Part 25
--E é que não teem medo! ouviu ella Sizof segredar-lhe, ao passo que á sua direita a mãe de Samoílof se desatava em soluços.
--Silencio! gritou uma voz severa.
--Tenho a prevenil-os... disse o velho.
Pavel e André tinham ficado lado a lado; a seguir, estavam Mazine, Samoílof e os irmãos Goussef, todos na primeira bancada. André cortára a barba; mas o bigode crescera-lhe tanto, que as guias pendiam e reuniam-se, assemelhando-lhe a redonda cabeça á d’um gato. Trazia impressa na fisionomia uma expressão nova: nos vincos aos cantos da bôca, havia alguma coisa penetrante, irónica, e o olhar tornára-se-lhe sombrio. Mazine tinha agora o lábio superior sombreado por dois traços escuros, e o seu rosto engordára; o Samoílof tinha os mesmos cabellos, tão encaracolados como d’antes.
O Ivan Goussef continuava a mostrar o mesmo amplo sorriso.
--Fédia! Fédia! suspirou Sizof, baixando a cabeça.
Pélagué respirava agora melhor. Apurava como podia, o ouvido ás perguntas indistinctas do velho, o qual interrogava os reus sem olhar para elles, com a cabeça entalada entre a gola da farda. Escutava as respostas breves e calmas que seu filho ia dando. Queria-lhe parecer que aquelle presidente e aquelles juizes não podiam ser más e crueis pessoas. Examinava-lhes pormenorisadamente as fisionomias, tentando perscrutar-lhes os sentimentos, e assomava-lhe ao coração uma nova alvorada de esperança.
Indifferente, o homem da cara de porcelana estava lendo um documento; a sua voz circumspecta enchia a sala d’um tedio que causava somnolencias no publico. Em voz baixa e animadamente, quatro advogados conversavam com os réus; tinham todos uma gesticulação saccudida e veemente e faziam pensar em grandes passarolos negros.
Á direita do velho, um juiz ventrudo, de olhinhos sumidos entre as papadas da gordura, enchia completamente toda a capacidade da poltrona; á esquerda, estava um homem alquebrado, de bigode vermelho, de rosto esmaecido. Reclinava com lassidão a cabeça no espaldar, de palpebras semi-cerradas, meditando. O procurador tambem apparentava cansaço, enfado e indifferença. Por detraz dos juizes, occupavam poltronas varios individuos: um robusto e esbelto homem estava acariciando uma das faces, com ares de grande concentração; o marechal da nobreza, já grisalho, de rosto rubicundo e comprida barba, divagava o olhar dos seus grandes olhos simplorios; o syndico do bailiado, a quem o enorme abdomen visivelmente incommodava, diligenciava disfarçal-o sob uma aba da blusa, que escorregava de contínuo.
--Aqui não ha criminosos nem juizes! proclamou Pavel com voz firme. Aqui só ha captivos e vencedores!
Fez-se silencio. Durante alguns segundos, o ouvido de Pélagué nada distinguiu além do ranger precipitado e estridente das pennas sobre o papel e das palpitações do seu proprio coração.
O presidente do tribunal parecia que estava escutando ou esperando alguma coisa. Os juizes seus collegas agitaram-se nas poltronas. Elle então disse:
--Sim!... André Nakhodka!... Reconhece...
Ouviram-se vozes segredar:
--Levanta-te!... Levante-se!
André poz-se de pé com lentidão e ficou a olhar para o velho, de soslaio, emquanto frisava e desfrisava o bigode.
--De que posso eu reconhecer-me culpado? disse, com um encolher de hombros, o russo-menor, na sua voz cantante e arrastada. Eu não matei, nem roubei: simplesmente protesto contra esta organisação da sociedade, que obriga os homens a explorarem-se e a assassinarem-se uns aos outros.
--Limite-se a responder sim ou não! disse o velho com esforço mas perceptivelmente.
Pélagué sentia que por detraz d’ella susurrava certa agitação; todos falavam baixinho e mexiam-se muito nas bancadas, como para desannuviarem os espiritos da teia d’aranha tecida pelo discurso enfadonho do homem de porcelana.
--Vês como elles respondem? segredou Sizof para a mãe de Pavel.
--Sim!
--Fédia Mazine, responda!
--Não quero! declarou Fédia peremptoriamente, pondo-se de pé.
Estava muito córado pela commoção e com os olhos brilhantes. Sizof soltou um «Ah!» de mal contido espanto.
--Não quiz defensor, portanto nada direi. Considero o julgamento d’este tribunal como illegitimo!... Quem são os senhores? Foi o povo quem lhes deu o direito de julgar-nos? Não, não foi o povo! Logo, não os conheço!
Tornou a sentar-se e occultou o rosto rubro, por detraz do hombro de André.
O juiz gordo curvou-se para o presidente, cochichando. O juiz de rosto esmaecido lançou uma olhadela obliqua para os réus e, com o lapis, passou um traço por cima do que quer que fôsse, escripto no papel que tinha em frente. O syndico do bailiado abanou a cabeça e removeu os pés do sitio em que os tinha, com precaução. O marechal da nobreza conversava com o procurador; o administrador da communa prestava attento ouvido ao que diziam e sorria, esfregando sempre uma das faces.
De novo se ouviu a voz triste e sumida do presidente.
Os quatro advogados escutavam attentos; os réus conversavam em segredo uns com os outros; Fédia continuava a occultar-se ás vistas, sorrindo, muito compromettido.
--Então, não viste aquillo?... Falou melhor que todos os outros! murmurou Sizof ao ouvido da sua visinha. Ah, aquelle brejeiro!
Pélagué sorriu sem o compreender. Tudo o que se estava passando não era para ella mais do que o prologo inutil e forçado d’alguma coisa terrivel, que, ao surgir, havia de esmagar todo o auditório sob gélido terror. Comtudo, as calmas respostas de Pavel e André manifestavam tanta firmeza e decisão, como se as tivessem pronunciado na modesta casinha do arrabalde e não perante juizes. A réplica enthusiasta e juvenil de Fédia tinha-a divertido immenso. Pairava na sala uma atmosfera de audácia e de mocidade, e, pela agitação de todo o auditório, Pélagué sentia que não era ella só que lhe sentia os effluvios.
--A sua opinião? perguntou o velho.
O procurador calvo ergueu-se com a mão apoiada na carteira e discursou com verbosidade, citando numeros. Nada havia n’aquella voz que infundisse terror. No emtanto, ao ouvil-o, Pélagué sentiu logo como uma punhalada no coração: era um vago presentimento de alguma coisa hostil e que se lhe afigurava ir desenvolvendo-se lentamente em uma fórma indefinivel. Examinava tambem os juizes, mas não os compreendia: ao contrario do que ella esperava, não os via zangar-se com Pavel e Fédia, nem proferir palavras injuriosas contra os réus; queria-lhe parecer que todas as perguntas que faziam não tinham para elles importancia alguma; dir-se-ia que era de má vontade que as formulavam e que lhes custava esperar as respostas; nada os interessava tudo sabiam já d’antemão.
Agora estava um policia postado na frente d’elles e falava com uma voz de baixo profundo.
--Toda a gente apontava Pavel Vlassof como o principal cabeça de motim.
--E André Nakhodka? perguntou com indolencia o jury gordo.
--Esse tambem.
Levantou se um dos advogados e disse:
--Dá-me licença?...
O velho perguntou a alguem:
--Não tem objecção a apresentar?
Pélagué chegava a julgar que os juizes se achavam todos doentes. Traduzia-se um cansaço mórbido na menor das suas attitudes, nas vozes e nas fisionomias. Via-se que tudo os enjoava: os uniformes, a sala, os policias, os advogados, a obrigação de estarem ali sentados n’aquellas poltronas, de interrogarem e de ouvirem. Raras vezes Pélagué se encontrára na presença de gente de posição elevada e havia alguns annos que nem sequer a tinha visto, e assim, as feições dos juizes eram para ella como uma coisa inteiramente desconhecida, incompreensivel, mas mais compassiva do que severa.
Estava agora a falar o official de cara amarellada que ella conhecia bem; referia-se a André e a Pavel, arrastando muito as palavras, emfaticamente. E emquanto o ouvia, Pélagué commentava comsigo mesma:
--Não sabes nada d’isto, meu pateta!
Deixára de sentir compaixão ou receio pelos que se sentavam por detraz do gradeamento; não temia pela sua sorte, e achava que lhes era inutil a sua piedade, mas todos elles lhe inspiravam admiração e um sentimento de amor que lhe acalentava docemente o coração.
Jovens e robustos como eram, estavam sentados á parte, junto da parede e quasi nem intervinham na conversação monotona entre testemunhas e juizes, nas discussões dos advogados e do procurador. De vez em quando, um d’elles tinha um sorriso de desprezo e dizia baixo algumas palavras aos seus companheiros. André e Pavel, esses, falavam quasi continuadamente com um dos defensores, a quem Pélagué conhecia de o ter visto na vespera em casa de Nicolao e que por este era tratado de «camarada». Mazine, mais animado e irrequieto que os outros, prestava attento ouvido a esta conversa. De vez em quando, Samoílof segredava meia duzia de palavras ao ouvido de Ivan Gousef. E Pélagué, olhando para tudo, comparava, reflectia, sem que pudesse compreender aquella sensação de hostilidade que a invadia, nem achar termos para exprimil-a.
Sizof chamou-lhe a attenção com ligeira cotovellada; virou-se para elle: estava com uns ares ao mesmo tempo satisfeitos e um tanto preoccupados. Segredava:
--Olha para a presença de espirito com que elles estão, aquelles garotos, an? Parecem verdadeiros fidalgos, não é verdade? E no entretanto estão a ser julgados... para os ensinar a não se metterem no que não é da sua conta.
Ella repetiu involuntariamente a si mesma:
--Estão sendo julgados...
Na sala, depunham testemunhas, com vozes incaracteristicas e atabalhoadas; os juizes iam sempre interrogando, indifferentes e mal humorados. O juiz gordo bocejava, dissimulando a bôca sob a mão inchada de cieiro; o seu collega dos bigodes ruivos tornára-se ainda mais lívido; por vezes, erguia o braço, premia fortemente uma das fontes com um dedo, e ficava-se a fitar o tecto com o olhar morto.
De vez em quando, escrevia o procurador algumas linhas a lapis e depois recomeçava a cochichar com o marechal da nobreza. O administrador cruzára as pernas e tamborilava n’uma dellas, com o olhar fixado com gravidade no movimento dos dedos.
Com o ventre descansando-lhe nos joelhos e sustentando-o prudentemente entre as duas mãos, o syndico do bailiado quedára-se de cabeça pendida; parecia ser elle o unico a escutar o murmurio monotono das vozes, além do velho, enterrado na poltrona e immovel como um catavento quando não sopra a brisa. Durou isto muito tempo e de novo o aborrecimento se apoderava do auditório.
Pélagué sentia que a justiça, a justiça implacavel que põe friamente as almas a descoberto, que as examina, que tudo vê e tudo aprecia com os olhos incurruptiveis e tudo pesa com mão leal, não tinha ainda dado entrada n’aquella sala. Nada via por emquanto que a amedrontasse com uma manifestação de força ou de majestade. Rostos descoloridos, olhos sem brilho, vozes fatigadas, o indifferentismo tristonho d’uma tarde de outono, eis tudo o que presenceava.
--Declaro... disse o velho com clareza; e em seguida, depois de ter abafado o resto da frase entre os delgados labios, ergueu-se.
Logo a sala se encheu de rumores, suspiros, exclamações suffocadas, accessos de tosse e arrastar de pés. Os réus foram conduzidos para fóra do pretorio; ao saírem, faziam signaes com a cabeça e sorriam-se para parentes e amigos. Ivan Goussef chegou mesmo a gritar com affabilidade para quem quer que fôsse:
--Não te deixes intimidar, camarada!
Pélagué e Sizof saíram para o corredor.
--Queres vir ao bufete, tomar chá? perguntou sollícito o velho operário. Temos hora e meia para esperar.
--Não, obrigada.
--Bem, então tambem eu não vou. Viste os rapazes, an? Falam como se elles fôssem os verdadeiros homens e os outros coisa nenhuma! Ouviste o Fédia, an?
De bonné na mão, vinha chegando n’este momento o pae de Samoílof. Com um sorriso triste, perguntou:
--Que dizem do meu filho? Não quiz advogado e recusa-se a responder... Foi elle que teve a idéa.
O teu filho era pelos advogados, Pélagué; o meu disse que não os queria. E houve quatro que lhe seguiram o exemplo.
A mulher esteve ao lado d’elle. Piscava de contínuo os olhos e limpava o nariz com a ponta do lenço. Samoílof reuniu na mão toda a barba, n’um punhado, e continuou:
--Outra coisa que me dá que pensar: quando a gente olha para aquelles demónios, parece que elles fizeram tudo aquillo inutilmente, que comprometteram a sua vida sem necessidade e, de repente, fica-se a scismar se elles não terão razão...
E é bom não esquecer que lá na fabrica, o partido d’elles aumenta continuadamente. De vez em quando, prendem-nos; mas nunca os apanham a todos, assim como nunca se apanham os peixes todos d’um rio! E a gente fica sempre a perguntar com os seus botões: «Quem sabe se elles dizem a verdade!»
--Para nós, é difficil compreender esta questão! declarou Sizof.
--Sim, é certo! acquiesceu o outro.
A mulher interveio então, depois de ter respirado com ruido:
--Parece que estão todos de perfeita saúde, estes malditos juizes!...
E continuou, com um sorriso no seu rosto emmurchecido:
--Não estejas zangada, Pélagué, por eu te dizer ha bocado que o Pavel era o culpado de tudo!... Para falar com franqueza, nem a gente sabe qual é o mais culpado! Ouviste o que os espiões e os policias contaram do nosso filho?...
Claramente se via que tinha orgulho d’aquelle filho, embora ella própria talvez nem désse por isso; mas Pélagué, que avaliava bem tal sentimento, abriu-se em bondoso sorriso.
--Os corações moços andam sempre mais próximos da verdade do que os velhos! disse ella em voz baixa.
Passeava-se pelo corredor; formavam-se grupos em que se discutia concentradamente, todos pensativos e animados. Ninguem se conservava afastado, toda a gente sentia a necessidade de falar, de interrogar e de escutar o que se dizia. No estreito recinto da passagem, entre as duas paredes brancas, os grupos iam e vinham, como se, impellidos por violenta rajada, procurassem apoio n’alguma coisa firme e segura.
O irmão mais velho de Boukine, um grande latagão de cara envelhecida prematuramente, gesticulava, virando-se com vivacidade para todos os lados. Protestava elle:
--O syndico do bailiado nada tem a ver para o caso; não está aqui no seu logar!
--Cala-te, Constantino! exortava o pae, um velhinho, sempre a olhar em volta, assustado.
--Não, senhor, eu quero falar! Dizem que o anno passado matou um empregado... por causa da mulher d’este! Ora que espécie de juiz vem a ser aquillo, fazem favor de me dizer? A viuva do empregado vive agora com elle!... Que havemos de concluir?... Além d’isso, toda a gente sabe que é ladrão...
--Ai, meu Deus!... Constantino!...
--Tens razão, sim senhor! apoiou Samoílof. Tens razão! Não é um juiz sério!...
Boukine, que tudo ouvira, approximou-se rápido, levando atraz de si numeroso grupo. Muito vermelho, de excitado, entrou de falar, com grandes gestos:
--Quando se trata de assassinatos ou de roubos, são os jurados que julgam, quer dizer: a gente habitual, trabalhadores, burguezes... Agora, quando se trata dos que são contra o governo, quem os julga é o próprio governo!... Isto póde ser?...
--Constantino!
--Mas escuta, estão elles realmente contra o governo? Vê lá, que dizes?
Não, espera! O Fédia Mazine tem razão. Se tu me offenderes e eu te der uma bofetada e se tu tiveres de me julgar, com certeza é a mim que chamarás culpado; e comtudo, quem insultou? Tu! Tu!
Um guarda já idoso, de nariz adunco e peito ornado de medalhas, atravessou por entre o ajuntamento e foi dizer a Boukine, ameaçando-o com o dedo:
--Olá! não grites! Onde imaginas que estás? É alguma taberna, aqui?
--Queira perdoar, cavalheiro... Eu percebo bem. Ora escutem: se eu bater em alguem e esse alguem me retribuir as pancadas e se eu tiver de julgal-o depois, como é que podem imaginar...
--Olha que te faço saír! disse o guarda severamente.
--Saír? para onde? Porquê?
--Para a rua! Que é para não berrares!
Boukine circumvagou o olhar pelo auditório e commentou a meia voz:
--Para elles, o essencial é que estejamos calados.
--Ainda não o sabias? replicou o velho com rudeza.
O outro baixou a voz.
--E depois, porque é que o publico não póde assistir ás audiencias, mas tão somente os parentes?
--Se ha justiça nos julgamentos, é para serem presenceados por todos! De que teem medo?
E Samoílof apoiou, mas com mais vehemencia:
--Isso é verdade! Estes tribunaes não satisfazem a consciencia pública.
Pélagué desejava tambem repetir o que Nicolao lhe dissera ácerca da illegalidade do julgamento; mas não o havia compreendido bem e esquecera em parte as expressões empregadas por Nicolao. Para tentar rememoral-as, afastou-se da multidão e viu um rapaz de bigode loiro a observal-a. Trazia a mão direita mettida na algibeira das calças, o que fazia com que parecesse ter o hombro esquerdo mais baixo do que outro. Esta particularidade lembrou-se Pélagué que já era sua conhecida.
Mas o homem virou-lhe as costas e, cançada do seu esforço de memoria, Pélagué logo se esqueceu d’elle.
Instantes depois, distinguia um fragmento de conversa em segredo:
--Aquella? Á esquerda?
E alguem respondeu mais alto, com expansão:
--Essa mesma.
Olhou. O homem dos hombros de desigual altura estava ao lado d’ella e conversava com o seu visinho, um homem corpulento de barba preta, com umas enormes botas e casaco curto.
Estremeceu. Ao mesmo tempo, sentia o desejo de falar nas crenças de seu filho, para ouvir as objecções que lhe pudessem apresentar e calcular a decisão do tribunal pelas opiniões dos que a rodeavam.
--É isto por ventura fórma de julgar? começou ella a meia voz, prudentemente, dirigindo-se a Sizof. Não compreendo isto. Os juizes só tratam de averiguar o que fez cada um d’elles, mas não perguntam porque o fez. Será isto justo? diga lá! E são todos elles velhos! Para julgar gente nova são precisos homens novos!
--Sim! disse Sizof. Torna-se-nos difficil compreender todo este negocio... muito difficil!
E abanava a cabeça, pensativo.
N’isto, o guarda abriu a porta da sala e gritou:
--Entrem os parentes! Mostrem os seus bilhetes.
Uma voz de mau humor commentou:
--Os bilhetes... como no circo!...
Sentia-se agora uma irritação geral e mal contida, uma colera vaga. Os curiosos manifestavam maior semceremonia do que pouco antes, faziam barulho, discutiam com os guardas.
XXV
Sizof retomou o seu logar resmungando.
--Que tens? perguntou-lhe Pélagué.
--Não tenho nada! O povo é estupido... Não sabe nada, vive ás apalpadellas.
Resoou uma campainhada. Alguem annunciou com indifferença:
--O tribunal!
Todos se puzeram novamente de pé, como da primeira vez. Os juizes entraram pela mesma ordem e sentaram-se. Foram introduzidos os accusados.
--Attenção agora! segredou Sizof. Vae falar o procurador.
Pélagué estendeu o pescoço e toda se inclinou para a frente, immobilisada na espectativa do terrivel acontecimento imminente.
De pé, virando a cabeça para o lado dos juizes, o procurador soltára um suspiro e entrára a falar, agitando a mão direita. Pélagué não percebeu as suas primeiras palavras. A voz do orador era facil e grossa, mas, tão depressa lhe affluia com rapidez, como afroixava. As palavras iam-se seguindo primeiro como em larga fita uniforme, depois, voavam, redemoinhavam, tal um enxame de negras moscas sobre um torrão d’assucar. Mas n’essas palavras não via Pélagué coisa alguma ameaçadora ou terrificante. Frias como neve, indecisas como cinza, iam-se succedendo e enchiam a sala de aborrecimento, de alguma coisa horripilante como uma poeira fina e sêcca. O discurso, abundante em palavras e falho de idéas, não chegava provavelmente aos ouvidos de Pavel e dos seus companheiros, os quaes, sem mostrarem a menor preoccupação, continuavam socegadamente a conversar entre si. Umas vezes, sorriam, outras, faziam-se muito sérios para conterem o sorriso.
--Está mentindo! declarou Sizof baixinho.
Pélagué não saberia dizer ao certo se assim era.
Escutava o que elle dizia e compreendia que estava accusando toda a gente, sem se referir directamente a ninguem. Quando citava o nome de Pavel, punha-se a falar de Tédia; em seguida, depois de ter reunido estes, juntava-lhes Boukine. Dir-se-ia que mettia todos os accusados no mesmo sacco, apertados uns contra os outros. Mas o sentido externo das suas palavras não satisfazia Pélagué, como tambem não a perturbava nem mesmo impressionava. Comtudo, continuava esperando o pormenor terrivel, e procurava-o obstinadamente sob aquelle fluxo de palavras, no rosto do procurador, nos olhos, na voz, na mão muito branca que elle balanceava com lentidão. E sentia que estava ali, n’aquelle homem, a coisa assustadora, indefinivel e incompreensivel. De novo se lhe confrangeu o coração.
Olhou para os jurados: o discurso estava-os claramente enfadando. Os seus rostos macillentos, terrosos, inanimados, não apparentavam expressão alguma; eram quaes manchas cadavéricas e immoveis. E aquellas faces, umas de nutrição enfermiça, outras, demasiado magras, sumiam-se cada vez mais em meio do cansaço que invadia a sala. O presidente não fazia um só movimento, estatico e hirto; por vezes, as manchasinhas pardacentas que lhe appareciam por detraz dos vidros dos oculos, sumiam-se-lhe na palidez do rosto. Perante esta indifferença glacial, esta frieza tíbia, Pélagué a si própria perguntava com desasocego:
--Estarão elles verdadeiramente a julgar?
De repente, como de improviso, terminou o procurador o seu libello. O magistrado inclinou-se perante os juizes, a esfregar as mãos. O marechal da nobreza fez-lhe com a cabeça um signal, ao mesmo tempo que rebolava as pupillas. O administrador da communa estendeu-lhe a mão e o syndico contemplou o seu abdomen, risonho.
Mas via-se que os juizes não haviam ficado satisfeitos com o procurador: não tinham feito um só movimento.
--Cão tinhoso! resmungou Sizof.
--Tem a palavra... disse o velhinho, erguendo um papel até junto do rosto. Tem a palavra o defensor de... Fédossief, Markof, Zagarof.
Levantou-se então o advogado que Pélagué vira em casa de Nicolao. Tinha uma cara cheia e aspecto bonacheirão; os olhinhos irradiavam, parecia ter nas orbitas dois pontos acerados, a cortarem no ar qualquer coisa, como laminas de tesoura. Entrou a falar sem pressa, em voz nítida e sonora; mas Pélagué não poude escutar o que dizia. Sizof segredava-lhe de lado:
--Percebeste o que elle disse? Diz que são uns doidos, uns garotos de genio brigão. É do Fédia que elle quer falar!
Acabrunhada pela sua cruel decepção, Pélagué não respondeu.
Sentia-se mais e mais humilhada, e esta humilhação opprimia-lhe a alma. Compreendia agora porque esperava em vão a justiça, porque se enganara pensando assistir a uma discussão leal e séria entre a verdade que seu filho proclamava e a dos juizes.
Imaginára que os juizes iam interrogar Pavel, demoradamente e com attenção, sobre a sua vida; que examinariam com olhos perspicazes todas as idéas, todos os actos de seu filho, e o emprego de todos os seus dias, e que, reconhecendo a sua hombridade, haviam de declarar convictamente: «Este homem tem razão.»
Mas nada d’isso succedia. Era para crêr que os accusados e os juizes estivessem a cem leguas uns dos outros e ignorassem mutuamente as suas existencias. Fatigada pela tensão da espectativa, Pélagué deixára de acompanhar o debate. Pensava de si para comsigo, melindrada:
--É então assim que se julga? O julgamento...
E pareceu-lhe vazia e sem sentido esta palavra; soava como um vaso de barro, quebrado.
--É bem feito! murmurou Sizof, approvando com a cabeça.
--Parece que estão mortos, aquelles juizes! disse ella.
--Elles já voltam a si!
E com effeito, tornando a olhar para elles, viu-lhes nos rostos uma expressão de desasocego. Era outro advogado que falava, um homensinho de cara de fuinha, lívido e irónico. Os juizes interromperam-no logo.
O procurador levantou-se de chofre e em voz rápida e zangada, ameaçou-o com uma autoação; depois, conferenciou com o velhinho. O advogado ficou-os escutando, com a cabeça respeitosamente inclinada; em seguida, proseguiu no uso da palavra.
--Vae catando! vae catando! aconselhou Sizof. Vê se descobres onde está a alma!...