A Mãe

Part 19

Chapter 193,828 wordsPublic domain

--Sim, e creio que por culpa minha... Sem querer, rocei com a mão não sei por quê e fiquei com a pelle arrancada. Beba o seu vinho... Faz frio e vocemecê tem um fato tão leve!...

Ella estendeu as mãos para o copo e reparou que tinha os dedos cheios de sangue coagulado. Em gesto instinctivo, deixou caír os braços sobre os joelhos. Tinha a saia húmida. Esgazeou os olhos, com as sobrancelhas muito erguidas, examinou furtivamente os dedos. A cabeça andava-lhe á roda, uma idéa martelava-lhe no cérebro:

--Ahi está, ahi está o que espera o Pavel um dia!

Voltou o médico. Vinha em mangas de camisa e estas arregaçadas. A uma interrogação muda de Nicolao, respondeu com a sua vozinha delgada:

--A ferida do rosto é insignificante, mas houve fractura do craneo, que tambem não é muito grave... O rapazola é valente, mas ainda assim perdeu muito sangue. Vamos leval-o para o hospital.

--Para quê? Póde ficar aqui! accudiu Nicolao.

--Hoje e ámanhã talvez, mas depois era preferivel que se tratasse no hospital, não tenho tempo para visitas. Encarregas-te do relatório do que se passou no cemitério?

--Bem entendido! respondeu Nicolao.

Pélagué levantou-se então sem fazer bulha e dirigia-se para a cosinha.

--Onde vae? exclamou Nicolao alvoroçado. Deixe lá a Sofia governar-se sósinha!

Com um olhar e um sorriso involuntário, singular, respondeu a tremer:

--Estou toda suja de sangue... Estou toda suja de sangue!

E ao mudar de roupa, no seu quarto, mais uma vez ficou a meditar na serenidade d’aquella gente, n’aquella faculdade de que dispunham de não demorar muito tempo o pensamento no horror dos acontecimentos. Esta reflexão fêl-a caír em si, vencendo o sentimento de terror de que estava possuida. Quando voltou ao quarto onde jazia o ferido, Sofia, curvada sobre este, dizia-lhe:

--Que tolice, camarada!

--Mas eu vou incommodal-os! observou elle em voz debil.

--Cale-se; é o melhor que tem a fazer.

Pélagué parou por detraz d’ella e pousou-lhe a mão no hombro; fitou depois, sorrindo, o rosto muito branco do ferido e pôz-se a contar o medo que lhe tinha causado o seu accesso de delírio, no trem. Ivan escutava-a com os olhos a arder em febre; fazia estalar os beiços e exclamava de vez em quando, como que envergonhado:

--Oh, que tolo que eu sou!

--Bem, agora vamos deixal-o, declarou Sofia compondo-lhe as roupas que o cobriam. Descanse!

E as duas mulheres passaram para a casa de jantar, onde, com Nicolao e o médico, por muito tempo conversaram baixinho sobre os acontecimentos d’esse dia. Já o drama era tratado como coisa remota, já se falava do futuro com tranquillidade; preparava-se a tarefa de ámanhã. Se os rostos exprimiam a fadiga, os pensamentos latejavam vivos. O doutor mexia-se nervosamente na cadeira, esforçando-se por velar a voz, que tinha aguda e esganiçada:

--Ora, a propaganda!... Não basta; os operários têem razão: é necessario exercer a agitação em terreno mais vasto. Creiam que os operários têem razão!

Nicolao acrescentou com ar desconsolado:

--Por toda a parte se queixam da insufficiencia dos livros e ainda não conseguimos montar uma bôa imprensa... A Lioudmila está esgotada de forças, vae nos caír doente, se não lhe arranjarmos collaboradores.

--E o Vessoftchikof? perguntou Sofia.

--Esse não póde residir na cidade. Ha de entrar para o serviço da nova imprensa... mas falta-nos ainda alguem...

--E se eu pudesse servir? propôz a velha com brandura.

Os trez fitaram-na um momento.

--É uma bôa idéa! exclamou Sofia de repente.

--Não; é muito difficil para você, creia, Pélagué, contestou Nicolao com secura. Era preciso que fôsse viver para fóra da cidade, que não pensasse mais em ver o Pavel, e em geral...

Ella replicou, suspirando:

--Olhe que não faria grande falta ao Pavel... e pela minha parte, tambem essas visitas me partem o coração. É proibido falar seja do que fôr! Até pareço uma idiota aos olhos do meu filho! Estão ali mesmo, sempre a espiar-nos!

Os recentes acontecimentos haviam-na fatigado, e agora, quando se lhe apresentava ensejo de afastar a idéa dos dramas da cidade, era quando se agarrava a esse assunto com todas as forças.

Mas Nicolao mudou o curso da conversa.

--Em que pensas? perguntou elle ao doutor.

Este, mal humorado, respondeu:

--Somos poucos! Aqui tens em que penso... É absolutamente necessario trabalhar com mais energia. É necessario decidir o André e o Pavel a evadirem-se; são dois trabalhadores preciosos de mais para estarem na inacção.

Nicolao franziu o sobrolho, meneou a cabeça em ar de dúvida e lançou um rápido olhar para a mãe de Pavel. Percebeu que se constrangiam em falar do filho diante d’ella e foi para o seu quarto, levemente irritada contra quem tão pouco se preoccupava com os seus desejos.

Deitou-se e, de olhos abertos, embalada pelo ciciar das vozes, sentiu-se tomada de inquietação. Parecia-lhe incompreensivel o dia que acabava de decorrer, cheio de allusões ameaçadoras; mas porque este genero de reflexão lhe fôsse penoso, afastou-as do cérebro e entrou de pensar no seu filho. Queria vel-o em liberdade e, ao mesmo tempo, tal idéa assustava-a; sentia que tudo se lhe agitava em torno; a situação tornava-se cada vez mais tensa, andavam imminentes violentas collisões. A paciencia do povo dera logar a enervada espectativa; crescia visivelmente a irritação publica, ouviam-se com frequencia frases rancorosas, de toda a parte soprava um hálito novo, um vento d’excitação. As proclamações eram discutidas animadamente no mercado, nas lojas, entre a criadagem e os artifices; cada prisão que na cidade se effectuasse despertava ecos tímidos, mas inconscientemente simpaticos e as suas causas eram commentadas. Pélagué ouvia agora com mais frequencia a gente do povo pronunciar as palavras que outrora a amedrontavam tanto: «socialistas, política, revolta». Taes palavras eram repetidas com ironia, mas esta ironia não chegava a disfarçar o fim principal, que era o de se informarem das opiniões; com colera, mas sob esta colera transparecia o medo, e todos andavam pensativos, entre alternativas de esperança e de ameaça... Em vastos circulos, lentamente, ia-se propagando a agitação na vida sombria e estagnada do povo; despertava o pensamento adormecido; os acontecimentos diarios já não eram tratados com o socego habitual e a antiga placidez dos fortes. Pélagué notava tudo isto mais distinctamente do que os seus companheiros, pois que melhor do que elles conhecia o aspecto desconsolador da vida, d’ella vivia mais proxima e n’ella divisava simtomas de reflexão e de irritação, uma sêde vaga de alguma coisa nova, o que a regosijava e assustava-a um tempo. Regosijava-se porque tudo considerava obra de seu filho; assustava-se porque sabia que elle, mal saísse da cadeia, logo iria collocar-se no posto mais perigoso, á frente dos companheiros... e que ali havia de morrer.

Sentia muitas vezes Pélagué agitarem-lhe o espirito os grandes ideaes indispensaveis á humanidade e experimentava o desejo de falar da verdade, mas quasi nunca conseguia realisar o seu desejo. N’esta mudez forçada, os seus secretos pensamentos acabrunhavam-na. Por vezes, a imagem do filho tomava a seus olhos as proporções giganteas d’um heroe de lenda; n’elle resumia todas as maximas fortes e leaes que ouvira, todos os seus affectos, todas as coisas grandes e luminosas que o seu espirito abraçava. Contemplava-o então com mudo entusiasmo; ufana, enternecida, nadando em esperança, dizia comsigo:

--Tudo ha de ir bem!... tudo!

O seu amor materno exaltava-se, comprimia-lhe o coração até fazel-o sangrar, mas impedia que n’elle o amor pela humanidade se desenvolvesse, chegando a destruil-o de todo; e no logar d’este grande sentimento só ficava uma minúscula idéa fixa a palpitar timidamente nas cinzas frias da inquietação:

--Vae morrer... Vae morrer!...

Adormeceu tardíssimo em profundo somno, mas accordou logo muito cedo, com o corpo dorido e a cabeça pesada.

XIV

Ao meio dia, já Pélagué estava na secretaria da cadeia. Com turvo olhar, examinava o rosto barbudo de Pavel, que se lhe sentára em frente, á espera do momento em que poderia passar-lhe o bilhete que apertava fortemente na mão.

--Estou de saúde, e outros tambem, dizia Pavel a meia voz. E tu? como vaes?

--Muito bem. Morreu o Iégor! respondeu maquinalmente.

--Palavra?! exclamou Pavel; e baixou a cabeça.

--Vinha a policia no enterro, houve uma desordem, e foi um homem preso, continuou ella com simplicidade.

O sub-director da cadeia deu com a bocca um estalo, aborrecido, e levantou-se a resmungar:

--Não falem n’essas coisas! É proíbido, já devem sabel-o. Não se consente que se fale de política... Oh, Deus poderoso!

Ella ergueu-se igualmente e em voz d’innocencia desculpou-se:

--Eu não falava de política, falava da desordem. E o certo é que elles bateram uns nos outros. Até um ficou com a cabeça aberta!

--Não faz mal, queira calar-se! Quer dizer: não profira uma palavra que não lhe diga pessoalmente respeito, a si, á sua familia ou á sua casa.

E para confirmar melhor as suas explicações, sentou-se á secretária e acrescentou n’um tom de cansaço e de enfado, ao mesmo tempo que punha em ordem uns documentos:

--Depois, eu é que sou responsavel.

Pélagué lançou-lhe furtivo olhar e introduziu rapidamente o bilhete na mão de Pavel. Depois, suspirou com allivio:

--Nem eu sei de que hei de falar...

Pavel sorriu.

--Nem eu tão pouco.

--Então para que serve vir fazer visitas? observou, irritado, o funccionario. Se não sabem de que hão de falar, não venham, não nos incommodem!

--Quando vaes responder? perguntou a mãe apóz curto silencio.

--O procurador esteve ahi um dia d’estes; disse que era para breve.

Trocaram ainda umas frases banaes. A mãe via que o seu Pavel a fitava amorosamente.

Não mudara; mostrava-se, como sempre, calmo e ponderado; unicamente, a barba que lhe crescera vigorosamente, o fazia mais velho; e tinha os pulsos mais brancos. Pélagué quiz causar-lhe prazer dando-lhe noticias de Vessoftchikof. Então, sem mudar de voz, no mesmo tom em que lhe falava de bagatellas, continuou:

--Vi o teu afilhado...

Pavel fitou-a com o ar interrogador. E logo para evocar o rosto bexigoso do fugitivo, ella cravou o indicador em diversos pontos da cara.

--Vae bem, o teu rapaz; é robusto, desembaraçado... Vae ter emprego d’aqui a pouco... Lembras-te? estava sempre a exigir que lhe dessem trabalho pesado.

Pavel tinha compreendido. Abanou a cabeça e respondeu com os olhos illuminados por um alegre sorriso:

--Ora essa!... se me lembro!...

--Pois ahi tens! disse ella com satisfação.

Sentia-se contente comsigo mesma e alegre com a alegria do filho. Ao retirar-se, apertou-lhe elle a mão vigorosamente:

--Obrigado, mamã!

Como o vapor da embriaguez, uma sensação de extase subiu á cabeça da mãe; sentia o coração do filho mais perto do seu; não teve forças para lhe responder com frases e contentou-se com apertar-lhe tambem a mão, sem uma palavra mais.

Em casa, encontrou Sachenka, pois tinha esta por costume visital-os nos dias em que Pélagué ia á cadeia. Nunca a interrogava ácerca de Pavel; se Pélagué, de motu-proprio, não falava do filho, Sachenka ficava-se a olhar fixamente para ella, e era tudo. Mas n’esse dia, acolheu-a com uma interrogação de desasocego:

--E então, que faz elle?

--Está bom.

--Deu-lhe o bilhete?

--Com certeza.

--E leu-o?

--Está visto que não. Como podia elle lêl-o?

--É verdade!... Esquecia-me!... emendou com lentidão a rapariga. Esperemos mais uma semana... E que lhe parece? Estará d’accordo? E olhou fito para a mãe de Pavel.

--Sim... não sei... creio que sim! respondeu. Porque não havia elle de se evadir? Perigo, não ha nenhum...

Sachenka concordou com um aceno e perguntou com seccura:

--Não sabe dizer-me o que é que se póde dar a comer ao doente? Diz que tem fome...

--Póde comer de tudo... de tudo! Eu mesma lá vou.

E encaminhou-se para a cosinha. Sachenka seguiu-a vagarosamente.

Pélagué foi ao fogão buscar uma cassarola.

--Escute! murmurou a rapariga.

Fez se pálida, os olhos dilataram-se-lhe n’uma angustia e com os beiços trémulos, segredou de enfiada:

--Queria perguntar-lhe... Eu bem sei: elle não ha de querer. Mas convença-o, diga-lhe que precisamos d’elle, que não podemos passar sem elle, que tenho medo que elle caia doente n’essa prisão... que tenho muito medo! Bem vê: nem ainda está fixado o dia do julgamento!...

Falava com difficuldade e tal esforço toda a inteiriçava; não se atrevia a fitar a mãe de Pavel; a voz saía-lhe desigual como corda que se puxa de mais, e logo se quebra. Com as palpebras cerradas mollemente, mordia os beiços e ouviam-se-lhe estalar as articulações dos dedos, enclavinhados.

Pélagué, ficou emocionada ao ver aquelle accesso de exaltação, mas compreendeu. Commovida, cheia de tristeza, abraçou-a e respondeu baixo:

--Minha filha: elle não dá ouvidos senão a si mesmo... A mais ninguem!

Permaneceram um instante em silencio, estreitamente enlaçadas. Depois, Sachenka soltou-se-lhe dos braços suavemente e disse enleada:

--Sim... tem razão! São tolices minhas... são os meus nervos!

E fazendo-se de repente muito séria, concluiu simplesmente:

--Mas agora me lembro: é preciso levar de comer ao doente!

D’ahi a pouco, sentada á cabeceira de Ivan, perguntava a este em tom de amigavel sollicitude:

--Doe-lhe muito a cabeça?

--Não, não muito... Mas vejo e oiço tudo vagamente... sinto-me fraco! respondeu Ivan confuso e puxando a roupa até o queixo. Pestanejava de contínuo, como se a luz se lhe tornasse demasiado forte. E porque notasse que o rapaz não se resolvia a comer na presença d’ella, Sachenka levantou-se e saíu do quarto.

Ivan sentou-se na cama, seguindo-a com a vista; e, piscando o olho:

--É tão bonita!...

Ivan tinha uns olhos claros e espertos, dentes pequenos e muito iguaes, a voz estava ainda na mudança da puberdade.

--Que idade tem? perguntou-lhe Pélagué pensativa.

--Dezesete annos.

--Onde vivem seus paes?

--No campo. Ha sete annos que vivo aqui; abandonei a aldeia ao saír do collegio... E a senhora, camarada, qual é o seu nome?

O ouvir tratar-se assim divertia sempre Pélagué, e sensibilisava-a. Muito risonha, retorquiu:

--Que precisão tem de o saber?

Calou-se um instante o rapaz, confuso, e explicou:

--É que um estudante do nosso grémio... quer dizer do grémio que nos fazia as leituras, falou-nos da mãe de Pavel Vlassof, sabe? aquelle que organisou a manifestação do primeiro de maio... o revolucionario Vlassof.

Ella confirmou com a cabeça e apurou o ouvido.

--Foi elle o primeiro a desfraldar a bandeira do nosso partido! declarou com emfase o rapaz, e esta exclamação de orgulho ecoou no coração da mãe. Eu não estava no grupo... Tinhamos tenção de fazer uma manifestação tambem aqui, mas fomos mal succedidos: eramos muito poucos! Mas este anno ha de ser outra coisa... Verá!

Offegava, emocionado, comprazendo-se á idéa de futuros acontecimentos. Agitando a colher, proseguiu:

--Falava eu então da mãe de Vlassof... Ao que parece, entrou tambem para o partido depois da prisão do filho... Dizem que essa velha é extraordinaria!

Pélagué teve um franco sorriso: sentia-se a um tempo lisonjeada e constrangida. Ia dizer-lhe que a mãe de Pavel era ella; mas conteve-se e pensou com tristeza e um pouco de ironia:

--Que velha tola que eu sou!

E de repente, dominando a sensibilidade que a dominava, curvou-se para o rapaz:

--Vamos, coma! Coma que mais depressa se ha de curar para proseguir nos nossos trabalhos! A causa do povo precisa de braços juvenis e robustos, de corações puros, de espíritos leaes! São essas forças que lhe dão vida; é por ellas que hão de ser vencidas toda a maldade e toda a infamia!...

Abriu-se a porta, deixando penetrar o fresco húmido do outono. Entrou Sofia, alegre, com as faces muito córadas.

--Os espiões andam a perseguir-me como os janotas arruinados perseguem uma herdeira rica, palavra d’honra! Tenho de me ir embora d’aqui.

--E então, Ivan, como vae?... Bem?... Pélagué, que diz o Pavel?... A Sachenka está cá?

Accendia um cigarro e ia fazendo todas estas perguntas sem esperar as respostas. Afagava no entretanto a velha e o rapaz com a caricia do seu olhar pardacento. Pélagué considerava a recemchegada, rindo interiormente e pensava:

«E eis como eu tambem me transformei em creatura humana... e n’uma bôa creatura, até!»

Inclinando-se de novo para Ivan, disse-lhe:

--Cure-se depressa, rapazinho!

E passou á casa de jantar, onde estava Sofia a dizer a Sachenka:

--Ella já preparou trezentos exemplares!... Mata-se a trabalhar... Que heroísmo o d’ella! Sabe Sachenka, que é uma verdadeira felicidade viver entre gente assim, ser seu camarada, trabalhar com elles!...

--É certo! respondeu a rapariga.

E á noite, Sofia annunciou:

--Mãe Pélagué, precisamos que faça uma nova excursão pelo campo.

--Com muito gosto. Quando é a partida?

--Dentro de trez dias... Está por isso?

--Certamente!

--Mas não ha de ir a pé, aconselhou Nicolao.

Alugam-se cavallos de posta e toma outro caminho: pelo districto de Nikolsky...

Aqui, calou-se; tomára uns modos sombrios que não condiziam com a sua expressão habitual; as suas feições tão calmas tiveram uma contracção singular de fealdade.

--É uma volta muito grande! fez notar a velha. E os cavallos custam caro.

--É preciso que saibam, proseguiu Nicolao. Sou geralmente contrario a estas viagens. Ha agitação lá para esses lados... ha pouco, fizeram-se por lá prisões, foi encarcerado um mestre escola... É bom ser-se prudente... Mais valia esperar um pouco...

--Ora! redarguiu Pélagué a rir. Se é certo o que dizem: que não se tortura ninguem n’essas prisões...

Sofia, que tamborilava sobre a mesa, observou:

--Mas é importantissimo para nós que a distribuição dos folhetos e dos manifestos se faça sem interrupção... Não tem medo de lá ir, Pélagué? perguntou bruscamente.

Sentiu-se melindrada.

--Tive eu alguma vez medo? Mesmo da primeira vez não me senti nada assustada... e a senhora...

Baixou a cabeça sem terminar a frase. É que sempre que lhe perguntavam se ella tinha medo, se podia fazer uma coisa ou outra, se isto ou aquillo era facil para ella, presentia que precisavam de si para alguma coisa, que tratavam de se descartar d’ella, e que a tratavam por fórma diversa da que usavam entre elles.

Quando tinham vindo os dias dos acontecimentos mais consideraveis, haviam-na ao principio assustado um pouco a rapidez dos incidentes e a repetição das emoções, mas logo, instigada pelo exemplo e sob o impulso das idéas que a dominavam, o seu coração transbordára do immenso desejo de se tornar tambem util. Era este o seu estado de espirito n’esse dia, e a pergunta de Sofia tornou-se-lhe assim, pois, tanto mais desagradavel.

--É inutil perguntar se tenho medo... ou outra qualquer coisa d’este genero, proseguiu ella. Porque havia de ter medo?... Os que possuem alguma coisa é que teem medo. E eu que tenho? O meu filho, unicamente... Tinha medo por elle... Tinha medo que o torturassem e que me fizessem outro tanto. Mas desde o momento que não ha torturas, que me importa o resto?

--Não está zangada comigo?! exclamou Sofia.

--Não... Somente noto que nunca pergunta aos outros se têm medo...

Nicolao tirou com vivacidade os óculos, tornou a pôl-os e olhou de fito para a irmã. O silencio contrafeito que se estabeleceu agitou a alma de Pélagué. Levantou-se constrangida; ia falar, mas Sofia, pegando-lhe brandamente em uma das mãos, disse baixinho:

--Desculpe... Nunca mais lho pergunto.

Esta promessa fez rir a anciã. E instantes depois, todos trez conversavam affectuosamente mas preoccupados, sobre a nova jornada ao campo.

XV

Logo ao nascer da aurora, lá ia a velha na carrinhola, em fortes solavancos pelas estradas enlameadas pelas chuvas do outono. Soprava húmido vento; a lama voava em mil respingos; o postilhão, sentado á beira do carro, virado para Pélagué, ia a lamentar-se n’uma voz anasalada e filosófica:

--Tinha eu dito áquelle meu irmão: façamos partilhas! E começámos a fazer partilhas...

Mas de repente fustigou o cavallo da mão com valente chicotada e gritou furioso:

--Queres andar, ou não, estuporado animal?

Os nédios corvos d’outono saltitavam com gravidade pelos campos nús; o vento vinha-lhes ao encontro, assobiando; elles então apresentavam o flanco ao vento, que lhes arrepiava as pennas e os obrigava a cambalear, e elles cediam á força da brisa e deitavam a voar com um palpitar indolente das azas.

--Finalmente prejudicou-me, e eu vi que não havia nada a fazer com elle, concluiu o postilhão.

As palavras do homem resoavam como n’um sonho, aos ouvidos de Pélagué; no seu coração germinava um pensamento muito diverso, a sua memoria fazia-lhe desfilar na frente a longa série dos acontecimentos passados nos ultimos annos. Outrora, a vida, para ella, era como uma coisa criada não se sabia onde, muito longe, não se sabia por quem, nem porquê, e, agora, um numero consideravel de coisas se faziam á sua vista e com o seu próprio auxílio. E um vago sentimento se apoderava d’ella: era perplexidade e suave tristeza, contentamento e desconfiança de si mesma...

Em torno d’ella, tudo se deslocava com lento movimento; no ceu, vogavam pesadamente as nuvens pardacentas, correndo para passarem umas adiante das outras; aos dois lados do caminho, fugiam as arvores encharcadas, com os cumes desnudados a baloiçarem; os campos estendiam-se em circulos regulares; monticulos adiantavam-se-lhe ao encontro, depois, ficavam para traz. Dir-se-ia que aquelle dia turvado ia a correr para alguma coisa longinqua, indispensavel.

A voz nasal do postilhão, o tintilar dos guisos, o assobiar húmido e o perpassar do vento, tudo se fundia em uma torrente sinuosa e palpitante, que corria por cima dos campos com força uniforme e que suggestionava os espíritos.

--O rico até no ceu acha o espaço pouco!... É sempre assim! Meu irmão entrou a chicanar... as autoridades protegem-no! continuava o cocheiro, sentado sempre no rebordo do vehículo.

Chegados ao termo da viagem, desatrelou os cavallos e disse á velha n’um tom desesperado:

--Bem me podias dar cinco kopecks para beber uma pinga.

E como ella acquiescesse ao pedido, o homem declarou no mesmo tom, fazendo tenir as duas pequenas moedas no concavo da mão:

--Pois vou comprar uns trez kopecks d’aguardente e dois de pão!...

Pela tarde, chegou Pélagué, esfalfada e transida á importante villa de Nikolsky. Dirigiu-se á hospedaria, pediu chá e, tendo occultado debaixo d’um banco a sua pesada mala de mão, foi sentar-se ao pé da janella, a olhar para o largosinho, revestido d’um tapete amarellado de herva calcada, e para o edificio da administração da communa, um casarão pardacento e triste, com os telhados a caír. Sentado nos degraus da entrada, estava um campónio calvo, de barbas compridas, a fumar o seu cachimbo.

Corriam as nuvens em massas sombrias; amontoavam-se umas sobre outras. Reinava silencio; tudo respirava um tédio de mau humor; dir-se-ia que a existencia inteira se tinha occultado não se sabia onde, silenciosa.

De repente, appareceu um official inferior de cossacos, a galope; sopeou o alazão que montava, em frente da entrada da administração e gritou o que quer que fôsse para o campónio, agitando o chicote no ar. Os seus gritos atravessavam as vidraças, mas Pélagué não podia distinguir as palavras. O campónio levantou-se, estendeu a mão para o horizonte; o official inferior saltou para o chão, cambaleou um pouco, atirou as rédeas ao homem; depois, firmando-se pesadamente na balaustrada, subiu os degraus e sumiu-se no interior do edificio.

Fez-se novo silencio. Por duas vezes o alazão bateu com o casco no solo empapaçado. Uma rapariguinha, de olhos cariciosos e rosto muito redondo, com uma pequena trança loira caída no hombro, entrou na sala onde Pélagué estava. De bocca franzida, trazia sobre os dois braços estendidos uma enorme bandeja de bordas já gastas, carregada de louça. Cumprimentou com a cabeça.

--Viva, minha lindinha! disse-lhe Pélagué amoravelmente.

--Viva!