Part 6
Empurraram-na. Mas não desanimou, com os hombros e os cotovellos afastava toda a gente e approximava-se do filho, pouco a pouco, impellida pelo desejo de ir ficar a seu lado.
Pavel, depois de haver soltado frases a que costumava dar um sentido profundo, sentiu as guellas apertadas pelo espasmo resultante da grande alegria de combater. Invadiu-o o desejo de entregar-se á força da sua crença, de arrojar áquella gente o seu coração consumido pelo ardente sonho da justiça.
--Companheiros! repetiu, dando a esta palavra todo o enthusiasmo e vigor. Somos nós que construimos as egrejas e as fabricas, que fundimos o dinheiro, que forjamos os grilhões... Somos nós a força viva que nutre e diverte o mundo inteiro, desde que nascemos até á morte...
--Isso! isso! exclamou Rybine.
--Sempre e em toda a parte, somos os primeiros no trabalho, emquanto nos atiram para os ultimos logares na vida. Quem se preoccupa de nós? quem nos quer bem? quem nos considera como homens? Ninguem!
--Ninguem! repetiu uma voz como se fosse um écco.
Senhor de si, Pavel passou a falar com mais simplicidade e mais calmo. A multidão avançava lentamente para elle, como um corpo sombrio de mil cabeças. Olhava para o rapaz com centenas de olhos attentos, respirava as suas palavras. O ruido decrescia.
--Não teremos melhor quinhão emquanto não nos sentirmos solidarios, emquanto não formarmos uma unica familia de amigos, estreitamente ligados pelo mesmo desejo--o de luctarmos pelos nossos direitos.
--Entra no assumpto! disse uma voz perto de Pélagué.
--Não o interrompam! Calem-se! replicaram de varios pontos.
Quasi todas aquellas caras tinham uma expressão de incredulidade soez; poucos olhares estavam fixados em Pavel com gravidade.
--É um socialista, mas não tem nada de tolo! disse um.
--É um revolucionario! accudiu outro.
--Fala com tezura! afirmou um operario, forte e vesgo, dando um empurrão em Pélagué.
--Companheiros! Chegou o momento de resistirmos á força ávida que vive do nosso trabalho; chegou o momento de nos defendermos. Deve cada qual compreender que ninguem virá em nosso auxilio, se não nós mesmos. Um por todos, todos por um--deverá ser a nossa lei, se quizermos vencer o inimigo.
--Elle diz a verdade, irmãos! exclamou Makhotine. Escutem a verdade!
E com um gesto largo, ergueu o punho cerrado.
--É indispensavel mandar chamar o director, immediatamente! continuou Pavel. É preciso perguntar-lhe...
De subito, dir-se-ia que um furacão caíra sobre todo o povo. Toda aquella massa de gente ondeou como o oceano sob uma rajada; dezenas de vozes berraram a um tempo:
--Venha o director!
--Elle que s’explique!
--Vão buscal-o!
--Mandemos-lhe delegados!
--Não!
Tendo conseguido chegar á frente, Pélagué olhava para o filho, sentindo-se dominada por elle. Estava replecta de orgulho: o seu Pavel, no meio dos velhos operarios mais queridos, sendo escutado e apoiado por toda a gente!... Admirava o seu sangue-frio, a sua simplicidade e o seu falar sem fastio e sem pragas, como era o dos outros.
As exclamações, os gritos de revolta, as invectivas choviam como saraivada grossa em telhados de zinco. Pavel encarava na multidão, e parecia procurar o que quer que fosse entre os grupos.
--Delegados!
--Fale o Sizof!
--O Vlassof!
--O Rybine, que tem uns dentes terriveis!
Afinal, escolheram Pavel, Sizof e Rybine para parlamentarios, e iam mandar chamar o director, quando de chofre se ouviram algumas hesitantes exclamações:
--Vem ahi, sem ser chamado...
--O director...
--Ah!... Ah!...
A multidão abriu caminho a um figurão alto, sêcco, de rosto comprido, e barba em bico.
--Com licença! dizia, afastando o povo com um movimento ligeiro, mas sem lhe tocar. Tinha os olhos semi-cerrados, e, como experiente em lidar com os homens, ia observando as fisionomias dos operarios.
Estes inclinavam-se, tiravam o boné, cumprimentando-o. Elle não respondia a estas demonstrações de respeito, semeava o silencio e o constrangimento por onde ia passando; sentia-se já, sob os sorrisos contrafeitos e o tom abafado das palavras, o como arrependimento da creança, conscia de ter feito uma tolice.
O director passou em frente de Pélagué, lançou-lhe um olhar severo e parou junto do montão de ferragem. De cima, alguem estendeu-lhe a mão: não a acceitou. Com um movimento vigoroso e agil, subiu, ficou á frente e perguntou em tom frio e auctoritario:
--Que significa esta reunião? Porque abandonaram o trabalho?
O silencio foi completo por alguns instantes. As cabeças dos operarios balouçavam como espigas. Sizof agitou o boné, encolheu os hombros e baixou a cabeça.
--Respondam! berrou o director.
Pavel abeirou-se a elle e disse-lhe em voz alta, apontando para Sizof e Rybine:
--Nós trez fômos encarregados pelos nossos companheiros de exigir que reconsiderasse na sua resolução relativamente ao desconto do kopeck.
--Porquê? perguntou o director sem olhar para Pavel.
--Porque reputamos injusto este imposto! replicou com voz sonora.
--Portanto, não vêem no meu projecto senão o desejo de explorar os operarios, e não o cuidado de melhorar a sua existencia, não é verdade?
--Exacto!
--E o sr. tambem? perguntou, dirigindo-se a Rybine.
--Somos todos da mesma opinião.
--E o sr.? perguntou ainda, voltando-se para Sizof.
--Eu cá... tambem lhe peço que não nos tire o nosso kopeck.
Depois, baixando outra vez a cabeça, Sizof sorriu contrafeito.
O director passou vagarosamente o olhar pela multidão e encolheu os hombros. Em seguida olhou perscrutadoramente para Pavel, e disse:
--O sr. é, segundo creio, um homem instruido. Não compreende todas as vantagens da minha medida?
Pavel respondeu distinctamente:
--Ninguem deixaria de compreendel-as, se a fabrica exgotasse o pantano á sua custa.
--A fabrica não trata de filantropias! replicou. Ordeno-lhes, a todos, que voltem immediatamente para o trabalho.
E preparou-se para descer, tateando cautelosamente os ferros com a ponta da bota, sem olhar para ninguem.
Ouviu-se um rumor de desapprovação.
--Que é isso? perguntou o director, parando.
Calaram-se todos; apenas, a distancia, replicou uma unica voz:
--Trabalha, tu!
--Se dentro de um quarto d’hora não voltarem para o trabalho, multal-os-ei, a todos! declarou seccamente.
E seguiu o seu caminho por entre a multidão, emquanto atraz d’elle se ia levantando um surdo murmurio. Quanto mais elle se afastava, mais o ruido se tornava intenso.
--Vão lá falar-lhe!
--São então estes os nossos direitos! Estupor de sorte!
Dirigiam-se a Pavel, gritando:
--Olá! jurisconsulto! que devemos fazer agora?
--Emquanto se tratou de falar, falaste; mas elle appareceu e mudaram os ventos!
--Então, Vlassof! O que fazemos?
As perguntas eram cada vez mais insistentes. Pavel respondeu emfim:
--Companheiros, proponho que abandoneis o trabalho até que o director renuncie ao injusto desconto.
Ergueram-se logo frases irritadas:
--Julgas que somos parvos?
--É o que se deve fazer!
--A gréve?!
--Por causa de um kopeck?!
--Pois façamos gréve!
--Vamos todos para o olho da rua!
--E quem trabalharia?
--Encontrariam outros operarios!
--Onde? Traidores?!
NOTAS DE RODAPÉ:
[1] _Kopeck_, moeda de cobre, a centesima parte do rublo. O seu valor approximado é de cinco réis.
XIII
Pavel desceu e collocou-se ao lado da mãe. Em volta delles, todos começaram a falar ruidosamente, a discutir, a agitarem-se, gritando.
--Não se fará a gréve! disse Rybine approximando-se de Pavel: o povo embora seja sovina em se tratando de dinheiro, é muito poltrão. Não encontrarás mais de trezentos que tenham opinião igual á tua. Não se pode revolver semelhante esterco só com uma forquilha.
Pavel ficou silencioso. Perante elle, a multidão com a sua enorme cara negra movia-se e observava-o como se elle lhe tivesse feito uma exigencia. O seu coração pulsava violento. Parecia-lhe que as suas palavras tinham desapparecido, sem deixarem vestigios naquelles homens, taes como gottas de chuva tenue, esparsas em terreno gretado por uma longa estiagem. Uns após outros, os operarios approximaram-se d’elle, felicitaram-no pelo seu discurso, mas duvidavam do exito da gréve, e lamentavam que o povo não compreendesse nem a sua força nem os seus interesses.
O sentimento de desillusão apoderava-se de Pavel, que tambem já não acreditava na sua força. Doía-lhe a cabeça, sentia-se como vasio! D’antes, nos momentos em que elle fantasiava o triunfo da verdade que tão querida lhe era, o enthusiasmo de que se enchia o seu coração dava-lhe vontade de chorar. E agora, tendo exprimido a sua fé diante do povo, apparecera-lhe mais pálida, impotente, incapaz de tocar no que quer que fosse. Accusava-se, a si proprio; tinha a impressão de haver adornado o seu sonho com vestimentas informes, sombrias, e miseras, e que por isto ninguem lhe descobrira a belleza.
Voltou para casa triste e fatigado. A mãe e Sizof seguiam-no.
--Falas bem, dizia Rybine, mas não chegas ao coração. É o que é! Precisa-se lançar a faísca até ao fundo dos corações. Não será pela razão que os captarás. É calçado muito fino e muito apertado para o povo; não lhe serve nos pés. E ainda que servisse, o sapato ficaria acalcanhado em pouco tempo!
Sizof dizia a Pélagué:
--Chegou o momento de nós, os velhos, irmos a caminho do cemiterio! Levanta-se um povo novo. Como temos vivido? Arrastando-nos de joelhos, constantemente curvados para a terra. E hoje não se sabe ao certo se ha consciencia do que se faz ou se o caminho novo é mais errado do que o nosso... Em todo o caso, os de hoje não se parecem comnosco. Vejam lá: os novos falando ao director como de igual para igual!... Ah! se o meu filho fosse vivo!... Até á vista, Pavel Mikhaílovitch... És um bello rapaz, tomas a defesa do povo... Queira Deus que encontres o bom caminho, a bôa saída... Deus queira!
E foi-se.
--Pois! que todos morram! resmungou Rybine. Já agora, não sois homens, sois uma argamassa, bôa apenas para tapar as fendas das paredes! Reparaste, Pavel, nos que mais gritaram para que tu fosses designado como nosso delegado? Eram os que dizem que tu és um revolucionario, um perturbador. Ora ahi tens! Pensaram que serias expulso da fabrica; era isto o que elles queriam.
--Sob o seu ponto de vista, teem razão.
--Os lobos tambem teem as suas razões quando se despedaçam uns aos outros.
Rybine estava rabugento, a voz tremia-lhe.
--Os homens não teem confiança na palavra nua e crua... É preciso mergulhal-a no sangue...
Durante o dia todo, Pavel sentiu-se desgraçado, como se tivesse perdido alguma coisa e presentisse a sua propria perda sem compreender no que ella consistiria.
De noite, quando a mãe já dormia e elle ainda estava lendo na cama, a policia voltou para revolver raivosamente em toda a casa, no pateo e no sotão. O official amarellento portou-se, como da primeira vez, d’uma maneira impliquenta e offensiva, sentindo prazer em melindrar Pavel e a mãe. Assentada a um canto, Pélagué mantinha-se em silencio, com o olhar fixo no rosto do filho. Este tentava occultar a perturbação, mas quando o official ria, os dedos do rapaz tinham movimentos não vulgares; a mãe percebia quanto elle estava soffrendo por não poder responder á letra aos gracejos do officialsito. Sentia-se menos assustada do que na primeira busca, mas era maior o seu odio por aquelles visitantes nouturnos, vestidos de cinzento, de esporas tintilantes.
Pavel conseguiu dizer-lhe baixinho:
--Vão levar-me.
Baixando a cabeça ella respondeu:
--Percebo...
Compreendia: iam mettel-o na cadeia pelas frases que elle dirigira aos operarios. Mas estes tinham-nas apoiado, e todos iriam tomar a defeza de Pavel, que só por pouco tempo ficaria preso.
Tinha vontade de chorar, de abraçar o filho; mas ao seu lado o official observava-a com olhar malevolo, os labios tremiam-lhe assim como o bigode, e Pélagué sentiu que aquelle homem esperava com alegria que ella se desfizesse em lagrimas, em supplicas, em lamentações. Reunindo todas as suas forças, falando o menos possivel, apertou a mão do filho e disse em voz baixa, retendo a respiração:
--Até á vista, Pavel. Levas comtigo tudo que precisas?
--Levo. Não te dê cuidado.
--O Senhor vá comtigo.
Quando o levaram, a mãe deixou-se caír n’um banco e soluçou docemente com as palpebras abaixadas. Encostada á parede, como seu marido fazia outrora, torturada pela angustia e pelo sentimento da sua impotencia em semelhante transe, chorou durante muito tempo, fazendo passar ás lagrimas a dôr do seu coração ferido. Via na sua frente, como se fosse uma mancha immovel, uma fisionomia amarella, de bigode delgado, olhos semi-cerrados, aspecto feliz. No seu peito contorciam-se, como em negro torvelinho, o desespero e a colera contra quem roubava um filho a sua mãe, só porque elle procurava a verdade.
Estava frio: as gottas de chuva batiam nas vidraças, ao longo das paredes deslisava o que quer que fosse; dir-se-ia que nas trevas, silhuetas pardas, de grandes caras sem olhos, e de braços compridos, rondavam, espiando. E as suas esporas tintilavam fracamente.
--Seria melhor que me tivessem levado tambem! pensou.
O apito da fabrica vibrou, na sua ordem de começar o trabalho. N’aquella manhã, foi um apito vago, e hesitante. A porta abriu-se, Rybine entrou. Approximou-se de Pélagué, e limpando as gottas de chuva que se lhe haviam espalhado pela barba:
--Levaram-no?
--Sim. Malditos!
--Bonita coisa! A mim, revistaram-me, rebuscaram tudo... Injuriaram-me... mas afinal não me prenderam. Com que então, levaram o Pavel?! O director deu o signal, a policia obedeceu, e aqui está como se prende um homem! Entendem-se bem uns aos outros, como os gatunos nas feiras. Uns encarregam-se de ordenhar o povo, emquanto outros o seguram pelo focinho.
--Devem tomar a defeza do Pavel! exclamou ella, erguendo-se. Foi por causa de todos que elle se comprometteu.
--Mas quem deve tomar essa defeza?
--Todos vós!
--Que idéa! Não conte com isso! Foram precisos milhares de annos para reunir a sua força. Cravaram-nos um sem numero de pregos no coração... Como seria possivel ajuntarem-nos de subito? Necessitamos primeiro de arrancar os nossos espinhos de ferro... São estes espinhos que impedem os nossos corações de reunirem-se n’uma massa compacta.
E com um risinho, foi-se lentamente. As suas palavras crueis e desesperadas tinham augmentado o desgosto de Pélagué.
--Podem matal-o, tortural-o...
E imaginou o corpo do filho crivado de pancadas, despedaçado, ensanguentado; e, como uma camada d’argila gelada, suffocava-a o medo caído no seu coração. A luz fazia-lhe mal aos olhos.
Não accendeu o fogão, não preparou o jantar, não tomou o chá; só muito tarde, á noite, comeu um pouco de pão. Quando se deitou, reconheceu que nunca na sua vida se sentira tão humilhada, tão isolada, como nua. Nos ultimos annos, acostumara-se a viver na constante espectativa do que quer que fosse importante, feliz. Em torno d’ella, a gente nova movia-se, ruidosa e decidida, dominada pelo seu filho de rosto grave, seu filho, o senhor e o creador d’aquella vida cheia d’inquietação, mas bôa. E n’aquelle momento em que já não o via, tudo tinha desapparecido.
XIV
O dia decorreu lentamente, seguido de uma noite sem somno. O dia seguinte pareceu-lhe ainda mais comprido. Esperava não sabia o quê, mas ninguem veio. Caíu a tarde, depois a noite. A chuva glacial tombava roçando pelas paredes, o vento soprava pela chaminé, o madeiramento da casa rangia. Ouvia-se apenas a melodia melancólica e dolorosa das gottas d’agua caíndo do telhado, como lagrimas. Parecia que toda a casa vacilava e que uma surda angustia gelava o ambiente.
Bateram de manso á vidraça. Pélagué estava acostumada a este signal; não se assustou; estremeceu como se lhe tivessem despertado bondosamente, o coração. Vaga esperança fêl-a levantar-se de prompto. Atirando um chale para os hombros, abriu a porta. Samoílof entrou, seguido d’outra pessoa que occultava a cara na gola erguida da capa; tinha o boné descaído para os olhos.
--Viemos accordal-a? perguntou Samoílof sem mais cumprimentos.
Fóra do costume, o seu ar não era tranquillo.
--Não; eu não estava a dormir.
E olhou inquiridoramente para os recemchegados.
Com um suspiro abafado e profundo, o companheiro de Samoílof tirou o boné e estendeu a Pélagué a mão forte e de dedos grossos.
--Bôa noite, mãesinha! Não me reconheceu? disse-lhe amigavelmente como a um velho conhecimento.
--Ora?! exclamou ella com alegria. Iégor Ivanovitch! o sr.?!
--Eu, sim!
Tinha o cabello comprido como um menino de côro. Illuminava-lhe a fisionomia um sorriso de bondade; os seus olhitos pardos fitavam-se em Pélagué com expressão carinhosa. Assemelhava-se a um samovar no seu corpito redondo, no pescoço grosso e nos braços curtos. A pelle da cara reluzia; no seu peito parecia pesar e rostilhar alguma coisa...
--Vão para aquelle quarto; eu vou vestir-me! propôz ella.
--Temos que dizer-lhe! respondeu Samoílof, preoccupado e olhando-a de soslaio.
Iégor passou para a divisão do lado, dizendo:
--Mãesinha, esta manhã um dos nossos amigos saíu da cadeia, onde esteve trez mezes e onze dias. Viu por lá o russo-menor e Pavel que lhe envia muitas recommendações; o seu filho pede-lhe que não se apoquente por causa d’elle, e manda-lhe dizer que no caminho que elle escolheu, a cadeia é o logar que serve para o descanço; assim o resolveram as nossas auctoridades sempre interessadas pelo nosso bem-estar... Vamos agora ao que importa: Sabe quantas pessoas foram presas hontem?
--Não. Pavel não foi o unico?
--Foi o quadragesimo nono... declarou Iégor tranquillamente. E espera-se que ainda sejam presos uns dez... Entre outros este cavalheiro aqui presente.
--Eu mesmo! disse Samoílof, sombrio.
Pélagué respirava mais facilmente.
--Não está então sosinho!...
Quando acabou de vestir-se, passou ao outro quarto, sorrindo, bem disposta.
--Não os conservarão presos por muito tempo se elles são muitos.
--Diz bem! E se conseguirmos torcer o jogo dos nossos adversarios, não terão adiantado mais do que d’antes. Se deixarmos de propagar agora os nossos folhetos, os patifes da policia notarão o caso, e perceberão que a propaganda era feita pelo Pavel e pelos companheiros, agora seus companheiros na cadeia.
--Como? não percebo...
--Nada mais simples, mãesinha. Ás vezes a gente da policia chega a raciocinar com acerto... Repare: emquanto o Pavel era livre appareciam os folhetos; mettido na cadeia, desappareceram. Logo era elle quem os espalhava.
--Percebo!... murmurou ella tristemente. Que fazer? Ah! Deus do ceo!
A voz de Samoílof veiu da cosinha:
--Diabos me levem! Prenderam quasi todos os nossos! É preciso continuar a trabalhar como d’antes, não só pela nossa causa, mas tambem para salvar os companheiros.
--E ninguem para trabalhar!... suspirou Iégor. Temos folhetos magnificos... Fui eu mesmo que os fiz. Mas como introduzil-os na fabrica? Eu cá não sei:
--Agora, toda a gente é revistada á entrada... explicou Samoílof.
Pélagué adivinhava que lhe queriam alguma coisa.
--Então que fazer? perguntou vivamente.
Samoílof parou e perguntou:
--Pélagué Nilovna, conhece a vendedeira Korsounova?
--Conheço. Porquê?
--Fale-lhe. Talvez que ella se encarregue dos nossos folhetos.
Ella ergueu logo o braço n’um movimento negativo:
--Ah! não! É uma tagarella! Não! Saber-se-ia logo que fui eu... que foi coisa vinda da nossa casa... Não!
E de subito, illuminada por uma idéa repentina, exclamou com alegria:
--Dêem-me os folhetos! Dêem-mos! Eu acharei um meio... Deixem isso por minha conta! Pedirei á Maria que me tome ao seu serviço. Tenho que trabalhar, se quizer comer. Levarei tambem os jantares á fabrica, aos operarios... Deixem isso por minha conta.
Com as mãos unidas no peito, affirmava que saberia proceder sem que a descobrissem, e concluiu com uma exclamação triunfante:
--Ah! Hão de ver que mesmo com Pavel na cadeia, a sua mão os attinge!
Todos trez se sentiam de novo animosos. Iégor sorria, esfregando rapidamente as mãos, dizendo:
--Bravo, mãesinha! Se soubesse como isso lhe fica bem! como é para enthusiasmar!
--Se fôr bem succedida, sentir-me-ei tão feliz na cadeia como se estivesse sentado n’uma cadeira estofada! declarou Samoílof, rindo:
--É um thesouro, mãesinha! exclamou Iégor roufenhamente.
Pélagué sorriu. Era simples: se conseguisse introduzir na fabrica os folhetos, diriam que não era Pavel quem os distribuia. Sentindo-se capaz de desempenhar-se de tal compromisso, Pélagué estremecia jubilosa.
--Quando fôr visitar o Pavel, diga-lhe que elle tem uma boa mãe!
--Hei de vêl-o mesmo antes do dia da visita! prometteu Samoílof, sorrindo.
--Diga-lhe abertamente que hei de fazer quanto fôr necessario. Que elle o fique sabendo!
--E se o Samoílof não fôr preso, como ha de sabel-o o Pavel? perguntou Iégor.
--Paciencia! Temos que nos resignar!
E ambos entraram de rir. Quando ella compreendeu a sua tolice, riu tambem, mas um tanto contrafeita.
--Quando olhamos para os nossos, não vemos bem os que lhe ficam por detraz... murmurou ella, a justificar-se.
--É natural! concordou Iégor. A proposito de Pavel: não se inquiete nem se entristeça. Ha de saír da cadeia ainda melhor do que quando para lá entrou. Por lá descansa-se, ha tempo para adquirir instrucção, o que não nos acontece quando estamos á solta. Estive preso tres vezes, sem grande vontade, mas o meu coração e a minha razão aproveitaram sempre...
--Custa-lhe respirar... disse Pélagué olhando para elle affectuosamente.
--Por motivos especiaes... respondeu levantando um dedo para o ar.
--Portanto, está combinado, mãesinha. Ámanhã trazemos-lhe o que sabe, e outra vez entrará em movimento a roda que aniquila as trevas seculares. Viva a liberdade da palavra, mãesinha! e viva o coração materno! Até ámanhã!
--Até ámanhã! disse tambem Samoílof apertando com força a mão de Pélagué. Eu não posso dizer palavra d’isso tudo á minha mãe.
Quando elles saíram, Pélagué fechou a porta e ajoelhando-se no meio do quarto, pôz-se a resar, ao ruido da chuva. Rezou sem soltar dos labios uma só palavra; era como um pensamento muito longo e intenso; rezou por todos aquelles que Pavel associára á sua vida. Via os passar entre ella e as imagens dos santos; eram simples, tão extraordinariamente approximados uns dos outros, e tão isolados na vida.
Logo muito cedo, foi a casa de Maria Korsounova.
A ruidosa vendedeira, com o fato engordurado como sempre, acolheu-a compassivamente:
--Aborreces-te? perguntou, batendo-lhe com a mão no hombro. Consola-te! Agarraram-no, levaram-no? Grande coisa! Que mal ha n’isso? D’antes mettiam uma pessôa na cadeia, quando roubava; agora é quando se diz a verdade. Pavel disse naturalmente coisas que não se devem dizer. Mas foi para defender os companheiros, e isto toda a gente o percebe. Não tenhas medo. Todos sabem que elle é um bello rapaz... embora não o digam. Eu queria ir a tua casa, mas não tive tempo. Estou sempre a cosinhar, esgótto o meu artigo, e afinal estou certa de que virei a morrer pobre. Os amantes arruinam-me! os sacripantas! Comem! comem!... parecem baratas a devorar um pão. Apenas tenho uns dez rublos, apparece-me um d’esses hereticos e rouba-mos! É isto! Má coisa ser mulher! que estupida vida! É difficil viver só, e ainda mais viver acompanhada!
--Pois olha eu vim pedir-te que me acceites como ajudante... disse Pélagué, pondo um dique á catadupa das palavras.
--O quê?!
Mas quando a sua amiga lhe expoz todo o seu pensamento, meneou a cabeça em signal de approvação.