A Mãe

Part 28

Chapter 283,890 wordsPublic domain

Pélagué olhou então pela janella. Lá fóra, reinava a frialdade d’um luminoso dia d’inverno. Ella, no âmago do coração, sentia tambem uma claridade igual áquella, mas quente. O seu desejo seria falar de tudo; demorada e jovialmente, n’um vago sentimento de gratidão por tudo o que baixára á sua alma, tornando-lha assim bem formada. Sentiu, o que havia muito não lhe succedia, um desejo de rezar. Veiu-lhe então á lembrança um rosto moço e imberbe; na sua memória ecoou uma voz delgada: «É a mãe do Pavel Vlassof...» Scintillavam os meigos olhos joviaes de Sachenka; desenhava-se o negro perfil de Rybine; sorria o rosto valoroso e bronzeado de Pavel; Nicolao piscava os olhos, acanhado. E de repente, todos aquelles rostos amigos foram eclipsados em meio d’um suspiro ligeiro mas de significação profunda; baralharam-se, confundiram-se em uma nuvem transparente e multicolor, que envolvia o coração em um sentimento de paz.

--O Nicolao tinha razão! disse Lioudmila ao regressar ao quarto. Foi preso, não ha duvida possivel! Conforme me recommendou, mandei um rapazito a casa d’elle. Já voltou. Diz que estão lá agentes de polícia escondidos no páteo; que viu um por detraz da porta da rua. Os espiões vigiam ao de redor da casa; o pequeno conhece-os.

--Ah! limitou-se Pélagué a dizer, com um meneio de cabeça. Pobre Nicolao!

--N’estes ultimos tempos, elle fazia muitas prelecções aos operários da cidade; estava desmascarado; era tempo e mais que tempo que desapparecesse! proseguiu Lioudmila em tom sombrio mas sereno. Os companheiros andavam sempre a dizer-lhe que saísse da cidade; elle não quiz dar-lhes ouvidos!... A minha opinião é que, em taes casos, o que se deve não é aconselhar as pessôas, mas obrigal-as!

Á porta appareceu um rapazito de cabello preto, pelle rosada, nariz aquilino e bonitos olhos azues.

--Quer que traga o samovar? perguntou com voz sonora.

--Traz, sim, Sérgio, se fazes favor. É meu discipulo... Não o conhecia?

--Não.

--Tenho-o mandado algumas vezes a casa do Nicolao.

Pélagué, entretanto, achava Lioudmila muito mudada, parecia-lhe mais singela de maneiras, mais compreensivel. Havia nos movimentos graciosos do seu esbelto corpo, belleza e força, a attenuarem o que no rosto pálido tinha de severidade. Com a noite perdida as olheiras haviam-se-lhe cavado mais. Sentia-se-lhe nos modos um esforço continuado, como se na sua alma vibrasse uma corda em demasiada tensão.

O rapaz trouxe o samovar.

--Sérgio, olha a senhora Pélagué Vlassof, a mãe do operário que foi hontem condenado.

A criança inclinou-se em silencio, apertou a mão de Pélagué, tornou a saír e voltou trazendo pão.

Sentou-se tambem á mesa. Emquanto ia servindo o chá, Lioudmila aconselhou Pélagué a não voltar para casa sem que se soubesse quem era a pessôa alvejada pelas deligencias policiaes.

--Talvez seja a senhora mesma... Hão de querer interrogal-a.

--Que me importa! redarguiu ella. Se for prêsa, a desgraça não será grande! Só o que desejava era que o discurso do Pavel estivesse já distribuido...

--Já está composto. Ámanhã teremos exemplares bastantes para a cidade e para os arrabaldes... e tambem para o resto do districto. Conhece a Natacha?

--Ora se conheço!

--Pois é preciso que lhe leve os folhetos.

A criança estava lendo um jornal. Parecia não ouvir o que diziam, mas de quando em quando, erguia os olhos para Pélagué. Esta, quando lhe surpreendia aquelle olhar tão vivo, sentia-se agradavelmente commovida. A joven senhora falou novamente de Nicolao, sem lamentar sequer a sua captura, o que de toda a maneira pareceu a Pélagué naturalissimo. O tempo dir-se-ia passar mais veloz; era perto do meio dia quando terminaram o almoço.

XXIX

De repente ouviu-se bater na porta, rapidamente. Levantou-se a criança e dirigiu interrogador olhar á dona da casa.

--Abre, Sérgio! Quem poderá ser?

Com o maior socego, introduziu a mão na algibeira do vestido e disse á sua hospede:

--Se fôr a polícia, colloque-se ali n’aquelle canto. E tu, Sérgio...

--Bem sei! respondeu a criança, baixando a voz. E saíu.

Pélagué sorria. Não a impressionavam taes preparativos; não tinha o presentimento d’uma desgraça.

Quem entrou afinal foi o doutor. Annunciou logo com precipitação:

--O Nicolao foi preso!... Ah, está por cá, tiasinha?... Não estava em casa quando o levaram?

--Não, senhor; foi elle que me mandou para aqui.

--Hum!... Não me parece que isso lhe seja de grande utilidade... Esta noite, uns rapazes imprimiram com gelatina quinhentos exemplares do discurso do Pavel. O trabalho ficou bom, está bem impresso, lê-se bem. Tencionam distribuil-os pela cidade, esta noite. Não sou d’essa opinião: para a cidade são preferiveis os folhetos impressos; os outros é que devem ser expedidos para toda a parte.

--Eu os vou levar á Natacha! Dê-mos! exclamou Pélagué com vivacidade.

O seu grande desejo era fazer circular o mais depressa possivel o discurso de Pavel; inundar a terra com as palavras de seu filho. E fitava o médico attentamente, com olhar quasi supplicante.

--Não sei se será prudente que a senhora se metta agora n’essa empreza! disse, indeciso. E puxou pelo relógio.--São onze horas e quarenta e trez minutos... O comboio parte ás duas e cinco; póde chegar ao seu destino ás cinco e quinze... Ia chegar de noite, mas não era muito tarde... Além do que, não é isto o essencial...

--Não, não é isso o essencial! repetiu Lioudmila, franzindo o sobrolho.

--Então o que é? perguntou Pélagué, approximando-se d’elles. O essencial é que a distribuição seja bem feita... e eu sei como me hei de haver!

A dona da casa attentou n’ella fixamente e declarou, passando a mão pela testa:

--É perigoso...

--Porquê? exclamou a outra.

--Aqui tem porquê! expôz o doutor com voz precipitada e desigual. Vocemecê desappareceu de casa uma hora antes da prisão do Nicolao. D’aqui a pouco, vae ser vista lá na fabrica, onde é tão conhecida. Logo depois de lá chegar, entram a apparecer os folhetos revolucionarios... Tudo isso são indícios que se lhe vão apertar na garganta como um laço corredio...

--Mas é que não hão de dar por mim! objectou ella com animação crescente. Se fôr presa quando de lá voltar, e me perguntarem onde estive...

Interrompeu-se um momento e proseguiu:

--Sempre hei de achar resposta! Por exemplo: posso ir da fabrica directamente ao arrabalde. Conheço lá um sujeito chamado Sizof. Pois digo que logo em seguida ao julgamento fui para casa do Sizof, por me achar incommodada com o desgosto soffrido... Tambem elle está muito pezaroso: o sobrinho foi condenado juntamente com o Pavel!... Digo que estive todo este tempo em casa d’elle, e elle ha de confirmar o que eu disser... Bem vêem!

E porque os sentisse cederem aos seus argumentos, esforçava-se por convencel-os e falava com crescente calor. Por fim, acquiesceram.

--Que se ha de fazer? Pois vá! concordou o doutor, mas de má vontade.

Lioudmila conservava-se em silencio; passeava pelo quarto, meditativa. O rosto assombreára-se-lhe, as faces haviam-se-lhe cavado; os músculos do pescoço pareciam ter-se distendido, como se a cabeça se tivesse bruscamente tornado mais pesada e tombasse irresistivelmente para o peito.

O forçado consentimento do doutor arrancára a Pélagué profundo suspiro.

--Andam todos a animar-me! disse, sorrindo. Mas os senhores são os primeiros que não se poupam!

--Isso não é assim! replicou o doutor. Poupamo-nos todos; temos o dever de nos poupar. E as nossas censuras nunca serão demasiadas para aquelles que se expõem inutilmente! Por consequencia lá se lhe irão levar os folhetos á estação.

Explicou-lhe o que tinha a fazer e em seguida accrescentou, fitando-a bem de frente:

--O que desejo é que se saia bem! Está satisfeita, não é assim?

E foi-se descontente. Logo que ouviu fechar se a porta, Lioudmila approximou-se de Pélagué.

--A senhora é uma excellente mulher!... Eu compreendo-a...

Travou-lhe depois do braço, e ambas entraram a passear pelo aposento.

--Tambem eu tenho um filho. Tem já doze annos. Mas vive com o pae. Meu marido é procurador substituto; talvez seja já procurador effectivo, não sei... E aquella criança está na sua companhia... Quantas vezes pergunto a mim mesma qual será o seu futuro!...

Teve na voz, desfallecida, uma commoção, e depois proseguiu baixinho, de novo meditativa:

--Se elle está sendo educado por um inimigo figadal d’aquelles que me são queridos, d’aquelles que eu considero como as melhores creaturas da terra!... E assim, meu filho póde vir a ser meu inimigo tambem... Não me é licito trazel-o para a minha companhia, pois que vivo com nome supposto. E ha oito annos já que o vi pela ultima vez!... Quanto tempo! Oito annos!

Ao pé da janella, parou e ficou a olhar para o pálido e desolado céu.

--Se elle vivesse comigo, sentir-me-ia mais forte. Mesmo se morresse, ficaria mais aliviada...

Apóz um instante de silencio, ergueu a voz para explicar:

--Porque então, ficaria sabendo que só estava morto; porque não poderia tornar-se n’um inimigo d’aquillo que é superior ao próprio amor materno, de tudo o que na vida ha mais precioso!...

--Minha querida amiga! murmurou brandamente Pélagué, sentindo o coração confranger-se-lhe de dó.

--A senhora é feliz! proseguiu Lioudmila com um sorriso. É admiravel vêr uma mãe e um filho caminharem lado a lado... É raro!

--Sim, é certo; é delicioso! exclamou Pélagué.

E explicou, baixando a voz, como para confiar um segredo:

--É como se tivessemos uma segunda vida! A senhora, Nicolao, todos, emfim, os que luctam pela verdade, estão comnosco!... E assim, tornamo-nos mais intimos uns dos outros... E eu compreendo-os... não o que dizem, mas tudo o mais, sim, compreendo-o!... Tudo!

--Ah, é assim? exclamou a joven senhora. É assim!...

E logo Pélagué, pousando-lhe a mão no hombro:

--Os nossos filhos vão em marcha pela terra! Eis o que eu compreendo! Vão em marcha pela terra, por toda a terra e em toda a parte caminham para o mesmo fim! Arremessam se ao assalto os melhores corações e os espiritos mais leaes, sem olharem para traz de si, para tudo o que é mau e sinistro. E avançam, avançam... Debeis ou robustos todos dedicam as suas inteiras forças á mesma causa: a justiça! Juraram triunfar da desgraça; armaram-se para aniquílar o infortúnio da humanidade: querem vencer o horror e hão de vencêl-o! «Havemos de accender um novo sol» disse-me um d’elles. E hão de accendêl-o! «Havemos de reunir num só todos os corações despedaçados!» disse outro. E hão de fazel-o!

Ergueu o braço para o ceu:

--Além ha um sol!

E, batendo no peito, concluiu:

--E aqui, outro se ha de accender, mais brilhante que o do ceu, o sol da felicidade humana, que eternamente illuminará a terra inteira e aquelles que a habitam, com a luz do amor de cada creatura por todos e por tudo!

E Pélagué evocava as palavras das orações esquecidas para entusiasmar a sua nova fé e lançava-as do coração como scentelhas:

--Os nossos filhos, caminhando pela senda da razão e da verdade, levam o amor a todas as coisas, criam um novo ceu, accendem o lume sagrado e incorruptivel que brota da alma, do âmago do coração. E é assim que nos é offerecida uma vida nova no apaixonado amor dos nossos filhos pelo mundo inteiro. E quem poderia extinguir este amor? Quem? Existe força superior a esta? Quem poderia vencel-a? Foi a própria terra que a gerou e a vida inteira exige a sua victória... a vida inteira!

Pélagué afastou-se de Lioudmila e sentou-se, offegante, quebrada pela sua commoção. A joven senhora afastou-se tambem de mansinho, com precaução, como se receasse quebrar alguma coisa. No seu passo agil, atravessou o quarto, fixando para longe d’ali o olhar profundo dos seus olhos sem brilho. Parecia ainda mais delgada, mais hirta e mais alta. Tinha na cara chupada e severa uma expressão concentrada, comprimia nervosamente os lábios. O silencio acabára por apaziguar a exaltação de Pélagué. A meia voz, n’um tom de receio, perguntou:

--Talvez eu dissesse coisas que não deveria ter dito.

Lioudmila voltou-se com vivacidade, lançou-lhe um olhar assustado e exclamou:

--Não! é assim mesmo! é assim mesmo!... Mas não falemos mais n’isso! Fiquem as suas palavras taes quaes as pronunciou, sim!

E proseguiu depois, já mais calma:

--É forçoso partir... A estação fica longe d’aqui.

--Sim, vou já partir! Como me sinto contente! Se soubesse!... Levo comigo as palavras do meu filho, as palavras do meu sangue! É como se levasse a minha alma!

Sorria. Mas este sorriso não produziu mais que um pálido reflexo na fisionomia de Lioudmila. Pélagué sentia aquella frieza regelar-lhe a sua própria alegria. Assim, sentiu o desejo súbito de communicar áquella alma severa o seu ardor, abraçar-se com ella, afim de a fazer sentir em unísono com o seu coração de mãe. Tomou a mão de Lioudmila e disse, apertando-lha com fôrça:

--Minha querida! Como é bom saber que ha na vida luz para todos os homens e que, com o tempo, elles hão de acabar por vêl-a, por fundirem n’ella as suas almas e por arderem todos da mesma chamma inextinguivel!

O seu rosto bondoso tremia de entusiasmo; os seus olhos radiantes e as suas sobrancelhas agitavam-se, como para dar azas ao brilho das pupillas. Sentia-se enebriada pela sublimidade dos seus ideaes, em que punha toda a ardencia do coração, tudo o que experimentára, e encerrava nos rijos e limpidos cristaes das palavras illuminadas as idéas que floresciam e desabrochavam mais e mais no seu coração outonal, illuminado pelo sol da fôrça creadora.

--É como se para nós tivesse nascido um novo Deus! Tudo para todos, todos para tudo, a vida inteira em um só, em cada um a vida inteira! E cada um para a vida inteira! É assim que eu compreendo; é para isso que vós todos andaes pela terra, eu bem o vejo! Em verdade, todos sois camaradas, todos sois da mesma familia, porque todos sois os filhos da mesma mãe: a verdade! Foi a verdade que vos gerou e é pela sua fôrça que viveis!

Pélagué retomou alento e continuou, com um gesto largo que parecia abarcar tudo!

--E quando a mim própria pronuncio esta palavra «camaradas» parece-me ouvil-os caminhar. De toda a parte vem em multidão. Oiço um ruido atroador e alegre, como se os sinos de todas as igrejas da terra entrassem a tocar!

Conseguira o que desejava: animára-se o rosto de Lioudmila; os lábios tremeram-lhe; uma apóz outra, rolaram-lhe dos olhos pesados lagrimas crístallinas.

Então, Pélagué tomou-a entre os braços; teve um riso silencioso, meigamente ufana da victória obtida pelo seu coração.

Ao afastarem-se as duas mulheres, Lioudmila fitou Pélagué e perguntou em voz baixa:

--Sabe que é muito agradavel estar na sua companhia?

E a si própria respondeu, rematando:

--Sim, parece que se está no cimo de uma alta montanha, ao nascer da aurora...

XXX

Lá fóra, o ar sêco e glacial fustigava o corpo, irritava a garganta e o nariz; suffocava a respiração. Pélagué parou a certa altura, olhando em torno: perto d’ali, á esquina d’uma rua, estava um cocheiro com um bonné de pello; mais longe, caminhava um homem, todo corcovado, com a cabeça encolhida entre os hombros. Um soldado corria, aos pulos, esfregando as orelhas.

«Provavelmente mandaram-no á loja, a comprar alguma coisa!» pensou ella. Escutava com satisfação o ruído da neve que se lhe quebrava sob os passos. Em breve chegou á estação; o comboio ainda não estava formado; no entretanto, havia já muita gente na sala de espera da terceira classe, enfumaçada e suja. O frio para lá escorraçára os trabalhadores do caminho de ferro; e tambem vinham aquentar-se ali, cocheiros e individuos mal vestidos, sem eira nem leira. Tambem ali se encontravam viajantes: alguns campónios, um negociante gordo, vestido de espessa capa de pelles, um padre com a sua filha, uma rapariguita de rosto pálido, cinco ou seis soldados e alguns burguezes com ares de atarefados. Fumava-se, conversava-se, bebia-se aguardente ou chá. Junto ao bufete, ouviam-se grandes gargalhadas; pairava por cima das cabeças o fumo do tabaco em densas nuvens. Ao abrir-se, a porta chiava, e quando a tornavam a fechar, batia com estrondo e as vidraças resoavam e tremiam. Assaltava violentamente as narinas um cheiro a tabaco e a peixe salgado.

Pélagué sentou-se perto da porta, bem em evidencia, e esperou. Quando entrava alguem, envolvia-a uma lufada d’ar frio; a sensação era agradavel: respirava n’esses momentos a plenos pulmões. Apparecia gente em pesados trajos, carregada de embrulhos; prendiam se desastradamente na porta, praguejavam, atiravam os seus fardos para o chão; depois limpavam da geada a gola e as mangas dos casacões, limpavam as barbas ou os bigodes, resmungando.

Um rapaz, que trazia uma mala amarella, entrou, e depois de olhar rapidamente em torno, foi direito a Pélagué.

--A Moscou? perguntou elle a meia voz.

--Sim! a casa de Tania.

--Ahi tem!

E dito isto, collocou a mala sobre o banco, ao lado d’ella, tirou um cigarro da algibeira, accendeu-o rapidamente e tornou a saír por outra porta, depois de ter erguido levemente o bonné. Pélagué passou a mão pelo coiro frio da mala e encostou-se a ella. Satisfeita, emfim, pôz-se a examinar quem estava. Instantes depois, levantou-se e foi sentar-se n’outro banco, mais próximo da saída. Levava a mala n’uma das mãos com a maior serenidade, de cabeça levantada e fitando as caras que lhe passavam ao alcance da vista.

Um homem vestido d’um casaco curto e com a cabeça enterrada na gola, erguida, deu-lhe um encontrão e afastou-se sem dizer uma palavra, levando simplesmente a mão ao bonné. Pareceu-lhe tel-o já visto. Voltou-se e viu que elle a estava observando. Sentiu-se como trespassada por aquelle olhar claro; a mala entrou a tremer-lhe na mão, como se tivese repentinamente aumentado de peso.

--Onde vi eu aquelle homem? perguntava a si mesma, como para repellir a sensação desagradavel que lhe subia do peito até á garganta e lhe enchia a bocca de amargo travor. Apoderou-se d’ella um desejo irresistivel de se voltar e de olhar mais uma vez para elle: o homem continuava no mesmo logar, firmando-se ora n’um pé, ora no outro e parecia indeciso. Introduzira a mão direita entre os botões do casaco e conservava a outra na algibeira, o que fazia parecer que tinha o hombro direito mais alto do que o esquerdo.

Devagar, Pélagué caminhou até um banco, sentou-se lentamente, com precaução, como se receasse quebrar alguma parte do corpo. A sua memória, despertada por um agudo presentimento de desgraça, evocava dois aspectos d’este homem: o primeiro datava do dia da evasão de Rybine; o outro, da vespera. Lembrava-se ter visto no tribunal, ao lado d’aquelle individuo o agente de polícia a quem fornecera a errada indicação sobre o caminho que Rybine tomára na sua fuga. Tornára-se pois conhecida, andava vigiada, era certo!

--Estarei eu apanhada? perguntou a si mesma. E respondeu, sentindo-se estremecer: «Talvez ainda haja meio... Não, decididamente estou apanhada, não ha nada a fazer...»

Olhou em roda, mas não viu nada suspeito. Uma apóz outra, como scentelhas, surgiam-lhe e apagavam-se-lhe várias idéas dentro do cérebro.

--Deixar a onda?... Ir-me embora?

Mas logo outra scentelha mais viva brilhou: «As palavras do meu filho... atiral-as assim fóra! Deixal-as em semelhantes mãos!»

E chegou a mala mais para si.

«E se eu agarrasse n’ella e deitasse a fugir!...»

Chegava-lhe a parecer não serem seus os próprios pensamentos, que alguem lh’os introduzia no cerebro, á fôrça. Eram como queimaduras a corroerem-lhe dolorosamente a cabeça e o coração, levando-a para longe de si mesma, para longe de Pavel, de tudo o que já fazia parte integrante do seu coração. Sentia que uma fôrça hostil a opprimia obstinadamente, lhe pezava nos hombros e no peito, a aviltava, mergulhando-a em frio terror. Incharam-se-lhe as veias das fontes, subiu-lhe á cabeça intenso calor.

Então, d’um só impulso vigoroso que a ergueu de chofre, suffocou em si todos estes lampejos de tibieza, covardes e astuciosos, ordenando a si própria com autoridade: «Não sejas a vergonha do teu filho!»

Aos seus olhos appareceu então um olhar tímido e desconsolado. Passou-lhe pela memória a imagem de Rybine. Estes poucos segundos de hesitação bastaram para fortalecer n’ella todas as crenças. O coração pulsou-lhe com mais regularidade.

--Que irá acontecer? perguntou a si mesma, olhando em torno.

O espião acabava de chamar um guarda; segredava a este o que quer que fosse, designando-a com o olhar. O guarda observou Pélagué e recuou. Approximou-se outro guarda e pôz-se a escutar o que diziam. Era um velho robusto, grisalho e de comprida barba. Fez um signal com a cabeça ao espião e adiantou-se para o banco em que Pélagué se sentava. O espião desappareceu como por encanto.

O velho caminhava sem pressa alguma, perscrutando attentamente com olhar irritado a fisionomia de Pélagué. Ella encolheu-se toda no fundo do banco.

«Com tanto que não me batam!... Deus permitta que não me batam!»

O guarda parou junto d’ella e, apóz silencio, perguntou com severidade:

--Que estás tu a olhar?

--Nada...

--Está bem... Ladra! Então és velha e andas n’essa vida?!

Com estas palavras julgou Pélagué que recebia uma bofetada. Irritadas e roucas, faziam doer, como se lhe rasgassem as faces e arrancassem os olhos.

--Ladra, eu?! Mentes! gritou com toda a fôrça dos pulmões.

Tudo o que a rodeava lhe parecia mover-se descompassadamente entre o redemoinho da sua indignação; sentia o coração atordoado pela amargura da injuria. Agarrou na mala, que logo se abriu por si.

--Olha! Olhem todos! exclamou, pondo-se em pé e agitando acima da cabeça um maço de proclamações. Atravez dos zumbidos de que tinha cheios os ouvidos, ouvia as exclamações das pessoas que accudiam de todos os lados.

--Que se passa?

--É um agente da polícia secreta...

--Mas que aconteceu?

--Dizem que roubou, aquella mulher...

--Aquella mulher?

--Mas ella protesta.

--Ora adeus! Com aquelle todo tão respeitavel!

--Quem foi que prenderam?

--Eu não sou ladra! repetia ella com voz forte e serenando pouco a pouco com o ver a attitude dos curiosos que a rodeavam em compacto círculo.

--Hontem foram condemnados alguns presos politicos e entre elles o meu filho... O meu filho chama-se Vlassof. Pronunciou um discurso: aqui o teem! Ia leval-o á gente do povo, para que o leia e reflicta nas verdades que elle encerra!

E porque um dos circumstantes, com precaução, tomasse um dos fasciculos que ella tinha na mão, agitou os outros e atirou-os por sobre o ajuntamento.

--Estás livre de receber felicitações pela maneira por que os distribuiste! commentou a medo uma voz.

--Cuidado, que vae acontecer alguma! aconselhou outra voz.

Pélagué via que cada qual tratava de se apoderar dos papeis e de escondel-os nas algibeiras ou no peito. Mais animosa, entrou a tomar maços e maços de dentro da mala e a atiral-os á direita e á esquerda, nas mãos ávidas e ligeiras que se lhe estendiam.

--Sabem porque condemnaram o meu filho e os que com elle estavam? Vou dizer-vol-o! Creiam n’este coração de mãe! Condemnaram-nos porque vos traziam a todos a santa verdade! E hontem mesmo eu vi como essa verdade triunfou!... Ninguem póde luctar contra ella, ninguem!

A multidão, que se conservava muda de assombro, engrossava cada vez mais, cercando Pélagué d’uma cadeia de seres viventes.

--A pobreza, a fome, a doença--eis o que o trabalho nos rende! Tudo é contra nós. De dia para dia, morremos sob o trabalho, soffremos fome e frio, prostrados sempre no lôdo e no ludíbrio; e são outros que se fartam e se divertem á custa do nosso labor!... Como cães presos pela trela, immobilisam-nos na ignorancia; nós nada sabemos e, na nossa covardia, de tudo temos medo! A nossa vida é uma noite, uma noite escura! É um pezadello horrendo!... Pois não é verdade?

--Sim! responderam algumas vozes surdas.

--Fecha-lhe a bôca!

Por detraz do ajuntamento, Pélagué avistou o espião acompanhado por dois guardas. Deu-se pressa em distribuir os últimos maços, mas quando a sua mão chegava mais uma vez á mala, sentiu o contacto de outra mão.