Part 26
Na sala crescia a animação; começava a nascer uma exaltação batalhadora. O advogado atacava os juizes por todas as fórmas, aguilhoava-lhes as carcomidas epidermes com ditos causticos. Os juizes parecia apertarem-se mais uns contra os outros, incharem e fazerem-se mais corpulentos, para resistirem áquelle chuveiro de piparotes, com toda a massa dos seus corpos amollentados e nullos. Pélagué examinava-os; pareciam intumecer cada vez mais, como se receassem que os botes do advogado lhes fizessem vibrar dentro do peito um eco capaz de lhes perturbar a soberana indifferença.
Pavel pôz-se de pé. Estabeleceu-se súbito silencio.
A mãe inclinou para a frente todo o corpo.
Tranquillamente, Pavel declarou:
--Pertencendo eu a um partido, só reconheço o tribunal d’esse partido. Não falo para defender-me, mas para satisfazer o desejo d’aquelles dos meus companheiros que tambem não quizeram ser defendidos. Vou tentar explicar-lhes o que os senhores não compreenderam. O procurador qualificou a nossa demonstração, sob o estandarte da democracia socialista, de revolta contra as autoridades supremas e falou constantemente de nós como de revoltados contra o czar. Devo declarar, comtudo, que, para nós, não é só o czar a grilheta a que anda amarrado o corpo da nação; o czar não é mais do que o primeiro élo d’essa cadeia, de que jurámos libertar o povo.
Fizera-se mais profundo ainda o silencio, sob o império d’aquella voz varonil. A sala parecia tornar se mais vasta e Pavel afastar-se para longe do auditório, mais luminoso e inspirado. Pélagué foi tomada de uma sensação de frio.
Os juizes agitavam-se pesadamente nas cadeiras, cheios de inquietação. O marechal da nobreza segredou algumas palavras ao juiz de modos indolentes; este abanou a cabeça e falou com o velhinho, a quem o juiz de aspecto doente estava tambem falando ao ouvido, do lado opposto.
O presidente, vacillante na sua poltrona, para a direita e para a esquerda, dirigiu algumas palavras a Pavel, mas a voz sumiu-se-lhe no curso amplo e igual da exposição que o mancebo ia proferindo.
--Somos socialistas. Significa isto que somos inimigos da propriedade particular, que promove a desunião entre os homens, os leva a armar-se uns contra os outros e cria uma rivalidade de interesses irreconciliaveis, que mente quando pretende dissimular ou justificar esta hostilidade e perverte os homens pela mentira, a hypocrisia e o ódio. Somos de opinião que a sociedade, considerando o homem unicamente como um meio de auferir riquezas, é anti-humana e torna se nos declaradamente hostil; não podemos acceitar a sua moral com duas caras, o seu cynismo sem vergonha e a crueldade com que trata as individualidades que lhe são adversas; queremos luctar, e havemos de luctar, contra todas as fórmas de subserviencia fisica e moral do homem, em uso n’esta sociedade, contra todos os métodos de fraccionar a collectividade em proveito da cubiça! Nós, os operários, somos quem pelo nosso trabalho tudo cria, desde as máquinas giganteas até aos brinquedos das crianças. E vêmo-nos privados do direito de luctar pela nossa dignidade de homens; Cada qual arroga-se o direito de nos transformar em instrumentos para attingir o seu fim! Queremos que nos dêem liberdade bastante para que se nos torne possivel, com o tempo, conquistar o poder. Quer-se o poder para o povo!...
Aqui, sorriu Pavel e passou de vagar a mão pelos cabellos; a luz dos seus olhos azues brilhou com fulgor mais intenso.
--Tenha a bondade... Não saia do assunto! disse-lhe o presidente em voz nítida e forte.
Virava-se agora todo para Pavel e fitava-o. Pareceu a Pélagué distinguir-lhe nos olhos, até ali palidos e sem expressão, um brilho cúpido e de maldade.
Todos os juizes tinham as attenções voltadas para o orador; os seus olhos pareciam colar-se-lhe, aderir-lhe fortemente ao corpo, para lhe sugarem o sangue e com elle reanimarem os seus membros exaustos. Pavel, firme e resoluto, estendeu para elles o braço e proseguiu com voz distincta:
--Somos revolucionários e sêl-o-emos emquanto uns só tratarem de opprimir os outros. Havemos de luctar contra a sociedade, cujos interesses os senhores foram mandados que defendessem; a reconciliação só entre nós será possivel quando nós fôrmos vencedores. Porque havemos de ser nós os vencedores, nós, os opprimidos! Os mandatários de todos vós, senhores, não são tão fortes como se julgam. Essas riquezas que accumularam e na defeza das quaes sacrificam milhões de infelizes creaturas, essa força que lhes dá o poder sobre nós, criam entre elles alternativas de hostilidade e arruinam-nos, a elles, fisica e moralmente. A defeza do vosso poderio, senhores, exige uma constante tensão d’espirito; e, na realidade, vós, nossos senhores, sois todos mais escravos do que nós, porque são os vossos espiritos que jazem na oppressão, ao passo que nós só fisicamente somos opprimidos. Não podeis libertar-vos do jugo dos preconceitos e dos habitos, e isto mata-vos moralmente; emquanto a nós, nada nos impede que sejamos intimamente livres! E a nossa consciencia vae tomando vida, vae desenvolvendo se sem cessar; inflamma-se dia a dia e arrasta comsigo os melhores elementos, moralmente sãos, mesmo do próprio meio que é o vosso... E, se não, vêde: já não possuis ninguem que possa lutar em nome do vosso poderio contra a corrente das idéas; esgotastes já todos os argumentos capazes de vos protegerem dos ataques da justiça da história; nada mais podeis criar novo, no dominio da intellectualidade: sois uns estereis de espirito. As nossas idéas, pelo contrário, desenvolvem-se com força crescente, penetram nas massas populares e vão-nas dispondo para a lucta pela liberdade, lucta incarniçada, lucta implacavel! Não podereis travar este movimento, senão usando de crueldade e de cinismo. Mas o cinismo é evidente demais e a crueldade não faz senão irritar o povo. As mãos que hoje empregaes para nos suffocar, hão de ámanhã apertar as nossas mãos em fraterno amplexo. A vossa energia é a energia mecanica produzida pelo açambarcamento do oiro, e é essa energia que vos desune em grupos rivaes, destinados a aniquilarem se mutuamente. Emquanto que a nossa energia é a força viva e sem cessar crescente do sentimento de solidariedade que liga todos os opprimidos. Tudo o que praticaes é criminoso, porque só pensaes em escravisar o homem; o nosso empreendimento, esse, liberta o mundo dos monstros e fantasmas criados pelas vossas mentiras, pela vossa cupidez, pelo vosso ódio! Mas, em breve, a grande massa dos nossos artifices e camponezes ha de ser liberta e ha de criar um mundo livre, harmonioso e immenso. E assim ha de ser!
Calou-se Pavel um instante e depois repetiu ainda com mais força:
--E assim ha de ser!
Os juizes cochichavam, com caretas estranhas, sem desviarem os olhos de Pavel. A mãe pensava de si para comsigo, que aquelles olhares infamavam o corpo vigoroso de seu filho, cuja saúde e fresca mocidade invejavam. Os réus tinham escutado attentos as palavras do seu companheiro. Pálidos ao principio, tinham agora nos olhares uma chamma de alacre contentamento. Pélagué devorára as frases de seu filho; gravavam-se lhe todas profundamente na memória.
O velhinho por diversas vezes interrompeu Pavel, para lhe explicar ninguem saberia dizer o quê, d’uma das occasiões, esboçou até, um sorriso triste. Pavel escutava-o em silencio e logo retomava a palavra com voz severa mas serena. Todas as attenções convergiam para elle. Durou isto muito tempo. Por fim, o presidente gritou algumas palavras, ao mesmo tempo que estendia o braço na direcção do mancebo. Este respondeu em tom levemente ironico:
--Eu vou concluir. Não foi idea minha offender pessoalmente os membros d’este tribunal, bem ao contrário: forçado a assistir a esta comédia a que chamaes uma audiencia, chego a sentir compaixão pelos senhores. A despeito de tudo, os senhores são homens e é sempre para nós uma humilhação ver homens, curvarem-se de tão vil maneira ao serviço da violencia e perderem a tal ponto a consciencia da sua dignidade humana... mesmo quando esses homens se mostram hostis aos nossos intentos...
E sentou-se sem olhar para os juizes.
A mãe conteve a respiração, fitando, anelante, aquelles de quem dependia a sorte de seu filho, e esperou.
André, radiante, apertou vigorosamente a mão de Pavel. Samoílof, Mazine e todos os outros voltaram-se para elle. Pavel sorriu, um tanto constrangido pelo entusiasmo dos seus companheiros e olhando para a bancada em que se encontrava Pélagué, fez-lhe um signal de cabeça, como para perguntar:
--Foi bem, assim?
Ella respondeu-lhe com profundo suspiro de contentamento, fremente, inundada por uma ardente vaga de amor.
--Ahi está! Vae começar o julgamento! segredou-lhe Sizof. O teu filho deixou-os em bonito estado, an?
Ella abanou a cabeça sem responder, satisfeita de ter ouvido o filho falar com tal desassombro e talvez mais satisfeita ainda por elle ter terminado o discurso. Martelava-lhe no cérebro uma idéa fixa:
--Meus filhos! que vae ser de vocês?
O que seu filho dissera não era novo para ella; conhecia bem as suas opiniões; mas, fôra ali, perante aquelle tribunal, que pela primeira vez sentira a força convincente e extraordinaria das suas teorias. Impressionava-a a serenidade do mancebo, e no seu intimo, o discurso de Pavel aliava-se á firme convicção da victoria e dos justos direitos de seu filho, que lhe punham na alma a irradiação d’uma estrella.
XXVI
Julgava ella que os juizes iam discutir severamente com elle, replicar-lhe coléricos, e expôr os seus argumentos.
Mas n’isto, levantou-se André, lançou um olhar de soslaio para o tribunal e começou:
--Senhores defensores.
--Quem o senhor tem na sua presença é o tribunal e não a defeza! gritou-lhe o juiz doente, com força, muito irritado.
Pélagué percebia pela fisionomia de André que o que elle queria era gracejar; o bigode tremia-lhe de riso mal contido, e nos olhos, tinha uma expressão ao mesmo tempo felina e meiga, bem conhecida d’ella. Esfregou vigorosamente a cabeça com as compridas mãos e suspirou.
--Pois é possivel? perguntou, ao mesmo tempo que saccudia a cabeça. Eu julgava que não era assim, que os senhores eram, não juizes, mas unicamente defensores!...
--Queira fazer favor de se referir somente ao assunto principal! intimou o velhinho com seccura.
--O assunto principal? Está bem. Quero pois crêr que os senhores são realmente juizes, isto é: pessoas independentes, leaes...
--O tribunal não precisa da sua opinião!
--Como? Não precisa d’um elogio d’estes!... Hum!... Todavia, eu continúo. Os senhores são homens que não estabelecem differença alguma entre amigos e inimigos, os senhores são inteiramente livres no seu juizo. Assim, teem agora na sua frente dois partidos: um queixa-se de que o roubam e o maltratam; o outro responde que tem o direito de roubar e de maltratar porque traz na mão uma espingarda.
--Tem alguma coisa a dizer concernente ao processo? perguntou o velhinho, alteando a voz e com as mãos a tremer.
Esta irritação satisfazia immenso Pélagué. Mas a fórma de proceder de André não lhe agradava; achava a discordante do discurso de Pavel. Preferia ouvir travar-se uma discussão séria e ponderada.
O russo-menor fitou o velho, sem responder; em seguida, disse com gravidade:
--O processo?... Para que lhe havia eu de falar do processo? O meu companheiro disse-lhes o que os senhores deviam saber já! O resto, outros lho dirão quando chegar o momento opportuno...
O velhinho sobreergueu-se da poltrona e declarou:
--Retiro-lhe a palavra!... Gregorio Samoílof!
O russo-menor apertou com força os dentes e deixou-se caír pesadamente no banco. Ao lado d’elle, Samoílof pôz-se de pé, saccudindo os anneis do cabello.
--O procurador disse que nós eramos uns selvagens, inimigos do progresso...
--Fale só do que diz respeito á sua accusação!
--Mas é justamente o que estou fazendo!... Não deve haver coisa alguma que não interésse á gente honesta... E peço-lhe o obsequio de não me interromper. Assim, pergunto eu aos senhores: qual vem a ser o grau das suas culturas intellectuaes?
--Não estamos aqui para discutir comsigo! Voltemos ao assunto! disse o velho, mostrando rancorosamente os dentes.
Os gracejos de André haviam manifestamente irritado os juizes e como que lhes tinham supprimido o que quer que fôsse das fisionomias. Agora, nos rostos terrosos, appareciam-lhes manchas sanguineas, brilhavam-lhes os olhares com scintillações frias e implacaveis. O discurso de Pavel tambem os havia encolerisado, mas o tom de energia em que fôra dito, reprimira-lhes o rancor e forçára-lhes o respeito. O russo-menor, porém, conseguira quebrar esta contenção e puzera a descoberto o que sob ella se occultava. Com crispações nas fisionomias, os juizes segredavam entre si, tinham gestos mais saccudidos, denunciadores da raiva que lhes ia no íntimo.
--Os senhores educam espiões, pervertem mulheres e donzellas, collocam o homem sério na situação d’um gatuno, d’um assassino, envenenam-no com a aguardente, deixam-no apodrecer nas masmorras!... As guerras internacionaes, a mentira, o deboche, o embrutecimento de todo o paiz--aqui está a vossa civilisação! Sim, somos inimigos de tal civilisação!
--Tenha a bondade!... gritou o velhinho, saccudindo ameaçador o queixo.
Samoílof, rubro, o olhar em fogo, entrou a gritar ainda mais alto do que elle.
--Mas a civilisação que nós amamos e respeitamos é a outra, a que foi criada pelos que vós atirastes para as masmorras ou para os hospitaes de doidos...
--Retiro-lhe a palavra!... Fédia Mazine!
O rapazinho levantou-se de chofre, como uma sovela a saír d’um furo e exclamou com voz saccudida:
--Eu... juro!... Eu bem sei, os senhores vão condemnar-nos!
Suffocou; fez-se branco, só se lhe viam os olhos, muito brilhantes. Estendeu o braço e proseguiu:
--Dou-lhes a minha palavra d’honra! Mandem-me para onde quizerem, que eu hei-de fugir, hei de voltar, hei-de dedicar-me sempre pela causa do povo... pela liberdade da nação... toda a minha vida! Dou-lhes a minha palavra d’honra!
Sizof soltou um gritinho. Toda a assistencia, revolucionada por vaga excitação, se mexia com um ruido surdo e singular. Chorava uma mulher; alguem tossia, suffocando. Os guardas, alternadamente olhavam para os réus com um espanto estupido e para a multidão do público, furiosos. Os juizes agitaram-se; o velho gritou:
--Goussef Yvan!
--Não falo!
--Goussef Vassili!
--Não quero responder!
--Bouckine Fédor!
Loiro e meio descorado, ergueu-se pesadamente e disse com lentidão, meneando a fronte:
--Os senhores deviam envergonhar-se!... Eu, que não passo d’um ignorante, compreendo ainda assim o que deve ser a justiça!
Levantou o braço acima da cabeça e calou-se, com as palpebras semi-cerradas, como se estivesse vendo qualquer coisa muito ao longe.
--Que diz? gritou o velho com attónito exaspero, reclinando-se na poltrona. Olhe que você!...
Boukine deixou-se caír no banco tristemente. Havia nas suas palavras desacompanhadas de significação, alguma coisa immensa e importante, e ao mesmo tempo uma censura ingénua e penalisada. Foi esta a impressão que todos receberam. Os próprios juizes apuraram o ouvido, como para distinguirem um éco mais nitido de tal discurso. Nas bancadas reservadas ao público, tudo se calou; apenas ficou resoando um leve ruído de chôro. Depois sorriu-se o procurador e encolheu os hombros; o marechal da nobreza tossiu; de novo se elevaram susurros que serpenteavam vagamente pela sala.
Pélagué inclinou-se para Sizof e perguntou-lhe:
--Os juizes falarão?
--Não; está tudo terminado. Só falta pronunciar o veredicto.
--E não ha mais nada?
--Não!
Pélagué não podia acreditar. A mãe de Samoílof agitava-se anciosamente, tocando em Pélagué com o cotovello e com o hombro, e perguntando em voz baixa ao marido:
--Mas, como? É possivel?
--Bem vês!
--E o que é que vão fazer ao nosso filho?
--Cala-te! Deixa-me!
--Percebia-se que no público alguma coisa se havia perdido, anniquilado ou transformado. Os olhos desvairados, pestanejavam como se ardente lareira se lhes tivesse incendiado na frente. Embora não compreendessem o grande sentimento que acabava de despontar n’elles tão bruscamente, os curiosos iam, sem dar por isso, fragmentando-o em sensações evidentes, accessiveis e futeis. O irmão de Boukine dizia a meia voz, sem constrangimento algum:
--Perdão! Porque não os deixam falar? O procurador disse tudo o que quiz e durante todo o tempo que quiz!
Perto da bancada estava uma sentinella. O soldado murmurava, agitando o braço:
--Silencio! silencio!
O pae de Samoílof inclinou-se para traz, e, disfarçado com as costas da mulher, continuou a pronunciar em voz surda frases entrecortadas:
--Evidentemente!... Admittindo que elles sejam culpados, o dever do tribunal era deixal-os explicar-se... Contra quem se revoltaram elles? Contra tudo! Eu gostava de compreender, afinal! Porque isto tambem me interessa... De que lado está a verdade? Sim, eu queria compreender... É preciso que os deixem explicar-se!
--Silencio! gritou de novo a sentinella, ameaçando-o com um dedo.
Sizof abanava a cabeça, apouquentado.
Pélagué não perdia de vista os juizes. Notava-lhes a crescente excitação, via-os falar uns com os outros, mas não podia comprehender o que diziam. O susurro frio e escorregadio das suas vozes perpassava-lhe pelo rosto, fazia-lhe tremer nervosamente as faces e provocava-lhe na bôca uma sensação desagradavel. Afigurava-se-lhe que estavam falando todos elles do corpo de seu filho e do dos seus companheiros, d’aquelles corpos robustos, dos seus músculos e dos seus membros cheios de vermelho sangue e de força vivente. Estes corpos deviam excitar n’elles uma inveja impotente e malvada, uma avidez ardente de esgotados e doentes. Falavam com estalidos sêcos dos lábios, com o pezar de não possuirem aquelles músculos, capazes de trabalhar e de enriquecer, de gozar e de criar. Agora, iam aquelles corpos saír da circulação activa da vida, renunciavam a ella, ninguem poderia mais chamar-lhes seus, aproveitar a sua força, nem absorvel-os. E era por isso que inspiravam aos velhos magistrados a animosidade vingativa e desconsolada das feras já sem forças que teem diante de si a carne fresca, mas já não dispõem da energia sufficiente para d’ella se apoderarem.
E quanto mais Pélagué olhava para elles, mais esta idéa grosseira e singular se accentuava no seu espirito. Parecia-lhe que estavam patenteando claramente a sua rapacidade e a sua sanha de esfomeados, capazes, em tempos idos, de comer muito. Ella, a mulher e mãe, para a qual o corpo do filho tinha sido sempre e a despeito de tudo, mais querido do que a própria alma, sentia-se horrorisada com os olhares sem viço que perpassavam pelo rosto d’elle, tateando o peito, os hombros, os braços, roçando-se pela ardente pelle, como em busca de uma possibilidade de se reanimarem, de requentarem o sangue das suas veias endurecidas, dos seus músculos gastos de homens semi-mortos. Parecia a Pélagué que o seu filho sentia aquelles contactos frios e que estremecia quando para ella olhava.
O mancebo fixava em sua mãe os olhos um tanto fatigados, mas calmos e affectuosos. Por momentos, sorria-lhe e fazia-lhe um signal de cabeça.
--Em breve estarei em liberdade! dizia este sorriso, que era uma caricia para o coração de Pélagué.
N’este comenos, levantaram-se os juizes todos ao mesmo tempo. Pélagué seguiu-lhes instinctivamente os movimentos.
--Vão-se embora! disse Sizof.
--Para os condemnar! perguntou ella.
--Sim...
Dissipára-se de súbito a tensão de espirito em que até ali estivera; pesado cansaço lhe invadiu o corpo; aljofraram-lhe a fronte gotas de suor. Um sentimento de cruel decepção e de humilhação impotente brotou no seu coração e depressa se transformou em profundo desprezo pelos juizes e pelo seu julgamento. Assaltou-a violenta dôr nas fontes; esfregou a testa com a palma da mão e olhou em torno: os parentes dos réus tinham-se approximado do gradeamento, a sala enchia-se de um ruído surdo de conversações. Ella caminhou tambem para o filho, apertou-lhe a mão e entrou a chorar, tomada a um tempo, de desgosto e de contentamento. Pavel dirigiu-lhe algumas palavras de confôrto. André ria e gracejava.
Mais por hábito do que por desgosto, todas as mulheres choravam. O que se sentia não era aquella dôr que atordoa como estúpido golpe descarregado bruscamente na cabeça: tinha-se a consciencia da triste necessidade de abandonar os filhos, mas esta magua confundia-se, sumia-se nas impressões que eram filhas da opportunidade. Os paes olhavam para os filhos com uma expressão em que a desconfiança que lhes era inspirada pela mocidade e pela consciencia da propria superioridade, se confundia singularmente com uma espécie de respeito por elles. Ao mesmo tempo que a si próprios perguntavam com tristeza como passariam elles agora a viver, os velhos olhavam com curiosidade para aquella nova geração que discutia audaciosamente a possibilidade d’uma existencia differente d’aquella e melhor. Não sabiam exprimir o que sentiam, pois faltava-lhes para tanto o hábito; as palavras corriam abundantes, das bôcas, mas não se falava mais do que de coisas vulgares, de fatos e roupas, de cuidados necessarios; aconselhavam até os condemnados a não irritarem inutilmente os superiores.
--Todos andamos cansados d’isto! disse Samoílof ao filho. Nós tanto como elles!
O mais velho dos Boukine agitava a mãe e exortava o mais novo:
--Ahi está a justiça d’essa gente! Custa acceital-a!
O rapaz respondeu:
--Has de tratar bem do estorninho, sim?... Gostava tanto d’elle!
--Ainda ha de ser vivo quando voltares!
Sizof tomára pela mão o sobrinho e dizia com vagar:
--Então foi assim que tu fizeste, Fédia? Foi assim?
Fédia curvou-se para elle e segredou-lhe o que quer que fôsse ao ouvido, com um riso de esperteza. O soldado que lhes estava próximo sorriu tambem, mas logo retomou os seus ares de gravidade e resmungou.
Pélagué limitava-se, como os outros, a conversar ácerca de arranjos de roupas e cuidados de saúde, mas no coração reprimia mil interrogações relativas a Pavel, a Sachenka e a si própria. E sob as suas palavras banaes, lentamente se desenvolvia o sentimento de immenso amor que dedicava ao filho, o ardente desejo de o captivar, de viver no seu coração. A espectativa do acontecimento terrivel desapparecera, deixando unicamente, apóz si, um arrepio desagradavel, quando se lembrava dos juizes, agora ausentes.
Sentia nascer em si uma intensa alegria luminosa, mas não a compreendia e isto trazia-a perturbada.
Viu que o russo-menor falava muito com todos os que o rodeavam, e entendendo que elle, mais do que Pavel, precisava de confôrto, disse-lhe:
--Não me agradou a audiencia!
--Porquê, mãesinha?! exclamou André. É um moinho velho, mas vae sempre moendo!
--É uma coisa, afinal, que não mette medo algum, e é incompreensivel! Nem ao menos se procura averiguar a verdade! disse ella hesitante.
--Oh! Era isso o que queria? exclamou André. Mas então imagina que alguem se importa aqui com a verdade?
Pélagué suspirou.
--Eu imaginava que isto fôsse coisa muito séria... mais séria ainda do que na igreja!... Que se celebrava o culto da verdade!...
--Querida mãe: onde a verdade é respeitada sabemol-o nós! disse Pavel em voz baixa e no tom de quem perguntasse sem affirmar.
--E a mãesinha tambem o sabe! acrescentou o russo-menor.
--O tribunal!
Correram todos para os seus logares.
Com uma das mãos apoiada na mesa, o presidente occultou a cara por detraz d’um papel e pôz-se a ler com uma voz debil qual zumbido:
«O Tribunal... depois de ter deliberado...»
--É a condemnação! disse Sizof, apurando o ouvido.