A Intrusa

Part 2

Chapter 23,894 wordsPublic domain

--Eu virei, quando determinar, saber a sua resposta.

--Se quer ter esse trabalho... Venha então quinta-feira. Sómente, peço-lhe mais algumas informações sobre os seus antecedentes e que fixe o seu ordenado.

Elle já se mostrava impaciente, caminhando para a porta, como a despedil-a. Ella fez uma reverencia timida e sahiu.

Quando Argemiro chegou á rua, com a sua pasta pejada de papeis, viu Alice subir para o bond e notou, como o seu criado, que ella levava as botinas rotas e tinha os artelhos delicados.

O diabo da rapariga fizera-o perder um tempo precioso, e talvez inutilmente. Quem sabe? talvez apparecesse outra mais geitosa. Tudo lhe desagradava nesta, desde os hombros encolhidos até ás botas esfoladas...

Quando Argemiro voltou á casa para jantar, encontrou o padre Assumpção, que vinha trazer-lhe noticias de Maria da Gloria.

--Tua filha pediu-me que te viesse hoje mesmo dizer que está com muitas saudades tuas. Que diabo fazes, que a não vais ver?

--Bem sabes em que consumo as horas... uma estupidez! É tão longe aquillo, e minha sogra fecha tão cedo a casa!... Ah, estou morto por trazer minha filha, ao menos uma vez de quinze em quinze dias, para jantar commigo, encher esta minha casa triste de riso e de alegria. Como a achaste?

--Magnifica, muito córada, forte! A avó exasperada porque ella não lhe pára no estudo. Quando eu cheguei estava ella encarapitada no muro, apanhando as amoras do visinho; quando entrou trazia o avental manchado e a saia toda descozida. A avó mostrou-me aquillo muito queixosa, mas Gloriazinha mal a deixava falar, tantos eram os beijos que lhe dava!

Riram-se ambos, Argemiro e o padre.

--A avó tem razão; minha filha já está muito crescida para aquelles modos de rapaz...

--É uma criança... deixa-a.

--Mas afinal, de quem é a culpa? Dos avós. Se ella morasse commigo seria muito outra.

--Não estaria tão bem.

--É uma selvagem... esta é que é a verdade; mal sabe lêr, rabisca umas letras em pessima calligraphia... e toca sem compasso umas intoleraveis lições do methodo! Já era tempo de saber muito mais. Não te parece?

--Ora! sabe em que tempo se devem plantar os repolhos e podar as roseiras, como se córa roupa e se deitam gallinhas. É uma sciencia rara hoje em dia e muito util. Tua sogra pediu-me que lhe ensinasse o cathecismo, para a primeira communhão.

--E tu...

--Eu disse-lhe que deixasse a menina por emquanto adorar a Deus a seu modo. Quando eu entrei na chacara ella repartia fructas com a criançada pobre da vizinhança.

--É brutinha, mas tem bons sentimentos...

--É um anjo; o ser selvagem não é culpa sua; mudará com o tempo.

--Não basta o tempo; estás convencido de que ella precisa de mais alguma coisa... Pobre criança, terei o direito de sacrifical-a ao egoismo da avó? Andamos errados conservando-a lá... não acoroções a minha negligencia; esta é a verdade. Se eu pudesse organisar a minha vida de outro modo... A proposito: veio hoje uma rapariga, pelo annuncio do jornal, offerecer-se para governante. Só uma! vês tu? E vocês a dizerem que viriam em rebanho! Antes viessem varias, poderiamos escolher. D'esta gostei pouco. Pareceu-me acanhada, toda torta.

--Corcunda?

--Não... não sei. Preciso da tua intervenção. Ella voltará quinta-feira á tarde; conversa tu com ella e decide tudo. Não quero tornar a vêl-a, mas desde já te digo que seja como fôr, direita ou torta, será preferivel a coisa nenhuma.

--Vaes crear uma situação embaraçosa e insustentavel. Já não estás em edade de fantasias.

--Fala para ahi. Que disse tua mãe?

--Contra a minha espectativa, aprova a tua resolução...

--Por força.

--Mas não acredita que se possa viver sob o mesmo tecto com uma creatura sem nunca lhe pôr a vista em cima.

--Com esta, coitadinha, parece-me que isso ha de ser facil. Confesso-te até que a sua fealdade me desconcertou. Eu desejaria uma governante bonita, ou pelo menos graciosa. A belleza suggestiona e dá a tudo que a rodeia um movimento de elegancia. Imagina, se ella effectivamente fôr aleijada. Será escarnecida pelos criados e furtará toda a originalidade á nossa situação!

--Preferes o perigo...

--Para pôr á prova a minha impassibilidade e dar-me ares de heroe--respondeu, rindo, Argemiro. Preciso exercitar a minha vontade e o meu sangue-frio.

--Tolices!

--Mas que queres que eu te diga, a ti que me conheces de cór e salteado?! Vens com uns ares exquisitos assustar-me com um futuro que não promette coisa nenhuma! Tu bem sabes que o verdadeiro motivo d'esta imposição está nisto: ser-me-ia penoso vêr agitar-se em torno de mim uma mulher, nesta casa, onde nenhuma outra entrou depois que morreu a minha. A minha viuvez é tão saudosa, tão _viuva_, que só vivo para sentil-a. Não digo senão a ti estas coisas, com medo de parecer ridiculo. Tu me comprehenderás: foste seu amigo, seu confessor, soubeste mais da sua alma do que eu mesmo, darás razão a este aferro. Amo minha mulher atravéz do tempo, com a mesma tenacidade dos primeiros dias. Ella preside á minha vida, soberanamente.

Expliquei á outra, que ahi veio, que só uma razão me obrigava a impôr-lhe esta clausula extravagante: não querer dar azo á maledicencia e aos commentarios dos criados... Como se isso me importasse!

--E ella?

--Acceitou.

--Emfim... acho que fazes mal. Mas isso é comtigo. Preferiria que te casasses, apezar...

--Ah, isso nunca! Minha mulher, sabes bem, pediu-me que não me tornasse a casar; fez-me jurar... far-lhe-ei a vontade. Tanto mais que nenhuma mulher me interessa, a não ser...

--A não ser...

--Para essa especie de amores que só tem um sabor--o da frivolidade. Eu não sou santo, mas sou fiel. Acredites ou não, a verdade é que não me deito nunca sem beijar o retrato de Maria, desde o dia da sua morte pendente á minha cabeceira. Tenho a sensação de que a alma d'ella não sae d'esta casa que tanto amava; como que a sinto a envolver-me todo... Lá fóra sou um viuvo como outro qualquer, não me abstenho nem da côrte á mulher de salão, nem do abraço á mulher do peccado; mas logo que entro em minha casa, parece-me sentir as mãos finas de Maria segurarem as minhas e a sua voz, que não esqueço, repetir-me aquella sua phrase ciumenta e que era como que o seu estribilho:--ama-me, a mim só! a mim só!

Houve uma pausa. Padre Assumpção observou:

--A nossa Maria não se parece com a mãe...

--Nada.

--Sahiu a ti.

--Talvez. Mas vamos jantar, que tenho de ir ao Lyrico.

Á mesa, logo ao sentar-se, Argemiro viu á direita do seu prato um rasgão na toalha, do tamanho de um nickel; mostrou-o com um gesto de enfado ao padre Assumpção.

--Naturalmente, uma dona de casa faz falta... observou este.

Jantaram sem alegria; á sobremesa o criado foi buscar a caixa dos charutos e Argemiro, levantando o talher de christofle mostrou ao padre que o garfo tinha signaes de fogo na extremidade dos dentes, e que as laminas das facas começavam a bailar nos cabos.

E tudo aquillo era novo!

Padre Assumpção sorriu:

--Agora reparas em tudo!

Feliciano trouxe os charutos e Argemiro reconheceu que o negro se sortira abundantemente com os seus havanas. Sempre o mesmo abuso! Olhando com attenção para o criado, viu que elle ostentava cynicamente uma das suas camisas bordadas; tambem não estava certo de lhe haver dado já aquella bonita gravata roixa de bolinhas pardas. Como o padre Assumpção era considerado de casa, Feliciano, mesmo á vista d'elle, apresentou ao amo as contas da semana.

--A ode do desperdicio!

Era um batalhão de cifras encarreiradas, pelo almasso abaixo, atropellando-se no seu exaggero que as fazia saltar aos olhos de Argemiro. Desde o fornecedor das fructas finas, até á serzideira da roupa branca, todos tomavam vulto através a multiplicação do negro.

--Vês, Assumpção? quasi um conto de réis numa quinzena, isto numa casa propria, onde ha adega e que a chacara do sogro enche de perús, ovos, leitões e hortaliça! No tempo de Maria passava-se melhor, havia mais gente e gastavase muito menos.

--Ainda tens um recurso...

--Qual?

--Uma pensão...

--Deus me livre! A casa de pensão é a valla commum da vida. Repugna-me! e voltando-se para o negro:

--Olha cá, explica-me: porque, pagando eu tanto dinheiro a uma costureira, ella deixa buracos como este numa toalha de mesa? Que especie de costureira é essa?

O Feliciano fazia-se de parvo quando lhe convinha.

--É uma especie de velha...

--Ah! uma especie abominavel! Despede-a.

Acabado o jantar, padre Assumpção sahiu para a sua caminhada até ao largo do Machado, como de costume, e Argemiro foi vestir-se para o espectaculo. Quando, já encasacado, enfiava o sobretudo, viu o Feliciano estender-lhe um papel, murmurando com a maior naturalidade:

--Mais uma conta que me esqueci de entregar; estava no fundo do bolso.

--O teu bolso não tem fundo, nunca se póde encher! Que conta é essa?

--Uma conta antiga, de um carro...

Argemiro estava de bom humor. Riu-se. E sahiu pensando:--acabou-se o teu reinado, ladrão!

O salão do Lyrico estava repleto.

O primeiro acto ia quasi no fim.

Agarrados um ao outro, o tenor e a soprano esguelavam-se em protestos de amor. O publico via aquillo com respeito e certa solemnidade. Argemiro levantou os olhos para o camarote da Pedrosa, que olhava exactamente para elle nesse momento. No primeiro intervallo subiu a apresentar a essa senhora os seus respeitos. Ella estendeu-lhe a mão enluvada, segurando-o com dominio, fazendo-o sentar-se ao pé de si. Pedrosa esquivou se para o corredor, em conversa com o Conselheiro Isaias e o dr. Sebrão.

O Pedrosa almejava a pasta da fazenda; andava na occasião ostentando pelos jornaes grandes artigos financeiros, coalhados de algarismos encarreirados como formigas por entre a seccura sábia da phraseologia. Ah! como esses artigos espantavam uns e espicaçavam a maledicencia de outros, que os attribuiam ao Benedicto Lemos, um bohemio intelligente como o diabo e bebedo como uma gambá.

Elle, o Pedrosa, adulava agora o Sebrão e o Conselheiro Isaias, ambos commensaes e amigos do Presidente da Republica.

Era um homem arguto.

A esposa, baixa, trefega, de um moreno pallido sob o qual se via arder uma alma ambiciosa, instigava-o a ir ao encontro das posições apparatosas da alta politica.

Vingava-se do Destino a ter feito mulher, conservando-se moça através dos quarenta annos. Não era bonita, mas a sua expressão de desafio, que agradava aos homens e irritava as mulheres, tornava-a talvez um tanto original. Gostava de impôr a sua auctoridade. Para o Argemiro era de tão carinhoso acolhimento, que elle trabalhava por penetrar-lhe as intenções.

Conversavam os dois, como se esperassem ambos uma palavra reveladora, quando entrou no camarote o Benjamim Ramalho, todo tezo no seu alto collarinho, com uma camelia branca na lapella e o cabello achatado sobre as orelhas pequenas e redondinhas. A Pedrosa mal disfarçou a sua contrariedade. Benjamim curvava-se deante d'ella numa reverencia. E depois de sentado:

--Magnifico este primeiro acto. Não gostou?

A Pedrosa respondeu quasi seccamente:

--Muito.

Benjamim olhou para o Argemiro, que poz o binoculo para o camarote da Vieirinha. A Pedrosa, percebendo o movimento do advogado, seguiu-lhe o exemplo. Benjamim ficou por um momento só, perplexo; hesitou, comprehendeu que chegára inopportunamente e acabou binoculando tambem a Vieirinha!

Depois de um curto silencio ouviu-se a voz da dona do camarote num commentario de enfado:

--Não é feia aquella senhora, mas veste-se muito mal...

Benjamim, confirmando:

--Realmente, não tem gosto... usa umas côres muito espantadas...

Argemiro sorriu por dentro. A pobre da Vieirinha tinha um peccado: ser casada com um ministro, cuja pasta apanhára no ar quando vinha atirada ás mãos do Pedrosa!

Argemiro, sem retirar o binoculo:

--Então, Benjamim, você gostou muito do primeiro acto?

--Absolutamente!

--Homem feliz...

--Porque?!

--Porque póde gostar absolutamente de alguma coisa... quando para toda a gente tudo no mundo tem restricções...

--Pois olhe, acudiu a Pedrosa sem poder disfarçar uma pontinha de inveja; pela sua insistencia em olhar para a Vieirinha, dir-se-ia que ella, ao menos para o senhor, não tem restricções.

A Pedrosa tinha geito para dizer as coisas mais duras como se as tivesse fervido em mel. Falou rindo. Benjamim riu-se tambem e o advogado respondeu com um suspiro:

--É que aquella senhora não permitte com facilidade que a gente a veja de perto...

--Sim?! Deve ser para que não lhe vejam os defeitos... ou talvez tivesse estado num convento. A proposito, minha filha deixa ámanhã definitivamente o collegio das Irmãs de Sião. Vou buscal-a a Petropolis. Estou velha, com uma filha já moça!... Sabbado quero apresental-a aos meus amigos. Ella tem grande predilecção pelo sr. dr. Argemiro!

Notou então o advogado que a Pedrosa o olhava com uma expressão differente, como se lhe visse na cara pela primeira vez qualquer coisa desconhecida...

Intrigava-o aquillo, mas não achou a explicação até ao fim da visita; Benjamim atrapalhava-o. Em que pensaria a Pedrosa?...

Ao sahir do camarote, sentiu-se agarrado no corredor pela mão do marido, que o reteve, apresentando-o ao conselheiro Isaias e ao dr. Sebrão, a quem alcunhou de Demosthenes brasileiro.

Argemiro ouvira já o collega, num dos seus mais famosos discursos no Senado.

O conselheiro Isaias approvou o cognome de Demosthenes dado ao Sebrão, lamentando que o Rio de Janeiro não tivesse, como a formosa Athenas, o gosto fino pela palavra, tão desbaratada aqui, e não considerasse a politica como uma das artes superiores... tambem elles conheciam o dr. Argemiro Cláudio e sabiam que elle escrevia actualmente um livro juridico de extraordinario interesse...

Pedrosa, ufano da amizade dos tres, resplandecia de orgulho.

Argemiro cumprimentou-o pelo seu artigo d'essa manhã. Bons argumentos; excellentes demonstrações!

Pedrosa esfregou as mãos: sim, elle era sincero e estudara a questão a fundo. Fôra impelido á publicidade por uma serie de circumstancias muito especiaes; do contrario nunca sahiria do seu retiro, onde queimava as pestanas a lêr os mestres e a estudar as mais graves questões financeiras do paiz...

O conselheiro Isaias affirmou:

--Ainda não pude lêr o seu artigo; mas o Presidente leu-o e ficou bem impressionado.

Pedrosa deu um saltinho involuntario:

--O Presidente leu o meu artigo? Gostou? Ah, mas naturalmente! Elle ha de forçosamente vêr que eu não aponto alli senão erros da administração passada e que lhe tem acarretado a elle enormes embaraços...

--Difficeis de vencer...

--Facilimos, senhor, facilimos!

--A verdade é que o Presidente não está bem rodeado e deixa-se influenciar pelos ministros, mais do que convém... objectou Sebrão.

--Isso! approvou Pedrosa, estendendo a mão em fórma de juramento.

Os outros olhavam para elle com certa admiração. Pedrosa continuou, um tanto confidencial:

--Eu é que não quero dizer a ultima palavra...

Nesse instante rompeu a musica e Argemiro achou mais interessante ir ouvir o segundo acto da Tosca, do que a ultima palavra do Pedrosa. Cumprimentou-os á pressa e caminhou para a escada.

III

O trem dos suburbios ia partir, quando Adolpho e Argemiro entraram na gare da Central. Adeante d'elles corria uma multidão pressurosa e atrapalhada, sobraçando embrulhos e arrastando crianças.

--A hora do jantar aqui é uma hora perigosa, Argemiro! E digam que o feijãozinho não tem prestigio!

Nesse instante sentiram-se empurrados. Eram umas senhoras que lhes tomavam a deanteira no assalto, muito nervosas, olhando para traz, a contar-se, com medo que não ficasse alguma extraviada.

--Isto é uma ignominia. Obriga tua sogra a vir cá para baixo.

--Imagina se não lhe tenho pedido! Cada vez que vou vêr minha filha é este horror! E perco um tempo!

Caldas rogou uma praga.

--Que foi isso?! olha se te mandam para o xadrez!...

--Aquelle sujeito ia-me arrebatando o pacote dos _marrons_ de tua filha! Não lhe basta a carga. Gente amiga de embrulhos, a dos suburbios! Olha.

--Não tenho tempo. Entra.

Entraram ambos para um carro.

Cheirava a carvão de pedra e havia calor.

Argemiro continuou, depois de sentado:

--Minha sogra tem razão; ella vive como uma abbadessa de convento rico; tem um prestigio por toda aquella redondeza que nem calculas... Muito boa, muito esmoler, é o centro de uma população de pobres e de familias que, se não dependem d'ella materialmente, acostumaram-se á sua tutela moral e não a dispensam. Eu comprehendo-a e dou-lhe razão. Ha ainda outro motivo que a obriga a viver na chacara: é o empenho de ter a neta só para si. Minha mulher, não sei se já te disse, era filha unica e criada com um mimo raro; durante o tempo em que vivi casado tive occasião de conhecer a mãe mais extremosa que jámais vi. Para mim foi de uma bondade e de uma ternura encantadora. Amava-me porque via bem quanto eu fazia a filha feliz... A neta reproduz para ella a filha morta. Gloria foi para casa da avó, muito pequena; foi ella quem a criou, julga-se com todo o direito a guardal-a para sempre... E é para tel-a só para si, nos mesmos logares em que cresceu minha mulher, que teima em não sahir do seu canto...

--E comtigo não se conta?

--Considera-me muito, mas entende, e com razão, que não posso ter Gloria em minha companhia.

--E se te casares?

--Ella sabe bem que isso não acontecerá nunca. Minha sogra herdou o ciume da filha... Sabes que minha mulher me pediu que não me tornasse a casar...

--Todas as mulheres rogam aos maridos a mesma coisa, e afinal... todos os viuvos se casam! Mais depressa que os solteiros, nota.

--Sinto-me bem assim.

--Teu sogro aferra-se tambem por gosto a este sitio?

--Por gosto e por economia. Elle explica melhor a sua predilecção pelo campo, dizendo que, á sombra das suas mangueiras, se sente mais longe da republica...

--Ahi está! e eu nunca o ouvi falar em politica...

--Não é homem que discuta factos consummados. Depois, está velho e é amigo do repouso... Fez-se botanico, para entreter os ocios da chacara. Teve uma mocidade tempestuosa; a mulher não foi feliz; agora então, para compensal-a, dá-lhe toda a soberania e é um cordeiro. O bom velho fez esquecido o mau rapaz...

Argemiro reparou que ainda tinha nas mãos distrahidas um lequezinho de papel apanhado á entrada do vagão. Revirou-o entre os dedos: tinha uma vareta quebrada, unida ás outras por um fio de linha.

--Deve ser d'aquella moça que se remecheu ha bocado procurando qualquer coisa... Pensei que lhe tivessem roubado o relogio!

--Talvez faça falta...

Era d'ella. Argemiro ao entregar-lhe o leque notou lhe um movimento de alegria mal disfarçada. Voltou a sentar-se e Caldas instou:

--Influe teu sogro a vender as suas terras em Minas. O Barreto pediu-me para organizar uma colonia suissa, para a industria dos lacticinios... e convem-lhe adiccionar ás d'elle as terras do barão. Dão-lhe resultado?

--Filho, não sei. Meu sogro é um homem calado e eu fujo de mostrar interesse por questões de dinheiro. Mas onde diabo vaes tu arranjar suissos?!

--Á China, talvez... Que pergunta! Irei á Suissa, homem!

--Sempre arranjas uns negocios!

--Nunca os procuro. Elles entram por seus pés em minha casa; ahi, ou os recebo ou atiro-os pela porta fóra. Fica certo que negocios procurados não prestam. Não ha nada como um sujeito passar por homem rico, para enriquecer... O proprio individuo chega até a illudir-se e a ficar mais bonito... Conheces maior volupia que a do dinheiro, senhor absoluto do mundo todo? Só o que é bom e caro, dá prazer...

Argemiro sorriu, lembrando-se do lequezinho quebrado, e do gesto de contentamento que fizera a dona ao rehavêl-o. Pobrezinha...

Caldas, por ter confiança no amigo, entrou a falar-lhe baixo da sua cooperação nos relatorios do Vieirinha, ainda maior trabalho do que tivera com os relatorios do Theobaldo, quando ministro da fazenda...

--Dize-me cá, atalhou Argemiro. Em que disposição está o presidente a respeito do Pedrosa, sabes?

--O burro do Pedrosa vae ser ministro.

Argemiro riu-se; Caldas retomou o fio das suas confidencias interrompidas.

O trem corria de estação em estação, com os seus guinchos ensurdecedores. Uma criança chorava no collo da mãe afflicta; um grupo de rapazes amarellos e desdentados falava de eleições do Club Riachuelo, ao pé de uma senhora de cabellos grisalhos, bem vestida, e que viajava só.

Lá fóra a paizagem estendia-se larga, banhada de sol escaldante. Um véu fino de pó dourava a atmosphera. Laranjeiras pequenas, de grandes fructos dourados, alegravam aqui e acolá um ou outro ponto dos campos mal tratados, onde em gramados secos trilhas barrentas descreviam linhas tortuosas.

--Isto é desconsolador... observou Argemiro, apontando para a extensa pradaria, onde em vários trechos se agrupavam casinhas feias.

--E este trem poderia rolar entre pomares cheirosos. O Brasil é a terra da flôr exquisita e da fructa saborosa. De um lado e de outro d'estas estradas, se tivessemos camponezes e agricultores de bom gosto, veriamos, Argemiro, lindas orchideas suspensas na galharia de arvores fructiferas. Olha bem para aquillo! É precizo não ter absolutamente gosto nem instincto, para se fazer uma cerca assim, de paus tortos, aqui no paiz do bambú. Do lindissimo bambú! Ah! o Japonez! que povo feliz e aproveitador... Vou lembrar ao Barreto instalarmos aqui uma colonia de Japonezes, com a condição de fazerem elles mesmos as suas casas e trazerem muitas musmés bonitas...

--Condição essencial!

--E que tu com toda a tua viuvez aproveitarias melhor do que eu...

--Aprecio pouco o typo e detesto a raça...

Adeante, o grupo de rapazes augmentára com outros sujeitos, que, abandonando os seus logares, tinham vindo discutir a eleição do club. Um dos moços, no calor da discussão, sentára-se no braço do banco em que viajava a senhora de cabellos grisalhos. Ella encolheu-se, com ar constrangido. O rapaz gritava aos outros:

--Se eu não tivesse educação, não teria contido o impeto que tive de esbofetear o Andrade, alli mesmo no club!

Um outro advertiu-o de que elle estava incommodando a viajante; elle levantou-se com uma desculpa e foi nesse instante que o trem parou em Madureira.

Caldas e Argemiro encontraram na estação a victoria do barão, que os esperava.

--Lá em casa todos bons? perguntou Argemiro ao cocheiro.

--Todos bons.

--Nota esta exquisitice, Adolpho; só me lembra que minha filha póde estar doente, no momento em que me approximo d'ella. Assalta-me então o terror de a ir encontrar de cama...

A chacara do barão ficava a um kilometro da estação. O carrinho partiu ao galope de um cavallo ligeiro, e dez minutos depois transpunha o largo portão da chacara, seguindo até á porta da habitação, por uma extensa rua de mangueiras bellissimas.

--Como isto repousa a gente! exclamou Caldas, aspirando com força o aroma da flôr de fructa e pascendo o olhar pela frescura d'aquellas sombras.

--O Paraiso... murmurou Argemiro, esticando o pescoço, a vêr se via, ainda que de longe, a filha.

Antes que o carro chegasse á casa, Maria da Gloria atravessou aos gritos um grande relvado lateral da rua e irrompendo d'entre as mangueiras atirou-se para o carro alegremente:

--Papae! papae!

O cocheiro mal teve tempo de diminuir a marcha do animal e ella trepou para o estribo, enfiando no carro a cara afogueada e risonha. O pae segurou-a, puxando-a para dentro, sem coragem de ralhar com ella por aquella imprudencia. Tentou falar, ella cobriu-lhe as barbas e a bocca de beijos.

--Que exhuberancia! exclamou Caldas, rindo.

Chegavam á porta do velho palacete dos barões do Cerro Alegre.

No patamar da escada, o sogro de Argemiro, barbeado de fresco, com o seu corpo franzino dentro de brins bem alvejados e o boné de seda preta seguro na mão fina e nervosa, sorria á espera dos hospedes, a quem abraçou.

--Mamãe?

--Espera-os na sala do meio. Entrem.

Argemiro aprendera com a mulher a chamar a baroneza de mamãe; percebendo agora quanto aquelle titulo commovia o coração da velha, continuava a dispensal-o de bom grado. Era como se a alma da morta lhe passasse pelos labios todas as vezes que dizia essas duas syllabas amadas.