Part 24
--Não compreendo... Porque se recusa elle?... uma vez que tem possibilidade de o fazer?...
Ressoou forte campainhada. Nicolao levantou-se de chofre. Olharam um para o outro.
--É a Sachenka! disse Nicolao com voz debil.
--Nem sei como lho hei de dizer! exclamou ella no mesmo tom.
--É verdade... é difficil!
--Tenho pena d’ella!
A campainha vibrou outra vez, mas com menos força, como se a pessôa que se encontrava para alem da porta hesitasse tambem. Dirigiam-se os dois a abrir, mas, chegados á cosinha, deteve-se Nicolao e segredou-lhe:
--É melhor ir a senhora só.
--Recusa-se a fugir? perguntou a rapariga com decisão, tão depressa Pélagué lhe abriu a porta.
--Recusa!
--Bem o sabia! disse Sachenka simplesmente.
Faz vento, chove... que abominavel tempo!... E elle está bom?
--Está.
--Contente e de saúde... como sempre! disse Sachenka a meia voz, ao mesmo tempo que examinava uma das mãos.
--Manda-nos dizer que devemos dar fuga ao Rybine, annunciou a mãe de Pélagué, sem se atrever a fital-a.
--Ah, sim? Pois é preciso levar esse plano a bom caminho! respondeu a rapariga com vagar.
--Sou da mesma opinião! declarou Nicolao, apparecendo á porta. Boa noite, Sachenka!
Ella estendeu-lhe a mão e perguntou:
--E que obstaculo ha? Todos reconhecem que o projecto é engenhoso, não é assim? Eu sei que ê este o parecer de todos.
--Mas quem ha de encarregar-se de o organisar? Andam todos tão occupados!...
--Eu! disse com vivacidade a rapariga, pondo-se de pé. Eu tenho tempo.
--Pois seja! Mas são precisos outros collaboradores...
--Bem, eu os encontrarei! Vou tratar d’isso immediatamente.
--Porque não descansa um pouco? propoz Pélagué.
Ella sorriu e respondeu, deligenciando dar meiguice á voz:
--Não se apouquente por minha causa... Não estou cansada...
Apertou as mãos a ambos, silenciosa, e foi-se como viera, fria e de semblante carregado.
Pélagué e Nicolao foram á janella para a vêr.
Atravessou o pateo e sumiu-se para além da grade. Nicolao pôz-se a assobiar baixinho; em seguida, sentou-se á mesa e pegou na penna.
--Ella quer tratar d’este negocio para distraír o seu desgosto! disse Pélagué, baixo.
--É evidente! confirmou Nicolao. E, voltando-se para Pélagué, com o rosto bondosamente illuminado de um sorriso:
--Este fel é que os seus labios não provaram, não é verdade?... Nunca andou a suspirar por um homem amado!
--Que idéa! exclamou ella, agitando negativamente a mão. Eu, a suspirar? O que eu tinha era medo de que me obrigassem a casar com um ou com o outro.
--Ninguem lhe agradava então?...
Reflectiu e depois respondeu:
--Não me lembro, meu amigo. É provavel que houvesse um que me agradasse mais do que os outros... E como não havia de ser assim?... Mas não me lembro.
Fitou o seu interlocutor e resumiu com dolorosa melancolia:
--Fui tão maltratada pelo meu marido, que tudo o que se passou antes d’elle é como se me tivesse apagado da lembrança.
E ausentou-se por um instante. Quando voltou, disse-lhe Nicolao com affectuoso olhar, como para lhe suavisar as penosas recordações, com palavras repassadas de ternura e amor:
--Quer saber? Tambem eu tive uma... historia... parecida com a da Sachenka. Amava uma menina, uma criatura deliciosa! Era ella a estrella da minha vida... Ha vinte annos que a conheço e a amo... porque a amo ainda hoje, para dizer a verdade; amo-a tanto como sempre a amei... de toda a minha alma, com gratidão!
Pélagué via-lhe no olhar uma chamma viva e apaixonada. Elle descansára a cabeça nos braços apoiados ao espaldar da poltrona e olhava para longe, nem elle mesmo sabia para onde. Todo o seu corpo magro e delgado, mas robusto, parecia tender para um ponto fixo, tal a haste da planta virada para a luz do sol.
--Mas então, case-se! aconselhou ella.
--Oh! ha cinco annos que está casada!
--Porque não casou com ella? Não o amava?
Teve um momento de reflexão e respondeu:
--Creio que me amava... Tenho mesmo a certeza! Porém, veja a senhora! fomos sempre infelizes: quando ella estava em liberdade, era eu que estava preso, e quando eu estava solto, era ella que estava na cadeia. Viviamos na mesma situação da Sachenka e do Pavel! Finalmente, mandaram-na por dez annos para a Sibéria... Tão longe!... Eu quiz seguil-a... Mas tivemos ambos vergonha, pelo nosso amor... E fiquei. No degredo, travou conhecimento com um dos meus camaradas, excellente rapaz. Evadiram-se juntos... e agora vivem no estrangeiro...
Tirou os oculos e limpou-os; depois, examinou as lentes contra a luz e entrou de novo a esfregal-as.
--Ah, meu caro amigo! disse affectuosamente Pélagué, abanando a cabeça.
Lastimava-o Pélagué sinceramente, mas ao mesmo tempo, havia n’elle o que quer que era que a forçara a sorrir, com bondoso e maternal sorriso. Nicolao mudou logo de expressão, retomou a penna e batendo com ella, ao ritmo das frases, declarou:
--Afinal, a vida de familia diminue a energia do revoluccionario; é certo, diminue-a sempre! Vem os filhos, o dinheiro rareia, é preciso trabalhar para ganhar o pão... E o verdadeiro revoluccionario deve desenvolver a sua energia sem desfallecimentos. E é preciso ganhar tempo para isso! Se nos deixamos ficar para traz, vencidos pelo cansaço, ou seduzidos pela possibilidade d’uma conquistasinha amorosa, traímos a bem dizer, a causa do povo!
Falava com voz firme e, bem que o rosto se lhe conservasse pálido, mostrava no olhar uma decisão sem transigencias, inabalavel.
De novo, violenta campainhada interrompeu as considerações de Nicolao. Era Lioudmila. Vinha com as faces muito vermelhas do frio. Emquanto tirava a capa de borracha, annunciou em tom de irritação:
--Está marcado o dia do julgamento: é dentro d’uma semana!
--Tem a certeza? gritou Nicolao do quarto, onde fôra.
Pélagué correra para elle sem saber se era contentamento ou receio o que a impellia. Seguira-a Lioudmila. Esta continuava, com a sua voz grave, repassada de ironia:
--Tenho, sim! O procurador substituto Chostak já lavrou o libello de accusação. No tribunal, diz-se abertamente que o veredicto já está pronunciado. Que significará isto? O governo terá medo de que os magistrados tratem os seus inimigos com excessiva benevolencia? Depois de ter pervertido os seus servidores com tanta perseverança e paciencia, ainda não estará seguro do seu servilismo?
E dito isto, sentou-se no canapé e pôz-se a esfregar as cavadas faces; despedia do olhar sem brilho, infinito desprezo e a voz alteava-se-lhe cada vez mais irada.
--Não gaste a sua polvora inutilmente, Lioudmila! aconselhou Nicolao. O governo não a ouve!
As olheiras que assombreavam o rosto da mulher cavaram-se mais, cobrindo-lhe as feições d’uma névoa de ameaça. Mordendo os lábios, proseguiu:
--Eu lucto contra o governo. Que elle me mate, bem vae: está no seu direito, pois que sou sua inimiga! Mas que não ande a corromper as criaturas para defender o poder; que não me obrigue a votar-lhe profundo desprezo; que não me envenene a alma com tal cinismo!
Nicolao, por detraz dos seus oculos, fitou-a muito, com um franzir de palpebras e signaes approvativos.
A outra continuou a discorrer, como se aquelles a quem odiava estivessem na sua presença. Pélagué escutava attentamente aquellas frases, mas sem as compreender. Machinalmente, a si mesma repetia as mesmas palavras:
--O julgamento... dentro d’uma semana... O julgamento!...
Não podia conjecturar o que ia passar-se, nem como os juizes tratariam seu filho. Mas sentia a imminencia d’alguma coisa implacavel, cuja crueza e cuja ferocidade deixavam de ser humanas.
Os pensamentos baralhavam-lhe o cérebro, velavam-lhe a vista d’um vapor azulado e mergulhavam-na no que quer que fôsse frio, viscoso, que lhe causava arrepios, nauseas e, que, infiltrando-se-lhe no sangue, lhe chegava ao coração e suffocava n’ella todo o valor.
XXIII
Dois dias passou n’este nevoeiro de perplexidades e angustias. Ao terceiro, veio Sachenka dizer a Nicolao:
--Está tudo prompto. É para hoje, á uma hora.
--Já?! exclamou admirado.
--Não era coisa muito complicada! Bastava que arranjasse fato para o Rybine e sitio para o esconder. Do resto encarregou-se o Gadoune. O Rybine não terá de andar mais que uns cem passos. O Vessoftchikof, disfarçado, está claro, irá ao encontro d’elle, fornecer-lhe-á um casacão e um bonné e dir-lhe á onde deve ir. Eu espero o Rybine e guial-o-ei.
--Está muito bem... Quem é esse Gadoune? disse Nicolao.
--Deve conhecel-o. É na loja d’elle que temos feito as leituras aos serralheiros...
--Ah, já me lembro!... Um velhote exquisito...
--Sim; é um retelhador, por officio; antigo soldado... De intelligencia pouco desenvolvida, nutre um odio inexgotavel contra todas as violencias, contra toda a oppressão. É um tanto ou quanto filósofo, rematou Sachenka, pensativa, a olhar pela janella.
Ouvia-se Pélagué em silencio. Pouco a pouco, ia amadurecendo n’ella uma idéa vaga.
--O Gadoune quer dar fuga ao sobrinho, o Evtchenko, aquelle ferreiro de quem tanto se agradavam todos pelo seu aceio e donaire, lembram-se?
Nicolao affirmou com um gesto.
--Pois tem tudo preparado na perfeição, continuou Sachenka; mas ainda assim, começo a duvidar do bom exito... Os presos passeiam todos á mesma hora. Quando virem a escada, ha de haver logo muitos a quererem fugir...
Fechou os olhos e calou-se por instantes. Pélagué approximara-se d’ella.
--... E hão de estorvar-se uns aos outros.
Estavam agora os trez junto da janella, Nicolao e Sachenka á frente, Pélagué mais atraz. A conversação rapida dos dois primeiros despertava cada vez mais em Pélagué um vago sentimento...
--Pois hei de lá ir! annunciou de subito.
--Para quê? perguntou Sachenka.
E Nicolao aconselhou:
--Não, não, querida amiga! Podia acontecer-lhe alguma coisa. Não!
Ella fitou-os a ambos e repetiu, mais baixo, com insistencia:
--Sim, hei de ir!
Os dois trocaram rapido olhar. Sachenka encolheu os hombros e commentou:
--Compreende-se...
Depois, voltando-se para ella e tomando-lhe do braço, inclinando-se-lhe ao ouvido, declarou com singeleza e cordealidade:
--Mas olhe que eu previno-a: nada tem a esperar...
--Minha querida! exclamou a mãe de Pavel, puxando-a para si, a tremer, leve-me comsigo!... Eu não a estorvo... É que eu queria vêr... Não creio, não julgo que seja possivel... uma evasão!
--Ha de vir comnosco por força! limitou-se a dizer a rapariga para Nicolao.
--Isso é com vocês as duas! respondeu elle, baixando a cabeça.
--Mas olhe que não podemos ficar juntas. Vocemecê tem de andar pelos campos, pelos jardins. Vêem-se de lá os muros da cadeia, muito bem... D’outra fórma, arrisca-se a que lhe perguntem o que anda ali a fazer.
Com serenidade, Pélagué exclamou:
--Sempre hei de achar uma resposta!
--Não se esqueça de que os vigias da cadeia conhecem-na! lembrou Sachenka. Se a vêem por ali...
--Não hão de vêr-me! respondeu ella.
E logo a seguir, a esperança que ella sempre acalentára sem mesmo, dar por tal, incendiou-se em viva chamma que toda a animou:
--Quem sabe?... Talvez que elle tambem... pensava, emquanto se vestia apressadamente.
Uma hora depois, encontrava-se ella em meio d’uns campos, perto da prisão. Soprava vento agreste, que lhe enfunava as saias, enrijecia o solo gelado, fazia oscillar o tapume velho d’um jardim, fustigava com violencia o muro da cadeia e penetrava no pateo interior, d’onde a vozearia subia, arrastada para o firmamento no seu irresistivel sopro. Corriam velozes as nuvens, deixando por vezes entrever a immensa profundidade do azul.
A cidade estendia-se por detraz de Pélagué; e na sua frente, o cemiterio. A uns vinte passos para a direita, elevava-se a cadeia. Perto do cemiterio, dois soldados andavam a dar passeio a um cavallo. Caminhavam com pesado passo, assobiavam e riam.
Obedecendo a instinctivo impulso, acercou-se dos dois homens e gritou-lhes:
--Camaradas, viram a minha sobrinha? Não fugiu para aqui?
--Não, não vimos, respondeu-lhe um.
Afastou-se devagar, passou-lhes adiante e dirigiu-se para o muro do cemiterio, olhando sempre de soslaio. De súbito, sentiu vergarem-se-lhe as pernas e tornarem-se-lhe pesadas, como se o gelo lh’as tivesse pregado ao solo: à esquina da cadeia tinha apparecido um accendedor de candieiros, corcovado sob pequena escada, a correr, como todos elles costumam fazer. Toda a tremer de susto, olhou Pélagué para o lado dos soldados. Tinham ficado parados em certo sitio; o cavallo brincava, pulando-lhes á roda. Viu depois que o homem já tinha encostado a escada ao muro e por ella trepava sem pressa alguma. Viu-o fazer um signal com a mão, descer rápido, e sumir-se na esquina da cadeia. Pulsava violentamente o coração de Pélagué; os segundos decorriam com lentidão. A escada mal era visivel entre as grandes manchas da lama e da caliça escalavrada, que deixava a descoberto os tijolos. N’isto, surgiu na crista do muro a cabeça de Rybine, e logo o corpo appareceu, passou para o outro lado e deslisou.
Segunda cabeça coberta de bonné de pello surgiu; rolou para o chão uma especie de novelo preto que logo se sumiu na esquina do edificio. Rybine aprumára-se e olhava em torno. Fez um signal com a cabeça.
--Foge! foge! segredou Pélagué, batendo o pé.
Tinha zumbidos nos ouvidos, parecia-lhe ouvir gritos, quando terceira cabeça, esta loira, emergiu do espigão do muro. Comprimindo o peito ás mãos ambas, Pélagué olhava, petrificada.
A cara loira e imberbe teve um impulso para cima, como para se separar do corpo, e depois, desappareceu por detraz do muro. Os gritos de ha pouco faziam-se mais ruidosos e traduziam maior alvoroço; o vento levava-os pelo espaço, de mistura com trillos agudos de apitos.
Rybine caminhou ao longo do muro e depois transpôz um terreno que separava a prisão dos predios da cidade. A Pélagué afigurava-se que ele ia muito devagar e de cabeça alta demais; com certeza as pessoas que com elle se cruzavam não lhe esqueceriam as feições.
--Depressa!... Mais depressa! murmurou ella.
No pateo da cadeia, houve qualquer coisa que se quebrou com ruido secco, ouviu-se um tenido agudo de vidros partidos. Firmando os pés no chão com toda a sua força, um dos soldados puxava pelo cavallo; o outro, de mão ao lado da bocca, gritava o que quer que fôsse na direcção do presidio, depois apurava o ouvido com a cabeça inclinada n’esse sentido.
Em crispações de incerteza, a mãe de Pavel olhava para tudo aquillo; os seus olhos, que tudo haviam visto, em nada queriam crêr. A evasão, que ella imaginára coisa terrivel e complicada, effectuara-se tão rapida e simplesmente, que d’ella mal lhe restava consciencia. Em baixo, na rua, já não se divisava Rybine. Os unicos traseuntes eram agora um homem de elevada estatura, vestido de comprido sobretudo, e uma rapariguinha. Appareceram trez vigias á esquina.
Corriam, apertando-se uns contra os outros, com o braço direito estendido para a frente. Um dos soldados precipitou-se ao encontro d’elles, o outro mal podia acompanhar o cavallo, que, caprichoso e rebelde, tentava recomeçar o brinquedo, esquivando-se e pulando. Pélagué julgava vêr tudo em volta d’ella oscillar. Os apitos rasgavam a atmosfera em trillos incessantes e desesperados. Compreendeu então o perigo que corria. Toda trémula, foi andando ao longo do tapume do cemiterio, sem perder de vista os guardas. Estes deitaram a correr para a outra esquina da cadeia e desappareceram, assim como os soldados.
Logo depois viu o sub-director da prisão, que ella conhecia bem, tomar a mesma direcção. Trazia a farda desabotoada. Accudiam policias; formava-se um ajuntamento...
O vento soprava, deslocando-se em redemoinhos, como se quizesse mostrar-se satisfeito; com elle chegavam aos ouvidos de Pélagué fragmentos d’exclamações confusas:
--Ella ainda lá está!
--A escada?
--Vá para o diabo! Porque espera!...
De novo retiniram apitos estridentes. Todo este tumulto era do agrado de Pélagué. Apressou o passo, ao mesmo tempo que ia pensando:
--Logo, era possivel!... E se elle quizesse, tambem o tinha podido fazer!
De repente, ao voltar uma esquina do tapume, embateu em dois guardas, acompanhados d’um policia.
--Pára! gritou-lhe este, offegante. Não viste um homem de barba a correr? Não veio para aqui?
Ella apontou para os campos e respondeu com todo o sangue frio:
--Vi, sim, senhor. Foi para ali!...
--Jégourof! berrou o policia. Vá! Corre! Apita! E ha muito tempo?
--Ha de haver um minuto...
Mas teve a voz dominada pelo estridor do apito. Sem esperar a resposta, o policia desatou a correr por entre os montões de lama gelada, agitando as mãos na direcção dos jardins. De cabeça baixa e apito na bocca, os outros precipitaram-se-lhe nas peugadas.
Ficou um momento a seguil-os com a vista e voltou para casa. Sem que um pensamento particular predominasse n’ella, sentia, não obstante, o pezar por alguma coisa; havia no seu coração amargura e despeito. Ao chegar proximo da cidade, fêl-a parar um trem que ia passando. Ergueu a cabeça e viu na carruagem um rapaz de bigode loiro, rosto pálido e que revelava cançaso. Elle fitou-a tambem. Ia sentado de esguelha; era talvez por isso que parecia ter o hombro direito mais alto que o esquerdo.
Nicolao recebeu Pélagué com um suspiro de alivio.
--Chegou sã e salva? Então como se passou isso?
--Parece que conseguiram o que queriam.
E diligenciando rememorar os mais insignificantes pormenores, contou o que tinha visto, como se estivesse a repetir inverosimil historia.
--Ora veja que temos sorte! disse Nicolao, esfregando as mãos. Mas que susto em que estive por sua causa! Nem póde imaginar! Nada receei com respeito ao julgamento. Quanto mais cedo fôr, tanto mais breve chegará o dia da libertação do seu Pavel, creia! Talvez até possa evadir-se quando fôr, a caminho da Sibéria... Quanto ao julgamento, aqui tem pouco mais ou menos o que é.
Entrou a descrever-lhe o tribunal. A mãe de Pavel escutava-o, mas presentia que elle receava alguma coisa e diligenciava tranquillisal-a.
--Está imaginando talvez que eu quero dirigir-me aos juizes, entregar-lhes algum memorial! disse ella.
Nicolao levantou-se bruscamente, agitou a mão e exclamou em tom de melindre:
--Que está dizendo? Nunca pensei n’isso!
--Tenho medo, isso é certo! Tenho medo e não sei de quê!
Calou-se. O olhar vagueava-lhe pelo aposento, ao accaso.
--Em certas occasiões, quer-me parecer que hão de mofal-o, que hão de injurial-o e dizer-lhe: «Oh, campónio, filho de campónio! que descoberta foi essa agora?» E o Pavel é orgulhoso; ha de querer responder-lhes... Ou então é o André que vae para lá zombar d’elles. São todos tão entusiastas, tão francos e leaes, os nossos!... É por isso que eu digo comigo mesmo: «Se acontecesse alguma coisa, se um d’elles perdesse a paciencia, os outros haviam de apoiá-lo e lá os tinhamos todos condemnados... por maneira que nunca mais apparecessem!»
Nicolao, sombrio, atormentando a barba, permanecia silencioso.
--Não posso expulsar taes idéas d’esta cabeça! continuou ella mais baixo. É terrivel, uma audiencia! Vão para ali pôr-se a examinar tudo, a avaliar tudo... a procurar onde está a verdade! É deveras um horror!... Não é o castigo que amedronta, é o julgamento... a avaliação da verdade... Não sei como hei de dizer...
Sentia que Nicolao não compreendia o seu terror, e isto ainda mais a embrulhava na demonstração.
XXIV
Este terror de Pélagué não fez senão augmentar durante os trez dias que a separavam da audiencia e, quando esta chegou finalmente, levava ella sobre si, para o tribunal, um fardo que toda a avergava.
Cá fora, reconheceu varios dos seus antigos visinhos do arrabalde, inclinou-se em silencio para corresponder aos seus cumprimentos e abriu á pressa caminho por entre a multidão tristonha. Nos corredores e depois, na sala, topou com as familias dos seus. Falava-se abafando a voz; trocavam-se frases que ella não compreendia. D’aquella turba brotava pungente sentimento que se communicava a Pélagué e a opprimia ainda mais.
--Senta-te! convidou Sizof, arranjando-lhe logar no banco, a seu lado.
Obedeceu, compôz as dobras do vestido e olhou em torno. Divisava vagamente umas faxas verdes e encarnadas, umas manchas, uns fios amarellos e delgados, que brilhavam.
--Foi o teu filho que levou o meu á perdição! murmurou uma mulher que lhe ficava perto.
--Cala-te d’ahi, Nathalia! interrompeu Sizof com o semblante carregado.
Pélagué ergueu a vista para aquella mulher: era a mãe de Samoílof. Um pouco mais adiante, estava o pae, calvo, de bello rosto ornado de espessa barba ruiva talhada em leque. Semi-cerrava as palpebras e olhava direito para diante de si, com um estremecimento involuntario de vez em quando.
Pelas altas janellas entrava uma claridade uniforme e turva; escorregavam flocos de neve pelas vidraças. Entre as janellas, havia um immenso retrato do czar em grossa moldura doirada, e com reflexos oleosos na pintura; e a um e outro lado do quadro, occultavam a parede as pregas hirtas dos pesadissimos reposteiros que revestiam as janellas. Frente ao retrato, uma meza coberta de panno verde, occupava quasi toda a largura da sala; á direita, por detraz d’uma especie de gelosia gradeada, dois bancos de pau; á esquerda, duas filas de poltronas forradas de vermelho. Os officiaes de diligencias, de golas verdes e botões doirados iam e vinham pela sala, nos bicos dos pés.
Na atmosfera, de equivoca pureza, perpassavam ruidos de vozes, cochichando baixinho; pairava, vindo ninguem saberia d’onde, um vago cheiro de farmácia. Todas aquellas côres vivas e aquellas scintillações offuscavam a vista; penetravam no peito os odôres do ambiente d’envolta com a respiração; o espirito sentia-se submerso n’uma especie de temor inexprimivel.
De súbito, alguem começou a falar em voz alta. Toda a assistencia se pôz de pé. Pélagué teve um sobresalto e ergueu-se tambem, agarrada ao braço de Sizof.
No canto esquerdo da sala, tinha-se aberto uma porta alta, dando passagem a um velhinho de oculos, muito alcachinado e de andar incerto. Umas escassas suissas tremiam-lhe dos lados da carinha de côr terrosa, o lábio superior, barbeado, quasi se lhe sumia na cavidade da bôca. As maçãs do rosto e o queixo comprimiam-se-lhe sobre a altissima gola da farda, dando a julgar que por baixo nada existia de pescoço. O velho caminhava sustido por um rapaz alto, de cara de porcelana, muito redonda e rosada. Atraz d’elles, vinham trez personagens revestidos de uniformes recamados de bordados e mais trez sujeitos á paisana.
Por muito tempo, estiveram a deliberar entre si, em volta da mesa; depois, sentaram-se. Logo que todos tomaram os seus logares, um d’elles, rosto imberbe e com a farda desabotoada, entrou a falar ao velho, com uns modos de indifferente indolencia e movendo com custo os beiços entumecidos. O velho ia-o escutando. Conservava-se hirto e immovel, e Pélagué distinguia-lhe duas manchasinhas esbranquiçadas por detraz dos vidros dos oculos.
Junto de estreita secretária, na extremidade da mesa, um homem alto e calvo folheava papeis, com uma tossinha sêcca.
O velho fez um movimento para diante e começou a falar. A primeira palavra pronunciou-a elle distinctamente, mas as outras parecia que se sumiam ao sahir-lhe dos lábios delgados e sem côr.
--Declaro...
--Olha! segredou Sizof á sua visinha com uma leve cotovellada. E pôz-se de pé.
Por detraz do gradeamento abrira-se uma porta que dera passagem a um soldado de espada desembainhada, ao hombro, e logo depois a Pavel, André, Fédia Mazine, os irmãos Goussef, Boukine, Samoílof e mais cinco rapazes desconhecidos de Pélagué. Pavel vinha a sorrir; André cumprimentou Pélagué com um aceno de cabeça.
Aquelles rostos, aquelles sorrisos e gestos de animação fizeram parecer menos frio o silencio e tornaram a sala mais luminosa; suavisaram-se os reflexos opulentos de oiro dos uniformes; um alento de confiança, uma aragem de força viril penetraram o coração da mãe de Pavel, arrancando-a ao seu torpor. Por detraz d’ella, pelas bancadas onde até ali a turba se conservava acabrunhada, á espera, murmurios surdos e reprimidos iam respondendo ás saúdações dos reus.