhinhos pardos não podiam desfitar-se do official. André retorcia o bigode, e quando Pélagué entrou no quarto, fez-lhe com a cabeça um movimento amigavel.

Para occultar o terror, mexia-se não de lado, como de costume, mas com o peito deitado para a frente, o que lhe dava um aspecto d’importancia affectada e risivel. Andava ruidosamente e as palpebras tremiam-lhe.

O official ia pegando rapidamente nos livros com as pontas dos dedos brancos e delgados, folheava-os, saccudia-os, e rapidamente atirava-os para o lado. Alguns volumes caíram no chão. Todos estavam callados; não se ouvia mais do que o respirar dos guardas esbofados, o tintilar das suas esporas; de quando em quando um d’elles perguntava:

--Já viste aqui?

Pélagué collocou-se junto do filho, encostada á parede; como elle, cruzou os braços no peito e quiz observar o official. As pernas vacillaram-lhe, um nevoeiro toldava-lhe a vista.

De subito, a voz de Vessoftchikof soltou-se concludente:

--Para que serve deitar os livros ao chão?

Pélagué estremeceu. Tvériakof abanou a cabeça como lhe tivessem batido na nuca; Rybine resmungou e fitou attentamente o audacioso.

O official franziu os olhos e cravou-os no rosto bexigoso e immovel do rapaz... Depois os seus dedos folhearam o livro com mais rapidez.

De quando em quando, os olhos pardos de Vessoftchikof abriam-se tanto que dir-se-ia elle estar soffrendo atrozmente e prestes a gritar, furioso e impotente contra a dôr.

--Soldado! exclamou de subito. Apanha os livros!

Os guardas voltaram-se para elle, e olharam depois para o official. Este levantou a cabeça, e olhando rapidamente de soslaio para o rapaz, ordenou por entre dentes:

--Vá lá, apanhem os livros.

Um dos guardas abaixou-se, e observando furtivamente Vessoftchikof poz-se a apanhar os livros esfarrapados.

--Teria feito melhor estando calado... disse baixinho Pélagué para o filho.

Elle encolheu os hombros. O russo-menor estendeu o pescoço.

--Que cochichar é esse? Façam favor de estar calados! Quem é que lê aqui a Biblia?

--Eu! respondeu Pavel.

--Ah!... E de quem são estes livros?

--Meus.

--Está bem!... commentou o official apoiando-se ás costas da cadeira.

Fez estalar os nós dos seus dedos finos e brancos, estendeu as pernas debaixo da meza, cofiou o bigode, e perguntou a Vessoftchikof:

--És tu que te chamas André Nakhodka?

--Sou eu! respondeu o bexigoso avançando.

O russo-menor deitou-lhe a mão a um hombro e obrigou-o a recuar.

--Enganou-se! o André sou eu.

O official levantou a mão, e ameaçando Vessoftchikof com o dedo indicador erguido:

--Toma cuidado!...

Começou a remexer nos seus papeis.

A noite luminosa e clara olhava indifferentemente pela janella. Alguem ia e vinha em frente da casa e a neve estalava sob os seus passos.

--Já foste perseguido por delictos politicos, Nakhodka? perguntou o official.

--Já: em Rostof e em Saratof... Com a differença de que ali as auctoridades não me tratavam por «tu.»

O official franziu o olho direito, esfregou-o e disse depois, mostrando os dentitos:

--N’esse caso, Nakhodka, conhece talvez... Sim... deve conhecer os scelerados que espalham pela fabrica folhetos e proclamações prohibidas?...

O russo-menor teve um estremecimento, ia dizer o que quer que fosse com um sorriso aberto, quando se ouviu de novo a excitante voz de Vessoftchikof:

--É a primeira vez que vemos scelerados!

Houve um instante de silencio.

O rosto de Pélagué tornou-se pálido até na cicatriz, emquanto o sobrolho direito lhe era repuxado para cima. A barba negra de Rybine entrou de tremer de uma maneira estupenda; baixou a cabeça e passou a mão vagarosamente pelo bigode.

--Ponham fóra d’aqui essa besta! ordenou o official.

Dois guardas agarraram o rapaz por debaixo dos braços e arrastaram-no para a cosinha. Quando lá chegou, conseguiu parar, e apegando-se ao chão com toda a força de que os seus pés eram susceptiveis, gritou:

--Esperem! Quero pôr a minha capa!

O commissario de policia, que estivera a rebuscar no pateo, appareceu dizendo:

--Nada encontrámos. Vimos todos os cantos.

--Está claro! exclamou o official ironicamente. Já o esperava! Estamos a contas com homens já muito experientes.

Pélagué ouviu aquella voz fraca, tremula e imperiosa; e ao observar aquelle rosto amarellento sentia estar ali um inimigo, um inimigo implacavel, com o coração cheio de desprezo pelo povo. D’antes poucas pessoas assim ella tinha visto, e nos ultimos annos chegára a esquecer-se de que ellas existiam.

--É a estes que nós causamos inquietações!... pensava.

--Senhor André Onissimof Nakhodha, filho de pae incognito, está preso!

--Porquê? perguntou tranquillo.

--Depois lhe direi! respondeu o official com malevola delicadeza.

E voltando-se para Pélagué, berrou-lhe:

--Sabes ler e escrever?

--Não! interveiu Pavel.

--Não falo comtigo! disse o official com severidade. Responde, velha, sabes ler e escrever?

Invadida de um sentimento de instinctivo odio contra aquelle homem, Pélagué aproximou-se de súbito, muito trémula, como se tivesse caído n’um rio gelado; a cicatriz fez-se escarlate, e o sobrolho baixou-lhe.

--Não grite! exclamou, estendendo o braço para o official. É ainda novo, não sabe o que seja o soffrimento...

--Socegue, mamã... interrompeu Pavel.

--É melhor uma pessoa abafar o coração e calar-se! aconselhou André.

--Espera, Pavel! exclamou ainda Pélagué, n’um arranco para a meza. Porque é que o sr. anda prendendo a gente?

--Isso não é da sua conta. Cale-se! berrou o official, erguendo-se. Tragam cá o Vessoftchikof.

E pôz-se a ler um papel que collocara á altura do rosto.

Trouxeram o rapaz.

--Tira o boné! disse-lhe o official, interrompendo a leitura.

Rybine approximou-se de Pélagué e dando-lhe um encontrão:

--Não se apoquente, tiasinha!

--Como hei-de eu tirar o boné, se tenho as mãos agarradas?

O official atirou com o auto para cima da meza, dizendo simplesmente:

--Assignem!