A Mãe

Part 29

Chapter 29938 wordsPublic domain

--Levem tudo! Levem tudo! disse ella, curvando-se. Para transformar esta vida, para libertar todos os homens, para os resuscitar d’entre os mortos, como eu resuscitei, nasceram creaturas filhas de Deus que andam a semear pelo mundo a verdade santa. Operam em segredo, pois, como bem sabem, ninguem póde dizer a verdade, sem que seja logo perseguido, suffocado, atirado para uma enxovia, mutilado! A verdade da existencia e a liberdade são inimigas para todo o sempre irreconciliaveis d’aquelles que nos governam, d’aquelles que nos opprimem. E são crianças, são creaturas purissimas e luminosas que vos annunciam a verdade. Graças a ellas, ella ha de chegar emfim ás nossas miseraveis existencias, ella ha de vir acalentar-nos e confortar-nos; ha de libertar-nos da oppressão das autoridades e de todos os que lhes venderam a alma! Creiam!

--Bravo, velha! gritou um.

Outro entrou a rir.

--Vamos, dispersem! regougaram os guardas, afastando brutalmente a multidão.

O agrupamento recuou, resmungando, impedindo os guardas entre a massa da gente e tolhendo-lhes os movimentos, mesmo sem querer. Sentiam-se dominados por aquella mulher de cabellos grisalhos, olhar de franqueza e modos bondosos. Indifferentes uns aos outros, isolados pela vida, confundiam-se agora em um todo, acalentados pelo ardor d’aquella palavra que muitos esperavam, sem duvida, ha muito tempo. Os que ficavam mais perto de Pélagué permaneciam em silencio. Pélagué sentia-lhes os olhares attentos fitos sobre si e o bafo das respirações.

--Sobe para o banco! gritou-lhe um.

--Vae-te d’aqui, velha!

--Vaes ser suffocada!

--Que insolente!

--Fala depressa, que elles ahi vem!

--Deixem o caminho livre! Vamos, a andar! gritavam outros guardas, chegados n’este comenos.

Já em numero crescido, estes desviavam a multidão com mais violencia ainda; toda aquella gente molestada, agarrava-se a quem lhe ficava próximo.

Parecia a Pélagué ter na frente como que um férvido cachão e que todos estavam prontos a compreendel-a e a acredital-a. O seu desejo era dizer ali, depressa, tudo o que sabia, todos os poderosos pensamentos que lhe subiam harmoniosamente, sem esforço, do âmago do coração; mas faltava-lhe a voz, não lhe saíam do peito mais que sons roucos, entrecortados e trémulos.

--A palavra do meu filho é a palavra pura d’um filho do povo, d’uma alma integra! Pela audacia se reconhecem os que são íntegros; pela verdade, quando ella o exija, sacrificam-se intrepidamente!

Entre o ajuntamento, olhos juvenis fitavam-na, a um tempo com entusiasmo e terror.

Recebeu uma pancada no peito, cambaleou e caíu para cima do banco. Por sobre as cabeças agitavam-se as mãos dos guardas, os quaes agarravam brutalmente os circumstantes pela nuca ou pelos hombros e atiravam-nos para o lado, arrancavam das cabeças os bonnés e arremessavam-nos ao longe. Pélagué sentiu confundirem-se e vacillarem as coisas em frente dos olhos, mas dominou a fadiga e serviu-se ainda da pouca voz que lhe restava.

--Povo, reune as tuas fôrças em uma só fôrça!

Caíu-lhe no pescoço e saccudiu-a a mão enorme e encarniçada d’um guarda.

--Cala-te!

Foi bater com a nuca de encontro á parede. Durante um instante, teve o coração envolvido n’uma névoa de ardente terror, mas este vapor logo se dissipou ao entusiasmo que a aquecia.

--Anda para a frente! disse o guarda.

--...Não ha soffrimento mais amargo que o que dia a dia devora o coração e exaure o peito...

O espião precipitou-se ao encontro d’ella e brandindo o punho em frente da cara da presa, gritou com voz aguda:

--Cala-te, canalha!

Os olhos de Pélagué abriram-se desmedidamente e scintillaram; as maxillas tremiam-lhe. Firmou os pés no lagedo escorregadio e gritou:

--Não se mata uma alma resuscitada!

--Cadella!

Com pequeno impulso, o capitão bateu-lhe no rosto.

--É bem feito para essa velha porca! gritou uma voz.

Uma coisa negra e vermelha cegou por instantes Pélagué; encheu-lhe a bocca o sabor salgado do sangue.

Reanimou a uma explosão d’exclamações:

--Você não tem direito de bater!

--Camaradas!

--Que vem a ser isso?

--Ah, patife!

--Dá-lhe!

--... Não é com sangue que se ha de suffocar a razão!

Empurravam-na pelas costas, pelo pescoço, batiam-lhe na cabeça e no peito; tudo oscillava e se sumia no sombrio turbilhão dos gritos, dos lamentos e dos silvos dos apitos. Alguma coisa espessa e que a ensurdecia lhe penetrava nos ouvidos e lhe enchia a garganta até á suffocação. O solo fugia-lhe debaixo das pernas, que vergavam, o corpo tiritava-lhe sob o aguilhão dos ferimentos; tropega e exausta, Pélagué cambaleava. Mas continuava a distinguir em volta de si numerosos olhares onde brilhava o entusiasmo decidido que ella conhecia bem e que tão querido era ao seu coração. Levaram-na aos encontrões para uma das portas.

Ella poude desembaraçar uma das mãos e agarrou-se ao batente.

--... Nem mesmo sob um mar de sangue a verdade desapparecerá...

Descarregaram-lhe logo uma pancada na mão.

--Só conseguis congregar os ódios, insensatos que sois! E este ódio, este rancor, ha de subverter-vos!...

O guarda agarrou-a pela garganta e entrou a apertar-lh’a cada vez com mais violenta pressão.

N’um estertor, balbuciou:

--Os desgraçados...

Respondeu-lhe alguem com prolongado soluço.

FIM

Notas

Os problemas com a pontuação e a ortografia foram corrigidos.

Página 17: “Esmagar-te-ão. morrerás!” foi substituído por “Esmagar-te-ão. E morrerás!”

Página 19: “Quando casei,” foi substituído por “Quando cresci”

Página 63-64: “trez annos; sado” foi substituído por “trez annos; fui casado”

Página 70: A referencia ao rodapé foi adicionada no texto.

Página 122: “se não, me abraçava” foi substituído por “se não, não me abraçava”

O texto original falta dois parágrafos na página 122, imediatamente antes do capítulo XX. Isso foi mantido na versão digital.

Na versão original, a numeração dos capítulos na segunda parte pula o número XIII. Isso foi mantido na versão digital.

Página 377: “Eu percebo n ” foi substituído por “Eu percebo bem”