Part 27
Fez-se silencio. Todos se haviam posto de pé, com os olhos fitos no velhinho. Sêcco e hirto, assemelhava-se este a um cacete sobre o qual mão invisivel se apoiasse. Os juizes estavam tambem de pé; o syndico do bailiado, com a cabeça pendente no hombro, dirigia o olhar para o tecto; o administrador da communa cruzava os braços no peito; o marechal da nobreza afagava a barba. O juiz com cara de doente, o seu collega barrigudo e o procurador, olhavam todos na direcção dos accusados. E por detraz dos juizes, por cima das suas cabeças, apparecia o czar, de uniforme encarnado.
Um insecto ia-lhe marinhando pela cara, pálida e indifferente; uma teia d’aranha balouçava ao vento.
«são condemnados a deportação para a Sibéria»...
--O degredo! disse Sizof com um suspiro de alivio. Finalmente, já passou, Deus louvado! Muita gente esperava os trabalhos forçados. Isto assim, já não é tão mau, tiasinha; não vale mesmo nada!
--Eu já o adivinhava, disse Pélagué baixinho.
--Assim como assim, agora é certo!... Mas vá lá a gente saber, com uns juizes d’estes!
Voltou-se para os condemnados, a quem faziam já abandonar o pretorio, e disse alto:
--Até á vista, Fédia!... Até á vista, vocês todos! Que Deus os proteja!
Pélagué fez um signal de cabeça a Pavel e aos seus companheiros. A sua vontade era chorar, mas conteve-a uma espécie de vergonha.
XXVII
Ao sair do tribunal, ficou Pélagué admiradissima com vêr que já a noite caíra sobre a cidade, os candieiros das ruas accesos; as estrellas scintillando no céu. Nas circumvisinhanças do palácio da justiça, formavam-se pequenos agrupamentos; na gélida atmosfera, ouvia-se o ruído da neve rangendo sob o andar; vozes de gente nova interpellavam-se mutuamente. Approximou-se de Sizof um homem coberto com um capuz cinzento e perguntou em voz rápida:
--Qual foi a sentença?
--O degredo.
--Para todos elles?
--Para todos...
--Obrigado!
O homem afastou-se.
--Bem vês! disse Sizof á mãe de Pavel. Bem vês como isto os interessa.
De súbito, encontraram-se cercados por uma dúzia de rapazes e raparigas. Entraram a chover as exclamações, que attraíam ainda mais gente para o grupo. Sizof e Pélagué tiveram de parar. Todos queriam conhecer a sentença, saber como se tinham comportado os réus, quem tinha pronunciado discursos e sobre que assunto. E em todas estas perguntas vibrava a mesma nota de curiosidade ávida e sincera.
--É a mãe do Pavel Vlassof! gritou uma voz.
Calaram-se todos á uma.
--Permitta que lhe aperte a mão!
E logo uma mão sólida se lhe apoderou da sua, com vigor. A mesma voz continuou, trémula de entusiasmo:
--O seu filho será para nós todos um nobre exemplo!
--Viva o operariado russo! gritou uma voz vibrante.
--Viva a revolução!
--Morra a autocracia!
Multiplicavam-se os brados, cada vez mais violentos; rebentavam pelo ar, cruzando-se; accudia gente de todos os lados e apinhava-se em torno de Sizof e Pélagué. Os apitos dos policias rasgavam o ar, mas sem conseguirem dominar o borborinho. O velho ria. Quanto a Pélagué, parecia-lhe tudo aquillo um bello sonho. Sorria, apertava centenas de mãos, cumprimentava. Comprimiam-lhe a garganta lagrimas de felicidade; vergavam-lhe as pernas de cansadas, mas o seu coração, transbordando de triumfante alegria, reflectia as suas impressões como o claro espelho da água d’um lago.
Perto d’ella, uma voz clara exclamou em tom enervado:
--Companheiros! amigos! O monstro que devora o povo russo, satisfez hoje mais uma vez os seus appetites!...
--Vamo-nos embora! disse Sizof.
N’esse mesmo instante, appareceu Sachenka. Agarrou Pélagué por um braço e puxou-a para o passeio opposto, aconselhando:
--Venha... A policia póde atirar-se para cima de nós e bater-nos... Ou vão prender-nos... E então? Foi o degredo, não foi? Para a Sibéria?
--Sim, é verdade!...
--E elle que fez? Falou? Eu já sei tudo, afinal... É elle o mais valoroso tambem, é certo! É sensivel e terno, mas sempre se acanha quando tem de manifestar os seus sentimentos. É firme e resoluto como a própria verdade!... É um grande homem, e tudo reside n’elle... tudo! Mas a maior parte das vezes, elle próprio se constrange... com o receio de não se entregar todo elle, d’alma e coração, á causa do povo... Eu sei-o bem!
Estas palavras d’amor, segredadas em um desabafo de paixão, acalmaram Pélagué, reanimando-lhe as desfallecidas forças.
--Quando vae encontrar-se com elle? perguntou á rapariga, em voz baixa e affectuosa, puxando-a muito para si.
Sachenka respondeu, com o olhar fito na sua frente, e com tranquilla decisão:
--Tão depressa encontre quem se encarregue do meu trabalho! Porque em breve me tocará a vez de responder em juizo... Hão de mandar-me tambem para a Sibéria. Direi então que desejo ser deportada para o sitio em que elle estiver...
Por detraz das duas mulheres ouviu-se então a voz de Sizof:
--Faça-lhe os meus cumprimentos!... Chamo-me Sizof. Elle conhece-me: sou tio do Fédia Mazine.
Sachenka parou para se voltar e estender-lhe a mão:
--Eu conheço o Fédia. O meu nome é Sachenka.
--E o seu nome de familia?
Ella lançou-lhe um breve olhar, e respondeu:
--Não tenho familia. Já não tenho pae.
--Morreu?
--Não, está vivo! declarou já excitada.
E alguma coisa obstinada, teimosa, lhe vibrou na voz e transpareceu nas feições. É um proprietario rural, e é chefe do districto. Agora, rouba a gente do campo... e maltrata-a!
--Ah! proferiu Sizof arrastadamente.
E apóz silencio, ajuntou, ao mesmo tempo que examinava a rapariga de soslaio:
--Bem, então, adeus, tiasinha! Eu vou por aqui!... Apparece para tomar chá e cavaquear um pedaço... quando quizeres!... Até mais vêr, minha menina!... A menina é muito severa para com o seu pae!... Está claro que isso é lá comsigo!...
--Se seu filho fôsse um homem inutil, prejudicial aos outros, o senhor dizia-o? exclamou Sachenka, com paixão.
--Dizia, sim, senhora! respondeu o velho, depois de hesitar um momento.
--Por consequencia, a verdade merecer-lhe-ia mais apreço do que o seu filho. Pois a mim merece-me mais apreço do que o meu pae...
O outro abanou a cabeça, e em seguida, suspirando:
--Ah! é astucioso, sim, senhora! Se tem assim resposta para tudo, os velhos não pódem resistir-lhe! Sabe atacar pela certa! Até mais vêr! Desejo-lhe todas as felicidades possiveis... Mas seja mais condescendente com as pessôas sim? Que Deus vá comsigo! Adeus, Pélagué! Se falares com o Pavel, diz-lhe que ouvi o seu discurso... Não percebi tudo... Até me metteu medo em certas occasiões, mas o que elle disse é a verdade!
Ergueu o bonné e desappareceu, sem se apressar, na volta da esquina.
--Deve ser um bom homem! observou Sachenka, seguindo-o com olhar risonho.
Parecia a Pélagué vêr no rosto da sua companheira expressão mais meiga e melhor do que de costume...
Chegadas a casa, sentaram-se no canapé, muito uma á outra. Pélagué referiu-se de novo aos planos de Sachenka. Com as espessas sobrancelhas muito erguidas, pensativa, a outra olhava para distante com os seus grandes olhos de sonho. Lia-se-lhe no pálido rosto uma pacífica concentração d’espírito.
--Mais tarde, quando tiverem filhos, tambem eu para lá irei, para tratar d’elles. E não havemos de viver peor lá do que vivemos aqui... O Pavel ha de encontrar trabalho; é muito habilidoso.
Sachenka olhava agora para ella, perscrutando-lhe os pensamentos. Interrogou:
--Não deseja então ir juntar-se a elle desde já?
Respondeu, com um suspiro:
--Para quê? Nada mais iria fazer-lhe do que causar-lhe incómmodo, caso elle quizesse fugir. E depois, elle não mo consentia...
Murmurou Sachenka:
--Não, com effeito...
--Além d’isso eu tenho que fazer aqui, accrescentou a mãe de Pavel com um tanto de ufania.
--Sim, é verdade! secundou, pensativa, a outra. E sabe trabalhar muito bem...
Mas de repente estremeceu, como se acabasse de libertar-se de um peso qualquer, e logo annunciou com simplicidade, a meia voz:
--Decididamente, elle não se demora na Sibéria... Ha de fugir... É certo!
--Mas, então, que ha de ser feito de si? E a creança, se a tiverem?
--Não sei; veremos. O que eu não quero é que elle viva em cuidados por minha causa. Dou-lhe plena liberdade para fazer o que quizer, em qualquer occasião que seja. Não sou mais do que uma simples correligionaria. Bem sei que me ha de ser terrivelmente custoso deixal-o... mas hei de saber conformar-me... Não quero importunal-o em coisa alguma, isso não!
Sentia Pélagué que Sachenka era capaz de executar o que dizia. Cheia de commiseração por ella, tomou-a nos braços:
--Minha querida... Muito tem que soffrer!...
Sachenka sorriu com meiguice; comprimiu-se toda contra o corpo de Pélagué; subiu-lhe o rubor ás faces.
--Isso ainda vem longe... Mas não julgue que seja um sacrificio penoso para mim. Sei o que faço, sei com o que posso contar, serei feliz se elle se considerar feliz comigo... O meu desejo, o meu dever, é aumentar a sua energia, dar-lhe toda a felicidade que esteja em meu poder, muita felicidade! Amo-o muito... e elle ama-me, que sei eu! Retribuir-nos-emos dos nossos sentimentos, enriquecer-nos-emos mutuamente, tanto quanto pudermos; e, se assim fôr necessario, separar-nos-emos como bons amigos...
Por entre um sorriso de felicidade, a mãe disse lentamente:
--Eu irei juntar-me a vocês ambos... Talvez eu tambem seja exilada...
E por muito tempo as duas mulheres permaneceram estreitamente abraçadas, sem uma palavra, pensando n’aquelle que amavam. O silencio, a tristeza, uma tépida suavidade, as envolviam.
Nicolao chegou n’este comenos, fatigadissimo. Rapidamente, emquanto se despia, foi dizendo:
--Sachenka, vá-se depressa, se não depois talvez já não tenha tempo! Desde esta manhã andam dois espiões a seguir-me tão ás claras que me cheira a mandado de prisão... Tenho um presentimento... Deve-nos ter acontecido alguma infelicidade, onde, ainda não sei... A propósito: ahi tem o discurso do Pavel; foi decidido imprimil-o. Leve-o á Lioudmila, supplique-lhe que o componham o mais breve possivel. O seu Pavel falou muito bem, Pélagué!... Sachenka, tome cuidado com os espiões! Espere, leve tambem estes papeis; dê-os ao doutor, por exemplo.
E ao dizer isto, esfregava vigorosamente uma contra a outra as mãos, que trazia regeladas. Em seguida, foi á mesa, abriu as gavetas, d’onde extraíu varios documentos. Preoccupadissimo e com os cabellos em desalinho, entrou a folheal-os á pressa, rasgou uns, emmaçou outros.
--Olhem que não ha ainda muito tempo que eu puz tudo isto em ordem, e vejam que montão enorme cá tenho outra vez! Demónio!... Talvez fôsse melhor não dormir cá esta noite, Pélagué! Que lhe parece? Não é das melhores coisas ter de assistir a essa comédia, os guardas são capazes de a levar tambem... e é absolutamente necessário que vá por esses campos distribuir o discurso do Pavel...
--Ora adeus! porque é que me haviam de prender? contestou ella. E d’ahi, talvez se engane, talvez não venha ninguem...
Nicolao redargiu em tom de confiança e agitando a mão:
--O meu faro nunca me enganou!... Alem d’isso, vocemecê podia auxiliar a Lioudmila! Vá-se emquanto é tempo ainda...
Na satisfação de ir cooperar na impressão do discurso de seu filho, ella respondeu:
--Pois se assim é, cá me vou. Mas olhe que não é porque tenha medo...
E com admiração de si própria, proferiu estas palavras em voz baixa mas decidida:
--Agora, já não tenho medo de nada!... Deus louvado! já sei tudo o que queria...
--Ás mil maravilhas! exclamou Nicolao, sem a fitar. Ah! diga-me onde está a minha roupa branca e a minha mala. A senhora de tudo tem cuidado com tal carinho, que me vejo de todo incapaz de descobrir o que é minha propriedade pessoal! Eu vou preparar-me. Os polícias é que vão ter uma desagradavel surpresa!
Sachenka ia queimando no fogão os papeis rasgados. Quando os viu de todo consumidos, teve o cuidado de misturar as cinzas com as do combustivel.
--Vá, Sachenka, vá! disse-lhe Nicolao com um aperto de mão. Até á vista! Não se esqueça de me mandar livros, se fôr publicada qualquer coisa de novidade e intensa. Até á vista, cara correligionaria! E trate sobretudo de ter prudencia...
--Julga estar muito tempo na prisão? perguntou Sachenka.
--O demónio que o julgue! Bastante tempo, com certeza... Teem diversos pecadinhos a censurar-me... Pélagué, saia ao mesmo tempo com Sachenka. É mais difficil seguir duas pessôas.
--Bem! concordou ella. Eu já me visto.
Observára Nicolao attentamente, e nada anormal descobrira n’elle, a não ser a preoccupação que lhe velava o olhar bondoso e complacente. Não lhe vira apparentar emoção alguma.
Igualmente attencioso para com todos, affectuoso e metódico, sempre socegado e solitário, levava a mesma existencia, misteriosa no seu fôro íntimo e como que antepondo-se a todas as deligencias alheias. Pélagué estimava-o tal qual elle era, com um amor prudente, que parecia duvidar de si mesmo. E agora experimentava por Nicolao uma compaixão indizivel; mas dominava-a porque sabia que se elle lh’a notasse, havia de commover-se e tornar-se um pouco ridículo, como habitualmente. Não era sob este aspecto que Pélagué o queria vêr.
Já vestida, voltou ao gabinete. Nicolao estava apertando a mão de Sachenka. Dizia-lhe:
--Optimamente! Estou certo de que ha de ser bom para elle, como para si... Um poucochinho de felicidade pessoal nunca causa damno... Mas olhe que não é bom que seja demasiada, para não perder o valor. Está pronta, mãesinha!
Acercou-se d’ella, compondo os óculos.
--Bem! Então, até á vista!... d’aqui a trez, quatro ou seis mezes. É muito tempo!... Que de coisas se podem fazer em seis mezes! Poupe-se, sim? Peço-lh’o. Vá lá! Venha um abraço!
Passou os robustos braços em torno do pescoço de Pélagué e fitando-lhe muito os olhos, disse com um riso muito franco:
--Parece-me que estou apaixonado por si... Não faço senão abraçal-a!
Sem lhe responder, ella beijou-o na testa e nas faces. As mãos tremiam-lhe: deixou-as pender para que elle não o notasse.
--Então, vae partir?... Ás mil maravilhas!... Mas tome cautella, seja prudente! Olhe: mande um rapazito aqui ámanhã pela manhã; a Lioudmila tem um lá em casa. Por elle ficará sabendo o que se tiver passado. Bem, até mais vêr, camaradas! Tudo vae bem!... Que tudo continue bem, é o que se quer!
Pela rua, commentava Sachenka em voz baixa:
--Com aquella mesma simplicidade é capaz de ir para a morte, se fôr preciso... Só com um pouco de pressa, como ainda agora. Quando lhe chegasse a sua hora final, ajustava os óculos, dizia assim: «Ás mil maravilhas!» e morria!
--Amo-o devéras! segredou Pélagué.
--Pois a mim, causa-me espanto! Quanto a amal-o, não! Estimo-o, simplesmente. Acho-o muito sêco, ainda que lhe encontre certa bondade e ás vezes até alguma ternura. Mas não possue em si bastante humanidade... Parece-me que vamos sendo seguidas. Separemo-nos. Não vá a casa da Lioudmila, se desconfiar que a vigiam...
--Bem sei! respondeu ella.
Mas Sachenka insistiu ainda:
--Não vá para casa d’ella... Se tal succeder, venha antes para a minha. Até mais vêr!
Virou-se rápida e voltou pelo mesmo caminho.
A outra gritou-lhe:
--Até á vista!
XXVIII
Minutos depois, aquecia-se Pélagué junto do fogão, no quarto de Lioudmila. Vestida de preto, esta ultima passeava devagar pelo estreito aposento, que enchia com o rugir das suas saias e com a soberania da sua voz autoritária. No fogão, a lenha estralejava e assobiava, aspirando o ar do quarto. Vibrava a voz igual e monótona da dona da casa:
--Os homens são infinitamente mais tôlos do que maus. Não sabem vêr senão o que lhes fica perto, o que teem ao seu alcance immediato!... Ora tudo o que nos fica próximo é mesquinho; só o que se encontra afastado tem valor. Na realidade, seria vantajoso para todos que a vida se tornasse mais facil e as creaturas mais intelligentes... Mas para chegarmos a isso, forçoso é renunciar por emquanto a viver com tranquilidade.
Aqui, estacou de súbito em frente de Pélagué e accrescentou mais baixo, como para desculpar-se:
--Dou-me com tão pouca gente!... Quando alguem vem a minha casa, ponho-me logo a discursar!... É ridículo, não é?
--Ora essa! Porquê?
Diligenciava Pélagué descobrir onde era que Lioudmila imprimia os folhetos, mas não via em torno de si nada extraordinario. No quarto, com trez janellas para a rua, havia um canapé, um armário com livros, uma mesa, cadeiras, uma cama encostada a uma das paredes; n’um dos cantos, o lavatório, n’outro, o fogão; pelas paredes fotografias. Tudo isto com apparencia de novo, sólido e aceado. E n’este conjunto, a figura quasi monástica da dona do aposento era principalmente o que impunha severo aspecto. Presentia-se haver n’aquelle quarto o que quer que fôsse misterioso e occulto.
Olhou depois para as portas: penetrára no quarto por uma d’ellas--a que abria para uma exigua casa de entrada; perto do fogão, havia outra, alta e estreita.
--Vim para tratar de certo negócio... disse ella um tanto confusa, ao ver que Lioudmila a estava observando.
--Já sei. Ninguem vem a minha casa com outro motivo.
Pareceu a Pélagué vibrar na voz da sua interlocutora uma intenção singular; via-lhe um sorrisinho nas delgadas commissuras dos lábios, e as pupilas, baças habitualmente, brilhavam-lhe por detraz dos vidros da luneta. Desviou portanto o olhar e apresentou-lhe o manuscrito com o discurso de Pavel.
--Aqui está. Pedem-lhe que o imprima o mais depressa que possa.
E narrou os preparativos a que Nicolao procedera, prevendo a sua captura.
Sem dizer uma palavra, Lioudmila entalou o papel no cinto e sentou-se n’uma cadeira. Agitavam-se-lhe pelo rosto impassivel os reflexos do lume.
--Quando os polícias vierem a minha casa, faço fogo para cima d’elles! declarou. Tenho o direito de defender-me contra a violencia e o dever de luctar contra ella, visto que instigo tambem os outros a fazel-o!
A vermelhidão das chammas desappareceu-lhe do rosto, o qual voltou a mostrar-se severo e um pouco altivo.
«Deve ser bem trabalhosa a vida que levas»--foi o súbito pensamento que accudiu ao espirito de Pélagué, acompanhado d’um sentimento d’affeição.
Ella pôz-se a lêr o discurso de Pavel, primeiro, sem vontade, depois, curvando-se cada vez mais sobre o papel. Ia atirando rapidamente para o chão as folhas já lidas. Finda a leitura, levantou-se, endireitou o tronco e foi para a outra:
--Está muito bom! Ahi está do que eu gosto! É nitido e claro!
Inclinou a cabeça e reflectiu um instante.
--Não quiz falar-lhe do seu filho: nunca o vi e não me agradam as conversas tristes. Eu sei o que se sente quando vemos um dos nossos ir para o degredo!... Diga-me: é agradavel ter-se um filho como elle?
--Sim, muito agradavel!
--E deve ser coisa terrivel tambem?...
Com um sereno sorriso, Pélagué respondeu:
--Não; agora já não...
Lioudmila alisou com a mão, muito morena, os cabellos penteados em bandós; depois, voltou-se para a janella: palpitava-lhe nas faces uma leve sombra apaixonada.
--Vamos imprimir isso... Quer ajudar-me?
--Certamente!
--Vou compôr o mais depressa possivel. Deite-se; o dia deve-lhe ter sido fatigante. Vê-se que está cansada. Deite-se n’aquella cama, que eu não durmo hoje. Talvez tenha de a accordar de noite, para me auxiliar. Antes de adormecer, apague o candieiro.
Accrescentou duas achas ao lume e saíu pela porta estreita, praticada ao lado do fogão, que tornou a fechar cuidadosamente apóz si.
Pélagué seguira-a com o olhar. E emquanto se despia, pensava maquinalmente na sua hospedeira:
«É um caracter severo... E vê-se que soffre, a pobre senhora!»
O cansaço esvaía-lhe a cabeça; no entretanto, sentia o coração singularmente calmo; no seu espirito, tudo se illuminava com suave e cariciosa luz. Pélagué conhecia já aquella tranquillidade, que segue sempre ás grandes commoções; antigamente, inquietava-a, mas agora, fazia que a sua alma se expandisse, revigorada em forte e puro sentimento. Apagou o candieiro, deitou-se na cama muito fria, encolheu-se, aconchegando a si os cobertores e adormeceu logo em profundo somno.
Quando descerrou os olhos, estava o quarto banhado da claridade gélida e branca d’um desanuviado dia d’inverno. Estendida no canapé, com um livro na mão, Lioudmila fitava-a com uma expressão de ternura que a transfigurava.
--Deus meu! exclamou Pélagué, confundida. Quanto tempo eu dormi! É muito tarde, pois não é?
--Bom dia! respondeu-lhe Lioudmila. Vão dar as dez horas. Levante-se para irmos almoçar.
--Porque não me accordou?
--Tive idéa d’isso; mas a senhora mostrava um sorriso tão bonito, emquanto dormia...
N’um movimento ágil do seu corpo robusto e flexivel, Lioudmila levantou-se, approximou-se do leito, curvou-se sobre o rosto d’ella; e Pélagué poude distinguir nos olhos sem brilho da sua hospedeira alguma coisa familiar, amigavel, compreensivel.
--... que não quiz despertal-a... Era um bello sonho que estava tendo, com certeza...
--Não, senhora; não sonhei com coisa alguma.
--Pois é pena... Mas gostei de vêr aquelle seu sorriso: achei-o tão meigo, tão santo!
E Lioudmila poz-se a rir, um rir aveludado e discreto.
--Entrei a pensar em si, na sua vida... Porque a sua existencia deve ser ardua!
Pélagué contraíu os sobrolhos, pensativa.
--Não sei! respondeu, hesitante. Ha momentos em que me parece que sim... mas não é verdade! Ha tantas coisas... coisas espantosas e graves, que se seguem com tanta rapidez umas ás outras!...
Subia-lhe ao peito a onda de excitação que ella conhecia bem, enchendo-lho d’imagens e de pensamentos. Sentou-se na cama e deu-se pressa em revestir de palavras as suas idéas.
--Tudo o que estamos presenceando caminha para o mesmo fim, como o fogo, quando arde uma casa, tende sempre a subir! Aqui, abre caminho, mais além, brilha intensamente, sempre mais violento, sempre mais luminoso... Ha tanta coisa que custa vêr! Se soubesse!... Essa pobre gente soffre, é incommodada, espiada... Batem-lhes, batem-lhes com crueldade... Elles, então, occultam-se a todas as vistas, passam a viver como frades. Quantas alegrias ha que lhe são defezas!... E é triste assim, a vida!
Lioudmila ergueu com vivacidade a cabeça e fitou Pélagué com profundo olhar.
--Não é de si que está falando! observou em voz baixa.
--De mim!... repetiu ella, emquanto se ia vestindo. E póde alguem collocar-se á parte, quando o nosso coração ama alguma coisa, quando este ou aquelle nos é querido, quando se sente medo e compaixão por todos?... Tudo isto se nos entrechoca na alma, attraída assim para cada um d’esses infelizes... Como podemos collocar-nos á parte? Para nos refugiarmos onde?
Já meio vestida, permaneceu um instante pensativa no meio do quarto. E subitamente, afigurou-se-lhe que já não era ella a mesma creatura que tanto se inquietára e alarmára pela sorte de seu filho; tal personalidade já não existia, tinha-se desapegado e afastado d’ella. Escutou-se então a si própria, no desejo de saber o que se passava no seu íntimo, embora receasse despertar outra vez o seu velho sentimento de anciedade.
--Em que está pensando? perguntou-lhe Lioudmila affectuosamente.
--Nem eu sei!
Calaram-se as duas, olharam uma para a outra e sorriram. Depois, Lioudmila abalou do quarto, murmurando:
--Que estará fazendo o meu samovar?