A Mãe

Part 17

Chapter 173,818 wordsPublic domain

--Se não te tivesse visto, não me restava mais que voltar para a prisão! Não conheço ninguem na cidade... Se tivesse ido lá para o bairro, prendiam-me logo! Eu dizia com os meus botões, emquanto ia andando: «Palerma! para que fugiste?» Quando n’isto, vejo cá a tiasinha a correr. Puz-me logo no seu encalço!

--E como pudeste fugir? perguntou Pélagué.

O rapaz sentou-se desastradamente na beira do canapé e disse com embaraço, encolhendo os hombros:

--Não sei... Foi a occasião que se offereceu.

Andava a passear no pateo... Os presos de crimes communs atiraram-se á bordoada a um carcereiro, um que foi da policia e que expulsaram por causa d’um roubo... É um que espia dá partes e torna a vida de toda a gente um inferno... Então, houve barafunda; os vigias tiveram medo, uns apitavam, outros corriam... Eis senão quando, vejo a grade aberta. Approximei-me, vejo um largo, a cidade... Foi uma atracção!... E saí sem pressa nenhuma, como se estivesse sonhando... Dei alguns passos e caí em mim. Para onde havia de ir?... Entretanto, as portas da cadeia tinham se tornado a fechar... Não me sentia bem; tinha saudades dos companheiros... emfim, aquillo era estupido; eu não fazia idéa de fugir...

--Hum! resmungou Iégor. Pois, meu caro senhor, devia ter voltado para traz, bater á porta e pedir delicadamente que o deixassem entrar: «Queiram perdoar, foi momento de distracção...»

--Sim, continuou Vessoftchikof, rindo, isso tambem era tolice, bem vejo. Mas ainda assim, andei mal com os companheiros. Não digo nada a ninguem e ponho-me ao fresco... Na rua, encontrei um enterro. Puz-me atraz do caixão--era uma criança--e lá fui de cabeça baixa, sem olhar para ninguem. Estive um bocado no cemiterio, de toitiço ao vento, e então veio-me uma idéa...

--Uma só? observou Iégor, e com um suspiro accrescentou: Parece-me que não lhe havia de faltar logar.

O bexigoso poz-se a rir, sem se zangar.

--Oh! já não tenho a cabeça tão vazia como d’antes... E tu, Iégor, continuas sempre doente?

--Faz-se o que se póde! respondeu o outro, saccudido por accesso de tosse. Continua!

--D’ali fui ao museu. Passei por lá vi, as collecções, mas sempre a pensar: «Para onde hei de eu ir, agora?» Estava furioso comigo mesmo e tinha uma fome horrorosa!... Voltei para a rua, puz-me a caminhar. Sentia-me envergonhado com aquillo! Percebi que os policias olhavam com attenção para quem passava... E dizia com os meus botões! «Bom! graças ao meu focinho, estou aqui, estou nas mãos da justiça!...» N’isto, vejo cá a velhota a correr. Passou-me ao lado; afastei-me para a deixar passar, voltei-me e segui-lhe no encalço... E mais nada!

--E eu que nem sequer dei por ti! notou ella em tom pezaroso. Examinava attentamente Vessoftchikof; achava-o mudado, mas para melhor.

--Os companheiros estão em cuidado, com certeza, sem saberem onde paro! proseguiu elle, coçando a cabeça.

--E dos guardas da cadeia, não tens saudades? Olha que elles tambem devem estar n’um cuidado!... observou Iégor.

Em seguida abriu a bocca e, movendo muito os beiços, como se quizesse absorver todo o ar, exclamou:

--Basta de brincadeiras! É preciso tratar de te esconder, o que é coisa agradavel de fazer, mas não muito facil de conseguir... Se eu pudesse levantar-me!... Teve uma crise de soffocação e poz-se a esfregar o peito, em debeis movimentos.

--Estas bem doente, Iégor! disse o fugitivo.

Pélagué, a esta observação, suspirou e relanceou um olhar de inquietação pelo modesto quarto.

--Isso é comigo! declarou Iégor. Ó mãesinha, não esteja com cerimonias, peça-lhe noticias do seu Pavel.

A cara do bexigoso abriu-se outra vez em franco sorriso.

--O Pavel? Está bom, está de saúde. Elle é uma especie de presidente lá da rapaziada. É sempre elle que fala com as autoridades, em nome da gente; é elle quem manda!... Nós temos-lhe respeito... E com razão!

A mãe bebia as palavras do rapaz; por vezes, lançava um olhar furtivo para o rosto macerado e entumecido de Iégor. Este, com a fisionomia estática, qual mascara desprovida d’expressão, e com uma apparencia singular de nullidade, só pelos olhos vivia, em scintillações de espírito.

--Se me dessem alguma coisa de comer... Palavra que tenho muita fome! exclamou de subito o bexigoso.

--Ó mãesinha, disse Iégor, n’aquella prateleira está um pedaço de pão; dê-lho. Vá depois ao corredor e bata á sua esquerda, na segunda porta. Ha de vir abrir-lhe uma mulher; diga-lhe que venha cá e que traga tudo o que possuir com respeito a comestiveis.

--Para que ha de ella trazer tudo!? protestou Vessoftchikof.

--Ah, não se assuste, que não ha de ser grande coisa... talvez até não seja nada!

Pélagué obedeceu, bateu á porta indicada e, apurando o ouvido, pensava com tristeza: «Está mesmo a morrer...»

--Quem está ahi? perguntaram de dentro.

--Venho da parte do senhor Iégor, respondeu baixo. Pede-lhe que vá a casa d’elle.

--Lá vou! responderam.

Pélagué esperou um instante e tornou a bater.

A porta abriu-se de brusco e appareceu uma mulher ainda nova, muito alta e que usava oculos. Vinha a alisar a manga do vestido, amarrotada. Seccamente perguntou:

--Que deseja?

--Foi o senhor Iégor que me mandou...

--Ah! vamos lá!... Mas eu conheço a senhora! exclamou. Como passou?... É que faz aqui muito escuro...

Pélagué fitou-a e lembrou-se de tel-a visto uma vez ou duas, em casa de Nicolao.

«Por toda a parte ha gente nossa!» pensou.

A mulher deixava livre o caminho, por fórma que Pélagué fôsse adiante.

--Está então muito mal? inquiriu.

--Muito mal; está deitado. Pede-lhe que lhe leve alguma coisa de comer...

--Ora! é inutil...

Ao penetrarem as duas mulheres no quarto de Iégor, este debatia-se em doloroso estertor.

--Lioudmila, disse por fim. Esse rapaz saíu agora da cadeia sem licença da auctoridade. Já é ser descortez! Antes de mais nada, dá-lhe de comer e esconde-o em qualquer parte, por um dia ou dois.

Lioudmila fez um signal d’assentimento e, ao passo que fitava attentamente o rosto do enfermo, dizia com certa severidade:

--Iégor, porque não me chamou logo que chegaram as suas visitas? E já vejo que por duas vezes se esqueceu de tomar o remedio! É um desmazelo!... Pois se é o primeiro a dizer que se sente respirar melhor quando o toma!... Venha para minha casa, camarada!... Não tarda que venham buscar o Iégor para o levarem para o hospital.

--É então forçoso ir para o hospital? perguntou o enfermo.

--De certo. Lá irei ter comsigo.

--O quê? lá, tambem?...

--Não diga tolices!

E emquanto falava, compuzera no peito do doente a manta que o cobria, observára fixamente Vessoftchikof e medira com o olhar a altura do remedio no frasco. A voz d’ella era monotona e grave, mas sonora; os movimentos amplos, o rosto branco, com umas sobrancelhas muito pretas, que quasi se reuniam na base do nariz. Tal fisionomia não agradou a Pélagué, que a ficou julgando arrogante; os olhos não tinham brilho e nunca sorriam; o tom da voz era imperioso.

--Vamo-nos d’aqui! continuou ella. Eu já volto. A senhora dê ao Iégor uma colher de sopa d’este remedio... Não consinta que fale.

E saíu levando comsigo o bexigoso.

--Que mulher extraordinaria! disse Iégor com um suspiro. Que admiravel creatura!... Para casa d’ella é que você devia ter ido, mãesinha. Ella trabalha muito... Até anda esfalfada!

--Não fales! Olha, bebe antes isto! supplicou Pélagué com meiguice.

Elle ingeriu o remedio e continuou, fechando um dos olhos:

--Que me importa! Que fale ou que não fale, sempre tenho de morrer.

Olhou para a velha, ao mesmo tempo que os labios se lhe entreabriam lentamente n’um sorriso. Ella tinha curvado a cabeça; agudo sentimento de dó lhe fazia derramar lagrimas.

--Não chore, mãesinha; é natural... O prazer da vida traz comsigo a necessidade da morte...

Ella pousou-lhe a mão na cabeça e, em voz baixa:

--Cala-te, sim?

O doente fechou os olhos como se estivesse a escutar o estertor dentro do peito. Teimosamente, objectou:

--Estúpida coisa o estar calado, mãesinha!... Que ganho eu com isso?--uns minutos mais d’esta agonia e o ficar sem o prazer de palrar um bocado com uma santa mulher como você... Não creio que no outro mundo haja tão bôa gente como n’este...

Ella interrompeu-o, agitada:

--Olha que vem ahi já aquella senhora, e depois ralha comigo se te ouve falar...

--Não é senhora nenhuma; é uma revolucionaria, uma companheira, um coração admiravel!... De toda a maneira, ha-de ralhar comsigo, mãesinha! Está sempre a ralhar com toda a gente!

E Iégor poz-se a contar a historia da sua visinha, lentamente, com um articular custoso dos labios. Só os olhos sorriam. Inquieta, Pélagué dizia comsigo, notando a maceração d’aquelle rosto banhado de suor:

--Vae-me morrer aqui!

Voltou Lioudmila. Fechou cuidadosamente a porta e disse para a velha:

--É absolutamente necessario que aquelle seu amigo se disfarce e se vá embora; vá já arranjar-lhe outro fato e traga-lho aqui! Que pena que a Sofia esteja ausente! É a sua especialidade, dar esconderijo a quem foge!

--Ella chega ámanhã, annunciou a outra, deitando o seu lenço para os hombros.

Sempre que a encarregavam de qualquer missão, era idéa fixa sua desempenhar-se d’ella bem e depressa. Sollícita e preoccupada, franzindo as sobrancelhas, perguntou ainda:

--Como o havemos de vestir? Que lhe parece?

--Pouco importa: como elle sae de noite...

--É muito peor que de dia: anda menos gente pelas ruas, é-se mais facilmente notado, e como o Vessoftchikof não é muito esperto...

Iégor soltou uma gargalhada rouca:

--Como você é fina, mãesinha!

--Posso ir vêr-te ao hospital? perguntou ella.

O doente acenou com a cabeça, tossindo muito. Lioudmila fitava na velha os seus grandes olhos pretos.

--Quer que lhe fiquemos de guarda, cada uma por sua vez? propoz. Sim? Está bem!... Mas agora, vá, vá depressa.

Agarrou Pélagué por um braço em gesto amigavel mas autoritario, fêl-a saír para o corredor e ali disse-lhe baixinho:

--Não se zangue por eu a despedir assim... Não é bonito, bem sei; mas faz-lhe tanto mal falar!... E eu tenho esperança...

Esta explicação commoveu Pélagué. Murmurou:

--Não diga isso!... Não é bonito! Mas a senhora é um anjo!... Até mais vêr; eu cá me vou.

--Cuidado com os espiões! recommendou a outra em segredo. E levando as mãos ao rosto, passando-as depois pelas fontes, com uma tremulencia nos labios, tomou uns ares de maior bondade.

--Sim, esteja descansada, respondeu Pélagué com uma pontinha de orgulho.

Ao chegar á grade da entrada, parou um instante como a arranjar a mantilha e lançou em torno um olhar vigilante, mas que passaria despercebido de qualquer. Sabia bem distinguir, e sem se enganar, os espiões d’entre o povo. O andar propositadamente descuidado, a placidez affectada dos movimentos, a expressão de cansaço e de tedio que fazia transparecer, o brilhar timido, confuso e mal dissimulado dos olhos, movediços e desagradavelmente esquadrinhadores, eram outros tantos disfarces que se lhe haviam tornado familiares.

D’esta vez, porém, não enxergou cara alguma conhecida. Então, sem pressa, tomou pela rua adiante, e subiu para um carro de praça, que mandou seguir para o mercado. Ali comprou o fato para o fugitivo, não sem regatear ferozmente, desfazendo-se em pragas contra o bebado do marido, a quem tinha de vestir de novo quasi todos os mezes. Esta mentira não fez impressão alguma ao adelo, mas causou-lhe muita satisfação por a ter inventado; tinha ido a pensar pelo caminho que a policia havia de suspeitar que o fugitivo se disfarçaria e não deixaria de proceder a um inquerito no mercado. Feito isto, Pélagué voltou a casa de Iégor e foi acompanhar o bexigoso ao termo da cidade. Cada um tomou por passeio opposto e a velha, satisfeita, divertia-se immenso a vêr o rapagão a andar no seu passo pesado, cabeça baixa, atrapalhado com a comprida roda d’um sobretudo amarello e atirando para traz o chapeu, que lhe ia sempre a escorregar para os olhos. N’uma rua deserta veio-lhes Sachenka ao encontro, e Pélagué voltou para casa depois de se despedir de Vessoftchikof com um aceno de cabeça.

Mas pensava com tristeza:

--Pois sim, mas o Pavel está na cadeia... e o André tambem.

IX

Foi recebida por Nicolao com um grito de mal contida inquietação.

--Sabe? O Iégor está muito mal! Levaram-no para o hospital; a Lioudmila veio cá pedir que fôsse ter com ella.

--Ao hospital?

Nicolao, depois de ter ajustado os oculos, em movimento nervoso, ajudou-a a vestir um casaco, apertou-lhe a mão entre as suas, seccas e febris, e, em voz trémula:

--Sim! Leve este embrulho comsigo. O Vessoftchikof ficou em segurança?

--Sim, tudo vae pelo melhor...

--Tambem hei de ir vêr o Iégor...

Pelagué estava tão cansada, que sentia a cabeça a andar-lhe á roda; a inquietação de Nicolao dava-lhe a presentir um drama.

--Vae morrer!... Vae morrer! dizia comsigo; e esta sombria idéa martelava-lhe no cerebro.

Mas quando entrou no quartosinho alegre e muito aceiado do hospital e viu o Iégor a rir de manso, sentado em meio d’um montão de almofadas brancas, socegou de pronto. Parou á porta a sorrir-lhe e ouviu o doente dizer ao medico:

--O remedio, é uma reforma!

--Não diga tolices, Iégor! obtemperou o doutor em tom appreensivo.

--E eu, que sou revolucionario, detesto as reformas!...

Certamente, o medico tomou a mão do doente e collocou-lha sobre o joelho; em seguida, levantou-se, poz-se a puxar pelas barbas, emquanto ia apalpando com um dedo os entumecimentos do rosto de Iégor.

Pélagué conhecia bem o doutor por ser um dos melhores camaradas de Nicolao. Approximou-se de Iégor, que, ao vel-o, lhe deitou a lingua de fóra. O medico voltou-se.

--Ah, é vocemecê?... Viva!... Sente-se. Que traz ahi?

--Livros, parece-me.

--Não póde ler declarou, o medico.

--Quer que eu fique parvo de todo! choramigou Iégor.

--Cala-te! ordenou. E poz-se a escrever qualquer coisa na carteira.

Do peito do doente exalavam-se breves suspiros forçados, de mistura com saliva, n’um estertor, violento; tinha o rosto coberto de camarinhas de suor, que elle enxugava de vez em quando, erguendo muito devagar as pesadas mãos, quasi inconscientes. A singular immobilidade das faces inchadissimas descompunha a expressão de bonhomia da sua ampla cara, onde as feições haviam desapparecido sob uma mascara cadaverica; e só os olhos, profundamente cavados entre os inchaços, conservavam um olhar puro e sorriam com condescendencia.

--An?! Esta sciencia!... Já não posso mais... Deito-me, doutor? perguntou elle.

--Não! respondeu com brevidade o medico.

--Então deito-me quando tu te fôres embora!

--Não lh’o consinta, mulhersinha. Arranje-lhe as almofadas. E tome muito cuidado, não o deixe falar, peço-lhe; faz-lhe muito mal.

Pélagué fez um aceno. O medico saíu em passinhos rapidos. Iégor deitou a cabeça para traz, fechou os olhos e ficou sem movimento; só os dedos se lhe agitavam um pouco. Das paredes brancas da cellasinha exalava-se um frio secco e uma tristeza velada e pálida. Pela alta janella divisavam-se os cumes ondulados das tilias; por entre a folhagem poeirenta e sombría destacavam-se vivamente manchas amarellas: eram as frias primicias do outomno, que chegava...

--Vem para mim a morte, devagar, como que sem vontade! disse Iégor, sem bulir e sem abrir os olhos. Parece que tem pena de mim!... Pois se eu era um bom rapaz, de bom genio!...

--Cala-te, Iégor! supplicou Pélagué, afagando-lhe a mão ternamente.

--Espere um pouco, mãesinha, eu vou-me calar...

E, offegante, continuou com esforço immenso a articular palavras entrecortadas de longas pausas:

--Gosto muito que vocemecê esteja comnosco, mãesinha... É-me muito agradavel ver a sua fisionomia, os seus olhos tão vivos, a sua candura... Quando a vejo, pergunto a mim mesmo: «Como irá ella acabar?» E fico triste, a pensar que a espera a cadeia, ou o degredo, toda a especie d’abominações... como os outros... Não tem medo da prisão?

--Não! respondeu ella com simplicidade.

--Está claro!... E, comtudo, a prisão... é nojenta coisa... foi ella que me matou... Porque, para falar com franqueza, eu não tenho vontade de morrer.

Ella sentiu desejo de responder: «Talvez não morras ainda,» mas calou-se e ficou a olhar para elle.

--Podia ainda fazer alguma coisa pelo bem do povo... Mas quando a gente já não póde trabalhar, é impossivel viver, é uma estupidez!

Á memoria da velha accudiram então estas palavras de André: «Isso é verdade, mas não é consolador!» Suspirou. Sentia-se fatigadissima e com fome. O murmurar monotono e rouco do doente resoava triste pelo quarto, como que rastejando, impotente, por sobre a lisura das paredes. A folhagem das tilias fazia pensar em nuvens que tivessem descido á terra, e impressionava pelo seus tons carregados e melancolicos. Tudo, em volta, se congelava singularmente em tristonha immobilidade, n’aquella desconfortante espectativa da morte.

--Como me sinto mal! disse Iégor. E calou-se, fechando os olhos.

--Dorme! aconselhou ella. Talvez te faça bem.

Apurou por alguns instantes o ouvido para a respiração do doente e relanceou o olhar em torno de si. Invadida por glacial tristeza, entrou a dormitar.

... Despertou-a um ruido de vestidos roçagantes. Estremeceu ao ver Iégor accordado, com os olhos muito abertos.

--Deixei-me dormir... desculpa! disse em voz baixa.

--E tu, tambem, perdôa-me! replicou elle igualmente n’um murmurio.

Pela janella, entrava o crepusculo; um frio nevoento opprimia a vista; tudo se fundia em singular opacidade; o rosto do doente tomava tons mais sombrios.

De novo se ouviu um roçagar de saias e logo depois a voz de Lioudmila, dizendo:

--Então, aqui ás escuras, a tagarelar?... Onde fica o botão da luz?

E de subito, uma claridade branca e desagradavel innundou o quarto. Lioudmila estava de pé, alta, toda vestida de negro.

Iégor teve um grande estremecimento por todo o corpo e levou a mão ao peito.

--O que é? exclamou Lioudmila, correndo para elle.

Fixou na velha um olhar demorado; parecia ter os olhos enormes, com um brilho estranho.

--Espera... balbuciou o enfermo.

Abriu muito a bocca, ergueu a cabeça e estendeu o braço para diante. Pélagué tomou-lhe a mão com cuidado extremo e fitou-o, contendo a propria respiração. Em movimento convulso e vigoroso, elle projectou a cabeça para traz e disse em alta voz:

--Deixei de existir... está acabado...

Percorreu-lhe o corpo ligeira contracção, a cabeça rolou-lhe lentamente no hombro, e, nos seus olhos esgazeados, a luz da lampada collocada por sobre o leito, espelhou-se com um reflexo frio...

--Meu amigo!... murmurou Pélagué.

Lentamente, Lioudmila afastou-se do leito; parou junto da janella a olhar para fóra e disse n’uma voz singular e sonora, que Pélagué nunca lhe tinha ouvido:

--Morreu...

Ella inclinou-se, apoiou-se á mesinha de cabeceira e entrou de balbuciar com a voz a tremer:

--Morreu... socegadamente... corajosamente... sem um queixume...

E de repente, como se lhe tivessem dado uma pancada na cabeça, deixou-se caír de joelhos, sem forças tapou o rosto com as mãos, e desatou em soluços abafados.

Depois de ter cruzado os braços pesados do morto, sobre o peito e de lhe ageitar nas almofadas a cabeça, extraordinariamente quente, Pélagué avisinhou-se de Lioudmila, curvou-se para ella e afagou-lhe docemente os espessos cabellos, ao mesmo tempo que enxugava as proprias lagrimas. Esta ultima voltou com lentidão para ella os olhos dilatados, febris e balbuciou por entre os labios trémulos:

--Havia muito que o conhecia... Estivemos juntos no degredo, estivemos nas mesmas prisões... Ás vezes, aquella tortura era insupportavel, horrorosa; muitos d’entre nós perdiam o animo e alguns endoideciam...

Comprimiu-lhe a garganta um espasmo violento; dominou-se com esforço, e em seguida, avisinhando do rosto da velha o seu rosto, a que uma nevoa de ternura dolorida dava desconhecida suavidade que o rejuvenescia, proseguiu em rapido murmúrio, com um soluçar sem lagrimas:

--E elle, elle sempre, sempre, andava alegre; nunca se cansava de gracejar, de rir, occultando corajosamente o seu soffrer, esforçando-se por reanimar os fracos... era tão bom, tão sensivel, tão meigo!... Na Siberia, a inacção em que se vive, deprava o espirito e faz nascer maus instinctos. Como elle os sabia combater!... Que companheiro aquelle era; se soubesse! a sua vida particular foi árdua, dolorosa... mas--sei-o bem--nunca ninguem o ouviu queixar... ninguem, nunca! Assim, eu, que era sua intima amiga, devo muito ao seu coração e recebi do seu espirito tudo o que podia dar-me; vivia triste, solitário e, no emtanto, nunca elle me pediu nada em paga, nem carinhos, nem disvelos...

Foi até junto do morto, curvou-se e beijou-lhe a mão.

--Companheiro, meu querido e amado companheiro, disse ella n’uma voz sumida e cheia de desconsolo, agradeço-te de toda a minha alma... Adeus! Trabalharei, como tu fizeste... sem me cansar... sem duvidar... toda a minha vida... pelos que soffrem... Adeus!

Todo o corpo lhe foi saccudido por violentos soluços e, offegante, a cabeça descaíu-lhe sobre o leito, aos pés de Iégor.

Derramava Pélagué bastas lagrimas que lhe queimavam as faces. Procurava retel-as, pois o seu desejo era consolar Lioudmila com um affago especial e animador, falar-lhe do morto com boas palavras repassadas de amor e de tristeza. Por entre o pranto, distinguia o rosto entumecido do defuncto, os olhos fechados, os labios negros, confrangidos em leve sorrisos... Reinava um silencio profundo em meio d’aquella claridade que opprimia.

O medico entrou em passinhos apressados, como sempre; parou bruscamente a meio do quarto, enterrou em rapido gesto as mãos pelas algibeiras e perguntou com voz nervosa e sonora:

--Ha muito tempo?

Ninguem lhe respondeu. Bamboleou-se nas pernas e approximou-se de Iégor, enxugando o suor da testa; apertou a mão do morto e afastou-se novamente.

--Não é para admirar... em vista do estado do coração... Isto já devia ter acontecido ha seis mezes... pelo menos... Sim, com certeza!...

Mas aquelle tom agudo da voz em que a placidez era forçada e a sonoridade fóra de proposito, logo se lhe velou. Encostou-se á parede e poz-se a passar os dedos rapidamente pela barba, olhando alternadamente para as duas mulheres e para o morto, com os olhinhos piscos.

--Mais um!... concluiu brandamente.

Lioudmila ergueu-se e foi abrir a janella. Pélagué como que accordou áquelle ruido e olhou em torno, com um gemido. E um instante depois, o doutor, ella e Lioudmila encontravam-se reunidos no vão da janella, apertados uns contra os outros, a contemplarem o aspecto sombrio d’aquella noite de outono. Por cima do arvoredo, scintillavam as estrellas e pareciam recuar, perdendo-se no negro infinito dos ceus. Lioudmila envolveu o braço de Pélagué com o seu e descansou-lhe a cabeça no hombro, sem uma palavra. O medico limpava a luneta com o lenço. Fóra, os ruidos nouturnos da cidade morriam, abafados, o fresco da noite regelava as faces e agitava os cabellos. Lioudmila sentia arrepios; e as lagrimas escorriam-lhe pelo rosto. Nos corredores do hospital, vagueavam ruidos amortecidos, assustados, passadas pressurosas, gemidos, murmurios desconsolados. Immoveis, á janella, os trez sondavam as trevas, em silencio.

Pélagué sentiu que era ali de mais e, depois de soltar com brandura o braço do da joven senhora, dirigiu-se para a porta, não sem que se inclinasse, ao passar, perante o morto.

--Vae-se embora? perguntou baixo o medico, sem se voltar.

--Vou.

Pela rua fóra, ia pensando em Lioudmila. «Nem ao menos sabe chorar!» dizia ella comsigo, recordando-se da parcimonia das suas lagrimas.

E as ultimas palavras de Iégor voltavam-lhe á memoria; faziam-na suspirar. Caminhando a passo vagaroso, revia em mente os olhos vivos de Iégor, os seus gracejos, as suas opiniões sobre a vida.

--Para a gente proba, a existencia é penosa e a morte leve... Como morrerei eu?