A flor secca: romance

Part 4

Chapter 43,892 wordsPublic domain

Parecia que um instincto infernal lhe segredava os meios de me torturar; havia um demonio invisivel que volteava em torno d’ella, e que lhe indicava os pontos vulneraveis da minha epiderme; vinha logo a envenenada setta cravar-se, arrojada por mão certeira, no sitio doloroso.

Oh! quem fará um dia o poema d’estas agonias mysteriosas, tanto mais tristes, tanto mais pavorosas quanto menos lastimadas são quando se revelam! Este lento padecer nas trevas mais recatadas do lar da familia não tem a poesia augusta dos martyrios, que são bem visiveis, e que todos podem facilmente avaliar? Pois estas é que são as dores terriveis, porque não matam, mas empeçonham a vida, estiolam-na, desenfeitam-na de tudo quanto a poderia tornar agradavel, e quando o anjo da morte venha, depois de longos annos d’uma existencia, que mão paciente foi descolorindo, colher no seu regaço a nossa alma, encontra-a mais gelada, mais fria, mais inerte do que o cadaver, que o tumulo reclama.

VIII

Passou-se o resto do inverno, sem que successo algum notavel viesse perturbar a triste monotonia da minha existencia. Augmentavam a cada instante a sombria taciturnidade de meu marido, o intoleravel despotismo de D. Antonia.

Alberto vinha de quando em quando visitar-nos, e os poucos momentos, que elle passava comnosco, eram para mim de ineffavel jubilo. A sua indole viva e amena, a sua conversação sempre colorida e pittoresca, a sua palavra eloquente exerciam em mim uma salutar influencia. As suas visitas eram como as de um raio de sol ao preso encerrado n’um carcere tenebroso.

A nossa ligação, por maior que fosse o desejo que D. Antonia tivesse de a envenenar, não lhe dava para isso o minimo pretexto. Era a ligação de dois condiscipulos, que se sentem attraidos um para o outro pela uniformidade das suas idéas, pela commum predilecção consagrada aos mesmos estudos. O franco e aberto sorriso, com que eu o acolhia, O amigavel _shake-hands_ que trocavamos á despedida, não explicavam senão sincera e cordial sympathia mutua.

Finalmente chegou a primavera. Alberto partira antes de terminar o inverno, para a Ericeira, onde tinha parentes que o chamavam. Claudio propoz-me irmos passar a primavera e o estio n’umas terras que possuia na aldeia de ***, junto de Bellas.

Aceitei, e aceitei com enthusiasmo.

Quando já estava determinada a partida, e tudo preparado, subitos e imprevistos negocios obrigaram meu marido a demorar-se em Lisboa. Não quiz elle de modo algum que por causa d’isso transtornassemos a viagem projectada. Despediu-se de mim affectuosamente, prometteu-nos, que, assim que se pudesse desembaraçar, iria ter comnosco; depois viu-nos entrar na carruagem, e esteve á janella até nos sumirmos saindo as portas da cidade.

Estava um d’estes dias do principio da primavera, em que sopra ainda a brisa aguda invernal, e em que o horisonte se cobre com um denso veu de neblina. Caía uma chuva miudissima, e a baixa de Campolide apparecia emvolta n’um manto de tristeza. O vulto do aqueducto desenhava ao fundo os seus arcos magestosos e sombrios.

Envolvi-me na minha capa de viagem, e concheguei-me no fundo do _coupé_. O movimento da carruagem era suave bastante, e proprio, a mais não poder ser, para acalentar os meus sonhos. Primeiro quiz sustentar a palestra com o auxilio de algumas banalidades; mas pouco a pouco a minha imaginação não se poude conter, engolphou-se na região dos devaneios, emquanto ao meu ouvido, que as sentia vagamente, resoavam as palavras de D. Antonia, que me ía recitando, segundo creio, a lista dos nossos visinhos do campo.

Eu, entretanto, contemplava a paizagem, que apresentava aspectos diversos e pittorescos. De vez em quando um frouxo raio de sol rasgava o manto de nevoas, e vinha dar uma certa animação ás campinas. Espairecia o firmamento, e a magestosa curva do grande arco do aqueducto moldurava ao longe uma vasta nesga de tela azul. A luz amarellada do sol doirava os campos, que se apresentavam já cobertos com o seu vistoso tapete de malmequeres. Depois corria-se de novo o panno, e o scenario desapparecia com os seus explendores de um momento, com o seu instantaneo colorido.

Involuntariamente comparei a minha vida monotona, e tendo apenas breves intermittencias de luz, com aquella paizagem da primavera invernosa.

A imagem de Alberto fluctuou-me por instantes na phantasia.

Sorri-me ao lembrar-me do que diria a minha companheira de viagem, se soubesse que vulto eu vira n’aquelle instante com os olhos d’alma.

Esse sorriso, por mais rapido que fosse, não escapara á vista perspicaz de D. Antonia.

--De que se ri? perguntou logo.

Como que acordei sobresaltada.

--De nada, retruquei.

--De nada? Só a pessoas que não teem todo o juizo, acontece semelhante coisa. É verdade que talvez agora se dê esse caso, accrescentou por entre os dentes.

Encolhi os hombros.

--Pois olhe, continuou ella, que o que eu lhe estava dizendo era muito sério. Provavelmente nem sabe o que foi.

--Confesso, respondi eu fazendo-me vermelha, que não percebi bem.

--Ah! não percebeu? Pois olhe, não era difficil. Por onde andará o seu pensamento? Não percebe o que eu digo e não sabe de que se ri! Isso ha de ser nervoso. Talvez precise de tomar banhos de mar... na Ericeira.

Começara o tiroteio. Já me admirava de que a trégua durasse tanto.

Conforme o costume, deixei passar a tempestade dos epigrammas, fazendo porque o meu espirito se isolasse completamente d’este mundo, e voasse para bem longe d’aquella atmosphera turvada.

Tinhamos já passado para deante da ponte do Carenque, e entravamos n’essa estrada arida, núa, monotona, que põe em communicação entre si Lisboa, a formosa rainha do Tejo, Cintra, a mimosa camponeza das serras.

O sol, proximo do occaso, conseguiu alfim romper a nebulosa cortina que o cercava. Como a lampada moribunda projecta, nas vascas da agonia, mais intenso clarão, assim o rei dos astros, antes de apagar no horisonte a sua corôa de fogo, quiz inundar o céo com vividos reflexos.

Então o cerrado esquadrão das nuvens como que se revestiu de luminosas couraças. Como captivo soberano, a quem a fortuna restitue o throno, e que vê passar por deante de si humildes e curvados os seus proprios carcereiros, assim as nuvens desfilavam, impellidas pelo vento, por deante do sol, immovel no horisonte purpurado, como em vasto solio de chammas. Aqui semelhavam corceis phantasticos, de arreios de ouro e xaireis de escarlata, que voavam n’um insano galope; mais além nuvens distantes, que se tingem de reflexos arroxados, passavam lentamente, como graves magistrados envoltos nas suas bécas. A illusão chegou a ponto, que a minha phantasia, começando, segundo o costume, a tomar gosto n’esses devaneios, deu a cada nuvem um papel, e chegou a vêr bem vivos, bem claros os vultos que imaginava.

Este cortejo de nuvens bojudas, que avançava magestosamente, representava a meus olhos a camara municipal. Ouvia-lhes os discursos, que o vento vinha indiscretamente segredar ao meu ouvido.

Aquell’outras que se conservavam fluctuando em torno do sol, e que mais brilhantes se mostravam com as suas vestes de purpura recamadas de oiro, eram os cortezãos que cercavam o regio throno.

As arvores, que fugiam, á medida que ia passando a carruagem, affiguravam-se-me a plebe, que saudavam com enthusiasmo a cerimonia celestial. O vento agitava-lhes os braços, que pareciam menear na atmosphera invisiveis chapeus; dir-se-ia que os murmurios, que se exhalavam das suas ramas, eram o bramir longinquo e indiscreto dos vivas de um povo inteiro.

Era tão comica a attenção que eu prestava a estas cerimonias phantasiadas, que involuntariamente, caindo em mim, desatei a rir.

D. Antonia olhou-me com espanto.

--Estará maluca, minha sobrinha? perguntou ella.

Eu olhei-a com um embaraço infantil, e balbuciei algumas palavras inintelligiveis.

--Em vez de conversar comsigo mesma, teria sido melhor se me communicasse os seus pensamentos. Não teria d’essa fórma commettido a indelicadeza de quasi me não dar palavra todo o caminho... porque estamos em Bellas.

Tinha razão, e eu não pude fazer mais do que acceitar a reprimenda e confessar a mim mesma que as imprudencias da minha phantasia de creança, que estava prompta sempre a lançar mão da _clef de champs_, eram causa muitas vezes dos meus dissabores.

Estavamos em Bellas effectivamente. O sol sumira-se de todo, mas o céo parecia querer-se conservar limpo, e prometter uma noite boa. A carruagem parou no largo para onde deita a porta da quinta do conde de Pombeiro.

O cocheiro tomou informações, e soube que as chuvas dos ultimos dias tinham transformado as estradas em atoleiros. Veio ter comnosco, e disse-nos que nos levava, se quizessemos, á aldeia de ***, mas que nos arriscavamos a fazer uma viagem demorada, ou a ficar atascadas no meio do campo.

Como a noite promettia estar serena, e a aldeia não era muito distante, resolvemos, eu e D. Antonia, ir a cavallo. Por conseguinte despedimos o cocheiro, depois d’elle nos ter ido alugar uns burros, e, sentadas no dorso dos pacificos animaes, tomámos o caminho da casa de campo.

Pouco teriamos andado, quando o céo se principiou a toldar de novo. Caía a noite, e as nuvens, carregando o firmamento, apagavam os faroes das estrellas, e desdobravam por cima das nossas cabeças um manto negro e funebre. O rapaz, que tocava os jumentos, mirou o céo e abanou a cabeça dizendo:

--Temos ahi chuva em barda. É irmos mais depressa, minhas senhoras.

Mas isso era mais facil de se dizer do que de se fazer. As informações do cocheiro tinham sido exactas, e as estradas eram verdadeiramente uns lamaçaes quasi impossiveis de atravessar. A chuva já principiara a cair, o vento zunia com violencia, e os pobres animaesinhos curvavam a cabeça, e amainavam as longas orelhas, como o barqueiro amaina a vela quando sopra o temporal furioso. Era necessario avançarmos com muita cautela, para não tomarmos algum banho n’essas poças que abundavam no caminho, e que um ou outro relampago, que principiava a fuzilar, nos mostrava, cercando-nos por todos os lados, como uma rede de paúes.

Finalmente retumbou um trovão magestoso, e uma tremenda pancada d’agua desabou em cima de nós.

--Santa Barbara, e S. Jeronymo nos accudam, murmurou o burriqueiro, que noite que vamos ter!

--Ainda fica muito longe a aldeia? perguntei eu.

--Ainda é um bom pedaço, respondeu o rapaz, atirando uma verdascada ao jumento para lhe apressar o passo vagaroso.

--E não ha por aqui alguma aldeia mais proxima?

--Agora vamos nós atravessar uma.

--Então, senhora D. Antonia, acudi voltando-me para ella, não acha que seria melhor recolhermo-nos em alguma casa, emquanto não passa o temporal?

--Entrar em casa de um saloio! Deus me livre! A minha sobrinha não sabe como esta gente é bruta, e porca principalmente. Eu, se me visse obrigada, por não ter outro remedio, a descançar n’uma casa d’essas, assim que me visse no palacete, despia-me toda! Captiva!

Isto era dito em voz bem alta, deante do rapaz que nos acompanhava. Elle naturalmente não se importou com isso; mas a mim é que se me confrangeu o coração: nem gosto de humilhar, nem de ver humilhar, os humildes; impressiona-me sempre desagradavelmente ver alguem, collocado pela fortuna n’uma posição mais ou menos elevada, fazer sentir á gente das classes inferiores a distancia que as leis antigamente e agora os habitos mantém entre os pobres e os ricos, os humildes e os soberbos.

Por isso, para remediar quanto em mim coubesse a falta de delicadesa de D. Antonia, dirigi amigavelmente a palavra ao nosso companheiro saloio.

D. Antonia nem em tal reparou. Aquellas coisas fazia-as ella naturalmente, e sem ser por mal. Não tivera intenção de offender o rapaz, e ficaria espantadissima se soubesse que um saloio podia ter susceptibilidade e sentimento da dignidade humana. Nunca se constrangia para fallar deante d’essa gente; no mais não a tratava nem melhor nem peior do que os outros, e estava convencida que podia ser considerada como um modelo de affabilidade quando correspondia ao cumprimento de um homem de baixa esphera, e lhe dizia:

--Como está _você_? Sua mulher e seus filhos vão bem? Muito estimo! Beba um copo de vinho á minha saude. Aqui não; vá para a cosinha. Olhe, lá me sujou a casa com os tamancos! Esta gente não póde entrar em parte alguma.

Emquanto eu fazia taes reflexões, não findara a chuva; mas os jumentos, incitados pela voz e pelas verdascadas do burriqueiro, e por um certo instincto que lhes dizia que estavam quasi chegados ao termo da sua jornada, haviam tomado uma andadura mais rapida, de fórma que d’ahi a um quarto de hora pudemos ver uma casa de boa apparencia, singela, com pavimento rente do chão, e andar nobre, que D. Antonia me disse ser a nossa residencia.

O burriqueiro deitou a correr para ir bater ao portão; quando lá chegámos, tinham-se já corrido os ferrolhos e destrancado a porta, e uma criada velha, entre-abrindo-a cautellosamente, apparecia com um candieiro de tres bicos na mão, e exclamava, ao conhecer D. Antonia:

--Valha-nos Deus! A Virgem Maria nos acuda! É a senhora D. Antonia! Ai! a minha santinha, como ha de vir molhada! Ó Zé Caneira! olha que é a senhora. Ó Annica! Ó mulher, tu não appareces? Diabos te... quero dizer: Valha-te Deus, rapariga, que tão mollenga me saiste!

IX

Era perfeitamente uma d’aquellas phantasticas velhas dos contos de Hoffmann essa que nos viera abrir as portas. Nariz adunco, barba revirada, cabellos grisalhos, despenteados e fluctuando como que em desordenadas estrigas sobre a testa proeminente, que abrigava, como uma especie de pala natural, os olhinhos pequenos, pardos, e encovados! A luz mortiça do candieiro projectava no seu rosto uns vagos reflexos, que ainda lhe davam um mais estranho realce. Era baixa, um tanto curvada para diante, e vestia uma especie de casabeque immundo, apertado na cintura, com umas abas curtas, que cobriam uma pequena porção da saia de baeta vermelha, que lhe ia poisar em cima dos sapatos rotos. A boa da velha não se fartava de nos fazer mesuras, em quanto vinham surgindo de differentes portas os creados, que ella chamara, e que traziam um supplemento de illuminação.

--Adeus, Maria do Rosario, disse D. Antonia, ao apear-se da cavalgadura, como está você?

--Ai! minha senhora, graças a Deus! antes assim que peior! cá vou arrastando estes pobres ossos por este mundo de Christo, até Deus querer... até Deus querer! Ai! minha querida senhora D. Antoninha, está cada vez mais moça! bonita, guapa! ai! Senhor! quantas meninas de quinze annos a não hão de invejar?

--Isso é dos seus olhos, Maria do Rosario, tornou D. Antonia, rindo-se com certa complacencia, já estou velha e bem velha. O tempo de agora está para estas, continuou, apontando para mim; olhe, é a mulher de meu sobrinho.

Maria do Rosario fez-me uma mesura, a que eu respondi com um sorriso.

--Ai! Santo Deus! é mesmo uma flor! Deus a fade bem, e lhe dê o juizo da tia, como lhe deu a belleza d’ella! com que então, é esta a mulher do seu Claudiosinho? Quem havia de dizer, senhora D. Antonia, quando nós andavamos com o Claudio ao collo...

--Andavamos! interrompeu D. Antonia, um tanto espinhada, andaria você, eu era uma creancinha n’esse tempo!

--Ora esta! acudiu apressadamente Maria do Rosario, emendando a mão como boa cortezã que logo vi que ella era, onde teria eu a cabeça? É verdade que a senhora D. Antonia, desde creança, foi tão espigadinha, tão airosa! Ai! minha senhora... como é a sua graça?

--Margarida, respondi, tiritando de frio, porque estava com o fato ensopado, e ainda não tinhamos passado do fundo da escada, tal era o enlevo com que D. Antonia escutava a sua lisongeira.

--Margarida! que bonito nome, benza-a Deus! Pois, senhora D. Margarida, não póde imaginar que linda creança era aqui a senhora D. Antonia. Branca de neve, alta, muito rosada! Era mesmo um anjinho do céo!

--Não diga tal, Maria do Rosario, tornou D. Antonia rindo, eu nunca fui bonita; era muito branca, isso sim! por esse lado todos me gabavam! alta sempre fui tambem, e apezar d’isso, tinha um pé tão pequeno, tão pequeno que todos diziam que parecia impossivel como podia suster o corpo... mas não é d’isso que se trata agora; estamos ambas ensopadas, e queremos mudar de fato. Já cá estão as bagagens?

--As bagagens? não, minha senhora, não estão; nós até nem suspeitavamos que as senhoras viessem hoje... Ora! valha-me Deus!

--Pois as bagagens ainda cá não estão!? tornou D. Antonia, desesperada. E o que havemos de fazer?

--Que transtorno! que transtorno! mas as senhoras hão de vir cançadas, e talvez o melhor seja deitarem-se, a não ser que prefiram aquecer-se aqui ao fogo da lareira! Mas isso não é...

--O que! ir para a cosinha? Você não está em si, Maria do Rosario.

--Desculpem, minhas senhoras, isto era por dizer.

--E eu aproveito a idéa, tornei sorrindo-me; não tenho somno; e o fogo da lareira está-me convidando.

--Faça o que quizer, acudiu D. Antonia seccamente.

E subiu a escada com toda a magestade, seguida por Maria do Rosario, que lá ia resmungando a continuação do seu panegyrico.

--Para onde é a cosinha, meus amigos? perguntei eu voltando-me para os criados, que haviam assistido mudos á precedente scena.

--P’ra aqui, p’ra aqui, minha senhora, acudiram todos á uma, apressando-se a mostrarem-me o caminho.

Desci uns tres degraus que me ficavam á direita, segui um corredor, e achei-me na cosinha.

A tempestade redobrara de violencia; sentia-se a chuva bater nos postigos; de vez em quando uma lufada de vento engolphava-se gemendo por alguma janella que se abriu com fragor, e uma chapada d’agua inundava o chão lageado; ao mesmo tempo os aterrados aldeãos viram as arvores estorcerem lá fóra as suas ramas ainda mal cobertas de folhas nascentes, benziam-se tres vezes, se um relampago, incendendo a ramaria no seu clarão azulado, a transformava nos phosphorescentes braços dos espectros.

A cosinha era vasta, e o bom fogo que ardia na lareira, e cujos avermelhados reflexos doidejavam mirando-se nos espelhentos cobres da bateria culinaria, espalhavam em todos elles não sei que doce encanto, que suavissima alegria, e que idéas de tranquillidade e conforto que me fizeram acudir aos labios um jubiloso sorriso.

A lareira era quasi rente do chão, como todas as lareiras, e á roda d’ella uns poucos de saloios, em cujas physionomias astuciosas batia em cheio o clarão do brazido, escutavam attentamente uma boa velha, a qual, sentada n’uma d’estas cadeiras d’espaldar, forradas de coiro e cravejadas de pregaria amarella, velhos ornamentos das salas dos palacios, desterrados agora pelos _fauteuils_, pelos sophás, e pelas _causeuses_ para as regiões infimas da cosinha, fiava a sua rocada e contava uma historia qualquer, a que todos prestavam a maior attenção.

Do outro lado da lareira uma outra cadeira d’espaldar fazia symetria com esta, e mostrava que fôra occupada, instantes antes talvez, pela Maria do Rosario, que nos viera receber.

Em torno de uma vasta mesa de pedra, situada ao meio da cosinha, reuniam-se uns tres ou quatro saloios, entre os quaes descortinei o burriqueiro, que estava saboreando as delicias da nossa hospitalidade, traduzida n’uma respeitavel malga de feijões, e n’um amplo cangirão de vinho.

Foi em presença d’este digno congresso que eu appareci, brandamente impellida pelos meus guias, que me traziam quasi em triumpho, e que já de longe annunciavam que era eu a nova senhora, a muito alta e muito poderosa D. Margarida, Castellã de Solar de *** nas proximidades de Bellas.

Quando cheguei á porta, estaquei, enlevada n’esse quadro de tão rustica e pittoresca simplicidade. Ficava-me defronte a lareira, de fórma que a sua luz dava-me no rosto, scintillava-me nos cabellos, que chispavam doirados reflexos, e cercava-me emfim de uma certa auréola sobrenatural, que incutiu, segundo penso, um vago respeito n’aquella boa e ingenua gente, porque todos se levantaram a um tempo, e murmuraram ao ouvido uns dos outros:

--É uma imagem! Parece a Nossa Senhora do altar da ermida.

--Salve-os Deus, meus amigos, disse eu alegremente, e entrando com desembaraço pela cosinha, dão-me ahi um cantinho á lareira para me enxugar?

--Guarde-a Deus, minha boa senhora, respondeu a velha cortejando-me respeitosamente, e entrem n’esta casa no seu regaço todas as felicidades, porque espero em Deus que seja tão bondosa, como é linda, e tão verdade como ser Nosso Senhor Jesus Cristo crucificado para nos remir do peccado original, nunca os meus olhos viram tal perfeição.

--Muito obrigada, boa tia, respondi eu affectuosamente, forçando a pobre mulher a sentar-se, e sentando-me tambem na outra cadeira que logo todos chegaram para ao pé do lume; vejo que entrei n’esta casa com bem maus agoiros. Que tempestuosa noite!

Os creados e as criadas, que me tinham guiado, sentaram-se no chão á roda da minha cadeira e prestaram ouvido attento á palestra, que se principiara a travar entre a boa Quiteria, oraculo d’aquella tribu, e a recem-chegada Lisboeta.

O vento gemia rijo lá fóra, a lenha do lar crepitava, ouvia-se o monotono canto do grillo, e o fuso sirandava, sirandava nas mãos ligeiras da velha.

Reinava silencio profundo.

Eu sentia coar-se-me nas veias aquelle indizivel bem-estar, que em moderado calor influe no corpo gelado pelo vento e pela chuva. Passeei a vista com benevolencia pela assembléa, e não vi senão rostos pasmados e olhos fitos em mim.

--Que calada de coelhos! murmurou uma creadita que estava ao meu lado, ao ouvido de um rapaz seu visinho.

--Então porque não fallam? respondi com um sorriso. Vamos! em que se conversava quando eu entrei?

--Ora, se a senhora soubesse, ria-se de certo, tornou a creada abaixando os olhos negros e travessos.

--Que estás tu a dizer, Annica? interrompeu a velha, levando aos labios, para o molhar, o fio da estriga, tu julgas então que uma pessoa de juizo se possa rir de um caso que é asseverado por gente de sabedoria, que lê de fio a pavio todos os livros das estantes?

--Eu não digo isso, tia Quiteria, mas...

--Mas és uma tola, Annica; ha alguem que duvide que apparece uma alma do outro mundo na capella do senhor conde de Pombeiro, em Bellas?

A velha Quiteria proferiu estas palavras, relanceando em torno de si um olhar de desafio. Correu um vago frémito no auditorio, e todos se chegaram mais uns para os outros, ouvindo com inquietação estalar lá fóra a trovoada.

--O que a tia Quiteria diz é muito verdade, accudiu o burriqueiro com a boca cheia; em Bellas não ha cão nem gato que o não saiba.

--Não é bom fallar n’estas coisas em noites de temporal, interrompeu um trabalhador velho meneando a cabeça coroada de cabellos brancos. Os finados sáem do tumulo, quando o trovão os acorda, e vagueiam pelos campos, penando os seus peccados. Nós ouvimol-os gemer, e dizemos que é o sussurrar do vento; não é, não é, é o suspirar dos mortos.

Um lufada de ventania zuniu tristemente, e veio, coando-se pelas fisgas das portas, fazer vacillar a chamma da lareira.

Não sei que sombras phantasticas se projectaram no chão lageado da cosinha.

O burriqueiro olhou em torno de si um tanto inquieto, e não se julgando já em segurança, destacado como estava, do grupo principal, veiu, chegando-se a pouco e pouco, accrescentar a roda.

--E que penas que elles penam ás vezes! tornou a boa da velha abaixando a voz, e parando por um instante de trabalhar. Lembram-se do padre fr. João?

--Lembramos, lembramos! santo homem! Morreu, ha pouco, em Bellas, responderam todos com voz unisona.

--Pois eu conheci aquelle reverendo, que foi pequeno da minha creação, e que fez por aqui muitas travessuras, quando o pae inda era vivo. O motivo, porque elle se metteu frade, é um motivo estranho.

--Conte, conte, tia Quiteria, bradaram todos a uma voz.

--Se a nossa ama dá licença...

--Falle, falle, minha boa tia, estou morrendo pela ouvir.