A Mãe

Part 18

Chapter 183,707 wordsPublic domain

Em seguida, o pensamento representou-lhe Lioudmila e o doutor de pé, junto da janella, n’aquelle quarto muito branco e cruamente illuminado, os olhos embaciados de Iégor; e, invadida por um sentimento oppressor, de compaixão, suspirou profundamente e entrou a caminhar mais depressa, impellida por vago presentimento...

«É preciso marchar para a frente!» pensou sob o impulso de coragem valorosa e contristada, que lhe subia do coração.

X

O dia seguinte passou-o Pélagué a dispôr tudo para o enterro de Iégor. Á noite, quando tomava o chá, com Nicolao e Sofia, appareceu Sachenka, animada e expansiva, o que era para admirar. Vinha com as faces córadas, os olhos brilhantes, e Pélagué percebeu que ella trazia qualquer esperança risonha. Este radiante estado de espírito veio fazer uma irrupção barulhenta e tumultuosa no curso melancolico das recordações, mas sem o distraír era como uma viva claridade que tivesse brilhado de súbito n’aquellas trevas e que vinha incommodar a pequena reunião. Nicolao, pensativo, bateu na mesa:

--Acho-a mudada hoje, Sachenka!...

--Deveras! Póde ser! respondeu com uma risadinha de contentamento.

Pélagué lançou-lhe um mudo olhar de censura. Sofia fez notar, accentuando as palavras:

--Estavamos falando do Iégor.

--Que bello homem! não é verdade? exclamou Sachenka. Sempre tinha prontos nos labios um sorriso e um gracejo... Trabalhava tão bem! Era o artista da revolução; possuia em alto grao a idéa revoluccionaria, como um verdadeiro mestre! Com que simplicidade mas ao mesmo tempo com que veemencia elle sabia descrever-nos o homem--o homem falso, perverso e violento! Muito lhe devo eu!

Dizia isto a meia voz, com um sorriso de reflexão, mas que não lhe extinguia no olhar o brilho de alegria que era bem visivel e que nenhum dos trez compreendia. É que nos acontece ás vezes sentirmos prazer com um pezar, fazermos d’elle um brinquedo torturante que nos roe o coração. Mas Nicolao, Sofia e Pélagué, esses, não queriam deixar que se dissipasse a sua tristeza, nem abandonal-a aos sentimentos despreoccupados que Sachenka viera ali trazer; sem d’isso terem consciencia, defendiam o seu melancolico direito de se acolherem á dôr, e tentavam fazer entrar a recemchegada no circulo das suas preoccupações.

E, afinal, está morto! insistiu Sofia, fitando-a com attenção.

Ella vagueou pelos presentes interrogador olhar e baixou a fronte.

--Está morto?... repetiu em voz alta. Custa-me conformar-me com este facto.

Entrou a passear a todo o comprimento da sala, e em seguida, estacando de súbito, proseguiu em tom singular:

--Mas que significa isso: «Está morto?» O que foi que morreu? A minha estima pelo Iégor, a minha affeição por esse camarada, a memoria do que a sua intelligencia praticou, tudo isso morreu? A opinião que eu tinha d’elle--a d’um homem valente e leal--ficou por ventura aniquilada? Morreu tudo isso? Para mim, tudo isso, a melhor parte d’elle proprio, nunca ha de morrer, sei-o bem! Parece-me que ha sempre pressa de mais em se dizer que um homem morreu! Se os seus labios morreram, as suas palavras estão vivas no coração dos que as escutaram.

Muito commovida, tornou a sentar-se, encostou-se á mesa e continuou com mais brandura:

--Talvez sejam tolices o que digo, mas olhem, camaradas: creio na immortalidade da gente de bem!

--Teve alguma novidade? Está tão alegre! perguntou-lhe Sofia, amavel.

--Tive! respondeu Sachenka, confirmando a resposta com um aceno. Uma novidade muito agradavel, ao que julgo. Falei toda a noite com o Vessoftchikof. Antigamente não gostava d’elle; achava-o muito grosseiro, muito ignorante, o que realmente era verdade. Havia n’elle um mau humor, uma irritação indefinida e continua para com todos; estava sempre a antepôr-se a tudo com uma insistencia que chegava a aborrecer, sempre a falar de si mesmo... Aquelle homem tinha o que quer que fôsse de maldade, que enervava.

Interrompeu-se para sorrir e relanceou em torno um olhar radiante:

--E agora, não: fala já dos seus «companheiros». E se ouvissem como elle pronuncia esta palavra! Com uma veneração tão terna, com tanta meiguice, que ninguem o póde intimar! Caíu em si, sabe a força de que dispõe, sabe o que lhe falta... e hoje, o que sente sobre todas as coisas é o verdadeiro sentimento de camaradagem, uma immensa dedicação, capaz de ir ao encontro das maiores provações.

Escutava-a Pélagué, encantada com a alegria d’aquella rapariga, por hábito tão triste. Mas, ao mesmo tempo, no recondito do seu coração brotava secreto pensamento de inveja: «E o Pavel, que faz elle no meio de tudo isto?»

--Só pensa nos camaradas, continuava Sachenka; e sabem o que elle me persuadiu que fizesse? Que arranjasse uma fuga geral dos presos... É verdade! Diz que é facil.

Sofia ergueu a cabeça e, em tom de animação:

--E que lhe parece, Sachenka? É uma boa idéa.

A chavena de Pélagué entrou a tremer-lhe na mão; pousou-a sobre a meza. Sachenka ficou-se um instante calada, de sobrolho franzido, reprimindo o entusiasmo; depois, muito séria mas com um sorriso radiante, respondeu com alguma hesitação:

--Certo é que se as coisas são realmente como elle diz, devemos tentar... é o nosso dever.

Córou, deixou-se caír n’uma cadeira e nada mais acrescentou.

A mãe de Pavel esboçou um sorriso de muita meiguice, dizendo comsigo: «Querida! Querida da minha alma!» Sofia sorriu tambem; Nicolao soltou uma gargalhadinha, e attentou na rapariga, bondosamente. Então, ella ergueu a fronte, olhou em torno com severidade, e, pallida, com os olhos a faiscar, disse seccamente:

--Riem-se... Percebo porque é. Pensam que sou pessoalmente interessada no resultado da evasão, não é isto?

--Mas porquê, Sachenka? interrogou Sofia hypocritamente.

E, levantando-se d’onde estava, foi pôr-se ao lado d’ella. Pélagué achou a pergunta futil e humilhante para Sachenka e assim lho fez sentir com um olhar.

--Mas, então, não quero tratar de nada! exclamou Sachenka. Não quero tomar parte na discussão, desde o momento que consideram este projecto...

--Cale-se, Sachenka! disse Nicolao sem se exaltar.

A mãe de Pavel foi para a rapariga e afagou-lhe brandamente os cabellos. Sachenka agarrou-lhe logo a mão e voltando para ella o rosto, onde o sangue affluira, fitou-a, confusa. Sofia arrastou uma cadeira, sentou-se ao lado de Sachenka, passou-lhe o braço em volta da cinta e disse-lhe, ao passo que a fitava com curiosidade:

--Que caracter singular o seu!

--Sim, parece-me que disse tolice... mas é que eu gosto das coisas claras...

Nicolao interrompeu-a para dizer em tom sério e preoccupado:

--Se a evasão é possivel, trate-se d’isso, não temos que hesitar!... Mas antes de mais nada, é preciso saber se os companheiros encarcerados estarão d’accordo.

Sachenka curvou a fronte.

--Como se elles pudessem recusar! disse Pélagué, suspirando. O que eu não creio é que isso se possa fazer!

Todos ficaram calados.

--Deixem me falar com o Vessoftchikof, disse Sofia.

E Sachenka annunciou em voz baixa:

--Bem! amanhã lhe digo onde e quando póde encontral-o.

Nicolao approximou-se da velha, que estava lavando as chavenas.

--Vocemecê vae depois d’amanhã á cadeia; é preciso fazer chegar um bilhete ás mãos do Pavel. Compreende? É preciso que a gente saiba...

--Compreendo. Compreendo! interrompeu ella com vivacidade. Eu me encarrego de lho entregar.

--Vou-me embora! declarou Sachenka e, tendo distribuido pelos companheiros vigorosos apertos de mão, foi-se, sem mais uma palavra.

Poisou Sofia a mão no hombro de Pélagué e a sorrir:

--Queria ter uma filha como esta, Pélagué?

--Meu Deus! Se eu pudesse vel-os casados, ainda que não fôsse senão um dia! exclamou a bôa mulher quasi a chorar.

--Sim, a felicidade de cada um consiste em ser-se um bocadinho feliz... Quando essa felicidade é demasiada, tambem é de qualidade inferior.

E Sofia foi para o piano tocar uma musica triste.

XI

Na manhã seguinte, apinhavam-se ao portão de ferro do hospital algumas duzias de homens e de mulheres, á espera que saísse o enterro do companheiro. Pelo meio d’elles, cautelosamente, giravam varios espiões, escutando cada exclamação, retendo de memoria rostos, gestos e palavras; no passeio fronteiro, estava um grupo de policias, de revolvers á cinta. A imprudencia dos primeiros e os risos irónicos dos segundos, a fazerem alarde da força, irritavam o povo.

Uns disfarçavam a ira que os possuia e gracejavam; outros, ficavam-se cabisbaixos, olhando para o chão, para não verem aquelle apparato ultrajante; outros ainda, incapazes de conter o seu furor, zombavam dos poderes públicos e do seu medo de gente que por armas só tinha o dom da fala. Um ceu de outono, de azul muito pallido, illuminava a rua calcetada a seixos redondos, semeada de folhas mortas, que as lufadas erguiam em remoinhos diante dos pés dos transeuntes.

Entre a multidão, estava Pélagué. Ia contando as caras conhecidas e pensava tristemente:

--Não são bastantes!... não são bastantes!

O portão rodou nos gonzos. Trouxeram para a rua a tampa do caixão, enfeitada com corôas de fitas encarnadas. Silenciosos, os homens tiraram a um tempo os seus chapeus: dir-se-ia uma revoada de passaros pretos que se tivesse levantado das cabeças. Um official da policia, de avantajada estatura, de grossos bigodes escuros atravessados n’um rosto vermelhaço, cercado de policias e soldados, precipitou-se por entre o povo, empurrando todos sem cerimonia, e gritou com voz roufenha e autoritaria:

--Tenham a bondade de tirar as fitas!

N’um prompto viu-se rodeado de homens e mulheres, em circulo compacto, falando todos á uma, gesticulando, empurrando-se uns aos outros. Perante o olhar turvado de Pélagué, agitaram-se em confusão rostos lividos e excitados, com os beiços a tremer de ira; e pelas faces d’uma mulher corriam pesadas lagrimas d’humilhação.

--Abaixo a prepotencia! gritou uma voz juvenil que se sumiu, desacompanhada, no borborinho da discussão.

Pélagué sentia referver-lhe a amargura; voltou-se para o seu visinho, rapaz pobremente vestido, e disse-lhe:

--Até não nos deixam enterrar um camarada, como entendermos!...

Augmentava a hostilidade, a tampa do esquife vacillava por sobre as cabeças, as fitas agitadas pelo vento envolviam os rostos e as cabeças; ouvia-se-lhes o crepitar nervoso e secco da seda.

Pélagué, tomada de terror gelido por uma desordem possivel, dirigia aos que lhe ficavam proximos e a meia voz, frases rapidas:

--Que importa!... Uma vez que tem de ser... tirem-se as fitas... é melhor ceder... Para que serve resistir?

Resoou uma voz aspera e sonora, que dominou o tumulto:

--Queremos que nos deixem acompanhar á sua ultima morada um companheiro que vocês martyrisaram!

Alguem,--alguma rapariga com certeza--poz-se a entoar n’uma voz aguda e fina:

E vós caístes, victimas, na lucta...

--Façam favor de tirar as fitas! Jakovlef! corta essas fitas!

Ouviu-se o tinido d’uma espada a saír d’uma bainha. Pélagué fechou os olhos, na espectativa d’um grito. Mas tudo socegou; o povo rosnava, mostrava os dentes como os lobos perseguidos. Depois, de cabeça baixa, em silencio, esmagados sob o sentimento da impotencia, puzeram-se a caminho, fazendo ecoar pela rua o ruido dos passos.

Á frente, a tampa do caixão despojada dos seus ornatos, com as corôas esfrangalhadas, lá ia erguida no ar; depois, vinham os agentes de policia, balançando-se d’um e outro lado, em cima dos cavallos. Pélagué seguia pelo passeio; não podia enxergar o caixão, devido á muita gente que o cercava; augmentava sem cessar o número dos manifestantes, que occupavam já toda a largura do calcetamento. Atraz da multidão, alteavam-se tambem os vultos uniformes e cinzentos dos guardas de cavalaria; de cada lado, polícias, com a mão nos copos das espadas; e, por toda a parte, divisava Pélagué caras de espiões com os agudos olhares a prescrutarem as fisionomias.

--_Adeus, companheiro, adeus!_ cantaram suavemente duas vozes bonitas.

--Silencio! gritou alguem. Calem-se, amigos! Calem-se por emquanto!

Havia n’esta exclamação uma rudeza tão suggestiva de ameaçador conselho, que o povo calou-se. O canto funebre ficou interrompido, e o ruido das vozes socegou; só se ouviam agora passos amortecidos, n’um tropel que se elevava muito alto, que se perdia na transparencia do ceu, agitando a atmosfera, assim como o ecco do primeiro trovão de tempestade ainda longinqua. O vento, cada vez mais frio, atirava aos rostos, com animosidade, poeira e lama entumecia os vestidos, entorpecia as pernas, vergastava os peitos...

Aquelle funeral silencioso, sem um sacerdote, sem um cantico, aquellas fisionomias oppressas e carrancudas, aquelle ruido de passos energicos, tudo provocava em Pélagué pungente angustia; o pensamento redemoinhava-lhe indeciso, revestindo de frases tristes as suas impressões:

--Ah! que não sois bastantes... luctadores da liberdade, não sois bastantes! E comtudo teem-vos medo!

Afigurava-se-lhe não ser aquelle mesmo Iégor seu conhecido que ia a enterrar, mas sim uma coisa habitual, que lhe fôsse intima e indispensavel. Dominava-a um sentimento de violenta revolta: não estava d’accordo com aquella gente. Pensava:

--Sei-o bem: Iégor não cria em Deus, como estes tambem não crêem...

Mas não conseguia concluir a sua idéa e suspirava, como a querer desembaraçar a alma de pesado fardo:

--Ó Senhor! Senhor!... Jesus!... Será possivel que tambem eu vá a enterrar assim?...

Chegaram ao cemiterio. Depois de muitas voltas por entre os sepulcros, parou o cortejo n’um vasto espaço livre, semeado de cruzinhas brancas. A multidão agrupou-se em torno d’uma cova e estabeleceu-se silencio. E este austero silencio dos vivos, entre tumulos, presagiava alguma coisa terrivel que sobresaltava o coração de Pélagué. Immobilisou-se então na espectativa. O vento uivava por entre as cruzes; em cima do caixão adejavam tristemente flôres murchas.

A gente da policia, vigilante, tinha-se alinhado, seguindo com os olhares os movimentes do chefe. Então, um rapaz alto, pallido, com a cabeça descoberta, negras sobrancelhas e comprido cabello negro, foi postar-se junto do coval. No mesmo instante, ouvia-se a voz roufenha do official da policia.

--Meus senhores!...

--Companheiros! começou o rapaz com voz sonora.

--Perdão! gritou o official. Tenho a declarar-lhes que não consinto discursos.

--Limitar-me-ei a dizer algumas palavras, observou socegadamente o orador: «Companheiros! Juremos sobre a sepultura do nosso mestre e amigo nunca esquecermos os seus ensinamentos, juremos trabalhar cada qual toda a nossa vida e sem descanso, para destruir a origem de todos os infortunios da nossa patria, a forca damninha que a opprime, a autocracia!»

--Prendam-no! gritou o official.

Mas logo teve a voz coberta por uma explosão de gritos:

--Morra a autocracia!

Afastando a multidão, ás cotovelladas, os polícias atiraram-se para o orador, a quem o povo formava estreito circulo, emquanto elle bradava:

--Viva a liberdade! É por ella que devemos viver e morrer!

Pélagué foi arrebatada para longe. Transida de terror, agarrou-se a uma cruz e fechou os olhos, á espera do golpe que havia de feril-a. Ensurdecia-a um turbilhão impetuoso de sons discordantes; sentia faltar-lhe o solo debaixo dos pés; opprimiam-lhe a respiração o vento e o medo. Os apitos da policia rasgavam o ar; resoavam vozes roucas, de commando; mulheres soltavam gritos nervosos; estralejavam madeiras das divisorias de covaes; no terreno, secco, resoava lugubremente o pesado tropel de toda aquella gente. Durou isto muito tempo.

Pélagué não podia conservar por maior espaço os olhos fechados; era demasiado lancinante o seu horror. Olhou em volta, e soltando uma exclamação entrou a correr, de braços estendidos. Não longe, em estreito carreiro, entre tumulos, estavam os policias cercando o rapaz de cabello preto e defendendo-se dos ataques da populaça. Scintillavam pelo ar com brancos e frios reflexos, as laminas desembainhadas; elevavam-se acima das cabeças e caíam rapidamente. Bengalas, destroços dos tapumes surgiam, para logo desapparecerem; em selvagem torvelinho, cruzavam-se os gritos da multidão amotinada; de vez emquando, divisava-se o rosto pallido do rapaz; com voz forte que dominava a tempestade das iras, bradava:

--Camaradas! Para que serve sacrificarem-se inutilmente?

Acabaram por lhe obedecer. Atiraram para longe os cacetes e uns apóz outros, foram-se afastando. Pélagué continuava a caminhar, arrastada por força invencivel. Viu Nicolao, com o chapeu para a nuca, a repellir os manifestantes, cegos de colera; ouviu-o dirigindo-lhes censuras:

--Endoideceram?... Soceguem!

Pareceu-lhe que trazia uma das mãos toda ensanguentada.

--Vá-se d’aqui Nicolao! gritou, atirando-se-lhe ao encontro.

--Onde vae a correr? Olhe que lhe fazem mal!

Sentiu-se agarrar por um hombro. Voltou-se. Era Sofia, sem chapeu, os cabellos em desalinho, sustendo nos braços um rapaz, quasi uma criança, que limpava á mão o rosto tumefacto e balbuciava com os beiços a tremer:

--Deixem-me... não é nada!

--Veja se trata d’elle. Leve-o para nossa casa.

Aqui tem um lenço... amarre-lhe a cabeça! disse Sofia rapidamente.

E introduzindo entre as mãos de Pélagué a mão do rapaz, deitou a correr, com um ultimo conselho:

--Vão se depressa, se não são presos!

Os manifestantes precipitavam-se por todas as saídas do cemitério; atraz d’elles, os polícias marchavam pesadamente por entre as sepulturas. Embaraçados com as compridas abas das fardetas, praguejavam e brandiam as espadas. O rapaz seguia-os de longe, com a vista.

--Vamos, depressa! disse-lhe Pélagué com brandura. E limpou-lhe o rosto.

O pequeno lançou um escarro de sangue e ciciou:

--Não lhe dê cuidado... não sinto nada. O polícia bateu-me com o punho da espada, na cara e na cabeça... E eu dei-lhe com o meu pau... Sempre apanhou uma sova!... Até uivava!

--Depressa! instava Pélagué, dirigindo-se rapida, para uma pequena aberta do muro do cemitério.

Pareceu-lhe distinguir para além do muro dois policias á espreita, disfarçados com a verdura e que os esperavam, para lhes saltarem em cima á pancada, tão depressa elles apparecessem. Mas depois de ter empurrado a portinha com precaução, espraiou a vista pelo campo, todo envolvido no tecido pardacento d’aquelle crepusculo outonal. O silencio e a quietação que n’elle reinavam tranquillisaram-na de súbito.

--Espere, deixe-me ligar-lhe a cabeça, propôz.

--Não senhora; não tenho que me envergonhar das minhas feridas.

Pélagué pensou-o summariamente.

Aquelle sangue fresco e vermelho apiedou-a immenso; ao sentir-lhe com os dedos a quente humidade, toda a percorreu um estremecimento de terror. Em seguida, conduziu o ferido pelo braço, pelo campo fóra, sem proferir uma palavra. Elle libertou os lábios da ligadura para dizer alegremente:

--Para que vae a puxar por mim, camarada? Eu posso bem caminhar sósinho!

Mas Pélagué sentia-o cambaliar, o andar vacillava-lhe. A voz ia-lhe enfraquecendo emquanto falava, interrogando-a sem esperar as respostas.

--Chamo-me Ivan, sou funileiro... e a senhora quem é? Eramos trez no club do Iégor... trez funileiros; ao todo, eramos onze! Gostavamos muito d’elle.

Na rua mais proxima, Pélagué tomou um trem e para elle fez subir Ivan, segredando-lhe:

--Agora, cale-se.

E para mais segurança, puxou-lhe outra vez a ligadura para a bocca. Elle levou logo a mão á cara, mas não conseguiu libertar os lábios; o braço recaíu inerte sobre os joelhos. Ainda assim, continuava a murmurar atravez do lenço:

--Nunca me esquecerei d’estas pancadas, amiguinhos da policia!... Antes do Iégor, era um estudante que nos dirigia... Ensinava-nos economia politica... Era muito rigoroso, muito aborrecido... Afinal, prenderam-no.

Ella passou-lhe o braço em volta e descansou no seio a cabeça do rapaz. De súbito, sentiu que lhe pesava mais, ao mesmo tempo que se tinha calado. Transida de medo, Pélagué olhava para todos os lados; parecia-lhe ver a cada esquina um polícia, pronto a agarrar Ivan e a matal-o.

O cocheiro voltou-se na almofada, com um sorriso:

--Bebeu, an?

--É verdade, até caír! respondeu ella, suspirando.

--É teu filho?

--É, sim. É sapateiro... Eu sou cosinheira...

--Ah, sim! É duro officio!

Descarregou uma chicotada no cavallo e logo tornou a voltar-se. Baixou a voz.

--Sabes? Houve ha pouco grande desordem no cemitério. Era o enterro d’um d’esses políticos, d’essa gente que está contra a autoridade... que tem questões com a polícia. Havia amigos do defunto no acompanhamento... Elles então puzeram-se a gritar: «Morram as autoridades, que arruinam o povo»!? A polícia bateu-lhes. Dizem que alguns ficaram mortos... Mas a policia tambem apanhou pancada.

Calou-se o cocheiro, abanou a cabeça com ares de desconsolo e proseguiu n’um tom de voz estranho:

--Assim se vão incommodar os mortos... accordar os cadaveres que dormem!

O trem ia aos salavancos pela calçada, chiando muito; a cabeça de Ivan rolava suavemente no peito da sua enfermeira. O cocheiro, virado para elles, continuou, pensativo:

--Anda a agitação entre o povo... As desordens parece que se levantam debaixo dos pés... É verdade! Esta noite veio a polícia a casa d’uns visinhos. Fizeram lá não sei o quê até pela manhã e depois, quando se foram, levaram preso um que é ferreiro. Dizem que uma noite d’estas vão leval-o ali á beira no rio e afogam-no em segredo. E todavia, era um homem intelligente, aquelle ferreiro.

--Como se chama elle? perguntou a velha.

--O ferreiro? Chama-se Savyl, mas tem um outro nome: Evetchenko. É muito mocinho ainda, mas já compreendia muitíssimas coisas, e é proíbido compreendel-as, ao que parece...

Ás vezes, apparecia lá pelas estações de carroagens e dizia-nos: «Que vida que vocês levam cocheiros!»

--É verdade, respondiamos-lhe nós, o nosso officio é peor que o dos cães!»

--Pára ahi! ordenou Pélagué.

O sobresalto produzido fez então que Ivan voltasse a si. Entrou a gemer devagarinho.

--Esse rapaz está muito doente, observou o cocheiro.

Vacillante, Ivan atravessou o páteo, custando-lhe collocar um pé adiante do outro.

--Não é nada, dizia. Ando perfeitamente...

XII

Sofia já estava de volta. Atarefada e mexendo-se muito, recebeu a velha, de cigarro na bocca. Deitou o ferido n’um canapé e ligou-lhe com perícia a cabeça, ao mesmo tempo que ia dando ordens. O fumo do cigarro obrigava-a a piscar os olhos:

--Doutor, ahi os tem. Sente-se fatigada, Pélagué? Teve muito medo, não é assim? Está bem, descanse agora um bocado... Nicolao vae-lhe já buscar o chá e um copo de Porto.

Emocionada por taes acontecimentos, Pélagué respirava com difficuldade e resentia-se de uma dolorosa sensação de picada no seio.

--Não se importem commigo, murmurou.

E toda a sua pessôa, transida de medo, supplicava um affago, um pouco de attenção... Nicolao veio do quarto contiguo. Trazia a mão ligada. Atraz d’elle entrou o médico, com os cabellos desgrenhados, como um ouriço. Correu para Ivan, curvou-se a examinal-o e pediu:

--Agua, muita agua! Pannos de linho limpos! Algodão em rama!

Já Pélagué se dirigia á cosinha, mas Nicolao travou-lhe do braço e disse-lhe affectuosamente, levando-a para a casa de jantar:

--Não é comsigo que elle fala, é com a Sofia. A minha querida amiga passou por bastantes commoções, não é verdade?

Aquelle falar apiedado respondeu ella com um soluço mal contido e exclamou:

--Ah! que horrivel coisa!... A espadeirarem o povo... a espadeirarem!

--Eu tambem lá estava, disse Nicolao, com um aceno confirmativo de cabeça. E encheu um copo de vinho quente. Dos dois lados houve egual exaltação... Mas não tenha receio; a polícia aggrediu só com a parte mais larga das espadas; só uma pessoa ficou ferida gravemente, ao que me parece... e essa vi-a eu caír ao pé de mim... Puxei-a até para fóra da batalha.

A fisionomia e a voz com que Nicolao lhe falava, a claridade e o calor que reinavam no aposento, socegaram os nervos de Pélagué. Dispensou ao seu hospedeiro um olhar de reconhecimento e perguntou-lhe:

--Tambem ficou ferido?