Part 23
Ella fitou-o um instante e após curto silencio:
--Que vão para o inferno!
--Está claro!... Vocemecê deve estar fatigada a valer, precisa de deitar-se. É robusta, ainda assim todos estes cuidados, todas estas inquietações... supporta-as admiravelmente. Só os cabellos é que lhe enbranqueceram muito depressa... Vá descansar, vá...
Apertaram-se as mãos e separaram-se.
XX
Adormecera Pélagué, rápida e socegadamente, quando, de manhãsinha, a despertaram umas pancadas violentas na porta da cosinha. E succediam-se com teimosia. Ainda fazia escuro. Vestiu-se á pressa, correu a perguntar, atravez da porta:
--Quem está ahi?
--Eu! respondeu voz desconhecida.
--Quem?
--Abra! Abra! murmurou a mesma voz, agora sumida e supplicante.
Pélagué puxou o ferrolho e empurrou a porta: E entrou Ignaty, a exclamar alegremente:
--Ah! não me enganei! Cheguei a bom porto!
Vinha coberto de lama até á cintura, o rosto desfigurado, fundas olheiras, e do bonné saíam-lhe em desordem os cabellos annellados.
--Grande desgraça lá por casa! segredou logo ao fechar a porta.
--Já sei...
Ficou espantado e perguntou com um pestanejar de curiosidade:
--Como assim?... Por quem?
Contou-lhe Pélagué em breves palavras o encontro que tivera.
--E os outros dois teus camaradas, tambem os prenderam?
--Não estavam lá: tinham ido á junta d’inspecção. Prenderam cinco, contando com o Rybine.
Fungou, n’um accesso de riso, e explicou:
--Eu, como vê, escapei. Provavelmente andam em minha busca... Pois que procurem! Não volto para lá nem por todo o oiro do mundo! Ainda assim, ainda lá ficaram seis ou sete rapazes e uma rapariga, com quem se póde contar!
--Mas como pudeste escapar?
--Eu? exclamou Ignaty, sentando-se n’um banco e olhando em roda. Os policias vieram de noite, direitinhos á fabrica, mas um minuto antes já o guarda campestre tinha vindo a correr bater-nos na janella: «Attenção, rapaziada, vêm prendel-os!»
Pôz-se a rir e a limpar a cara com a aba da blusa. E proseguiu:
--O tio Rybine não é homem para perder a cabeça... E olhe que o provou!... Disse-me logo: Ignaty, corre á cidade! Lembras-te das duas mulheres que aqui estiveram? E escreveu qualquer coisa n’um papel, muito depressa... Toma, vae, adeus, meu irmão! disse-me elle. E deu-me um empurrão nas costas. Eu atirei-me para fóra da cabana, escondi-me entre umas moitas, puz-me a andar de gatas e ouvi chegar os guardas! Eram muitos, appareciam por todos os lados! Cercaram a fabrica. Eu estava por detraz d’uma sebe... passaram-me mesmo na frente. Depois, levantei-me e entrei a andar, a andar... Andei um dia e duas noites, sem parar. Estou estafado para uma semana; nem sinto as pernas!
Mostrava-se satisfeito de si mesmo; illuminava-lhe um sorriso os grandes olhos escuros; tinha um tremor nos beiços grossos e vermelhos.
--Vou-te fazer uma gôta de chá n’um pronto! disse Pélagué sollicita, agarrando no samovar. Mas emquanto esperas, vae-te lavando. Ficas melhor depois!
--O que eu queria era dar-lhe o bilhete.
Levantou com difficuldade uma das pernas, dobrou-a, collocou o pé sobre o banco, isto com innumeras caretas e gemidos, e começou a desenrolar uma das ligaduras, que lhe envolviam ambos os pés.
Nicolao appareceu á porta. Ignaty, confuso, tornou a pôr o pé no chão; tentou levantar-se, mas cambaleou e caíu desamparadamente em cima do banco, ao qual se agarrou ás mãos ambas.
--Ai, que cançado que eu estou!
--Bom dia, camarada! disse-lhe Nicolao em tom amigavel e com um signal de cabeça. Espere, que eu o ajudo.
Ajoelhou-se diante do operario e desenrolou rapidamente a ligadura, emporcalhada e húmida.
--É necessario esfregar-lhe os pés com alcool. Ha de fazer-lhe bem, disse Pélagué.
--Isso mesmo! approvou Nicolao.
Ignaty fungou de novo, muito atrapalhado.
Finalmente, achou Nicolao o bilhete; alisou-o, mirou-o um instante e apresentou-o á velha.
--Aqui tem! É para si.
--Leia.
Elle approximou dos olhos o pedaço de papel sujo e amarrotado e leu:
«Mãesinha: não deixes que se perca o nosso negocio. Diz a essa senhora que não se esqueça de fazer que se escreva sempre e muito, a respeito das nossas coisas. Peço-te. Adeus. Rybine.»
--Bello rapaz! disse Pélagué com melancolia. Estavam a esganal-o e ainda elle se lembrava dos outros!
Lentamente, Nicolao deixou descaír o braço em que tinha o bilhete, e a meia voz:
--É espantoso!
Ignaty olhava para um e outro, vermiculando devagar com os dedos emporcalhados do pé descalço. Pélagué, procurando occultar o rosto inundado de lagrimas, foi para elle com uma celha com agua. Sentou-se no chão e estendeu a mão para tomar a perna do homem.
--Que quer fazer?... Não é preciso...
--Deixa ver o pé, depressa.
--Eu vou buscar o alcool, disse Nicolao.
O rapaz mettia sempre mais a perna debaixo do banco, murmurando:
--Não quero!... Então isso é coisa que se faça?
Sem lhe responder, ella tratou de lhe desembaraçar das ligaduras o outro pé. O rosto redondo de Ignaty distendeu-se de espanto. Pélagué entrou a lavar o rapaz.
--Sabes? disse ella com voz chorosa. O Rybine foi espancado!...
--Palavra? exclamou Ignaty assustado.
--É verdade. Quando chegou a Nikolsky, já elle vinha moído de pancada, e ainda alli, o sargento e o commissario lhe deram murros, pontapés... Estava todo coberto de sangue!
--Ah, lá quanto a isso, é o officio d’elles, e conhecem-no a valer! exclamou o operario, sentindo um calafrio percorrer-lhe as espáduas. Tenho medo d’elles como do diabo! E os camponezes não lhe bateram?
--Um só, á ordem do commissario. Os outros fizeram o seu dever; até não consentiram que continuassem a maltratal-o.
--Sim... O campónio começa a compreender...
--Tambem lá os ha muito intelligentes, n’essa villa...
--E onde é que os não ha? Ha-os por toda a parte! Sim, sempre é forçoso que os haja; o difficil é descobril-os. Mettem-se ahi pelos cantos e ficam a remoer aquillo lá por dentro, cada um para seu lado. Não teem a coragem de se reunir!
Nicolao trouxe uma garrafa d’alcool, deitou uns pedaços de carvão no samovar e saíu sem dizer palavra. Ignaty, que o seguira com a vista, curioso, perguntou em voz baixa:
--É nosso mestre?
--Na causa do povo não ha mestres, só ha camaradas!
--É caso para pasmar! disse o operario, sorrindo entre perplexo e incredulo.
--O quê?
--Tudo isto!... D’um lado, dão bofetadas na gente, do outro, lavam-nos os pés... Haverá um meio-termo?
A porta do aposento abriu-se de par em par e Nicolao respondeu:
--Ha, sim, senhor! E esse meio-termo são os que lambem as mãos d’aquelles que os maltratam e sugam o sangue dos maltratados. Aqui tem o que é esse meio-termo!
Ignaty fitou-o com deferencia e disse, após reflexão:
--Isso agora é verdade!
--Pélagué! instou Nicolao. Deve estar cansada... Deixe isso, que eu continúo.
O rapaz encolheu as pernas com inquieto acanhamento.
--Está pronto! respondeu ella, erguendo-se. Vá, Ignaty: levanta-te agora!
O outro obedeceu, conservou-se um bocado n’um pé, ora no outro, firmando-se fortemente no sobrado, e declarou:
--Até parece que ficaram novos! Obrigado!... Muito obrigado!
Fez uma pausa e ainda murmurou, a olhar para a celha com a agua suja:
--Nem sei como hei-de agradecer-lhe sufficientemente...
Os trez passaram para a casa de jantar e almoçaram. Ignaty poz-se a contar em voz muito séria:
--Fui eu que distribui os periodicos. Eu gosto muito de andar. O Rybine tinha-me dito: «Vae tu leval-os sósinho! Se fôres apanhado, não suspeitam de mais ninguem».
--E ha muita gente que os leia? perguntou Nicolao.
--Todos os que sabem lêr.
Pensativo, Nicolao reflectiu:
--Mas como havemos de arranjar que o fasciculo a propósito da prisão do Rybine chegue de pressa ás aldeias?...
Ignaty apurára logo o ouvido.
--Pois eu me encarrego d’isso hoje mesmo! Já ha prontos esses fasciculos?
--Ha, sim.
--Dê-mos, que eu os levo! propôz Ignaty com os olhos scintillantes, e a esfregar as mãos. Eu sei bem onde e como os hei-de levar!... Dê-os cá!
Pélagué sorria, ouvindo-o falar assim.
--Mas tu estás cansado e tens medo; fôste tu mesmo que disseste não querer voltar lá!...
Elle produziu com os beiços um estalido, e, ao mesmo tempo que alisava com a alentada mão os caracoes do cabello, declarou em tom de seriedade e sangue-frio:
--Estou cansado... Melhor, depois descansarei!... Quanto a ter medo, isso é verdade!... Pois se vocemecê acabou de contar que elles batem na gente até nos pôrem a escorrer sangue!... Quem é que tem vontade de ficar estropiado? Eu me arranjarei:--vou de noite... Sempre hei-de achar maneira de fazer o recado! Dê cá... Parto esta noite mesmo.
Ficou um momento calado, de sobrolho franzido, e logo:
--Vou d’aqui esconder-me na floresta. Depois, aviso os companheiros e digo-lhes: «Vão lá ter comigo e sirvam-se». É o melhor que ha a fazer! Se eu mesmo distribuisse os jornaes e fôsse apanhado, era uma pena por causa dos jornaes... Já ha tão poucos, que é preciso ter muita cautella com elles.
--E o medo? Que fazes tu a elle? Inquiriu de novo Pélagué.
Divertia-a deveras aquelle alentado rapagão de caracoes, pela sinceridade que vibrava na menor das suas palavras, pela sua fisionomia franca e pelas suas maneiras teimosas.
--O medo é o medo e negocios são negocios! replicou elle, mostrando muito os dentes. Para que está a mangar comigo? Então, já viram?... Talvez não seja coisa de metter medo a uma pessôa?... Mas já que é preciso, atira-se a gente ao lume! Quando se trata d’um negocio d’estes...
--Ah! meu filho! exclamou involuntariamente Pélagué, vencida pelo entusiasmo e o contentamento que elle lhe inspirava.
Elle sorriu acanhado:
--Ainda mais esta: eu, seu filho! Alguma criancinha, talvez?...
Nicolao, que não deixára de observar o rapaz, com olhar amigo, interveio então:
--Você não vae, homem!
--Então, que devo fazer? Onde é preciso que vá? interrogou elle com inquietação.
--Outro irá em seu logar e você ha de explicar-lhe meudamente como elle deve proceder. Quer fazer isto?
--Está bem! respondeu Ignaty de má vontade, apóz um instante de hesitação.
--Nós nos encarregamos de lhe fornecer documentos, para lhe arranjarmos um logar de guarda-matto.
--E se fôr lá gente do campo apanhar lenha ou caçar clandestinamente, de os prender? Para isso não sirvo eu!...
Os dois puzeram-se a rir, o que acabou por de todo atrapalhar o campónio, muito desgostoso.
--Não tenha medo! disse-lhe Nicolao. Não ha de ter occasião para tal, creia!
--Isso agora é differente! commentou Ignaty.
E já mais tranquillo, sorriu-se para Nicolao, confiado e alegremente.
--Eu sempre gostava mais de ir á fabrica; dizem que ha por lá camaradas bastante intelligentes...
Parecia que no vasto peito lhe ardia um fogo, intermittente ainda e que se extinguia por alternativas, não deixando ver mais que o fumo da perplexidade e de inquietação.
Pélagué levantou-se da mesa e foi á janella, dizendo, pensativa:
--Como a vida é singular!... Por cada cinco vezes que rimos, choramos outras tantas!... Que coisa pouco agradavel!... Já acabaste, Ignaty? Vae dormir.
--Não, senhora, não quero.
--Vae dormir, já te disse.
--Vocemecê é muito severa! Está bem, lá vou! E muito obrigado pelo seu chá, pelo assucar... e pela sua amisade!
Deitou-se na cama de Pélagué. Resmungava coçando a cabeça:
--Agora fica tudo a cheirar a alcatrão cá em casa... Olhe que faz mal em me amimar tanto, creia!... Eu não tenho somno... São ambos bôas pessoas... Já não percebo nada... parece que estou a cem mil kilometros da aldeia... E como elle falou bem a proposito no meio-termo... No meio-termo estão os que lambem as mãos dos que maltratam os outros... Demónio!
E subitamente, com um ronco sonoro, arqueando muito as sobrancelhas e de bôca entreaberta, adormeceu.
XXI
N’essa noite, já muito tarde, encontrava-se Ignaty n’um subterraneo, sentado em frente de Vessoftchikof e segredava a este:
--Quatro vezes, na janella do meio...
--Quatro? repetia o bexigoso, com ares de grande concentração.
--Sim; primeiro trez, assim...
E bateu na meza com o dedo dobrado, emquanto contava:
--Uma, duas, trez; e depois, mais uma vez, passado um instantinho...
--Estou percebendo.
--Ha de vir á porta um campónio de cabellos vermelhos, e ha de perguntar-lhe: «Vem por causa da parteira?» E você responde-lhe: «Sim, senhor, venho da parte do senhorio!» E não precisa mais, elle logo percebe do que se trata!
N’este colloquio, approximavam as cabeças; ambos altos e alentados, falavam baixinho, abafando muito a voz. De pé, junto d’uma mesa, com os braços cruzados sobre o peito, Pélagué observava-os. Todos aquelles signaes cabalisticos, aquellas perguntas e respostas convencionadas d’antemão, lhe davam immensa vontade de rir. E pensava:
«Não passam ainda d’umas crianças!»
Um candieiro seguro na parede illuminava as sombrias manchas do bolor e as gravuras recortadas de jornaes. Pelo chão jaziam baldes amolgados, fragmentos de zinco; e divisava-se pela janella, no ceu muito escuro, uma grande estrella scintillante. Reinava em toda a quadra um forte cheiro a ferrugem, tintas d’oleo e humidade.
Ignaty ostentava grosso sobretudo pelludo em que muito se comprazia; Pélagué via-o, volta e meia, acariciar com volupia a manga do espesso casacão e inclinar com custo o largo pescoço, para melhor se admirar. E um pensamento cantava no coração de Pélagué:
«Filhos!... meus queridos filhos!...»
--Ora aqui está! disse Ignaty, levantando-se. Então não se esqueça! Primeiro, ir a casa do Mouratof, perguntar pelo avô...
--Cá estou lembrado! respondia Vessoftchikof.
Mas Ignaty não se dava por crente, repetia-lhe outra vez todos os signaes combinados e todas as palavras de passe. Por fim, estendeu-lhe a mão.
--Agora não falta mais nada! Adeus, camarada! Dê-lhes recommendações minhas! Olhe, diga-lhes assim: «O Ignaty está vivo e passa bem.» É boa gente, verá!...
Mirou-se satisfeito, passou a mão pelo casacão e perguntou a Pélagué:
--Posso ir-me embora?
--E has de atinar com o caminho?
--Está claro que sim!... Até mais vêr, camaradas!
E lá se foi, aprumado, arqueando o peito, de chapeu novo á banda e as mãos enterradas nos bolsos. Na testa e nas fontes, os anneis dos cabellos, loiros e infantis, dansavam-lhe jovialmente.
--Ora até que emfim já tenho tambem trabalho! exclamou Vessoftchikof, approximando-se da velha. Andava aborrecido; perguntava a mim mesmo para que tinha saído da cadeia. Não faço senão andar escondido!... Ao menos, na cadeia, sempre aprendia! O Pavel recheava-nos a cabeça que era um gosto! E o André tambem nos limpava as idéas, sim senhora!... E então, sempre se decidiu a fuga? Arranja-se isso?
--Hei de sabel-o depois d’ámanhã! respondeu. E repetiu, suspirando, mau grado seu.
--Depois d’ámanhã...
O bexigoso approximou-se-lhe, descansou-lhe no hombro a alentada mão e opinou:
--Podes dizer aos chefes que é coisa facil. Elles hão de dar-te ouvidos! Ora vê tu mesma: aqui está a muralha da cadeia, ao pé d’um lampeão. Em frente, ficam umas terras sem cultivo; á esquerda, o cemitério; á direita, uma rua e o resto da cidade. Vem um accendedor de candieiros mesmo de dia, dia claro, para limpar o lampeão; encosta a escada ao muro, sobe, engata ao espigão da muralha os ganchos d’uma escada de corda que ha de ficar para o lado do pateo, e está prompto! Elles, na cadeia, já hão de saber a hora combinada, pedem aos presos de crimes communs que armem qualquer desordem, ou armam-na elles mesmos, e entretanto, os que estiverem na combinação marinham pela escada e está tudo feito! E d’ali vem de passeio até á cidade, emquanto elles lá ficam a procural-os pelo cemitério e nas taes terras de baldio!
Gesticulava com vivacidade, expondo este plano, aos olhos d’elle simples, claro e de extrema habilidade. Pélagué, que nunca conhecera n’elle mais que um rapagão tosco e desageitado, admirava-se de vêr aquelle rosto bexiguento tão cheio de vivacidade e intelligencia. D’antes, os minguados olhos de Vessoftchikof tudo fitavam com irritação e desconfiança; agora, era para crêr que outros os haviam substituido, rasgados e brilhantes de scintillações uniformes e severas que convenciam e emocionavam Pélagué.
--Pensa bem: de dia é que ha de ser!... Sim, de dia! Quem ha de imaginar que um preso se atreva a fugir de dia, á vista de todo o pessoal da prisão?
--E se os fusilassem? lembrou a mãe, horrorisada.
--Quem? Se não ha soldados, e os carcereiros servem se dos revólvers para pregar pregos!
--Quasi que estou achando tudo isso simples de mais!...
--Pois é como te digo; tu verás! Fala n’isso aos outros. Eu já arranjei tudo: a escada de corda, os ganchos... Já falei cá com o meu hospedeiro; é elle que ha de fazer de limpa-candieiros.
Para além da porta, mexia-se alguem entre accessos de tosse; ouvia-se um ruido de ferros velhos.
--Ahi está elle, o hospedeiro! annunciou o bexigoso.
Pela abertura da porta appareceu uma banheira de zinco, e uma voz encatarroada praguejou:
--Entra, diabo!
Depois, surgiu uma cara redonda e barbuda, de cabellos grisalhos, sem chapeu, d’expressão bonacheirona e grandes olhos esbogalhados.
--Vessoftchikof foi ajudar o homem a fazer passar a banheira pela porta; depois, o recemchegado, grande latagão corcovado, poz-se a tossir com um grande entumecimento nas faces imberbes, escarrou e disse na mesma voz rouca:
--Bôa noite!
--Pois agora, pergunta-lhe! convidou o rapaz.
--O quê? Que querem perguntar-me?
--É a respeito da fuga da cadeia.
--Ah, sim! disse o velho, limpando o bigode com os dedos sujos.
--Quer saber, Jacob? Ella não acredita que seja facil arranjar!
--Ah, não acredita? Pois se não acredita, é porque não quer a coisa. Mas nós dois, que queremos que isso se faça, acreditamos que seja facil! respondeu serenamente o homem.
Foi tomado d’um accesso de tosse que o dobrou em anglo recto, e em seguida esteve muito tempo no meio da quadra a aspirar com força o ar e a esfregar o peito. Fitava Pélagué com olhos de espanto.
--Mas não sou eu quem decide esta questão! observou ella.
--Mas fala lá com os outros; dize-lhes que está tudo arranjado! Ah! se eu pudesse falar com elles, eu os convenceria! exclamou o bexigoso.
Estendeu os braços em largo gesto e depois apertou-os como para abraçar qualquer coisa. Vibrava-lhe na voz um sentimento cuja energia assombrava Pélagué.
--Vejam que mudança fez! pensou ella.
E contestou em voz alta:
--O Pavel e os companheiros é que hão de decidir.
Meditativo, o outro ficou-se de cabeça baixa.
--Quem é esse Pavel? interrogou o velho, tomando logar n’um banco.
--É o meu filho.
--Qual é o nome da familia?
--Vlassof.
Elle abanou a cabeça, puxou pela bolsa do tabaco e, emquanto enchia o cachimbo:
--Tenho ouvido falar. O meu sobrinho conhece-o. O meu sobrinho tambem está na cadeia; chama-se Evetchenko. Conhece? Eu chamo-me Gadoune. D’aqui a pouco, está na cadeia! Então é que a gente ha de viver feliz e socegada, nós, os velhos! Um, da policia, prometteu que me havia de pregar com o sobrinho na Sibéria... E ha de cumprir a promessa, o excommungado!
Entrou de fumar, escarrando para o chão de vez em quando.
--Ah! ella não quer? continuou, virado para o rapaz. Isso é com ella!... O homem é livre! Quem está cansado, que se sente; quem estiver cansado de estar sentado, passeie!... Quem fôr roubado, que se cale; quem fôr tosado, soffra com resignação! E se o matarem, que se deixe caír!... Sempre é certo isto. Mas eu cá hei de fazer saír o meu sobrinho da cadeia. Olá, se hei-de!...
Estas expressões incisivas, parecidas com latidos, tornaram Pélagué perplexa. As ultimas palavras do velho haviam até excitado n’ella uma tal ou qual inveja.
Pela rua fóra, ao vento gélido e á chuva, ia pensando no Vessoftchikof.
--Como elle está mudado!... Vejam aquillo!
E ao lembrar-se de Gadoune, meditou com um sentimento quasi de religiosa piedade:
--Ao que parece, não sou só eu que ando n’esta vida de promissão!
Depois, a imagem de seu filho accudiu-lhe ao espirito:
--Se elle consentisse, ao menos!...
XXII
No domingo seguinte, ao despedir-se de Pavel, na secretaría da cadeia, sentiu que elle lhe deixava na mão uma bolinha de papel, o que a fez estremecer de alvoroço. Lançou ao filho olhar interrogador e supplicante, mas Pavel não lhe deu resposta alguma. Nos olhos azues do filho nada viu além do sorriso sereno e decidido que conhecia bem.
--Adeus! disse, suspirando.
De novo, Pavel, ao estender-lhe a mão, deu ao rosto carinhosa expressão.
--Adeus, mamã!
Reteve ainda a mão do filho, á espera.
--Não te inquietes... Não te zangues... supplicou elle.
Estas palavras e o vinco de obstinação d’aquella fronte deram á mãe a resposta esperada.
--Porque dizes isso? murmurou, baixando a cabeça. Que ha n’essas tuas palavras?
E saíu rapida, sem o fitar para não traír com as lagrimas o seu estado de espirito. Pelo caminho, chegava-lhe a parecer que lhe doía a mão em que trazia o bilhete de seu filho; sentia o braço pesado como se lhe tivessem dado uma pancada no hombro. E, ao entrar em casa, entregou a Nicolao a bolinha de papel. Emquanto esperava que elle desdobrasse o papel, fortemente comprimido, ainda teve um novo vislumbre de esperança. Mas Nicolao disse-lhe:
--Já o sabia! Aqui tem o que escreve: «Companheiros: não fugiremos; não devemos fazel-o; nenhum de nós se presta a isso. Perderiamos assim o respeito por nós mesmos. Tratem antes do camponez ultimamente preso. Merece a vossa sollicitude. É digno das vossas deligencias. Está soffrendo horrores, aqui. Todos os dias tem desaguisados com as autoridades. Já passou vinte e quatro horas no segredo. É torturado sem descanso. Todos nós intercederemos por elle. Consolem minha mãe; tratem d’ella com carinho. Contem-lhe tudo isto; ella ha de compreender. Pavel.»
Pélagué ergueu a cabeça e com voz firme:
--Contar-me, o quê? Já compreendi tudo!
Nicolao virou de súbito as costas, puxou pelo lenço e assoou-se com ruido. Murmurou:
--Sempre apanhei um defluxo!...
Occultou os olhos com a mão, sob pretexto de compôr os oculos, e continuou, passeiando pelo quarto:
--Olhe, sabe que mais?... Assim como assim, haviamos de nos saír mal da empreza!
--Que importa! Pois que seja julgado! disse a mãe de Pavel com o peito a estalar de indefinida angustia.
--Recebi ha pouco carta d’um collega de São Petersburgo.
--Tambem da Sibéria se pode fugir, não é assim?
--Com certeza... O meu collega diz-me que o processo cedo será julgado. O veredicto já é conhecido: o degredo para todos. Ora veja a senhora: aquelles patifes fazem da justiça uma comedia infame!... Está compreendendo? A sentença é lavrada em São Petersburgo, antes mesmo da decisão do jury!
--Não pense mais n’isso, Nicolao! disse Pélagué resoluta. É inutil pretender consolar-me ou explicar-me seja o que fôr!... O Pavel nunca ha de fazer nada que não seja bem feito! E não se ha de apouquentar senão pelo que o mereça!... Aqui, deteve-se para tomar folego.
--Assim como tambem nunca apouquenta os outros... E elle estima-me! Estima-me, sim! Não vê como se lembrou de mim? «Consolem-na», escreveu elle, an?
Batia-lhe forte o coração; a violencia do seu sentir fazia-lhe um tanto andar a cabeça á roda.
--Seu filho é uma bella alma! exclamou Nicolao com voz singularmente vibrante. Estimo-o e venero-o profundamente!
--E se nós tratassemos do Rybine! alvidrou ella.
O seu desejo era entrar immediatamente em acção, partir, caminhar até caír de fadiga, para depois adormecer satisfeita com o seu dia de trabalho.
--Sim, com effeito! respondeu Nicolao, proseguindo no passeio pelo quarto. Que fazer n’este caso?... Eu preciso que a Sachenka...
--Ella não tarda. Vem sempre que sabe que eu estive com o Pavel.
De cabeça baixa, meditativo, sentou-se Nicolao no canapé, ao lado d’ella. Mordia os beiços e cofiava a barbicha.
--Que pena minha irmã não estar por ahi!... Ella é que havia de tratar da fuga do Rybine.
--Se fôsse possivel dar-lhe já fuga, emquanto o Pavel ainda ahi está... Havia de ficar tão contente! disse ella.
Esteve um instante calada e, de repente, baixinho e com dolencia: