A Intrusa

Part 5

Chapter 53,915 wordsPublic domain

--Vá-se embora! E não me torne cá, seu patife! gritou-lhe o velho, fóra de si. Não queremos saber de nada, ouviu? De nada! Suma-se!

A baroneza interveio a favor do rapaz, aconselhando-o a calar-se; entregando-lhe a resposta escripta pelo marido, accrescentou:

--Gloria não iria, nem nesse domingo nem em nenhum outro! Passassem por lá sem ella! Era o que faltava!

Foi exactamente nesse instante que a menina, percebendo o criado do pae, correu para elle com um ramo de rosas na mão.

--Você já vae, Feliciano?

--Já, sim senhora...

--Bem; então leve estas rosas a D. Alice!

A baroneza fez um gesto para impedir tal incumbencia; mas o barão travou-lhe do braço:

--Deixa-a lá.

--Minha pobre filha, exclamou a baroneza olhando para o céu; não sei como hei de defender-te sózinha!

E os olhos encheram-se-lhe de pranto.

--Lagrimas, ahi temos lagrimas! Mas, querida, repara que a nossa Gloria não offendeu em nada a memoria da mãe e lembra-te tambem de que, se fôr verdade o que pensas, o Argemiro é rapaz, não póde guardar a castidade de uma menina... Que mais queres?

Amou a nossa filha, fêl-a feliz durante a vida e isso basta para lhe sermos muitissimo gratos.

--Que favor!

--Se ella vivesse, estou certo de que elle lhe seria fiel... mas d'ella já não resta senão a memoria. Os homens são vários, não exijas d'elles virtudes que não podem ter... Almas immaculadas só as das mães.

--Para mim, Maria existe, sinto-a tão viva na minha saudade, que trahil-a me parece uma profanação!

--Exactamente, porque és mãe.

--Não achas tambem indigno que elle dê as joias da mulher a uma rapariga de maus costumes e que metteu em casa, precisamente na casa onde viveu a outra e que está ainda toda cheia d'ella?

--Parece-te a ti. Elle, o viuvo, deve ter sentido o isolamento d'aquella casa, onde por nove annos viveu sózinho! Nove annos não são nove dias. Outro fosse elle... De mais a mais no Rio de Janeiro, que é a terra da tentação!

--Defendes o Argemiro!

--Tu havias de comprehendel-o e dar-lhe razão se...

--Se eu fosse homem...

--Ou se não fosses mãe de Maria...

--Maria! Acredita, ella renasce todos os dias, sinto muitas vezes o peso d'ella sobre os meus joelhos, ou nos meus braços, como quando a adormecia... Vejo-a desde pequenina, e de quando andava por ahi correndo com o seu bibe branco e o cabello solto, lembras-te? Tão linda! até depois, já mocinha... e sempre, sempre, tenho-a commigo, só commigo! Ás vezes sinto nos dedos a seda dos seus cabellos tão finos e no rosto a doçura dos seus beijos...

Sei que é illusão, mas quem nos diz que no mundo não seja tudo illusão?

A alma perfeita e amorosa de Maria não está longe de nós, mesmo que esteja no céu. É a minha convicção.

--Uma alma perfeita perdôa todas as offensas.

--Mas soffre. Imagina a dôr, se do outro mundo ella vê o marido pregar amorosamente as suas joias ao peito de outra mulher, e que mulher, uma mercenaria!

Maria foi ciumenta... Argemiro foi o seu unico amor!

--Está bem; mas não acredites que elle tenha dado as joias da mulher á outra...

--O Feliciano viu...

--O Feliciano é um despeitado.

--Quando te parece, és cego e és surdo!

--Todos devem sêl-o em certas occasiões!

--A tua opinião é talvez que me cale!

--Que te cales e que mandes a nossa Gloria todos os sabbados visitar o pae. Elle assim o quer e manda, faça-se a sua vontade.

--Isso nunca! Seria uma desmoralisação! O meu dever é velar por minha neta!

--Argemiro é um homem sério e muito amigo da filha.

--E nós?

--Nós só somos responsaveis por ella para com o pae.

--E perante Deus!

--Deus... A proposito de Deus: pedi na carta ao Argemiro que trouxesse no domingo o Assumpção.

--Padre Assumpção... que idéa! Se lhe fallassemos?

--A que respeito?

--A respeito das joias... Elle aconselhará o Argemiro e indagará de tudo...

Se não estiver tambem fanatisado!

O barão riu-se.

--Faze o que quizeres; eu lavo d'ahi as minhas mãos.

A baroneza, resolvida a agir, sentiu-se subitamente reanimada. Ella iria até ao inferno pela sua idéa. Defenderia, custasse o que custasse, a sua morta!

Nessa mesma tarde telegraphou ao padre chamando-o.

VII

O domingo amanhecera de chuva; um bom dia para preguiça. Argemiro escreveu aos velhos desculpando-se por não ir vel-os e deliberou consagrar essa manhã aos seus papeis em desordem. Fôra uma providencia Gloria não ter vindo.

Com tão feio dia...

A verdade, que elle sentia, que o penetrava por todos os póros, era que a sua casa nunca lhe soubera tão bem. Havia um conforto novo, um aroma de malva ou de pomar florido, melhor luz, melhor ar, por aquelles compartimentos que o Feliciano, quando sózinho, enchia do cheiro de cigarros e de charutos. Sempre era um fumante!

Agora não; percebia-se que o ar d'aquelles quartos tinha sido renovado e o ambiente purificado pelas roseiras abundantes do jardim.

Argemiro sentiu nessa manhã, pela primeira vez, uma certa curiosidade de ver Alice; mas não procurou pretexto para isso, certo de que, estando muitas horas em casa, forçosamente esbarraria com ella por acaso. Deixava pois, e de bom grado, a esse senhor a responsabilidade do encontro. Dahi, a idéa da moça trazia-lhe á lembrança umas pobres botinas cambadas...

O seu gabinete reluzia de asseio, cheirava bem, não precisava de mais nada.

Começou tranquillamente a leitura dos jornaes.

Estava em meio de um artigo quando o padre Assumpção bateu á porta.

--Então! preguiçoso!

--Entra. Como vês! Tens razão, preguiçoso! E nunca tanto como agora... absolve-me e senta-te.

--Cá estou... bravo, como esta cadeira está bonita!...

--Que cadeira? homem, é verdade... has de crêr? Ainda não tinha reparado... agora me lembro, ella tinha o estofo do espaldar esgarçado...

Este lirio seria pintado por D. Alice?

--Se t'o não pôz na conta do estofador...

--Posso verificar já. Hontem á noite recebi uma caderneta com a nota das despezas do mez e... pasma, saldo a meu favor!

Eu não dizia que o Feliciano era um abysmo? Que differença! basta olhar. Tu, que és mais observador, repara: está tudo luminoso, tudo limpido, tudo bem arranjadinho... hein? Ha outra atmosphera nesta casa; estou melhor aqui do que em parte nenhuma, porque em tudo me parece haver o proposito de me ser agradavel. Abre essa gaveta, e verás como está bem arranjadinha a minha roupa branca.

Um primor!

E o que me dilicia, é sentir a alma d'esta creatura, que aqui tenho embaixo do meu tecto, sem que nunca os meus olhos a vejam nem de relance... Ella esconde-se, ao mesmo tempo que se espalha pela casa toda. É a mulher-violeta, positivamente, não ha outra comparação! Esta será estafada em litteratura, mas na vida pratica talvez nunca tivesse tão boa applicação... A Gloria, que é tão rebelde, já aprendeu com ella alguma coisa... Faz _crochet_!

É uma coisa abominavel, o _crochet_; mas, emfim, é uma prenda... Eu deveria ter tomado esta resolução ha mais tempo...

Talvez não tivesse vindo esta mulher... Outra seria assim?

--Não! Hontem, por exemplo, entrei em casa uma hora antes da do costume; atravessava o jardim, quando senti accordes no piano; mas accordes bem harmonicos, vibrados por dedos disciplinados, conscientes. Ouvindo-me tocar a campainha, ella fugiu da sala; e quando eu entrei, um pouco curioso, confesso-te, encontrei o piano aberto, mas a sala deserta... Logo, esta mulher é uma mulher educada: desenha, ahi está esse lirio, que o prova; sabe musica e escreve com firme calligraphia.

Gloria tem aqui uma excellente companheira e a minha casa uma alma intelligente, que lhe faltava desde a morte de Maria, que aliás não era tão prendada... Emfim, emquanto eu me visto, examina essa caderneta, acolá, naquella mesa...

--Para que, meu velho? Só a ti compete isso. Eu não entendo de cifras. Mesmo de almas, apesar de me ter dedicado a ellas, cada vez entendo menos... Estou um ignorantão.

--Almoças commigo? Almoças, sim, e vaes vêr o que é uma mesa bem posta; sempre com flôres e com fructas. Esta mulher deve ter sido criada com luxo. Noto que ella gosta de rendas... Emfim, estou contente!

--Lamento.

--Hein?

--Lamento.

--Estás doido!

--Não.

--Explica-te. Ah! já sei! Pensas talvez que estou apaixonado?! Quem me dera, Assumpção, que assim fosse! Não sei que filtro mysterioso tinha a minha pobre Maria, que não me deixa amar mais ninguem!... Se eu fosse espirita explicaria isso bem, dizendo-te que a sinto á roda de mim, e que ella se interpõe mesmo entre os meus mais frivolos beijos!

Mas sabes que não sou espirita, nem religioso. O que me apraz, nesta situação, é sentir em roda de mim a influencia de uma mulher moça, sem comtudo a vêr nunca. Gosto do silencio e da ordem e a sua presença me perturbaria; assim, ella preside á minha casa, sendo para mim como um ser immaterial, que não me impõe a maçada dos cumprimentos, e eu vivo rodeado de solicitudes, podendo conservar a minha impassibilidade. Não acredites que me seja possivel amar outra mulher, como amei a minha... O ciume d'ella creou tantos fantasmas que eu mesmo acabei por temel-os!

--Pois foi para espantar um d'esses fantasmas, que tua sogra me chamou hontem. Jantei lá em cima.

--Sim?! E Gloria? como a achaste?

--Perfeita, isto é, perfeita quanto ao physico. Parece uma maçã madura. Até a pelle lhe cheira a fructa! Mas escuta: a baroneza, como toda a gente, menos eu, desconfia que tens pela tua governante uma adoração menos espiritual.

--Já me tardava, o ciume! Maria vive naquelle coração como no meu!

--Folgo que a comprehendas e a desculpes... que tencionas fazer?

--Nada. Affirma-lhe tu que não existe ligação absolutamente entre essa pobre moça (que conheces muito melhor do que eu) e o viuvo da filha...

--Já affirmei.

--E então?

--Não se contentou...

--Achas então que devo despedir esta senhora, que me torna a vida agradavel, facil e boa, só por um capricho da minha sogra?

--Acho.

--Ora! isso é levar muito longe a minha affeição filial!

--É uma medida de prudencia...

--Mas se eu já te disse que estamos na mesma casa e é como se morassemos a cem leguas um do outro! De que côr são os seus olhos? nem sei. Dize a minha sogra que farei tudo por ella, menos isso... Com o governo da minha casa ninguem tem nada que vêr. Nada! Lê a caderneta, que é melhor. Verifica como tudo isso está em ordem, direitinho... Nem um guarda-livros!

--Não digo que não. Amanhã terei de ir fallar com tua sogra, a respeito de um logar que arranjei no Asylo, para uma criança sua protegida. Desejaria levar-te em minha companhia. Ha algum tempo que não appareces por lá. Ella adora-te. Farás bem em socegal-a... Por hoje basta sobre o assumpto. És ainda moço, Argemiro, e o tempo fará o milagre que desejas... Temos outra conversa de interesse: Terás porventura entre as joias de tua mulher algum alfinetinho, ou broche, não sei bem como se chama, que possas levar á nossa Gloria? Ella deu bem as suas lições, segundo me disse o avô, e seria justo recompensal-a. Para incitamento, prometti-lhe que lhe levarias uma lembrança que tivesse pertencido á mãe... Sobretudo, é naquelle coração que se deve cultivar a adoração _d'ella_...

Contraria-te a idéa?

--Não será cedo para dar joias á minha filha?

--Conforme a joia; vamos vêr... onde as tens?

--No cofre. Espera... ou antes, vem commigo.

Entraram para um gabinete contiguo e emquanto Argemiro escolhia a chave do cofre, Assumpção estremeceu á idéa de poderem verificar um roubo...

Feliciano vira no peito de Alice um alfinete de Maria... a baroneza o dissera. Logo, se as joias faltassem...

Era uma andorinha de pedras...

Senhor! uma minuscula andorinha de pedras teria o poder de fazer tremer um homem?!

A chave rangeu na porta do cofre e Argemiro tirou de dentro uma caixa de setim branco, amarellecido, que levou para cima da mesa.

--Ha quanto tempo não mexo nisto! Faz-me saudades... Escolhe tu...

--Não... escolheremos juntos...

Argemiro abriu a caixa e logo Assumpção suspirou de allivio vendo reluzir as pedrarias dos anneis e das pulseiras.

--Ella tinha muitas joias... gostava de brilhantes... e a Gloria, por emquanto, ainda não póde usar brilhantes... disse Argemiro.

Collares, broches e pulseiras iam sendo retirados do cofre, com a maior attenção, num silencio commovido.

Quantas vezes a dona lhes sorrira e os deslumbrára no meio d'aquelles adereços?

Não brilhava tanto uma estrella, como os seus cabellos de ouro coroados por aquelle diadema... os anneis faziam-lhes saudades dos seus dedinhos pallidos e meigos.

De repente, Assumpção gritou com jubilo:

--Este!

--Este? É tambem de brilhantes...

--São uns diamantinhos modestos. E depois representa uma avezinha innocente, symbolo da primavera... leva-lhe esta andorinha, e colloca-a tu mesmo no peito de tua filha, em nome de sua mãe...

--Mas que tens tu? estás tremulo, com os olhos razos d'agua!

--Abraça-me, meu velho. Tambem eu tive saudades de Maria... Que queres?

--Eras o seu confessor... e agora, com franqueza, dize-me: um homem que foi casado com um anjo d'aquelles, póde jámais pensar em outra mulher?

--Póde; e pensarás e has de ser feliz. Quem sabe? talvez mais!

Argemiro olhava para o padre, com certo espanto.

--Agora fecha a caixa e apressa a tua _toillete_. Lembra-te que estou em jejum e com fome...

--Vae descendo... Eu irei ter comtigo num minuto.

Momentos depois sentavam-se á mesa. Alice armára uma cestinha de flôres e fructos, entrelaçando-as com umas pontas de renda. Argemiro apontou-as com o dedo:

--Lembras-te do que te disse lá em cima? Gostos finos... rendas... flôres...

Padre Assumpção sorriu, acenou que sim, desdobrou o seu guardanapo e começou:

--Um pouco de politica: ouvi dizer que o...

Um criado interrompeu a phrase, servindo os _hors d'œuvre_; mas logo depois a palestra enveredou afoitamente pelos labyrinthos da Camara e do Senado.

VIII

Provada a intriga do Feliciano, recomeçaram as visitas de Gloria ás Laranjeiras. A baroneza exigira segredo do que se passara, desejosa de que Argemiro conservasse em casa o criado, que já o fôra da filha. De resto, ella estava intimamente convencida de que o negro não mentira, mas se enganara. Convinha-lhe tel-o de guarda naquelle lar em ruinas, como se á sua voz de alarme ella pudesse correr e ainda salvar alguma coisa!

A verdade, que percebia sem a confessar, é que a neta lucrava muito na conveniencia de Alice. Ella perdia aos poucos aquelles modos aggressivos de criança malcriada, começava a interessar-se pela vida e a abrir os livros com mais frequencia. E já não lhe bastavam as visitas curtas, do sabbado para o domingo; desejava extendel-as agora até ás segundas-feiras, cujas manhãs aproveitaria em passeios com a governante do pae.

A Baroneza protestou indignada:

--Mais essa! andar uma menina de bôa familia, collada ás saias encardidas de uma mulher suspeita, por essas ruas da cidade! Não faltava mais nada...

Padre Assumpção interveio:

--Consinta na primeira experiencia. D. Alice parece-me severa e digna de toda a confiança. Confesso-lhe que sinto uma certa curiosidade pela direcção que ella vae dando aos gostos da nossa Maria... Prometto velar pela sua neta.

--Ah! Padre Assumpção, a Republica estragou nossa terra! Agora qualquer creatura parece digna de toda a confiança... Quem nos dirá quaes as tenções d'aquella creatura? Por mim tenho medo, apesar da sua vigilancia...

Gloria zangou-se e fugia, aos repellões, dos braços da avó. Não haveria remedio senão ceder á vontade da criança, e a Baroneza cedeu, molestada, enfraquecida.

Na primeira segunda-feira o padre Assumpção recebeu muito cedo uma cartinha da Baroneza:

«Gloria está nas Laranjeiras; é hoje o dia determinado para o seu passeio. Confio-a á sua guarda; olhe por ella.--_Luiza_».

Assumpção telegraphou a Alice. Esperal-a-ia no largo do Machado, ás tres horas.

Logo que Maria deparou com o seu grande amigo sentado sózinho em frente á estatua, correu alegremente para elle e afogueada, risonha, abraçou-o com força. Elle mal teve tempo de interrogal-a e já ella, revelando uma piedade até então occulta no mais fundo do seu peito, lhe contou o que vira, toda enthusiasmada. Vinha do Instituto dos Surdos-mudos.

--Ah, padre Assumpção, eu não sabia que havia gente assim, fechada dentro de si mesma, como me explicou D. Alice. Que desgraçados seriam se não houvesse aquella casa tão boa, e onde elles conseguem aprender tudo, como os homens perfeitos! Como a gente tem vontade de ser boa, quando vê coisas d'essas!

E tremula, loquaz, desatou a descrever as aulas, as officinas, os dormitorios do estabelecimento, e os grupos dos alumnos, risonhos, limpos, socegados...

Padre Assumpção voltou-se para Alice, que, sentada a seu lado, riscava a areia do jardim com a ponteira do chapeu de sol.

--A senhora já foi preceptora?

--Nunca...

--Não podias ter empregado melhor o teu dia, minha Gloria; agradece a D. Alice ter-te feito conhecer infelizes, cuja existencia, como disséste, desconhecias... e que te despertaram tão bons desejos... Agora, vamo-nos embora, que tua avó deve estar impaciente!

Maria beijou Alice na bocca, e ainda, depois, voltou-se da rua para lhe dizer adeus com a mão.

Que differença entre esta despedida e o seu primeiro encontro...

Padre Assumpção ia calado, meditativo. Que especie singular de mulher era aquella, que, com tão alto senso de moral, se sujeitava ao papel de governante da casa de um viuvo só? Humilhada em sua posição, maltratada por aquella menina orgulhosa, ella ia chamando habilidosamente a sua sympathia para os pobres e os infelizes. Seria por despeito ou por outro motivo mais maternal e em que a sua personalidade offendida não tomasse parte? Fosse qual fosse a razão, a verdade é que aquella simples visita a um instituto do seu bairro valera por todos os sermões com que elle procurara abrandar o coração altivo de Gloria. O tacto subtil d'aquella mulher começava a encantal-o; mas vinha-lhe medo de suggerir ao amigo essa impressão. Argemiro estava com o coração repousado, facil lhe seria o apaixonar-se e o padre não se esqueceria, cem annos que vivesse, das ultimas palavas trocadas por elle e a mulher moribunda:

--Jura que te não tornarás a casar!

--Juro.

--Jura por Deus!

--Juro pelo teu amor, juro por Deus!

Fragilidade do coração humano, porque has de ser agrilhoada por palavras de ferro que se não podem partir?!

Toda a scena da morte de Maria se reproduzia da memoria do padre, alli chamado para a ultima bençam. O som da voz d'ella ficara-lhe para sempre no ouvido, como nos olhos a sua imagem pallida... E não fôra elle só a testemunha d'aquella terrivel promessa: a mãe e o pae da moribunda ouviram com elle a voz de Argemiro, no inquebrantavel juramento!

As azas do tempo têem forte envergadura; não cançam de voar, mas levam ás vezes comsigo pennas que se não mudam, embora fiquem disfarçadas entre outras que vão nascendo...

Assumpção soffria por não encontrar remedio para os males futuros, que via proximos. O seu papel estava feito por si, tinha de acceital-o, fazendo, como religioso, cumprir-se um juramento dito em nome de Deus. Mas o amigo? mas o homem? mas aquella pobre mulher sózinha? Deveria consentir que a guerreassem como a uma inimiga?

Elle não era cego nem era surdo. A obra de Alice era de paz e de beneficio. Fôra ella que modificara as impetuosidades d'aquella criança, cuja vontade omnipotente dobrava tudo e todos a seu bel-prazer.

Seria isso um calculo, uma impostura? Especularia ella, servindo-se da filha para entrar no dominio do pae? Afinal, que se sabia d'ella? Que pertencia a uma boa familia decahida da fortuna e que passava por uma moça honesta...

Em boas familias quantos maus germens existem e quantas mulheres honestas maquinam tramas infernaes! O confissionario ensinara-lhe que o bem e o mal nascem da mesma fonte sempre inconstante e fertil...

A familia... Seria certo o que a Baroneza lhe insinuara? Dissera que uma récua de famintos ia tirar aos criados de Argemiro os pedaços que lhes competiam...

A que horas? Como? Deveria tambem indagar d'isso?! Por que não, se esse era um meio de conhecer a mulher com quem talvez tivesse de luctar?

E uma triste sympathia attrahia-o logo para a pobre governante, sempre bem arranjadinha nos seus vestidos surrados, sempre sorridente e sempre simples.

--O senhor tambem parece mudo! disse Maria, rindo.

--Estava pensando cá numas coisas...

--Eu tambem.

--Em que pensavas?

--Em D. Alice.

--Ah... e quaes eram as tuas conclusões?

--Que é muito boa moça.

--A razão deve estar comtigo.

--Eu queria que vovó gostasse d'ella...

--Ha de gostar.

--Hum...

--Mais tarde; dá tempo ao tempo.

--Por que é que papae não quer vêr D. Alice?

--Oh, filha, é... é porque teu pae... receia avivar as saudades de tua mãe...

Já me tardava esta pergunta, disse elle de si para si.

--Não entendo...

--Tua mãe não era a dona da casa?

--Era.

--D. Alice não está desempenhando o papel de dona da casa?

--Ah, mas não é mulher d'elle!

--Ah!...

--Nem come á mesa, nem apparece ás visitas... é, afinal, uma especie de criada!

--Não. Ella governa os criados. É differente...

--Tenho pena d'ella. Agora tenho pena d'ella...

--Agora?

--Antes não tinha... tinha raiva.

--Mas... porque? ella queixou-se?

--Não... não sei porque! mas acho aquillo exquisito! Mal sente os passos de papae, zás! foge! chega a ser engraçado!

Realmente é uma situação de comedia, pensou Assumpção, rindo involuntariamente com Maria.

E a situação prolongava-se. Argemiro, cada vez mais caseiro, não lobrigava nem a pontinha da saia de Alice, a quem, de resto, resolvera definitiva e absolutamente evitar, contente por sentir a influencia d'ella não só no seu lar como na sua filha. Maria aproveitava sempre as segundas-feiras em passeios, uma vez ao Jardim Botanico, outras aos asylos ou a novos bairros e differentes jardins, trazendo sempre impressões bem definidas e em que se percebia uma direcção cuidadosa e intelligente. A pouco e pouco a criança ia-se tornando mais observadora e mais piedosa. O padre Assumpção, que ia buscal-a sempre no ponto indicado por Alice, sentia arraigar-se-lhe a idéa de que esses passeios através da cidade desenvolviam melhor o espirito e o coração de Maria do que o mais volumoso livro de moral.

Se vinha de visitar um asylo de velhos, com que meiguice Gloria falava dos seus cabellos brancos, dos seus passos tremulos e do seu triste sorriso desdentado! Se vinha da Tijuca, quantas exclamações de enthusiasmo para as bellas arvores poderosas e as quédas de agua da cascata e as lindas flôres sylvestres! Se vinha do mar, que de indagações curiosas sobre os navios e lanchas, e quantos elogios para as largas paizagens azues, varridas de ar fresco! A vida dos marinheiros, com os seus perigos, a dos pescadores com os seus atrevimentos, attrahiam a sua sympathia e a sua piedade. Ia vendo que o numero dos sacrificados é muito maior no mundo do que o dos felizes e assim se tornava menos selvagem e mais humana.

Ora, o padre Assumpção sabia bem que tudo aquillo era reflexo e suggestão de Alice. Maria era intelligente, e as suas qualidades moraes, ainda informes, propendiam mais para a maldade que para o bem. Aquella metamorphose era, pois, toda, obra da moça, que parecia acolher a companhia da criança como um presente cahido do ceu... Realmente, ella estava tão só!

O ciume da baroneza augmentava a cada novo triumpho de Alice, que lhe disputava a neta com furor. Soffria calada, não ousando queixar-se nem ao marido nem ao padre Assumpção, que ambos glorificavam com enthusiasmo a obra da moça. Fechada na sua chacara, á sombra das mais lindas mangueiras dos suburbios, ella maldizia a hora em que o genro chamara para casa aquella aventureira, cujo proposito percebia ás leguas. O Feliciano não voltára, e ella tinha pena... só elle lhe poderia dizer toda a verdade, por não estar enfeitiçado pela bruxa e por conhecel-a melhor que os outros, visto estar sempre na sua convivencia...