A Intrusa

Part 4

Chapter 43,962 wordsPublic domain

--Ella janta na cozinha? perguntou Gloria no tom mais natural do mundo.

--Não, filha; ella tem a sua mesa.

--Então cada criado aqui tem a sua mesa? Lá em casa...

Feliciano riu-se. Argemiro atalhou:

--Não digas mais. D. Alice não é uma criada; representa aqui a dona da casa.

--Tal qual como se fosse mamãe?

Feliciano olhou de esguelha para o patrão.

--Tal qual, não; basta dizer que á D. Alice eu não a vejo nunca, e que estava sempre ao pé de tua mãe; mas para manter a ordem da casa e dirigil-a, é como se fosse.

O ciume da avó relampejava agora nos olhos da neta. Gloria olhava para o pae numa attitude de desafio.

Toda ella crescera em um instante, como se a raiva a insuflára; e no momento mesmo em que ia formular um protesto, que lhe custava a articular, o padre Assumpção entrou na sala, dando risonhamente as bôas noites.

Argemiro despegou vagarosamente os olhos da filha e ficou por um bocado alheio a tudo o mais, sem responder aos cumprimentos do amigo.

--Que tens tu?! perguntou-lhe o padre, que lhe pousou no hombro a mão espalmada depois de ter abraçado a menina.

--Nada... Chegas a proposito; vem ao meu escriptorio. Gloria, vai tocar um pouco; experimenta o teu piano, emquanto D. Alice acaba de jantar.

--Eu não preciso d'ella!... resmungou a menina, dirigindo-se para a sala.

--Ouviste? Eu não preciso d'ella! A prevenção da minha sogra imbuiu no espirito de minha filha uma antipathia medonha por esta pobre moça que tenho em casa e que ainda verdadeiramente nenhum de nós conhece! Ora, eu preciso de uma mulher em casa, exactamente para poder chamar minha filha a mim, e gosar, embora fortuitamente, a sua companhia; e vêm-me a criança cheia de azedumes e idéas preconcebidas contra a unica pessoa a quem posso confial-a! Como ha de ser?

--Fazer com que se estimem.

--Mas como?! Sem convivencia, e com más insinuações... não ha amisade possivel. A minha filha tem ciumes! Herdou o tormento da mãe, que tão bem conheceste, e o unico defeito da avó... isto é, herdaram ambas, d'ella, o mesmo sentimento, porque só são ciumentas de mim! Minha sogra confessa nunca ter tido ciumes do marido, e, entretanto, não dou um passo em que não sinta a sua vigilancia!

A alma da filha parece ter-se incarnado nella, e é essa talvez a attracção poderosa que me chama a si... mas esse excesso de zelos vae estragar-me á pequena... Não imaginas o gesto de revolta que ella fazia no momento em que entraste, só porque eu prestigiava a governante! E agora?!

--Agora vaes sahir por umas duas horas, e eu ficarei seroando com a nossa Maria e a tal senhora.

Quero vel-as a ambas reunidas; não fazes obra acertada atirando tua filha, muito selvagem mas muito innocente, para os braços de uma creatura que tu não conheces... Convem estudal-a...

--Mas, homem de Deus! não me trouxeste, tu mesmo, as melhores informações d'essa _tal senhora_?

--Sim... disseram-me que é uma moça honesta... de boa familia... pobre... saude de ferro... Foi o que me disseram; mas isso bastará? Para governar teus criados, sim; para captar Maria e conviver, mesmo que por poucas horas, com ella... não!

--Neste caso voltamos á mesma. Despeço a mulherzinha e nunca mais tornarei a ter a minha filha aqui, commigo, só commigo, livre um bocadinho d'aquella atmosphera da chacara, que a faz tão malcriada... tão aborrecida e até antipathica. Acabou-se.

--Nada acabou; tudo começa agora. Foste sempre prejudicado pela tua impaciencia, homem! é tempo de te corrigires. Vai passear. Dizem que ha bonitas coisas ahi pelos theatros... resigna-te a perder um pouco do teu tempo indo ver qualquer d'ellas... Ahi tens o jornal, escolhe.

--Não tenho pachorra...

--Eu iria a uma magica. Contam maravilhas d'esta--_Fada Azul_...

--És um homem innocente!

--Sou padre... mas se te não diverte a magica, vae a outra parte, mas vae! Que diabo! lembro-te tão bom alvitre e ainda vacillas!

--Vaes aborrecer-te...

--Menos do que tu...

--É possivel...

--É certo. O teu chapeu está alli... queres que te procure a bengala?!

--Parece-te que estou á espera que me dês com ella no lombo para então sahir?

--Já me lembrei d'isso...

--Se não fosses padre...

--Não proporia zelar por tua filha com tamanho interesse...

--Por que?!

--Porque seria provavel que estivesse velando pela minha...

Argemiro levantou os olhos para o padre Assumpção, com uma pontinha de espanto, e mal lhe percebeu nos labios finos um fio subtil de ironica amargura.

--Está bem; cedo-te por instantes o meu logar e dir-me-ás depois se elle vale a solidão a que te condemnaste!...

O padre Assumpção desceu á sala onde Maria arranhava o teclado com uma furia de gata brava. Encostou-se ao piano, ouvindo as desharmonias d'aquella criança, em que elle sentia um vago perfume da saudade materna. Quão differente fôra a mãe, toda delicadeza e graça, do que era agora a filha! Na penumbra da sala reconstruia-lhe o vulto airoso e fino, que os bandós loiros illuminavam de uma luz branda, de sol de primavera.

Que linda a vira naquella mesma sala, áquella mesma hora...

Maria levantou-se com impeto. O padre Assumpção attrahiu-a a si e beijou-a na testa, com infinita ternura.

--O senhor está tremulo... Onde está papae?

--Teu pae sahiu. Manda accender o gaz da saleta e convida D. Alice para vir passar o serão comnosco.

--Não gosto d'ella...

--Por que?

--Não sei... e o senhor?

--Eu gosto de toda a gente, minha filha... de uns mais... de outros menos, mas não quero mal a ninguem. Vae pedir á D. Alice, com muito bom modo, que nos faça o favor da sua companhia por umas duas horas...

--Papae foi ao theatro?

--Não.

--Onde foi?

--Não sei... d'ahi, talvez tivesse ido ao theatro...

--Sem mim?!

--Sem ti.

--Que desaforo!

--Hein?! Ah! Maria, precisamos mudar de genio... Não te quero assim... faze o que te disse, anda.

--Vamos antes para a janella.

--Não. Vae chamar D. Alice.

--Ella é muito enjoada! muito feia!

--Seja como fôr; quero conhecel-a.

--Ah! se é só para isso! Que bicha!

Maria percebeu de relance que havia uma intenção occulta naquella insistencia e movida pela curiosidade acabou por ceder á ordem do padre.

E o serão correu tranquillamente. Alice trouxera a sua cestinha de trabalho e um livro de historias, confiando pouco nos seus meritos de conversadora.

Vendo que Maria se impacientava, propoz-lhe ensinar-lhe um ponto facil de _crochet_, com a lã do seu agrado, Maria repelliu o offerecimento; mas, aconselhada pelo padre, acceitou-o por fim. Ella detestava os trabalhos de agulha, que achava difficeis de comprehender. Alice tinha o condão de explicar tudo com tamanha simplicidade e clareza que a intelligencia mais rebelde se esclarecia ás suas palavras limpidas e teimosas. Maria interessou-se, por fim, tentada por uma meada de lã vermelha; e, ora vendo ora tentando fazer, guiada pelas mãos pacientes e ageis da moça, conseguiu aprender não só esse ponto como outro mais complicado.

--A senhora é paciente... Gosta de crianças?

--Muito!

--Tem irmãs pequenas?

Alice olhou para o padre Assumpção com ar de queixa. Para que interrogal-a, naquella hora distrahida, acordando-lhe a saudade da familia ausente ou perdida?

Foi isso que o padre pareceu sentir na expressão da moça.

Entretanto, ella disse:

--Tive... uma...

Como Gloria se atrapalhasse, tirou-lhe o trabalho das mãos, adiantando-o um pouco, para influir a menina.

--Repare bem; olhe... uma volta... outra volta... vou bem devagar... comprehende?

Maria arrancou-lhe a agulha e o novello das mãos com impaciencia, morta por fazer ella mesma o trabalho. O padre reprehendeu-a; Alice sorriu.

--Deixe... são todas assim!

Decididamente, esta rapariga não é uma rapariga vulgar, pensava de si para si Assumpção, olhando para a moça. Havia no seu vestido pobre, de lã barata, uma elegancia reservada e distincta. O cabello, sem frizados, de um castanho escuro, desnudava-lhe a testa clara, enrolando-se num penteado de uma graça discreta. As mãos bem tratadas, longas e pallidas, traçavam os gestos com firmeza de quem conhece o seu valor; e a sua voz, um pouco grave, tinha a doçura de uma queixa disfarçada. As feições vulgares não lhe offereciam nenhum traço caracteristico, e o padre Assumpção impoz-se penitencias, para castigar a sua vaidade, presumindo que na curta convivencia de duas horas, pudesse conhecer bem uma mulher! Começava a ter medo de sympathisar com esta, e que esse sentimento lhe tolhesse mais tarde acções imprescindiveis para a salvação do amigo e de Maria...

Conversaram os tres durante todo o serão. E afinal, qual foi o resultado de tantas palavras ditas e ouvidas? Nenhum... no serão o lucro correra todo para Gloria, que aprendera a fazer _crochet_ e ainda ficara de uma assentada dona da agulha e da meada de lã.

V

Argemiro ouvia um constituinte no seu escriptorio da rua da Quitanda. A causa era chôcha; o homem expressava-se mal, perdendo palavras sobre palavras. O advogado deixava-o fallar, olhando silencioso para os raminhos azues do papel reles, como se pedisse ás paredes encardidas a paciencia de que deviam estar impregnadas.

Effectivamente, toda aquella casa, onde o cupim voraz trabalhava de parceria com os medicos especialistas, advogados e solicitadores, parecia derrear-se ao peso da sabedoria e da malicia.

Á noite, fechados os escriptorios e cubiculos, os ratos, passeando por aquelles corredores e alcovas desertas, commentariam as chicanas, as mentiras e os segredos, com que a sciencia transfigura a verdade e uns homens enganam os outros... E não seriam poucos os ratos, porque ás vezes, mesmo á plena luz do meio-dia, surgia de qualquer canto obscuro o focinhito agudo de um d'esses roedores mais curioso, como a querer tomar contas do que se passasse; e a sua murrinha vagava na casa, de frente a fundo, enchendo-a como uma alma.

O constituinte de Argemiro voltava ao principio da sua exposição; temia ter esquecido algum detalhe precioso, e a consulta era cara... foi num desses pontos de repetição que o criado apresentou ao advogado um cartão da Pedrosa.

--A mulher do Ministro!

Argemiro abotoou o collete de fustão e prometteu ao homenzinho que faria tudo por elle, mas que se fosse embora!...

O outro atropellou as ultimas perguntas e marcou nova entrevista.

Atravez a meia parede de tabique ouvia-se na sala proxima o _frou-frou_ das sedas abafadas em lãs e um sussurro de vozes femininas. Logo, a Pedrosa não viera só... Argemiro não a via desde a noite em que fôra cumprimentar o marido pela sua nomeação. Que a traria alli?

O aroma do _Bouton d'or_ introduzia-se pelas frinchas das portas, invadindo tudo, soberanamente.

Argemiro considerou aquelle aroma como muito indiscreto, mas gostou.

A Pedrosa afinal... Ora, com que então estava no seu escriptorio a mulher do Ministro!... elle ageitou o nó da gravata e foi recebel-a á porta. Ella entrou logo, com o olhar reprehensivo, o busto impertigado e um sorriso amigo na bocca descorada. Atrás d'ella vinha a filha, muito espigada, mais alta do que a mãe, com um arzinho petulante no rosto claro, de feições miudas.

--Seu mau! então é preciso que a gente o venha ver aqui?!

--Oh, minha senhora...

--Não se desculpe, nem me agradeça a visita.

D'ahi rompeu a fallar, queixando-se de não ter o marido um minuto de descanço que lhe permittisse tratar dos seus negocios particulares, vendo-se ella na contingencia de intervir, como fazia agora, a contragosto... Ia consultar o advogado e o amigo...

Argemiro agradeceu.

Emquanto a Pedrosa remexia na sua bolsinha de camurça, procurando um documento qualquer, o advogado olhou para a Sinhá, que não desviava o olhar de cima d'elle, numa expressão perturbadora, de mulher amorosa.

--Diabo! pensou elle comsigo.

A consulta representava um pretexto. O negocio dispensaria a intervenção do advogado; todavia, a Pedrosa parecia não se importar de passar por estupida: repetia as perguntas com uma difficuldade de comprehensão que dava tempo á filha de espichar a alma pelos olhos fóra.

Mas o coração do viuvo parecia fechado a sete chaves e duro como uma pedra. Sinhá levantou-se, deu um giro pelo escriptorio, riu, fallou, interrompeu a mãe e sentou-se depois mais perto do Argemiro, deixando-lhe cahir de encontro a um joelho, por descuido, a sua linda sombrinha de seda e rendas brancas.

Como o assumpto da consulta já não désse de si, a Pedrosa embarafustou por outras portas: as ultimas récitas do Lyrico, o jantar do Presidente, o casamento do Angelo Barros... aquelle Angelo que dizia ter feito tambem o juramento de ficar solteirão!

E a proposito a Pedrosa perguntou ao Argemiro quando teria de assistir ao seu...

--Eu já me casei, minha senhora...

--Sabemos; mas ser viuvo é como ser solteiro...

--Estou velho...

--Pois sim, a verdade é que eu conheço mais de uma moça bonita que se daria por feliz se o senhor a escolhesse... Olhe, na festa da apresentação de Sinhá, houve uma que ficou enfeitiçada pelo senhor.

Mãe e filha trocaram um olhar e riram alto. Depois, a Pedrosa continuou:

--É raro o homem que enviuva que se não torne a casar; o que é a melhor prova a favor das mulheres... Ora, o seu coração por que ha de ser mais insensivel que os dos outros? Um segundo casamento é ainda uma homenagem ao primeiro... Só procuramos repetir os actos que nos trazem felicidade...

--Será assim, mas o meu coração é pequeno para as saudades que tenho. Está todo occupado pela minha morta...

Sinhá levou o lenço ao rosto e uma nuvem de _Bouton d'or_ adejou pela feia sala do escriptorio. Argemiro percebeu o movimento e deliciou-se com o aroma. Que significaria aquelle gesto? Colheria o lenço uma lagrima ou disfarçaria um sorriso? Seria elle realmente amado por aquella criança, ou simplesmente preferido por aquellas mulheres como um marido de posição? Deveria ter pena, ou deveria ter nojo?

Ah! a pobre Sinhá talvez não tivesse culpa; quem era odiosa era a mãe, que assim o vinha provocar no logar do seu trabalho arrastando pelos degraus carunchosos d'aquella casa de homens, a sua filha solteira, apenas sahida do collegio! Mas a verdade era que o olhar da pequena perturbava-o, mais pela sua expressão, que pela sua fixidez. Obedeceria ella á suggestão da mãe, ou agiria a mãe em obediencia a uma supplica da filha? Argemiro, apesar de lisonjeado na sua vaidade de homem, começou a desejar a sahida das duas senhoras; mas a Pedrosa não parecia apressada e entrou pela seara da politica, como entrára pela do amor.

Acertou no ponto de fascinação. Ella estava bem informada; Argemiro abriu ouvidos curiosos e dobrou-se na cadeira para escutal-a de mais perto. Ella era indiscreta, por ser com elle... pedia segredo de algumas affirmações, mostrando-se de vez em quando em opposição a actos do marido...

--Pedrosa morre por servil-o em qualquer coisa... veja se inventa um pedido, para contental-o... concluiu ella, levantando-se com um arzinho malicioso nos olhos espertos.

Sinhá imitou-a, quebrada de languidez, como desanimada...

Argemiro observou-a de face; ella baixou os olhos, corando. Estava galante.

--Recebemos ás sextas-feiras e Sinhá tem umas amigas novas que desejam conhecel-o... o senhor anda muito arredio, mas nem só de saudades vive o homem... é preciso distrahir-se e ser amigo dos seus amigos! Até sexta-feira?

--Até sexta-feira.

Sahiram, e ainda por alguns minutos vagou na atmosphera o aroma d'ellas. Argemiro poz-se a remexer nos seus papeis, pensando:

--E haver quem se case assim, pescado, pescado como um peixe! Não seria mais digno que a Pedrosa viesse a mim e dissesse: minha filha ama-o desde a primeira vez que o viu; o senhor convem-me para genro; quer casar com ella?

Elle mesmo se riu da idéa. Essa innocencia de costumes só passaria pela cabeça de um doido; e de mais pol-o-ia em embaraços. Que responderia elle á coitadinha?

D'ahi, talvez que tudo fosse velleidade sua. Os seus cabellos começavam a estriar-se de branco e Sinhá deveria ter ideaes moços... Fôra com certeza illusão... Não lhe faltariam a ella, bonitinha e moça, bons partidos. Todavia...

Apoderou-se d'elle uma doce tristeza. Não poderia amar nunca mais! Nunca mais? Fôra tamanho o encanto da sua Maria, que nenhuma outra mulher tivesse jámais o poder do o emocionar?

Nenhuma! Ella perdurava no seu espirito como o conjunto de todas as perfeições. A sua figura esguia e branca, que a cabelleira aureolava de ouro pallido, plantara-se no seu coração como uma sentinella prompta a repellir á invasão de um sentimento amoroso, por mais leve e subtil que elle fosse.

O continuo voltou, annunciando novo constituinte.

Nas suas tócas os ratos faziam provisão de assumptos para os commentarios da noite, nos livres passeios das salas e corredores... e o novo consultor fornecer-lhe-ia materia para ironicas conclusões: era um velho que procurava salvaguardar os direitos da sua casa de jogo encapado em disfarces, com que espoliava incautos e viciosos. Argemiro indicou um collega mais habil no assumpto. O outro sahiu, elle poz-se a ler, á espera do Caldas para um negocio de valor.

Razão tinham aquellas paredes para parecerem desgostosas e estarem enxovalhadas. Só a torpeza que rolava entre ellas!

VI

Desde que fôra entregue aos avós, era a primeira vez que Maria da Gloria dormia fóra de casa. A baroneza morria de impaciencia por vêl-a voltar; á tristeza da ausencia juntava-se um cuidado que a punha doente. Que teria succedido á sua netinha, longe do seu carinho e da sua vigilancia? Se ella chegasse com febre! Que idéa maldita a de tirarem a criança d'alli, para a metterem na cidade, por uma noite inteira!

Mas a Maria chegou alegre. Saltou do carro sobraçando um grande embrulho de pasteis.

A baroneza estendeu-lhe os braços, com os olhos luzindo de alegria.

--Vem, meu amor! Eu estava com tantas saudades!! Coitadinha...

--Coitadinha por que, vovó?! Eu estou boa. Gostei muito!

--Ah, gostaste muito... Então não tiveste saudades minhas...

--Tive, mas gostei. Tome estes pasteis, são muito bons.

--Eu tambem tenho um doce guardado para ti.

--Onde está?

--Depois... escuta, conta-me o que fizeste.

--Passeei com papae, toquei, brinquei... Já disse: gostei muito!

--E...

--E... e o que?!

--A tal... a tal mulher, como a achaste?

--D. Alice? É tão boa! sabe? hontem ella me ensinou a fazer crochet, e deu-me depois a agulha e o novello de lã!

--Ora que prenda, _crochet_! Eu não aprecio isso. Ella é bonita ou feia?

--É bonita!

--Ah...

Maria percebia bem que a avó não estava contente; mas continuava a açular o seu ciume, com maldade.

--Tomaste banho hoje?...

--Tomei. Foi D. Alice quem me penteou. Sabbado voltarei para lá, sim, vovó?

--Já?! mal chegaste já pensas em voltar!

--D. Alice pediu...

--Ora, D. Alice!

A baroneza retinha a neta a custo entre os braços. Maria tinha pressa de ir ver os coelhos e verificar se lhe tinham apanhado uma bella manga-rosa que ella trazia de olho havia dias...

--Socega, menina! Olha para mim!

--Estou com pressa...

--Deixa-me tirar a faixa... como este laço vem mal dado... não has de ir com este vestido para o quintal!

Que penteado! logo se vê que a tal mulher não tem geito para tratar de crianças!

--Como não tem?! É tão delicada...

--Dize-me cá: em que quarto está dormindo?

--No quarto azul...

--Da sala de jantar?!

--Não. Em cima, aquelle do terracinho.

--O gabinete de trabalho de Maria! Será possivel? Para uma empregada, um quarto tão bonito...

E tu, onde dormiste?

--Ao pé d'ella.

--Na mesma cama?!

--Não; mas no mesmo quarto...

A baroneza suspirou. Ella não pudera conciliar o somno, em frente á cama vasia da neta! e a criança ingrata, ao lado da inimiga, nem pensara nella!

O trabalho da baroneza seria agora afastar Maria quanto possivel da idéa de voltar á cidade. Disputal-a-ia á outra, a ferro e a fogo. A verdade é que Maria exagerava a sua sympathia por Alice, por perceber o desgosto da avó, assim como se comprazia em torturar Alice na ausencia da baroneza...

No meio d'essa semana o Feliciano foi, a mandado de Argemiro, levar uma carta á chacara dos velhos.

Gloria corria pela checara; o barão lia sob alpendre e a baroneza, a seu lado, serzia meias, socegadamente. O negro, todo emproado e bem vestido, entregou a carta á velha, que foi a mais prompta em estender a mão.

--Então, Feliciano, como vae tudo por lá?

O negro sorriu, meneou a cabeça e calou-se.

--Que temos? indagou o barão.

--Uma carta do Argemiro; pede-me que não me esqueça de mandar Maria no sabbado!...

--Pois lá a levarei.

--Não póde ser. Vou no domingo com ella á Tijuca; já está isso decidido.

--Tijuca! que idéa é essa?

--É uma idéa como outra qualquer! Estou sempre como os caracoes mettida em casa, e quando fallo em sahir lá vem tudo a baixo!

--Estimo que saias; mas que diabo! vae noutro dia á Tijuca e deixa a pequena ir vêr o pae no sabbado, como se combinou.

--Ha muitos sabbados; neste ella não poderá ir. Elle que venha jantar comnosco no domingo.

Eu vou almoçar á Tijuca com a minha neta e voltarei ás quatro horas para casa. É uma promessa.

--O Argemiro póde ficar sentido...

--Que fique. Eu preciso mais da neta que elle da filha. Lá tem outras consolações...

O Feliciano sorriu e approvou com a cabeça. O barão levantou-se e foi para o escriptorio responder ao genro. Antes mesmo que a baroneza perguntasse qualquer coisa, o Feliciano resmungou:

--Aquella casa já não parece a mesma... se a senhora visse! Até me dá saudades de quem está no céu!... Pobre de quem morre!

A baroneza suffocou o desejo de indagar do criado aquillo que mais queria, e recomeçou a trabalhar, limitando-se a offerecer:

--Entre, Feliciano; vá lá dentro tomar uma chicara de café.

--Obrigado; tomei _lunch_ lá em casa antes de sahir... apesar de que agora anda tudo muito contadinho...

--Isso é bom. O tempo não está para estragos...

--Sim, mas poupa-se de um lado para se gastar do outro; afinal, para o patrão as despezas talvez sejam maiores... D. Alice tem uma récua de parentes pobres... Para a gente ás vezes o pão não chega, entretanto não bate bicho-careta na porta que ella não dê do bom e do melhor do armario. Até vinho.

--Até vinho! exclamou inconscientemente a baroneza; e logo, reprimindo se: a caridade é aconselhada por Deus...

--Mas deve começar por casa... A senhora não diga nada ao patrão, porque elle agora é só: D. Alice na terra e Deus no ceu!

--Ah...

--A senhora sabe que eu sempre fui um empregado de confiança, que punha e dispunha de tudo como entendia; pois hoje não posso mover uma palha, que não me tomem satisfações. Ella, com o seu modo de santinha, faz tudo quanto lhe dá na cachóla! Eu não gosto de fallar, mas... ha certas coisas... hontem não affirmo, mas pareceu-me que D. Alice trazia no peito um alfinete...

A baroneza pousou a costura nos joelhos e levantou os olhos para o negro.

--A senhora não se lembra de um alfinete que Yayá sua filha gostava de usar e que representava uma andorinha de pedras?

A velha corou até á raiz dos cabellos e abriu a bocca, como se lhe faltasse o ar.

--Não diga nada ao patrão, pelo amor de Deus! eu não affirmo... Póde ser outro alfinete... sómente...

--Cala-te!... É impossivel que as coisas chegassem até esse ponto!... Oh! minha filha!

--A senhora perdôe... mas acho do meu dever...

--Eu fallarei a Argemiro!

--Pelo amor de Deus! a senhora me perde! Deixe eu adquirir certeza e depois lhe direi toda a verdade... juro por quem está no céu! Lá vem _seu_ barão... não diga nada a elle tambem!

--Por que não? estás doido! Se não mentes, não deves temer coisa nenhuma!

--É porque assim serei despedido e não poderei velar de perto pelo interesse de D. Gloria...

A baroneza já não ouviu as razões do preto e gritou para o marido, num desabafo:

--Sabes o que me disse o Feliciano?! Que a tal Alice se empavôa com as joias de nossa filha, joias que só podem ser usadas por Maria! Vê a que ponto chegou aquillo! E ainda querem levar a minha Gloria para lá! Nunca mais!

O barão voltou-se furioso para o negro, que repetia afflicto as suas palavras:--não affirmo... parece-me... não digam nada, pelo amor de Deus!