Part 3
A baroneza era uma senhora gorda, alta, de lindos olhos negros e cabellos completamente brancos.
Tinha as faces flacidas, a carne do pescoço descahida, a boca larga, a testa curta e ainda roubada pela espessura das sobrancelhas escuras. Cosia sentada em uma cadeira de balanço, ao lado de uma mesa redonda, coberta de um panno escuro e onde floria em um vaso um ramo de crysantemos pallidos.
--Bemvindos sejais! exclamou ella com a sua voz forte, de contralto.
Argemiro beijou-lhe a mão e sentou-se a seu lado. Caldas entreteve-se a conversar como barão, que, pedida a vénia, cobrira com o boné de seda os seus cabellos brancos e encaracolados.
--Então, meu filho, como acha sua filha?
--Forte... muito alta!
--Cresce de dia para dia! Se não vivesse no campo, com esta liberdade, não sei que seria... Precisa ralhar com ella: está muito voluntariosa...
--Tem a quem sahir...
--A mãe era um cordeirinho...
--Mas a avó é energica. E eu...
--Você é um homem. Sua mulher puxava toda ao typo do pae; Gloriazinha sahiu mais a mim... olhe para aquellas sobrancelhas!...
--Parecem uns bigodes! retrucou Argemiro para fazer zangar a filha. E depois de a beijar nos olhos: E a respeito de estudos?
--Isso! falle-lhe nisso! É uma vadia de força... o avô não se cança de a chamar e de ensinar-lhe as lições. Mas santos de casa...
--Pois chamemos os de fóra. Vae buscar os teus livros, Gloria.
--Ora, papae... depois... eu...
--O que ella quer é andar como os cabritos, aos saltos e correrias... eu, emfim, consinto nisso, porque com aquelle crescimento não deve haver sujeição... Graças a Deus, ella tem uma saude de ferro.
--Por isso mesmo precisa ter outros modos... se a puzessemos em um collegio?
Pelos olhos da baroneza passou a sombra de um desgosto e ella disse:
--Se quizerem matal-a...
O barão protestou:
--Isso nunca. Collegios nem para rapazes. São logares de perdição. O que temos a fazer é interessal-a pelo estudo.
--Mas como?
--Ha de haver um meio... Ó Gloria, vae tocar a tua ultima lição, anda. A professora de musica não está descontente...
Gloria amuou.
--Eu não sei nada!
--Como não sabes?! Vae tocar!
--Não...
--Gloria!
--Não...
--Esta menina!
Argemiro olhava para a filha com desgosto. A baroneza interveio:
--Depois do jantar teremos tempo; ella está com vergonha... manda botar o jantar na mesa, Gloria; depois tocarás...
Gloria aproveitou o ensejo e correu para o interior, onde d'ahi a instantes soavam as suas gargalhadas fortes, muito barulhentas.
O pae informou-se, voltando-se para o sogro:
--Como vae ella na leitura?
O velho abanou a cabeça, sorrindo; mas a avó exclamou, dirigindo-se ao Caldas:
--Se ella quizesse! não imagina o talento que aquella menina tem! aprende tudo com uma facilidade espantosa, de relance!
--Mas o diabo é que ella não quer! asseverou o avô, rindo.
--Ora! não é tanto assim; o sr. Caldas é capaz de pensar que a nossa Gloria é uma analphabeta!
--Quasi.
--Ora, não digas isso! Ella lê... e escreve... e demonstra muito geito para a musica. Afinal, não se educa para doutora nem para professora. No meu tempo não se exigia tanto...
--Não é razão. A mulher hoje precisa ser instruida, solidamente instruida, mamãe, e eu quero, eu exijo que minha filha o seja.
--Está direito, mas sempre quero saber se o sacrificio do estudo tem compensações verdadeiras! Andar atrás de uma pobre creança o dia inteiro, fazendo-a conjugar verbos e compôr e recompôr orações grammaticaes, atirando-lhe para dentro da cabeça nomes de terras e complicações mathematicas; curvar-lhe a espinha em cima de mappas e linhas geometricas, cançar-lhe a vista antes de tempo, roubando-lhe a liberdade que dá saude, alegria e ousadia, olhem que não me parece obra de amôr nem de caridade! Eu, cá por mim, confesso: fujo da sala do estudo quando vejo meu marido chamar a neta para a lição...
--Eu imagino que elle ha de ser muito rispido... commentou Caldas, sorrindo. Argemiro pegou nas mãos da sogra e disse:
--Mamãe, talvez que a senhora tenha razão; mas a verdade é que a Gloria já chegou a uma edade em que não deve ser tratada como o animalzinho amimado que é. Precisamos preparal-a para o futuro, que é sempre incerto. Imagine que um dia, que infelizmente ha de vir, faltem á nossa Gloria os seus cuidados, os do avôsinho e os meus... que será d'ella, se fôr uma ignorante, ella que é tão impulsiva e... e tão geniosa; hein?
--Quando isso acontecer, para longe o agouro, sua filha estará casada!
--Estará ou não. E se fôr mal casada? Se o marido esbanjar toda a sua fortuna e a atirar depois ás ortigas?
Os olhos da baroneza encheram-se de lagrimas; o velho pigarreou, advertindo o genro que avançara demais no caminho das hypotheses; mas a baroneza reagiu, sorrindo:
--Gloria casará bem, com um homem que a ame e a respeite. Não faltava mais nada! minha neta mal casada! pobre... desprezada... precisando trabalhar para viver... que coisa horrivel!
--O que é horrivel, mamãe, não é trabalhar; é não saber trabalhar!
--Ora... a necessidade é o melhor mestre; se algum dia... oh! não! nem pensar nisso!... A minha Gloria nasceu para ser amada. Eu leio naquelles olhos esse destino... É um pouco brusca... é um tanto auctoritaria... ora adeus! os homens gostam d'isso.
Riram-se e o riso abafou um suspiro em que o Argemiro murmurou:
--Eu queria-a mais meiga...
--Vovó! o jantar está na mesa! gritou Gloriazinha do corredor, fallando com a bocca cheia.
--Já ella me foi ás nozes... não tenho remedio senão concordar que ella é um diabinho e que é assim que eu a amo!
Foi só á sobremesa que Argemiro declarou ter tomado uma governante para casa, e querer d'ahi em deante ter uma visita da filha todas as semanas. Era um sacrificio para elle, homem tão occupado, ir alli a miude. Assim dividiriam o trabalho.
A sua Gloriazinha iria jantar com elle todos os sabbados, que era o seu dia mais livre.
A sogra parecia aterrada.
--Uma governante!... quem a inculcou? perguntou ella, mal disfarçando a sua má impressão.
--Ninguem; respondeu o genro placidamente; arranjei-a por annuncio.
A baroneza pulou na cadeira.
--Por annuncio! metteu em sua casa, na casa da milha filha, uma mulher por annuncio! E quer confiar-lhe a sua filha durante as horas em que ella estiver na cidade? Oh! meu amigo, isto não parece seu!
--Que queria, mamãe, que eu fizesse! Quantas e quantas vezes lhe pedi que me ajudasse a arranjar uma preceptora para Maria e que fôsse ao mesmo tempo governante da minha casa, e a senhora não se quiz nunca dar a esse trabalho... afinal eu não lhe roubo a neta. Maria da Gloria irá só aos sabbados. É justo que eu tambem gose um pouco da companhia de minha filha. Voltará no proprio sabbado, ou no domingo pela manhã...
--Era só o que faltava... Gloria dormir fóra de casa, entregue a uma mulher sahida Deus sabe de onde! Uma mulher de annuncio! Uma... A baroneza conteve-se; e depois de uma pausa, em que bateu com o garfo na mesa:--é velha, ao menos, essa creatura?
--É moça...
--Hein!?
--Tem vinte e poucos annos.
--Não é possivel, Argemiro, ter essa mulher em casa!
--Porque?!
--Não é conveniente...
--Pois já lá está. Entrou esta manhã.
--Poderá sahir esta noite...
--Não. Eu já esperava esta tempestade, e pela millesima vez direi isto: Eu não podia dispensar em casa uma pessoa que soubesse dirigir os meus criados, coisa de que eu sou incapaz. Reparem bem para o Feliciano: veste-se no meu guarda-roupa, fuma os meus charutos, folhéa as minhas revistas e serve-se da minha carteira muito melhor do que eu! Os outros, por seu lado, roubam como pódem e trazem o serviço mal acabado, feito por favor... Além disso, _eu quero_ ter minha filha á minha mesa, uma vez por semana, ao menos, e não podia deixal-a só, entregue a homens, e que homens! Concordem que não é exigir muito!
--Pois sim! Fizesse tudo isso, mas arranjasse governante respeitavel, mulher edosa e com bons certificados... Conheço o seu caracter, sei que não poria nunca minha neta em contacto com uma... Ahi tremeu o queixo á baroneza e ella concluiu suffocadamente:
--Pobre da minha filha!
Houve um silencio constrangido. O barão interrompeu-o:
--Bom, bom! Está tudo determinado: aos sabbados Gloria irá visitar o pae. É muito justo...
--A moça é bonita, papae? perguntou Gloria.
A baroneza olhou para o genro com curiosidade.
--Não sei... fallei-lhe uma vez só, e ella levava a cara tapada por um véu lavrado, muito espesso. Mas não me pareceu bonita; nem mesmo isso me importa. Quanto aos attestados, mamãe, ella deu-m'os e bons. O Padre Assumpção tomou algumas informações a seu respeito e todas excellentes. Está claro que eu não tomaria levianamente uma mulher, a quem, embora por poucas horas, terei de confiar minha filha.
--Eu preferiria que você desmanchasse a casa e viesse morar comnosco... não sei o que parece ir uma mulher extranha para o logar de... minha filha...
--Oh, mamãe, que lembrança! A senhora repare que esta é uma mulher mercenaria, uma alugada, pouco mais do que criada, não passa d'isso... O logar de Maria é insubstituivel no meu coração, bem o sabe, melhor que ninguem. Quanto a eu morar aqui, isso é absurdo; preciso viver na cidade: os meus negocios não me permittem este luxo do campo... Agora só lhe peço uma coisa: tomar esta minha resolução como irremediavel e acceital-a, ao menos, por algum tempo...
Gloria assistira a toda a scena com muita attenção. O avô só no fim se lembrou da conveniencia de a afastar. Caldas, um pouco constrangido, demorava-se a descascar a sua laranja, conservando um silencio discreto, e foi só depois do jantar que elle pôde convencer o barão a vender as suas terras ao ministro para a formação da colonia suissa, exploradora dos lacticinios.
A baroneza retirou-se para o seu quarto, declarando uma enxaqueca subita. Argemiro aproveitou o momento para conversar um bocado com a filha.
--Escuta, meu amôr, porque é que tu não modificas esses teus modos de rapaz? Já estás crescida.
Ella abraçou-o com frenesi pelo pescoço.
--Olha que me amarrotas o collarinho! disse elle rindo. Não me respondes?
--Eu não sei!...
--Gostas de ir jantar commigo todos os sabbados?
--Se gosto! Havemos de ir ao theatro, sim, papae?
--Ainda é cedo... terás tempo...
--Eu tenho uma vontade doida de ir ao theatro!...
--Irás... irás, se fôres boasinha e docil a teus avós... teu avó queixa-se de que estudas pouco... não quero isso.
--Não gosto de estudar; não gosto e não quero.
--Não quero?! não quero! então isso é coisa que se diga?!
--É. Eu não quero mesmo! Se o papae soubesse como é aborrecido estudar! Outro dia fiquei com tanta raiva que até rasguei o livro!
--Oh!
--Que espanto! olhe, foi assim: vovô lembrou-se de me chamar, exactamente quando eu ia para a horta ajudar a Emilia a apanhar vagens...
--É muito divertido apanhar vagens?
--É mais divertido do que estar sentada ao pé de vovô, na sala, com a penna na mão ou o livro deante dos olhos! Eu estava lendo e estava pensando na horta, estava escrevendo e estava pensando na horta, estava fazendo contas e a maldita horta não me sahia da cabeça!... Vovô ralhou commigo; eu não sei que disse e elle levantou a régua para me dar... vovó entrou, zangou-se com vovô... Sahiram os dois, eu fiquei sózinha... um pouco arrependida... quiz estudar... abri o livro, mas não sei o que é que tinha nos olhos, que não via bem... Então, desesperada, rasguei o livro...
--O que tinhas nos olhos eram lagrimas, minha filha, lagrimas de remorso por ter respondido mal ao teu avô, que te ama tanto, e teres sido causa de outro desgosto ainda maior...
--Oh! papae! exclamou Gloria, atirando-se de encontro ao peito de Argemiro, lacrimejante.
--O que me vale é que tens bom coração...
Durante a viagem de regresso, Argemiro e Caldas fallaram pouco. Um pensava na familia, o outro em negocios. Foi já quasi no fim que Argemiro desabafou:
--Preciso tomar uma resolução séria a respeito de minha filha. Viste bem como a educam? O avô não sabe ser severo; a avó prejudica-a pelo seu excesso de amôr, e a menina cresce cheia de vontades e á lei da natureza! Se fallo em collegio, arrepiam-se; se fallo em trazel-a para mim...
--Estás doido? têl-a comtigo, como? Olha que eu não quiz nem podia intervir naquella scena de familia; mas a tua sogra tem razão. Que diabo! uma mulher, arranjada por annuncio, póde lá tomar conta de uma menina que está exactamente na edade mais delicada da mulher! Deixa a pequena com os velhos e arranja-lhe uma preceptora ingleza ou allemã. Verás o milagre. Vocês custam a atinar com as coisas simples! São uns complicados...
--Talvez tenhas razão...
--Por força. Eis-nos chegados. Apparece ámanhã na Camara, ás duas horas; o Telles vae soltar o verbo. Não faltes.
Argemiro chegou a casa muito fatigado e entrou para o seu quarto. Extranhou logo ao principio qualquer coisa que não pôde determinar o que fosse, mas que o impressionou bem. Ao pendurar a roupa no cabide de pé, viu que o tinham alliviado do grande peso de ternos de casimira, que o Feliciano deixava accumulados alli semanas e semanas, por preguiça de os escovar e guardar. Enfiando o robe-de-chambre, notou que lhe tinham pregado um botão que lhe faltava. E pensou: Realmente, só as mulheres sabem governar bem uma casa...
Sentou-se ao lado de uma mesa a lêr um jornal, mas a folha descahiu-lhe das mãos e elle pôz-se a olhar para um retrato da mulher, suspenso em um cavalletezinho de prata fôsca. A saudade da sua morta revivia todas as vezes que vinha de vêr a filha; sentia-lhe a falta então, poderosamente. Se ella vivesse! Ah, se ella vivesse correria tudo suavemente!
Argemiro levantou o retrato e contemplou-o de perto. Quantas vezes beijára aquella fronte larga e pallida, emmoldurada por cabellos loiros, que tão mal se adivinhavam na photographia! Que pena não ter Gloria herdado a finura d'aquellas feições, tão bem delineadas, tão puras, nem a doçura d'aquelle caracter, que só o ciume conseguia agitar. Pobre ciumenta, quantas torturas inventára para seu martyrio! Que imaginação a d'ella para crear fantasmas de amôres...
Argemiro cerrou os olhos, depondo o retrato sobre a mesa; e calculou: se ella fosse viva estaria agora com trinta e dois annos... teriamos um rancho de filhos... um rapaz... Tanto desejei um rapaz!... e Maria teria outra educação... Pobre da minha filha, foi a sacrificada!...
IV
Num bello sabbado, o Barão do Cerro Alegre trouxe a neta á cidade e foi depôl-a no escriptorio do pae, que a esperava, já impaciente. O velho não se demorou; tinha horror ás ruas abafadas e ás feias salas dos escriptorios. Mostrava-se mesmo apressado em se desembaraçar da incumbencia, temendo ser cumplice em algum desastre que acontecesse a Maria, que via cercada de perigos, sempre que sahia da sua chacara. Ainda assim, não se pôde conter e recommendou ao genro:
--Dizem que por ahi ha muitas febres... é preciso ter prudencia! A avó pede-lhe que não deixe a Maria comer dôces na confeitaria. Ella póde abusar, é gulosa...
--Vá descansado; e obrigado!
Emquanto Argemiro despachava uns papeis, Maria ora se debruçava na sacada, ora remexia todo o escriptorio do pae.
Mas Argemiro tinha pressa tambem de atravessar as ruas com a sua Gloriazinha pela mão, e abreviou o trabalho. Sahiram; e as recommendações dos pobres velhos foram absolutamente esquecidas...
Maria da Gloria agarrou-se ao pae, atordoada com o borborinho do povo com que ia esbarrando; aquillo alvoroçava-a sem divertil-a, mas a pouco e pouco, a cada paragem para uma conversa de minutos, em que os amigos do papae lhe beijavam a mão, como a uma princeza, acordava nella uma curiosidade extranha por esta vida da cidade, tão embaraçada de enleios. Queria ver tudo, retinha Argemiro em frente das vitrinas, embarafustava pelas lojas; e como via em exposição muitas coisas que não tivera nunca, exigia-as do pae, que, docil como a cêra molle, ia comprando tudo, sentindo-se ainda feliz por satisfazer assim a sua Maria, só d'elle, nesse sabbado bemdito.
Quando chegaram ás Laranjeiras, o pae subiu logo para o seu quarto e recommendou a Gloria que esperasse na sala Alice Galba, a quem mandou avisar, pelo Feliciano, que viesse receber a menina.
Maria recostou-se no sofá, esmagando no estofo as papoilas do seu chapeu á jardineira. A antipathia da avô suggerira-lhe instinctiva repugnancia por essa intrusa, como chamavam lá em casa a governante das Laranjeiras. Ah, mas Gloria tinha o seu plano, não deixaria que a outra tomasse confiança comsigo. Uma alugada, uma mercenaria!
E dava-se ares de grande dama, muito atirada sobre os almofadões de pellucia, com uma expressão de desprezo afeiando-lhe a bocca e as suas faces rosadas, de criança. Realmente aquella attitude não era agradavel, o chapeu sobretudo incommodava-a mortalmente, e sentia enterrar-se-lhe nas costas, como um castigo, a ponta de um colchete. Supportou o sacrificio heroicamente, até que viu entrar na sala, com o modo mais simples e desembaraçado do mundo, uma moça, nem bonita nem feia, vestida de cinzento, com aventalzinho preto e um molho de chaves pendentes da cintura.
Gloria impertigou-se mais. Alice approximou-se d'ella sorrindo e estendeu-lhe as mãos, duas mãos muito brancas e longas. Gloria levantou-se, sem se dignar tocar nessas mãos, e disse com aspereza:
--Quero vêr o meu quarto.
Alice contemplou-a com tristeza e curiosidade; depois, voltando as costas:
--Siga-me...
Atravessaram o corredor, subiram uma escada e entraram em um quarto forrado de azul, com janellas abertas para os lados do Sylvestre e duas camas brancas.
--É aqui?!
--É aqui.
--De quem é esta cama?
--Sua.
--E aquella?
--Minha.
--Eu quero dormir sózinha; não sou medrosa. Arrange outro quarto para mim. Agora, tire-me o chapeu!
Gloria sentou-se na cama, brutalmente. Alice tirou-lhe o chapeu e endireitou-lhe o cabello. A menina foi ao espelho, achou-se bem penteada e lá no fundo da sua consciencia concordou que jámais sentira pousar sobre a sua cabeça mãos mais habilidosas. Voltando-se, contemplou Alice de alto a baixo, e perguntou:
--Quantos annos tem?
--Vinte e tres.
--Parece mais velha.
Alice sorriu.
--Eu tenho doze...
--Parece mais criança...
--Hein?! toda a gente diz que já pareço uma moça! É myope?
--Parece criança no juizo, minha amiguinha, e é por eu vêr muito bem que lhe digo isto... Não seja má... venha lavar as mãos; seu pae espera-a para jantar; não está ouvindo o tympano? É o signal...
Gloria tremia, sem atinar com a resposta para semelhante affronta. Depois, num desabafo:
--Você é muito grosseira!
Alice apoiou-se ás costas da cama e fechou os olhos.
--Bem diz vovó: sempre é mulher de annuncio!
--Quê?!
Gloria não respondeu, e correu, rindo ás gargalhadas, para a mesa do jantar.
Argemiro esperava-a de braços abertos.
--Ah! como a tua alegria me faz bem ao coração! Senta-te aqui e conta-me: por que te ris tanto?
--Por nada... átoa!
--Átoa! como é bom rir átoa!
Como eu preciso da tua innocencia ao pé de mim! Ri sempre, meu amôr!... Olha o guardanapo... Estás contente?... aqui tens o teu pãozinho... É a primeira vez que jantas sozinha com teu pae... que te parece? Olha a tua sopinha... Está a teu gosto?
--Eu não quero sôpa.
--Estás sem apettite?
--Eu não gosto de sôpa.
--Ah, aqui é preciso gostar de tudo, minha senhora! uma pessoa de educação nunca diz a uma mesa:--eu não gosto d'isto, eu não gosto d'aquillo... toma a tua sopinha... E agora dize-me: como achaste a D. Alice?
--Horrenda.
Feliciano sorriu, sorriu com tamanha indiscreção, que Argemiro reprehendeu-o com um olhar.
--Seja boa e é o que se quer... precisas tratal-a com delicadeza e amizade; ouviste? é, graças a ella que te tenho hoje aqui... Queres vinho? muito pouco... com agua... assim... Ora, a minha Gloria! Tomára já ver-te moça e tomando conta definitivamente d'isto tudo, para ter-te sempre aqui... sempre!
Gloria, que recusára a sôpa, comia agora com satisfação. O pae revia-se nella, todo contente.
A mesa estava bem posta; desde que Alice entrára não deixára de haver flôres e fructas ao jantar.
Gloria, confundindo a elegancia com o luxo, exclamou:
--Que mesa rica, papae!
--Se viesses jantar commigo antes da D. Alice estar aqui, não dirias isso, embora na mesa estivessem as mesmas porcellanas e os mesmos talheres. Repara nisto, minha filha, que a arte e o gosto dão ás coisas mais simples uma apparencia de conforto e de alegria muito agradaveis á vida. A minha mesa era triste... agora é assim!
Feliciano franziu as sobrancelhas, mal humorado. Gloria confessou:
--Lá em casa só se botam flôres na mesa em dia de visitas...
--Porque tua avó é uma senhora velha e cansada. Compete agora a ti esse trabalho. Informa-te com a D. Alice a esse respeito. Ella parece perita na arte de fazer _bouquets_. Repara para aquelle...
--Quem não sabe!
--Pensas que é facil?
--Tenho certeza.
--Pois então incumbo-te de fazeres todos os dias um ramo para a mesa de teu avô...
--Está dito.
Argemiro não cessava de olhar para a filha, num embevecimento de noivo, muito sollicito em servil-a, provocando-lhe as expansões, com uma alegria de moço. Ella percebia a adoração e abusava, ora rindo, ora franzindo o narizinho aos pratos que o Feliciano lhe apresentava.
Entre as peças da baixella figurava nesse dia na mesa do jantar um candelabro de prata fosca, que Argemiro reconheceu com difficuldade, tal era o tempo em que esse objecto vivêra segregado no fundo escuro de um armario. Na verdade, Alice caprichára em adornar a mesa! Seria uma homenagem a esse jantar de festa, só de dois talheres, para um homem quasi velho, e uma menina quasi moça?
Quando o Feliciano offerecia a Gloria uma fatia de coelho assado, ella exclamou, batendo com o cabo do garfo na mesa:
--D. Fuas morreu, papae!
Argemiro contemplou-a com espanto; mas desatou logo a rir deante da expressão de seriedade quasi comica da filha.
--O teu gato?
--O meu coelho branco... Todas as manhãs, quando me levantava, a primeira coisa que eu fazia era correr para o páteo da criação... D. Fuas conhecia-me e vinha para mim... eu levava sempre muita couve para elle, e gostava de ver aquelle focinhinho, toca que toca, mastigando a verdura... Hontem desci, e nada de D. Fuas! Procura para aqui, procura para alli, e fomos achar o coitado embaixo da paineira, todo esticadinho, e ainda mais branco porque estava cobertinho de paina... Então eu e a Emilia fizemos uma cova, forramos a terra com a paina limpinha, deitámos alli D. Fuas, tornámos a cobril-o com paina, depois com terra, e acabou-se!
--Choraste?
--...Chorei... mas vovô prometteu-me outro!
--Á saude do outro que ha de vir e que te consolará!
Argemiro bebeu convictamente á saude do coelho, como se o fizera á de uma illustre personagem. Como elle adorava e era grato a tudo o que alegrasse a vida da sua Gloriazinha!
Ouvia-a com tal interesse, que a chamma infantil dos olhos d'ella ateava-lhe n'alma curiosidades de criança, tambem. Eram dois meninos á mesa, áquella mesa que Alice enfeitara como para um noivado.
Passaram então a discutir as qualidades dos animaes predilectos.
Argemiro elogiou os gatos. Gloria repellia-os; preferia os cães e cães de fila, que mordessem os outros e a adorassem a ella! Confessou ter muito desejo de ver leões e elephantes. Contou que uma onça, fugida do Jardim Zoologico, andára rondando a chacara: mas que, visse o pae que exquisitice! ella só se lembrava de temer a féra á hora de ir para a cama, quando estava toda a casa fechada... De dia não; corria pela horta, pelo pomar... Mas á noite!...
--És medrosa?
Ella fez notar ao pae, com um olhar, o Feliciano.
--Que mulherzinha! pensou Argemiro; e riu-se. Embora quizesse, elle não pôde prolongar a demora na mesa; Gloria ardia de impaciencia; comêra muito depressa, com a idéa de andar pela casa toda, a _sua casa_, que ella dentro de poucos annos governaria... E relanceou um olhar de dominio em redor de si.
--Bem, meu amor, gira um pouco pela casa e vai depois fazer companhia á D. Alice...
Feliciano informou:
--Ella está jantando.